Ansiedade do futuro?

Quando acabei o Secundário e ingressei num curso superior, não senti pressão, por parte dos que me eram mais próximos, para fazer qualquer tipo de escolha. Vivíamos com o conforto de saber que devíamos seguir o caminho escolhido por nós, seguir aquilo em que seríamos mais capazes, em suma, que nos fizesse felizes. O Mundo mudou. Muito. E a vida em muitos aspetos tornou-se bem mais difícil.

A editora do JN evoca um passado ainda não muito distante, em que os jovens escolhiam livremente o seu percurso académico, comparando-o com um presente em que todos parecem ser condicionados para o sucesso, com os cursos superiores mais bem cotados para o alcançar a manterem médias de entrada elevadíssimas.

Mas este passado idílico tem o seu lado sombrio. É verdade que era comparativamente mais fácil entrar para a universidade quando os pais e os avós dos actuais estudantes se formaram, apesar de existirem, nesses tempos, menos vagas, e uma juventude muito mais numerosa do que actualmente. Mas isso só sucedia porque os candidatos eram muito menos. A maioria dos jovens de há 30 ou 40 anos atrás não completava sequer o ensino secundário, pelo que ir para a universidade, ou mesmo para um politécnico, era algo que estava fora de questão. Sem negar o mérito individual de cada um, há que reconhecer que os que preenchiam o impresso de candidatura ao ensino superior eram já, de uma forma ou de outra, parte de um grupo de privilegiados.

Não era, portanto, um sistema menos selectivo. Em lugar de, como acontece hoje, se garantir o 12.º ano a toda a gente, impondo a partir daí uma forte barreira no acesso aos cursos mais prestigiados do ensino superior, a selecção ia-se fazendo gradualmente, pela combinação do insucesso, do abandono escolar e da incapacidade económica das famílias de menores recursos. Os alunos com maiores dificuldades ou mais desfavorecidos economicamente iam ficando pelo caminho. Haveria, como hoje, angústias e depressões por não se conseguir alcançar o curso ou a profissão ambicionada. Mas tudo era mais diluído no tempo, o que permitia a cada um moderar as suas expectativas e conformar-se com a sua sorte. Sobretudo quando, sobretudo fora dos centros urbanos, deixar a escola para ir trabalhar era o destino comum da maioria dos seus companheiros, familiares e amigos.

Nos dias de hoje, não cessamos de elevar aos píncaros as expectativas de cada um, alimentando sonhos irrealistas bem simbolizados no “podes ser o que quiseres” que se converteu quase num lema da geração de príncipes e princesas que temos aí. Mas a verdade é que nem todos podem ser médicos ou engenheiros aeroespaciais. E sim, há muitos outros cursos que podem corresponder às expectativas, interesses e vocações dos nossos jovens.

Colocações no ensino superior 2021

Depois da excecionalidade do ano passado, com o maior número de sempre de colocados na primeira fase do concurso de acesso, foram admitidos, agora, ao Ensino Superior 49 452 novos estudantes. Uma quebra de 3% face a 2020, mas, mesmo assim, o segundo valor mais elevado desde 1989. A que não é alheia a procura, mas também o facto de haver mais alunos a candidatarem-se com notas baixas. Para universidades e politécnicos, volvidos quase dois anos de pandemia, é chegado o tempo de discutir o acesso.

Isso mesmo confirma, ao JN, o ministro do Ensino Superior. Se, por um lado, há um “aumento relativo das colocações em formações de maior incidência de estudantes com notas mais elevadas”, por outro “há mais estudantes com notas inferiores a candidatarem-se, sobretudo em Lisboa e Porto”, diz Manuel Heitor. Estas instituições registaram uma quebra de 7% no número de colocados face a 2020. Mesmo assim, “o importante é que há mais alunos a concorrem ao Ensino Superior”.

Nesta primeira fase de acesso, candidataram-se 64 004 alunos (mais 2%, ao nível mais alto dos últimos 26 anos) a um total de 55 307 vagas (menos 1%, sobretudo em Lisboa e no Porto), com 77,3% a garantirem um lugar no Superior, contra 81,5% no ano passado, sendo o valor mais baixo, pelo menos, desde 2008. Em linha com o verificado em 2020, metade dos estudantes ficou colocado na primeira opção e 20% na segunda.

Já os cursos com maior concentração de melhores alunos viram o número de colocados subir 7%, para os 4893, sublinha o Ministério da Ciência e Ensino Superior em comunicado. Com Engenharias e Medicina no topo das médias, em linha com anos anteriores.

Depois da excepcionalidade das regras de acesso em 2020, devido à pandemia, já se sabia que 2021 seria ano de alguns ajustes no processo de candidatura e colocação no ensino superior.

O sistema continua a cumprir as finalidades para que foi criado, servir anualmente a cada universidade e a cada politécnico a lista dos seus novos alunos para os cursos a funcionar em 2021/22, escolhidos unicamente com base em classificações obtidas no seu percurso escolar no ensino secundário. Um sistema chave-na-mão que desresponsabiliza as instituições de ensino superior e é pouco condizente com a “autonomia” que, noutras matérias, gostam bem de defender. Mas que as livra de uma carga de trabalhos e responsabilidades, isso é inegável. E também por isso não se vê defender, por aqueles lados, mais do que ajustes pontuais a um modelo que mereceria já uma remodelação profunda.

De resto, mantêm-se e acentuam-se nalguns casos as tendências que se vêm desenhando nos últimos anos: algumas engenharias da moda rivalizam com os cursos de medicina no topo dos cursos mais pretendidos e, consequentemente, médias de entrada mais elevadas. O “país dos doutores” continua a confiar mais nas universidades do que nos politécnicos: estes são menos pretendidos, deixam vagas por preencher e acabam por ser, muitas vezes, segundas e terceiras escolhas dos candidatos. Continua bem patente o fosso entre o litoral e o interior, abundando aqui os cursos com poucas ou até nenhumas colocações, enquanto em Lisboa e Porto se atingem valores estratosféricos na entrada de alguns cursos.

O país continua a apostar no alargamento do acesso ao ensino superior, que com o actual número de vagas se torna acessível à grande maioria dos alunos que terminam o secundário, No entanto, e paradoxalmente, o regime de acesso promove um sistema de rankings universitários que hierarquiza os cursos e as escolas e, indirectamente, os alunos que as frequentam. Como se disséssemos que, embora todos os alunos possam ir para a universidade, só os diplomas de um punhado de instituições de referência é que serão devidamente valorizados. Sob a capa de um processo de selecção que pretende ser objectivo, transparente e igualitário continuam a cavar-se desigualdades no acesso à educação.

Listas de colocação e notas de candidatura no site da Direcção-Geral do Ensino Superior. Em alternativa, a base de dados do jornal Público facilita, num formato bastante acessível, análises e comparações.

Empatia e integridade

Mais uma vez o ensino privado a dar uma bofetada de luva branca ao ensino público. Os médicos das universidades públicas só estudam e são autênticos robots sociopatas. Este modelo discrimina pessoas de sucesso que passam o seu tempo a praticar boas acções e estão demasiado preocupadas com o destino do Mundo para estudar. Com este modelo, a Dra. Madre Teresa de Calcutá ou o Dr. Bill Gates nunca entrariam em Medicina e ficaríamos privados dos melhores médicos de sempre.

Felizmente, surgiu a Universidade Católica a elevar a excelência dos padrões e a promover a verdadeira meritocracia. Até aqui o curso de medicina estava vedado às pessoas de mérito. De que é que lhes adiantava ter muito mérito se tinham de estudar como os outros para entrar?

A Católica não quer só médicos, quer boas pessoas. É natural que os filhos dos amigos dos administradores tenham uma vantagem, porque conhecem-nos e sabem que os seus pais lhes passaram bons valores.

No seu habitual tom irónico e sarcástico, o Jovem Conservador de Direita aflora, a propósito do novo curso privado de Medicina da Universidade Católica, algumas questões bem pertinentes.

Desde logo, a prevalência de um modelo de acesso ao ensino superior exclusivamente assente nos resultados escolares do ensino secundário. Claro que as exigências e responsabilidades da formação e do exercício da profissão médica justificam a exigência de mérito académico aos candidatos. Mas há pelo menos dois problemas que este modelo de selecção levanta. Um é o de desconsiderar outras qualidades e competências dos futuros médicos que não se revelam através das notas de candidatura. Outro são as distorções que o poder do dinheiro introduz na suposta igualdade existente entre os candidatos: acesso a explicadores, frequência de colégios inflacionadores das notas, etc.

Claro que não é isto que explica os diferentes critérios de selecção que a Universidade Católica anuncia. Sendo a formação médica cara por natureza, o público-alvo do novo curso será formado, não pelos melhores alunos das escolas públicas e privadas, mas pelos que, não tendo alcançado as classificações mais elevadas, dispõem de capacidade económica para pagar as propinas da universidade privada. Sendo assim, é natural que se procure acentuar e valorizar o mérito dos seus alunos noutras áreas, como as competências pessoais e sociais.

Ainda assim, e apesar da enorme procura, a Medicina é uma área profissional especialmente exigente que ao longo de décadas tem atraído “vocações” não apenas dos que querem dedicar a vida a cuidar e a curar os outros, mas também de quem perspectiva uma carreira profissional com trabalho garantido e rendimentos muito acima da média. O que já hoje vemos – e o futuro evidenciará – é que existem outras áreas profissionais onde se pode ganhar tanto ou mais do que a exercer Medicina, sem as responsabilidades e o trabalho, por vezes extenuante, associado à profissão. Como o nosso Jovem Conservador acaba também por intuir…

É claro que, quando eu precisar, prefiro um médico que tenha estudado mesmo. Mas muitas das pessoas empáticas e íntegras que entraram na católica nem sequer se vão tornar médicas. Seguem directamente do curso de medicina para o MBA porque, como pessoas empáticas, vão querer trabalhar onde podem verdadeiramente fazer a diferença. O curso de medicina é um excelente acessório para um gestor, porque revela que essa pessoa coloca a empresa à frente de salvar vidas.

Externato Ribadouro castigado pelo ME

Pautas afixadas com classificações finais diferentes das que tinham sido aprovadas pelos conselhos de turma, dispensa de frequência das aulas de Educação Física sem qualquer justificação, aulas contabilizadas mas que não foram nem sumariadas nem assinadas, incumprimento sistemático de procedimentos obrigatórios na avaliação que põem em causa a fiabilidade das notas atribuídas aos alunos. Estas são algumas das irregularidades encontradas pela Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) no Externato Ribadouro, um dos maiores do Porto, e que tem sido assinalado como um dos que se repete na lista dos maio­res desalinhamentos entre as classificações atribuídas pelos professores da escola e as obtidas pelos alunos nos exames nacionais.

As averiguações da IGEC foram desencadeadas em 2019 na sequência de notícias que davam conta de classificações anormalmente altas a Educação Física, com turmas inteiras a receber notas de 19 e 20 valores, e noutras disciplinas do secundário não sujeitas a exame nacional. As inspeções realizadas originaram três processos: um sobre a administração do colégio, os outros dois sobre a sua diretora pedagógica. O Expresso tem vindo a perguntar qual o resultado destas averiguações e confirmou agora o desfecho: suspensão da responsável de funções por um período de um ano e encerramento do colégio durante um ano, mas neste caso a sanção fica suspensa por dois anos.

As mesmas estatísticas que alimentam a festa anual dos rankings escolares, esmagadoramente dominados pelos colégios de elite, podem servir igualmente para outros fins. Detectar, nomeadamente, desvios significativos entre as classificações atribuídas internamente e os resultados obtidos nos exames nacionais. Ora é neste campeonato que o Externato Ribadouro tem alcançado também os primeiros lugares, ao evidenciar, ano após ano, dos maiores desalinhamentos entre notas internas e externas.

As averiguações da IGEC vieram assim confirmar práticas já conhecidas informalmente, não só entre a população estudantil da cidade do Porto, mas também entre pais, professores e outros intervenientes e interessados pelos assuntos educativos. O Ribadouro construiu a sua reputação de conseguir colocar os alunos nas principais universidades, nos cursos de primeira escolha e a verdade é que, ao longo de décadas, tem sido bastante eficaz nesse objectivo. O que agora se confirma é que pelo menos alguns dos métodos utilizados são batoteiros. E permitiram que alunos desta instituição passassem imerecidamente à frente de colegas de outras escolas, públicas e privadas, com maiores méritos académicos.

O actual ME pode ser acusado de muita coisa, e motivos de crítica não têm faltado ultimamente, mas aqui há que reconhecer: sucessivos governantes passaram pela pasta, mas a actual equipa é a primeira a enfrentar o problema das notas inflacionadas, que inquina por completo o actual sistema de acesso ao ensino superior. Enquanto outros preferiram assobiar para o lado, terá havido instruções claras para a actuação das equipas inspectivas, nesta e noutras escolas onde o desalinhamento de notas era evidente.

Espera-se que as punições agora aplicadas não se fiquem apenas pelo Ribadouro – que sendo o mais emblemático, está longe de ser um caso único – e se estendam a outras escolas, públicas e privadas, onde a existência de práticas desleais e batoteiras na avaliação possa ser comprovada. Mas será que uma acção inspectiva mais atenta, presente e actuante será a solução para corrigir a crescente desigualdade no acesso ao ensino superior?

Tenho fortes dúvidas. A verdade é que o sistema nacional de acesso ao ensino superior, baseado nas classificações do secundário, tenderá sempre a criar um mercado onde actuam dois interesses fortes e convergentes: o dos alunos e famílias dispostos a pagar avultadas mensalidades para obterem idealmente um melhor ensino mas, mais importante do que isso, notas mais altas; e o dos colégios dispostos a recorrer a todos os truques e estratégias para dar aos seus estudantes as médias de que eles necessitam. O que a IGEC examinou, basicamente, foram papéis – actas, sumários, registos de assiduidade, critérios de avaliação – onde encontrou provas de diversas trafulhices. Algo que é feito rotineiramente nas escolas públicas, mas com que se tem evitado incomodar as privadas. Não foi assistir a aulas nem esteve nas salas de exame. O que quer dizer que o Ribadouro poderia ter feito tudo o que ali é prática habitual e não seria apanhado – se tivesse a papelada em ordem!

A acção inspectiva é importante, deve ser feita com regularidade e ir a todas as escolas, mas não chega para corrigir as desigualdades. A aposta crescente na autonomia das escolas, tanto ao nível da flexibilização dos currículos como da definição dos critérios de avaliação é incompatível com uma avaliação nacional em que todos os candidatos ao ensino superior são colocados em pé de igualdade. Um sistema de acesso definido em função do perfil desejável dos estudantes de cada curso superior, e não das notas do secundário, garantiria maior equidade e justiça no acesso aos cursos com maior procura. E iria permitir que o ensino secundário se assumisse como um nível de ensino com objectivos e finalidades próprias – e não como mera antecâmara para preparar e seriar alunos para o ensino superior.

Exames nacionais: a persistência no erro

As provas de aferição de Educação Física e de Expressões Artísticas foram canceladas e, face à alteração do calendário escolar, os exames nacionais foram também adiados — a primeira fase será realizada em Julho (e não em Junho) e a segunda em Setembro (em vez de Julho).

É certo que errar é humano. Mas quando, em lugares de decisão política, os erros se tornam persistentes e repetitivos – sinal de que nada aprendemos com eles – é altura de os responsáveis equacionarem seriamente se estão à altura das suas responsabilidades.

O prolongamento do ano lectivo é a repetição de uma medida que já tinha sido tomada no ano passado, aparentemente sem resultados, pois foi preciso decretar cinco semanas de “recuperação de aprendizagens” no arranque de 2020/21. Pelo que é agora pertinente perguntar: o que se ganha em somar mais seis dias de aulas a um calendário escolar já esticado ao máximo? Irão os alunos, nesses seis dias que empurram o fecho das aulas para Julho, aprender o que não conseguiram em, vamos supor, dois meses de confinamento?

Consequência directa desta semana extra de aulas é empurrar-se de novo as duas fases do calendário de exames para Julho e Setembro, comprometendo com isto o gozo de férias de milhares de professores que terão de assegurar este serviço, e outros que dele dependem, e introduzindo uma pressão suplementar e desnecessária no início do próximo ano lectivo. E pergunta-se: teria de ser assim?

Como é que um ministério tão empenhado em desconstruir currículos, promover flexibilidades e transdisciplinaridades e valorizar “aprendizagens significativas” em vez dos programas curriculares extensos e prescritivos se mostra tão incapaz de, na hora da verdade, questionar o modelo de exames que conservamos há demasiado tempo?

Como levar a sério o discurso da autonomia e da flexibilidade se, na hora da verdade, mais do que salvar o ano lectivo ou a escola presencial, interessa acima de tudo salvar o modelo caduco e ultrapassado de uns exames transformados em clímax e epicentro da vida escolar?

Assim como na generalidade das escolas os horários diferenciados foram a oportunidade para acabar com os toques de campainha, aos quais hoje poucos acham a falta, também o ME poderia aproveitar as contingências da pandemia para aligeirar o monstro burocrático e procedimental em que se transformaram os exames nacionais. Medidas simplificadoras que, não acabando com os exames no final do básico e do secundário – coisa que nunca defendi e, julgo, a maioria dos professores também não pretende -, permitam a sua integração mais harmoniosa no desenvolvimento da vida escolar.

No imediato, seria muito vantajoso, por exemplo, substituir as duas fases de exames por uma fase única com duas chamadas, sendo a segunda apenas para casos de doença ou impedimentos comprovados dos alunos. Isto permitiria encurtar a época de exames, reduzir a carga de trabalhos e burocracias nas escolas e deixaria margem para contingências e imprevistos como os que estão a ocorrer agora devido à pandemia.

A prazo, é todo o modelo de acesso ao ensino superior, construído à volta de exames do secundário convertidos em provas de selecção, que precisa de ser repensado. É mais do que altura de começar a responsabilizar as universidades e os politécnicos pela seriação e selecção dos seus alunos nos cursos onde as vagas disponíveis não chegam para todos os candidatos. No fundo, generalizar uma prática que já vai sendo aplicada num número cada vez maior de situações (DESE, alunos estrangeiros, com mais de 23 anos, oriundos de cursos profissionais…), separando duas realidades distintas que não ganhamos nada em misturar: a conclusão do secundário, um nível de ensino actualmente obrigatório, com objectivos e finalidades próprias, e a candidatura, para quem o desejar, ao ensino superior.

Mais 303 cientistas da educação

Analisando as colocações da primeira fase de acesso ao ensino superior, há algo que me deixa perplexo: cinco licenciaturas em “Ciências da Educação”, que em conjunto recebem 303 novos estudantes.

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Admito no entanto que a minha perplexidade possa causar estranheza: o que leva um professor a desvalorizar o estudo e o ensino das teorias e metodologias da Educação e das suas ligações a outras áreas do saber como a Psicologia, a Sociologia e a História? Acaso pretende, num exercício de anti-intelectualismo, desvalorizar a sua própria profissão, reduzindo-a a uma praxis sem substrato teórico, crítico e reflexivo?

Nada disso. As minhas reticências a estas fornadas de “cientistas” que algumas universidades continuam a formar para o desemprego partem de uma constatação muito simples: não temos, nas escolas portuguesas, vagas para cientistas da educação. Precisamos, isso sim, de professores. E, complementarmente, de psicólogos, terapeutas e outros profissionais qualificados para trabalharem directamente com os alunos, sobretudo os que têm necessidades educativas especiais. 

A habilitação profissional de um professor compõe-se, nos dias de hoje, de uma licenciatura que abrange uma ou várias disciplinas e níveis de ensino que irá leccionar, complementada por um mestrado em ensino – onde se incluirão as ciências da educação e as didácticas específicas. Um cientista da educação poderá ter um saber teórico muito mais aprofundado do que qualquer dos professores que se formaram para dar aulas. Mas não tem uma formação científica que o habilite a ensinar qualquer disciplina.

Ainda assim, dir-me-ão, os teóricos também são importantes. São os investigadores e académicos que irão estudar o passado e o presente da educação e desbravar os novos caminhos da pedagogia, trazendo aos actuais e aos futuros professores as teorias, as reflexões e os conhecimentos que permitirão a inovação e a renovação da prática docente. 

Ora isto é inteiramente verdade. Acontece que, para este fim, não precisamos de formar 300 novos cientistas em cada ano, que não encontrarão lugar no mercado de trabalho.

Para acabar a trabalhar na caixa do Continente ou num call center, será seguramente excesso de habilitações. E como curso de cultura geral, haverá outros, certamente, mais interessantes.

51 mil colocados no ensino superior

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Sem grandes surpresas, saíram os resultados da primeira fase do concurso de acesso ao ensino superior.

Embora continuem a ter médias de entrada acima dos 18 valores, os cursos de Medicina já não estão no topo das médias mais altas, que pertencem a três cursos de Engenharia do Técnico.

Os cursos na área da Saúde estão entre os que exigem notas mais altas, o que sucede também nas áreas da Economia e Gestão, Direito, Arquitectura, entre outras.

Continua a acentuar-se o desfasamento entre litoral e interior, universidades e politécnicos. Há cursos em instituições de ensino superior no interior do país aos quais ninguém se candidatou.

Com cerca de 51 mil estudantes a entrar, 84% dos quais na primeira opção, foi batido o recorde de colocações na primeira fase do concurso. Para a segunda fase sobram cerca de seis mil lugares, a que se devem acrescentar os que são preenchidos por outros concursos, da responsabilidade das próprias instituições de ensino.

Com o processo concluído, deveremos ter em breve a maioria dos estudantes que concluíram o 12.º ano a frequentar o ensino superior, resultado de uma aposta clara no aumento das qualificações dos jovens portugueses.

Para o futuro, dois grandes desafios. O primeiro, apostar no sucesso educativo dos agora caloiros, providenciando quer os apoios sociais de que muitos irão necessitar nesta nova fase das suas vidas, quer uma integração na vida académica que promova o sucesso e não, como tem acontecido a um número significativo, o abandono precoce dos estudos.

O segundo desafio passa pela modernização, o investimento e o crescimento da economia que permita absorver e valorizar os novos formados. Para que as caixas dos hipermercados, os call centers ou a emigração não continuem a ser o destino inevitável de tantos licenciados, mestres e doutores saídos do ensino superior em Portugal.

Tal como se esperava!

hauling_arrow_up_graph_anim_md_wm-Green-Done[1]As notas da 1.ª fase dos exames nacionais do ensino secundário melhoraram em praticamente todas as matérias. As médias sobem até 3,3 valores em disciplinas como Biologia e Geologia, a prova que teve mais inscritos neste ano, ou Geografia A. Também Física e Química (mais 2,2 valores na média) e Matemática A (mais 1,8) têm resultados bastante superiores ao habitual nos anos anteriores. Apenas a Português a média tem uma variação mais próximo do que é habitual, crescendo 0,2 valores.

Claro que esta ilusão com as notas altas não passará disso mesmo, quando os estudantes que delas necessitam verificarem que as médias de entrada nos cursos universitários mais procurados irão subir na mesma proporção.

As notas inflacionadas deste ano eram previsíveis, tanto na avaliação interna como nos exames nacionais – antecipei o fenómeno neste post e analisei-o também aqui.

O assunto traz, naturalmente, pano para mangas, e a discussão durará pelo menos até à saída dos resultados das candidaturas ao ensino superior.

Para já, deixemos a opinião pública digerir o aparente paradoxo de, no ano em que supostamente, e devido ao confinamento, se terá aprendido menos, os resultados escolares no secundário serem os melhores de sempre.

Candidaturas ao ensino superior para alunos dos cursos profissionais

Desinteressa, ou passará despercebido a muita gente, mas as candidaturas ao ensino superior politécnico para alunos oriundos dos cursos profissionais já estão a decorrer. E terminam para a semana. Alertado por um leitor do blogue, fui ver como as coisas estão a decorrer…

Para unir esforços da parte das instituições e facilitar a vida aos candidatos, os politécnicos do Norte do país criaram uma plataforma única, na qual todos os interessados se poderão candidatar.

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Na região Centro, o procedimento foi semelhante. No Sul, embora as instituições trabalhem em rede na avaliação dos candidatos, as candidaturas fazem-se inicialmente nos portais das diversas universidades e escolas superiores.

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O desinteresse da comunicação social – e, aparentemente, da sociedade em geral – por esta via alternativa de acesso ao ensino superior, reservada aos alunos dos cursos profissionais, é revelador: continuamos a ser um país de doutores e engenheiros.

Sobrevalorizamos os rankings das escolas, mesmo quando é evidente que apenas nos revelam o óbvio ao mesmo tempo que desfocam e escamoteiam verdades inconvenientes. Incensamos os exames, não como o instrumento regulador do desenvolvimento das aprendizagens e aferidor do sistema educativo, mas como máquina de classificar e seriar alunos para a entrada nos cursos superiores de maior prestígio – a Medicina, as engenharias da moda e os cursos de gestão patrocinados pelo empresariado do regime.

E, no entanto, o novo sistema de acesso, apesar do universo limitado de cursos e alunos que abrange, traz consigo um enorme potencial de sucesso e de mudança. Responsabiliza as instituições pela admissão dos seus futuros alunos, demonstrando que não há, nas universidades e nos politécnicos portugueses, um qualquer pecado original ou defeito de fabrico que os impeça de fazer bem feito o mesmo que fazem, todos os anos, os seus congéneres estrangeiros.

Esqueçam os rankings. O verdadeiro problema…

…está aqui!universidade

O actual modelo de acesso ao ensino superior, em que os exames nacionais do ensino secundário têm um papel decisivo nas candidaturas dos estudantes, foi estabilizado a partir de 2003. Até então, o processo tinha passado por vários formatos e foi particularmente atribulado durante os primeiros anos da década de 1990. Apenas um factor se manteve inalterável ao longo de todos estes anos: as notas do secundário foram sempre tidas em conta para decidir o futuro dos alunos.

A eterna discussão em torno dos rankings prosseguirá, inconclusiva, enquanto contribuir para que não se discuta o cada vez mais desajustado modelo de acesso ao ensino superior, exclusivamente assente nas notas e exames do ensino secundário.

Este sistema poderia fazer algum sentido na época em que foi criado: era necessário restringir a entrada nas universidades e escolas superiores face ao cada vez maior número de candidatos, o ensino secundário privado era quase residual no sistema e havia uma relativa uniformidade no sistema educativo, tanto no secundário como no ensino superior.

Com o tempo, esta realidade alterou-se. Diversificaram-se percursos escolares no ensino secundário, onde os cursos profissionais, mais orientados para a inserção no mercado de trabalho do que para o prosseguimento de estudos, ganharam importância. A autonomia universitária, a cultura organizacional das instituições, o contexto em que operam e os recursos materiais e humanos de que conseguem dispor têm sido determinantes na diferenciação das cursos superiores. A crescente procura de algumas licenciaturas tem conduzido as médias de entrada a valores muito elevados, criando um mercado florescente para colégios especializados em “meter” alunos nos cursos universitários mais pretendidos. Em contrapartida, o aumento da oferta, em paralelo com a diminuição do número de alunos, que também já começa a afectar o ensino superior, faz com que hoje, em muitos lados, seleccionar alunos deixasse de ser problema: difícil é arranjar candidatos para certos cursos…

Não é por acaso que alguns colégios que surgem entre as dez ou vinte do topo dos rankings aparecem também numa outra lista, menos prestigiante, mas não menos reveladora da natureza do seu “projecto educativo”: a das escolas referenciadas por serem as que mais inflacionam os resultados dos seus alunos. Na verdade, não há milagres: uma média imbatível, que garanta o acesso aos cursos mais prestigiados das principais universidades, só se consegue conjugando as notas máximas – ou o mais elevadas que for possível – tanto na avaliação interna como nos resultados dos exames.

No meio de tudo isto – e este ano, em que os exames deixaram de ser necessários para a conclusão das disciplinas, fica claro como água – temos a avaliação externa do secundário completamente capturada por fins que transcendem por completo os objectivos deste nível de ensino: seriar e seleccionar candidatos ao ensino superior.

É necessário separar a conclusão do secundário – que pode perfeitamente continuar a ter exames finais, mas num modelo mais simples do que o actual, semelhante ao que existe no 9.º ano – da candidatura ao ensino superior. Por mais que se lhe tente fugir, este é o problema incontornável que terá de ser enfrentado. Só assim será possível criar um sistema mais justo e equitativo de acesso, retirando a pressão excessiva que está a ser colocada, todos os anos, sobre alunos e professores do secundário.

Quanto às universidades – pois é aí, e não tanto nos politécnicos, que o problema se põe – está mais do que na altura de assumirem por inteiro as responsabilidades inerentes à autonomia que, legitimamente, têm conquistado. Recrutam docentes, gerem orçamentos e projectos de investigação, seleccionam os candidatos às pós-graduações e aos cursos de mestrado e doutoramento. E não são capazes de se organizar para seleccionar, usando os critérios que julguem mais adequados, os alunos que entram nos cursos em que não há vagas para todos?…