A culpa é dos exames?

exames0_lv[1]Há quem pague 200 euros por mês em explicações. A “culpa” é dos exames

Professores e investigadores defendem que os exames, que caracterizam o actual modelo de acesso ao ensino superior, são o que alimenta o mercado de explicações. Quem pode pagar tem acesso. Quem não pode fica para trás.

A manchete do Público suscita diversas dúvidas e inquietações. Mesmo sem ler a notícia por inteiro – na versão online só está disponível para assinantes – julgo que o raciocínio proposto não tem muito que enganar: para entrar na universidade é preciso obter boas notas nos exames, o que os mais abonados conseguem recorrendo a explicações. Quem não tem dinheiro é, por isso, discriminado. E nos cursos universitários com maior procura estão, já o sabemos, sobre-representados os alunos das classes alta e média alta.

Aparentemente, pensará o leigo na matéria, se são os exames que fomentam a desigualdade, então bastaria acabar com eles para exterminar também o maléfico e dispendioso “mercado de explicações”. Mas será que isto resolveria o problema? Como se faria então o acesso ao ensino superior? Apenas com as classificações internas do secundário? Ou com um novo modelo de exames, centrado nas instituições de ensino superior?

Claro que, havendo exames, estes criarão sempre procura para um negócio assente na preparação para os mesmos. E enquanto houver cursos superiores com cem vagas e mil candidatos será sempre necessário um mecanismo de selecção para decidir quem entra e quem fica de fora. Não sendo perfeitos, os exames têm-se revelado, apesar de tudo, um método de ordenação e selecção de candidatos mais justo e equitativo do que as classificações internas, sujeitas à aplicação de diferentes critérios de avaliação e níveis de exigência de escola para escola, ou a subjectividade das entrevistas, das “cartas de motivação” ou de outros métodos de recrutamento mais “personalizados”  – e permeáveis à cunha.

Pelo que a forma que o Público encontrou para pegar no tema – culpar os exames e as explicações pela desigualdade no acesso ao ensino superior – sendo fácil e demagógica, é a que menos ajuda a compreender a realidade. E a realidade tem muitas nuances.

Passa, por exemplo, pela dificuldade que as escolas continuam a ter em reduzir ou desdobrar turmas para apoiar e recuperar alunos ou grupos de alunos com dificuldades específicas em determinadas matérias.

Mas, quando as escolas conseguem superar obstáculos e criar salas de estudo ou aulas de apoio, não é raro os alunos com dificuldades e as suas famílias rejeitarem-nos.  Prefere-se pagar uma explicação do que obtê-la gratuitamente através da escolaAparentemente, o que não é pago não é valorizado, o que também se vê na diferença da postura de muitos alunos quando passam da aula de apoio na escola pública para a explicação privada…

E que dizer das famílias, que mais depressa pagam explicações aos filhos do que lhes fazem ver que, se estiverem atentos e participarem nas aulas, se estudarem com regularidade e fizerem os trabalhos propostos, então poderão ser bons alunos sem necessidade de explicações individuais. É uma realidade visível em muitas escolas secundárias, incluindo algumas que integram os primeiros lugares dos rankings, haver alunos que distraem os colegas e perturbam as aulas, porque acham que não precisam de se estar atentos: o explicador logo lhes explicará, individualmente, aquilo que o professor tenta ensinar a toda a turma. Numa sociedade crescentemente egoísta e materialista, o sucesso que se compra parece valer mais do que aquele que se consegue pelo trabalho e pela valorização pessoal.

O sucesso das explicações e dos centros de estudo passa igualmente pelo facilitismo que se está a promover no sistema de ensino, em que os alunos transitam de ano sem precisarem de evidenciar conhecimentos sólidos sobre as matérias que aprenderam. Quando, já no secundário, se mostram ambiciosos em relação ao curso superior pretendido é que se apercebem da falta de conhecimentos e competências de base que evidenciam – e as explicações surgem como a solução que permite remediar o mal e almejar melhores resultados académicos no futuro. Claro que nem todas as famílias podem as pagar. O que demonstra algo que alguns “velhos do Restelo” vêm alertando há muito tempo: o facilitismo prejudica sobretudo os mais pobres – é uma ilusão acreditar que lhes facilitará a vida…

A picareta falante da Educação

joao-costa.JPGPortugal tem uma evolução, na educação, admirável. Temos 45 anos de escola democrática e o que foi conseguido é muito, embora por vezes não tenhamos noção disso. Estamos sempre a falar mal das escolas, dos professores, dos alunos e dos pais, mas as taxas de escolarização, alfabetização, insucesso escolar e abandono precoce têm evoluído de forma notável. Temos muitas conquistas: basta ver que, por exemplo, hoje, as taxas de frequência dos ensinos secundário e superior são extremamente mais elevadas do que antes do 25 de Abril. Temos, contudo, ainda questões para resolver e uma delas é o facto de sermos um dos países onde os alunos reprovam mais: o cerne da questão não é a retenção por si só, mas sim o facto de esta estar associada à condição socioeconómica dos alunos. Ou seja, o insucesso escolar é um problema de justiça social porque já respondemos bem aos mais favorecidos e não encontrámos resposta para aqueles que mais precisam da escola.

A extensa entrevista de João Costa ao jornal i soa já a final de mandato. O secretário de Estado da Educação faz o balanço das realizações do governo na área educativa, destacando naturalmente aquelas em que esteve especialmente envolvido, como é o caso do novo regime de inclusão e da flexibilidade curricular. Evoca os tímidos passos do ME naquilo que seriam medidas correctas e urgentes, mas que ficaram no campo das boas intenções ou com uma realização meramente simbólica: a diminuição do número de alunos por turma e a contratação, em tempo útil, de mais assistentes operacionais, técnicos especializados e professores de apoio.

João Costa é um herdeiro à altura da velha tradição socialista das picaretas falantes: tem um discurso fluente, lógico, articulado. O que ele diz soa bem e parece bem. Qualquer um que não saiba da barracada que está a ser a implementação forçada da flexibilidade curricular nas escolas compra facilmente a conversa deste quase-ministro da Educação. O problema maior está, parece-me, naquilo que Costa não diz.

A indisciplina, por exemplo, continua a ser um problema grave em muitas escolas, convenientemente varrido para debaixo do tapete. Mesmo admitindo que novas pedagogias e aprendizagens mais dinâmicas e flexíveis podem reduzir as tensões, é um engano pensar que resolvem os problemas de fundo que estão por detrás dos comportamentos disruptivos. Não é uma questão de aulas mais ou menos “chatas”, mas de alunos que se recusam a cumprir regras e a respeitar colegas e professores. De famílias que compactuam ou que estão na origem dos maus comportamentos. E de falta de meios e recursos adequados nas escolas onde estes alunos tendem a concentrar-se.

Os professores, por outro lado, continuam a ser uma classe profissional desprezada pela tutela. Embora em abstracto possam não se negar elogios ao seu trabalho, no concreto o que vemos é a continuidade de uma política de menorização e proletarização da classe. Em vez de interlocutores e parceiros nas reformas que se pretende realizar, o que se quer são trabalhadores obedientes, que cumpram sem questionar as directrizes ministeriais. Em vez de respeitar e valorizar uma carreira que, na sua actual configuração, foi definida por um outro governo socialista, aposta-se no roubo de tempo de serviço e nas barreiras à progressão para conseguir o que interessa acima de tudo: professores mais baratos.

Para o final da entrevista, Costa evoca um velho problema do nosso sistema educativo; o regime de ingresso no ensino superior e a forma como subordina e instrumentaliza o ensino secundário e em particular os exames nacionais deste nível de ensino. Que em vez de cumprir finalidades próprias, parece existir apenas para servir de antecâmara do superior.

…o ensino secundário está completamente refém do acesso [ao ensino superior] e deve haver um debate profundo, calmo e onde se oiça todas as partes: os alunos, os professores, os pais e até outros países. Andamos sempre a dizer que as situações não estão bem, mas não as corrigimos. Isto tem de mudar.

Não defendendo o fim dos exames do secundário, concordo com a ideia de desligar a conclusão do secundário da candidatura ao superior. E pego nas palavras de João Costa para lançar o repto: se querem um debate com todas as partes, que tal começar já, o partido no poder, por divulgar a sua ideia sobre o assunto, para irmos pensando com calma? E para sabermos com o que contar, antes de irmos a votos…

Digam-nos alguma coisa que a gente não saiba…

edulogAs universidades portuguesas reproduzem as desigualdades sociais e económicas das famílias. Os alunos de famílias com mais recursos económicos e cujos pais têm mais habilitações académicas entram em cursos com mais prestígio e notas mais elevadas, enquanto os estudantes vindos de famílias com dificuldades económicas e cujos pais têm menos formação optam por cursos com cotas mais baixas e cursos técnicos. Estas são as principais conclusões do estudo A Equidade no Acesso ao Ensino Superior, realizado pelo Edulog, think tank da Fundação Belmiro de Azevedo, que será apresentado esta quarta-feira em Matosinhos.

As qualificações dos pais e das mães dos estudantes e a percentagem de alunos que recebem bolsas de ação social foram os dois indicadores usados neste estudo com coordenação científica de Alberto Amaral.

De acordo com o Público e com o Jornal de Notícias, as conclusões são muito claras: os estudantes oriundos de famílias com níveis de escolaridade mais altos vão sobretudo para as universidades e não para os institutos politécnicos, e optam por cursos com mais prestígio (como medicina e engenharias).

Com o ar de quem nos está a dar grandes novidades, o tanque-de-pensar do grupo SONAE dedicado aos temas educativos informa que os jovens oriundos das classes mais favorecidas têm mais e melhor acesso aos cursos superiores com média de entradas mais elevadas. E que os filhos dos pobres entram preferencialmente nos politécnicos.

A razão principal não é difícil de compreender. É a mesma que permite que os ricos influenciem a agenda dos media, criando fundações para fabricar as notícias que lhes interessam e as plantar selectivamente nos media: o poder do dinheiro.

Será preciso uma investigação aprofundada para concluir que as famílias mais ricas, sendo também, regra geral, mais instruídas, tendem a proporcionar um ambiente cultural mais estimulante aos seus filhos?

Ou que, mal começam a surgir dificuldades nos estudos, essas famílias recorrem facilmente aos melhores explicadores?

A verdade é que a indústria das explicações e o peso que este “subsistema” de ensino paralelo foi adquirindo explicam grande parte do binómio do sucesso/insucesso educativo. Mas a opacidade que o envolve não parece aliciar os investigadores a tentar avaliar o impacto e a abrangência do fenómeno, muito menos as fundações do regime que os financiam. Bem mais fáceis são estes estudos preguiçosos que se fazem a partir de dados pré-existentes: a informação estatística sobre as habilitações dos pais dos alunos ou os escalões da acção social escolar é recolhida rotineiramente pelo ME e a própria DGEEC já vez várias análises semelhantes à que agora se apresenta.

O facto de chegarem mais longe nos estudos não quer dizer que os ricos sejam mais inteligentes do que os pobres. Não impede a existência de ricos ignorantes e obtusos – algumas figuras públicas que andam por aí a desfalcar os bancos do regime demonstram-no à saciedade mal abrem a boca em público – nem determina que os pobres sejam incapazes de educar bem os seus filhos. Significa apenas que, estatisticamente, será sempre expectável que os filhos dos mais ricos e instruídos sejam mais apoiados e consigam chegar mais longe nos seus percursos escolares. Existe uma correlação forte, mas não determinante, do rendimento familiar e nível de escolaridade dos pais com o sucesso escolar dos seus descendentes.

No entanto, para saber estas coisas, não é preciso fazer grandes “estudos”. Bastaria, por exemplo, verificar quantos administradores das empresas do grupo SONAE têm ou planeiam ter os filhos a estudar num qualquer politécnico. É que o “elevador social” não consegue levar toda a gente para cima quando as vagas no topo são limitadas. Quantos, entre a elite dominante, aceitarão que jovens pobres mas talentosos ocupem os lugares que têm destinados para os seus rebentos, ainda que estes revelem “pouca queda para os estudos”? Quem é que aceita resignadamente que os seus filhos tomem o elevador social em sentido descendente?

Exposto o essencial, o resto é a agenda oculta das fundações e das organizações internacionais que regularmente vão promovendo determinadas linhas de investigação criteriosamente seleccionadas. Enquanto for possível ter sucesso a responsabilizar as escolas e os professores pelos fracassos, reais ou imaginários, dos alunos mais desfavorecidos, pode-se continuar a ignorar ou a adiar as reformas de que verdadeiramente precisamos: as que combatam as desigualdades sociais e promovam uma efectiva igualdade de oportunidades.

Como a realidade, em Portugal e no mundo, vem demonstrando, é tanto maior o desejo de reformar a escola quanto menor é a vontade de melhorar a sociedade.

Bons alunos não querem ser professores? Que entrem os maus, diz o CNE…

exam-question[1]O Conselho Nacional de Educação (CNE) pretende que os futuros professores do 1.º ciclo de escolaridade voltem a não precisar de um exame de Matemática para ingressarem nos cursos do ensino superior que conferem a habilitação para docência. Esta é uma das propostas aprovadas este mês pelo CNE, um órgão consultivo do Parlamento e do Governo, no âmbito de uma recomendação sobre qualificação e valorização de educadores e professores dos ensinos básico e secundário.

Segundo o CNE, a obrigatoriedade de uma prova de Matemática tem “estrangulado ainda mais o ingresso de alunos em cursos de formação de professores”, que estão a ficar sem candidatos. Por essa razão, defende o CNE, devem ser elaboradas novas regras de acesso às licenciaturas em Educação Básica e revogar-se a deliberação da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior que, em 2015, instituiu como prova de ingresso obrigatória o exame a uma das disciplinas de matemática do secundário. O exame de Português é a outra prova exigida.

Discordo absolutamente da solução que o CNE tenta encontrar para a redução do número de candidatos aos cursos de formação de professores do ensino básico. Para a maioria dos conselheiros acácios da Educação, o facilitismo que emana das políticas do ME parece ser contagioso: se resolvemos os problemas de aprendizagem ajustando os currículos, as práticas pedagógicas e os instrumentos de avaliação à vontade – ou à falta dela – de cada aluno, porque não fazer o mesmo com a formação de professores?

Na prática, é isto: os bons alunos não querem ser professores? Não há problema, vamos formar para a docência os maus alunos. Uma solução que poderia fazer sentido se estivéssemos a falar de uma das muitas profissões que, com o advento das novas tecnologias e processos organizacionais, se tornaram menos exigentes nas qualificações dos trabalhadores. Nenhum caixa de supermercado precisa hoje de saber fazer contas manualmente ou sequer calcular mentalmente o troco a entregar ao cliente. Pois a máquina registadora, convertida em sofisticado terminal de computador, diz-lhe tudo o que precisa de saber. Em contrapartida, não devemos pensar no professor como um mero aplicador de programas curriculares e estratégias de aprendizagem, que não domine em profundidade as matérias que deve ensinar. Ou, pelo contrário, será que é isso mesmo que na verdade se pretende? Na verdade, um corpo docente formado por profissionais sem uma base sólida de conhecimentos científicos nas suas áreas de leccionação é uma das receitas mais eficazes para prosseguir o caminho da domesticação e proletarização da docência há muito iniciado…

Voltando ao parecer do CNE e à forma como tenta fundamentar o abaixamento da fasquia no acesso aos cursos de professores, encontramos aquele raciocínio muito comum a um certo chico-espertismo à portuguesa: o de quem sobrevaloriza a sua esperteza, sem contar com a inteligência dos outros. E, sobretudo, sem ser capaz de ver além do imediato nem de considerar a longo prazo as consequências dos seus actos.

Na sua recomendação, o CNE refere que aquilo “que os alunos aprendem no ensino secundário não é a Matemática que vão ter de aprofundar a nível superior para serem futuros professores”, que os tópicos necessários para esta função são os que foram trabalhados até ao 9.º ano e que, por isso, não existe uma “relação directa entre a realização de um exame de Matemática do ensino secundário e o conhecimento matemático necessário para um bom desempenho enquanto professor”.

Para o garantir, defende o CNE, deverá sim ser instituído, “durante a licenciatura, um tempo complementar ou integrado de formação científica em Matemática”.

Vamos ver se nos entendemos: o que a docência no ensino básico necessita não é que os professores tenham aprendido no secundário a Matemática que irão leccionar no básico. Nunca se pediu isso, nem se está a exigir que sido bons especificamente a Matemática. O que é fundamental é recrutar os futuros professores de entre os bons alunos, ponto final.

Um bom professor do primeiro ciclo necessita de dominar de forma segura diversas áreas, desde o Português e a Matemática às diversas expressões. Exigir o exame de Matemática – que até pode ser a Matemática B do curso de Artes Visuais ou a MACS das Humanidades – não é uma exigência disparatada. Parece-me essencial para garantir que não teremos, entre os futuros professores do ensino básico, antigos alunos fugidos à Matemática no secundário que venham a contribuir, não só para um ensino deficiente, como para uma rejeição atávica da disciplina que parece ainda persistir nalguns sectores da nossa sociedade…

Os sistemas educativos mais bem sucedidos comprovam que é seleccionando entre os melhores alunos no acesso à profissão que se conseguem obter os melhores professores. E não, como se insiste por cá, com sistemas burocratizados de avaliação do desempenho. Ou, como se fez no tempo de Lurdes Rodrigues, com formações avulsas para tentar colmatar falhas na formação inicial dos professores.

Começar a formar hoje os bons professores de que iremos necessitar no futuro próximo é algo que não se consegue com medidas facilitistas como a que o CNE irresponsavelmente propõe. Passa, isso sim, por tornar a profissão mais aliciante e atractiva, abrindo efectivamente o acesso a novos profissionais, melhorando as condições de trabalho nas escolas e dignificando, não com meras palavras mas com acções concretas, o estatuto e a dignidade dos professores. Um programa demasiado exigente, talvez, para a geração de políticos medíocres e de vistas curtas que tem dominado a governação do país.

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: Mais vagas no ensino superior

Logo após o primeiro-ministro ter anunciado a ambiciosa meta de, até 2030, conseguir que 60% dos jovens portugueses adquiram formação superior, soube-se da intenção de aumentar, já este ano, o número de vagas para acesso aos cursos superiores mais procurados. Saúde-se a medida agora anunciada. Mas recorde-se que ela contraria o que foi feito há um ano atrás quando, a pretexto de favorecer a fixação de estudantes no interior e fora das duas principais cidades, se diminuíram as vagas disponíveis nas universidades de Lisboa e do Porto.

No Fundo: A inutilidade das provas de aferição

Surgiram como a grande aposta deste ministério, em alternativa aos malfadados exames da era de Nuno Crato. Não tendo repercussão na avaliação dos alunos, as provas de aferição retirariam do processo avaliativo a carga de stress associada aos exames. Não produzindo uma nota, mas um relatório individual, dariam uma indicação mais precisa, a alunos e pais, sobre as aprendizagens realizadas e as dificuldades persistentes. Sendo realizadas a meio e não no final de um ciclo de estudos, deixariam margem para futuras progressões e ajustamentos no processo educativo, tendo em conta as falhas detectadas.

Acesso à Universidade em modo eleitoral

porta-ferrea.pngSem uma política educativa clara e definida, mais inspirada nas reais condições e necessidades do país do que no receituário da OCDE, não é em ano eleitoral que o Governo se iria abalançar para as grandes decisões que foi adiando ao longo do mandato. Mais ainda numa matéria especialmente sensível como o acesso ao ensino superior, onde anualmente se jogam expectativas, sonhos e ambições de dezenas de milhares de jovens e respectivas famílias.

Contrariando um destino de séculos, Portugal já não é hoje, por muito que se diga o contrário, um país de baixas qualificações. Pelo contrário: somos, proporcionalmente, um dos maiores exportadores europeus de mão-de-obra qualificada. O problema maior é a incapacidade da economia no aproveitamento e valorização destes trabalhadores e o modelo de desenvolvimento que continua demasiado assente nos serviços pouco qualificados e na mão-de-obra barata.

Claro que, em vez de atacar estes problemas, algo que leva tempo e tem resultados incertos, é mais fácil seduzir os jovens, acenando-lhes com cursos superiores para toda a gente. Se depois haverá emprego adequado para tanto licenciado, mestre e doutor, isso é outra conversa. Que, por agora, não interessa nada…

Costa quer 60% dos jovens a frequentar o ensino superior em 2030

O primeiro-ministro referiu que “o maior défice estrutural que o país tem é o défice das qualificações”.

Depois do anúncio solene da aposta ambiciosa, a retirada estratégica de uma medida que, anunciada em jeito de balão de ensaio, poderia dar trunfos valiosos aos críticos do PS. Afinal a possibilidade de entrar para o ensino superior sem ter de fazer os exames nacionais, que tinha sido entreaberta aos alunos dos cursos profissionais, vai ter de aguardar. Embora não devam restar dúvidas de que é mesmo para avançar. Deixemos passar as eleições e logo se verá…

Governo recua e não há concurso para alunos do profissional entrarem no superior

O modelo não será testado no próximo ano lectivo. Presidente da Comissão Nacional de Acesso diz que não havia tempo para mobilizar os estudantes.

Finalmente, o bónus. Depois de no ano passado terem andado a fechar vagas nas universidades do litoral para empurrar os estudantes para as universidades e politécnicos do interior carentes de alunos, este ano a política altera-se para melhor. Se há mais procura, o que é lógico é que se tente aumentar a oferta. Sobretudo naqueles cursos que só existem nas principais universidades.

Cursos superiores com médias mais altas vão poder aumentar vagas

Medida aplica-se também em Lisboa e no Porto. Cortes de lugares nas instituições das duas principais cidades vão manter-se apenas em cursos em que haja alternativa noutros pontos do país.

 

As notas inflacionadas

igec.JPGA intervenção, ao longo dos últimos dois anos, da Inspecção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) junto das escolas e colégios que inflacionam as notas internas dos seus alunos, beneficiando-os no acesso ao ensino superior, tem tido efeitos positivos. Mais de 80% dos estabelecimentos de ensino inspeccionados no último ano reduziram os desalinhamentos, confirmando os resultados conseguidos no ano anterior, quando foi feita pela primeira vez uma operação de combate a esta prática.

Tal como no ano anterior, em 2018 foram alvo da IGEC 12 escolas – todas do Norte do país, sete das quais privadas. O relatório “Avaliação das Aprendizagens dos Alunos do Ensino Secundário”, que é publicado este sábado, mostra que, após a intervenção, dez desses estabelecimentos de ensino (83%) reduziram a inflação das notas internas dos seus alunos. As excepções foram o Colégio da Associação Cultural e Recreativa de Fornelos, em Fafe, e a Escola INED – Nevogilde, no Porto.

O relatório da IGEC aborda o velho problema das “notas inflacionadas” – que é, na prática, impossível de resolver. Se as boas notas beneficiam os estudantes do secundário na candidatura ao ensino superior, é natural que as escolas procurem atribuí-las, tanto quanto possível, sobretudo quando se tratam de classificações finais. E se, neste processo, se nota que as escolas vizinhas exageram, então inflacionar notas pode passar a ser uma estratégia competitiva para conseguir ter mais alunos – ou, simplesmente, não deixar que fujam os que se têm.

O procedimento, ao qual as escolas públicas não estão imunes, é levado ao extremo nas escolas privadas que se especializaram no lucrativo segmento de mercado que é transformar alunos pouco mais do que medianos em estudantes capazes de alcançar as médias elevadas que são exigidas para entrar em Medicina. E é bom que se diga que as notas destes alunos só são tidas por “inflacionadas” por via da comparação com os resultados obtidos nos exames nacionais. Nas disciplinas não sujeitas a exame, que acabam por ser a maioria, o fenómeno é ainda mais acentuado. Mas se neste caso não há forma de medir o “desalinhamento”, muito menos haverá de penalizar escolas ou alunos injustamente beneficiados.

Quanto às intervenções dos inspectores, há um ponto por onde estes podem, efectivamente, pegar: o dos critérios de avaliação que as escolas têm obrigatoriamente de divulgar. A nota final deve resultar da média ponderada de um conjunto de parâmetros avaliados pelos professores. Ora quando a nota é  “puxada” para cima, nem sempre há o trabalho de fundamentar essa subida, da mesma forma que se faz com as “negativas”. Há uma cultura do sucesso que vem sendo implantada há décadas pelas acções inspectivas e que manda produzir papelada para justificar o insucesso. Mas quando as notas são boas, nunca foi hábito exigir justificações. Excepto agora, quando os resultados são tidos como demasiado bons.

Contudo, no final, e ao contrário do que sucede noutras inspecções que, sobretudo quando envolvem dinheiros, têm orientações bem vinculativas, aqui as equipas da IGEC nada mais podem fazer do que emitir recomendações. E voltar as escolas da “lista negra” no ano seguinte, para ver se se tornaram mais comedidas na avaliação interna.

Pela pressão e a censura social, estas inspecções e sobretudo a divulgação pública dos resultados podem efectivamente ter algum efeito moderador de uma prática que gera fortes injustiças no acesso ao ensino superior. No entanto, a visibilidade é um pau de dois gumes: assim como há quem critique a inflação de notas, também haverá quem escolha as escolas que a praticam exactamente por esse motivo. E assim sendo, a polémica em torno das notas inflacionadas acaba por reverter, também, em publicidade gratuita para algumas instituições de ensino.

Estamos portanto em presença de um imbróglio destinado a durar ainda uns bons anos, porque quase ninguém está interessado em discutir a questão de fundo: cada escola aplica os seus próprios critérios de avaliação e, num quadro de crescente autonomia que se vem anunciando, essa tendência só poderá aumentar. Pelo que não há equidade nem justiça em considerar as notas internas dos alunos na candidatura ao ensino superior. Contudo, separar a avaliação do secundário do processo de seriação e selecção dos candidatos às universidades é o passo de gigante a que o nosso situacionismo educativo se tardará a abalançar.