Bootcamps, a universidade no século XXI

bootcamp.jpgQuando se ouvem as novas teorias acerca da escola que é uma seca, que transmite conhecimentos inúteis, que usa pedagogias ultrapassadas e que precisa de se reinventar aligeirando currículos, simplificando as matérias e garantindo, a todo o custo, o sucesso de todos os alunos, não se pense que a Universidade, de onde  vêm a maioria dos mentores destas novas ideias, ficará imune à anunciada revolução educativa.

A nova realidade, segundo os gurus educativos, é que a geração do milénio quer tudo muito depressa e se aborrece de morte se tiver de andar na universidade a estudar durante todo o tempo necessário para concluir um curso superior normal. Além disso, consta que são empreendedores cheios de ideias e competitivos, que querem começar rapidamente a empreender e a inovar. E receiam perder o entusiasmo se ficarem demasiado tempo parados ou a marcar passo no entediante ensino superior tradicional.

Especialmente para estes jovens apressados, chegaram os Bootcamps, cursos intensivos de aproximadamente três meses em que se aprendem os conhecimentos fundamentais sobre determinada temática, procurando ir ao encontro das tendências e das necessidades do mercado laboral:

[Os Bootcamps] eliminam os conteúdos teóricos desnecessários das carreiras universitárias, resumem os conteúdos práticos e transmitem-nos de tal forma que possam compreender-se em poucas semanas. Num Bootcamp ensinam-se essencialmente habilidades práticas que permitem ao estudante ser mais competitivo.

Estes cursos surgiram inicialmente associados às novas tecnologias e à programação, mas têm vindo a alargar-se a outras áreas, como a gestão ou o empreendedorismo. E até prestigiadas universidades como o MIT se renderam à nova tendência.

As vantagens atribuídas a esta modalidade formativa são praticamente a antítese do que nos habituámos a associar ao ensino universitário tradicional: cursos de 3 a 5 anos, um elevado número de “cadeiras”, uma formação reflexiva e abrangente e, claro, a própria vivência universitária, com ritmos, rotinas, calendários e rituais próprios que deixam a sua marca indelével nos estudantes que por ela passam.

Nestes cursos de curta duração, quase tudo isso desaparece: a formação adquire um carácter utilitário e instrumental que parece contradizer a essência do próprio ensino universitário. As matérias são simplificadas e condensadas, resumidas àquilo que supostamente interessa a estes alunos inquietos e sem tempo a perder.

Um notório sinal dos tempos, quando o conhecimento teórico tende a ser desvalorizado sempre que não tem uma aplicação prática imediata. E em que as escolas superiores são convidadas a procurar financiamentos adaptando a sua oferta educativa às necessidades das empresas e às solicitações do mercado da educação.

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Os 12 países mais populosos

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A animação mostra-nos cerca de cem anos de evolução demográfica dos países mais populosos do mundo, desde meados do século passado, até ao ano 2060.

As projecções mostram-nos algumas tendências já hoje bem notórias, a par de outras menos evidentes. Repare-se como:

  • Dentro de poucos anos a Índia suplantará a China, tornando-se o país com mais habitantes;
  • África será o continente com maior crescimento demográfico, com quatro países a integrar, em 2060, esta lista de doze, e a Nigéria a galgar posições, acabando a destronar os Estados Unidos do terceiro lugar;
  • Os maiores países muçulmanos continuarão a crescer em população, com destaque para a Indonésia, o Paquistão e o Bangladesh;
  • Não haverá qualquer país europeu entre os mais populosos do mundo.

Desinvestimento em educação

inteligencia

Há dois anos atrás, quando publiquei este boneco, fi-lo porque ele exprimia uma perplexidade que, com o tempo, se foi desvanecendo.

Hoje não me restam muitas dúvidas de que o objectivo de tanto investimento em novas tecnologias é mesmo o de dispensar, o mais possível, ter gente inteligente nas diversas actividades de que depende a vida contemporânea.

Um pequena minoria, não mais de 10% da população, tornar-se-á suficiente, a breve prazo, para planear, projectar, decidir e supervisionar o trabalho das máquinas – e dos humanos que ainda estiverem ocupados em tarefas subalternas que os computadores e os robôs não consigam fazer.

Os outros, não sabendo usar as mãos para fazer nem o cérebro para pensar, estarão dependentes, em tudo, dos donos das máquinas.

Nesta sociedade, a escola dita do século XXI, com tabletes electrónicas em vez de ardósias, fará exactamente o mesmo que as suas antecessoras, que é reproduzir as desigualdades tidas por naturais e inevitáveis: de um lado, as elites que servirão os proprietários das novas tecnologias, do outro, a multidão de cidadãos ignorantes e consumidores compulsivos…

 

Os miúdos estão mais inteligentes?

bebe-telemovelNão aprenderam como se joga ao peão e ao berlinde, ou que um joelho esfolado não é o fim do mundo. Já não há sapatos esfolados de subir o escorrega ao contrário ou roupa com cor de relva do último trambolhão. Jogar à bola só por obrigação, ou se a consola avariar. São agora adolescentes que cresceram em bolhas individuais com um ecrã à frente, sem noção que lá fora existe um mundo para descobrir. Interagir offline tornou-se coisa do passado e o fator humano desceu a píncaros. Só o umbigo interessa. E esse tem perfil dedicado no Instagram!

Rogério Júnior reflecte sobre os tempos que mudaram e como as mudanças, sobretudo as tecnológicas, transformaram a nossa maneira de viver. Os miúdos já não brincam na rua nem se juntam uns com os outros sem primeiro combinarem o encontro através de mensagens nas redes sociais. Mas os pais também já não se orientam num local desconhecido sem o GPS, não memorizam números de telefone nem uma grande quantidade de coisas úteis, como antigamente fazíamos, mas entretanto nos habituámos a procurar no Google ou a guardar no telemóvel.

A superabundância de informação, permanentemente disponível, o domínio das novas tecnologias e a ausência de outros estímulos e interesses tendem a transformar os miúdos em verdadeiras esponjas digitais, copiando o exemplo dos adultos que também vêm de telemóvel em riste e absorvendo, em doses cavalares, toda a informação que lhes interessa. Mas será que esta estimulação cada vez mais precoce e intensa dos neurónios estará a fazer dos miúdos mais inteligentes?

O autor que venho a citar admite que sim, embora ressalvando: “mas menos espertos“. A bolha digital e os amigos virtuais substituem em grande parte o mundo real e os amigos verdadeiros, fisicamente presentes quando são necessários. Têm por isso menos competências sociais e são muito menos “desenrascados”. Uma qualidade tradicionalmente reconhecida aos Portugueses está a perder-se nas novas gerações que se desorientam se ficam sem rede ou sem bateria no telemóvel, que não sabem cozer um ovo, apertar um parafuso ou, um dia destes, substituir uma lâmpada, sem irem ver primeiro um tutorial na internet.

Como serão os exames no futuro?

exame[1]No arranque de mais uma época de exames nacionais, o Público ouviu alguns especialistas sobre o presente e o futuro destas provas de avaliação externa. E há, logo à partida, uma ideia com que todos parecem estar de acordo:

“Ainda não podemos viver sem eles”, comenta Domingos Fernandes. Ainda que a investigação mostre que “os exames tendem a ter mais desvantagens do que vantagens”, desde logo o fenómeno de “afunilamento do currículo”, ou seja, a tendência para que professores e alunos se centrem nas matérias que sabem de antemão que vão sair nos exames, as provas nacionais têm funções de que não podem ser dispensadas. “Têm a vantagem de tenderam a moderar a avaliação interna”, diz Fernandes. E são ainda determinantes para certificar a conclusão do ensino secundário e permitir o acesso ao ensino superior. “Não vislumbro um outro [modelo] que permita a avaliação de conhecimentos e competências de toda a população estudantil com as garantias de equidade que fornece o exame”, sublinha, por isso, o presidente do Conselho de Escolas, José Eduardo Lemos.

Dizem os entendidos que as provas de exame deverão acentuar, no futuro, tendências que já hoje são visíveis: um foco maior na resolução de problemas e na aplicação dos conhecimentos adquiridos, em vez do apelo à memorização; questões de resposta aberta onde se avalie, sobretudo, a forma como o aluno justifica a resposta que deu; exames que avaliem conjuntamente competências adquiridas em mais do que uma disciplina, como já se ensaiou este ano com as provas de aferição.

A flexibilização pedagógica, com a qual o governo quer entregar às escolas a gestão de 25% do currículo apresenta, por sua vez, novos desafios. Há quem pense que os exames terão de, futuramente, reflectir as novas formas de aprender que a interdisciplinaridade ou os trabalhos de projecto irão propiciar. Realisticamente, há também quem veja a questão ao contrário: com o actual modelo de exames, centrado num número restrito de disciplinas e nos conteúdos definidos a nível nacional, que o ME já anunciou não querer alterar, muitas escolas terão a tentação de usar a sua autonomia, não para fazer flores a nível pedagógico, mas sim para reforçar ainda mais as disciplinas sujeitas a exame final.

Coligação do caos

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O cenário político temido por Theresa May e por todos os apreciadores das maiorias absolutas concretizou-se no Reino Unido.

Ou, em alternativa, teremos uma versão britânica da geringonça?

Para já Theresa May, cujo partido, embora tenha perdido a maioria absoluta, continua a ser o mais votado, diz que não se demite. Mas num cenário em que os Conservadores não encontrem apoios parlamentares que viabilizem um governo estável, a solução alternativa poderá passar por um governo trabalhista apoiado pelos pequenos e médios partidos que compõem o Parlamento britânico.

Jeremy Corbyn, o líder do Partido Trabalhista a quem quase todos vaticinavam a morte política nas eleições de ontem, pode vir a ser a peça-chave para resolver o imbróglio político criado pelas contradições em torno do brexit e agora por este hung parliament ditado pelos resultados eleitorais.

Há greve ou não há greve?

manif.JPGO Correio da Manhã antecipa as negociações de amanhã, entre os sindicatos de professores e o ME, e conclui: o mais certo é a greve aos exames marcados para o dia 21 de Junho não se realizar.

As principais associações sindicais de professores elegem a questão do horário de trabalho como tema prioritário para o qual exigem respostas do Ministério da Educação na reunião de amanhã, de modo a cancelarem a greve do dia 21, data em que se realizam três exames nacionais (Física e Química A, Geografia A e História da Cultura e das Artes).

“A determinação do horário de trabalho do próximo ano letivo é o aspeto mais urgente. É preciso que as componentes letiva e não letiva fiquem claramente definidas”, disse ao CM João Dias da Silva, secretário-geral da Federação Nacional de Educação. Já quanto às questões do descongelamento das carreiras, regime especial de aposentação e vinculação docente, a FNE admite que a urgência é menor: “Sobre as outras matérias é preciso que da reunião saia uma orientação sobre o sentido em que vamos.”

Mário Nogueira, secretário-geral da Federação Nacional de Professores (Fenprof), também considera a questão dos horários “a mais imediata, por ter impacto já em setembro”. Os outros temas “são de negociação mais longa”, diz, exigindo ao Governo compromissos.

Parece-me verosímil o cenário descrito na peça: ninguém estará à espera de decisões imediatas sobre descongelamentos, progressões e aposentações, matérias que em grande medida transcendem a capacidade negocial do ME, porque têm impacto em toda a administração do Estado e, sobretudo, nas finanças públicas. Já as matérias relacionadas com o lançamento do próximo ano lectivo e que deverão ter impacto favorável na organização dos horários e distribuição de serviço, esses são temas urgentes que devem constituir prioridade negocial, pelo que uma resposta insatisfatória às principais pretensões dos professores deve ser motivo para manter a greve já agendada.

Quanto ao resto, acho que nem as lutas de âmbito sindical podem ser feitas na base do tudo ou nada, nem os professores têm, neste momento, especial disposição ou vontade de encetar um período de greves de consequências pouco previsíveis.

Ao contrário dos que seguem o caminho, sempre popular, da diabolização fácil dos sindicatos ou dos dirigentes sindicais, não me parece que o factor determinante, na marcação de uma greve, ou até de uma manifestação destinada a ter impacto mediático, seja a vontade dos líderes ou das forças sociais ou políticas que os podem influenciar.

Pelo contrário, o que determina o êxito – que nunca é garantido! – de uma luta laboral, é acima de tudo a determinação, a vontade e o espírito de sacrifício dos que a realizam. E o sentimento dominante da grande maioria dos professores é, nestes tempos de uma geringonça que até se está a sair melhor do que as previsões iniciais, de expectativa, se calhar de muito moderado optimismo, em relação ao que novos e melhores tempos lhes possam trazer.

Estamos muito longe, felizmente, de viver problemas como os de alguns professores angolanos, com longos meses de salários em atraso, desconsiderados, demitidos sem justa causa e revoltados contra a prepotência das autoridades. Estes sim, fazem greve, e não é preciso vir nenhum sindicato convencê-los…

Professores da província angolana do Bengo iniciaram greve por tempo indeterminado