Indisciplina online

cyberbullying.PNGAcabaram-se as bolinhas de papel a voar, as conversas cruzadas e  os recados escritos. Agora, em tempos de ensino à distância, são outras as formas de perturbar uma aula. E os professores apontam o dedo não só a alguns alunos, como também a pais. Os casos não são generalizados, mas, ao que o SOL apurou, acontecem um pouco por todo o país. Por exemplo, num agrupamento de escolas de Lisboa, Eça de Queirós, já houve mesmo necessidade de fazer um alerta formal à comunidade escolar. Num email a que o SOL teve acesso, a diretora, Maria Eugénia Coelho, começa por referir a dificuldade que os professores têm tido em adaptar-se de um momento para o outro à nova realidade e pede uma reflexão sobre alguns comportamentos de alunos e de encarregados de educação.

«Os alunos, usando as suas competências digitais boicotaram algumas sessões, com comportamentos que me escuso de qualificar», diz, acrescentando ainda que «alguns pais entraram nas sessões, deram opiniões sobre o que entenderam e classificaram o desempenho do docente».

«Não posso aceitar estas situações», desabafa a diretora, lembrando que «os alunos têm de ter um comportamento cívico e de participação correto e respeitador».

O ensino a distância trouxe nuances novas a um velho problema da instituição escolar: a indisciplina. À partida, e desde que o professor domine minimamente as funcionalidades dos programas usados nas aulas online, a maioria dos comportamentos disruptivos são mais fáceis de controlar: em vez do clássico bate-boca com o aluno indisciplinado, que quebra o ritmo da aula e dá destaque imerecido ao transgressor, basta desligar-lhe o microfone. Quanto às câmaras, são geralmente os próprios que tomam a iniciativa de as desligar quando percebem que estão a fazer figura de urso. E as conversas paralelas também podem ser cortadas desactivando o chat, embora isso não impeça que os alunos, longe da presença física do professor, recorram a outras aplicações para pôr a conversa em dia.

Há no entanto novas intrusões no ambiente online, a mais preocupante das quais me parece ser a presença dos pais nas sessões dos filhos com os professores e, pior do que isso, a sua intromissão no trabalho que está a ser desenvolvido, questionando e interpelando os docentes.

O problema maior nem será tirar o pio aos paizinhos impertinentes. É, isso sim, o exemplo profundamente deseducativo que transmitem aos seus educandos e, neste contexto, também aos seus colegas de turma.

Quando, nas circunstâncias difíceis em que nos encontramos, as escolas e os professores se reinventam para continuarem a transmitir aos seus alunos conhecimentos, referências e valores, o mínimo que seria de esperar é que todos os pais valorizassem o esforço em prol dos seus filhos e colaborassem nesse desígnio colectivo. Ou pelo menos que, sendo incapazes de o fazer, não obstaculizassem o trabalho dos professores.

“Hoje, abandonei a sala de aula”

ana-paula-costa.jpgHoje abandonei a sala de aula pela primeira vez em dezasseis anos de profissão. Hoje eu abandonei a sala de aula onde estava há cerca de dez minutos com a minha direcção de turma, alunos do décimo segundo ano.
Pensei muito antes de escrever este texto. Pensei nas palavras que ia usar, no que descrever mas, uma sensação se sobrepõe inevitavelmente a todas as outras… A de quase impotência, a de frustração e a necessidade de desabafar.
Não, não há vítimas numa sala de aula, nem alunos, nem professores (salvo, lá está, naqueles tristes casos em que alguém é vítima de agressão). Não, não sou vítima mas, abandonei a sala. Abandonei a sala por raiva, por frustração, porque a ingratidão dói, por sentir o meu corpo todo a tremer e ter uma sensação de quase desmaio, por sentir uma lágrima a começar a rolar pela minha face… e… Raios me partam se eu os deixo verem-me chorar, nem que seja um choro de raiva. Não! Por isso abandonei a sala.

A professora Ana Paula Costa partilha com os seus leitores os sentimentos de frustração, raiva, angústia e desespero que quase todo o professor já experimentou, uma vez ou outra, quando tem à sua frente um grupo de alunos que simplesmente não o deixa dar a aula. Que é a única razão pela qual o professor ali está.

Mesmo os modernismos pedagógicos, que sugerem que as aulas serão conceitos ultrapassados e que a aprendizagem se deve desenvolver de outras formas, mais activas e centradas nos alunos, não respondem ao problema de fundo: quando os alunos, além de não quererem aprender, não respeitam regras básicas de civilidade e de respeito, não é por os mandarmos fazer uma pesquisa no telemóvel ou um trabalho de grupo que iremos ter resultados substancialmente diferentes.

Jovens incapazes de se calarem para ouvir o que o professor tem para lhes dizer, regra geral, demonstram ainda maior dificuldade em prestar atenção à intervenção de um colega. Enfim, tristes realidades com que todos os professores se deparam, que não são generalizáveis a todos os alunos nem dominantes em todas as turmas, mas que sucedem com demasiada frequência nas escolas portuguesas. E raramente são tidas em conta pelos chamados cientistas da educação, que continuam a focar a sua análise nessa entidade mítica a que chamam “o aluno”, desconsiderando a complexa dinâmica de grupo que se cria dentro de cada turma, e que é a realidade concreta com que lidam os professores.

Claro que, numa situação como a descrita pela colega, o desejável não é a saída do professor, mas sim a do aluno ou alunos indisciplinados e perturbadores. Contudo, se estes se recusam a sair da sala ou o comportamento disruptivo encontra respaldo no resto da turma, então a atitude mais digna do professor que não desiste de o ser, nem abdica da sua dignidade pessoal e profissional, poderá estar mesmo na saída da sala de aula.

Os professores, tal como todos os outros profissionais, têm o direito de ser respeitados e protegidos no exercício da sua profissão. A entidade empregadora é a primeira responsável por garantir os direitos dos profissionais que têm ao seu serviço – um dever em que o Estado, no caso dos professores, falha miseravelmente. Pelo que sair da sala, deixando por lá os alunos vândalos e indisciplinados, significa fazer da indisciplina e da falta de respeito um problema da escola e do sistema educativo, em vez de se continuar a alimentar a mentira que é considerá-lo um problema isolado de alguns professores, restrito ao interior de algumas salas de aula.

Indisciplina ao vivo – numa aula portuguesa

O vídeo, divulgado pelo VozProf, apresenta-nos quase quatro minutos de pura indisciplina na sala de aula. O vídeo não é recente – foi originalmente publicado em 2009 – mas a realidade que retrata permanece actual, o que justifica a ampla repercussão que o tema está a ter entre os professores. E é com um misto de constrangimento e revolta que se assiste à atitude de completo desrespeito e gozo descarado que alguns alunos assumem perante a professora.

Perplexo, dei uma volta pelas redes sociais em busca de reacções de professores a uma realidade preocupante mas, infelizmente, já normalizada nalgumas escolas portuguesas. E devo dizer que o que mais me espantou foi a atitude de espanto e negação de alguns colegas: não pode ser, é impossível, o vídeo deve ser fake, como foi possível chegar-se a este ponto?…

Contudo, a realidade documentada neste vídeo, não sendo comum à grande maioria das turmas e das escolas portuguesas, está infelizmente presente num número significativo de salas de aula, sobretudo em escolas que se vêm obrigadas a acolher alunos que não só não querem estudar como carecem das mais básicas competências sociais, a começar pela empatia e o respeito pelos outros. Nalguns casos, serão já reais ou potenciais delinquentes.

Na verdade, o esforço desesperado que esta professora faz para tentar devolver alguma normalidade à sala de aula, impondo ordem e respeito a quem quer apenas provocar e gozar com o sofrimento alheio, demonstra o lado mais negro daquilo a que alguns chamam inclusão: alunos com este comportamento não deveriam ter lugar na sala de aula. Instalou-se insidiosamente a ideia de que o bom professor não “manda para a rua”, pelo que há que fazer das tripas coração e manter na sala quem não tem condições para lá permanecer. E é provavelmente por já se ter transigido, em episódios anteriores, com comportamentos desadequados, que a indisciplina na sala de aula chegou a este ponto.

Não significa isto uma crítica à colega involuntariamente exposta neste vídeo e à qual expresso, incondicionalmente, a minha solidariedade. Os únicos culpados, aqui, são os alunos insubordinados, que desconheço se terão sido punidos como deveriam. E se uns professores têm mais jeito do que outros a lidar com turmas e alunos problemáticos, a verdade é que a nenhum docente deveria ter de lamentar-se por, em vez de estudar Matemática, Ciências ou Línguas, não ter feito antes um curso de domador de feras. Mais: com turmas deste calibre, nenhum professor deveria sequer ver-se forçado a entrar sozinho numa sala de aula.

Falhas óbvias, nestes casos, podem também apontar-se às direcções escolares: é muito fácil constituir estas turmas de “carregar pela boca”, geralmente CEFs, PIEFs ou cursos profissionais, distribuí-las a uns quantos professores, esperando que se desenrasquem, enquanto a direcção se fecha no seu gabinete a tratar da burocracia escolar, em vez de manter um olhar atento e ter uma intervenção oportuna sempre que algo começa a descambar.

Por último falha também a sociedade, sempre que olha para a escola pública como o caixote do lixo da sociedade, para onde se atiram e acomodam delinquentes convertido em falsos estudantes, retirando-os das ruas e evitando colocá-los em centros de reinserção ou em prisões.

Nota: post actualizado pelas 21 horas, com o esclarecimento de que o vídeo que o acompanha foi originalmente publicado em 2009.

A indisciplina conta

resultados-exames

É uma das leituras que se pode fazer do PISA 2018: os professores portugueses perdem demasiado tempo a pôr ordem na sala de aula, a advertir alunos mal comportados, a interromper as aulas para resolver problemas disciplinares. Sem surpresa, nota-se que quando professores e alunos trabalham em contextos mais propícios à aprendizagem os resultados escolares são substancialmente melhores.

Mais de metade dos alunos portugueses (53,5%) assumem não ouvir o que os professores lhes dizem em algumas aulas e cerca de um quinto em muitas aulas.

Quase um terço (30%) queixa-se que os professores, em muitas (19,6%) ou em todas as aulas (8,7%), demoram muito tempo até conseguirem acalmar a turma. No PISA (Programa de Avaliação Internacional de Alunos) 2018, Portugal acompanha a média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) em Leitura, Matemática e Ciências (que desce relativamente a 2015). Mas a indisciplina e os contextos socioeconómicos puxam os resultados para baixo.

Na avaliação à Leitura, os alunos que se queixaram de ter sempre barulho e indisciplina nas aulas tiveram menos 17 pontos do que os que garantem não ter indisciplina a perturbar as aulas. Mais de 15% dizem mesmo que não conseguem trabalhar em muitas ou quase todas as aulas de línguas. Turcos, espanhóis, mexicanos, israelitas ou italianos queixam-se mais da indisciplina.

Os portugueses também faltam mais e chegam mais vezes atrasados às aulas: em média, na OCDE, 21% dos alunos assumiram faltar um dia às aulas e 48% chegaram tarde à escola nas duas semanas que antecederam o PISA; em Portugal, foram 28% e 50%, respetivamente. Mas estes comportamentos têm um impacto menor nos resultados, já que os que chegam tarde têm apenas menos cinco pontos a Leitura do que os restantes.

Outra ideia que foge ao consenso politicamente dominante e que a notícia do JN destaca: apesar de o contexto sócio-económico condicionar o sucesso dos alunos e ser, estatisticamente, um forte preditor do insucesso escolar, a verdade é que não é absolutamente determinante. Os alunos oriundos de meios desfavorecidos não estão condenados ao fracasso escolar, como o demonstram aqueles que, estando nesta condição, atingiram resultados de topo nos testes da OCDE.

O contexto socioeconómico pesa nas aprendizagens. Em Portugal, os alunos desfavorecidos tiveram resultados inferiores em 95 pontos. Em 2009, essa diferença era de 87 pontos. Ainda assim, 10% desses alunos conseguiram atingir os níveis mais elevados dos testes, sendo a média da OCDE de 11%.

Os níveis de resiliência confirmam que “a desvantagem não é um fado”, conclui a OCDE. Em Portugal, a percentagem de alunos desfavorecidos em escolas com contextos favorecidos é superior à média da OCDE: 22% têm hipótese de se matricular em estabelecimentos frequentados por alunos que atingem níveis mais elevados (a média da OCDE é de 17%).

Para estes alunos, o caminho não é o do facilitismo que, retirando obstáculos e aplanando o caminho, limita horizontes e rouba oportunidades. Tem de ser o de um ensino exigente e estimulante que possa levar estes alunos até onde o seu esforço e as suas capacidades lhes permitirem chegar.

O determinismo manifesta-se nas expectativas dos alunos: um em quatro dos desfavorecidos, resilientes com bons resultados, não espera concluir o Superior. Entre os alunos com melhor desempenho, de contextos favorecidos, é um entre 30.

Violência escolar: o rei vai nu…

carmo-machadoTambém eu já fui injuriada. A minha experiência profissional com três décadas de escola pública mostra que os alunos dos cursos profissionais são, em regra, mais indisciplinados do que os alunos dos cursos do ensino regular e que os do ensino básico provocam mais problemas do que os do secundário. Porém, é tudo uma questão de sorte. Já me chamaram “filha da puta”. Já entraram e saíram da sala com estrondo, aos pontapés e aos palavrões. Já me ameaçaram. Já amarrotaram e rasgaram testes corrigidos, atirando-os para o caixote do lixo, ali mesmo à minha frente. Todos os dias, dia após dia, há professores a passar por alguma situação de violência. São atos contínuos que vão corroendo a mente e o corpo. Num dia normal de trabalho, um professor lida com cerca de 90 a 120 alunos. Todos diferentes, sim! Mas também todos iguais na sua adolescência, na sua atribulada vida familiar, no seu (des)interesse pela escola, na sua (des)preocupação com as notas, na sua obsessão pelo telemóvel, na sua descoberta da sexualidade, na sua atitude de revolta.

Que razões levam os professores a não marcarem faltas disciplinares amiúde ou, em casos mais trágicos, a não denunciar os alunos à polícia? Medo? Vergonha? Sensação de impunidade? No meu caso, é cansaço. É sobretudo cansaço, como diz o poeta.

Tomando como pretexto o debate televisivo da semana passada sobre a violência escolar, Carmo Machado volta ao tema, trazendo à discussão a sua experiência pessoal, semelhante à de muitos outros professores, numa crónica pertinente e inspirada que merece leitura integral.

Apesar de os responsáveis educativos se recusarem a, já nem digo enfrentar o problema, mas pelo menos a reconhecer a sua existência, a verdade é que o caldo de cultura que é a pequena indisciplina, disseminada na grande maioria das nossas escolas, potencia, quando estão presentes outros factores, uma escalada no sentido da indisciplina grave e das agressões verbais e físicas de alguns alunos contra colegas e professores.

A grande maioria destas situações são resolvidas pelos professores na sala de aula, admite a colega Carmo. Mas a verdade é que são muitas vezes mal resolvidas, como também reconhece: deixam-se passar sem castigo comportamentos inaceitáveis, não se fazem queixas e participações para não colocar em causa o nome das escolas e dos responsáveis. Ou, simplesmente, porque há a noção da inutilidade de avançar com a queixa para a ver acabar esquecida num qualquer fundo de gaveta. É isto que faz com que a violência se perpetue e agrave em certos ambientes escolares. E é também por esta via que se permite que o ME continue a afirmar, cinicamente, que a violência escolar está a diminuir. Algo que os professores no terreno, sobretudo os que lidam diariamente com os ambientes mais complicados, podem categoricamente desmentir.

Na verdade, do lado dos docentes, pode afirmar-se que a insegurança e as ameaças que se tornaram parte do quotidiano, nalgumas escolas TEIP e não só, estão a ter graves efeitos na saúde mental dos professores. Quando estes circulam com medo em certas zonas das escolas, quando receiam enfrentar determinadas turmas, é evidente que algo terá urgentemente de ser feito para reprimir os agressores e devolver a segurança e a tranquilidade aos espaços escolares e a quem neles estuda e trabalha. Termino com as palavras pesarosas, mas ao mesmo tempo sensatas e realistas, da cronista da Visão que venho a citar…

A sensação de impotência e de vazio espalha-se pelas salas de professores. Lidamos diariamente com comportamentos de baixo impacto mas de elevada frequência. E, pouco a pouco, dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, o reflexo destes comportamentos aliado à urgência em apagar tantos fogos ao mesmo tempo vão-se acumulando dentro de nós. Eis-nos chegados a um ponto em que a nossa caixa de ressonância começa a vibrar cada vez menos com a escola. Vivemos as semanas de trabalho na esperança de que os meses e os períodos se sucedam rapidamente e o ano letivo termine. Por tudo isto, considero urgente um debate honesto sobre o cansaço, a exaustão e a desilusão dos profissionais de ensino em Portugal. Neste contexto, dificilmente conseguiremos chegar aos 66 anos e muitos meses na posse de plenas capacidades mentais. Eu por mim falo!

Desta vez, foi o professor o agressor…

es-r-d-leonr.JPGUm aluno da turma 8.º 4.ª da Escola Secundária Rainha Dona Leonor, em Alvalade, Lisboa, foi esta manhã violentamente agredido pelo professor de Tecnologias de Informação e Comunicação, no decorrer da aula de apresentação da disciplina. O incidente ocorreu por volta das 10h55, quando a aula ia sensivelmente a meio, e enquanto os alunos se iam apresentando ao professor, que estava a dar a sua segunda aula nesta escola, como substituto da professora titular da disciplina, que se encontra com baixas sucessivas por estar a amamentar.

A aula estava a decorrer “de forma agitada”, mas num clima “de brincadeira”, em que até o próprio professor se ia rindo de algumas situações. “Era a nossa primeira aula de TIC, não estávamos a dar matéria, estávamos só a apresentar-nos, é normal que não estivesse tudo muito quieto”, contou à MAGG um dos alunos da turma, devidamente autorizado pela mãe, que preferiu não revelar a identidade da criança. A MAGG optou por, ao longo de todo o texto, não revelar a identidade de nenhum dos alunos, a pedido dos pais.

No decorrer da apresentação, os alunos iam à frente e diziam o nome, para o professor ficar a conhecê-los. “Estava tudo a brincar, uns iam lá à frente e diziam que se chamavam outro nome qualquer, e o professor até se ria”, revelou o mesmo aluno. “Só que depois aconteceu aquilo”. Por duas vezes, o professor tinha alertado a turma para o facto de não poderem usar o telemóvel. Mas um dos alunos não respeitou e, segundo contou à direção da escola, agarrou no telefone “para ver as horas”.

Foi então que o professor foi ter com ele e tentou tirar-lhe o telemóvel. “Ele esquivou-se e impediu que o professor agarrasse o telefone. Foi então que o professor se passou e começou aos berros“, contou um outro aluno da mesma turma, ouvido pela MAGG, ao lado da mãe. “Dá cá o caralho do telemóvel, filho da puta”, terá gritado o professor, de acordo com a versão que o aluno contou à direção da escola. Vários outros alunos ouvidos pela MAGG confirmam esta versão. Como não soltava o telefone, o professor agarrou o aluno, de 13 anos, pelo pescoço, e atirou-lhe a cabeça contra uma das mesas. Nesta altura, a turma entrou em pânico e dividiu-se. Enquanto uns alunos correram para fora da sala, a procurar ajuda e a chamar as auxiliares, outros alunos tentaram que o professor largasse o rapaz. Quando finalmente o fez, os alunos correram todos para fora da sala de aula.

A direção da escola foi de imediato à sala de TIC onde ainda encontrou o professor, que acabou por ser levado à sala da direção, onde foi ouvido. As crianças telefonaram, em pânico, aos pais, e vários acorreram de imediato à escola. À diretora da escola, Hermínia Silva, o professor não conseguiu contar uma versão coerente dos factos.

Não vou obviamente defender a reacção destemperada deste colega, embora saibamos que quase todos os professores já passaram por uma ou outra situação em sala de aula em que nos apeteceu fazer algo semelhante ao que hoje sucedeu nesta escola de Lisboa. Mas claro que temos de nos controlar: o adulto, o profissional da educação, a referência para os alunos, somos nós.

Neste caso, e apesar do relato bastante detalhado e da atenção noticiosa de que será alvo – e que provavelmente não teria se fosse o aluno a agredir o professor – há sempre elementos que faltam para proferir um juízo seguro acerca do que na realidade se passou. Ainda assim, algumas observações gerais se podem fazer.

Iniciar as actividades lectivas num “clima de brincadeira” é meio caminho andado para que, mais cedo do que tarde, algo possa correr mal. Claro que uns professores gerem melhor estas situações do que outros. Pode até haver quem aprecie aulas “agitadas”, embora estas não propiciem, regra geral,  as melhores condições de aprendizagem, sobretudo aos alunos com maiores dificuldades de concentração. Na dúvida – e ainda mais quando se é novo na escola e não se conhecem os alunos – é sempre preferível aproveitar as primeiras aulas para aquilo que as tradicionais práticas pedagógicas vêm aconselhando os professores a fazer: definir e pôr em prática as regras de disciplina e funcionamento das aulas. Mantendo o controle da sala de aula e colocando no seu lugar, tanto quanto possível, os “engraçadinhos”. Quando às regras, se são para respeitar, então há que estar preparado para, perante o incumprimento, agir em conformidade. O que não pode passar, obviamente, por confrontar fisicamente o aluno da forma como aqui se fez.

Quando aos telemóveis, há que ter em conta a dependência nalguns casos doentia de muitos adolescentes em relação ao aparelho, sentido como uma extensão do próprio corpo, um apêndice comunicacional sem o qual o jovem se sente perdido, isolado do seu mundo virtual. Retirar-lho de forma forçada é uma atitude que pode gerar reacções imprevisíveis. É sempre preferível mandar porta fora o telemóvel e o seu dono do que alimentar uma potencial escalada de violência verbal e física de que conhecemos já alguns resultados lamentáveis.

Finalmente, confesso-me pessimista em relação à possibilidade deste tipo de ocorrências poderem vir a suceder-se, no futuro, com alguma frequência. A falta de professores que já se nota em algumas zonas do país e grupos disciplinares irá levar à contratação de professores com menor experiência e qualificação profissional. Lançados às feras no ambiente escolar de algumas escolas problemáticas, é previsível que muitos deles não consigam lidar com o desafio que são algumas turmas que existem hoje nas nossas escolas. Quanto ao nosso sistema educativo, obsessivamente focado no “sucesso” e na “inclusão”, não está a permitir sequer reconhecer a indisciplina como um problema real das escolas, muito menos a construir estratégias para o enfrentar e controlar.

Combate ao bullying ou demagogia?

no-bullyingO Ministério da Educação quer tolerância zero em relação aos atos de bullying e vai lançar um plano de combate com o objetivo último de o “erradicar” das escolas. O plano e a campanha associada, com o lema “Escola sem bullying. Escola sem violência” preveem um conjunto de medidas que ajudam a identificar sinais de alerta, orientam professores e escolas e levam a intervenções mais eficazes.

Um dos aspetos contemplados no plano passa por uma mudança na forma como o problema é assumido dentro das escolas. O Ministério lembra que o bullying tem de ser tratado como uma situação de “violência em meio escolar” e criou para esse efeito um novo campo no sistema de informação de segurança escolar, a plataforma usada pelos diretores para reportarem à tutela ocorrências que acontecem no interior dos estabelecimentos de ensino.

Tal como já têm de comunicar a ameaça ao professor, a agressão ao funcionário, ou o roubo do telemóvel, devem também reportar casos de bullying e cyberbullying. “Desta forma contorna-se o facto de estes casos não serem considerados uma tipologia de crime”, diz o Ministério.

Como professor, apoio naturalmente e sem reservas todas as medidas que permitam detectar, denunciar e combater o bullying nas escolas. Mas esta iniciativa do ME, anunciada em final de mandato e vésperas de campanha eleitoral, assume contornos de um lastimável exercício de hipocrisia política.

A verdade é que, ao longo de quatro anos de mandato, nunca vimos a segurança escolar na lista de prioridades deste ministério. Nem sequer ser assumida como uma preocupação dos governantes do sector, mais interessados na inclusão a qualquer preço de todos os alunos – mesmo daqueles que se dedicam a tornar tóxico e conflituoso o ambiente escolar – do que em promover uma cultura de respeito, tolerância e segurança nos espaços escolares.

E quem tiver dúvidas quanto ao que acabei de escrever, procure lembrar-se de quantas vezes viu os responsáveis políticos pronunciarem-se publicamente perante situações de violência escolar ocorridas durante o seu mandato. Quantas situações de agressão e violência contra alunos e professores – que foram sendo noticiadas com regularidade pela comunicação social – mereceram a intervenção do ministro ou dos secretários de Estado, quanto mais não fosse condenando os actos e solidarizando-se com as vítimas?

Ora é este governo, que pouco ou nada vez para combater o bullying, a indisciplina e outras situações de violência e assédio em meio escolar, que quer agora erradicar os bullies. E como o faz? Com uma inconsequente e vergonhosa acção de propaganda, tentando passar para a opinião pública a ideia de que está a resolver um problema que fez por ignorar ao longo de quatro anos de mandato.

Ainda assim, dirão os mais optimistas, a medida é positiva: dará no futuro maior visibilidade e atenção ao bullying, permitindo combatê-lo mais eficazmente. Contudo, para que isso sucedesse, seria necessário eliminar a perversidade instalada no sistema. A verdade é que os directores que mais ocorrências comunicam acabam por inflacionar os números que apontam as suas escolas como inseguras e violentas. O que se reflecte negativamente tanto na avaliação dos estabelecimentos de ensino como na procura dos mesmos pelos alunos e encarregados de educação.

Como os próprios directores admitiam recentemente, apesar de a plataforma permitir a inserção de todo o tipo de ocorrências – incluindo, a partir de agora, os casos de bullying – na prática quase só lá vão parar aquelas que, pela sua natureza, é impossível de esconder: as que terminam com uma queixa na esquadra da polícia ou com a entrada das vítimas na urgência do hospital.

Enquanto assim for, temo que o bullying continue a receber, em muitas escolas, o mesmo tratamento que é dado à pequena e média indisciplina: uma displicente varredela para debaixo do tapete…