Facilitismo e nepotismo

ferr-gomes.jpgEm artigo de opinião, o professor Ferreira Gomes estabelece uma relação entre as práticas de nepotismo, ultimamente tão debatidas, e o novo regime de acesso ao ensino superior para alunos oriundos dos cursos profissionais, que se anuncia mais facilitista do que o concurso nacional. O raciocínio de base parece-me algo simplista e a conclusão um pouco forçada, mas há alguma pertinência na argumentação apresentada.

Para este professor universitário, os diplomas das universidades e politécnicos só têm valor e fazem sentido se garantirem elevados padrões de exigência na formação dos licenciados e mestres. Só assim se garante a competência dos diplomados que, se não for reconhecida no mercado de trabalho, rapidamente conduzirá a desvalorização dos “canudos” e de quem os possui.

Nessa perspectiva, facilitar o acesso ao ensino superior a estudantes que, por terem feito um percurso no ensino profissional, estarão menos preparados para as exigências do ensino superior, seria uma porta aberta para o abaixamento do nível académico dos cursos e instituições que, carentes de alunos, venham a recorrer ao novo regime de acesso.

E o que tem isto a ver com nepotismo? Para o autor que venho a citar, a ligação é óbvia: havendo cursos superiores que formam e certificam profissionais em várias áreas, torna-se difícil aos decisores públicos justificar a admissão de pessoas das suas relações familiares ou de amizade. Mas quando deixar de ser possível reconhecer a competência de alguém apenas pelo facto de possuir determinada licenciatura, aí a porta fica aberta para todo o tipo de compadrios: se não posso aferir quem é verdadeiramente competente, então emprego as pessoas que já conheço…

Uma organização bem gerida e focada nos resultados seleciona o seu pessoal com base nas competências demonstradas e tendo em vista as tarefas propostas. Isso exige um bom sistema de certificação de competências. Falhando este, voltamos à velha prática de escolher os colaboradores entre os mais próximos de modo a satisfazer expectativas que são legítimas se não for público e notório que outros fariam melhor. Baixando a exigência e a seriedade do sistema de certificação do sistema educativo, estamos a destruir a sua função de ascensor social e a alimentar o nepotismo. Os mais bem relacionados ganharão. Os mais frágeis e socialmente marginais estarão condenados à marginalidade definitiva. É esta a opção que vemos crescer nos dias de hoje. Será este o resultado desejado?

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: Alunos com trissomia 21 chegam ao ensino superior

Não será a primeira vez que estudantes com trissomia 21 ou outros comprometimentos graves ao nível do desenvolvimento intelectual chegam ao ensino superior. Mas julgo que será caso único uma escola superior – neste caso o Instituto Politécnico de Santarém – criar um curso técnico superior especificamente orientado para estudantes com um grau de deficiência intelectual igual ou superior a 60%.

No Fundo: Continuam as agressões a professores

O último caso conhecido aconteceu na semana passada, mas só ontem se tornou notícia. Numa escola do Porto, um rapaz de 12 anos agrediu com murros e pontapés um professor de 63, depois de ter sido repreendido por ter entrado na sala de aula a jogar à bola e partido uma lâmpada. E não foi apenas o acto descontrolado da agressão inicial, um pontapé nos testículos que deixou o professor prostrado a contorcer-se de dores. Posteriormente o aluno voltou à carga, esmurrando o docente e saindo da sala a gabar-se de ter “partido o focinho” ao professor.

Com trissomia 21 no ensino superior

tr21.JPGHá uma experiência interessante e inovadora a decorrer no Politécnico de Santarém: um curso superior em literacias digitais destinado exclusivamente a alunos portadores de deficiência.

O curso é de curta duração – dois anos lectivos, sem conferir grau de licenciatura – e o acesso é feito através das vias habituais nestas formações, que dispensam as formalidades exigidas para ingresso nas licenciaturas e mestrados integrados.

Para os jovens envolvidos, o desafio é grande, mas a superação das dificuldades insuflará certamente a sua auto-estima e, espera-se, poderá abrir-lhes perspectivas no mercado de trabalho. Na verdade, a criação de ambientes escolares cada vez mais inclusivos e o alargamento da escolaridade obrigatória têm fornecido um porto seguro aos jovens portadores de deficiência física ou mental. Mas, a partir dos 18 anos, a falta de respostas educativas e de saídas profissionais é um problema crescente.

Está agora muito em moda tecer loas à escola inclusiva. Mas a verdade é que se a própria sociedade não promover activamente a inclusão, a todos os níveis, de pouco servirão os esforços que as escolas e os professores são diariamente exortados a fazer.

Felicidade. É o sentimento que alunos, pais e professores mais evocam quando falam do que têm vivido desde que, em Outubro passado, a Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Santarém abriu uma formação destinada a estudantes com trissomia 21, uma experiência que o ministro do Ensino Superior desafia os outros politécnicos a seguir.

É um curso de dois anos de Literacia Digital para o Mercado de Trabalho, que não confere um grau académico mas prepara os seus alunos para terem um emprego no futuro. “É o sonho de todos os que têm filhos”, testemunha a mãe de uma das alunas do curso, que nesta terça-feira foram mostrar ao ministro Manuel Heitor o que já aprenderam em quase dois semestres do curso.

Este “sonho” de ter filhos a trabalhar é particularmente difícil de concretizar para quem é pai de alguém com síndroma de Down. Como também é o de lhes garantir o acesso ao ensino superior. Por isso, a emoção trespassou muitos dos curtos testemunhos apresentados pelas mães que acompanharam os filhos ao ministério da Ciência e do Ensino Superior, onde também deram conta do aumento da auto-estima que têm visto neles desde que a aventura de Santarém começou.

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: Novo regime de acesso ao ensino superior para alunos dos profissionais

O Governo anunciou que irá ser criado um novo regime de acesso ao ensino superior, para alunos dos cursos profissionais, que dispensa a realização de exames nacionais. A notícia divide o mundo da Educação e nem todos, por certo, a aprovarão. Ela parece confirmar a via de um certo facilitismo como opção para resolver problemas complicados no sector da Educação. Mas também se pode perguntar se é justo impor, aos candidatos oriundos dos profissionais, regras que os colocam em desvantagem relativamente aos colegas dos cursos científico-humanísticos…

No Fundo: O PSD a roer a corda… aos professores

No rescaldo da manifestação nacional de professores do passado sábado, as atenções de quem não desiste da recuperação integral do tempo de serviço centram-se agora no Parlamento. Onde a apreciação do decreto governamental e a votação da ILC sobre a matéria já têm data marcada: 16 de Abril.

Entrar na universidade pela porta do cavalo?

porta-traseira.JPGAlunos do profissional vão poder entrar na universidade sem exames

Em vez de terem de fazer exames nacionais como provas de ingresso – que acabam por ser um dos maiores obstáculos por se realizarem, por vezes, em disciplinas que não tiveram – os estudantes apenas terão de cumprir os critérios definidos por cada instituição.

A novidade, adiantada pelo ministro do Ensino Superior, ainda está a ser discutida no seio do Conselho Coordenador do Ensino Superior (CCES). Mas há dois princípios já estabelecidos, diz Manuel Heitor. Em primeiro lugar, esta via de acesso destinada a alunos do profissional será realizada no âmbito dos chamados concursos locais, que são específicos para cada instituição, ao invés do concurso nacional de acesso. E poderão ser realizados tanto pelos politécnicos como pelas universidades, acrescenta. No fundo, trata-se de um regime semelhante ao que já é aplicado para o ingresso de estudantes internacionais ou para os maiores de 23 anos.

A definição deste novo regime deve estar concluída até final de abril. A ideia é alargar a base de acesso ao ensino superior. Sendo que a margem maior de aumento se encontra precisamente entre os jovens que frequentam o ensino profissional.

Ao contrário das reformas eduquesas do básico e do secundário, que vão fazendo ao sabor dos ventos que sopram da OCDE, as mexidas no ensino superior prosseguem objectivos bem definidos, em conjugação com os interesses das instituições e dos que lá trabalham. Entre eles, há um que o declínio demográfico das últimas décadas colocou no topo das prioridades: aumentar a frequência do ensino superior. O que, havendo cada vez menos jovens, só se consegue facilitando o ingresso de uma maior percentagem dos jovens que anualmente concluem o secundário.

A avaliar pelo que agora se anuncia, o novo regime que se encontra em estudo, podendo envolver algum facilitismo, não me escandaliza. Há muito que defendo que deveriam ser as universidades e os politécnicos a seleccionar os seus alunos, em vez de transferirem esse pesado encargo para os professores do secundário. E deve reconhecer-se que é injusto e discriminatório exigir aos alunos dos cursos profissionais a realização de exames  a disciplinas que não tiveram, ou feitos com base em programas diferentes dos que seguiram nos seus estudos.

Acrescente-se ainda mais isto: da forma como é apresentada, esta nova modalidade de acesso não irá concorrer directamente com o concurso nacional. Não seduzirá, certamente, as universidades mais procuradas, nem se aplicará aos cursos com média de entrada mais elevada, que todos os anos deixam alunos de fora. Será sobretudo uma forma de preencher vagas que não serão ocupadas nas sucessivas fases do concurso e que de outra forma acabariam por ficar desertas.

Resta a questão de determinar se os alunos que ingressarem por esta via estarão efectivamente preparados para as exigências do ensino superior. Hão-de estar, presumem governantes, reitores universitários e presidentes dos politécnicos. A verdade é que, quando se procuram alunos a todo o custo, a qualidade deixa de ser problema…

Estudantes do secundário em manifestação

obras.JPGSão, obviamente, livres de se manifestarem. Mas não sei até que ponto a agenda das associações de estudantes que convocaram para hoje uma manifestação em Lisboa reflecte apenas as aspirações estudantis. Ou se não haverá, pelo contrário, a presença de alguma inspiração político-partidária…

Os estudantes da Escola Secundária de Camões e de outras escolas de Lisboa e do país reclamam, justamente, pela falta de obras e de funcionários em muitas escolas. Mas quando exigem o fim dos exames e a “democratização” do acesso ao ensino superior, querem exactamente o quê?

A verdade é que os exames do secundário funcionam – mal – como critério de ordenação e selecção de alunos para o ingresso nas universidades e politécnicos. Mas pretender o seu fim implica optar por outra forma de selecção dos estudantes nos cursos e instituições mais procurados. Ou então, demagogicamente, achar que é possível abrir todos os anos, em todos os cursos, um número de vagas igual ao de candidatos. Em nome, quer-me parecer, de uma noção mal compreendida do que é a democracia…

“O que deve ser valorizado na escola é trabalho contínuo dos alunos”, defende o presidente da associação de estudantes do antigo Liceu Camões, Simão Bento. Por isso, querem que o Governo acabe com os exames nacionais no ensino secundário e que seja também promovida uma democratização do acesso ao ensino superior.

Quase no final da legislatura, o presidente da associação de estudantes da secundária lisboeta reconhece que o “balanço é positivo”, mas critica o Governo por “nem sempre ter as melhores prioridades”. “Vão milhões de euros par os bancos e para a NATO e não há dinheiro para as escolas”, lamenta Simão Bento.

A “falta de obras” em várias escolas básicas e secundárias e a “falta de funcionários” são, para o dirigente estudantil, exemplo do “pouco investimento no sector”. As condições físicas dos estabelecimentos de ensino estão mesmo na origem do protesto desta quarta-feira. Em Janeiro, os alunos do antigo Liceu Camões fizeram uma manifestação devido aos atrasos nas obras naquela escola, lançando depois de um manifesto nacional – que incluiu outras bandeiras como a redução do número de aluno por turma ou o fim do processo de transferência de competências na área da Educação para as autarquias – que foi subscrito por 50 associações de estudantes de todo o país.

A manifestação dos alunos do ensino secundário em Lisboa acontece esta quarta-feira, antecipando o Dia Nacional do Estudante, que se comemora no domingo. Os estudantes marcaram encontro às 10h30 na praça do Marquês de Pombal, rumando depois à residência oficial do primeiro-ministro. No protesto vão estar representadas cinco escolas de Lisboa e duas de Loures. Em aberto está ainda a possibilidade de o protesto ser replicado no Porto, em Leiria e no Seixal.

Fraude no acesso à universidade

stanfordA notícia já tem alguns dias, mas as ondas de choque continuam a propagar-se por terras do Tio Sam. Num país que gosta de acreditar na meritocracia, na igualdade de oportunidades e noutras fábulas neoliberais, descobrir que os ricos, além de serem naturalmente beneficiados no acesso à Educação, ainda fazem batota quando nem tudo corre de feição, é naturalmente perturbador…

Meia centena de pessoas foram acusadas, nesta terça-feira, de envolvimento num gigantesco esquema fraudulento que garantiu a entrada a inúmeros alunos em universidades conceituadas dos Estados Unidos — como Yale, Stanford, Georgetown, a Universidade do Sul da Califórnia (USC) e a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) — através do pagamento de milhões de dólares.

Entre figuras de Hollywood e directores executivos de grandes empresas, pelo menos 33 pais são acusados de terem pago elevadas quantias para garantir que os seus filhos eram aceites em determinadas universidades dos EUA, segundo a acusação judicial agora conhecida. Mas no esquema estariam também envolvidos treinadores desportivos de universidades de topo, que são acusados de aceitar subornos de milhões de dólares para garantir que determinados alunos fossem aceites nas instituições de ensino, ao abrigo de programas teoricamente reservados para jovens atletas promissores, acabando por acolher estudantes que não preenchiam os requisitos académicos e atléticos necessários.

Segundo o diário New York Times, este é o maior processo relacionado com candidaturas universitárias alguma vez movido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. A investigação mobilizou 200 agentes a nível nacional e resultou em acusações contra 50 pessoas em seis estados norte-americanos.

O ensino superior dos EUA, embora de qualidade mundialmente reconhecida, sobretudo nas suas instituições de topo, é um sistema duplamente elitista: no acesso às universidades mais prestigiadas, onde os candidatos excedem largamente as vagas disponíveis e nos valores proibitivos das propinas cobradas, dificultando o acesso, não apenas aos pobres, mas também a quase todos os que não fazem parte daquele 1% da população norte-americana para quem o dinheiro nunca constitui problema.

A mega-fraude no acesso às universidades está a ter ampla discussão e diversas leituras. Do que li, partilho convosco um excerto da que me pareceu mais pertinente, incisiva e esclarecedora.

Os filhos da classe trabalhadora aprenderam uma lição brutal esta semana, quando os procuradores federais acusaram criminalmente pessoas ricas de comprar o ingresso em universidades de elite para os seus filhos não-tão-brilhantes.

A lição é que não importa o quanto trabalhes duro, não importa o quão inteligente ou talentoso fores, porque no fim um garoto burro, preguiçoso e rico vai-te vencer.

É crucial que todos os que não são estrelas de cinema, gestores de fundos de risco ou executivos – ou seja, 99% de todos os americanos – vejam o escândalo das admissões na faculdade pelo que ele é realmente: um microcosmo do mais vasto e corrupto sistema que funciona contra os trabalhadores, esmagando as suas oportunidades de progredir.

Esse sistema é o motivo pelo qual as pessoas ricas e as corporações receberam cortes fiscais massivos no ano passado, enquanto para os 99% eles foram insignificantes. É a razão pela qual o salário mínimo federal e o limite de horas extraordinárias estão fixos em níveis de pobreza. É a razão pela qual os sindicatos diminuíram nas últimas quatro décadas.

Este sistema é a razão pela qual não podemos ter coisas boas. Apesar de toda essa treta da terra da igualdade de oportunidades, os ricos garantem que só eles podem ter coisas boas, começando com o que podem comprar legalmente e ilegalmente para seus filhos e continuando com o que podem comprar legalmente e ilegalmente aos políticos que fazem as regras que tiram dinheiro dos bolsos de trabalhadores e o depositam nas contas bancárias dos fabulosamente ricos.

Quando o mentor do esquema de admissão em universidades de elite, William Singer, se declarou culpado esta semana, ele expôs a plataforma de lançamento disponível para os bem sucedidos garantirem que seus filhos serão bem sucedidos. Mesmo depois que os ricos pagarem para os seus herdeiros frequentar academias preparatórias proibitivamente caras, as suas notas, os resultados de testes e as actividades extra-curriculares podem não ser suficientes para entrar nas universidades da Ivy League, nas quais um diploma praticamente garante uma posição bem paga em Wall Street e, com isso, uma nova geração de acumulação de riqueza.