A escola pode tudo?

violencia-domestica.jpg…entre um marido e uma mulher, na maior parte das vezes, existe uma criança que, inocente, é arrastada para o meio da disputa, dos maus tratos, sofre maus tratos e alguns até se tornam cúmplices de maus tratos. Sim, cúmplices. Como poderiam não ser? Não conhecem outra realidade, nunca viveram num ambiente familiar, dito normal. Imitar os seus progenitores é do mais normal que existe numa criança, eles são os seus modelos, geralmente o mais “forte” é o mais seguido. Temos que aprender a actuar, a denunciar, a não recear represálias, a defender a criança, a defender que todos cresçam num ambiente onde todas as partes sejam saudáveis e onde a violência, dura e bruta, não se confunda com educação ou forma de relação entre casal…

O nosso colega Rui Gualdino Cardoso reflectia, no Público, sobre uma vertente da violência doméstica tantas vezes ignorada: o impacto que a vivência quotidiana no interior de uma família desestruturada pode ter sobre o desenvolvimento social e emocional das crianças e dos adolescentes.

Apesar do muito caminho que ainda falta percorrer, a sociedade parece ir aos poucos despertando para a necessidade de “meter a colher” sempre que a relação entre marido e mulher descamba para a agressão e os maus tratos. Já em relação aos filhos, e embora as comissões de protecção de crianças e jovens em risco venham fazendo, em muitos lados, um trabalho meritório, parece prevalecer uma ideia que, com o actual governo, foi elevada aos píncaros: sejam quais forem os problemas que os alunos tragam de casa, ou no interior de si mesmos, a escola está ali para tudo resolver.

Mas a ideia de que a escola pode tudo é duplamente perigosa. Desde logo, porque desresponsabiliza o Estado e a sociedade de intervirem adequadamente, atacando as causas dos problemas, em vez de tentarem apenas minorar as suas consequências. Depois porque, sempre que as coisas correm mal, acabamos a culpabilizar quem efectivamente não tem culpa: as escolas e os professores. E que, no caso destes últimos, podem bem tornar-se vítimas. Como notava um dia destes, no Twitter, um colega espanhol:

Parece-me muito perigoso culpar os docentes pelo comportamento disruptivo dos alunos. Dou-te um exemplo. Imagina que dissesse: si um marido dá uma bofetada à mulher, é porque alguma coisa ela terá feito. Ai, perdão, queria dizer aluno e professor. Mas não muda nada, pois não? Ou muda?…

A escola no cinema: O Substituto

O-substituto.jpgO Substituto

Título original: Detachment, 98m, EUA, 2011.

Retomando uma série de posts dedicada aos olhares cinematográficos sobre a escola e a profissão docente, o destaque vai hoje para um filme relativamente recente cujo protagonista é um professor substituto. Henry Barthes é um docente do secundário com um dom especial para compreender e comunicar com os alunos, sobretudo os que têm maiores problemas escolares e familiares. E que, como estratégia de fuga a um envolvimento excessivo com os seus alunos, tem optado por fazer substituições temporárias de colegas, em vez de assumir um lugar permanente numa escola.

Contudo, quando chega a uma escola pública especialmente problemática, onde encontra colegas desmotivados e extenuados tentando educar adolescentes a quem a escola pouco ou nada diz e cuja atitude oscila entre a apatia e a indisciplina, Henry tenta adaptar-se à nova realidade, procurando conhecer e compreender os seus alunos, para conseguir chegar até eles. Mas não conseguirá deixar de se envolver nos problemas e no quotidiano difícil que alguns deles enfrentam.

O filme é bastante intenso  e reflexivo, mostrando-nos, com um rigor quase documental, não só a agitação e o conflito quase permanente que marca o dia-a-dia da escola, mas também os dramas humanos, as perplexidades e as contradições que perpassam pelo espírito das principais personagens. E faz-nos pensar, o que diz muito da qualidade daquele que podemos considerar um melhores filmes dos últimos anos sobre escola, juventude e educação.

Inquérito à indisciplina nas escolas

Foram hoje publicados no blogue ComRegras os resultados de um grande inquérito sobre indisciplina escolar. O excelente e certamente árduo trabalho de Alexandre Henriques foi igualmente divulgado pelo Público, que chamou o tema à primeira página da edição impressa.

indisciplina-comregras.JPG

Numa primeira análise, os dados parecem confirmar uma realidade que todos os professores, empiricamente, têm presente: a indisciplina existe na generalidade das escolas portuguesas mas, na grande maioria, predominam os casos que podemos considerar “leves”, como o estar distraído e distrair os colegas ou interromper as aulas com brincadeiras ou intervenções inoportunas. Os casos de indisciplina grave são relativamente raros, mas existem e tenderão a concentrar-se mais em determinadas escolas e em certos públicos escolares. Considerando dados de estudos anteriores que pareciam apontar para uma maior incidência da indisciplina grave – aquela que não se resolve com simples advertências ou mudanças de lugar – faz todo o sentido a reflexão do autor do estudo:

Alexandre Henriques não deixa, contudo, de se manifestar surpreendido pelo facto de “dois terços dos inquiridos terem referido que há pouca indisciplina”, até porque, lembra, os dois inquéritos anteriores que realizou a directores, em 2016 e 2017, davam conta da existência de um número muito elevado, todos anos, de ocorrências nas escolas. “Hipoteticamente falando, podemos estar perante a banalização da pequena indisciplina. O que no passado era inaceitável, hoje em dia pode ser rotina”, afirma. Mas também há outra possibilidade, admite: “Podemos estar perante uma melhoria dos índices de indisciplina em Portugal.”

Determinar as principais causas e responsabilidades da indisciplina é uma tarefa complexa, embora a maioria dos professores não tenha dúvidas em apontar as falhas na educação familiar e no acompanhamento parental, que levam a que muitas crianças e jovens cheguem à escola sem terem adquirido competências básicas ao nível do saber-estar e do relacionamento interpessoal. Mas os pais, ou quem os representa, preferem enjeitar responsabilidades e apontar o dedo à escola e aos professores: se os meninos se portam mal, talvez seja porque as aulas não são suficientemente interessantes…

Já Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), considera que o facto de os professores considerarem que distracção é indisciplina ilude aquela que deveria ser a “questão principal”. “Se estão distraídos por que é que isso acontece e o que se pode fazer para que não seja assim?” — questiona, lembrando a propósito estudos internacionais que dão conta desta característica dos alunos portugueses: gostam da escola, mas não das aulas.

Entre os depoimentos recolhidos para a peça do Público, destaco ainda o de João Lopes, da Universidade do Minho, que chama a atenção para um ponto incontornável: adianta pouco culpar a educação familiar, pois a escola nunca irá “educar” os pais dos alunos. Prevenir a indisciplina e agir adequadamente de forma a punir e desencorajar os comportamentos disruptivos e a promover a sã convivência e o respeito por todos os elementos da comunidade escolar é uma tarefa que as escolas terão de desenvolver focando-se, essencialmente, nos seus alunos. Responsabilizando e envolvendo os pais, o mais possível, na melhoria dos comportamentos dos seus educandos. Mas não alienando nunca as competências e responsabilidades próprias da organização escolar: afinal de contas, professores e alunos têm direito a uma escola onde todos se sintam respeitados.

Protestos de alunos e professores demitem directora

ies-lebrija.pngO caso sucedeu em Espanha, numa escola de Lebrija, pequena cidade da Andaluzia: professores e alunos uniram-se para protestar publicamente contra a directora, acusada de manter uma atitude laxista perante a indisciplina de alguns alunos e as agressões de que foi vítima um professor da escola.

Os protestos, que se mantiveram durante vários dias, culminaram anteontem com o pedido de demissão da directora, que reconheceu finalmente não ter condições para continuar à frente do estabelecimento de ensino.

Os incidentes surgiram com uma turma de um curso profissional, onde alguns alunos agrediram o professor de Carpintaria com um pedaço de madeira, o que motivou tanto a manifestação solidária da quase totalidade do corpo docente da escola como o protesto dos alunos contra a falta de actuação adequada por parte da direcção.

Ao que parece, em vez de prevenir e punir adequadamente este tipo de incidentes, a directora preferia instigar os pais a que denunciassem os professores que “insultavam” os alunos. Quanto aos docentes, deixaram claro, na sua tomada de posição colectiva, que o protesto se deveu:

…às contínuas atitudes de desconsideração, ofensas, resistência activa, coacções, humilhações e condutas disruptivas que vêm tendo desde o início do presente ano os alunos do segundo curso de FPB de Carpintaria contra o seu tutor e a equipa docente».

E a finalizar, permitam-me a pergunta, e desculpem a pequena provocação: por cá, quantos excelentíssimos colegas estariam dispostos a agir da mesma forma em defesa de um colega e da dignidade da nossa profissão?…

Qual a dimensão da indisciplina grave nas escolas?

bullying[1]Diretores reportaram, no ano passado, 242 agressões graves cometidas por estudantes dentro dos estabelecimentos.

Em 2016, foram instaurados 456 inquéritos pela Procuradoria-Geral da República a atos de “criminalidade” envolvendo alunos, dentro dos estabelecimentos e nas áreas envolventes da comunidade escolar.

A PSP registou, no ano letivo 2015/2016, 4102 casos de bullying, no âmbito do projeto Escola Segura, mais do que no ano anterior: 2849 terão ocorrido dentro da escola e 1350 foram “ofensas à integridade física”.

A discrepância de números sobre a indisciplina e a criminalidade no meio escolar evidencia que, não só não temos dados fiáveis, rigorosos e consistentes sobre este fenómeno como, pelos vistos, nem interessa tê-los: continuamos a alimentar a ideia perigosa de que, escondendo o problema, ele acabará por desaparecer.

Na verdade, uma escola onde há registo de casos graves de indisciplina nas aulas ou agressões entre alunos tenderá a ser penalizada de diversas formas: dos professores dir-se-á que não “têm mão” nos alunos, do director que é incompetente e da escola que é de evitar pelos pais que não querem ver os filhos em más companhias:

As escolas, garantem os dois presidentes de associações de diretores, são espaços cada vez mais seguros, sendo esse, aliás, um requisito chamariz para matrículas.

Apesar de reportar ser obrigatório, os diretores apenas registam os casos mais graves”, admite Manuel Pereira. Por exemplo, explica o presidente da Associação de Dirigentes Escolares (ANDE), agressões que custem deslocações ao hospital ou intervenção policial.

Ora quando é preciso que o agredido vá parar ao hospital e o agressor à esquadra de polícia para que se considere que o caso é digno de participação, estamos conversados no que diz respeito à forma como a generalidade dos directores olham para o problema da violência escolar. O ministério, por sua vez, cumpre a sua parte. Não só aceita fazer vista grossa em relação à indisciplina que se sabe existir e não é reportada, como desautoriza cada vez mais as escolas que pretendem aplicar a medida sancionatória mais grave prevista no Estatuto do Aluno: a transferência de escola.

No ano letivo passado, foram transferidos de escola 51 alunos por mau comportamento. A medida é uma das mais graves do Estatuto do Aluno e tem de ser aplicada pelo diretor-geral de Educação, que aprovou 51 dos 139 pedidos de transferência feitos pelos diretores. No ano letivo 2015/2016, tinham sido transferidos 75 alunos na sequência de 140 pedidos.

Há um debate nacional que continua por fazer em torno da indisciplina grave, que inclui os comportamentos violentos, disruptivos e criminosos de alunos nas escolas e nas suas adjacências. Conhecer a dimensão real do problema seria, apenas, o primeiro passo de um caminho que está quase todo por fazer.

A escola no cinema: Uma Turma Difícil

Uma Turma Difícil

Título original: Les Héritiers, 105m, França, 2014.

turma-dificil.jpgUm filme recente – não confundir com A Turma, do qual também já se escreveu por aqui – sobre uma temática que tem sido diversas vezes abordada pela cinematografia francesa: as turmas complicadas das escolas secundárias, recheadas de alunos desmotivados, indisciplinados e onde cada aula se torna um duro desafio mesmo para os professores mais persistentes e determinados.

Ora é justamente com uma destas turmas difíceis de um liceu de Créteil que a professora de História decide tentar algo de diferente das estratégias habituais, propondo aos alunos um daqueles desafios que geralmente se reservam às turmas mais promissoras: a participação num concurso nacional evocativo das memórias da resistência, da deportação e do Holocausto.

Ao longo do filme vemos como a participação no projecto, de início quase impossível, acaba por envolver os alunos, como constrói laços de amizade, solidariedade e cooperação entre os jovens e como acaba por constituir, não apenas uma bem sucedida tarefa escolar, mas também uma experiência transformadora das suas vidas.

 

Prevenir a indisciplina escolar

indisciplinaO ComRegras é seguramente, e fazendo juz ao seu nome, o blogue português que melhor trata as questões da indisciplina escolar. O que não sucede por acaso, mas é antes fruto da dedicação, experiência e sensibilidade para o tema que tem demonstrado o Alexandre Henriques, fundador e principal dinamizador de um espaço que se tornou uma referência na chamada blogosfera docente. E que partilha regularmente com os seus leitores o muito que sabe sobre o assunto, seja na perspectiva da regulamentação e dos procedimentos legais perante os problemas disciplinares, seja também na vertente, não menos importante, da prevenção da indisciplina.

Na verdade, todos os professores desejam evitar os problemas disciplinares nas suas aulas, mas nem todos o conseguem. E mesmo os mais bem sucedidos nesta matéria já terão constatado que não há receitas universais e de sucesso garantido: o que resulta numas turmas pode falhar com outras. É igualmente verdade que a indisciplina está profundamente ligada a problemas sociais e culturais que transcendem em muito a escola e a sua capacidade para os resolver. Também é certo que a sua incidência varia muito consoante o meio envolvente da escola e o tipo de turmas, sendo sabido que os cursos profissionais, CEFs, PIEFs e até turmas regulares com elevado número de repetentes são mais propensas à ocorrência de actos de indisciplina. E mesmo os horários escolares influem: que dizer daquelas turmas calmas e educadas aos primeiros tempos do dia em que, para o final da manhã ou da tarde, se vêem metade dos alunos já transformados em verdadeiros diabinhos?

Ainda assim, há procedimentos gerais recomendáveis e com provas dadas na prevenção da indisciplina, aplicáveis por todos os professores – e serão, quero crer, a grande maioria – que não se querem limitar a ser os “stores fixes”, que tudo permitem para não terem problemas, mas também não desejam recorrer a um autoritarismo rígido, desafiante e cada vez mais sem sentido perante as actuais dinâmicas escolares. É sobretudo a esses que se dirige, com clareza e sensatez, o blogger do ComRegras…

Acredito piamente que a empatia é o maior aliado do professor. Não é fácil, por vezes vemos e ouvimos certas coisas que só apetece mandar o aluno pela janela fora, desculpem o exagero da expressão.

Ainda na semana passada, tinha umas “criaturas” que parecia que estavam sobre o efeito de qualquer coisa, se calhar até estavam… Era subir espaldares, saltos loucos para os colchões, risadas constantes, provocações entre colegas e eu ali a ver se conseguia explicar alguma coisa. O problema é que ninguém me conhecia, não tinha qualquer tipo de relação com os miúdos e o “está quieto”, “ouve”, “cala-te” não resultavam pois não era visto como alguém com “legitimidade” para mandar calar quem quer que fosse. O professor hoje em dia não é por si só uma autoridade, é obrigado a conquistá-la e as causas para este descalabro, são sociais e já têm décadas…

Até podia ter colocado 5 ou 6 alunos na rua, podia, e no futuro se as coisas não mudarem assim farei, mas o meu objetivo nestas primeiras aulas é apenas um. Criar empatia com os alunos. Não para ser o professor “fixola” ou o “choca aí meu”, mas para criar qualquer tipo de relação que me permita ser visto não como o inimigo, mas como alguém que está ali para ajudar e naturalmente ensinar. É que para turmas como CEFs ou PIEFs, é muitas vezes mais importante o saber estar do que o saber fazer…

Irei apostar em diálogos individuais, separar o líder do grupo e torná-lo meu aliado, mostrar firmeza, mas tolerância para personalidades que foram “danificadas” pelas vicissitudes da vida. Acima de tudo irei mostrar imparcialidade, coerência e real preocupação pela pessoa que está por detrás do aluno.

Com o tempo, serei visto como um farol e respeitado como tal. Estou de alguma forma a manipular os alunos, mas ser professor é também isto, fazer e dizer o que precisa para que os alunos se tornem alunos e o professor possa exercer a sua função, a tão falada inteligência emocional…

Não descobri a pólvora, nem sou mais que ninguém, digo sempre que sou um mero professor como outros tantos que estão ao meu lado por esse país fora. Mas se me permitem e de coração aberto, e já que tenho a oportunidade de chegar a uns quantos, sejam empáticos, utilizem o humor, ouçam os alunos, “percam” um pouco de tempo com eles e irão ganhar muito do vosso tempo e seguramente um ano menos complicado.