A verdade sobre os sindicalistas presentes – e os ministros fujões

fuga.gifUm conselho de ministros em Bragança, no âmbito uma governação de proximidade e de abertura ao diálogo e ao contacto com as populações.

A narrativa governamental dizia mais ou menos isto, mas a retórica do diálogo e do confronto com os problemas e as realidades rapidamente foi descartada, perante a informação de que no exterior do local onde se realizou o conselho de ministros estava uma delegação da Fenprof. O seu objectivo seria entregar uns postais dos professores ao Governo e trocar breves palavras acerca das reivindicações da classe.

A opção de António Costa e do seu séquito ministerial foi então a saída pela porta dos fundos do Cineteatro de Bragança, evitando o diálogo com os manifestantes.

Entre as cenas pouco edificantes desse dia, há ainda a referir as insinuações postas a circular pelas hostes governamentais e pela comunicação social –  que algum anti-sindicalismo docente resolveu também amplificar – de que os sindicalistas, frustrada a tentativa de chegar à fala com António Costa, terão tentado “forçar a entrada” no local da reunião.

Seria caso para dizer-se que, com colegas tão empenhados em dar tiros nos próprios pés e nos de quem os representa, os professores nem precisariam de inimigos. Valha-nos a PSP que veio, a bem da verdade, esclarecer como tudo se passou…

Segundo a PSP, “a entrada e saída dos membros do governo não sofreu qualquer alteração ou constrangimento causado pela presença de um conjunto de manifestantes afetos à FENPROF”, que organizou uma manifestação na Praça Cavaleiro de Ferreira, em frente ao Teatro Municipal, quando decorria o Conselho de Ministros. Na ocasião, Mário Nogueira disse aos jornalistas que queria entregar sete mil postais, com reivindicações ao primeiro-ministro, mas não chegaram a cruzar-se.

Na mesma nota de imprensa, a PSP esclarece que, “enquanto decorria a conferência de imprensa, o líder da FENPROF aproximou-se de uma das portas de acesso, questionando o comandante do policiamento quanto à possibilidade de efetuar a entrega de umas caixas, tendo-lhe sido comunicado que tal não era possível. Não existiu, em momento algum, qualquer atitude hostil por parte deste dirigente sindical que, apesar de aludir a algumas palavras de ordem, abandonou o local, sem registo de qualquer incidente”.

A PSP acrescenta que “os manifestantes mantiveram um comportamento que se pautou pelo respeito pela ordem e legalidade democrática, que não indiciava qualquer preocupação especial de segurança”.

Programa para a Educação: tudo menos o essencial

escolinhaTal como há quatro anos a educação não aparenta ser um dos assuntos centrais da próxima legislatura. Curiosamente entre 2015 e 2019 duas crises maiores tornaram a educação central no debate político. Era preciso descratizar a educação, mas a crise estalou à volta de um assunto mais antigo e que já tinha estado na ordem do dia uns anos antes: os Contratos de Associação e os interesses aí detidos por grupos empresariais e igreja, que o governo enfrentou de forma mais corajosa e decidida que alguma vez o PS tinha feito. Pelo caminho também acabaram as metas de aprendizagem, a separação vocacional precoce e os exames de 4º e 6º ano. Mas esse ímpeto inicial ficou por ali. 

Nuno Pinheiro analisa o programa do Governo para a Educação e traça uma panorâmica muito completa das dificuldades e dos desafios que se colocam para a próxima legislatura.

Recorda problemas que se arrastaram ao longo da anterior governação, sem que houvesse qualquer esforço sério para os resolver: escolas degradadas, falta crónica de assistentes operacionais, desmotivação e envelhecimento da classe docente e, à pala da “flexibilidade”, um aumento infernal da burocracia escolar. Mais recentemente, a crescente mediatização da violência escolar veio dar visibilidade a um problema que, vai-se percebendo agora, tem vindo a ser escamoteado e normalizado pelos responsáveis escolares e governamentais. As políticas de promoção do sucesso escolar e da flexibilidade curricular disfarçam mal a vontade de fazer omeletes sem ovos e de tentar gerir um currículo que, com tantas alterações e remendos que tem levado, se tornou completamente disfuncional.

No entanto, apesar de uma política educativa digna desse nome ser praticamente inexistente no programa do Governo, o sector pode ainda vir a assumir protagonismo político. Não é por ignorarmos os problemas que eles deixam de existir. Empurrá-los com a barriga só aumenta a gravidade das situações e a premência das respostas…

Apesar da vacuidade do programa de governo para a educação, a educação pode ser um dos temas centrais do início da legislatura. Há problemas de falta de funcionários, a violência tem marcado o início deste ano letivo. Há escolas a funcionar há dez anos em contentores, outras (muitas) que continuam a ter coberturas de amianto.

Problemas como a gestão, ou a recuperação de tempo de serviço dos professores não deixarão de se colocar. Os jovens que o ano passado fizeram greve pelo clima não irão parar este ano. O recente movimento contra o amianto irá seguramente crescer.

A situação até se pode agravar com a “promessa” que vem das discussões de reposição de tempo de serviço em 2018, de revisão das carreiras especiais da função pública. A ideia parece ser premiar o mérito e a formação, como se houvesse sistemas de avaliação minimamente credíveis e a formação de professores e de todos os funcionários públicos não fosse um assunto esquecido há mais de uma década.

Não será um programa minimalista em que não se atua sobre nada de fundamental a garantir uma vida descansada ao governo na frente da educação. Não será este programa a resolver nenhuma das questões fundamentais que afetam hoje a educação.

Programa do Governo: mais do mesmo na Educação

prog-gov-xxii.PNGCom referências breves e dispersas por vários capítulos, a Educação tem uma presença modesta no programa do Governo que há dias iniciou funções. Percebe-se que há, no essencial, uma continuidade com as políticas da anterior legislatura e, também, uma notória falta de ambição quanto aos investimentos estruturantes de que o sector verdadeiramente necessita.

O Paulo Guinote já fez, com a competência que lhe reconhecemos, uma análise detalhada das medidas enunciadas. Pela minha parte, irei apenas sublinhar, de uma forma quase telegráfica, as principais linhas de rumo que, a partir da leitura do programa do Governo, é possível antecipar.

Ordem para poupar. Este continuará a ser é o primeiro e mais grave constrangimento da política educativa. Apesar de alguns objectivos ambiciosos enunciados, não se antevê qualquer reforço orçamental na área da educação não superior. A ideia continua a ser, como no tempo da troika, fazer mais com menos. Espera-se que, no quadro da municipalização da educação, os recursos técnicos e humanos das autarquias possam dar uma mãozinha em relação às necessidades das escolas, evitando assim a contratação de pessoal especializado. E prevê-se expressamente que o recurso aos financiamentos comunitários continue a assegurar uma parte substancial da despesa no sector.

A incógnita dos concursos de professores. Depois de alguns anos a enfiar a cabeça na areia, há sinais de que os concursos e a contratação de docentes começam a ser vistos como uma área problemática, a exigir urgente intervenção. Mas não parece haver uma ideia clara, um fio condutor, para uma nova política de colocação de professores. Falta, desde logo, a coragem política para acabar com as zonas pedagógicas, estruturas cuja lógica foi, ao longo dos anos, completamente subvertida e que hoje servem apenas para aumentar a complexidade e a falta de transparência dos concursos. Em vez disso, querem apenas reduzir a sua dimensão. Por outro lado, nota-se a vontade de abrir caminho, novamente, à contratação local, usando os TEIP como balão de ensaio. Acena-se com a criação de “incentivos” nas zonas onde é mais difícil colocar professores. Mas esquece-se que, em muitos casos, o único incentivo eficaz é o que resulta da estabilidade profissional: horários completos em vez de horas avulsas, fixação dos docentes em lugares de quadro em vez de anos a fio de colocações precárias.

Revisão da carreira docente. Aqui não há que alimentar ilusões: devemos preparar-nos para o pior. Se o deixarem, este Governo irá acabar com as carreiras especiais da administração pública, atirando-se com especial sanha àquelas que, como é o caso da carreira docente, valorizam a progressão com base no tempo de serviço. É com esse objectivo que Alexandra Leitão foi promovida a ministra. Das entrelinhas do programa extrai-se uma ideia: uma carreira docente a terminar, para a generalidade dos professores, naquilo que são hoje os escalões intermédios, sendo o topo reservado para os directores e, mais abaixo, os coordenadores das estruturas de gestão intermédia.

Sucesso obrigatório. Ainda não foi desta que surgiu a coragem política de abolir, legalmente, as retenções. O que o Governo anuncia é mais um plano para a “não-retenção”, a juntar ao PNPSE e demais burocracia eduquesa, destinado a responsabilizar e a penalizar os professores pelos “chumbos” dos alunos. Que já estão na maioria das escolas em níveis residuais e deverão continuar a descer. Se efectivamente se aprende mais e melhor, isso é outra conversa.

Exames nacionais. Também aqui o programa do Governo é omisso. Percebe-se que sem provas nacionais as escolas poderiam flexibilizar mais à vontade, sem serem confrontadas no final com a ignorância dos alunos e a vacuidade das aprendizagens ditas significativas. Mas não se querem comprometer com a abolição dos exames, e por isso irão avançar apenas se sentirem que o vento sopra de feição. O que prometem é um reforço da eficácia das provas de aferição. Querem que elas se tornem mais úteis para  alunos e professores. Talvez fosse bom, para variar, começarem por ouvir docentes e discentes antes de decidirem o que quer que seja.

Escolas digitais. O Governo quer promover a “digitalização” das escolas e o desenvolvimento de competências computacionais entre alunos e professores. Lê-se o vasto e ambicioso rol de medidas enunciadas nesta área e há uma dúvida que prevalece: com que recursos materiais iremos mergulhar a fundo na onda das novas tecnologias? Uma pergunta que, no programa governamental, fica sem resposta… Recorde-se que a quase totalidade do parque informático instalado nas escolas tem dez ou mais anos de idade. Computadores, projectores, redes e quadros interactivos acusam o peso da idade. E se é verdade que muito material ainda funciona, também é certo que há muito deixou de cumprir com as exigências actualmente colocadas pelo uso intensivo e generalizado das novas tecnologias. Em muitas “salas de TIC”, o próprio conceito de personal computer é desconhecido. Devido à escassez de equipamentos, os alunos são forçados a partilhar, aos pares, o computador que deveria ser de uso pessoal. É assim que querem ensinar a programação e as outras competências digitais avançadas aos alunos “do século XXI”?…

Equipa completa

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Depois da promoção ministerial de Alexandra Leitão e da manutenção do ministro e do seu secretário de Estado para a área do Desporto, ficou esclarecida a maior dúvida: João Costa permanece no seu posto de ministro-de-facto da Educação.

Ao fim de quatro anos de experiência, e depois de ter colocado gente de confiança em diversos serviços e lugares-chave do aparelho ministerial, Costa será o verdadeiro homem-forte do ministério. Enquanto Tiago Brandão Rodrigues, sem retórica, carisma ou pensamento próprio sobre os assuntos educativos, manter-se-á no seu papel de testa de ferro dos lobbies eduqueses que continuarão, sob a batuta das Finanças, a gerir o ME.

Sobre a saída ou não do secretário de Estado, já muito se tinha especulado, sendo a permanência, provavelmente, a confirmação de uma de duas coisas: ou o almejado posto nalguma organização internacional não estará disponível a breve prazo, ou o homem sentiu o apelo irrecusável de dar continuidade a um trabalho incompleto.

Se a segunda hipótese estiver certa, há que temer o pior…

A substituta de Alexandra Leitão

susana-amador.jpgSegundo avançava ontem o JN, um dos nomes para as secretarias de Estado do ME já está escolhido. A avaliar pelo perfil da deputada socialista, que tem formação em Direito e na anterior legislatura foi vice-presidente do grupo parlamentar do PS, deverá ir ocupar o lugar deixado vago por Alexandra Leitão.

Susana Amador, de 52 anos, tem uma vasta experiência autárquica – foi presidente da Câmara de Odivelas – o que deverá representar uma mais-valia no quadro da municipalização da Educação, uma opção política socialista da qual Susana Amador se mostrou adepta fervorosa e a que o novo governo certamente dará continuidade.

Quanto a João Costa, não se sabe ainda se vai ou se fica, embora no contexto que já conhecemos – a manutenção do ministro incompetente, a promoção a ministra da secretária de Estado – a continuidade pura e simples poderia representar, para Costa, uma desconsideração. A ver vamos, sendo certo que a indicação das equipas ministeriais completas deverá estar para breve.

Em relação ao terceiro secretário do ME, que costuma existir para as Coisas Desportivas, creio que seria, a bem da contenção orçamental tão apreciada no sector educativo, uma figura dispensável. Com fraco préstimo para tudo o resto, desaparecido sempre que algo se complica, o ministro tem encontrado na área do Desporto a sua verdadeira vocação governativa. Bem poderia ficar ele com a pasta…

Novo governo ou remodelação governamental?

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A equipa governativa escolhida por António Costa não parece, como vários políticos e comentadores têm notado, um governo verdadeiramente novo. Com a grande maioria dos anteriores ministros mantidos em funções, sugere mais com uma remodelação governamental do que a mudança que se exigiria numa nova legislatura.

Em equipa que ganha não se mexe, costuma dizer-se com alguma razão. Mas isso implica considerar que as apostas do anterior governo foram, na perspectiva socialista, ganhadoras. O que no caso da Educação e da Saúde, para referir apenas dois exemplos emblemáticos, estará longe da realidade. Contudo, a manutenção em funções de Tiago Brandão Rodrigues e de Marta Temido, respectivamente, sugere uma continuidade das políticas nestes sectores. E uma avaliação positiva do desempenho dos ministros, fiéis executores da única linha política que mostrou ser determinante e consistente nos quatro anos de governação costista: o rigor orçamental de Mário Centeno e das suas proverbiais cativações.

Centeno, aliás, mantém-se como um dos ministros das Finanças mais populares das últimas décadas. Rigoroso nas contas e controlador na despesa, o superministro das Finanças tornou-se figura incontornável do segundo governo de António Costa, e não apenas por ter entretanto ascendido à liderança do Eurogrupo. Ele restituiu ao PS, na área das finanças públicas, uma credibilidade perdida com o desvario despesista e o endividamento irresponsável que, durante o socratismo, quase levaram o país à bancarrota.

Apesar de o PS, embora reforçado eleitoralmente, continuar a não ter maioria absoluta no parlamento, o partido ficará numa posição mais confortável nesta legislatura. Enquanto até aqui necessitava dos votos favoráveis do BE e do PCP para aprovar orçamentos ou enfrentar eventuais moções de censura, agora poderá nem precisar do apoio explícito destes partidos: bastará negociar a abstenção do PSD ou do BE para conseguir, apenas com os seus próprios deputados, aprovar o que pretender. Sem amarras a qualquer acordo escrito, o PS poderá negociar caso a caso com todos os partidos, optando, em cada situação, pelo que lhe apresentar o preço mais baixo.

Finalmente, com a correlação de forças à esquerda alterada a favor do PS e um PSD enfraquecido e tendencialmente moderado, parece provável que o segundo governo de António Costa se posicione mais à direita do que o anterior. O centrão político não morreu durante o governo da geringonça, ressurgindo várias vezes nas votações parlamentares que punham em causa os consensos do regime – a mais recente permitiu aprovar alterações à lei laboral penalizadoras para os trabalhadores contratados. A revisão das carreiras da administração pública e outras “guerras” que o novo governo já deu sinais de querer comprar, deixam antever entendimentos na forja entre os dois principais partidos da situação. Irá a aproximação natural entre PS e PSD manter-se ao nível dos acordos pontuais, ou evoluirá para um relacionamento mais íntimo, profundo e duradouro?…

Brandão continua na Educação

tiagobr-alexleitaoBrandão Rodrigues é o primeiro ministro da Educação a completar um mandato de quatro anos e a ser reconduzido

Apesar de Mário Nogueira ter afirmado há dias que a manutenção do actual ministro da Educação no futuro governo seria uma afronta aos professores, aí está, consumado, o facto de que muitos já suspeitavam: António Costa quer sublinhar a vitória que, no seu entender, obteve na guerra travada contra os professores. De outra forma, como justificar a manutenção no cargo ministerial de alguém que, tanto em termos técnicos como políticos, mostrou ser uma completa nulidade?

A verdade é que isto só se torna possível pelo estatuto de quase irrelevância que a Educação tem assumido. Não há um pensamento estratégico para o sector, o que também decorre do débil modelo de desenvolvimento do país: a aposta em sectores económicos tradicionais e em mão-de-obra pouco qualificada não requer mais nem melhor educação. Ainda assim, manter os jovens na escola por mais tempo – somos dos poucos países do mundo com 12 anos de escolaridade obrigatória – ajuda a reduzir a delinquência – os professores que os aturem! – e a baixar os números do desemprego jovem.

Da equipa do actual ME sai também uma nova ministra: Alexandra Leitão confirma as expectativas daqueles que a achavam talhada para mais altos voos. A futura titular do ministério da Modernização do Estado e da Administração Pública irá voltar a enfrentar, nas novas funções, os representantes sindicais dos professores e dos restantes trabalhadores da administração pública. Na agenda estará a revisão de carreiras, um eufemismo para designar a vontade política de restringir ainda mais as progressões e a massa salarial da função pública…

Foi Leitão quem, juntamente com a secretária de Estado da Administração e Emprego Público, Fátima Fonseca, apresentou aos representantes dos docentes a proposta do Governo, que viria a ser aprovada. Eram dois anos e dez meses, justificados com a necessidade de garantir a “equidade” entre carreiras e a “sustentabilidade” financeira.

A secretária de Estado foi quem representou o Ministério da Educação em todas as reuniões negociais com os representantes dos docentes – o ministro, Tiago Brandão Rodrigues esteve apenas nos encontros mais importantes.

Agora, vai ter nas mãos a tarefa de negociar tudo o que é revisão de carreiras na função pública: professores e não só. Trata-se da primeira vez, desde 2002, que o dossier da Administração Pública sai das Finanças, ganhando um ministério autónomo.

2 anos, 9 meses e 18 dias não serão só para os professores

tempo-servicoA “solução” dos 2 anos, 9 meses e 18 dias que foi aplicada aos professores para “mitigar” os efeitos do descongelamento não foi desenhada apenas para a carreira docente – ela foi pensada para travar também as progressões noutras carreiras, limitando o aumento de despesa pública – e impedindo muitos profissionais de chegar aos escalões de topo.

Se a estratégia destas classes profissionais era atrelarem-se a qualquer compromisso que viesse a ser assumido com a numerosa classe docente, então o mais certo é serem agora atrelados, não por sua iniciativa, mas por decisão do governo, à solução restritiva que está a ser imposta aos professores.

A medida esteve para ser aprovada ontem em conselho de ministros, mas a decisão acabou por ser adiada. Não foi divulgado o motivo, mas o mais provável é que o governo pretenda esperar pelos resultados do debate parlamentar agendado para 16 de Abril, no qual tanto as propostas de alteração ao decreto-lei do governo como a iniciativa legislativa de cidadãos em prol da recuperação total do tempo de serviço estarão em votação.

Em causa está a possibilidade de estender às carreiras da função pública, em que a progressão depende do tempo de serviço, uma solução idêntica à dos professores, que lhes permitiu recuperar 2 anos e 9 meses do congelamento.

Este ponto constou de uma primeira versão do comunicado do Conselho de Ministros, hoje divulgado, em que era referido ter sido aprovado um decreto-lei “que mitiga os efeitos do congelamento ocorrido entre 2011 e 2017 nas carreiras, cargos ou categorias em que a progressão depende do decurso de determinado período de prestação de serviço”.

A solução, adiantava ainda esta versão do comunicado, “permite mitigar os efeitos dos sete anos de congelamento, sem comprometer a sustentabilidade orçamental, aplicando o racional encontrado para os educadores de infância e docentes do ensino básico e secundário”.

Entre as carreiras da função pública em que o tempo é um dos elementos relevante para a progressão estão as forças de segurança, os militares e os oficiais de justiça.

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: Sindicatos de professores mobilizados para a luta

Diz-se com frequência, e com certa razão, que em Portugal a discussão pública sobre os temas educativos não se foca naquilo que nos deveria interessar a todos: as escolas, o ensino e a aprendizagem. Em contrapartida, eternizam-se no debate público os problemas profissionais dos professores e da sua carreira. Contudo, se isto sucede, é porque tem persistido uma política educativa feita ostensivamente contra os professores…

No Fundo: Demagogia e meias-verdades contra os professores

Perante a persistência dos professores, o Governo vai ficando cada vez mais isolado: o Parlamento obriga a novas negociações, o Presidente veta o decreto já aprovado em Conselho de Ministros, os governos regionais consagram a recuperação total do tempo dos professores insulares. Mas não desiste. E mobiliza os meios ao seu dispor para tentar desmobilizar a classe e reconquistar a opinião pública – desta vez, até o ministro das Finanças, habitualmente resguardado em relação a este tipo de conflitos, engrossou as hostes governamentais no ataque às exigências dos professores…

Enfermeiros e professores, a mesma luta?…

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Apesar de as duas profissões serem bem distintas, há alguns paralelismos que se podem observar entre as recentes lutas laborais dos professores e dos enfermeiros portugueses.

São dois dos mais numerosos grupos profissionais da administração pública. Ambos assistiram nos últimos anos, embora de formas diferentes, à desvalorização remuneratória da profissão. No caso dos professores, através da criação de sucessivos entraves à progressão na carreira. Aos enfermeiros, com a recusa em dar expressão, a nível salarial, ao carácter altamente especializado que a profissão tem vindo a adquirir e ao papel fulcral que os enfermeiros hoje desempenham no serviço nacional de saúde.

Perante a falta de resultados das lutas convencionais, ambas as classes profissionais adoptaram, este ano, processos de luta mais selectivos e eficazes na defesa dos seus interesses. Os professores resolveram tirar partido da importância dos conselhos de turma na avaliação interna dos alunos, boicotando o seu funcionamento através de uma greve prolongada a este serviço. E os enfermeiros concentraram o seu esforço na paralisação dos principais blocos operatórios do país. Num e noutro caso, organizaram-se fundos de greve para que os colegas pudessem compensar financeiramente os que, em nome de todos, fazem efectivamente a greve.

No caso dos enfermeiros, o grau de determinação e mobilização estará a ser eventualmente superior, e embora a influência política seja aqui mais forte – são notórias as ligações dos principais mentores e apoiantes ao principal partido da oposição – percebe-se que o Governo não conseguirá desmobilizar o pessoal em greve com umas ameaças veladas ou ordens de serviço ilegais, como fez com os professores.

Repete-se, contudo, uma táctica já usada pelo Governo contra a greve de longa duração dos professores: deixar correr, apostar no desgaste dos grevistas, esperar que a opinião pública, influenciada pela propaganda e pela imprensa amiga, se volte lentamente contra os profissionais em greve, isolando-os e desmoralizando-os. Uma táctica que pode ter algum impacto nos professores, sempre muito sensíveis à questão da “imagem” e do “respeito” que gostam de cultivar junto da sociedade, mas que não me parece que surta grande efeito com os enfermeiros: estes sabem que contam acima de tudo consigo próprios e que o respeito que pretendem para si e para a sua profissão passa, acima de tudo, por se fazerem respeitar.

O exemplo de unidade e determinação dos enfermeiros, o ineditismo e a dimensão da operação de crowdfunding, o distanciamento das centrais sindicais, a vontade já demonstrada de prosseguir uma luta justa: tudo isto está a abrir sérias fracturas na paz podre que a geringonça instalou nas políticas sócio-laborais. O engonhanço negocial com que o Governo, durante três anos, entreteve os sindicatos, é hoje uma fórmula esgotada perante reivindicações justas e demasiadamente adiadas dos trabalhadores.

Também fica exposta a profunda hipocrisia do PS e de amplos sectores da direita perante o direito à greve, que em teoria todos aceitam, mas que na prática pretendem condicionar ou mesmo proibir sempre que os trabalhadores mostram ser capazes de fazer um uso inteligente e eficaz desta forma de luta. Querem o contra-senso absurdo de greves que não prejudiquem ninguém…

Contudo, a verdade é só uma: se uma greve está a causar prejuízos excessivos e inaceitáveis, isso não é culpa dos trabalhadores que exercem, dentro da legalidade, um direito constitucional. Revela apenas a incompetência do Governo em resolver os problemas de fundo que estão na sua base. E também, e cada vez mais, a sua cobardia política: agora sem um colégio arbitral para lhe fazer o trabalho sujo de transformar serviços mínimos em serviços máximos, o Governo hesita perante a hipótese de arcar com os custos políticos de decretar a requisição civil dos enfermeiros.

Acima disto tudo, permanece a questão essencial: se os enfermeiros fazem tanta falta nos hospitais e centros de saúde, se o seu trabalho é tão importante que a sua ausência coloca em risco a saúde e em casos extremos até a vida dos doentes, o que se espera para pagar dignamente as funções especializadas que os enfermeiros desempenham?

Ao persistir no braço de ferro com os enfermeiros, em vez de negociar seriamente com os seus representantes sindicais, o que o Governo demonstra é que prefere gastar milhões com os hospitais privados, na realização das cirurgias que agora estão a ser adiadas, do que investir esse dinheiro no sistema de saúde público e na valorização dos seus profissionais. É destas, e doutras coisas, que deveremos pedir-lhes contas no próximo acto eleitoral.