Processo disciplinar por inflacionar notas

ribadouro[1]Este ano, as suspeitas sobre a atuação do Externato originaram já dois processos de inquérito, conduzidos pela Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) e foram recentemente concluídos. Um aguarda decisão da tutela, o outro levou à abertura de um processo disciplinar à diretora pedagógica da escola, avança o Expresso.

Neste último, está em causa, de acordo com o semanário, a atribuição de um “número significativo de classificações elevadas em disciplinas do 12º ano não sujeitas a exame nacional”, explica o Ministério da Educação.

Contudo, esta concentração de notas altas verificou-se também em turmas do 10º ano, em Educação Física, a disciplina que voltou a contar para a média final do secundário e, consequentemente, para o acesso ao ensino superior.

A inflação de notas no Ribadouro é conhecida há muitos anos e constitui uma das principais razões do sucesso deste “projecto pedagógico” entre alunos do secundário com aspirações de entrar nos cursos superiores que requerem médias mais elevadas. E com famílias suficientemente abonadas para pagar as avultadas mensalidades…

Perante a dimensão de uma prática que está longe de ser única, mas que acabou por ter aqui bastante visibilidade, o ME decidiu investigar o que se passa. E agora, terminado o inquérito, terá de fazer alguma coisa com os resultados apurados.

A verdade é que não me parece que se possa fazer grande coisa. E que qualquer punição mais do que simbólica irá provavelmente esbarrar na barra dos tribunais, onde dificilmente terá pernas para andar. O problema de fundo reside noutro lugar – o peso excessivo das classificações do secundário nas médias de candidatura ao ensino superior – e enquanto as escolas souberem que podem beneficiar os alunos com uma avaliação benevolente, a inflação das notas será uma tentação natural. Quando disso depender a rentabilidade do negócio, como sucede nos colégios que exploram este nicho de mercado, será mesmo uma inevitabilidade. Por outro lado, a prática está longe de se circunscrever ao Externato Ribadouro. O fenómeno é detectado estatisticamente em muitas escolas, públicas e privadas, sobretudo no norte do país, onde a pressão das notas altas para entrada na universidade é superior.

E como se pretenderá punir e corrigir estas situações? Repare-se que a matéria de facto em apreciação parece prender-se com as notas elevadas em Educação Física e outras disciplinas não sujeitas a exame nacional. Ora nestas disciplinas todas as escolas costumam ser mais generosas na avaliação, uma vez que a nota atribuída não irá ser confrontada com o resultado de um exame nacional. Posto isto, o que se considerará aceitável? Pautas com os alunos todos corridos a dezanoves e vintes não pode ser. E se baixarem a fasquia do mínimo para 15 ou 16, já será aceitável? E onde é que uma coisa ou outra se encontram escritas?…

A verdade é que não há tradição recente, nas escolas portuguesas, de puxar para baixo as notas dos professores. Depois de décadas a pressionar a classe docente a não “chumbar” alunos e a promover uma melhoria constante dos resultados escolares, ir-se-ão agora definir quotas para as notas de mérito na avaliação dos alunos, como já se faz na dos professores?…

Finalmente, nada disto se compagina com a autonomia das escolas, a flexibilidade curricular ou o perfil do aluno. O resultado lógico de uma escola e um currículo ajustados à individualidade do aluno, tornado centro da aprendizagem, é precisamente a excelência das classificações obtidas. Se se convidam as escolas e os professores a descobrir novos e diferenciados caminhos pedagógicos para o sucesso, que sentido faz impor, no final, uma normalização forçada e uniformizadora dos critérios de avaliação?

Porque é que não foste para Medicina?

francisca-fcsh.JPGÉ a pergunta recorrente que é feita a jovens como a Francisca, candidata ao ensino superior com média de 20 valores. Poderia, obviamente, entrar no curso que desejasse, incluindo Medicina e as engenharias físicas ou aeroespaciais actualmente em voga. Escolheu Comunicação Social.

Francisca Dias tem 18 anos e uma média de 20 valores. A jovem, da Figueira da Foz, vai ingressar este ano na licenciatura em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova, em Lisboa, avança a SIC Notícias.

O curso tem uma média de 17,2 valores, quase menos três do que a nota de candidatura apresentada por Francisca.

“Para este curso podia ter feito menos mas sempre quis dar o meu melhor. E o meu objetivo era mesmo tentar entrar com o 20, ter a nota máxima”, explica ao canal.

A verdade é que há um problema sério de empregabilidade que atinge os jovens diplomados portugueses. À excepção de um número restrito de áreas onde a falta de profissionais qualificados é notória, a maioria dos recém-formados tem dificuldade em encontrar um emprego compatível na área em que se formou. Muitos só o conseguem emigrando; outros ficam por cá em empregos precários e mal pagos. Cada vez mais jovens prosseguem os estudos em direcção ao mestrado, ao doutoramento e ao pós-doutoramento, não porque tenham real vocação de cientista ou investigador, mas como estratégia de fuga ao desemprego.

Neste cenário, a Medicina tem sido identificada como uma profissão segura: o emprego é garantido, as oportunidades de carreira são muitas e diversificadas, os ordenados muito superiores à média das restantes profissões. Daí a considerar-se que qualquer estudante com média acima dos 18 valores deveria aproveitar a oportunidade e nem pensar duas vezes na escolha do curso: se tem média para Medicina, é Medicina!…

Nem todos pensam, felizmente, dessa forma, e talvez isso nos livre de termos, dentro de algumas décadas, a profissão médica recheada de profissionais bem sucedidos financeiramente mas sem autêntica vocação e motivação para corresponder às exigências da profissão.

Francisca escolheu estudar aquilo de que gosta, como se espera que façam cada vez mais jovens no nosso país, agora que aumentar a frequência do ensino superior parece ter-se tornado uma prioridade nacional. Uma aposta que traz, contudo, dois desafios.

Às universidades e politécnicos, para que os cursos não sejam pensados apenas na perspectiva de assegurar o lugar aos docentes das instituições, mas tenham em conta as reais necessidades dos estudantes, a qualidade e exigência da formação e a futura empregabilidade.

Às empresas, aos governantes, à sociedade, para que se criem condições de investimento e desenvolvimento económico e social que permitam que as novas e cada vez mais qualificadas gerações possam dar o seu contributo efectivo ao progresso do país.

Siza Vieira sem lugar na universidade

O mais distinto arquiteto português não teria entrado na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, se fosse um jovem estudante do Ensino Secundário nos nossos dias. Álvaro Siza chegou à Faculdade de Belas Artes, após a realização de uma prova de ingresso em que tirou 14 valores – recorda o arquiteto, num trabalho publicado domingo na revista “Notícias Magazine”.

Uma nota mediana portanto, limitadora de acesso a qualquer um dos cursos que auspiciam um futuro de sucesso. Assim, Álvaro Siza não entraria na Universidade do Porto: o último aluno do curso, em que o autor do projeto do Museu de Serralves foi professor e marcou gerações de arquitetos, entrou com 17,7 valores.

A classificação modesta aos níveis de hoje, como sabemos, não ofuscaria o brilhantismo ao nosso primeiro Pritzker. Este caso singular devia servir de reflexão a quem insiste em manter o método de acesso ao Ensino Superior, feito com base em critérios quantitativos, baseados na média obtida ao longo do ano e dos exames finais.

A questão suscitada por Paula Ferreira vem sendo longamente discutida, embora ainda sem consensos à vista: devem os candidatos ao ensino superior ser seleccionados por notas académicas que, sobretudo nos cursos de maior procura e médias mais altas, nem sempre reflectem um melhor perfil e uma real vocação para o curso pretendido? Se quase todos reconhecem que o actual sistema está longe da perfeição, o problema é que as alternativas, nomeadamente entrevistas ou outros processos de candidatura igualmente permeáveis à subjectividade de critérios e à influência da muito portuguesa “cunha”, poderão revelar-se ainda mais injustos.

Quanto ao caso concreto que serve de mote à crónica do JN, há desde logo uma observação que deve ser feita, e que tem a ver com o fenómeno de inflação de classificações que se tem operado ao longo das últimas décadas. A verdade é que um 14, no tempo de estudante de Siza Vieira, equivaleria hoje, provavelmente, a um 16 ou um 17, pelo menos. Era o tempo em que só muito excepcionalmente os professores mais generosos atribuíam um 18, sendo o 19 e o 20, regra geral, inacessíveis aos alunos.

Mas há outra questão ainda mais pertinente: o Siza Vieira dos nossos dias, potencial arquitecto de génio com apenas 14 valores de média de candidatura, não entraria, como já sabemos, na Faculdade de Arquitectura do Porto:

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Mas acederia facilmente ao mesmo curso na Universidade de Lisboa, acessível a qualquer aluno com a nota mínima. E mesmo assim ficaram 46 vagas por ocupar – o valor mais elevado entre todos os cursos superiores universitários nesta primeira fase de colocações.

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É verdade que o maior número de vagas abertas em Lisboa explica em parte esta diferença nas médias. Mas não chega para justificar uma tão grande discrepância de procura entre dois cursos idênticos de universidades igualmente prestigiadas. Como é possível que seja preciso uma média de 17,7 para conseguir entrar no Porto, enquanto em Lisboa ficam vagas por preencher? Será o curso no Porto assim tão extraordinário e o de Lisboa tão medíocre para que esta situação extrema se verifique? E se assim é, como é que isto não acontece noutros cursos superiores?

Há aqui um problema cuja dimensão vem aumentando de ano para ano e que radica na ideia que vem sendo criada de que há bons e maus cursos superiores. A obsessão dos rankings há muito que tomou o ensino superior e o resultado está à vista: instalou-se a ideia insidiosa de que as pessoas não valem pelo que são, pelo investimento pessoal que fizeram na sua formação, pelo seu trabalho, pela sua experiência profissional e de vida, mas pelo prestígio da instituição que as formou. O meu sucesso ou o meu fracasso profissional deixam de depender de mim, para passarem a estar vinculados à escolha crucial que faço de um curso e uma escola superior que me garantam o futuro.

Há um discurso e uma praxis em torno do ensino superior que nos conduz a algo que é o oposto da meritocracia – e que deveria ser, essa sim, o valor essencial numa economia que se quer moderna, inovadora e competitiva. Em vez disso, vemos famílias a empobrecer e a endividar-se para conseguir que o filho faça o curso longe de casa, naquela faculdade que garantem ser a melhor. E empregadores a questionar candidatos promissores, perante o que consideram ser uma falha curricular: tem aqui tão boas referências – porque é que não foi estudar para a universidade x?…

Cada vez mais alunos no ensino superior

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Não houve grandes surpresas nos resultados da primeira fase de candidaturas ao ensino superior. A Medicina e as engenharias da moda continuam a liderar as preferências dos estudantes e, como tal, a ter médias de entrada mais elevadas. Os exames um pouco mais fáceis deste ano, que beneficiaram a maioria dos candidatos, determinaram a subida das médias no acesso à maior parte dos cursos. Quanto ao aumento de procura nalgumas áreas de estudos, ele notou-se também nos cursos de formação de professores.

Os cursos de formação de docentes recuperaram alguma capacidade de atração de candidatos ao ensino superior, incluindo em primeira opção, numa altura em que se acentuam preocupações com o número de professores que as escolas têm vindo a perder.

De acordo com os dados oficiais hoje divulgados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), é notória uma recuperação no interesse por cursos de formação de professores, que tiveram 739 candidatos em primeira opção – mais do que os 519 candidatos de 2018, mas ainda abaixo dos 853 de 2017 — e 823 colocados, acima dos 693 de 2018.

Sobraram 364 vagas das 1.181 levadas a concurso para cursos de formação de professores.

No final das três fases do concurso, estarão colocados mais de 50 mil estudantes nas universidades e politécnicos portugueses, aos quais haverá a somar mais uns milhares que entrarão no ensino superior através de outras modalidades de acesso. Tendo em conta que concluem o 12.º ano, anualmente, cerca de cem mil alunos, é fácil concluir, intuitivamente, algo que as estatísticas oficiais só nos revelarão daqui por um ou dois anos: a maioria dos jovens nascidos no início do milénio frequentarão o ensino superior.

É uma boa notícia para as instituições de ensino superior, também já a braços, algumas delas, com a falta de alunos, mas igualmente uma realidade a que subjaz uma questão difícil de responder: irá esta forte aposta na qualificação das novas gerações traduzir-se numa economia mais próspera e competitiva, capaz de tirar partido do potencial humano que o sistema educativo vai gerando, numa sociedade mais coesa e igualitária e num desenvolvimento social e humano de que beneficiem efectivamente todas as camadas da população?

Ou continuaremos no pântano, a cumprir a vocação, tardiamente descoberta, de fornecedores de mão-de-obra altamente qualificada às principais economias europeias?…

A culpa é dos exames?

exames0_lv[1]Há quem pague 200 euros por mês em explicações. A “culpa” é dos exames

Professores e investigadores defendem que os exames, que caracterizam o actual modelo de acesso ao ensino superior, são o que alimenta o mercado de explicações. Quem pode pagar tem acesso. Quem não pode fica para trás.

A manchete do Público suscita diversas dúvidas e inquietações. Mesmo sem ler a notícia por inteiro – na versão online só está disponível para assinantes – julgo que o raciocínio proposto não tem muito que enganar: para entrar na universidade é preciso obter boas notas nos exames, o que os mais abonados conseguem recorrendo a explicações. Quem não tem dinheiro é, por isso, discriminado. E nos cursos universitários com maior procura estão, já o sabemos, sobre-representados os alunos das classes alta e média alta.

Aparentemente, pensará o leigo na matéria, se são os exames que fomentam a desigualdade, então bastaria acabar com eles para exterminar também o maléfico e dispendioso “mercado de explicações”. Mas será que isto resolveria o problema? Como se faria então o acesso ao ensino superior? Apenas com as classificações internas do secundário? Ou com um novo modelo de exames, centrado nas instituições de ensino superior?

Claro que, havendo exames, estes criarão sempre procura para um negócio assente na preparação para os mesmos. E enquanto houver cursos superiores com cem vagas e mil candidatos será sempre necessário um mecanismo de selecção para decidir quem entra e quem fica de fora. Não sendo perfeitos, os exames têm-se revelado, apesar de tudo, um método de ordenação e selecção de candidatos mais justo e equitativo do que as classificações internas, sujeitas à aplicação de diferentes critérios de avaliação e níveis de exigência de escola para escola, ou a subjectividade das entrevistas, das “cartas de motivação” ou de outros métodos de recrutamento mais “personalizados”  – e permeáveis à cunha.

Pelo que a forma que o Público encontrou para pegar no tema – culpar os exames e as explicações pela desigualdade no acesso ao ensino superior – sendo fácil e demagógica, é a que menos ajuda a compreender a realidade. E a realidade tem muitas nuances.

Passa, por exemplo, pela dificuldade que as escolas continuam a ter em reduzir ou desdobrar turmas para apoiar e recuperar alunos ou grupos de alunos com dificuldades específicas em determinadas matérias.

Mas, quando as escolas conseguem superar obstáculos e criar salas de estudo ou aulas de apoio, não é raro os alunos com dificuldades e as suas famílias rejeitarem-nos.  Prefere-se pagar uma explicação do que obtê-la gratuitamente através da escolaAparentemente, o que não é pago não é valorizado, o que também se vê na diferença da postura de muitos alunos quando passam da aula de apoio na escola pública para a explicação privada…

E que dizer das famílias, que mais depressa pagam explicações aos filhos do que lhes fazem ver que, se estiverem atentos e participarem nas aulas, se estudarem com regularidade e fizerem os trabalhos propostos, então poderão ser bons alunos sem necessidade de explicações individuais. É uma realidade visível em muitas escolas secundárias, incluindo algumas que integram os primeiros lugares dos rankings, haver alunos que distraem os colegas e perturbam as aulas, porque acham que não precisam de se estar atentos: o explicador logo lhes explicará, individualmente, aquilo que o professor tenta ensinar a toda a turma. Numa sociedade crescentemente egoísta e materialista, o sucesso que se compra parece valer mais do que aquele que se consegue pelo trabalho e pela valorização pessoal.

O sucesso das explicações e dos centros de estudo passa igualmente pelo facilitismo que se está a promover no sistema de ensino, em que os alunos transitam de ano sem precisarem de evidenciar conhecimentos sólidos sobre as matérias que aprenderam. Quando, já no secundário, se mostram ambiciosos em relação ao curso superior pretendido é que se apercebem da falta de conhecimentos e competências de base que evidenciam – e as explicações surgem como a solução que permite remediar o mal e almejar melhores resultados académicos no futuro. Claro que nem todas as famílias podem as pagar. O que demonstra algo que alguns “velhos do Restelo” vêm alertando há muito tempo: o facilitismo prejudica sobretudo os mais pobres – é uma ilusão acreditar que lhes facilitará a vida…

A picareta falante da Educação

joao-costa.JPGPortugal tem uma evolução, na educação, admirável. Temos 45 anos de escola democrática e o que foi conseguido é muito, embora por vezes não tenhamos noção disso. Estamos sempre a falar mal das escolas, dos professores, dos alunos e dos pais, mas as taxas de escolarização, alfabetização, insucesso escolar e abandono precoce têm evoluído de forma notável. Temos muitas conquistas: basta ver que, por exemplo, hoje, as taxas de frequência dos ensinos secundário e superior são extremamente mais elevadas do que antes do 25 de Abril. Temos, contudo, ainda questões para resolver e uma delas é o facto de sermos um dos países onde os alunos reprovam mais: o cerne da questão não é a retenção por si só, mas sim o facto de esta estar associada à condição socioeconómica dos alunos. Ou seja, o insucesso escolar é um problema de justiça social porque já respondemos bem aos mais favorecidos e não encontrámos resposta para aqueles que mais precisam da escola.

A extensa entrevista de João Costa ao jornal i soa já a final de mandato. O secretário de Estado da Educação faz o balanço das realizações do governo na área educativa, destacando naturalmente aquelas em que esteve especialmente envolvido, como é o caso do novo regime de inclusão e da flexibilidade curricular. Evoca os tímidos passos do ME naquilo que seriam medidas correctas e urgentes, mas que ficaram no campo das boas intenções ou com uma realização meramente simbólica: a diminuição do número de alunos por turma e a contratação, em tempo útil, de mais assistentes operacionais, técnicos especializados e professores de apoio.

João Costa é um herdeiro à altura da velha tradição socialista das picaretas falantes: tem um discurso fluente, lógico, articulado. O que ele diz soa bem e parece bem. Qualquer um que não saiba da barracada que está a ser a implementação forçada da flexibilidade curricular nas escolas compra facilmente a conversa deste quase-ministro da Educação. O problema maior está, parece-me, naquilo que Costa não diz.

A indisciplina, por exemplo, continua a ser um problema grave em muitas escolas, convenientemente varrido para debaixo do tapete. Mesmo admitindo que novas pedagogias e aprendizagens mais dinâmicas e flexíveis podem reduzir as tensões, é um engano pensar que resolvem os problemas de fundo que estão por detrás dos comportamentos disruptivos. Não é uma questão de aulas mais ou menos “chatas”, mas de alunos que se recusam a cumprir regras e a respeitar colegas e professores. De famílias que compactuam ou que estão na origem dos maus comportamentos. E de falta de meios e recursos adequados nas escolas onde estes alunos tendem a concentrar-se.

Os professores, por outro lado, continuam a ser uma classe profissional desprezada pela tutela. Embora em abstracto possam não se negar elogios ao seu trabalho, no concreto o que vemos é a continuidade de uma política de menorização e proletarização da classe. Em vez de interlocutores e parceiros nas reformas que se pretende realizar, o que se quer são trabalhadores obedientes, que cumpram sem questionar as directrizes ministeriais. Em vez de respeitar e valorizar uma carreira que, na sua actual configuração, foi definida por um outro governo socialista, aposta-se no roubo de tempo de serviço e nas barreiras à progressão para conseguir o que interessa acima de tudo: professores mais baratos.

Para o final da entrevista, Costa evoca um velho problema do nosso sistema educativo; o regime de ingresso no ensino superior e a forma como subordina e instrumentaliza o ensino secundário e em particular os exames nacionais deste nível de ensino. Que em vez de cumprir finalidades próprias, parece existir apenas para servir de antecâmara do superior.

…o ensino secundário está completamente refém do acesso [ao ensino superior] e deve haver um debate profundo, calmo e onde se oiça todas as partes: os alunos, os professores, os pais e até outros países. Andamos sempre a dizer que as situações não estão bem, mas não as corrigimos. Isto tem de mudar.

Não defendendo o fim dos exames do secundário, concordo com a ideia de desligar a conclusão do secundário da candidatura ao superior. E pego nas palavras de João Costa para lançar o repto: se querem um debate com todas as partes, que tal começar já, o partido no poder, por divulgar a sua ideia sobre o assunto, para irmos pensando com calma? E para sabermos com o que contar, antes de irmos a votos…

Digam-nos alguma coisa que a gente não saiba…

edulogAs universidades portuguesas reproduzem as desigualdades sociais e económicas das famílias. Os alunos de famílias com mais recursos económicos e cujos pais têm mais habilitações académicas entram em cursos com mais prestígio e notas mais elevadas, enquanto os estudantes vindos de famílias com dificuldades económicas e cujos pais têm menos formação optam por cursos com cotas mais baixas e cursos técnicos. Estas são as principais conclusões do estudo A Equidade no Acesso ao Ensino Superior, realizado pelo Edulog, think tank da Fundação Belmiro de Azevedo, que será apresentado esta quarta-feira em Matosinhos.

As qualificações dos pais e das mães dos estudantes e a percentagem de alunos que recebem bolsas de ação social foram os dois indicadores usados neste estudo com coordenação científica de Alberto Amaral.

De acordo com o Público e com o Jornal de Notícias, as conclusões são muito claras: os estudantes oriundos de famílias com níveis de escolaridade mais altos vão sobretudo para as universidades e não para os institutos politécnicos, e optam por cursos com mais prestígio (como medicina e engenharias).

Com o ar de quem nos está a dar grandes novidades, o tanque-de-pensar do grupo SONAE dedicado aos temas educativos informa que os jovens oriundos das classes mais favorecidas têm mais e melhor acesso aos cursos superiores com média de entradas mais elevadas. E que os filhos dos pobres entram preferencialmente nos politécnicos.

A razão principal não é difícil de compreender. É a mesma que permite que os ricos influenciem a agenda dos media, criando fundações para fabricar as notícias que lhes interessam e as plantar selectivamente nos media: o poder do dinheiro.

Será preciso uma investigação aprofundada para concluir que as famílias mais ricas, sendo também, regra geral, mais instruídas, tendem a proporcionar um ambiente cultural mais estimulante aos seus filhos?

Ou que, mal começam a surgir dificuldades nos estudos, essas famílias recorrem facilmente aos melhores explicadores?

A verdade é que a indústria das explicações e o peso que este “subsistema” de ensino paralelo foi adquirindo explicam grande parte do binómio do sucesso/insucesso educativo. Mas a opacidade que o envolve não parece aliciar os investigadores a tentar avaliar o impacto e a abrangência do fenómeno, muito menos as fundações do regime que os financiam. Bem mais fáceis são estes estudos preguiçosos que se fazem a partir de dados pré-existentes: a informação estatística sobre as habilitações dos pais dos alunos ou os escalões da acção social escolar é recolhida rotineiramente pelo ME e a própria DGEEC já vez várias análises semelhantes à que agora se apresenta.

O facto de chegarem mais longe nos estudos não quer dizer que os ricos sejam mais inteligentes do que os pobres. Não impede a existência de ricos ignorantes e obtusos – algumas figuras públicas que andam por aí a desfalcar os bancos do regime demonstram-no à saciedade mal abrem a boca em público – nem determina que os pobres sejam incapazes de educar bem os seus filhos. Significa apenas que, estatisticamente, será sempre expectável que os filhos dos mais ricos e instruídos sejam mais apoiados e consigam chegar mais longe nos seus percursos escolares. Existe uma correlação forte, mas não determinante, do rendimento familiar e nível de escolaridade dos pais com o sucesso escolar dos seus descendentes.

No entanto, para saber estas coisas, não é preciso fazer grandes “estudos”. Bastaria, por exemplo, verificar quantos administradores das empresas do grupo SONAE têm ou planeiam ter os filhos a estudar num qualquer politécnico. É que o “elevador social” não consegue levar toda a gente para cima quando as vagas no topo são limitadas. Quantos, entre a elite dominante, aceitarão que jovens pobres mas talentosos ocupem os lugares que têm destinados para os seus rebentos, ainda que estes revelem “pouca queda para os estudos”? Quem é que aceita resignadamente que os seus filhos tomem o elevador social em sentido descendente?

Exposto o essencial, o resto é a agenda oculta das fundações e das organizações internacionais que regularmente vão promovendo determinadas linhas de investigação criteriosamente seleccionadas. Enquanto for possível ter sucesso a responsabilizar as escolas e os professores pelos fracassos, reais ou imaginários, dos alunos mais desfavorecidos, pode-se continuar a ignorar ou a adiar as reformas de que verdadeiramente precisamos: as que combatam as desigualdades sociais e promovam uma efectiva igualdade de oportunidades.

Como a realidade, em Portugal e no mundo, vem demonstrando, é tanto maior o desejo de reformar a escola quanto menor é a vontade de melhorar a sociedade.