Je ne suis pas Charlie

Parece ser o sentimento dominante nas redes sociais, sobretudo em Itália, perante a forma como o jornal satírico francês Charlie Hebdo resolveu retratar as vítimas do sismo que assolou a região de Amatrice.

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Respeito a liberdade de expressão e percebo que o uso eficaz de uma linguagem sarcástica e humorística necessite por vezes de ultrapassar os limites do que consideramos decência ou bom-gosto.

Também noto o relativismo cultural de um certo chauvinismo muito francês que achará piada à figura grotesca de um Maomé a esconder explosivos debaixo do turbante, sem pensar no que isso tem de ofensivo para um Muçulmano devoto, mas já não tolerará o desrespeito de valores tidos como ocidentais.

Dito isto, a verdade é que o boneco não tem piada alguma. É uma ofensa perfeitamente gratuita à sensibilidade das pessoas, sobretudo daqueles que perderam familiares ou amigos no terramoto. Como diria um outro humorista, esse português e bem mais consensual, não havia necessidade. Ou haveria?…

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Necessidades especiais depois dos 18 anos

inclusao.jpgO Público é, há muitos anos, o jornal português que mais e melhor cobertura dá aos temas da educação portuguesa. Embora embarque frequentemente num certo jornalismo de causas que tenho criticado, que se evidencia na forma parcial como tem tratado a questão dos contratos de associação ou na obsessão com exames e rankings de escolas, consegue por vezes surpreender-nos positivamente pela forma oportuna e incisiva como divulga alguns problemas sérios que tendem a andar afastados da agenda mediática.

Por exemplo, a situação dos jovens portadores de deficiências mentais, que agora cumprem, como todos os outros, a escolaridade obrigatória de 12 anos, mas que, chegados à maioridade, não encontram na sociedade respostas que dêem continuidade ao trabalho de integração até aí desenvolvido pela escola.

“Estas crianças e jovens, com graves problemas, progridem até aos 18 anos e a partir daí vai tudo pela água abaixo. Passam do Ministério da Educação para o Ministério de Casa. Podem ficar em casa o resto da vida! Não são estimulados. Não evoluem. Os encarregados de educação ficam desesperados”

Filinto Lima, director escolar

Os jovens que cumprem um currículo específico individual, por terem graves problemas cognitivos que os impedem de aceder ao currículo regular, realizam na escola tarefas e aprendizagens ajustadas às suas capacidades. Nos últimos anos, procura-se também fazer um despiste vocacional destes alunos e encaminhá-los gradualmente no sentido de encontrarem um emprego, quando possível ou, não sendo isso viável, frequentarem um programa ocupacional numa instituição especializada.

Sucede que estes casos vão-se multiplicando, quer por haver mais jovens nestas situações, quer porque as famílias já não se conformam em mantê-los escondidos em casa, reivindicando a resposta social a que têm direito e que muitas vezes lhes é negada. E a verdade é que esta se mostra insuficiente, apesar das promessas dos responsáveis políticos. Quanto à resposta privada, ela é demasiado dispendiosa para as parcas possibilidades económicas das famílias portuguesas. Como conta uma mãe que decidiu experimentar:

“Fazia uma terapia de manhã e outra à tarde e durante o resto do tempo tomavam conta dela. Davam-lhe um lanche. Tinha uma hora de trabalho. Davam-lhe almoço. Mais uma hora de trabalho. Davam-lhe lanche. Ia buscá-la. Ficava 50 euros por dia. A trabalhar uma hora de manhã e outra à tarde, mil euros por mês.”

Creio que os dilemas destes jovens e das suas famílias não resultam apenas da manifesta incapacidade de resposta dos serviços de segurança social, mas de todo um modelo de economia e sociedade em que andamos a investir.

Queremos uma sociedade competitiva, alimentamos nos nossos filhos a ideia de que devem ser os melhores em tudo, achamos que o desemprego elevado se resolve com mais empreendedorismo, convidamos os desempregados de todas as idades a emigrar, e não percebemos que quanto maior for a competitividade maior será o número de fracassados e de excluídos. E as primeiras vítimas são precisamente estes jovens sem autonomia, com escassas competências sociais ou académicas, nalguns casos sem terem adquirido sequer o controlo das funções básicas do próprio corpo.

Trata-se então de decidir, colectivamente, se queremos uma sociedade com lugar para todos, e onde a integração seja uma responsabilidade comum, ou uma outra que exclua todos aqueles que se mostrem incapazes de conseguir, pelos próprios meios ou com a ajuda familiar, um lugar ao sol que nunca chegará para todos.

Quando o caçador é apanhado

350x700px-LL-8a2ec9b8_media[1]A actriz francesa Sophie Marceau cansou-se de ser constantemente seguida e fotografada pelos paparazzi, repórteres de imagem especializados em obter fotografias e vídeos de da vida privada de pessoas famosas precisamente naquelas situações em que elas não desejam ser filmadas ou fotografadas.

Em vez de se exasperar, Sophie decidiu há dias reagir de uma forma original e, ao que parece, eficaz: de câmara em punho, dirigiu-se ela própria aos paparazzi que lhe vigiavam a casa, interpelou-os e filmou-os.

O resultado é o que se esperaria: estas pessoas que ganham a vida a espiar a vida dos outros ficam de repente constrangidas e incomodadas por estarem a ser filmadas. Escondem a cara debaixo de carapuço, como crianças apanhadas a fazer uma asneira. Envergonham-se do que fazem, mas não deixam de o fazer. E mostram como é difícil aceitar que nos façam a nós o mal que fazemos aos outros.

Violência doméstica, maus tratos e abusos: o outro lado do problema

153947-157571[1]É incontestável que a culpa, na esmagadora maioria dos casos comprovados de violência doméstica, maus tratos e abusos sexuais que ocorrem no seio das famílias, pertence aos homens.

No entanto, a maior frequência com que os homens se tornam agressores, no contexto de uma relação a dois, e sobretudo as consequências geralmente mais graves da agressividade masculina, não nos devem levar a ignorar o outro lado da moeda, o da chamada alienação parental, que ocorre sempre que, após a separação do casal, um dos cônjuges, quase sempre a mãe, tenta afastar os filhos do contacto com o pai. Ora é sobre estes casos que o DN traz hoje uma excelente reportagem que, apesar de extensa, merece ser lida na totalidade.

“As crianças são sempre as vítimas, os pais acham que estão a fazer mal ou ao outro, mas na realidade estão a fazer mal aos filhos.” Um dos progenitores, “em geral a mãe”, sublinha Jaime Roriz, tenta afastar o outro da criança. “Primeiro diz que este não tem condições, depois queixa-se de violência doméstica e, esgotando essas possibilidades, vai para os abusos sexuais. Sempre que há uma acusação destas, o tribunal impede as visitas. Normalmente, demora três a quatro anos a concluir o processo, já a criança não quer voltar.”

Ricardo Simões preside à Associação para a Igualdade Parental e denuncia a discriminação que diz existir para com os pais. “A alienação parental não é uma questão de género, é de quem tem poder sobre as crianças. E enquanto não tratarem as falsas denúncias de violência doméstica e de assédio sexual, as verdadeiras vítimas continuam a ser as crianças”, acusa.

A alienação parental acontece geralmente em contextos de separação litigiosa, e as crianças acabam por ser usadas como arma de arremesso para atacar e humilhar o ex-parceiro. É mais frequente ser desencadeada pelas mães, porque na maioria dos casos é com elas que fica a guarda dos filhos, mas não é exclusiva das mulheres.

O que é especialmente grave nestes processos, que vitimam acima de tudo as crianças, é que se fazem acusações graves, e tantas vezes inconsequentes, que têm apenas como resultado protelar a tomada de decisões sobre a regulação do poder parental. Assim como não podemos aceitar que denúncias de violência doméstica ou abusos sexuais não sejam levadas a sério e se mantenham agressores e vítimas a viver debaixo do mesmo tecto, também não é admissível que se façam, de ânimo leve, falsas acusações de violação ou outros abusos sexuais a um pai e que esse procedimento ignóbil fique sem punição.

Quando se conclui, e isso acontece na maior parte dos casos investigados, tanto pelas Comissões de Menores como pelos Tribunais, que a queixa de abuso sexual não tinha fundamento, isso deveria originar de imediato uma nova investigação sobre a pessoa que inventou a falsa acusação e os motivos por que o fez. Faz falta uma cultura de verdade e transparência na nossa justiça, como faz na sociedade, e espalhou-se como um cancro a ideia de que caluniar e mentir são meios legítimos para alcançarmos os nossos objectivos mais egoístas.

Outro problema é a falta de celeridade da justiça que não investiga em tempo útil, toma decisões provisórias que se eternizam mesmo em situações que estão longe de ser as mais favoráveis para as crianças, que ora é inoperante quando uma decisão imediata se impõe, ora actua com excesso de zelo, favorecendo o infractor ou, apenas, o progenitor com mais conhecimentos, influências ou capacidade económica de acesso à justiça.

O país que não é para crianças também não respeita os velhos

Que país é este que, depois de ter reduzido a natalidade a mínimos históricos, não consegue dar resposta às necessidades dos pais que não têm quem lhes fique com as crianças pequenas a custos comportáveis?

A notícia não é recente, mas do ano passado até agora nada mudou na situação retratada:

Mesmo com a diminuição do número de nascimentos em Portugal, há milhares de crianças nas listas de espera nas creches e jardins-de-infância do setor social, onde as famílias pagam consoante os seus rendimentos. Muitas instituições não têm capacidade de resposta para as solicitações e chegam a existir casos em que o número de candidatos é oito vezes maior do que as vagas que são realmente abertas pelas instituições.

Entretanto, continua-se a gastar dinheiro público na construção desnecessária de centros escolares para o 1º ciclo e, a partir do 2º ciclo, nos contratos de associação para alimentar de alunos colégios privados, ao mesmo tempo que se esvaziam escolas públicas com todas as condições para os receber. Mas não se investe no pré-escolar, continuando desde há longos anos a apostar-se num modelo de financiamento a instituições de solidariedade que, além de caro, não consegue comprovadamente dar resposta às necessidades existentes.

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Costuma dizer-se, muito acertadamente, que o grau de civilização de um país se pode ver pela forma como trata as suas crianças e os seus velhos. E se com as crianças é como sabemos, com os idosos as histórias de que se vai sabendo dariam para fazer uma temporada inteira de filmes de terror. A que o Público ontem deu a conhecer é apenas mais um triste retrato da negligência, maus tratos e completa desumanidade no tratamento das pessoas idosas. A avaliar pelos relatórios dos técnicos que visitaram o lar de idosos e pelas acusações que seguiram para tribunal, este sector continua entregue a gente sem escrúpulos, que age apenas em função do lucro e tira partido das vulnerabilidades físicas e mentais da maioria dos internados para os amedrontar, agredir e maltratar.

Acusações de maus tratos: que lar era este onde se diz que a tristeza estava em todo o lado?

Começar pelo básico

ne-277-eja-ensino-2[1]Deveria ser a prioridade num país de fracos recursos e que nem sempre os aproveita bem. Mas…

Não há cursos de alfabetização para adultos desde 2010. Quem não sabe ler nem escrever pode aprender em ações dispersas pelo país, mas não tem direito a certificação.

Desde que, nos 50 do século passado, ainda no tempo da ditadura salazarista, o elevado analfabetismo da população portuguesa se tornou um preocupação política, que a aposta prioritária tem sido feita na escolarização das crianças. Para os adultos ia havendo pontualmente umas aulas nocturnas, que permitiam tirar a “4ª classe de adulto”, mas estiveram longe de chegar à generalidade da população adulta. Apesar das campanhas de alfabetização a seguir à Revolução de Abril de 1974 e da manutenção, nas décadas seguintes, de um subsistema de ensino recorrente e educação de adultos frequentado por muitos alunos, o analfabetismo ainda hoje atinge cerca de 5% da população portuguesa, com maior incidência entre as mulheres.

No estertor do socratismo, os cursos de alfabetização acabaram mesmo, e nem Nuno Crato, que ressuscitou os antigos exames da 4ª classe, foi capaz de repor uma resposta educativa para a escolarização básica dos portugueses que nunca foram à escola. Foi aliás o anterior governo de direita o que mais aproximou do zero absoluto o investimento na educação de adultos.

A verdade é que, relativamente aos analfabetos, a grande estratégia sempre foi apostar no efeito da passagem do tempo: desde que todos os miúdos fossem à escola, o analfabetismo desapareceria gradualmente, à medida que os analfabetos fossem morrendo. Perceber o impacto positivo que aprender a ler e a escrever poderia trazer, não apenas às pessoas em causa, mas também à economia e à sociedade no seu todo, sempre esteve algo longe do alcance dos políticos que foram sendo chamados a decidir sobre esta matéria.

O wifi pode matar

Tinha alergia ao Wi-Fi. Não suportou as dores e acabou com a vida

A ligação à internet sem fios foi removida na casa da adolescente, mas não na escola que frequentava.

Já em tempos tinha feito referência a um outro caso de hipersensibilidade à radiação electromagnética cada vez mais presente nas nossas vidas.

2EEDC98400000578-3339511-image-a-7_1448893243144[1]Mas a história trágica de Jenny Fry, uma adolescente britânica de 15 anos que se suicidou em Junho passado, só agora foi divulgada: era alérgica ao wifi, pelo que nas proximidades dos aparelhos emissores, os vulgares routers que hoje existem por todo o lado, começava a ter fortes dores de cabeça e outros sintomas causadores de sofrimento e mal-estar. Em casa foi removido o wifi, mas na escola o problema não foi levado a sério e a jovem começou a isolar-se, a faltar às aulas e a procurar na permanência em zonas do recinto escolar distantes das fontes de radiação o alívio para as suas dores. A situação tornou-se de tal forma insuportável que a jovem acabou por se suicidar por enforcamento.

O rápido desenvolvimento das novas tecnologias, sobretudo quando vem associado a fortes e altamente rentáveis investimentos, não concede o tempo necessário para ponderar sobre as suas reais vantagens e potenciais riscos envolvidos, sobretudo quando se cai no exagero de querer cada vez mais: melhor cobertura, mais velocidade nas ligações, maiores funcionalidades presentes nos serviços fornecidos. Ora tudo isto tem um custo, que se traduz no aumento da radiação invisível que insidiosamente vai penetrando nos nossos corpos.

É este não é um problema apenas dos “hipersensíveis”, pois quanto mais for aumentando a intensidade dos sinais, mais aumentará também o número das pessoas afectadas. E, pior ainda, estamos, sob a falsa desculpa da “falta de provas” a ignorar deliberadamente os previsíveis efeitos a médio e longo prazo da exposição prolongada às radiações.

E sim, para nossa saúde e segurança deveríamos mesmo ter zonas livres de wifis e de bandas largas, a começar pelas escolas, não só porque os hipersensíveis também têm direito à vida, mas igualmente porque aos outros só lhes faz bem a existência de espaços onde possam “desintoxicar” da radiação a que andamos permanentemente expostos. Contrastando com o imenso espalhafato em torno da “sociedade da informação”, o silêncio sobre os efeitos secundários de algumas das novas tecnologias está a tornar-se tão pesado quanto irresponsável.