Ministério protela pagamentos ao #EstudoEmCasa

Dizia-se antigamente que quem dorme com crianças acorda molhado. Na Educação, e com a actual equipa de dirigentes ministeriais, pode afirmar-se algo semelhante: quem, não fazendo parte do círculo interno de amigos e protegidos, confiar neles, tem grandes probabilidades de se vir a arrepender. Servem-se das pessoas quando precisam, descartam-nas quando deixam de ser necessárias.

Vem isto a propósito dos professores que aceitaram o desafio de lançar, em tempo recorde, o projecto televisivo do #EstudoEmCasa. Apesar de tudo o que este projecto para os docentes envolvidos – acréscimo de trabalho, responsabilidade acrescida, exposição pública e mediática – percebe-se agora que trabalharam graciosamente: o ME assumiu que, já sendo pagos pelas respectivas escolas de origem, apenas teriam direito a receber as despesas de deslocação. Pagas, ainda assim, tarde e a más horas.

Confrontado com estas e outras queixas, o ME não se atreve a afirmar que os assuntos estão resolvidos – se assim fosse, que sentido fariam as queixas dos professores? – mas diz que estarão em vias de resolução. O que provavelmente significa que, perante o ruído mediático em ambiente pré-eleitoral, deram finalmente ordem aos serviços para desbloquearem os procedimentos.

Mais de 20 professores do projeto EstudoEmCasa, no ano letivo de 2020/2021, não receberam as despesas de deslocação de, pelo menos, três meses, garante ao JN Filipe Ramos, docente de Educação Física, que denunciou o seu caso no Facebook este sábado.

Contactado pelo JN, o Ministério da Educação assegura que as despesas a que alude Filipe Ramos “ou já foram pagas ou estão em tramitação nos serviços das respetivas escolas, estando todo o processamento burocrático já concluído”.

“Para mim e para os meus colegas de profissão, a palavra tem muito valor”, afirma Filipe Ramos. “Infelizmente, todos sabemos que o mesmo já não se pode dizer de alguns políticos, ou de pessoa/s com cargo/s de coordenação.”

Responsável pelo planeamento das aulas de Educação Física, do 1º ao 12º ano, Filipe Ramos contesta ainda o facto de ter sido prometido aos professores do EstudoEmCasa que o projeto seria creditado com 50 horas de formação, o que não sucedeu.

No entanto, o Ministério da Educação esclarece que “as ações de formação desenhadas para estes docentes estão devidamente creditadas”.

Numa coisa o professor Filipe Ramos não tem razão: quando sugere que a participação no projecto, que foi globalmente avaliado como Muito Bom, deveria conduzir à atribuição desta nota, em sede de ADD, aos docentes que nele participaram.

Como se sabe, a avaliação do desempenho docente é enquadrada pelo Projecto Educativo, o Plano de Actividades e outros documentos orientadores ao nível da escola ou agrupamento. Quanto dezenas de milhares de docentes são todos os anos afastados das classificações ditas de mérito por via das quotas, tendo muitos deles participado em projectos exigentes e inovadores nas suas escolas, não faz sentido invocar uma situação que neste caso seria de excepcionalidade e privilégio relativamente a um projecto que transcende o âmbito da respectiva escola.

Dito isto, claro que a situação não deixa de sublinhar a incoerência, a arbitrariedade e a injustiça do actual modelo de ADD, que impede de reconhecer o justo mérito a iniciativas promovidas pelo próprio ministério, nem ao empenho dos profissionais empenhados no seu sucesso.

Violência escolar: o problema que ninguém quer ver

Adormecido durante os confinamentos, o problema da violência escolar nas suas múltiplas manifestações – indisciplina, bullying, agressões verbais, físicas e psicológicas entre alunos que por vezes também tomam como alvo professores e funcionários – ressurge nas escolas portuguesas.

Claro que os casos mais graves são comparativamente raros, se tivermos em conta o número de escolas e alunos. Tendem a concentrar-se em escolas por natureza complicadas, tendo em conta os públicos escolares e a natureza do meio envolvente. Mas que ninguém pense que a sua escolinha, por mais simpática, acolhedora ou familiar que seja, está imune a qualquer ocorrência, enquanto o ambiente geral for de permissividade e de tolerância: o ME a ignorar todos os casos que não terminem na esquadra de polícia ou na urgência do hospital, os directores a esconder os incidentes para que a sua imagem de gestores escolares não saia beliscada e um enquadramento legal e pedagógico desculpabilizador de actos que, na verdade, podem configurar crimes graves contra os direitos, a dignidade e a integridade física das vítimas.

Não falo de cor nem escrevo para atrair visualizações com títulos sensacionalistas. Simplesmente vou acompanhando o que a imprensa vai escrevendo sobre escolas, professores e educação em geral. E noto a regularidade preocupante com que, nas últimas semanas, a violência escolar vai fazendo títulos e manchetes nos media. Fica, sem a preocupação de ser exaustivo, um breve apanhado.

Violência na escola leva Câmara de Valença a contratar empresa de segurança

Aluno de 16 anos acusado de bater na professora em escola do Porto

GNR registou desde janeiro 64 crimes associados ao “bullying”

A violência ocorre fora da visão dos adultos e grande parte das vítimas não reage ou denuncia a agressão sofrida.

Menina de 10 anos agredida em escola no Cacém. “A minha filha não pode chegar assim a casa e ninguém fazer nada”

Mafra | Alunos passeiam-se pelos telhados da Escola Básica 2,3 da vila

Dois alunos feridos devido a agressão com x-ato em escola de Alcobaça

Conselho de Turma intercalar

Transcrevo, com a devida vénia, esta excelente e inspirada sátira à escola dos nossos dias, vista na perspectiva de um conselho de turma intercalar e da sacramental acta de reunião. Da página do Facebook Ó Pressôre, que também convido os leitores deste blogue a visitar.

Ata do Conselho de Turma Intercalar do 13º Z

A reunião teve início com a presença do todas as subespécies de pressôres e pressôras, a pressôra do 54, os representantes dos “quero que o meu menino passe à força”, a delegada da turma das iluminações e o outro que faz de conta que lá está, mas não está.

Relativamente ao primeiro ponto da ordem de trabalhos, o desgraçado do Diretor de diz que é uma espécie de turma informou os presentes dos cinco mil projetos em que as almas iluminadas irão participar, dando especial atenção ao projeto “Ubuntu”, tendo a escola já adquirido umas peles falsificadas de leopardo, pinturas tribais e contratado um xamã, com vista ao início do mesmo já na próxima semana. Um dos representantes dos mal iluminados sugeriu que as sessões Ubuntu decorressem no seu quintal, visto que o matagal que por lá abunda é o que há de mais parecido com uma selva africana. A pressôra de Biologia ofereceu-se, inclusivamente, para ir buscar uns animais exóticos empalhados ao Museu de História Natural para tornar o ambiente mais sugestivo.

Abordou-se ainda o Projeto de Educação Sexual (PES), no qual todos os pressôres irão participar, na tentativa de evitar a corrida diária de casais para trás do pavilhão. O pressôre de Educação Física sugeriu que se montasse uma rede elétrica para evitar aglomerados e jatos de água gelada para arrefecer os mais acalorados.

No que concerne ao segundo ponto da ordem de trabalhos, procedeu-se à avaliação das iluminações da turma, havendo a destacar o seguinte:
– A aluna número um, Ambrósia Ramalheira, às vezes faz, outras vezes não faz. Passa a vida virada para trás a namorar com o Aniceto Cuecas. É um nadinha paspalhona, mas já consegue escrever o nome todo sem dar um único erro. Deve esforçar-se mais.
– O aluno número dois, Aniceto Cuecas, revela capacidades para partir à bofetada a tudo quanto mexe. Dorme nas aulas, mas isso não seria incómodo, não fossem os roncos intermitentes e a baba que escorre pela mesa. Deve lavar a ramela antes de vir para as aulas.
– O aluno número três, Deusadem Escarambola, até revela algum interesse, mas é um bocadito “panhonha”. De valorizar o facto de conseguir escrever mais de duas linhas com uma letra decente.
– A aluna número quatro, Gervásia Destrambelhada, é simpática, passa as coisas do quadro e às vezes participa dizendo “Ó pressôre, eu hoje estou bonita?”.
– O aluno número cinco, Infante da República Portuguesa, é tão chato que só dá vontade de lhe espetar com um par de tabefes. Sempre que um pressôre faz um rabisco no quadro pergunta se é para passar e o Conselho de Turma está tão fartinho disto que irão ser adotadas medidas universais de super cola três… Na boca.
– Os alunos Matumbina de Jesus, Pirolito Enrolado e Zacarias Zoroastro não têm colocado os “penantes” nas aulas, o que é considerado uma benção para a Humanidade.

De um modo geral, a turma foi considerada, quanto ao comportamento, um terramoto semelhante ao de 1755 e, quanto ao aproveitamento, o vulcão de La Palma, porque sempre que abrem as crateras só sai lava.

E apesar de haver muita coisa para tratar, demos por terminada esta grandessíssima carga de trabalhos, da qual será lavrado um texto faz de conta, que será assinado pelo Diretor de diz que é uma espécie de turma e pelo, às vezes, fantasma que o elaborou (faz conta).

Transcrito daqui.

O domínio da boa educação…

… a rubrica da gentileza, a área de competência da empatia, os descritores do respeito pelos outros, não deveriam fazer parte das aprendizagens essenciais?

Agora que aparentemente se concluiu que os conhecimentos estão na internet e só é preciso saber ir lá buscá-los, que o confinamento deixou muita gente a “bater mal” e o que importa é desenvolver competências, quando se assumirá que a indisciplina, o bullying e mesmo a violência escolar são realidades que, com o regresso da escola presencial, se vão de novo instalando no quotidiano?

É certo que os programas da abelha Maia e quejandos estarão a dar bom dinheiro a ganhar a formadores e instituições de ensino superior e a justificar destacamentos de gente que o que menos deseja é ter de experimentar na prática docente a teoria que anda a vender aos outros. Mas não seria já altura de parar de inventar problemas e complicações e de olhar a realidade que temos à nossa volta?

Como professora no terreno, Carmo Machado percebe bem o que se passa. E não receia colocar o dedo na ferida.

Se a escola conseguir, neste ano letivo em curso, definir e concretizar – como aprendizagens essenciais – uma melhoria da boa educação e da gentileza dos alunos, terá alcançado a sua primeira missão no contexto da sociedade atual. Quando o professor se sente minúsculo perante o chorrilho de palavrões que ouve diariamente, isto é bullying. Quando o professor se sente humilhado, ofendido, vilipendiado no desempenho da sua profissão e nada se faz para o apoiar, isto é bullying. Quando os alunos se descalçam na aula, se sentam com as estendidas e pousadas nas cadeiras da frente, isto é bullying. Quando entram e se mantém propositadamente de capuz, isto é bullying. Quando os alunos emitem sons impróprios e recusam obedecer às ordens do professor para sair da sala, isto é bullying. Quando ofendem os funcionários, boicotam as aulas, humilham os professores de todas as formas possíveis, isto é bulllying. Quando o professor tem de dar a aula num clima de guerrilha quase permanente, obrigando-se a uma gestão minuciosa de todas as palavras ditas – por perigo de deturpação imediata das mesmas – isto é bullying. Quando o professor adoece por exaustão emocional, isto é bullying, Quando a sensação de impotência do professor aumenta na exata proporção da sensação de impunidade dos alunos, isto é bullying. Eis o estado a que chegámos em  muitas das nossas escolas e contra o qual é urgente lutar.

Importa repensar quais são as verdadeiras aprendizagens essenciais numa sociedade cada vez mais empobrecida de valores. Quando a má educação e os comportamentos insolentes servem, na maioria dos casos, de veículo de aceitação, integração e afirmação social dentro do grupo-turma, tocámos no fundo. Quando a escola permite que indivíduos cheguem ao 12º ano sem a mínima interiorização das regras básicas de educação e de socialização, sem respeito por si próprios e pelos outros, sem vontade de cumprir os seus deveres, sem consciência do triste estado em que se encontram, quem falhou?      

Falhámos todos.

Sábado, 31/07, RTP2: Uma Turma Difícil

A RTP2 vai exibir amanhã, pelas 19:20h, um filme francês de 2014 que mantém inteira actualidade: no ambiente difícil de escolas secundárias recheadas de alunos com “interesses divergentes dos escolares”, como motivar e manter a motivação para a aprendizagem? Mais, como encontrar alternativas a aulas “secantes” sem ceder ao sucesso fictício, à irrelevância ou ao facilitismo?

Um filme a ver, rever ou gravar para ver mais tarde.

Republico o post da série “A escola no cinema” que publiquei originalmente em 2017.

Uma Turma Difícil

Título original: Les Héritiers, 105m, França, 2014.

turma-dificil.jpgUm filme recente – não confundir com A Turma, do qual também já se escreveu por aqui – sobre uma temática que tem sido diversas vezes abordada pela cinematografia francesa: as turmas complicadas das escolas secundárias, recheadas de alunos desmotivados, indisciplinados e onde cada aula se torna um duro desafio mesmo para os professores mais persistentes e determinados.

Ora é justamente com uma destas turmas difíceis de um liceu de Créteil que a professora de História decide tentar algo de diferente das estratégias habituais, propondo aos alunos um daqueles desafios que geralmente se reservam às turmas mais promissoras: a participação num concurso nacional evocativo das memórias da resistência, da deportação e do Holocausto.

Ao longo do filme vemos como a participação no projecto, de início quase impossível, acaba por envolver os alunos, como constrói laços de amizade, solidariedade e cooperação entre os jovens e como acaba por constituir, não apenas uma bem sucedida tarefa escolar, mas também uma experiência transformadora das suas vidas.

Actividades de sala de aula

São os clássicos de sempre, associados a uma ou outra moda recente, ou é já a preparação dos nossos alunos para as profissões do futuro, as tais que ainda não foram inventadas?

No post original, na página do Facebook Txitxa’slife, os comentários enumeravam alguns bonecos ausentes mas bem conhecidos nas salas de aula: o/a que rodopia a garrafa da água, o/a que desinfecta toda a mesa, a caneta, o lápis o estojo e até o caderno com doses generosas de “alcongel”, o/a que se enfia debaixo da mesa à procura da borracha…

Violência à solta na Secundária de Ponte de Sor

Na Escola Secundária de Ponte de Sor, o fosso existente entre os membros da comunidade escolar parece não parar de crescer. Os estudantes sentem-se ameaçados, os professores impotentes, os encarregados de educação revoltados e a associação de pais critica a falta de comunicação com a direção.

A extensa e bem documentada reportagem do jornal i traça um retrato muito preocupante do ambiente desta escola do Alto Alentejo: um grupo de alunos faz a vida negra aos colegas, aos professores e aos funcionários. Ouvindo quase todos os intervenientes, como é regra do bom jornalismo, mas nem sempre possível de concretizar nos casos de violência escolar: muitas vezes imperam o medo, a lei do silêncio imposta de cima ou os interesses cínicos e calculistas de quem, mais do que resolver os problemas, deseja ficar bem na fotografia.

Além de dar voz às vítimas, que acabam por ser quase todos os que têm de cruzar os portões da escola para trabalhar ou estudar, denuncia-se o extenso cardápio de violências físicas e psicológicas exercidas pelo bando de desordeiros: indisciplina, agressões, insultos, abusos sexuais. Há alunos a levar navalhas para esta escola. Há professores e funcionários ameaçados e amedrontados. E tudo decorre num ambiente de aparente impunidade, pois ninguém deseja ter maus encontros também fora da escola. Uma direcção que se esconde no gabinete antes que sobre para ela. A GNR, que fiscaliza cá por fora e às vezes vai lá dentro, mas sem grandes resultados. A acção da CPCJ bloqueada pela recusa da intervenção por parte das famílias, o que remete os processos para tribunal, entrando no vagaroso e sigiloso circuito da justiça à portuguesa.

Como se torna evidente para todos os que contactam com estes casos reais, e não apenas com a sua expressão estatística, que é quase residual, estes ambientes podem ser extremamente desgastantes do ponto de vista psicológico e altamente corrosivos do bom ambiente escolar. O que é condição necessária, não só para boas aprendizagens, mas para garantir o elementar direito de todos à Educação. A escola tem de ser um lugar seguro. Não um espaço onde um bando de gandulos se sente à vontade para impor a sua lei.

Claro que, na base de tudo, está a escolaridade obrigatória até aos 18 anos, que obriga a permanecer na escola mesmo os que lá não querem andar. E embora se tenha feito um esforço assinalável para cativar estes jovens com a oferta escolar mais prática dos cursos profissionais, a verdade é que sobra, mesmo assim, uma pequena minoria que não quer aprender. Sem terem interiorizado um mínimo de civismo e regras de convivência, decidem ocupar o tempo que são obrigados a passar na escola a infernizar a vida dos que lhes aparecem à frente.

Sem soluções à vista, todos parecem aguardar que esta rapaziada complete os 18 anos para que, uns e outros, reconquistem a sua liberdade. Perante uma situação que não encontra soluções ao nível disciplinar, nem policial, nem judicial, nota-se uma ausência de peso na reportagem que recolheu o contributo de professores, pais, alunos, direcção e GNR: a posição do ministério da Educação e as soluções que (não) tem para este tipo de problemas que ocorrem de forma recorrente nalgumas escolas sob a sua tutela. Principalmente as que integram os TEIP, os tristemente famosos territórios educativos de intervenção prioritária.

A verdade é que nenhum trabalhador deve ser obrigado a exercer a sua profissão num ambiente que põe permanentemente em risco a sua saúde física e mental e a sua segurança. Nenhuma criança ou adolescente deve ser exposto ao assédio ou à violência dos seus pares. Actos de criminalidade ou delinquência, como os que são descritos na peça que venho comentando, extravasam a irreverência estudantil ou mesmo a mera indisciplina: os seus autores devem ser punidos e as vítimas têm de ser protegidas. Nem que para isso seja necessário assumir, sem hesitações, que o lugar dos criminosos é na cadeia ou, se for caso disso, em instituições tutelares de menores. A escola não pode continuar a ser vista como uma espécie de caixote de lixo da sociedade, para onde se despejam os problemas que o poder político não quer ou não sabe resolver.

E coisas que a gente não saiba?

Os estudantes de escolas com mais disciplina obtêm melhores notas

A notícia do ABC dá conta de um estudo espanhol, realizado a partir de resultados dos testes PISA na disciplina de Matemática, que comprova cientificamente algo que todos os professores sabem empiricamente: um ambiente de ordem e disciplina na sala de aula contribui, de forma consistente, para a melhoria dos resultados escolares.

Mas este é um estudo de inspiração economicista, para o qual se adaptou uma metodologia construída para avaliar, não escolas, mas sistemas bancários. Tende a reduzir o problema da indisciplina à má gestão da sala de aula – conflitos, desordem, ruído – o que sugere que pode ser resolvido com mais formação dos docentes em técnicas de gestão da aula. Quando todos sabemos que factores como o tamanho das turmas, a atenção ao meio social e familiar dos alunos ou a existência de apoios educativos para quem deles necessita são muito mais relevantes na construção de um ambiente escolar tranquilo e propiciador do sucesso educativo.

Ainda assim, não é demais repisar a ideia essencial: com aulas calmas e disciplinadas, todos os alunos conseguem aprender mais. Já o sabíamos, mas escrito preto no branco em paper publicado na The Manchester School terá certamente, para algumas mentes incrédulas, um outro valor.

O mascaradinho

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O humor de Paulo Serra, já a antecipar o regresso das aulas presenciais…

Indisciplina online

cyberbullying.PNGAcabaram-se as bolinhas de papel a voar, as conversas cruzadas e  os recados escritos. Agora, em tempos de ensino à distância, são outras as formas de perturbar uma aula. E os professores apontam o dedo não só a alguns alunos, como também a pais. Os casos não são generalizados, mas, ao que o SOL apurou, acontecem um pouco por todo o país. Por exemplo, num agrupamento de escolas de Lisboa, Eça de Queirós, já houve mesmo necessidade de fazer um alerta formal à comunidade escolar. Num email a que o SOL teve acesso, a diretora, Maria Eugénia Coelho, começa por referir a dificuldade que os professores têm tido em adaptar-se de um momento para o outro à nova realidade e pede uma reflexão sobre alguns comportamentos de alunos e de encarregados de educação.

«Os alunos, usando as suas competências digitais boicotaram algumas sessões, com comportamentos que me escuso de qualificar», diz, acrescentando ainda que «alguns pais entraram nas sessões, deram opiniões sobre o que entenderam e classificaram o desempenho do docente».

«Não posso aceitar estas situações», desabafa a diretora, lembrando que «os alunos têm de ter um comportamento cívico e de participação correto e respeitador».

O ensino a distância trouxe nuances novas a um velho problema da instituição escolar: a indisciplina. À partida, e desde que o professor domine minimamente as funcionalidades dos programas usados nas aulas online, a maioria dos comportamentos disruptivos são mais fáceis de controlar: em vez do clássico bate-boca com o aluno indisciplinado, que quebra o ritmo da aula e dá destaque imerecido ao transgressor, basta desligar-lhe o microfone. Quanto às câmaras, são geralmente os próprios que tomam a iniciativa de as desligar quando percebem que estão a fazer figura de urso. E as conversas paralelas também podem ser cortadas desactivando o chat, embora isso não impeça que os alunos, longe da presença física do professor, recorram a outras aplicações para pôr a conversa em dia.

Há no entanto novas intrusões no ambiente online, a mais preocupante das quais me parece ser a presença dos pais nas sessões dos filhos com os professores e, pior do que isso, a sua intromissão no trabalho que está a ser desenvolvido, questionando e interpelando os docentes.

O problema maior nem será tirar o pio aos paizinhos impertinentes. É, isso sim, o exemplo profundamente deseducativo que transmitem aos seus educandos e, neste contexto, também aos seus colegas de turma.

Quando, nas circunstâncias difíceis em que nos encontramos, as escolas e os professores se reinventam para continuarem a transmitir aos seus alunos conhecimentos, referências e valores, o mínimo que seria de esperar é que todos os pais valorizassem o esforço em prol dos seus filhos e colaborassem nesse desígnio colectivo. Ou pelo menos que, sendo incapazes de o fazer, não obstaculizassem o trabalho dos professores.