Ainda os cadernos pró-menino e prá-menina

O caso dos blocos de actividades da Porto Editora para crianças em idade pré-escolar calhou que nem ginjas em plena silly-season. Dele se falou na altura, por aqui, e a ele hoje se volta para fazer o balanço a uma polémica que, talvez por falta de outros assuntos, terá ido longe de mais.

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Reafirme-se em primeiro lugar que não se tratou de um não-assunto: o tema é pertinente, e que o que está em causa não são as óbvias diferenças fisiológicas entre meninos e meninas, nem o facto insofismável de que a maior parte dos rapazes gosta de brincar com carros ou a maioria das meninas se encanta com uma casinha de bonecas. A questão é que nada deve impedir o rapaz de brincar também com as bonecas, se quiser, assim como às raparigas não se deve sugerir que histórias de piratas ou jogos de futebol são apenas para rapazes.

Um exemplo simples para situar a questão onde ela se deve, na minha opinião, colocar: nas escolas públicas portuguesas os rapazes e as raparigas têm as aulas todas em conjunto, incluindo as de Educação Física. Mas isso não impede que, para se equiparem ou desequiparem, existam balneários separados para cada um dos sexos. Ou seja, as diferenças existem, e devemos respeitá-las onde elas são relevantes. O que não devemos é acentuá-las erguendo barreiras discriminatórias na vida em sociedade e, mais grave do que isso, na mente de crianças pequenas.

Criar um mundo cor-de-rosa repleto de fadas, princesas e bailarinas para as meninas, e outro azul com polícias, bombeiros e super-heróis destinado aos meninos é acentuar estereótipos de género, e se isso, para uma loja de brinquedos, pode ser apenas dar aos clientes o que eles querem, para uma editora com responsabilidades e grandes ambições no sector da Educação é prestar-se a um papel deseducativo em nome do sucesso das vendas. E quando o mesmo exercício apresenta dois níveis diferentes de dificuldade, sugerindo que os dois sexos têm diferentes capacidades cognitivas, ainda pior…

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Dito isto, reconheço também que teria sido preferível manter toda esta discussão e a necessária desconstrução do discurso e da mentalidade sexista fora do âmbito oficial de organismos como a Comissão para a Igualdade de Género, bem como resistir à inevitável tentação censória. Afinal de contas, atitudes discriminatórias podem surgir em qualquer área social ou profissional…

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Por último, refira-se como aspecto positivo de toda esta polémica a inspiração que ela trouxe a alguns momentos de humor. Fiquemos, para terminar, com a versão “luta de classes” do boneco de Antero Valério…

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É pró menino ou prá menina?

Estamos habituados, e não nos causa estranheza, que o corredor dos brinquedos, nos hipermercados, esteja estrategicamente dividido entre o lado dos meninos e o das meninas. De uma parte os carros e as máquinas, os jogos de acção, os super-heróis. Da outra, as bonecas, as pinturas, as casinhas de brincar. Ora bem: se os patrões da grande distribuição organizam as coisas desta forma, é porque a coisa rende – eles não brincam em serviço. E se funciona no caso dos brinquedos, porque não experimentar a ideia nos cadernos pedagógicos direccionados a crianças em idade pré-escolar? Assim fizeram os responsáveis da editora portuense: o livro azul, com piratas e dinossauros, foguetões, carros, bolas de futebol e muitas aventuras; o cor-de-rosa, com estrelinhas, ursinhos, vestidos, fatos de ballet e outras coisas fofinhas.

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O que aqui temos, é só por isso já é mau, é a promoção de estereótipos de género. Numa idade em que a identidade e a personalidade das crianças estão em plena construção, induz-se nos rapazes a noção de que devem ser activos, exploradores, aventureiros. Enquanto às meninas fica bem serem contemplativas, aplicadas, sensíveis. Mas como se isto não bastasse, os manuais sugerem também que os rapazes são mais inteligentes. Repare-se como idêntico exercício – percorrer e encontrar a saída de um labirinto – é substancialmente mais difícil e desafiador para o rapaz do que para a miúda da mesma idade.

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As reacções à divulgação desta iniciativa editorial, já com um ano de existência, não se fizeram esperar:

“Total estupefacção”. Foi assim que a professora do Instituto Superior de Economia e Gestão, Sara Falcão Casaca, com diversa investigação sobre a igualdade de géneros, diz ter reagido quando se deparou com a imagem dos blocos de actividades nas redes sociais. Salvaguardando que apenas viu duas páginas, frisa ser “muito preocupante a representação social, transposta para os blocos de actividades, sobre o que os rapazes e as meninas estão aptos a desenvolver do ponto de vista das suas capacidades cognitivas”. “Assume-se que os rapazes estão aptos a desenvolver actividades de complexidade superior”, acrescenta.

A investigadora sublinha ainda que uma editora “que trabalha para um público infantil e juvenil, produzindo materiais educativos e manuais escolares e pedagógicos, deveria orientar-se sem desvios pelas políticas públicas em vigor. Ou seja, deveria co-responsabilizar-se por uma educação para a igualdade de género, para a não discriminação e a cidadania.”

Confrontada com a descrição das publicações, que desconhecia, a deputada socialista Elza Pais, ex-secretária de Estado da Igualdade, considerou “absolutamente inadmissível” que se reproduzam daquele modo “estereótipos de género”, que consubstanciam uma atitude “discriminatória”.

Já as explicações da editora deixam a desejar: não basta dizer que não se tem uma visão discriminatória e preconceituosa nas questões de género; esta posição de princípio tem de traduzir-se em actos concretos de rejeição da discriminação e do preconceito e da promoção da igualdade de género.

É lamentável que a Porto Editora, uma empresa que há décadas produz manuais escolares de qualidade e que nos dias de hoje investe fortemente em escolas virtuais e outras inovações educativas para o século XXI, mostre uma visão empresarial tão tacanha na forma como irresponsavelmente promove os mais básicos estereótipos de género.

O sucesso editorial é um objectivo legítimo de qualquer empresa que, para se manter, precisa de realizar lucros. Mas não pode, nunca, justificar tudo.

A escola no cinema: O Sorriso de Mona Lisa

O Sorriso de Mona Lisa

Título original: Mona Lisa Smile, 117m, EUA, 2003.

sorriso-mona-lisa.jpgEste filme transporta-nos ao ambiente conservador de um colégio para raparigas de alta sociedade dos EUA, onde a chegada de uma nova professora de História de Arte, jovem e idealista, causa alguma perturbação.

Disposta a desafiar o conservadorismo do colégio para meninas de boas famílias, a professora, aqui interpretada por Julia Roberts, inicia as suas alunas na arte moderna, ausente dos programas da instituição. Tentando levar as raparigas, que na sua maioria parecem desejar apenas tornarem-se boas esposas e mães de família, a terem ambições próprias e a lutar por elas, a professora entra em conflito com a cultura dominante na escola e no meio social das suas alunas.

Não sendo propriamente uma obra-prima nem fugindo por completo aos clichés e ao convencionalismo romântico deste tipo de filmes, O Sorriso de Mona Lisa conta-nos uma boa história e explora de forma interessante a relação entre um modelo de escola e o meio social e cultural que lhe está subjacente.

A escola no cinema: O Dia da Saia

A escola no cinema é a designação de uma nova série de posts dedicada aos filmes que retratam a escola e o quotidiano de professores e alunos em diversas épocas, países e culturas. Tal como tenho feito com outros temas culturais, procurarei divulgar primordialmente cinematografias e filmes menos conhecidos, fugindo tanto quanto possível à hegemonia anglo-americana na indústria do audiovisual.

Nem todos os filmes estarão disponíveis nos circuitos comerciais, mas muitos deles encontram-se com relativa facilidade através da internet, por vezes mesmo em plataformas legais como o Youtube. Quanto a meios de legalidade duvidosa para “sacar” os que não se conseguem obter de outra forma, eles continuam a existir, mas não quero que algum zeloso polícia da internet me feche o blogue por os divulgar.

O Dia da Saia

Título original: Journée de la Jupe, 87m, França, 2008.

dia-da-saia.jpgO Dia da Saia é um filme francês pouco conhecido em Portugal, cujo argumento parte do dia-a-dia de uma turma problemática numa escola secundária dos arredores de Paris, que retrata de forma hiper-realista. No início atribulado de mais uma aula de Francês, a relação tensa entre a professora e os alunos indisciplinados e provocadores desencadeará, a partir de um incidente fortuito, um conjunto de acontecimentos inesperados e dramáticos: pretexto para a reflexão sobre os limites do multiculturalismo e a integração das minorias étnicas e religiosas na sociedade francesa.

Ó pai, não gosto de ser princesa!

Podemos não brincar mais a essa brincadeira de eu ser uma princesa?

baloico.gifEstas palavras ouvi-as a uma miúda em idade pré-escolar, dirigidas ao pai quando a levava a um parque infantil que há aqui para os meus lados.

Lembrei-me delas a propósito de uma crónica do Público onde se fala das meninas que desde pequenas querem – ou fazem-nas querer – ser princesas, e do irreal mundo cor-de-rosa que constroem para elas.

É claro que homens e mulheres são diferentes em muitas coisas (não vou pedir à minha filha para fazer chichi de pé), mas na dignidade são iguais. E a luta pela igualdade passa por muitos tabuleiros, alguns que normalmente nem valorizamos. Devemos combater os estereótipos desde pequenos. Sou fã do movimento “Pink Stinks”, que se revoltou contra a forma como os brinquedos e as roupas para meninas tentam tornar a vida delas cor-de-rosa, como se não lhes fosse permitido ousarem algo diferente.

Uma menina não pode ter carros, jogar à bola ou brincar com ninjas? Ou sujar-se toda no parque? Claro que pode. E, aqui entre nós, digo-vos que a minha até tem bastante jeito para o futebol e já trepa melhor pelo escorrega do que alguns rapazes com a idade dela. Ou seja, é tão natural vê-la de vestido (fica linda!) como de fato de treino, qual jogadora de râguebi a levar tudo à frente (fica igualmente linda!).

Nem de propósito está a ser lançado agora em Portugal uma série de livros sobre as antiprincesas. Diz a contracapa dos livros. “As antiprincesas não são do contra só porque sim: não se resignam, e lutam para fazer valer aquilo que pensam. Como não usam tiaras, podem virar tudo de pernas para o ar e arriscar o que bem lhes apetece, por exemplo mudar o mundo”.

Numa sociedade onde, apesar dos inegáveis avanços no reconhecimento dos direitos das mulheres e da igualdade de género, há ainda muitas mulheres que são vítimas de violência doméstica, de discriminação salarial ou de assédio sexual, é importante, em vez de promover estereótipos de género em torno de meninas fúteis, coquetes e mimadas, dar-lhes a mesma liberdade que habitualmente se concede aos rapazes para explorarem o mundo à sua volta e experimentarem coisas novas sem querer saber se são de menino ou de menina nem terem medo de se sujar.

Pois o importante, como sublinha Hugo Daniel Sousa, é o respeito pelos direitos e pela dignidade de todos. Sejam homens ou mulheres, rapazes ou raparigas.

Por isso, não me cansarei de dizer ao meu filho que ele tem de respeitar as mulheres e defender os direitos delas. E repetirei à minha filha: “Nunca deixes que te faltem ao respeito. Nunca deixes que se aproveitem de ti. Nunca deixes que alguém tente baixar a tua auto-estima”. A minha filha não é uma princesa, não quer ser uma princesa, não precisa de ser uma princesa. Tal como o meu filho, ela só quer, só precisa, só merece todo o respeito do mundo.

Dia Internacional da (Super)Mulher

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40º Dia Internacional da Mulher

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No Dia Internacional da Mulher, esta quarta-feira, Portugal alia-se à Paralisação Internacional de Mulheres, uma iniciativa que reúne grupos de mais de 30 países para protestar contra as desigualdades e violência de género. Em Lisboa, a concentração vai acontecer no Rossio, ao final da tarde, onde se prevê um acto simbólico de solidariedade com o protesto internacional sob o mote “Não Me Calo”. Apesar das greves que decorrerão noutros países, a Rede 8 de Março, que reúne colectivos feministas da Lisboa, preferiu organizar uma iniciativa simbólica convidando todas as mulheres a saírem mais cedo do trabalho ou a abandonarem, por algumas horas, as tarefas da casa. O protesto também acontece em Coimbra e Setúbal.

Nos últimos anos, tem-se notado uma tendência para tornar o Dia Internacional da Mulher numa efeméride cada vez mais vazia de conteúdo, uma espécie de Dia dos Namorados em que só Elas têm direito a presente. À crescente mercantilização e normalização do dia de luta pela igualdade de género, os movimentos feministas vêm agora responder com um conjunto de iniciativas que, em diversas partes do mundo, procuram denunciar e combater o machismo, a exploração, a discriminação e a violência a que milhões de mulheres continuam sujeitas.

A Paralisação das Mulheres inspira-se em protestos recentes na América Latina contra a exploração do trabalho feminino e o assassinato de mulheres às mãos de maridos, companheiros ou namorados. Ou na Polónia, contra as tentativas de voltar a criminalizar o aborto.

Em Portugal, a violência contra as mulheres continua a ser uma realidade perturbadora, assim como as persistentes desigualdades no mundo laboral: as mulheres trabalham mais, ganham menos e têm menos oportunidades de carreira profissional. E se as últimas décadas trouxeram alguns avanços no reconhecimento da igualdade de género e dos direitos das mulheres, a recessão económica e as correspondentes tensões sociais têm contribuído para um crescente conservadorismo social que põe em risco as conquistas recentes das mulheres.

A campanha mundial pelos direitos das mulheres fala em mil milhões de mulheres (um terço da população feminina mundial) que será vítima de violência, ao longo da sua vida, pelo facto de ser mulher: agredidas, violadas, sexualmente mutiladas, escravizadas ou traficadas. E um dos lemas desta campanha é solidariedade: as activistas reconhecem que a luta contra a exploração das mulheres corre a par de todas as outras lutas sociais e políticas de grupos e minorias igualmente explorados e discriminados. E juntos, mulheres e homens de todas as raças, orientações sexuais, nacionalidades e religiões terão maiores possibilidades de vencer a injustiça, a discriminação e o preconceito.

Um feliz Dia Internacional da Mulher para todas as Mulheres, e também para os Homens que gostam delas!…