Autoeuropa novamente parada

autoeuropa.JPGDevido a uma quebra no fornecimento de escapes, que impossibilita o normal fluxo de produção, o próximo dia 12 de fevereiro (segunda-feira) será marcado como downday coletivo. A fábrica retomará a produção no turno da noite de quarta-feira (00H00), dia 14 de fevereiro de 2018.

Cá vamos registando: a fábrica que precisa forçosamente de trabalhar todos os sábados, envolvendo todos os trabalhadores no esquema de folgas rotativas, é a mesma que, desde que começou a produzir o T-Roc, já vai na quarta paragem forçada por falta de peças.

Sim, já sabemos que o material tem sempre razão.

Só à defesa dos direitos dos trabalhadores, pelos vistos, não assiste razão alguma…

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Lingerie ministerial

triumph.jpgCerca de 40 trabalhadoras da antiga fábrica Triumph, em Sacavém, Loures, estão esta quinta-feira em protesto junto à presidência do Conselho de Ministros para apelar à ajuda do Governo, perante a insolvência da empresa.

Um grupo trabalhadoras foi recebido por um representante do governo e, simbolicamente, entregaram um cinto de ligas vermelho para o ministro da Economia, Caldeira Cabral.

As trabalhadoras acusam a Têxtil Gramax Internacjonal, que adquiriu a antiga Triumph, de não ter feito qualquer investimento.

Segundo contou ao JN Emília Ferreira, há 29 anos na empresa, “o trabalho começou a faltar em setembro, começaram a mandar as pessoas para casa em novembro”. Nesse mesmo mês já não receberam parte do ordenado.

As operárias explicam ainda que a ação de protesto decorre em paralelo com a vigília nas instalações da empresa, onde se mantém dezenas de colegas. O objetivo é impedir a saída de património na sequência do processo de insolvência da empresa.

Algo funciona muito mal nos processos de insolvência das empresas, quando são os próprios trabalhadores que têm de organizar piquetes de vigilância para impedir o saque do património. Não sendo por desconhecimento, nem por falta de meios, que o Estado não actua em defesa da legalidade e dos direitos dos credores, onde se incluem em primeiro lugar os trabalhadores, mas também o próprio Estado, apenas se pode concluir que é daquelas situações em que não interessa que a justiça funcione.

Também me causa estranheza que o Presidente da República, sempre tão solícito a comparecer e a apoiar todas as vítimas, não tenha uma presença ou uma palavra de apoio a estas operárias.

Será que as vítimas das forças da natureza ou da incompetência do governo merecem mais solidariedade e apoio do que as vítimas do patronato?

Se assim é, ficamos ao menos a saber que Marcelo, pelo meio dos seus estonteantes afectos e paralisantes apelos aos consensos de regime, não deixa de ir definindo interesses, prioridades e, acima de tudo, opções políticas.

 

Parem as máquinas!

autoeuropa-parada.JPGFalta uma peça de escape vinda de um fornecedor estrangeiro. Esta é a razão para a Autoeuropa vir a estar parada quatro dias, entre 26 e 29 de dezembro, apurou o DN/Dinheiro Vivo junto de fontes do setor. Esta será a segunda vez, em menos de 15 dias, que a fábrica de Palmela vai determinar dias de não produção por falta de peças.

Afinal de contas, uma fábrica que precisa obrigatoriamente de trabalhar aos sábados para corresponder ao aumento da procura dos automóveis que produz, irá agora parar uma semana por falta de peças?

Então o problema do capitalismo em geral e desta fábrica em particular não eram, agora e sempre, os incómodos trabalhadores, essa gente que exige salários e períodos de descanso, folgas e fins de semana e nunca parece estar contente com o que os patrões têm para lhe dar?

Havendo dinheiro, que no caso da Auroeuropa não parece faltar, tudo o resto – peças, máquinas, energia – não se resolve recorrendo aos mercados?

Ou andam os mercados com falta de peças?…

O melhor acordo pode ser a falta de acordo

autoeuropa.JPGA administração da Autoeuropa comunicou hoje aos trabalhadores a intenção de avançar unilateralmente, em janeiro, com um novo horário de produção de 17 turnos semanais, face à rejeição de dois pré-acordos negociados previamente com a Comissão de Trabalhadores.

Embora se trate de um acordo imposto unilateralmente, a administração da Autoeuropa promete pagar os sábados a 100%, equivalente ao pagamento como trabalho extraordinário, que era umas principais reivindicações dos trabalhadores. Este pagamento dos sábados a 100% poderá ainda ser acrescido de mais 25%, caso sejam cumpridos os objetivos de produção trimestrais.

O novo horário, que entrará em vigor em finais de janeiro, deverá vigorar até ao mês de agosto de 2018. A Autoeuropa promete discutir o período após agosto com a Comissão de Trabalhadores.

Os novos horários de laboração contínua preveem quatro fins-de-semana completos e mais um período de dois dias consecutivos de folga em cada dois meses para cada trabalhador.

A decisão da administração tem por base a legislação laboral, o que deve ser a regra em qualquer empresa: a introdução de um novo regime de trabalho deve pressupor o acordo entre administração e trabalhadores e, logicamente, vantagens para ambas as partes. E aqui, como sabemos, isso não estava a acontecer.

Em desacordo, cumpra-se a lei.

A Autoeuropa e as lutas laborais no século XXI

manif.jpgMantém-se o impasse na Autoeuropa. Os trabalhadores da fábrica de Palmela voltaram a chumbar, com 63%, o pré-acordo assinado entre a comissão de trabalhadores e a administração. O acordo previa que a fábrica passasse a funcionar todos os dias a partir de 20 de agosto e a contratação de mais 400 operários em 2018. Ao que o Dinheiro Vivo apurou, a comissão de trabalhadores está reunida com a administração da fábrica. O segundo pré-acordo com a administração foi anunciado no início da semana passada por Fernando Gonçalves, coordenador da comissão de trabalhadores. O documento foi subscrito por todos os membros da atual comissão, que inclui membros afetos à CGTP.

A resistência dos trabalhadores da Autoeuropa ao novo regime de turnos e folgas que a administração pretende introduzir é reveladora dos impasses, contradições e incompreensões acerca do que pode e deve ser, no século XXI, a defesa organizada dos direitos dos trabalhadores.

Subitamente, temos uma situação em que falham os habituais clichés a que geralmente se tentam reduzir as lutas laborais.

Não há sindicatos “traidores”, porque eles sempre estiveram afastados das negociações.

A comissão de trabalhadores, recentemente mandatada, é representante inquestionável dos trabalhadores, reflectindo a diversidade de tendências políticas, sindicais ou ideológicas que possam existir entre eles. Não são sindicalistas de gabinete, há longos anos afastados da prática profissional.

E, ainda assim, assinam um acordo que todos eles aceitam, que a administração subscreve, mas em que a maioria dos representados não se revê.

A um olhar exterior, parece existir aqui um pouco da insanável contradição entre a responsabilidade do negociador, com o que isso implica de conciliação e busca do compromisso, e a posição infinitamente mais cómoda de quem se limita a responder sim ou não a uma proposta, sem ter a responsabilidade de propor alternativas concretas que possam ser aceites pela outra parte.

Há no arrastamento deste conflito o receio de que um extremar de posições possa levar a empresa-mãe a reconsiderar os planos expansionistas que tem para Portugal e até, a prazo, a possibilidade do encerramento da fábrica de Palmela. Mas tudo isto pode também não passar de uma forma de pressão sobre os trabalhadores por parte de uma administração desejosa de mostrar serviço à casa-mãe.

Quero confiar que os trabalhadores da Autoeuropa sabem o que estão a fazer. Que este esticar da corda significa que não desistem de lutar pelos seus direitos e que querem ir tão longe quanto possível na sua defesa. Cabe agora aos seus representantes, no regresso à mesa das negociações, transformar o resultado da votação num trunfo negocial que obrigue a administração, na busca de uma solução justa, a aproximar-se mais das pretensões dos trabalhadores.

O sindicalista reformado

chora.JPGAntónio Chora já não é o líder da Comissão de Trabalhadores da Auto-Europa. Reformou-se, ao fim de 50 anos de trabalho e 48 de descontos. E retirado da vida profissional e sindical, tem agora tempo para reflectir sobre o presente e o futuro do sindicalismo em Portugal.

Gostava de dar “aulas de sindicalismo” em escolas técnico-profissionais. Ou seja: ensinar aos estudantes que no mundo do trabalho “isto não é só obedecer a tudo”, que têm direitos e que os devem exercer – e como o fazer. Para o antigo socialista, o projeto é também fazer o mesmo em escolas que formem gestores. Para que eles, os futuros patrões, percebam que não podem olhar os que pressionam pelos direitos laborais como “inimigos”. Essa formação da cidadania, diz, não existe agora em escolas técnico-profissionais. Uns são formatados para obedecer e outros para mandar.

O ex-sindicalista confirma que não encontrou, nos administradores alemães da Auto-Europa, a hostilidade aos sindicatos e às comissões de trabalhadores tão comum entre o patronato português. Quando a empresa prescindiu do trabalho do sindicalista na linha de montagem, acordando com ele que ficaria a tempo inteiro como representante dos trabalhadores, reconheceu a importância do diálogo construtivo e de uma cultura de compromisso entre os dois mundos, o do capital e o do trabalho, que pela sua natureza têm interesses antagónicos. E quem gere a Auto-Europa não se mostra incomodado com uma taxa de sindicalização da ordem dos 90%.

O sindicalismo de António Chora e dos seus camaradas, embora assente numa cultura de conciliação de interesses e de formação de consensos, não parece confundir-se com o dos sindicatos “amarelos” da UGT, que em nome de um sindicalismo dito responsável acabam, demasiadas vezes, a atraiçoar os trabalhadores que dizem representar. Mas também pouco ou nada tem a ver com a rigidez das organizações dominadas pela CGTP e pelo Partido Comunista, às quais Chora não hesita em criticar a formatação do discurso e da acção, que são rotineiros, previsíveis, pouco motivadores para as novas gerações e, frequentemente, ineficazes:

“Quem domina a área laboral tem noventa anos de experiência a liderar sempre da mesma maneira, o que tem alguma influência nos baixos índices de sindicalização.”

O que faz falta

fabrica.gifDe que precisa Portugal para poder vir a ser um país industrializado?

Ângelo Ramalho, o líder da Efacec, faz o balanço da indústria portuguesa nos últimos dois séculos e sentencia: “Perdemos a revolução industrial do vapor; chegámos tarde às revoluções da electricidade e da automação; e agora estamos muito atrasados na revolução digital”. A quarta revolução industrial está em marcha e o país tem à sua disposição recursos para ir a jogo – o alemão Gunter Horcher, director de Investigação Estratégica do instituto Fraunhofer, afirma que Portugal “tem uma base boa”, que dispõe de “boa investigação e bons quadros”. Mas, mesmo assim, num fórum sobre a indústria do futuro organizado esta semana pelo INESC TEC, no Porto, o balanço que sobrou está longe de ser entusiasmante. Porquê? Gunter Horcher dá a resposta: “Portugal não usa o seu potencial de forma suficiente. Falta coordenação e organização”.

Depois da crise de 2007/2008, as economias avançadas voltaram a olhar para a indústria. Não a do passado, mas a do futuro. A indústria digital ou 4.0. Os americanos lançaram uma rede nacional para a inovação na produção na qual vão investir mil milhões de dólares; os chineses querem liderar a tecnologia mundial e vão aplicar nessa ambição 1.2 biliões de euros; a União Europeia respondeu com programas de nove mil milhões de euros. No espaço de uma década, a sedução da indústria mudou. “Há dez anos os políticos não queriam ser vistos em ambientes industriais. A indústria era coisa do passado. Mas agora todos os políticos querem ir ao MTC (Manufacturing Technology Center)”, diz Harald Egner, um dos directores da instituição.

Já Oliveira Martins constatava que em Portugal existiam a granja e o banco, mas faltava a oficina. E essa carência, quando a indústria se tornava, por essa Europa fora, o sector que mais gente empregava e mais empresários enriquecia, era a principal razão para que o país continuasse pobre e atrasado e a emigração fosse o destino inevitável da população que já não podia tirar o seu sustento da terra nem encontrava emprego nas fábricas ou nas casas dos ricos.

Mais de um século se passou entretanto, mas a indústria continuou sempre a ser o parente pobre da economia portuguesa. Será que agora, depois de termos deixado passar ao lado as três vagas anteriores, estaremos em condições de apanhar a quarta revolução industrial?

Não é impossível. Ao contrário da indústria tradicional, assente em estruturas pesadas que exploravam toda a cadeia de valor e exigiam grandes investimentos de capital, a indústria do século XXI depende do conhecimento especializado, do desenvolvimento de produtos específicos e personalizados e de sistemas de produção flexíveis. Ora segundo os especialistas há em Portugal bons cientistas e engenheiros, há bons laboratórios e centros de investigação, faltando-nos no entanto capacidade de organização e coordenação de esforços para apostar nos sectores em que poderemos fazer a diferença. Os tais nichos, ou clusters, de que há muitos anos se fala, e que são fundamentais num país pequeno e periférico onde os recursos são escassos e a definição de prioridades é fundamental.

A crise financeira de 2007/08, e a recessão que se lhe seguiu, e de que ainda não nos livrámos, mostraram claramente os limites de um modelo económico em que muitos, por essa Europa fora, acreditaram, assente na financeirização da economia e numa ilusória sociedade do conhecimento que iria criar empregos e prosperidade por todo o lado. Ora o que hoje verificamos, depois de toda a especulação e fraude financeira, é que foram os países europeus que mantiveram uma indústria forte e competitiva que aguentaram melhor os efeitos da crise, continuando a gerar riqueza e a criar emprego. O exemplo óbvio é a Alemanha, mas está longe de ser o único.

O ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, parece optimista em relação ao futuro. Anunciou para breve um programa – Indústria 4.0 – destinado a coordenar estratégias para a digitalização da indústria abrangendo e interligando tanto as empresas tradicionais como as novas startups que trazem dinamismo à economia mas precisam de apoios específicos para vingar. E promete uma terapia eficaz para ultrapassar o atraso do país.

Num país que vê emigrar anualmente milhares de profissionais qualificados, muitos deles em engenharia e outras áreas técnicas onde não estamos a desenvolver-nos como deveríamos, as promessas e boas intenções do ministro são de registar. Oxalá não se tratem de meras palavras de circunstância e o programa para a nova indústria não seja apenas uma forma de, seguindo exemplos do passado, ir buscar fundos europeus para distribuir junto de clientelas seleccionadas, sem efeitos relevantes na economia real.