Insubstituíveis

Edviges FerreiraO Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) sabia que havia suspeitas que recaíam sobre a professora Edviges Ferreira quando, no Verão de 2017, aceitou que fosse ela a avaliar o exame de Português do 12.º ano antes de ser enviado para as escolas, para os alunos se submeterem à prova.

Eis um mal muito português, que tantas vezes impede que criminosos e infractores sejam julgados e punidos pelos seus actos. Ou que desonestos e incompetentes sejam simplesmente afastados dos lugares antes que a sua presença possa provocar maiores danos: a irresistível e inexplicável sedução que algumas pessoas, de comportamento no mínimo duvidoso, conseguem despertar à sua volta. E a teia de cumplicidades e condescendências que se vai construindo à sua volta.

Aparentemente, o IAVE desconfiava que Edviges Ferreira poderia vir a quebrar o sigilo que lhe era imposto. Mesmo assim, permitiu-lhe o acesso à prova de Português. E nós perguntamos: era assim tão difícil, entre milhares de professores de Português honestos, competentes e experientes que existem neste país, encontrar outra pessoa que fizesse o trabalho que se pretendia?

Este hábito de funcionar em capelinhas, em que uns e outros se vão ajudando e encobrindo – hoje é a mim, amanhã, ou quando precisares, calha-te a ti – é o oposto da meritocracia que caracteriza as economias e sociedades mais evoluídas. Em que as pessoas se afirmam pela sua competência, honestidade e pela qualidade do seu trabalho, sem precisarem de jeitinhos e favores para mostrarem o que valem.

Por cá, prefere-se demasiadas vezes levar ao colo pessoas aparentemente insubstituíveis e segurar nos seus lugares os incompetentes e os corruptos, em vez de multiplicar oportunidades para que mais pessoas apliquem as suas competências e demonstrem o seu valor. E não é só na administração educativa, como bem sabemos, que isto se verifica…

Finalmente, recorde-se que todo este caso da professora Edviges foi levado às últimas consequências apenas porque uma aluna deixou a prova, nas redes sociais, de que havia alunos a saberem antecipadamente o que iria sair no exame. Divulgada a gravação pelos media, não restou alternativa senão investigar até ao fim, sob pena de descredibilizar por completo o sistema de exames nacionais. Mas a dúvida permanece: há quantos anos subsistirão casos semelhantes de professores que têm acesso às provas na fase de elaboração e usam esse conhecimento privilegiado para aumentar a sua cotação no mercado das explicações particulares?

A verdade é que, se a gravação comprometedora não existisse, o mais provável é que a professora entretanto proscrita continuasse ainda a colaborar com o IAVE…

Rei morto, rei posto

coroacao.jpg…O Governo procedeu às seguintes nomeações:

– Luís Miguel Pereira dos Santos, Anabela Barreira Antunes Serrão e Manuel António Carvalho Gomes, para os cargos de presidente e vogais do conselho diretivo do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE)…

Tendo estado vários anos à frente do Júri Nacional de Exames, Luís Miguel Pereira dos Santos não deverá ser considerado um estranho à casa quando assumir funções como presidente do IAVE.

Ocupando o lugar numa altura em que os exames e provas deste ano já estarão, no essencial, elaborados, não deve esperar-se que a mudança da equipa directiva ontem decidida em Conselho de Ministros altere substancialmente, de imediato, o trabalho que tem vindo  a ser feito.

É para os próximos anos lectivos que veremos se a vontade assumida de mudança no sector, assumida pelo SE João Costa, se irá concretizar. E com que resultados práticos…

Quanto a Hélder de Sousa, o anterior presidente agora de saída, poderá ter finalmente a oportunidade de regressar à sua escola e fazer uma demonstração prática do que é ser um bom professor e um bom avaliador dos seus alunos – uma incapacidade de que, enquanto presidente do IAVE, reiteradamente acusou os seus colegas.

Duvido que o faça – a coerência não costuma ser um ponto forte nos burocratas do ME, especialistas da Educação em fuga permanente à sala de aula. O mais certo é ter à sua espera a habitual recompensa, uma prateleira dourada num qualquer serviço ministerial.

Presidente do IAVE vai ser substituído

helder-sousa.JPGO presidente do Instituto de Avaliação Educativa (Iave), o organismo público responsável pela elaboração dos exames nacionais, Helder Sousa, não vai manter-se no cargo que ocupava há quase uma década. O Ministério da Educação (ME) decidiu não reconduzi-lo para um novo mandato de cinco anos. A mudança não terá, porém, qualquer impacto na preparação das provas nacionais deste ano lectivo, garantem a tutela e o ainda presidente do Iave.

“O secretário de Estado [João Costa], disse-me que eram necessários novos actores para adequar a avaliação aos novos enquadramento curriculares”, como o novo perfil do aluno ou a flexibilidade curricular, que foi generalizada neste ano lectivo. “O Iave estava a preparar essas alterações”, garante Helder Sousa, com projectos para a digitalização dos exames ou a realização de provas orais nas línguas estrangeiras, que estavam em desenvolvimento.

O ME desvaloriza a mudança. O mandato do Conselho Directivo do Iave “chegou ao seu fim” e foi “dada oportunidade de apresentação de novas candidaturas a este órgão, como é normal nestas circunstâncias”, responde ao PÚBLICO o gabinete de Tiago Brandão Rodrigues.

Ao fim de dez anos à frente do organismo que elabora e coordena a aplicação das provas e exames nacionais, a saída de Hélder de Sousa deve ser encarada com naturalidade, em nome da renovação que é desejável neste tipo de funções, que não devem ser vistas como “empregos para a vida”.

Aliás o presidente, que não será reconduzido, está longe de ser um “insubstituível”. Sem pôr em causa a sua competência técnica para a função que exerceu, sempre se notou nele uma peculiar habilidade para transformar em críticas e acusações aos professores e ao sistema educativo em geral todos os reparos que ao longo dos anos foram sendo feitos ao conteúdo das provas, à logística dos exames ou à forma como o IAVE tem coordenado o sistema de avaliação externa das aprendizagens dos alunos.

Onde esta substituição levanta algumas reservas é relativamente a quem a promove e ao timing em que é feita. O SE João Costa, tem-se percebido bem, pretende deixar um legado que sobreviva à sua passagem pelo ME. Sentindo aquelas certezas que só alguns iluminados conseguem ter, e antes de rumar aos mais altos voos a que eventualmente se achará predestinado, trata de colocar os seus homens e mulheres de confiança em posições-chave do aparelho ministerial. No caso do IAVE, o primeiro passo foi dado há um mês atrás, com a nomeação de novos representantes do ME, e culminará em breve com a escolha de um novo presidente, mais sintonizado com os novos tempos educativos.

Veremos até que ponto a troca de cadeiras conduzirá a uma maior flexibilidade nas provas de exame e nos critérios para a sua classificação. Em ano de eleições, há um desafio que, para todos os governos, costuma estar em cima da mesa: uma melhoria global das médias nacionais e um aumento de entradas no ensino superior costumam ser interpretados como sinal de sucesso da política educativa. Irá a nova equipa dirigente a tempo de confirmar as expectativas?…

Colaborações: ComRegras

No Topo: Os professores resistentes

Não faço parte do grupo – pelas minhas bandas as “hostilidades” terminaram, por entendimento mais ou menos consensual entre o corpo docente, na sequência da reunião do dia 11 – mas presto a minha sincera homenagem aos colegas que, corajosos e determinados, persistem em greve às avaliações…

topo-e-fundo_ComRegras

No Fundo: Os maus resultados dos exames

Os exames e provas nacionais continuam, ano após ano, a ser motivo de polémica. E 2018 não foi excepção. Desde logo porque o IAVE continua a não se mostrar capaz de manter, de ano para ano, um modelo mais ou menos consistente de prova, com um grau adequado e uniforme de dificuldade. E, não sendo pedir demais, critérios de classificação que também não variassem de acordo com as sensibilidades e humores de quem os elabora. Muito menos ao sabor de recados ou encomendas vindos do exterior…

O desastre do exame de História

elisabete-jesus.jpgO exame de História A consegue a proeza nada invejável de ser o que obtém a pior média de resultados – 9,5 valores – numa altura em que os responsáveis do ME ensaiam o que me parece ser a maior ofensiva de sempre contra a disciplina, que ficará reduzida, nas novas matrizes curriculares do 3º ciclo, a 100 minutos semanais.

Poder-se-ia perguntar que mal lhes fez a História – mas prefiro deixar essa reflexão para outra ocasião. Direi apenas aquilo que costumo explicar aos meus alunos, quando me perguntam para que serve a História: ela ajuda-nos, como todas as outras, a compreender o mundo em que vivemos. A perceber as causas das coisas, a reflectir, a procurar entender em vez de apressadamente julgar, a rejeitar a intolerância, a discriminação, o preconceito e as ideias feitas. Talvez por isso não interesse mesmo nada aos poderes instituídos, que preferem que os jovens aprendam a “cidadania” através de guiões padronizados pelas modas politicamente correctas de cada momento.

Por agora, pretendo voltar ao exame de História do 12º ano e à análise daquilo que correu mal. E aqui, nada melhor do que dar a palavra à colega Elisabete Jesus que, tendo sido coadjuvante e classificadora de provas, explicou, no Público, as causas do desastre. Ficam apenas alguns tópicos de um texto cuja leitura integral se recomenda aos interessados.

Uma prova demasiado extensa.
Enquanto os meus alunos faziam o exame, eu também o resolvi e não me chegaram os 120 minutos regulamentares. Precisei ainda de dez minutos dos 30 do período de tolerância. Interrogo-me… Como conseguirão os alunos? Inevitavelmente, fazem uma análise superficial dos documentos, interpretam e redigem atabalhoadamente algumas respostas, quando não as deixam mesmo por responder.

Perguntas ambíguas e subjectivas.
As questões formularam-se de forma diferente e com subjetividade, pelo que os alunos não atingiram o que, a posteriori, os critérios específicos de correção vieram desvendar.

Valorização excessiva das questões de escolha múltipla, em detrimento das que mobilizam conhecimentos e competências de nível mais elevado.
As perguntas de escolha múltipla, ordenação cronológica, resposta curta e associação passaram de 0,5 para 1 valor, e no conjunto da prova totalizavam 9 valores. São perguntas que avaliam competências básicas de domínio de informação/memorização, pelo que o seu valor é exagerado. Já as perguntas que exigem interpretação dos documentos, mobilização de conhecimentos e conceitos específicos da disciplina, integrados na redação coerente de uma resposta/texto, ficaram-se por 1,5 a 2 valores, quando anteriormente variavam entre os 2 a 5 valores. Simultaneamente, eliminaram-se os valores que se atribuíam ao domínio da comunicação escrita, numa disciplina do Curso de Humanidades!

Um novo modelo de prova, para o qual alunos e professores não estavam preparados.
Ao longo do 10.º, 11.º e 12.º anos, os professores de História alinham os seus instrumentos de avaliação com os moldes do exame, não só para preparar os alunos para esse momento de avaliação externa, mas para assegurarem também fiabilidade na avaliação contínua que realizam. E ao longo destes três últimos anos trabalhámos segundo um modelo e, no dia do exame, surpreenderam-nos com outro!

Que fazer com estes exames?

resultados-exames.jpgSaíram ontem as pautas dos exames nacionais do ensino secundário. Este ano destacam-se as descidas das notas de Matemática A e História A, ao mesmo tempo que melhoraram a Física e Química e a Biologia e Geologia.

Globalmente, houve mais “chumbos”, o que se por um lado é uma má notícia para quem vê assim adiada a conclusão do secundário, por outro lado, do ponto de vista político, deixa uma maior margem de melhoria dos resultados em 2019, ano eleitoral…

O já habitual sobe-e-desce é revelador de que, mais do que mostrar a evolução do nível médio de conhecimentos e competências dos alunos, os resultados mostram sobretudo as flutuações do grau de dificuldade das provas e do rigor colocado nos respectivos critérios de classificação.

As médias dos exames nacionais de Português e Matemática desceram na primeira fase dos exames nacionais do ensino secundário. De acordo com os dados do Ministério da Educação, a média de Português registou uma descida muito ligeira, de 11,1 no ano passado para 11,0 este ano (numa escala de 0 a 20), mas na disciplina de Matemática A a descida foi mais acentuada: de 11,5 para 10,9. Neste caso, a mudança significou um aumento dos chumbos.

A percentagem de reprovações dos alunos internos a Matemática subiu um ponto percentual de 13% para 14%. Recorde-se que o exame nacional de Matemática foi bastante criticado pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), que considerou que colocava em causa a igualdade de acesso ao ensino superior. Para os especialistas, deveriam ter sido realizadas duas provas: uma para os alunos do atual programa e outra para os repetentes com base no anterior.

Quanto a Física e Química, a média do exame nacional aumentou de 9,9 para 10,6, uma subida significativa, que fez com que a taxa de reprovação passasse de 14% para 10%. Ainda assim, o valor não chegou aos 11,1 de 2016.

Biologia e Geologia, do 11º ano, é a terceira prova mais realizada pelos alunos do secundário e registou uma subida de 10,3 no ano letivo passado para 10,9 este ano.

As melhores notas observam-se nas disciplinas de Alemão (média de 14,1 valores) e Espanhol (14,0).

Já História da Cultura e das Artes e História A são as disciplinas que apresentam pior média: a primeira é de 9,6 valores e a segunda é de 9,5.

Além da inconsistência no grau de dificuldade que, de ano para ano, apresentam as provas, e que inviabilizam qualquer estudo sério que se pretenda fazer a partir das séries de resultados disponíveis, há um outro problema grave que persiste com os exames nacionais, e que se torna evidente quando o IAVE se congratula com o facto de, em todos os exames, se ter registado uma média positiva:

Na nota enviada às redações com os dados das provas, o Júri Nacional de Exames (JNE) destaca que “é de registar o facto de as médias das classificações dos vários exames relativos aos alunos internos serem todas iguais ou superiores a 95 pontos”.

As notas dos exames continuam a ser persistentemente baixas, não tendo correspondência, nem com a avaliação interna que a antecede, nem com os testes internacionais, tipo PISA, que vão sendo regularmente aplicados no nosso país, nem mesmo com os resultados que estes alunos vêm posteriormente a alcançar no ensino superior.

Não advogo um maior facilitismo nos exames nacionais, nem a sua supressão, que já haverá quem defenda. Mas parece-me evidente a necessidade de repensar a concepção, a estrutura, a duração e a aplicação destas provas, de forma a que reflictam cada vez mais aquilo que os alunos realmente aprenderam e, o menos possível, as idiossincrasias dos examinadores.

IAVE: o reino da estupidez

iaveA situação já ocorreu várias vezes no passado e sempre se resolveu sem dramas: havendo alunos inscritos para exame que estudaram a mesma disciplina com programas diferentes, a solução lógica é, obviamente, fazer dois exames distintos: um baseado no antigo programa, outro no novo.

Mas o IAVE e o ministério insistiram em seguir pelo caminho mais complicado: um único exame, a realizar por todos os alunos e que supostamente seria compatível com os dois programas. Deu asneira…

Segundo o PÚBLICO apurou, os professores que estão a corrigir os exames de Matemática A receberam nesta quinta-feira um “esclarecimento” do Iave relativo à classificação dos três itens, todos eles de escolha múltipla, em que eram feitas perguntas em alternativa: uma dirigida aos alunos que estudaram pelo programa que esteve em vigor até 2015; outra para os estudantes que já seguiram o novo programa.

Em qualquer bloco é dada a informação sobre a que programa respeita cada item, com a seguinte formulação: “Os dois itens que se apresentam a seguir são itens em alternativa (…). Responda apenas a um dos dois itens. Na sua folha de respostas identifique claramente o item seleccionado.”

Ora, no esclarecimento enviado nesta quinta-feira aos professores, a que o PÚBLICO teve acesso, o Iave dá instruções opostas ao que estava expresso na prova e também nas informações que publicou antes da realização do exame. Estipula agora o Iave que se o aluno, ao contrário do que era pedido no exame, tiver acabado por responder aos dois itens e uma das respostas estiver correcta, “esta deve ser considerada” para efeitos de cotação.

Indica também que se o aluno “não identificar o item pelo qual optou, isto é, se o examinando se limitar a escrever, por exemplo 1. [em vez de 1.1 ou 1.2], a resposta do examinando deve ser considerada”.

Professores ouvidos pelo PÚBLICO, e que pediram o anonimato, frisam que com esta alteração dos critérios de correcção, o Iave está a colocar em “desvantagem os alunos que cumpriram as instruções e apenas responderam a uma das opções”, porque se tiverem errado na sua escolha única não lhes é atribuída cotação. Nas redes sociais também já existem comentários indignados por parte de pais de estudantes que estão nesta última situação.

Com a sua inépcia, o IAVE complicou a vida aos examinandos de Matemática A, criando um problema que era perfeitamente escusado. E a forma desajeitada como o quer tentar resolver, impondo critérios de classificação que contrariam as instruções dadas na prova e beneficiam os incumpridores, apenas irá aumentar o sentimento de prepotência e de injustiça entre os alunos que, tendo cumprido escrupulosamente as regras estabelecidas sairão, inevitavelmente, prejudicados.

O IAVE não é, ao contrário do que a sigla possa sugerir, uma entidade sobrenatural. É constituído por seres homens e mulheres que, sendo humanos, estão sujeitos a errar. Mas por isso mesmo há que ter a humildade de ouvir os outros, de reflectir antes de decidir e de ponderar todas as consequências das decisões que se tomam, em vez de impor teimosamente o que se decidiu de forma precipitada ou mal informada.

Lamentavelmente, entre os dirigentes do ME e das suas adjacências, não só erram com cada vez mais frequência como se nota uma incapacidade crescente de reconhecer os erros, de reparar os danos que causam a terceiros e, acima de tudo, de aprender a evitá-los.

Tudo seria menos mau se a incompetência prejudicasse apenas os incompetentes; a realidade é que brincam irresponsavelmente com as expectativas de milhares de jovens, cujo futuro académico depende dos resultados dos exames.