Elevados impostos ou baixos salários?

O debate orçamental tem sido dominado pela discussão em torno dos impostos elevados pagos pelos portugueses. Um tema claro à agenda liberal, que o Governo alimentou com o anúncio de alterações nos escalões do IRS, apresentando como um alívio fiscal sobre as famílias o que não passa de um truque contabilístico, pois o imposto que verdadeiramente pagamos não é a retenção na fonte aplicada sobre os salários, que funciona como um adiantamento, mas o valor final que é apurado na entrega da declaração de IRS.

Sendo verdade que a carga fiscal é elevada, ela não se pode considerar globalmente excessiva: está ao nível da generalidade dos países europeus com um estado social robusto, capaz de garantir o acesso universal a serviços de saúde, educação e segurança social. Não por acaso, as três maiores parcelas, do lado da despesa, nos orçamentos nacionais. O problema não são os impostos elevados, são os salários baixos que tornam a carga fiscal difícil de suportar. Os baixos rendimentos isentam uma grande parte da população do pagamento de impostos directos e isso traduz-se em sobrecarga fiscal dos restantes. Em contrapartida, acabam por pagar impostos indirectos elevados, como a polémica com os recentes aumentos dos preços dos combustíveis, mais os impostos que lhes estão associados, tem vindo a evidenciar.

Contrariando a típica convicção liberal, o problema da grande maioria dos portugueses não são os elevados impostos que pagam, mas os baixos salários que auferem. Não só o salário mínimo, mas também os salários médios são, entre nós, muito inferiores à média europeia. E parece haver dificuldade em perceber que este modelo de competitividade assente em baixa produtividade e contenção salarial está, no contexto europeu, há muito ultrapassado. Já hoje temos dificuldade em recrutar e fixar profissionais em diversas áreas, mas esta realidade, que qualquer cidadão constata no seu dia a dia, parece passar ao lado de quem tem de planear e decidir.

Como nota Sofia Vale, o Estado, enquanto maior empregador nacional, deveria dar o exemplo, valorizando os trabalhadores dos serviços públicos e incentivando os privados no mesmo sentido. Mas o OE 2022 será, a este respeito, mais uma oportunidade perdida…

Não se desenham políticas de promoção de aumentos salariais e, nas áreas onde o Estado pode dar o exemplo, escolhe suprimir-se da sua função. A proposta do OE2022 de aumentar os salários da função pública em 0,9% é disso um reflexo, parecendo ceder às pressões sociais para castigar um setor repetida e erradamente tratado como privilegiado.

Curiosamente, apesar da ideia de favorecimento, a opinião pública partilha a visão de que trabalhar para o sector público é um anátema, sendo impensável a qualquer jovem recém-formado optar por tal saída profissional, mesmo que um emprego público seja considerado mais estável.

Alimentar esta visão, ao dar aos funcionários públicos um incremento salarial inferior à inflação, é contribuir para desconsiderar a atividade que é desenvolvida pelo setor público – responsabilidade dos governos – e destratar um setor que absorve uma das maiores percentagens de população qualificada, mas é, principalmente, enviar um sinal para o setor privado que pode persistir na manutenção dos baixos salários que pratica. E é também um fator que contribui para uma perda geral de eficiência macroeconómica.

Construir uma sociedade competitiva e mais igualitária requer políticas económicas ajustadas. Implica ter a audácia de assumir aumentos visíveis dos salários reais da função pública enquanto se criam incentivos para que as empresas promovam aumentos salariais acima da média nacional. Atingir este objetivo permitirá dispensar malabarismos com escalões de IRS enquanto se assegura a receita fiscal desejada.

Pagamos demasiados impostos?

No passado ano fiscal, o meu rendimento roçou o limiar do último escalão. Paguei uma taxa efetiva de aproximadamente 19% em sede de IRS. Muito, pouco, assim-assim, o que quiserem, tudo menos o suposto confisco e o esbulho que passaram os últimos dias a gritar.

Aqui entrará depois a conversa da segurança social que é um imposto porque não te podes furtar a ele. É rendimento diferido e já me socorri dele, pelo menos em 3 ocasiões: As licenças de parentalidade dos meus dois filhos e a única baixa que felizmente tive, durante 2 semanas na sequência de uma hospitalização que, graças aos impostos que todos pagamos, não me custou os olhos da cara. Conto um dia ter um mínimo digno para sobreviver, enquanto velho, assim como se um dia cair no desemprego tenha como amparar a queda e ter a tranquilidade e o poder negocial para não ter de aceitar o primeiro emprego de treta que encontrar. Enquanto nada disso acontece, contento-me com o pensamento de estar a pagar a reforma à minha mãe e o abono de família aos meus sobrinhos que não tiveram a culpa do pai os abandonar aos 2 anos e deixar a mãe sozinha a criá-los. Concordo com os que dizem que devemos ter mais pelo que pagamos em impostos. Precisamos e merecemos mais e melhores serviços públicos.

Ainda assim, com o que pago, já recebo bastante. Basta-me a escola onde os meus filhos andam. E no final de contas espero contribuir com mais do que recebo, porque há aqueles que simplesmente não podem contribuir tanto quanto eu e precisam como eu um dia precisei. Eu que, se cheguei a ser taxado num escalão de rendimentos onde pouco mais de 5% dos agregados chegam, o devo ao meu trabalho, ao esforço da minha família e ao de todos quantos contribuíram, pagando os seus impostos, para financiar a minha educação.

Adaptado daqui

Já cansam os insistentes chavões, de novos e velhos liberais, em torno dos elevados impostos. Que de um modo geral até estão alinhados com a média europeia, e se tendem a penalizar demasiado as classes média e média-alta é porque os ricos pagam menos do que deviam e continuamos a ter entre nós demasiados pobres, isentos de tributação directa.

Poderíamos pagar menos impostos e ainda assim ter melhores serviços públicos? Claro que sim, se não andássemos a pagar dívidas e encargos contraídos ao longo de décadas pelos desgovernos do PS e do PSD, pois temos de honrar os compromissos, para continuar a merecer a “confiança dos mercados”. Se não tivessem desmantelado e privatizado o sector empresarial público, colocando empresas que antes entregavam receita ao Orçamento de Estado a gerar lucros para investidores estrangeiros, pois o Estado, garantiam-nos, é “por natureza” mau gestor. Se o dinheiro do contribuinte não andasse a pagar as fraudes do BPN, BES ou BPP, porque é essencial assegurar a “estabilidade do sistema financeiro”. Ou continue a tapar os buracos abertos pela má gestão em empresas falidas, entre as quais a TAP é apenas o exemplo mais evidente.

A solução para os remediados pagarem menos impostos não é desmantelar os serviços públicos e o Estado Social. É obrigar os ricos a pagarem também a sua parte. Ou, no mínimo, deixarem de nos roubar.

Burguesa do teletrabalho será vosselência!…

Eu sou um trabalhador.

Toda a vida vivi do rendimento do meu trabalho. Nunca usufrui de rendas, lucros, juros ou outros rendimentos de capitais ou de bens ao luar. Nunca realizei mais-valias explorando a força de trabalho alheia para meu enriquecimento. Não me considero um burguês, um capitalista, nem escolhi estar em teletrabalho. Não passei, pelo facto de estar a cumprir o confinamento obrigatório, a trabalhar menos ou a deixar de cumprir qualquer dos meus deveres e responsabilidades profissionais.

Poderá a cronista, estrela ascendente no universo dos opinadores do regime, sentir o deslumbramento de chegar às primeiras páginas da imprensa com soundbites retumbantes e provocadores. Julgará talvez encontrar alguma sensatez na frase que proferiu. Mas a estratégia é mais velha do que a Sé de Braga: tentar virar os trabalhadores uns contra os outros. Trabalhadores braçais contra intelectuais. Contratados versus efectivos. Empregados do sector privado em oposição a funcionários públicos. Dividir para reinar, um lema de todos os poderes políticos económicos instituídos e certamente um desiderato caro aos patrocinadores privados da mais cotada faculdade de Economia, onde a nova estrela do comentariado lecciona.

É verdade que a maioria dos salários em Portugal são uma miséria. Mas não é esmagando ainda mais os rendimentos da classe média que melhoraremos a redistribuição da riqueza entre a população. Nem é penalizando os que têm emprego e podem proteger-se da pandemia – como se trabalho e saúde tivessem deixado de ser direitos e passassem à categoria de privilégios – que asseguramos melhores condições aos que têm de trabalhar, tantas vezes em condições precárias e inseguras, fora de casa.

Um combate efectivo às desigualdades e maior justiça social só podem ser alcançados com uma melhor redistribuição dos rendimentos. Isto significa tributar mais os rendimentos do capital, aliviando a tributação do trabalho: precisamente o contrário do que décadas de política económica neoliberal, posta em prática por governos de diversas cores políticas, produziram no nosso país.

Não deixa de ser curioso que não se questione a fundo a fraude descarada nas contas do Novo Banco, onde continuamos a injectar dinheiro público. Que os monopólios naturais da energia e as grandes empresas da distribuição continuem a aumentar e a expatriar os seus lucros e a beneficiar da crise sem que se equacione a necessidade de, esses sim, darem o seu contributo para a recuperação da economia. Que se tenha transformado a TAP num imenso sorvedouro de dinheiro público sem quaisquer garantias de sustentabilidade futura da empresa ou dos postos de trabalho que andamos a sustentar artificialmente. Que os grandes devedores do regime continuem a ser tratados como cidadãos de mérito, em vez de serem obrigados a pagar o que devem.

Entretanto, a prosa aperaltada foi amplamente discutida no Twitter, onde @speraltalisboa escreve e polemiza com regularidade. Acompanhei um pouco da discussão e, sinceramente, a polemista desiludiu. Susana Peralta é livre de ter as suas ideias e, como professora da escola de economia&negócios com mais peneiras do país, sentir-se-á até investida de alguma autoridade para proferir afirmações mais ousadas. Mas não teve arcaboiço intelectual para defender até ao fim o seu ponto de vista ou, o que também não lhe ficaria mal, admitir que a argumentação foi excessiva ou que não se expressou da melhor forma. E acabou nesta triste figura: afinal já não quer taxar os rendimentos do trabalho mas sim os supostos ganhos de capital que os “burgueses em teletrabalho” terão auferido.

Acham mesmo que quando falo de “cobrar impostos à burguesia do teletrabalho” estou a falar de impostos sobre o rendimento do trabalho? Claro que não. Muitas dessas pessoas bem pagas do setor dos serviços tem rendimentos de capital que aumentaram durante a crise e são tributáveis.

Mas nada disto é dito na entrevista original. O que ficou escrito, preto no branco, é a taxação de toda a “burguesia em teletrabalho” que não perdeu rendimentos, não se ressalvando sequer que serão apenas os que têm salários elevados – há teletrabalhadores, por exemplo no sector dos call centers, a ganhar o salário mínimo -, muito menos qualquer referência a rendimentos de capital. A tentativa de virar o bico ao prego está ao nível, não de uma professora universitária, mas de um aluno pouco estudioso que, incapaz de distinguir trabalho e capital, improvisa uma teoria da treta para se safar. Mas nestas coisas, já se sabe: mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.

Houve uma parte substancial das pessoas em Portugal que não perderam rendimentos, toda a burguesia do teletrabalho, todas as pessoas do setor dos serviços que, aliás, são as pessoas mais bem pagas, o que também me inclui a mim. Esta crise poupou muito as pessoas que trabalham neste setor e são as pessoas com mais escolaridade. Podia-se perfeitamente ter lançado um imposto extraordinário sobre essas pessoas para dividirmos o custo desta crise.

Por um novo direito à propriedade

piketty.JPGDepois de O Capital no Século XXI, o economista francês Thomas Piketty continua a desconstruir os mitos do neoliberalismo e a apresentar propostas que só são tidas como radicais porque já quase todos assimilámos o discurso situacionista das inevitabilidades que tem vindo a transformar a ciência económica num conjunto de dogmas. Reagir a este estado de coisas e conceber alternativas implica, assim, a capacidade de pensar fora da caixa…

No seu novo livro, Capital e Ideologia, Piketty retoma o tema das desigualdades económicas e sociais e da excessiva concentração de riqueza que, além de gerar pobreza e injustiça, acaba também por funcionar como um travão ao crescimento económico e, consequentemente, à melhoria geral da qualidade de vida dos cidadãos. Tal como Marx no século XIX, também Piketty identifica na propriedade privada, nos dias de hoje, o grande promotor da desigualdade e da acumulação de riqueza. É daqui que nasce a ideia ousada: porque não taxar severamente a grande propriedade e, com os ganhos daí provenientes, redistribuir riqueza de forma a que cada pessoa pudesse dispor, no início de vida, de algum património?

A ideia é polémica e a sua aplicação em concreto seria tudo menos fácil. Mas o princípio parece correcto, até na perspectiva do demoliberalismo clássico: seria a forma mais eficaz de assegurar uma efectiva igualdade de oportunidades. Por outro lado, está bem demonstrado pela história económica que o capitalismo fortemente regulado e condicionado por políticas redistributivas eficazes, além de reduzir efectivamente as desigualdades e fazer funcionar o elevador social, gera taxas de crescimento mais elevadas do que o não-intervencionismo defendido pelos liberais mais radicais.

Em jeito de ilustração e desenvolvimento da ideia, ficam alguns excertos da entrevista do autor francês ao El País, a propósito da edição espanhola do seu mais recente livro…

A propriedade privada é um bom sistema para coordenar as ações individuais e permitir que cada um realize seus projetos, com uma condição: que haja acesso à propriedade. E, em alguns casos, a sacralização do direito de propriedade transforma as relações sociais em algo brutal.

Nos debates sobre a abolição da escravidão no século XIX, intelectuais liberais como Alexis de Tocqueville consideravam que era preciso compensar os proprietários de escravos, e não os escravos. […] Aí se vê a contradição da filosofia da propriedade. Tem uma dimensão emancipatória e outra que sacraliza o direito de propriedade a ponto de perpetuar as velhas desigualdades, mesmo em sua forma mais brutal, que é propriedade de seres humanos por outros seres humanos.

O objectivo é fazer circular a propriedade, permitir que todo mundo tenha acesso a ela. O imposto sobre a propriedade permitiria financiar uma herança de 120.000 euros para todos aos 25 anos. Hoje, metade da população não tem património. Embora você possa ter um bom diploma e um bom salário, talvez uma parte importante do salário sirva para pagar durante a vida inteira um aluguer aos filhos de proprietários e que você não tenha os meios para criar sua própria empresa.

Quero uma sociedade em que todo mundo possa ter algumas centenas de milhares de euros e na qual alguns que criam empresas e têm sucesso tenham alguns milhões de euros, talvez algumas vezes dezenas de milhões de euros. Mas, francamente, ter várias centenas ou biliões não me parece que contribua para o interesse geral. Hoje temos muitos mais ricos, com um bilião ou mais nos Estados Unidos do que nos anos sessenta, setenta ou oitenta. A promessa de Ronald Reagan nos anos oitenta era que os impostos seriam reduzidos para os empresários e que, embora isso criasse mais desigualdades, não seria grave porque haveria tanta inovação e crescimento que os salários e as rendas aumentariam como nunca. O que se observou foi que o crescimento se dividiu por dois.

O risco [de não agir] é uma explosão da União Europeia, outros Brexit. Ou então acontecerá uma tomada de controle por parte de movimentos xenófobos. Como não conseguimos regular o capitalismo, fazer pagar impostos aos mais ricos e ter uma economia mais justa, nos excedemos atingindo os pobres de origem estrangeira. Vimos isso na história da Europa, ou dos Estados Unidos com segregação racial. Melhor não experimentar isso.

Boa desculpa

melita.JPGUma família da Tasmânia (Austrália) recusa-se a pagar impostos locais há sete anos e tem um argumento inovador: a terra pertence a Deus.

Os Beerepoot, que moram e trabalham na cidade de Chudlleigh, são proprietários de uma quinta de produção de mel, a Melita Honey Farm, que é também um ponto de interesse turístico.

Ora segundo as autoridades locais devem quase onze mil dólares australianos (7800 euros) de impostos imobiliários. Contudo recusam pagar, argumentando que de facto não são donos do terreno e que se reconhecessem alguém como proprietário estariam a reconhecer “um falso Deus”.

Entre muitas desculpas e estratagemas que já se inventaram para fugir ao pagamento de impostos, esta é de facto original: a terra pertence a Deus. E como Deus não tem por hábito cobrar pelo uso da terra que criou para os Homens, então todo o imposto sobre a propriedade fundiária seria ilegítimo.

O que duvido é que esta família imigrante, quando comprou a quinta onde agora vive e montou o seu negócio, a tenha obtido a custo zero, convencendo os anteriores proprietários com a conversa da propriedade divina da terra que agora usa para tentar enrolar as autoridades municipais.

Seguindo a mesma lógica, deveriam também oferecer, em vez de vender, o mel que produzem, pois na verdade ele é fabricado, não pelos Homens, mas pelas abelhas, doces criaturas de Deus.

E pertencendo a terra a Deus, o que farão se, um destes dias, outros filhos de Deus se quiserem ir instalar na sua quinta, tomando parte da terra para seu uso próprio? Chamam a polícia, ou invocam a comparência de algum exército divino para expulsar os invasores?

É que as polícias e os tribunais só existem porque são pagos com o dinheiro dos impostos – entre eles os impostos dos proprietários, que servem, entre outras coisas, para defender o direito à propriedade.

Sete anos volvidos desde a primeira recusa em pagar o imposto devido, e depois de o município ter tentado de tudo para os convencer – até recorrer a argumentos bíblicos, como o que manda dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus – a câmara local decidiu finalmente pôr ponto final na situação, mandando vender a “propriedade de Deus” para ser ressarcida da dívida acumulada.

Imposto para robôs

robos.gifAgora que o próprio Bill Gates admite a necessidade de um imposto específico para robôs que substituam postos de trabalho humanos e que o Parlamento Europeu recomenda que se estude o problema e a melhor forma de concretizar a ideia, talvez possamos começar a aceitar o que há muito se tornou evidente: a revolução tecnológica em curso irá suprimir empregos a um ritmo muito superior ao da criação de novos postos de trabalho.

O milionário americano acredita que, se um trabalhador paga impostos sobre o seu rendimento, seria de esperar que os robôs que o substituem “fossem taxados a um nível semelhante”. Dessa forma, o dinheiro ganho pode ser utilizado para investir em carreiras onde “a empatia e compreensão humanas ainda são muito únicas”, como o apoio aos idosos ou aos jovens com necessidades especiais, explica. Bill Gates defende ainda que cabe aos governos apoiar os profissionais de baixos rendimentos afetados pela robotização do mercado de trabalho, podendo investir na educação e no aumento de serviços sociais de apoio aos desfavorecidos.

As declarações surgem no rescaldo do envio pelo Parlamento Europeu à Comissão Europeia de um relatório que pede uma maior legislação sobre o setor da indústria robótica e inteligência artificial, que a VISÃO noticiou na edição impressa da semana passada. A eurodeputada socialista responsável pela iniciativa, Mady Delvaux-Stehres, redigiu o documento face a preocupações com a relação entre robôs e seres humanos, e propôs também uma taxa sobre a utilização de robôs, para que se compensasse a perda de emprego resultante do aumento da sua presença. Os fundos seriam então orientados para formar os profissionais desempregados noutras áreas. As máquinas mais sofisticadas poderiam ainda ser consideradas “pessoas eletrónicas”, com um eventual regime de segurança social.

Na passada quinta-feira, 16, o Parlamento Europeu aprovou a resolução, mas não na totalidade. Incluiu o pedido (à Comissão Europeia) de um enquadramento ético para o desenvolvimento e utilização dos robôs e sugeriu a criação de um estatuto jurídico específico que os abranja. Foram mais longe – aqueles que tomam decisões autónomas devem ser classificados como “pessoas eletrónicas”. A iniciativa legislativa pede também a criação de uma agência europeia para a robótica e inteligência artificial.

O imposto sobre as máquinas que substituem os humanos é uma opinião que encontra algum eco pelo resto da Europa. Benoît Hamon, o candidato favorito da esquerda francesa às presidenciais, em abril, também propõe um “imposto sobre a riqueza criada pelos robôs”. Na página oficial da campanha, Hamon justifica esta medida com a redistribuição dos lucros, “que beneficiam essencialmente os acionistas”, por todos os cidadãos, servindo de pilar à sua proposta de uma “renda universal de existência”. Ou seja, um rendimento para todos os franceses.

Num futuro não muito distante – diria mesmo que já começou – a opção será entre taxas de desemprego estrutural da ordem dos dois dígitos ou uma redução generalizada dos horários de trabalho. Ambas as situações conduzem a baixos salários e perda de rendimentos, pelo que serão necessárias novas formas de financiamento para o orçamento crescentemente desequilibrado da segurança social.

Seja na forma dos actuais subsídios, seja na modalidade de um rendimento básico universal que alguns propõem, irá ser preciso muito dinheiro para pagar a inactividade forçada de grande parte da população. Parafraseando o dito de outros tempos, os robôs que paguem a crise!

 

Selectividade fiscal

pagar.jpgAinda pegando na ideia de Rui Rio:

O ex-presidente da Câmara do Porto Rui Rio sugeriu nesta segunda-feira uma redução do IVA, do IRS e do IRC para, em contrapartida, ser criado um imposto consignado ao pagamento dos juros da dívida pública.

Porque não criar também um ou vários impostos consignados ao pagamento do buraco do BPN, da resolução do BES e das recapitalizações de sucessivos bancos falidos que estão a ser feitas à custa do contribuinte e do endividamento das próximas gerações?

E que tal, para ser ainda mais democrático e transparente, um sistema que permitisse ao contribuinte escolher o que quer pagar?

Uma campanha de ódio

mariana-mortagua.JPGUma verdadeira campanha de ódio contra Mariana Mortágua, como só a direita sabe fazer, foi a reacção destemperada contra a proposta de um ligeiro agravamento da tributação sobre as habitações de luxo, onde nem faltaram referências insultuosas ao pai “terrorista” ou à própria deputada que “nunca trabalhou na vida”.

Como se os grandes patrimónios imobiliários tivessem sido conseguidos à custa de muito trabalho, no país da Europa Ocidental que pior paga aos trabalhadores.

Insultos e estridências à parte, tem sido ainda assim uma discussão instrutiva e reveladora. Por exemplo, quando se percebe como gente de boas famílias, mais à esquerda ou mais à direita, se une contra um novo imposto com potencial para os beliscar naquilo que têm de mais sagrado, o património que herdaram ou adquiriram, e que dá a uns e a outros a noção de pertença à classe dominante. Deixando vir ao de cima o preconceito de classe, os mais exaltados perguntam que direito têm agora o “chamuça” ou a “filha do assaltante de bancos” de querer tributar o que é deles?

Claro que a argumentação mais sofisticada não se faz por esta via. Prefere-se confundir as pessoas, agitando o papão de um novo assalto fiscal à classe média, como se quem ganha mil e tal euros pudesse adquirir mansões que custam mais de um milhão. E escamotear que já existe um imposto específico sobre a propriedade dos bens imóveis, o IMI, a que todos estão sujeitos. Assim como vigora, criada pelo governo anterior, uma sobretaxa de 1% de imposto de selo, precisamente sobre os imóveis de valor superior a 1 milhão de euros. Portanto, do que se trata é de fazer alguns ajustamentos nos impostos já existentes, de forma a que os mais ricos, que proporcionalmente pagam poucos impostos, contribuam um pouco mais.

Pois a verdade é que, colocando noutros países as sedes fiscais das suas empresas ou depositando o dinheiro em paraísos fiscais,  os detentores das grandes fortunas quase não pagam impostos em Portugal. Tributar mais os bens imobiliários – que, pela sua natureza, não podem evadir-se para o exterior – é no fundo aplicar, em dose muito moderada, a mesma receita que a direita, quando investida no poder, costuma usar para depenar o contribuinte da classe média que também não tem forma de fugir, com os seus rendimentos do trabalho dependente, ao pagamento dos impostos.

O imposto-Mortágua do PSD

E quando Pedro Passos Coelho defendia um imposto extraordinário sobre bens imobiliários acima de um milhão de euros?

Tesourinho deprimente oportunamente divulgado pela Geringonça.

Os ricos não pagam a crise

Ando a achar piada à lógica ridícula dos austeritários neoliberais que, no auge da crise económica, achavam que pensionistas que auferiam pensões de 800 euros depois de uma vida de trabalho são ricos, mas agora protestam contra a taxação do património imobiliário avaliado em mais de 500 mil euros, considerando-o um ataque à classe média.

Também é curiosa a preocupação da dra. Teodora com os estados de alma dos investidores, como se quatro anos a arruinar a economia do país para tentar ganhar a sua confiança tivessem trazido algum progresso visível à situação económica do país.

A presidente do Conselho de Finanças Públicas (CFP) critica que o Governo altere impostos de “seis em seis meses”, considerando que essa postura tira a confiança aos investidores, e pediu estabilidade fiscal.

teodora.jpgUma funcionária do Banco de Portugal que nunca geriu nem investiu, assim como nunca foi a votos defender os princípios ideológicos que pretende fazer passar por ciência económica: não se arranja alguém mais credível para defender a política neoliberal da austeridade e do agravamento das desigualdades?