A importância do latim

frederico-lourenco.JPGO lento declínio do ensino das humanidades não é de agora, apesar de a intenção hipócrita de diminuir o seu peso curricular, ao mesmo tempo que se tecem loas ao humanismo, se ter tornado evidente com o actual governo.

Veja-se como as línguas clássicas, cuja aprendizagem era comum, entre os alunos de humanidades, ainda há duas ou três décadas atrás, estão hoje praticamente extintas no ensino não superior português. E nisto deveremos ser, tanto quanto julgo saber, caso único entre os países latinos…

Em nome de uma modernidade mal entendida, vamos paulatinamente esquecendo e desvalorizando as raízes históricas e culturais da nossa civilização e da nossa identidade colectiva. Como se estas pudessem ser substituídas, na aprendizagem escolar, por uns quaisquer módulos de “cidadania”.

Neste contexto, ganham sentido e pertinência as reflexões de Frederico Lourenço na entrevista que concedeu a propósito do lançamento da sua Nova Gramática do Latim.

O tempo é uma conquista consciente da minha parte. Só consigo fazer os trabalhos que faço porque abdico de muitas outras coisas. […] Tomei a opção de fazer aquilo que considero o “meu” trabalho, não só porque o considero mais importante do que outras atividades a que me poderia dedicar, mas também porque me dá gosto fazê-lo.

…arqueologia, história antiga e medieval, filosofia, teologia, linguística portuguesa. Nunca deixa de me surpreender que haja entre nós investigadores e professores dessas áreas que sabem pouco ou nenhum latim.

…as pessoas começam, na maior parte dos casos, a aprender latim já adultas, numa fase do desenvolvimento do cérebro humano em que já não se consegue aprender vocabulário quase por osmose, como é possível aos 10 anos. Por isso sou apologista de que o latim deve ser ensinado na escola, de forma lúdica mas progressiva, a partir dos 10 anos.

…o latim é uma língua em que tudo se pode exprimir, desde os palavrões mais crus até aos pensamentos mais sublimes. É a língua de Vergílio e da Vulgata, sim; mas é também a língua de grafitos obscenos escritos nas paredes por pessoas que davam os mais delirantes erros de ortografia.

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ME aposta na mistificação e na mentira

mentiroso.jpgO ME ainda não reuniu com as associações de professores de História e Geografia, mas já vai passando, para a comunicação social, a sua verdade sobre o corte nas aulas de História e Geografia. Percebe-se que o mote, dado no sábado pelo ministro, vai continuar a marcar o tom da conversa oficial: negar as evidências, apostando na mistificação e na mentira para tentar desacreditar as queixas contra a desvalorização curricular das duas disciplinas e continuar a defender a sua reforma educativa.

As disciplinas de História e Geografia tiveram mais horas de aulas atribuídas aos professores neste ano lectivo, adiantou o Ministério da Educação (ME) ao PÚBLICO, a propósito das notícias que garantiam que estas duas disciplinas tinham perdido espaço nos horários dos alunos em resultado do novo regime de flexibilidade curricular.

O ME fez uma verificação dos horários atribuídos aos grupos de recrutamento de História e Geografia e chegou à conclusão de que “há mais horas atribuídas a estes grupos em 2018/2019 do que em 2017/2018”. Estes dados não garantem, por si só, que haja mais horas de aulas das duas disciplinas neste ano lectivo, mas permitem afastar a ideia de que ambas estejam a ser particularmente prejudicadas como tem sido defendido pelas associações de professores, explica a tutela.

Ao PÚBLICO, o ministério sublinha ainda que o número de horas de aulas de História e Geografia definidas por lei não sofreu cortes com a revisão curricular recente. O decreto de 2018 prevê tempos semelhantes (cerca de 700 minutos semanais) aos que estavam definidos em 2012.

Não são precisas muitas palavras para desmontar a argumentação falaciosa do ministério. Desde logo, haver mais horários para professores de História e Geografia não significa necessariamente que haja mais aulas destas disciplinas. Devido sobretudo ao aumento da baixas médicas prolongadas e da mobilidade por doença, tem havido um aumento de contratações de professores nos últimos anos, o que se repercute em todos os grupos disciplinares.

Por outro lado, a atribuição de turmas de Cidadania ou de outras disciplinas pode ajudar a preencher os horários destes professores, mas as disciplinas estão a ser efectivamente prejudicadas. Ainda assim, a Cidadania e Desenvolvimento pode ser atribuída a qualquer professor. E se há escolas que assumem, bem, que os da área das humanidades serão os mais preparados para a leccionar, outras há que a confiam ao director da turma – um critério que temos igualmente de respeitar. Noutros lados, a nova disciplina pode ser dada a qualquer docente, seguindo a velha lógica de que tudo serve para tapar buracos nos horários…

Finalmente, e aqui a má-fé dos responsáveis do ME é evidente, os 700 minutos semanais atribuídos às ciências sociais e humanas – 725, mais precisamente – que antes eram distribuídos pela História e a Geografia, têm agora de ser partilhados com a Cidadania. Retirem-se, aos 725 minutos, um mínimo de 135 (45 minutos multiplicados pelos três anos do 3.º ciclo) e ficamos com apenas 590 minutos semanais. Nunca com os 700 de que fala a notícia do Público.

Note-se ainda que os maiores cortes na História e na Geografia irão suceder nos próximos anos, pois a matriz curricular prevê a diminuição do tempo lectivo a partir do 8.º ano. Já apresentado ontem o boneco, fica aqui de novo para que se perceba bem o que a intenção inconfessada da equipa governativa.

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E acrescente-se: desvalorizar as humanidades, tal como já se fez e continua a fazer com as artes e com as tecnologias – que não deveriam reduzir-se ao “mexer em computadores” – faz parte dos intentos deste ME desde o início. Basta lembrar como desde o lançamento do projecto da flexibilidade têm vindo a sugerir às escolas a melhor forma de disfarçar o esvaziamento curricular da História e da Geografia: transformá-las em disciplinas semestrais.

A História no ranking dos maus resultados

elisabete-jesusA propósito dos baixos resultados nos exame nacional de História A, a professora Elisabete Jesus tece, em artigo de opinião no Público, pertinentes considerações.

Desengane-se quem acha que os rankings definem, tão só, hierarquias de escolas, pois as disciplinas são igualmente seriadas, dando-se visibilidade às que têm piores resultados. E, como as classificações dos exames nacionais já tinham dado a conhecer, a História foi a disciplina que superou o Português e a Matemática quanto às más prestações dos alunos. Registou uma das maiores quedas, oito pontos, passando dos 10,3 valores médios no ano de 2017 para os 9,5 em 2018, valor que, aliás, também se tinha registado em 2016. 

Há um ponto essencial para entender o estado calamitoso a que chegou o ensino da História, que é a desvalorização curricular que tem sofrido a disciplina, o que se nota especialmente no 3.º ciclo. Os três tempos semanais de 50 minutos, que tinha quando foram introduzidos os programas ainda em vigor, foram sendo progressivamente reduzidos: actualmente, com a flexibilidade curricular, a maioria das escolas não tem mais do que 90 a 100 minutos semanais para atribuir à disciplina. Isto quando não resolve semestralizá-la, privando os alunos da continuidade temporal, numa disciplina em que a dimensão do tempo se revela tão importante, pois se dedica, precisamente, ao estudo da evolução humana ao longo do tempo.

Como é evidente, a redução do tempo da disciplina transmite uma noção errada acerca da sua importância. Na verdade a História é fundamental para compreender o mundo em que vivemos, para interpretar, analisar e compreender, para desenvolver o espírito crítico e as competências de cidadania. Mas para fazer isto tudo, trabalhando diversos tipos de documentos e recorrendo a uma multiplicidade de estratégias e actividades, é preciso tempo. Reduzida a 90 minutos por semana, a disciplina acaba por se aproximar da imagem que é dada pelos seus detractores: um repositório de conhecimentos “enciclopédicos”; um somatório de factos avulsos que por falta de tempo não se chegam a compreender e relacionar.

Por outro lado, o declínio da História insere-se num movimento mais vasto que é o declínio das ciências humanas e sociais e das humanidades. Esta área tem, como nota a autora, um reduzido valor de mercado. Pelo que atrai poucos alunos, que raramente são, em termos académicos, dos melhores. No entanto, os níveis de exigência dos programas e dos exames estão em linha com os dos restantes cursos científico-humanísticos, como não poderia deixar de ser. Pelo que as dificuldades que o aluno médio dos cursos de humanidades evidencia não lhe permitem alcançar mais do que modestos resultados.

Os fracos índices de empregabilidade que esta área científica oferece têm vindo a definir um perfil do aluno das Humanidades: um aluno que fez o ensino básico com dificuldades, aterrou ali, em fuga à Matemática ou à Química, ou porque até já experimentou outras áreas, como a Economia ou as Artes, e não se deu bem; não tem perspetivas do que pretende seguir na faculdade (embora saiba que quer lá andar), muito menos num emprego. Estes erros de casting degeneram depois em maus desempenhos e em maus resultados. Os 12 anos de escolaridade obrigatória têm levado para as Humanidades alunos fracos do ensino básico. Sobra-lhes o curso de Humanidades. Claro que há outras vias de prosseguimento de estudos, mas somos um país de doutores e engenheiros, e claro que há também alunos que escolhem as Humanidades por vocação, que se empenham e trabalham para atingir os seus objetivos e que contrariam o ciclo das más notas, embora seja um número cada vez mais reduzido.

Mais flexibilidade e menos tempo para a História

flexibilidade-quedaEra evidente, era inevitável. Dar autonomia às escolas para gerir 25% do currículo, ao mesmo tempo que se introduzia a obrigatoriedade das TIC e da Educação para a Cidadania  em todos os anos de escolaridade do 2.º e do 3.º ciclo, sem aumentar a carga horária semanal, levaria forçosamente a perdas de tempos numa ou noutra disciplina. Outras, pelo contrário, até poderão ter visto o seu tempo reforçado, sendo tudo decidido em função das sensibilidades dominantes entre os decisores de cada escola, das necessidades inerentes à feitura de horários e de distribuição de serviço e do poder relativo dos diferentes lobbies disciplinares.

Neste primeiro ano de generalização da flexibilidade há, contudo, claros perdedores: as disciplinas das áreas das artes e das humanidades. Com destaque, neste último caso, para a História, uma vez que o ataque em curso à disciplina representa o culminar de uma longa sequência de perdas e de desvalorização curricular. Agora, depois de reduzida em muitas escolas aos 90 minutos semanais, de noutras ter sido transformada em disciplina semestral, já só falta converterem-na, um dia destes, em disciplina opcional.

Dar às escolas ainda mais margem de autonomia para gerirem os tempos atribuídos às disciplinas poderá, contudo, agravar uma situação para a qual já alertaram vários investigadores e professores e que se está já a tornar realidade: neste caminho há saberes considerados essenciais que estão a ser prejudicados.

Por esta razão, a Associação de Professores de História (APH), através de uma petição lançada em Novembro, já solicitou ao ministério que estabeleça “tempos mínimos obrigatórios” para o ensino da disciplina.

Nas matrizes curriculares em vigor, as cargas horárias são no geral atribuídas por áreas de formação e não por disciplinas. Por outro lado, no diploma da flexibilidade curricular assume-se que as cargas horárias são “um valor de referência, a gerir por cada escola, através da distribuição dos tempos fixados nas matrizes”.

Em declarações ao PÚBLICO, o presidente da APH, Monteiro Barros, denuncia que esta possibilidade está a ser utilizada por várias escolas “para cortar tempos lectivos à História”. Este professor frisa que nada na legislação aprovada por este Governo “aponta nesse sentido” e que, como tal, “só a má-fé pode levar algumas escolas a efectuarem esses cortes”.

Monteiro Barros refere também, a este respeito, que a APH “teve a garantia por parte da Secretaria de Estado da Educação, reiterada mais do que uma vez, de que os tempos lectivos de História em nada seriam prejudicados”.

Para o presidente da APH, as escolas aproveitaram também “a boleia” das novas aprendizagens essenciais, que simplificaram os programas em vigor, para procederam aos cortes referidos.

aqui escrevi sobre a petição lançada pela APH, iniciativa que apoio inteiramente. O que não entendo é que, depois da desconsideração pública pela disciplina e por quem a representa, os dirigentes da APH continuem a desculpar o secretário de Estado e a confiar na boa-fé de quem nunca aceitou passar a escrito as alegadas promessas verbais que fez à associação.

É incompreensível que insistam em culpar unicamente “algumas escolas” pelos cortes na disciplina de História, referindo que “nada na legislação aponta nesse sentido”. Não aponta? Claro que sim! Basta ver que a nova disciplina de Cidadania e Desenvolvimento foi integrada na área disciplinar onde se encontra a História, sem que tenha sido aumentado o tempo lectivo de referência, e com a agravante de os anteriores tempos mínimos serem agora tempos máximos, uma vez que desapareceram as folgas existentes nas matrizes do tempo de Nuno Crato.

Como é evidente, os 90 minutos semanais não permitirão ir muito além daquilo que é, na cabeça de alguns dos actuais reformadores curriculares, o saber histórico: uma sucessão de nomes e de datas, de factos isolados e mais ou menos anedóticos, um saber “enciclopédico” de decorar e deitar fora, um conhecimento ultrapassado e fora de moda na voragem da sociedade da informação e do conhecimento instantâneo do século XXI.

A verdade é que a História não é isto ou, se preferirem, vai muito para além disto. A História, mais do que o estudo do passado, é a compreensão do mundo em que vivemos. Da forma como chegámos até aqui. Das experiências de vida e do capital cultural que colectivamente fomos acumulando e transmitindo ao longo de gerações.

O conhecimento histórico, adquirido com um mínimo de reflexão e profundidade, é o antídoto mais eficaz contra a ignorância, a xenofobia e a intolerância. Contra extremismos, radicalismos e fascismos de todas as cores. E oferece, em conjunto com os saberes de outras áreas, da Literatura à Geografia e às Ciências Naturais, a verdadeira educação para a Cidadania: não um desfilar superficial de temas avulsos, em moda no momento, mas um conjunto de competências assentes em conhecimento sólido, estruturado, reflexivo, fundamentado.

Com poucas esperanças de que João Costa e os seus sequazes alguma vez percebam isto, espero que a mobilização cívica dos professores e dos cidadãos deste país consiga ainda salvar o ensino da História do desastre que se avizinha…

Aprender com os clássicos

Teatro Mérida.jpgUm projecto interessante e com muitas potencialidades, que pretende levar a cultura clássica aos estudantes portugueses, reunindo a Rede de Bibliotecas Escolares, o ME, a Universidade de Lisboa, editoras, autores e escolas.

Clássicos em Rede é o nome do programa que foi lançado nesta segunda-feira para alunos do ensino básico e secundário com o propósito de aumentar os seus conhecimentos sobre a cultura clássica. Na certeza de que esta ajuda a ler o mundo de hoje. E a melhorá-lo.

No Museu de Lisboa — Teatro Romano sublinhou-se a vontade de levar os jovens a identificar quotidianamente a presença do conhecimento clássico, “na língua e etimologia, na herança patrimonial, nos modelos estéticos e na arte, no imaginário colectivo e no ideário que está na base das nossas sociedades”. Resumindo, “tornar a cultura clássica uma evidência para os mais jovens”, nas palavras de Teresa Santa-Clara, da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE).

Da iniciativa faz parte um concurso, as Olimpíadas da Cultura Clássica, em diferentes modalidades: escrita, expressão plástica e trabalhos multimédia. Os temas para este ano lectivo são Ulisses e Penélope; Minotauro e o Labirinto; Zeus e os Jogos Olímpicos. As escolas terão de se inscrever até 30 de Novembro.

Contudo, os clássicos não podem ser apenas uma flor na lapela da “sociedade do conhecimento” do século XXI. Se reconhecemos a importância e a perenidade dos valores que herdámos da cultura grega e latina e não a queremos restringir aos aspectos caricaturais dos “heróis da Marvel”, citados por João Costa, nem a um inconsequente “brincar aos clássicos”, precisamos de promover o estudo das línguas e da cultura clássica, que está entre nós em vias de extinção. Em quantas escolas secundárias portuguesas se ensinam, nos dias de hoje, o Latim e o Grego? E quantos estudantes cursam Estudos Clássicos nas universidades portuguesas?

Ao contrário da “educação rodoviária” ou “financeira”, que se apreendem numa qualquer “formação” já prometida pelo ministério, a língua, a literatura e a história das civilizações clássicas implicam muitos anos de estudo intenso e aplicado para serem razoavelmente dominadas. E mesmo se o objectivo é apenas o de ensinar pela rama os aspectos mais atraentes ou actuais da cultura antiga, precisamos de professores e investigadores com os conhecimentos necessários para trazer os saberes dos Antigos até aos Modernos. É portanto uma área que precisa de atenção, incentivos e investimento. E o secretário de Estado, vindo de uma Faculdade de Letras e antigo estudante de Latim e Grego, não deveria precisar que lho explicassem.

Da utilidade dos saberes inúteis

nuccio-ordine.JPGO filósofo e académico italiano Nuccio Ordine fez, em entrevista ao Público, uma defesa eloquente de saberes que, ao longo das últimas décadas, nos fomos habituando a considerar inúteis: os estudos clássicos, a filosofia, a arte, a história, a literatura. Tudo em nome de uma lógica da rentabilidade e do lucro que vai impondo uma visão utilitarista dos sistemas educativos: apenas interessam os saberes que permitem ganhar dinheiro e se traduzem em competências imediatamente aplicáveis no mundo do trabalho.

Mas a verdade é que o ensino utilitário e especializado não nos dá um sentido global do saber, aquilo que vulgarmente chamamos uma cultura geral. Ordine evoca Einstein, que dizia que a especialização mata a curiosidade, ou Fabiola Gianotti, a física que dirige o CERN e que fez estudos clássicos e artísticos no secundário, em defesa da ideia de que a escola não existe para formar pessoas mais ricas, mas sim melhores pessoas: mais cultas, mais éticas e mais livres.

Ficam, expressas na primeira pessoa, algumas das ideias lúcidas e inspiradoras de Nuccio Ordine.

Sobre sabedoria, conhecimento e liberdade:
Significa que devemos estudar por amor ao conhecimento, por amor à aprendizagem, para que sejamos homens e mulheres livres. Os alunos têm de compreender que não há saber sem conhecimento e que só se é livre se formos sábios. E isso não têm nada a ver com o mercado e com aquilo que este pede.

Sobre universidades-empresa:
Contesto a ideia de que as universidades sejam empresas. A nossa missão não deve ser vender diplomas que os estudantes compram. Isso é uma enorme corrupção. A escola não pode ser uma empresa porque a lógica da educação não é a do mercado. O princípio da educação é aprender a ser melhor, para si mesmo e não para o mercado. O que vemos na City em Londres [no centro financeiro britânico] são pessoas com elasticidade mental, pessoas que vêm dos estudos clássicos ou da filosofia porque compreendem melhor o mundo do que os especialistas em economia ou programação.

Sobre a universidade “bolonhesa”:
As universidades recebem financiamento consoante os seus resultados, quanto mais alunos com sucesso, mais financiamento recebem, e assim baixa-se o nível para todos passarem. Ninguém vai avaliar a qualidade, só a quantidade. Deixa-se de financiar as pesquisas de base, mas se não fossem essas não seria possível fazer ciência. As grandes revoluções são fruto de pesquisas de base. Por isso, é preciso redireccionar as coisas porque o inútil de hoje pode ser o útil de amanhã.

Sobre a escola:
[Quando Albert Camus ganhou o Nobel da Literatura] agradeceu ao seu professor tudo o que fez por ele. É essa a escola que quero! Uma escola em que o professor e o aluno estejam no centro e os professores não estejam soterrados em burocracias. Os professores perderam a paciência para ensinar e a paciência tem de estar no centro da pedagogia.

Sobre o dilema dos pais no século XXI: computador ou saídas culturais?
Comprar o computador e levá-los ao teatro, a ler poesia, a ouvir um concerto porque tudo isso pode mudar a vida de uma pessoa. A música pode fazer milagres, como pode a ciência. O poder libertado do utilitarismo pode tornar a humanidade mais humana.

O declínio das Humanidades

A perda de importância das Humanidades nos currículos escolares não é de agora: as sucessivas reformas educativas, incluindo as alterações ao sistema de acesso ao ensino superior, têm vindo a secundarizar esta área de estudos, retirando umas disciplinas, tornando outras opcionais, aligeirando os conteúdos ou reduzindo a carga horária das remanescentes.

Um exemplo simples, mas significativo: numa rede social, alguém pergunta a uma estudante de Comunicação Social por que razão optou, no secundário, pela área de Ciências, em vez de escolher Humanidades, como seria mais lógico. A resposta é esclarecedora:

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A verdade é que um aluno de Humanidades não pode ir para cursos de Ciências ou Engenharias – falta-lhe a Matemática, a Física, a Biologia – mas um aluno de Ciências, com o exame de Português ou o de Filosofia, que são disciplinas comuns, tem acesso a praticamente todos os cursos da área humanística.

A área de Humanidades é actualmente uma formação generalista – subsistem a História e a Geografia, há mesmo uma Matemática aligeirada para “alunos de Letras”, mas a cultura e as línguas clássicas, Latim e Grego, praticamente desapareceram das escolas secundárias portuguesas, ao contrário do que sucede, por exemplo, na vizinha Espanha. E o Português que se estuda é o mesmo dos alunos das Ciências e das Artes. É por isso um curso que mantém o handicap tradicional desta área – acolher os alunos que “fogem” da Matemática – sem reunir características realmente diferenciadoras e atractivas para os melhores alunos que acabam por seguir, quase invariavelmente, a via científico-tecnológica.

A fraca empregabilidade dos cursos superiores faz o resto, pois ao contrário de outros países, onde as Humanidades são valorizadas, como formação de base, na administração pública e em muitas carreiras empresariais – o presidente francês Emmanuel Macron é formado em Filosofia – em Portugal continuamos a ter vistas curtas também nesta matéria.

A mediocridade das elites portuguesas já não assenta hoje tanto, como no passado, na “falta de mundo”. Mas o défice galopante de cultura humanística – os Clássicos, a História e a Filosofia, principalmente – é cada vez mais evidente no baixo nível do debate e da decisão política, na falta de visão estratégica da gestão privada, na dificuldade notória em discutir ideias e contrapor argumentos sem descambar no insulto e no ataque pessoal ou na obstinação com que, eternamente, se vão repetindo os mesmos erros.