Um falso dilema

costa-ip3.JPGPara haver dinheiro para as obras, não haverá para as progressões de carreiras ou aumentos salariais exigidos pelos professores e por outras classes profissionais. Quem o explicou, com uma franqueza não muito habitual nos políticos, foi o próprio primeiro-ministro, no lançamento das obras de requalificação do IP3: este tipo de investimentos, inadiáveis mas dispendiosos, impedem a satisfação de outras reivindicações que implicam também aumento de despesa.

António Costa fez questão de salientar que o investimento nas estradas portuguesas implica a falta de investimento noutras áreas, como os salários e as carreiras profissionais.

“De repente, toda a gente acha que é possível fazer tudo já e ao mesmo tempo, é preciso termos em conta que, quando decidimos fazer esta obra, significa que estamos, simultaneamente, a decidir não fazer outra obra”, avisou o primeiro-ministro. “Quando estamos a decidir fazer esta obra, estamos a decidir não fazer evoluções nas carreiras ou vencimentos”, reconheceu.

A verdade é que o investimento público que agora se anuncia para requalificar 75 quilómetros de uma das estradas mais perigosas e congestionadas do país, se tornou incontornável, tendo em conta a má concepção e a degradação de alguns troços da via. Mas, por outro lado, 134 milhões de euros são uma despesa excessiva numa obra que deixará por resolver o problema de fundo, que é a necessidade de uma verdadeira auto-estrada para comportar o elevado volume de tráfego que percorre diariamente o IP3.

Duplicar alguns troços da estrada, mantendo noutros a via única, fará com que se mantenham os afunilamentos que provocam as filas de trânsito, os abrandamentos e os acidentes. Uma realidade que os milhares de condutores que usam esta ligação entre Coimbra e Viseu, entre os quais se incluem largas centenas de professores da região, conhecem bem.

E foi certamente com a consciência de que iria “inaugurar” uma má solução que António Costa quis jogar em casa, preferindo a hospitalidade do presidente socialista da Câmara de Penacova à do autarca social-democrata de Viseu, que olha desconfiado para o terceiro lançamento da obra que já deveria estar feita há muito tempo…

O presidente da Câmara de Viseu vê com desconfiança a apresentação de mais um plano de requalificação do IP3. Em declarações à Renascença, Almeida Henrique lembra que esta será a terceira vez que vai assistir a um lançamento de reestruturação da via.

“No tempo do engenheiro Sócrates fui a Mortágua e depois com uma repetição em Viseu em que se lançava o IP3. Depois já no final do mandato do Dr. Pedro Passos Coelho praticamente no mesmo sítio onde irei hoje, ali junto a Santa Comba, era também apresentada a Via dos Duques, portanto, a autoestrada Viseu-Coimbra. Agora será a terceira vez, ainda por cima ali no nó da Raiva… Espero não ficar com raiva porque mais uma vez vão avançar com a autoestrada”, diz.

Desviar recursos, que são escassos, para obras públicas feitas sem critério nem adequado planeamento, resulta na realidade que bem conhecemos: uma rede de estradas em muitos casos desajustada das necessidades das pessoas e custos com a manutenção e a amortização das dívidas que impedem novos investimentos e condicionam outras áreas determinantes para o futuro do país. A Educação e os seus profissionais, por exemplo.

Ao contrário do que sugere António Costa, não estaremos a trocar má despesa por bom investimento. Estaremos, isso sim, a esbanjar recursos que são escassos para, no final, ficarmos com uma obra atamancada sem termos investido onde seria realmente necessário. Continuamos no caminho da estagnação económica, da corrupção e do endividamento que, no que já levamos do novo milénio, só nos tem distanciado dos níveis de desenvolvimento do resto da Europa.

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Sucata tecnológica

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O material informático das escolas não é reforçado, nem atualizado, desde o Plano Tecnológico de José Sócrates, há quase dez anos.

O novo “Perfil do aluno” que deve orientar o sistema de ensino pressupõe a aprendizagem de múltiplas literacias e competências tecnológicas, mas a esmagadora maioria dos agrupamentos têm computadores “obsoletos” e uma fraca rede de Internet que está sempre a cair.

Há pelo menos um legado positivo que ficou, nas escolas, do primeiro governo de Sócrates e da sua detestada ministra Lurdes Rodrigues: os computadores, projectores, quadros interactivos e redes sem fios com que todas foram equipadas. Este investimento torna-se ainda mais assinalável quando damos conta de que, de então para cá, praticamente nada se gastou na modernização, em muitos casos na simples manutenção, do material que então foi instalado e que, passados quase dez anos, acusa o implacável peso da idade e do uso intensivo.

É verdade que, se muitos equipamentos permanecem funcionais, o bom senso recomenda a sua substituição gradual, até para evitar investimentos mais pesados no futuro. Sobretudo, não faz sentido proclamar as virtudes da tecnologia educativa e das “competências tecnológicas” e ao mesmo tempo colocar a zero a rubrica que, nos orçamentos escolares, permite a aquisição de material informático. Nem continuar a adiar a remodelação indispensável das redes wireless das escolas que, com a generalização do uso de smartphones pelos alunos, há muito deixou de dar resposta adequada ao volume de solicitações.

A situação, que o JN trouxe hoje à primeira página da sua edição impressa, é bem conhecida de quem trabalha diariamente nas escolas e vai lidando com a degradação lenta do material. E se nalguns lados ainda se vai conseguindo, por portas travessas e com muito esforço, ir mantendo a maioria dos equipamentos a funcionar, a nível global, a realidade é o oposto do que nos querem vender como escola para o século XXI: haverá hoje menos computadores em funcionamento do que existiam há meia dúzia de anos atrás. Em contrapartida, as arrecadações de material estão cada vez mais atulhadas de sucata informática.

O problema não dá para remeter, como tantos outros, para a “autonomia das escolas”: é uma questão nacional, põe em causa o direito à educação e exige o assumir de responsabilidades, ao mais alto nível, do Ministério da Educação.

Excelente anunciação!

Os cerca de 350 mil euros que custou a novíssima aquisição do Museu Nacional de Arte Antiga são mais do que estava previsto gastar, mas ainda assim julgo que a compra valeu bem a pena: a Anunciação de Álvaro Pires, pintor português que fez carreira na Itália pré-renascentista, vem enriquecer o escasso património artístico do século XV, uma época da qual, com a notável excepção dos Painéis de S. Vicente, praticamente nenhuma pintura chegou aos nossos dias.

Espera-se que novas descobertas e futuras aquisições venham ajudar a preencher esse “buraco negro” que ainda persiste no conhecimento e na divulgação dos pintores “primitivos” portugueses.

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Em breve uma pequena Anunciação do século XV, executada pelo primeiro pintor português com obra atribuída, vai fazer companhia aos célebres Painéis de São Vicente, de Nuno Gonçalves, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa.

A pintura foi comprada nesta quinta-feira à noite pelo Estado português num leilão da Sotheby’s, em Nova Iorque, por 350 mil euros (o preço de martelo foi 350 mil dólares, aos quais é preciso acrescentar a comissão da leiloeira, que faz com que o valor suba para os 435 mil dólares), confirmou ao PÚBLICO o director do MNAA, António Filipe Pimentel.

Foi no início de Janeiro que o Museu Nacional de Arte Antiga pediu à Direcção-Geral do Património Cultural, entidade que o tutela, que fizesse tudo o que estava ao seu alcance para adquirir a pintura, explicando por que razões seria da máxima importância poder contar com ela na colecção de Arte Antiga. “Esta compra não é importante só porque é um Álvaro Pires, mas porque é um excelente Álvaro Pires. Refinado, apuradíssimo”, diz agora Pimentel.

A partir de agora haverá nos museus nacionais duas obras deste primitivo português que terá feito toda a sua carreira em Itália, depois de, muito provavelmente, ter recebido formação na cidade espanhola de Valência. A outra é A Virgem com o Menino entre S. Bartolomeu e Santo Antão, sob a Anunciação, hoje no acervo do Museu Frei Manuel do Cenáculo, em Évora. Foi comprada em 2001 a um privado por 64 mil contos (320 mil euros), graças à intervenção de dois mecenas – a Finagra de José Roquette e a Fundação BCP.

Google investe em Portugal

E é caso para perguntar: como se atrevem a instalar-se num país “dominado pela extrema-esquerda”?…

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As qualificações contam

mulher-de-vermelho.jpgPor norma, quanto mais elevadas as habilitações académicas, maior será o salário. Dois economistas da Universidade Baylor do Texas e da consultora Compass Lexecon, Scott Cunningham e Todd Kendall, decidiram verificar se a regra também se aplica na prostituição, uma área profissional menos pesquisada, analisando o número de horas de trabalho e o vencimento de 700 trabalhadoras do sexo nos EUA e no Canadá. Nesta amostra, 40% das mulheres tinham concluído o ensino superior. O estudo revelou que as mulheres com um curso superior tendem a ganhar mais porque têm mais clientes e sessões mais longas.

A notícia do Público refere-se à prostituição, mas o princípio terá aplicação em muitas outras actividades: não há estudos superiores orientados para o exercício de determinadas profissões, mas o facto de as pessoas que as exercem terem, com a sua passagem pela universidade, adquirido um maior nível cultural e um conjunto mais alargado de competências de relacionamento interpessoal beneficia-as profissionalmente. Uma acompanhante, digamos assim, mais culta e sofisticada, poderá diversificar os seus serviços, prolongá-los por mais tempo e, obviamente, cobrar mais por eles.

E aqui está como sempre se vão descobrindo novas e insuspeitadas utilidades que pode ter uma boa educação…

O regresso da megalomania aérea

plane.gifDeputados socialistas questionam o Governo sobre o desinvestimento da TAP no aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Já conhecíamos de outros tempos este filme que agora querem colocar em reposição.

Primeiro refreia-se a dinâmica que o aeroporto do Porto desenvolveu nos últimos anos, reduzindo os voos directos para o estrangeiro e reforçando as ligações aéreas com a capital. Em seguida invoca-se a “saturação” da Portela para exigir a construção de um novo aeroporto em Lisboa.

O que estraga o arranjinho é a existência de numerosos voos directos das companhias low-cost, a partir do Porto, que perante o desinvestimento da TAP só tenderão a ganhar quota de mercado.

Quanto a um novo aeroporto, não havendo agora ANAs nem TAPs para privatizar, cheira-me que, a fazer-se, seria mais um peso a cair em cima dos contribuintes, mesmo que se limitasse à adaptação de uma base militar já existente.

Já para não falar do impacto de se andar a promover a ponte aérea entre Lisboa e Porto, ao contrário do que se faz por toda a Europa, onde há muito se percebeu que para distâncias em torno dos 300 km o comboio de alta velocidade é, a nível económico, ambiental e até de rapidez e de conforto, melhor opção do que o transporte aéreo.

Dois aeroportos internacionais de média dimensão em Lisboa e Porto, mais o de Faro ao serviço do turismo algarvio, parecem-me perfeitamente ajustados à dimensão do país que somos. Eventualmente com o complemento de um aeroporto secundário nos arredores de Lisboa, para voos charter e low-cost, na condição de que, como se dizia em tempos de maior optimismo, se pague a si próprio. Ou que seja integralmente pago pelos “investidores” que tanto interesse mostram na sua construção.

Vêm aí mais obras nas escolas

Os “mapas” de intervenções em escolas do 2.º e 3.º ciclo e secundário – que já deram origem a 90 projetos acordados ou a assinar brevemente entre o Ministério da Educação e as autarquias – contemplam obras em 217 estabelecimentos. Mais do que as cerca de 200 secundárias reabilitadas pela Parque Escolar entre 2007 e este ano. Mas acabam aqui as semelhanças entre um programa e o outro. O orçamento total do novo plano é de 236 milhões. Ou seja: menos de 1,1 milhões de euros por empreitada. Já o custo médio das anteriores reabilitações de secundárias, segundo dados divulgados em 2012, chegou aos 15,45 milhões. Portanto, quase quinze vezes mais.

A nova política de construções e requalificações escolares parece-me um equilíbrio sensato entre o despesismo irresponsável dos governos de Sócrates e a redução do investimento praticamente a zero nos tempos do passismo-cratismo, com a desculpa da crise:

  • Resolver problemas básicos, em vez de construir edifícios sumptuosos e nem sempre funcionais;
  • Investir na eficiência energética, melhorando o conforto interior e reduzindo os gastos de gás e electricidade;
  • Financiamentos ao abrigo dos fundos estruturais do Portugal 2020, em vez de empréstimos do Banco Mundial;
  • Contenção de custos, de forma a levar as intervenções a mais escolas.

Resta o problema de convencer algumas autarquias mais renitentes a comparticipar, na parte referente ao Estado português, as obras a realizar nos seus concelhos. É que até têm razão, pois o parque escolar do ensino básico, a partir do 2º ciclo, e do secundário, não é da sua competência. Mas também é verdade que o novo quadro dos financiamentos europeus se foca cada vez mais na componente de desenvolvimento regional, o que implica o envolvimento dos poderes locais e regionais para o acesso aos fundos.

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