Menina não joga

Cristiano Ronaldo joga à bola com o filho bebé.

O vídeo é, para uns, ternurento. Outros reparam sobretudo no potencial da criança, que parece ter herdado os genes futebolísticos do pai.

Mas há quem note uma outra coisa. Enquanto o menino joga à bola com o pai, a irmã, lá mais atrás, dá sinais de querer também entrar na brincadeira. Mas o pai, embevecido com a performance do menino, parece ignorar por completo a filha. Que acaba por pegar numa vassoura e dedicar-se a uma brincadeira mais… feminina.

Dir-me-ão que o pai nem reparou, não fez por mal ou com intenção de discriminar. Mas o vídeo é paradigmático: é com estas atitudes, tão naturalizadas que as pessoas nem se apercebem delas, que se criam e perpetuam os estereótipos de género.

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: Igualdade de género

A luta pela plena igualdade de direitos e oportunidades para as mulheres, a persistência de comportamentos misóginos e machistas na sociedade portuguesa, a prevalência de números preocupantes no que diz respeito a crimes contra as mulheres – violência doméstica, crimes sexuais, discriminação, assédio – bem como a brandura e a displicência dos tribunais que julgam estes crimes, tudo isto foi amplamente discutido durante a semana que agora termina e durante a qual se celebrou, oportunamente, o Dia Internacional da Mulher.

No Fundo: A farsa carnavalesca

…a maior farsa deste Carnaval não aconteceu nalgum dos muitos cortejos que se fizeram pelo país fora, mas no simulacro negocial entre o ME e os sindicatos dos professores. Apresentando mais uma vez a inaceitável proposta dos 2 anos, 9 meses e 18 dias, o Governo colheu a esperada rejeição sindical e converteu a sua proposta em decreto governamental, já aprovado em conselho de ministros.

Escola e igualdade de género

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…As desigualdades entre homens e mulheres são ainda gritantes. A conciliação entre vida profissional, familiar e pessoal é muito mais difícil para as mulheres. A violência no namoro tem vindo a aumentar. Continuam a morrer mulheres às mãos dos seus companheiros. Este não é um assunto delas. É um assunto de todos. Permito-me até dizer que é, em primeiro lugar, um assunto dos homens, porque os privilegiados têm maior facilidade em mudar o mundo e o dever de reconhecer o seu privilégio. Se é assunto de todos, é assunto da escola. É assunto das escolas onde ainda há raparigas que acham que é melhor um namoro violento a não ter namorado. Mas também onde estão jovens homossexuais ou transexuais cujos direitos são violados, porque são humilhados e têm de se esconder, com terríveis implicações para a sua felicidade e autoestima. É assunto das escolas, porque muitas têm sido pioneiras no desenvolvimento de projetos admiráveis nesta matéria, ensinando às crianças da educação pré-escolar que o pai não “ajuda”, o pai “faz”, ou contando a História da humanidade também pela voz dos discriminados. Para tantos, a escola tem sido o lugar onde se podem afirmar pela primeira vez, encontrando nos professores o apoio que não têm noutros…

Subscrevo estas palavras de João Costa e acho oportuna a intervenção pública do secretário de Estado da Educação, clara e assertiva, no Dia Internacional da Mulher.

Percebo a necessidade de, em ano eleitoral, começar a mostrar serviço e a justificar as decisões políticas que foram implementadas. Mas continuo a discordar da invenção de uma disciplina de Cidadania para tratar, de forma avulsa, a igualdade de género e outros temas que não devem ser tratados como modas educativas. Pelo contrário, fazendo parte de uma educação integral, devem estar plenamente integrados nos currículos escolares.

E noto também que não precisámos que uns governantes iluminados o decretassem para que os temas relacionados com a cidadania fossem integrados no quotidiano escolar. Há muitos anos que isso é feito nas escolas públicas portuguesas, seja no desenvolvimento dos conteúdos curriculares de diversas disciplinas, seja através da realização de actividades interdisciplinares ou extra-curriculares onde estes assuntos são trabalhados.

Portuguesas exaustas

mulherO estudo, patrocinado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, envolveu uma amostra significativa da população feminina portuguesa: quase 2500 mulheres entre os 18 e os 64 anos foram entrevistadas.

A maior parte das conclusões não são surpreendentes – confirmam o que há muito se sabe sobre a lenta conquista de direitos, os avanços na escolarização feminina, que já supera a do sexo oposto, e o acesso a empregos mais qualificados.

Contudo, no quotidiano, parece subsistir uma sobrecarga de trabalho doméstico e familiar que recai sobre elas: são muitas as mulheres portuguesas que se sentem exaustas, infelizes e deprimidas…

Traçando um desenho geral do ciclo de vida do sexo feminino em Portugal, o estudo permite dizer ainda que, em média, entram no mercado de trabalho aos 20 anos, saem de casa dos pais por volta dos 23 e foram mães aos 27 anos. Mas ajuda também a concluir que não está feliz.

maioria das mulheres portuguesas (51%) estão descontentes com a sua vida laboral e 44% admitem mesmo que o seu emprego está abaixo ou muito abaixo das expectativas.

Em Portugal, elas estão sempre ou quase sempre “demasiado cansadas”. E tal pode refletir-se na saúde. Uma em cada dez toma diariamente medicação para a ansiedade, distúrbios de sono ou antidepressivos – ainda que a maioria continue a ser pautada por mulheres que nunca necessitaram de recorrer a estes medicamentos.

Mas estas são conclusões que dizem respeito ao campo profissional, mas também doméstico, e podem ser justificadas “se tivermos em conta o escasso tempo que muitas mulheres dispõem para si próprias nos dias úteis”, pode ler-se no documento enviado ao DN.

Durante o ciclo de conferências A Mulher, Hoje, realizado na Aula Magna da Reitoria Clássica de Lisboa, nesta terça-feira, Laura Sagnier disse que, quando questionou as mulheres sobre o que é mais importante no seu emprego ideal, “elas responderam que era a conciliação do tempo” para si e para o trabalho. “Inverteu-se o tempo que temos para nós com o tempo para o trabalho”, explicou.

Em mais de dois terços dos casais, as mulheres fazem muito mais do que o companheiro. Em média, elas ainda efetuam 74% das tarefas domésticas, contra os 23% que o companheiro efetua. E, de acordo com a investigação, “serão necessárias cinco a seis gerações para que se alcance uma distribuição equilibrada das tarefas domésticas entre sexos”, entre os casais em que ambos têm trabalho pago.

Talvez por isso, o que grande parte das mulheres, a partir dos 28 anos, deseja é a possibilidade de “conciliar bem o trabalho pago com a vida pessoal e familiar”.

Menina não entra?

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Se no plano dos princípios é fácil encontrar consensos, consagrá-la, na prática quotidiana, pode não ser tarefa fácil. Estou a referir-me à igualdade de género e a pensar sobretudo nas escolas onde, além do cumprimento formal dos preceitos legais e constitucionais, se colocam também as questões pedagógicas. Fazem sentido aulas de Cidadania se depois, perante situações concretas, nos limitamos a reproduzir os velhos estereótipos dos rapazes que jogam à bola e das meninas que brincam com bonecas?

Nuno Mário Antão estava esta terça-feira numa reunião de pais no Centro Escolar de Marinhais, em Salvaterra de Magos e, de repente, viu na parede o horário do campo de jogos: segunda-feira, 1.º ano; terça-feira, 2.º ano; quarta-feira, 3.º ano; quinta-feira, 4.º ano; sexta-feira, meninas. Este último a cor-de-rosa.

Ficou indignado. O que queria dizer aquilo? Segregação por género num campo de jogos de uma escola de primeiro ciclo do Portugal do século XXI? “Explicaram-me que o que lá jogam é futebol e que os meninos não deixam as meninas jogar com eles. Se não deixam, têm de ser ensinados a deixar!” A igualdade de género já é tema obrigatório no ensino básico e secundário.

Antes de se condenar os responsáveis escolares, reconheça-se que esta decisão, podendo não ser perfeita, terá nascido para dar resposta a uma situação concreta: a maioria dos rapazes gostam de jogar futebol no tempo do recreio; a maior parte das raparigas nem por isso. Então, a preocupação foi gerir a utilização do espaço de forma a garantir o acesso a todos os alunos. E, já que os meninos não querem jogar com as meninas, reservando um dia só para as estas. Discriminação positiva, considera a adjunta da Direcção.

Como é evidente, a igualdade de género não determina que as raparigas devam passar a gostar de jogar à bola da mesma forma que os rapazes. Nem pressupõe que se faça uma divisão igualitária entre os dois sexos na utilização do campo de jogos, pois o objectivo não deve ser segregar, mas integrar.

O problema está, parece-me, em assumir-se como natural que os meninos não queiram envolver as meninas nos seus jogos e a escola ache isso normal. Há estereótipos de género a que as crianças vão sendo expostas, desde a mais tenra infância, e em que participam a família, o círculo de amigos e a sociedade no seu conjunto. E a escola, em vez de, pela acção pedagógica, os contrariar, está a reforçá-los.

Da leitura integral da peça do Público sobressai a perspectiva dos responsáveis escolares – e posteriormente também da associação de pais – de que tudo isto não passará de um falso problema. Uma tempestade num copo de água. Os representantes dos pais não deixam de ter razão quando notam que mais graves e prementes são os problemas da falta de assistentes operacionais e de manutenção dos espaços escolares.

Talvez seja mesmo a falta de meios que leva a direcção do agrupamento a defender uma medida que, garante, deixa os miúdos tranquilos. Só que, como refere o pai que apresentou a queixa, tranquilidade não é a questão essencial. E nota: “O modelo da mulher a trabalhar na cozinha e o homem a ver a bola na sala também era muito tranquilo.”

Crimes sexuais: aplicar a lei, ou o preconceito?

250xA socióloga Isabel Ventura construiu uma história jurídico-legal do crime de violação em Portugal, desde o século XIX até à atualidade. E o retrato que mostra no livro Medusa no Palácio da Justiça ou Uma História da Violação Sexual não é abonatório para a classe judicial. A magistratura que julga os crimes sexuais é descrita como sendo desconfiada da vítima, levando ao silêncio da mulher violada e promovendo a “impunidade de quem agride”.

O estudo de Isabel Ventura é demolidor para os juízes e juízas portugueses, tendo em conta a forma como julgam muitos casos de crime sexual: depois da análise de centenas de acórdãos, o que ressalta é que as crenças, preconceitos e formas de pensar de muitos magistrados se sobrepõem à letra e ao espírito da lei.

Sejamos claros: que acha que é a mulher que tem de ser recatada para não atrair a atenção dos predadores sexuais, ou que o comportamento tido por “provocador” de uma criança pode de alguma forma atenuar a culpa de um pedófilo, está notoriamente impreparado para julgar este tipo de crimes. Formação especializada para quem trabalha nesta área é, segundo a autora, uma necessidade evidente.

Definindo-se o crime sexual, regra geral, pela existência de relações ou contactos de natureza sexual não consentidos, o fulcro da questão acaba por ser, justamente, o consentimento. E é aqui que os juízes falham muitas vezes, exigindo às vítimas que “provem” o não consentimento ou a resistência aos avanços do agressor. Há um estranho paradoxo que é sublinhado por Clara Sottomayor, juíza do Tribunal Constitucional citada na obra: se algum de nós for vítima de roubo e apresentar queixa, ninguém nos pergunta se consentimos em ser roubados. Ao contrário do que sucede nos crimes sexuais, a ninguém se exige que ofereça resistência física a um ladrão armado ou fisicamente mais forte. O que leva à conclusão inevitável:

“Quando uma pessoa foi vítima de roubo não se lhe pergunta se consentiu ou resistiu. Protege-se mais a propriedade do que a dignidade das mulheres.”

Mais mulheres nas ciências e tecnologias

Diversos media assinalaram uma evidência registada num recente relatório da OCDE: entre todos os países analisados, Portugal é aquele onde existem mais mulheres a formar-se em cursos superiores de engenharia, ciências, tecnologias e informática. São já mais de metade do total, em áreas tradicionalmente dominadas pelos homens.

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Claro que a tendência não é nova, e nota-se na generalidade dos países desde que as raparigas passaram a ter as oportunidades de estudar que antes eram dadas apenas aos rapazes: desejosas de melhorar a sua formação e de ter acesso a profissões e carreiras que até aí lhes estavam vedadas, muitas jovens vieram a revelar-se alunas mais atentas, persistentes e aplicadas do que a maior parte dos rapazes.

Em Portugal, nas últimas décadas, a escassa empregabilidade da maioria dos cursos superiores nas áreas tradicionalmente preferidas pelas estudantes – letras, educação, enfermagem – acabou por despertar o interesse pelos cursos que parecem abrir portas para carreiras profissionais mais bem pagas e aliciantes: as engenharias, a informática, a medicina, a investigação científica.

A tudo isto junta-se um factor muitas vezes subestimado, que é a elevada percentagem de mulheres trabalhadoras em Portugal. Ao contrário de outros países europeus, onde ainda é relativamente comum algumas mulheres deixarem de trabalhar, ou passarem a fazê-lo a tempo parcial, quando se tornam mães, entre nós os baixos salários praticados impedem quase sempre esse tipo de opções. Há assim um forte investimento das jovens na sua carreira profissional. E seja qual for o seu projecto de vida, raramente equacionam a hipótese de ficarem economicamente dependentes do seu parceiro…