O carrossel das médias dos exames

carrossel.gifA uma prova de Matemática demasiado difícil em 2018, só poderia suceder, em ano eleitoral, um exame mais acessível, capaz de gerar melhores resultados e deixar mais satisfeitos os alunos, pais e professores. Em contrapartida, as médias mais favoráveis de Português desceram ligeiramente quando comparadas com as do ano passado.

Bem-vindos ao mundo das provas finais do 9.º ano, onde a análise estatística dos resultados continua condicionada pelas oscilações anuais do grau de dificuldade das provas.  Claro que, no caso da Matemática, as coisas pioram um pouco. Como se sabe, a disciplina que tem sido alvo de constantes mexidas e duas organizações rivais, a científica e a pedagógica, disputam o protagonismo nas reformas empreendidas.

O exame de Matemática revela ainda outra realidade preocupante: cerca de 8% dos alunos chegam ao final do ensino básico como desistentes da disciplina. Entregam a prova em branco, ou erram de tal forma que as respostas certas não ultrapassam 1% da cotação total. Seria importante perceber o que se passa com estes jovens que nada querem com a Matemática e que acabam por passar de ano, sucessivamente, sem que se consiga inverter a situação. Será que a tão gabada flexibilidade curricular pode trazer respostas para este problema? Soluções efectivas que não passem pelo caminho fácil do fim dos exames nem pela resignada certificação da ignorância dos alunos que passam sem saber…

Subida a Matemática, descida a Português. São estes os resultados das provas finais do 9.º ano realizadas em Junho por cerca de 100 mil alunos e que constituem o inverso do que costumam ser as oscilações habituais nestes exames, com as subidas geralmente a favorecer a prova de Português.

Desta vez não foi assim. Numa escala de 0 a 100, a média a Português ficou nos 60, o que constitui uma descida de seis pontos percentuais por comparação ao resultado de 2018 (66). Já a Matemática a média subiu de 47 para 55 – um pulo de oito pontos percentuais.

Em ambas as disciplinas as taxas de reprovação baixaram. A Português passaram de 6 para 5% e a Matemática desceram de 33% para 29%, o que também se fica a dever à diminuição da proporção de alunos que obtiveram classificações negativas nos exames. Na prova de língua materna só 13% tiveram negativa; a Matemática foram 40%. No ano passado 52% dos alunos do 9.º ano tiveram negativa no exame. A Português esta percentagem foi, em 2018, de 13,2%.

No dia da prova de Matemática, a 27 de Junho, tanto a associação de professores da disciplina como a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) consideraram que esta tinha sido “acessível”. A presidente da associação de professores, Lurdes Figueiral, alertou que tal não significa que os alunos fossem ter boas notas, porque as provas de anos anteriores também foram acessíveis e “os resultados não foram bons”, em grande parte devido ao aumento do número de alunos que não vão além de 1%.

Dos 92.741 alunos que fizeram a prova em Junho, 8,3% tiveram entre 0% e 1%. A mesma proporção que foi registada em 2018. O que mudou, e levou à subida da média, foi o aumento dos que chegaram à positiva.

Insubstituíveis

Edviges FerreiraO Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) sabia que havia suspeitas que recaíam sobre a professora Edviges Ferreira quando, no Verão de 2017, aceitou que fosse ela a avaliar o exame de Português do 12.º ano antes de ser enviado para as escolas, para os alunos se submeterem à prova.

Eis um mal muito português, que tantas vezes impede que criminosos e infractores sejam julgados e punidos pelos seus actos. Ou que desonestos e incompetentes sejam simplesmente afastados dos lugares antes que a sua presença possa provocar maiores danos: a irresistível e inexplicável sedução que algumas pessoas, de comportamento no mínimo duvidoso, conseguem despertar à sua volta. E a teia de cumplicidades e condescendências que se vai construindo à sua volta.

Aparentemente, o IAVE desconfiava que Edviges Ferreira poderia vir a quebrar o sigilo que lhe era imposto. Mesmo assim, permitiu-lhe o acesso à prova de Português. E nós perguntamos: era assim tão difícil, entre milhares de professores de Português honestos, competentes e experientes que existem neste país, encontrar outra pessoa que fizesse o trabalho que se pretendia?

Este hábito de funcionar em capelinhas, em que uns e outros se vão ajudando e encobrindo – hoje é a mim, amanhã, ou quando precisares, calha-te a ti – é o oposto da meritocracia que caracteriza as economias e sociedades mais evoluídas. Em que as pessoas se afirmam pela sua competência, honestidade e pela qualidade do seu trabalho, sem precisarem de jeitinhos e favores para mostrarem o que valem.

Por cá, prefere-se demasiadas vezes levar ao colo pessoas aparentemente insubstituíveis e segurar nos seus lugares os incompetentes e os corruptos, em vez de multiplicar oportunidades para que mais pessoas apliquem as suas competências e demonstrem o seu valor. E não é só na administração educativa, como bem sabemos, que isto se verifica…

Finalmente, recorde-se que todo este caso da professora Edviges foi levado às últimas consequências apenas porque uma aluna deixou a prova, nas redes sociais, de que havia alunos a saberem antecipadamente o que iria sair no exame. Divulgada a gravação pelos media, não restou alternativa senão investigar até ao fim, sob pena de descredibilizar por completo o sistema de exames nacionais. Mas a dúvida permanece: há quantos anos subsistirão casos semelhantes de professores que têm acesso às provas na fase de elaboração e usam esse conhecimento privilegiado para aumentar a sua cotação no mercado das explicações particulares?

A verdade é que, se a gravação comprometedora não existisse, o mais provável é que a professora entretanto proscrita continuasse ainda a colaborar com o IAVE…

Rei morto, rei posto

coroacao.jpg…O Governo procedeu às seguintes nomeações:

– Luís Miguel Pereira dos Santos, Anabela Barreira Antunes Serrão e Manuel António Carvalho Gomes, para os cargos de presidente e vogais do conselho diretivo do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE)…

Tendo estado vários anos à frente do Júri Nacional de Exames, Luís Miguel Pereira dos Santos não deverá ser considerado um estranho à casa quando assumir funções como presidente do IAVE.

Ocupando o lugar numa altura em que os exames e provas deste ano já estarão, no essencial, elaborados, não deve esperar-se que a mudança da equipa directiva ontem decidida em Conselho de Ministros altere substancialmente, de imediato, o trabalho que tem vindo  a ser feito.

É para os próximos anos lectivos que veremos se a vontade assumida de mudança no sector, assumida pelo SE João Costa, se irá concretizar. E com que resultados práticos…

Quanto a Hélder de Sousa, o anterior presidente agora de saída, poderá ter finalmente a oportunidade de regressar à sua escola e fazer uma demonstração prática do que é ser um bom professor e um bom avaliador dos seus alunos – uma incapacidade de que, enquanto presidente do IAVE, reiteradamente acusou os seus colegas.

Duvido que o faça – a coerência não costuma ser um ponto forte nos burocratas do ME, especialistas da Educação em fuga permanente à sala de aula. O mais certo é ter à sua espera a habitual recompensa, uma prateleira dourada num qualquer serviço ministerial.

Presidente do IAVE vai ser substituído

helder-sousa.JPGO presidente do Instituto de Avaliação Educativa (Iave), o organismo público responsável pela elaboração dos exames nacionais, Helder Sousa, não vai manter-se no cargo que ocupava há quase uma década. O Ministério da Educação (ME) decidiu não reconduzi-lo para um novo mandato de cinco anos. A mudança não terá, porém, qualquer impacto na preparação das provas nacionais deste ano lectivo, garantem a tutela e o ainda presidente do Iave.

“O secretário de Estado [João Costa], disse-me que eram necessários novos actores para adequar a avaliação aos novos enquadramento curriculares”, como o novo perfil do aluno ou a flexibilidade curricular, que foi generalizada neste ano lectivo. “O Iave estava a preparar essas alterações”, garante Helder Sousa, com projectos para a digitalização dos exames ou a realização de provas orais nas línguas estrangeiras, que estavam em desenvolvimento.

O ME desvaloriza a mudança. O mandato do Conselho Directivo do Iave “chegou ao seu fim” e foi “dada oportunidade de apresentação de novas candidaturas a este órgão, como é normal nestas circunstâncias”, responde ao PÚBLICO o gabinete de Tiago Brandão Rodrigues.

Ao fim de dez anos à frente do organismo que elabora e coordena a aplicação das provas e exames nacionais, a saída de Hélder de Sousa deve ser encarada com naturalidade, em nome da renovação que é desejável neste tipo de funções, que não devem ser vistas como “empregos para a vida”.

Aliás o presidente, que não será reconduzido, está longe de ser um “insubstituível”. Sem pôr em causa a sua competência técnica para a função que exerceu, sempre se notou nele uma peculiar habilidade para transformar em críticas e acusações aos professores e ao sistema educativo em geral todos os reparos que ao longo dos anos foram sendo feitos ao conteúdo das provas, à logística dos exames ou à forma como o IAVE tem coordenado o sistema de avaliação externa das aprendizagens dos alunos.

Onde esta substituição levanta algumas reservas é relativamente a quem a promove e ao timing em que é feita. O SE João Costa, tem-se percebido bem, pretende deixar um legado que sobreviva à sua passagem pelo ME. Sentindo aquelas certezas que só alguns iluminados conseguem ter, e antes de rumar aos mais altos voos a que eventualmente se achará predestinado, trata de colocar os seus homens e mulheres de confiança em posições-chave do aparelho ministerial. No caso do IAVE, o primeiro passo foi dado há um mês atrás, com a nomeação de novos representantes do ME, e culminará em breve com a escolha de um novo presidente, mais sintonizado com os novos tempos educativos.

Veremos até que ponto a troca de cadeiras conduzirá a uma maior flexibilidade nas provas de exame e nos critérios para a sua classificação. Em ano de eleições, há um desafio que, para todos os governos, costuma estar em cima da mesa: uma melhoria global das médias nacionais e um aumento de entradas no ensino superior costumam ser interpretados como sinal de sucesso da política educativa. Irá a nova equipa dirigente a tempo de confirmar as expectativas?…

Colaborações: ComRegras

No Topo: Os professores resistentes

Não faço parte do grupo – pelas minhas bandas as “hostilidades” terminaram, por entendimento mais ou menos consensual entre o corpo docente, na sequência da reunião do dia 11 – mas presto a minha sincera homenagem aos colegas que, corajosos e determinados, persistem em greve às avaliações…

topo-e-fundo_ComRegras

No Fundo: Os maus resultados dos exames

Os exames e provas nacionais continuam, ano após ano, a ser motivo de polémica. E 2018 não foi excepção. Desde logo porque o IAVE continua a não se mostrar capaz de manter, de ano para ano, um modelo mais ou menos consistente de prova, com um grau adequado e uniforme de dificuldade. E, não sendo pedir demais, critérios de classificação que também não variassem de acordo com as sensibilidades e humores de quem os elabora. Muito menos ao sabor de recados ou encomendas vindos do exterior…

O desastre do exame de História

elisabete-jesus.jpgO exame de História A consegue a proeza nada invejável de ser o que obtém a pior média de resultados – 9,5 valores – numa altura em que os responsáveis do ME ensaiam o que me parece ser a maior ofensiva de sempre contra a disciplina, que ficará reduzida, nas novas matrizes curriculares do 3º ciclo, a 100 minutos semanais.

Poder-se-ia perguntar que mal lhes fez a História – mas prefiro deixar essa reflexão para outra ocasião. Direi apenas aquilo que costumo explicar aos meus alunos, quando me perguntam para que serve a História: ela ajuda-nos, como todas as outras, a compreender o mundo em que vivemos. A perceber as causas das coisas, a reflectir, a procurar entender em vez de apressadamente julgar, a rejeitar a intolerância, a discriminação, o preconceito e as ideias feitas. Talvez por isso não interesse mesmo nada aos poderes instituídos, que preferem que os jovens aprendam a “cidadania” através de guiões padronizados pelas modas politicamente correctas de cada momento.

Por agora, pretendo voltar ao exame de História do 12º ano e à análise daquilo que correu mal. E aqui, nada melhor do que dar a palavra à colega Elisabete Jesus que, tendo sido coadjuvante e classificadora de provas, explicou, no Público, as causas do desastre. Ficam apenas alguns tópicos de um texto cuja leitura integral se recomenda aos interessados.

Uma prova demasiado extensa.
Enquanto os meus alunos faziam o exame, eu também o resolvi e não me chegaram os 120 minutos regulamentares. Precisei ainda de dez minutos dos 30 do período de tolerância. Interrogo-me… Como conseguirão os alunos? Inevitavelmente, fazem uma análise superficial dos documentos, interpretam e redigem atabalhoadamente algumas respostas, quando não as deixam mesmo por responder.

Perguntas ambíguas e subjectivas.
As questões formularam-se de forma diferente e com subjetividade, pelo que os alunos não atingiram o que, a posteriori, os critérios específicos de correção vieram desvendar.

Valorização excessiva das questões de escolha múltipla, em detrimento das que mobilizam conhecimentos e competências de nível mais elevado.
As perguntas de escolha múltipla, ordenação cronológica, resposta curta e associação passaram de 0,5 para 1 valor, e no conjunto da prova totalizavam 9 valores. São perguntas que avaliam competências básicas de domínio de informação/memorização, pelo que o seu valor é exagerado. Já as perguntas que exigem interpretação dos documentos, mobilização de conhecimentos e conceitos específicos da disciplina, integrados na redação coerente de uma resposta/texto, ficaram-se por 1,5 a 2 valores, quando anteriormente variavam entre os 2 a 5 valores. Simultaneamente, eliminaram-se os valores que se atribuíam ao domínio da comunicação escrita, numa disciplina do Curso de Humanidades!

Um novo modelo de prova, para o qual alunos e professores não estavam preparados.
Ao longo do 10.º, 11.º e 12.º anos, os professores de História alinham os seus instrumentos de avaliação com os moldes do exame, não só para preparar os alunos para esse momento de avaliação externa, mas para assegurarem também fiabilidade na avaliação contínua que realizam. E ao longo destes três últimos anos trabalhámos segundo um modelo e, no dia do exame, surpreenderam-nos com outro!

Que fazer com estes exames?

resultados-exames.jpgSaíram ontem as pautas dos exames nacionais do ensino secundário. Este ano destacam-se as descidas das notas de Matemática A e História A, ao mesmo tempo que melhoraram a Física e Química e a Biologia e Geologia.

Globalmente, houve mais “chumbos”, o que se por um lado é uma má notícia para quem vê assim adiada a conclusão do secundário, por outro lado, do ponto de vista político, deixa uma maior margem de melhoria dos resultados em 2019, ano eleitoral…

O já habitual sobe-e-desce é revelador de que, mais do que mostrar a evolução do nível médio de conhecimentos e competências dos alunos, os resultados mostram sobretudo as flutuações do grau de dificuldade das provas e do rigor colocado nos respectivos critérios de classificação.

As médias dos exames nacionais de Português e Matemática desceram na primeira fase dos exames nacionais do ensino secundário. De acordo com os dados do Ministério da Educação, a média de Português registou uma descida muito ligeira, de 11,1 no ano passado para 11,0 este ano (numa escala de 0 a 20), mas na disciplina de Matemática A a descida foi mais acentuada: de 11,5 para 10,9. Neste caso, a mudança significou um aumento dos chumbos.

A percentagem de reprovações dos alunos internos a Matemática subiu um ponto percentual de 13% para 14%. Recorde-se que o exame nacional de Matemática foi bastante criticado pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), que considerou que colocava em causa a igualdade de acesso ao ensino superior. Para os especialistas, deveriam ter sido realizadas duas provas: uma para os alunos do atual programa e outra para os repetentes com base no anterior.

Quanto a Física e Química, a média do exame nacional aumentou de 9,9 para 10,6, uma subida significativa, que fez com que a taxa de reprovação passasse de 14% para 10%. Ainda assim, o valor não chegou aos 11,1 de 2016.

Biologia e Geologia, do 11º ano, é a terceira prova mais realizada pelos alunos do secundário e registou uma subida de 10,3 no ano letivo passado para 10,9 este ano.

As melhores notas observam-se nas disciplinas de Alemão (média de 14,1 valores) e Espanhol (14,0).

Já História da Cultura e das Artes e História A são as disciplinas que apresentam pior média: a primeira é de 9,6 valores e a segunda é de 9,5.

Além da inconsistência no grau de dificuldade que, de ano para ano, apresentam as provas, e que inviabilizam qualquer estudo sério que se pretenda fazer a partir das séries de resultados disponíveis, há um outro problema grave que persiste com os exames nacionais, e que se torna evidente quando o IAVE se congratula com o facto de, em todos os exames, se ter registado uma média positiva:

Na nota enviada às redações com os dados das provas, o Júri Nacional de Exames (JNE) destaca que “é de registar o facto de as médias das classificações dos vários exames relativos aos alunos internos serem todas iguais ou superiores a 95 pontos”.

As notas dos exames continuam a ser persistentemente baixas, não tendo correspondência, nem com a avaliação interna que a antecede, nem com os testes internacionais, tipo PISA, que vão sendo regularmente aplicados no nosso país, nem mesmo com os resultados que estes alunos vêm posteriormente a alcançar no ensino superior.

Não advogo um maior facilitismo nos exames nacionais, nem a sua supressão, que já haverá quem defenda. Mas parece-me evidente a necessidade de repensar a concepção, a estrutura, a duração e a aplicação destas provas, de forma a que reflictam cada vez mais aquilo que os alunos realmente aprenderam e, o menos possível, as idiossincrasias dos examinadores.