Educação do século XXI?

spoiled-child.gifSerá exagero, ou é mesmo isto que andamos a ensinar às crianças nos dias de hoje?…

  • Quanto mais alto falares, mais atenção recebes.
  • Numa discussão, os ataques pessoais vencem os argumentos.
  • Diabolizar alguém de quem discordes é correcto.
  • Mostrares-te ofendido dá-te razão.
  • Se fizeres isto tudo tornas-te famoso.

Inspirado neste tweet.

 

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Balanço possível do ano educativo

escola-inclusivaO final de cada ano costuma ser tempo de fazer o balanço do ano que termina e a antevisão do que o novo poderá trazer. Em notas breves, tentarei fazê-lo no que à Educação portuguesa diz respeito.

O ano que termina não nos traz motivos de especial optimismo em relação ao futuro próximo. Esgotado algum ímpeto reformista que a entrada do novo governo parecia anunciar, cedo se percebeu que a Educação continuaria a não fazer parte das suas prioridades políticas. Sem dinheiro para resolver problemas que anos sucessivos de desinvestimento no sector vieram avolumando e sem coragem política para definir um verdadeiro programa de reformas, o ministério joga na prestidigitação e nos jogos de palavras, produzindo vacuidades eduquesas como o Perfil do Aluno e aliciando as escolas a produzir malabarismos curriculares que tornem a aprendizagem mais fácil, divertida e bem sucedida. Ou que, pelo menos, disfarcem as disfuncionalidades do sistema e o mal-estar que alunos e professores sentem em muitos lados.

Não é ainda bem claro se em 2018/19 assistiremos à generalização da flexibilidade curricular, tal como está a ser experimentada este ano em mais de 200 escolas e agrupamentos, ou se teremos apenas uma versão aligeirada e barata da mesma. Também ainda não pode ser em definitivo afastada a hipótese do adiamento por um governo temeroso do impacto eleitoral negativo de uma medida que está longe de ser consensual no sector.

O orçamento minguado que continua a ser destinado à educação é o principal factor de bloqueio na resolução dos maiores problemas do sector: desde logo, o do envelhecimento da classe docente, que tem actualmente uma composição muito desequilibrada, com larga predominância de professores na faixa etária dos 45 aos 60 anos, sendo hoje residual a presença, nas escolas públicas portuguesas, de docentes com menos de 40 anos. Isto não significa, como é óbvio, que os docentes mais experientes sejam menos capazes. Mas é um sinal de que não se está a fazer a necessária “passagem de testemunho”, fulcral em organizações e actividades onde há uma cultura profissional a ser transmitida e renovada no contacto entre sucessivas gerações. Seriam necessárias medidas para permitir, se não a passagem imediata à aposentação dos docentes com mais de 60 anos, pelo menos a redução substancial ou integral da sua componente lectiva, de forma a possibilitar a entrada, na profissão, de jovens professores. Mas esta injecção de “sangue novo” não irá suceder, pelo que continuaremos com um elevado número de docentes desgastados, sobrecarregados de tarefas e descrentes nos desígnios reformistas dos responsáveis ministeriais.

Por outro lado, as flexibilidades curriculares e os planos de promoção do sucesso educativo irão continuar a escamotear e a servir de paliativo à falta de medidas realmente necessárias: numa lista não exaustiva podemos salientar a redução efectiva, e não meramente simbólica, do número de alunos por turma, o alargamento dos créditos horários a gerir pelas escolas, de forma a possibilitar a implementação de apoios educativos, coadjuvâncias, tutorias e pares pedagógicos nas situações em que eles se mostram necessários, o reforço dos serviços de psicologia, dos apoios especializados e das equipas de educação especial que continuam, em muitas escolas, sem capacidade de resposta a todas as solicitações.

Iremos ter em 2018 um novo concurso que muito provavelmente não resolverá as injustiças criadas na mobilidade interna em 2017, devido à exiguidade das vagas que estarão disponíveis. E veremos a DGAE a continuar a contratar juristas para se defender dos processos judiciais interpostos por professores lesados, em vez de investir em competências ao nível da informática e da boa gestão de recursos humanos.

Continuaremos também, em 2018, com problemas velhos de décadas, que nem o facto de serem com regularidade trazidos ao conhecimento público convence os responsáveis da necessidade de os enfrentar e resolver: a má qualidade das refeições escolares em muitas escolas, a indisciplina e a violência escolar que atormenta um número significativo de comunidades educativas, a gritante falta de investimento em infraestruturas e equipamentos informáticos por parte de um ministério que evoca constantemente o mantra das novas tecnologias na escola dita do século XXI. A dimensão absurda dos mega-agrupamentos, o centralismo burocrático da gestão escolar e as derivas autocráticas que à sua sombra vão florescendo com a evidente cumplicidade do ME. Nada disto é reconhecido pelos nossos governantes como problema grave, e para tudo a solução será a mesma de sempre: uns inquéritos e umas inspecções avulsas quando um ou outro caso der mais que falar.

Sobre a municipalização da educação e o ensino profissional pairam grandes incógnitas: tanto uma como o outro são, postas de lado as declarações de circunstância, interesses motivados por um objectivo muito simples: captar fundos europeus para o financiamento das construções e reabilitações da rede escolar e de uma parte substancial das turmas do ensino secundário. Mas as dúvidas e resistências, que começam nos professores e acabam nalguns autarcas parecem estar a criar dificuldades a um processo que nada trará de bom às escolas e que tarda – felizmente – em avançar. Já em relação ao ensino profissional nas escolas públicas, que sucessivos governos têm mostrado intenção de expandir, parece estar com problemas de acesso a financiamentos. Pelo que, e dado que é uma modalidade de ensino tendencialmente mais cara do que o ensino regular, é provável que se assista à descoberta, por parte do ministério, de que  afinal não é uma via assim tão interessante para os estudantes portugueses…

Finalmente, o muito ansiado descongelamento das carreiras irá trazer, a par do natural regozijo de muitos trabalhadores docentes e não docentes há longo tempo congelados, sentimentos de frustração e revolta: da forma como as coisas estão a ser preparadas, uns professores irão progredir enquanto outros não. E o 4º e o 6º escalões, onde se concentra maior número de docentes, transformar-se-ão em verdadeiros funis que, comandados pelas Finanças, poderão adiar indefinidamente a progressão de milhares de professores. A busca de excelentes avaliações para facilitar as mudanças de escalão ameaça degradar o trabalho docente, trazendo de regresso às escolas o ambiente de rivalidades e desconfianças criado pela ADD de Lurdes Rodrigues: voltarão as corridas aos créditos, o negócio das formações pagas, o graxismo aos avaliadores que já conhecemos de outros tempos.

Não há de facto motivos para optimismos nas escolas portuguesas, na entrada de 2018.

Previsões falhadas de 2017

Quando 2017 chega ao fim, é curioso e instrutivo relembrar alguns vaticínios que, no plano político, foram feitos para o ano que agora termina.

Derrocada financeira, novo resgate, fracasso do modelo de recuperação económica assente no estímulo ao consumo e na devolução de rendimentos foram algumas das “inevitabilidades” dadas como garantidas.

Afinal de contas, Mário Centeno, de quem se dizia que sairia do governo em Janeiro de 2017, não só se tornou um dos ministros mais prestigiados e populares como irá tomar posse, um ano depois, como presidente do Eurogrupo.

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Bootcamps, a universidade no século XXI

bootcamp.jpgQuando se ouvem as novas teorias acerca da escola que é uma seca, que transmite conhecimentos inúteis, que usa pedagogias ultrapassadas e que precisa de se reinventar aligeirando currículos, simplificando as matérias e garantindo, a todo o custo, o sucesso de todos os alunos, não se pense que a Universidade, de onde  vêm a maioria dos mentores destas novas ideias, ficará imune à anunciada revolução educativa.

A nova realidade, segundo os gurus educativos, é que a geração do milénio quer tudo muito depressa e se aborrece de morte se tiver de andar na universidade a estudar durante todo o tempo necessário para concluir um curso superior normal. Além disso, consta que são empreendedores cheios de ideias e competitivos, que querem começar rapidamente a empreender e a inovar. E receiam perder o entusiasmo se ficarem demasiado tempo parados ou a marcar passo no entediante ensino superior tradicional.

Especialmente para estes jovens apressados, chegaram os Bootcamps, cursos intensivos de aproximadamente três meses em que se aprendem os conhecimentos fundamentais sobre determinada temática, procurando ir ao encontro das tendências e das necessidades do mercado laboral:

[Os Bootcamps] eliminam os conteúdos teóricos desnecessários das carreiras universitárias, resumem os conteúdos práticos e transmitem-nos de tal forma que possam compreender-se em poucas semanas. Num Bootcamp ensinam-se essencialmente habilidades práticas que permitem ao estudante ser mais competitivo.

Estes cursos surgiram inicialmente associados às novas tecnologias e à programação, mas têm vindo a alargar-se a outras áreas, como a gestão ou o empreendedorismo. E até prestigiadas universidades como o MIT se renderam à nova tendência.

As vantagens atribuídas a esta modalidade formativa são praticamente a antítese do que nos habituámos a associar ao ensino universitário tradicional: cursos de 3 a 5 anos, um elevado número de “cadeiras”, uma formação reflexiva e abrangente e, claro, a própria vivência universitária, com ritmos, rotinas, calendários e rituais próprios que deixam a sua marca indelével nos estudantes que por ela passam.

Nestes cursos de curta duração, quase tudo isso desaparece: a formação adquire um carácter utilitário e instrumental que parece contradizer a essência do próprio ensino universitário. As matérias são simplificadas e condensadas, resumidas àquilo que supostamente interessa a estes alunos inquietos e sem tempo a perder.

Um notório sinal dos tempos, quando o conhecimento teórico tende a ser desvalorizado sempre que não tem uma aplicação prática imediata. E em que as escolas superiores são convidadas a procurar financiamentos adaptando a sua oferta educativa às necessidades das empresas e às solicitações do mercado da educação.

Os 12 países mais populosos

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A animação mostra-nos cerca de cem anos de evolução demográfica dos países mais populosos do mundo, desde meados do século passado, até ao ano 2060.

As projecções mostram-nos algumas tendências já hoje bem notórias, a par de outras menos evidentes. Repare-se como:

  • Dentro de poucos anos a Índia suplantará a China, tornando-se o país com mais habitantes;
  • África será o continente com maior crescimento demográfico, com quatro países a integrar, em 2060, esta lista de doze, e a Nigéria a galgar posições, acabando a destronar os Estados Unidos do terceiro lugar;
  • Os maiores países muçulmanos continuarão a crescer em população, com destaque para a Indonésia, o Paquistão e o Bangladesh;
  • Não haverá qualquer país europeu entre os mais populosos do mundo.

Desinvestimento em educação

inteligencia

Há dois anos atrás, quando publiquei este boneco, fi-lo porque ele exprimia uma perplexidade que, com o tempo, se foi desvanecendo.

Hoje não me restam muitas dúvidas de que o objectivo de tanto investimento em novas tecnologias é mesmo o de dispensar, o mais possível, ter gente inteligente nas diversas actividades de que depende a vida contemporânea.

Um pequena minoria, não mais de 10% da população, tornar-se-á suficiente, a breve prazo, para planear, projectar, decidir e supervisionar o trabalho das máquinas – e dos humanos que ainda estiverem ocupados em tarefas subalternas que os computadores e os robôs não consigam fazer.

Os outros, não sabendo usar as mãos para fazer nem o cérebro para pensar, estarão dependentes, em tudo, dos donos das máquinas.

Nesta sociedade, a escola dita do século XXI, com tabletes electrónicas em vez de ardósias, fará exactamente o mesmo que as suas antecessoras, que é reproduzir as desigualdades tidas por naturais e inevitáveis: de um lado, as elites que servirão os proprietários das novas tecnologias, do outro, a multidão de cidadãos ignorantes e consumidores compulsivos…

 

Os miúdos estão mais inteligentes?

bebe-telemovelNão aprenderam como se joga ao peão e ao berlinde, ou que um joelho esfolado não é o fim do mundo. Já não há sapatos esfolados de subir o escorrega ao contrário ou roupa com cor de relva do último trambolhão. Jogar à bola só por obrigação, ou se a consola avariar. São agora adolescentes que cresceram em bolhas individuais com um ecrã à frente, sem noção que lá fora existe um mundo para descobrir. Interagir offline tornou-se coisa do passado e o fator humano desceu a píncaros. Só o umbigo interessa. E esse tem perfil dedicado no Instagram!

Rogério Júnior reflecte sobre os tempos que mudaram e como as mudanças, sobretudo as tecnológicas, transformaram a nossa maneira de viver. Os miúdos já não brincam na rua nem se juntam uns com os outros sem primeiro combinarem o encontro através de mensagens nas redes sociais. Mas os pais também já não se orientam num local desconhecido sem o GPS, não memorizam números de telefone nem uma grande quantidade de coisas úteis, como antigamente fazíamos, mas entretanto nos habituámos a procurar no Google ou a guardar no telemóvel.

A superabundância de informação, permanentemente disponível, o domínio das novas tecnologias e a ausência de outros estímulos e interesses tendem a transformar os miúdos em verdadeiras esponjas digitais, copiando o exemplo dos adultos que também vêm de telemóvel em riste e absorvendo, em doses cavalares, toda a informação que lhes interessa. Mas será que esta estimulação cada vez mais precoce e intensa dos neurónios estará a fazer dos miúdos mais inteligentes?

O autor que venho a citar admite que sim, embora ressalvando: “mas menos espertos“. A bolha digital e os amigos virtuais substituem em grande parte o mundo real e os amigos verdadeiros, fisicamente presentes quando são necessários. Têm por isso menos competências sociais e são muito menos “desenrascados”. Uma qualidade tradicionalmente reconhecida aos Portugueses está a perder-se nas novas gerações que se desorientam se ficam sem rede ou sem bateria no telemóvel, que não sabem cozer um ovo, apertar um parafuso ou, um dia destes, substituir uma lâmpada, sem irem ver primeiro um tutorial na internet.