Automatizar a escola

Captura de ecrã 2020-06-13, às 23.42.08A pandemia fez menos pela substituição de professores por máquinas do que inicialmente se julgava. Apesar de apressadas declarações que pareciam incluídas numa corrida entre países para ver quem se antecipava no sucesso do ensino por internet, a realidade impôs-se: ainda estamos no tempo do ensino presencial com humanos como professores. Mas os pedagogos humanistas não se devem iludir: quem constrói os orçamentos dos estados não cederá na redução dos alunos por turma nem na valorização da carreira dos numerosos professores. A educação, também porque não tem resultados imediatos, é um investimento que os contraria; a dor de cabeça nesse domínio é a crescente e irreversível falta de professores. E é também nesse sentido que a atracção pelas máquinas pode ser uma fatalidade que não ouvirá quem sabe que a aula é presencial e uma simbiose do conhecimento com as emoções.

Dito isto, interrogamo-nos: os professores vão ser substituídos por máquinas? E quando? É imprevisível num tempo veloz, incerto e de fenómenos invisíveis. E não confundamos os efeitos, e as dimensões, das políticas: os 400 milhões de euros que Portugal vai receber para o digital na educação destinam-se a assegurar o que existe e a contemplar com um computador os mais pobres; é um digital que consumirá produtos das indústrias europeias de computadores e de serviços digitais. 

Nas voltas que vou dando pela blogosfera docente, nem sempre com a exacta regularidade que desejaria, é sempre com gosto que leio as prosas inspiradas e reflexivas do Paulo Prudêncio. O blogue Correntes é, tanto quanto sei, o mais antigo blogue sobre educação em actividade regular. E a ser diariamente alimentado com reflexões que, sendo actuais e oportunas, procuram ir além da espuma dos dias, convidando-nos a pensar sobre o presente e o futuro da Educação.

Aqui, Paulo Prudêncio escreve sobre uma tendência e um propósito que já pairavam por aí, aos quais a pandemia veio dar súbito fôlego e sentido de oportunidade: o de substituir professores de carne e osso por máquinas de aprendizagem automática. E o conhecimento, a inteligência e a sensibilidade humanas por sensores e algoritmos, capazes de monitorizar os alunos e de ajustar o processo cognitivo às suas necessidades.

Claro que é uma eficácia meramente economicista que dita esta opção por um ensino que se pretende destinar às massas, mas que as elites nunca quererão para os seus filhos. Professores levam tempo a formar e ficam caros, nem tanto pelo que individualmente recebem, mas por serem a categoria mais numerosa de trabalhadores intelectuais. E como se isso não bastasse, tendem a adquirir algo que, nos tempos que correm, é cada vez mais visto como um defeito: insistem em pensar pela sua cabeça. E, pior ainda, tentam transmitir esse detestável hábito aos seus alunos…

Não é preciso imaginar um futuro muito distante para antever uma sociedade em que os computadores e os robôs, comandados pela inteligência artificial, farão quase todo o trabalho produtivo, além de substituírem os humanos em muitas profissões hoje tidas como altamente qualificadas. Neste mundo em que não haverá trabalho – pelo menos trabalho socialmente produtivo – para a maior parte da população, uma educação à antiga será vista como um desperdício. Em vez disso, uma escolarização barata e massificada, baseada nas máquinas e nos algoritmos, cumprirá as necessidades.

Ainda assim, creio que a escola com professores, espaços e actividades diversificadas, aprendizagens complexas e enriquecedoras,  nunca desaparecerá. Mas poderá voltar a ser, como nos primórdios da educação, reservada às elites. Os outros ficarão entregues às escolas digitais, ocupados num infinito scroll, deslizando os dedos num ecrã enquanto vêem a vida, em alta resolução, a passar a sua frente. Ao mesmo tempo que abanam o capacete… da realidade virtual!

Congela ou não congela?

alex-leitaoEsta segunda-feira, a ministra da Administação Pública disse, em entrevista à Antena 1, que não poda excluir o congelamento das carreiras. Já na quarta-feira, em declarações à TSF, Alexandra Leitão mudou o discurso.

Em entrevista à TSF, a ministra da Administração Pública, Alexandra Leitão, alinhou-se ao discurso do primeiro-ministro de que a recuperação económica não será feita através de uma linha de austeridade. “O Estado tem de pilotar a retoma, com investimento público e com a recusa de políticas de austeridade, que retirem rendimentos às pessoas”, disse a ministra.

Para Alexandra Leitão, cabe ao Estado “um papel pro-activo e de contra-ciclo”. Nesse sentido, a ministra afirmou que “não é retirando rendimentos à economia – seja a particulares ou a empresas – que vamos conseguir ter esta intervenção contra-cíclica”.

Na entrevista, a ministra foi confrontada com a contradição entra a defesa desta estratégia e a possibilidade de congelar os rendimentos e as carreiras dos milhares de funcionários públicos. “O que digo é que não é o caminho que vamos seguir“, respondeu Alexandra Leitão, admitindo que “os próximos meses serão cruciais” para a definição das medidas a tomar para o relançamento da economia.

“Sempre numa lógica de responsabilidade, temos de assumir que podemos ter de fazer ajustes. Mas, neste momento, não vislumbramos que esses ajustes passem por cortes ou congelamentos”, explicou.

Em teoria, o pensamento de Alexandra Leitão está correcto: responder à crise com cortes de rendimentos e endividamento significa agravar a situação de quem já sente dificuldades e dificultar a recuperação da economia. O que se espera do Estado, quando a economia afunda, é uma política que contrarie a espiral recessiva, relançando o consumo, a produção e o investimento.

O problema das políticas contra-cíclicas é que custam muito dinheiro. Um sobreendividado e sem moeda própria, como é o caso de Portugal, não tem condições para as aplicar sem ajuda externa. Pelo que os ziguezagues de Alexandra Leitão, uma ministra conhecida pela clareza e objectividade do discurso, devem entender-se neste contexto: o Governo está dependente e expectante em relação à dimensão do cheque europeu para a retoma económica pós-pandemia. Só depois poderá decidir o grau de generosidade e ambição que aplicará nas ajudas económicas e na configuração da despesa pública.

Sendo importante estarmos atentos aos sinais do que possa estar a vir por aí, não me parece sensato interiorizar, como vou vendo, a ideia de que vem lá a crise e que novos congelamentos das carreiras serão inevitáveis. É certo que a redução estrutural da despesa pública será sempre uma tentação dos governantes, e uma das formas mais eficazes de o fazer, apesar dos custos sociais e políticos que acarreta, é através de cortes na massa salarial da função pública.

Esse caminho é, no entanto, inaceitável, e não podem ser dados sinais de que os visados o aceitarão, seja de que forma for, vergados pelo peso das supostas inevitabilidades.

Mesmo no pico da pandemia, os trabalhadores do Estado continuaram a garantir o funcionamento de todos os serviços públicos essenciais, e não apenas os da área da saúde. Os professores, concretamente, mostraram uma enorme capacidade de adaptação e superação, enfrentando o desafio da educação a distância. Não quero crer que o reconhecimento público desse esforço se traduza, num futuro próximo, numa nova tentativa de cortar salários, congelar carreiras ou adiar ainda mais as merecidas progressões.

Como será o novo ano lectivo?

duvidaNão há decisões, mas ninguém acredita ser possível que todos os alunos regressem às aulas em setembro. Por isso, terão de alternar: uns na escola e outros em casa. E os programas têm de ser reduzidos

“Essa é a pergunta de um milhão de euros.” João Dias da Silva, líder da FNE, graceja quando a pergunta é o que podemos esperar do próximo ano letivo em tempo de coronavírus. Mas a sua resposta espelha bem o sentimento geral no sector da educação, ministério incluído. Ao Observador, o ministro Tiago Brandão Rodrigues promete um ano de “recuperação e de soluções inovadoras” — algo que deverá assentar na promessa do primeiro-ministro de ter todos os alunos munidos de equipamento informático —, e garante ter “vários cenários em cima da mesa”. Para além disso, está atento às experiências que se vão fazendo noutros países e que podem ser importadas. As decisões, explica o governante, serão tomadas no tempo devido, com base também na evolução da pandemia.

Por agora, setembro está a 4 meses de distância e não há prognósticos sobre a evolução da pandemia, o que dificulta a tomada de decisões. Se andássemos essas mesmas 16 semanas para trás encontrávamos, em janeiro, um Portugal pouco preocupado com a chegada do novo coronavírus. “Se em fevereiro, aparecesse um aluno de máscara numa turma era alvo de processo disciplinar. Agora, é o contrário. Se não trouxer a máscara, arranja problemas. O mundo mudou muito”, diz o presidente da associação de diretores de escolas públicas (ANDAEP), Filinto Lima, ilustrando assim a imprevisibilidade com que passámos a viver.

O que ninguém acredita é que, sem uma vacina, o próximo ano letivo possa recomeçar com todos os alunos nas salas de aula. “Se e quando recomeçar o ano letivo…”, ironiza o presidente da Confap (confederação de associação de pais), “dificilmente” o regresso será para todos. “Veja-se a confusão que é para regressar uma minoria de alunos. Em setembro, regressam todos? Não estou a ver como”, reforça Jorge Ascenção.

À medida que se ultimam os preparativos para o regresso das aulas presenciais do 11.º e do 12.º ano, vai ficando mais clara a intenção do Governo que António Costa acabou por ontem por admitir: estas seis semanas de abertura parcial e controlada das escolas irão servir para testar o funcionamento em situação de pandemia. O objectivo é colher ensinamentos para a preparação de um novo ano lectivo que, já se percebeu, também não será um ano normal. Sem uma vacina ou tratamento eficaz, o covid-19 continua a ser uma ameaça à vida colectiva, impondo distanciamento físico e cuidados permanentes de higiene e desinfecção dos corpos e dos espaços que podem ser focos de transmissão do vírus.

Iremos ter escola em dias alternados para os alunos e/ou professores, de forma a tornar menos densa a ocupação das escolas? A aposta em métodos e técnicas de aprendizagem à distância, desta vez mais planeada e estruturada, terá vindo para ficar, pelo menos nos tempos mais próximos? E como conciliar as exigências do ensino presencial com as do E@D, quando se começar a pedir aos professores uma resposta simultânea em ambas as frentes?

Há ainda muitas perguntas sem resposta numa matéria cujos cenários mais prováveis  o Observador tentou ontem desvendar. Incapaz de vislumbrar soluções fáceis, muito menos certezas, há ainda assim duas constatações que me parecem evidentes.

Do ponto de vista dos alunos, o confinamento social está a aumentar as desigualdades no acesso à educação, penalizando fortemente os alunos com menos apoio familiar, maiores carências económicas e necessidades educativas especiais. Qualquer modelo de ensino que venha a ser delineado para o próximo ano terá de ter em conta estas situações, sob pena de vir a agravar substancialmente o fosso educativo e de pôr em causa o direito à educação de um número crescente de crianças e jovens.

Do lado dos professores, não é possível nem razoável continuar a conceber mudanças educativas assentes na ideia de que é possível exigir sempre mais e mais trabalho aos professores. O modelo de ensino online que em poucos dias se conseguiu improvisar, com relativo sucesso, em Portugal e noutros países dependeu, quase em exclusivo, do voluntarismo da classe docente. Num esforço em muitos casos sobre-humano, os professores reinventaram a escola, a relação pedagógica e a sua profissão, para conseguirem continuar a comunicar com os alunos, a motivá-los e a orientar as suas aprendizagens. Mas ninguém consegue aguentar, indefinidamente, o ritmo infernal em que muitos estão a viver. Não é possível, quando se tenta desenhar um regresso a alguma normalidade, pensar em aumentar ainda mais, e para além de qualquer razoabilidade, o muito que já se exige aos professores.

Observar o negócio da Educação

edu-businessNo âmbito da iniciativa “Hoje Conversas. Amanhã és Pro”, tendo o tema da Educação como enquadramento, o Observador, numa parceira com o Santander, continua a reunir convidados de destaque, de várias áreas do mundo da Educação, para conversar sobre os diversos temas que nos assolam nesta nova fase na qual vivemos.

A segunda conversa virtual realiza-se já no próximo dia 5 de Maio, às 18h30, e será transmitida em direto aqui, no site do Observador, bem como nas redes sociais do site e do Santander.
A jornalista Laurinda Alves vai conversar sobre o tema A melhor escola do Mundo é a que não deixa ninguém para trás com quatro convidados de excelência,  que a partir de suas casas, vão partilhar as suas experiências e opiniões sobre o tema.

Dando continuidade ao modelo recentemente inaugurado vão estar connosco Pedro Almeida, CEO da Teach for Portugal, Maribel dos Santos Miranda-Pinto, Professora Universitária, Francisco Heitor, Director de Marketing Grupo Leya e Marcos Ribeiro, Director Santander Universidades.

A escola que não deixa nenhuma criança para trás é um velho slogan que tem sido adoptado à esquerda e à direita para afirmar a superioridade de determinadas políticas ou projectos educativos. Surge agora, em mais uma daquelas iniciativas que pretendem determinar o futuro da Educação – ou, mais prosaicamente, influenciar políticas educativas – excluindo da conversa os verdadeiros especialistas do sector: os professores dos vários níveis de ensino.

Na verdade, ninguém sabe como será exactamente a escola do futuro. Mas não lhe auguro grande sucesso se, como já se vai conseguindo nalguns lados, a conseguirem subjugar aos interesses dos bancos, dos grupos editoriais e dos empresários com olho para o negócio educativo. Esta é a escola do empobrecimento curricular, onde o “empreendedorismo”, a “literacia financeira”, as aprendizagens automáticas e padronizadas tomam o lugar do pensamento crítico e reflexivo e do conhecimento disciplinar sólido e estruturado. Uma escola low cost que, para ir ao passo de todos, levará todos a marcar passo.

Suma hipocrisia, esta é a escola do futuro que nem banqueiros nem jornalistas observadores quererão para preparar o futuro dos seus filhos.

Revolução no ensino?

rev-ensino.jpgEm paralelo com o sucesso da Telescola e as estatísticas que apontam para um total de 50 mil alunos sem computadores, as plataformas de ensino virtuais multiplicaram, num único mês, o número de utilizadores que demorou mais de uma década a convencer. O ensino mudou e o Governo promete oferecer computadores para que a mudança não pare. Google, Leya, Microsoft, e Porto Editora disputam um renovado e chorudo filão.

A Exame Informática chama-lhe uma revolução no ensino: a verdade é que as tecnologias educativas que a pandemia colocou em lugar de destaque já por cá andam, quase todas, há mais de uma década. Pois as estrelas do ensino a distância não são os gadgets com que se andaram por aí a equipar, em escolas seleccionadas, algumas montras tecnológicas a que chamaram “salas de aula do futuro”.

No domínio do hardware, a “revolução” está a ser feita com equipamentos que quase todos têm ou podem ter em casa, como computadores, tablets, webcams ou, à falta de melhor, um simples smartphone. Quanto ao software, o destaque vai sobretudo para as plataformas de aprendizagem online, onde se podem reunir não só recursos pedagógicos mas também as aplicações que permitem a interacção entre alunos e professores, a partilha de ficheiros, a realização e a avaliação de trabalhos dos alunos.

Não se trata, portanto, de uma revolução tecnológica. O que assume contornos que alguns tendem a considerar revolucionários é o recurso intensivo, forçado pelas actuais contingências, a ferramentas que há um ou dois meses atrás eram largamente ignoradas por muitos professores, ou usadas de forma ocasional. A grande questão é saber até que ponto estas mudanças súbitas, ditadas pela necessidade, irão efectivamente impor um novo paradigma educativo.

Presentemente, e com o Zoom a dominar claramente no campo das vídeo-aulas, assistimos à luta de titãs entre a Microsoft, que à boleia do Teams pretende promover o Office 365, e a Google, que ao seu Classroom agrega uma série de aplicações com potencialidades para o sector da Educação. A nível doméstico, o Grupo Leya com a Aula Digital e a Porto Editora através da Escola Virtual disputam também o mercado local das plataformas digitais. E vêem crescer de dia para dia a sua base de utilizadores.

Por detrás desta rivalidade comercial podem estar negócios de milhões: o sector educativo é dos poucos que o capitalismo global ainda não conseguiu abocanhar, embora vontade não lhe falte. E apesar de o futuro da educação ser ainda, em larga medida, uma incógnita, sabe-se que existem há muito tempo planos empresariais para este sector, que nem são muito difíceis de imaginar: conteúdos formatados e padronizados, que permitam uma aprendizagem fácil e tanto quanto possível automatizada. Fornecidos através de aparelhos e aplicações capazes de substituir os professores e de se adaptar ao contexto de cada aluno, personalizando – ou criando essa ilusão – o seu processo de aprendizagem.

Contudo, a imersão forçada na tecnologia educativa também pode ter o efeito contrário: evidenciar a importância decisiva dos professores nos processos de aprendizagem. O distanciamento físico e social, imposto pela força das circunstâncias, também serve para mostrar a falta que os professores fazem. E que nem os pais, nem os computadores, os conseguem cabalmente substituir…

Escolas fechadas até final de Abril

marcelo_rebelo_de_sousa_997045[1]Afinal não foi o ministro da Educação, nem qualquer autoridade de saúde, nenhum dos directores escolares que, nestas alturas, gostam de se pôr em bicos dos pés. Foi o próprio Presidente da República que anunciou solenemente o que, na verdade, já toda a gente sabia: até ao final do mês não haverá condições para reabrir as escolas.

O Presidente da República indicou esta terça-feira que as escolas deverão continuar encerradas pelo menos até ao final do mês de abril, mas destacou a “tendência positiva” da pandemia em Portugal.

“Se queremos ganhar a liberdade em maio precisamos de a ganhar em abril”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa no final da reunião técnica com as autoridades de saúde, no Infarmed, em Lisboa.

Questionado sobre a manutenção do encerramento das escolas durante este mês, o Presidente afirmou que “isso pode depreender, obviamente. Não haverá, mas daquilo que disseram os especialistas a opção a fazer é ganhar em abril o mês de maio” e isso significa “manter este esforço durante o mês de abril”, acrescentou o chefe de Estado, lembrando que cabe ao primeiro-ministro anunciar essa decisão no dia 09 de abril.

Nas declarações do Presidente também se lê o amplo consenso de regime em torno da reabertura das escolas em Maio, apenas para os alunos do secundário. A preocupação com os exames nacionais, mesmo em tempo de pandemia e de isolamento social, sobrepõe-se a tudo, e pode levar à insensatez de fazer das comunidades escolares as cobaias de um experiência social de regresso à normalidade.

Em complemento das declarações presidenciais, o JN apresenta hoje um panorama dos diversos cenários em estudo para o terceiro período e tenta encontrar respostas para as perguntas que, por estes dias, todos vamos fazendo:

O QUE FALTA DECIDIR ATÉ QUINTA-FEIRA

Que alunos devem regressar às escolas?

A proposta em cima da mesa prevê o regresso dos alunos do 12.º ano à escola, apurou o JN. Os do Básico, do 1.º ao 9.º, devem manter-se com ensino à distância até final do ano letivo. Falta decidir relativamente aos do Pré-Escolar e restantes do Secundário, incluindo cursos profissionais que têm aulas práticas.

Todos os exames vão realizar-se?

Os do 12.º que determinam o acesso ao Ensino Superior são a prioridade. As provas de aferição do Ensino Básico (2.º, 5.º, e 8.º anos) podem ser suspensas, assim como as provas nacionais de Português e Matemática do 9.º, a manter-se o ensino à distância. O regresso às aulas do 11.º ano será determinante para a realização dos exames.

Como será a avaliação no 3.º período?

É uma pergunta ainda sem resposta. A manter-se o ensino à distância, os professores vão ter de diversificar os instrumentos de avaliação pelas tarefas pedidas aos alunos online. Critérios como a participação, assiduidade ou empenho manifestado pelos alunos, que já são tidos em conta, podem vir a ter outro peso. O apoio dos pais na execução das tarefas também deverá ser ponderado.

Quando arranca a telescola?

A transmissão de conteúdos para os alunos do 1.º ao 9.º, na RTP Memória, por TDT ou cabo, também ainda não tem data definida para arrancar. É a solução para se chegar aos alunos sem Internet ou computador em casa. Os professores, frisa Manuel Pereira (ANDE), precisam dessa grelha de programação para alinharem o planeamento das aulas.

Leituras: Byung-Chul Han – A emergência viral e o mundo de amanhã

covid19A Europa está fracassando. Os números de infectados aumentam exponencialmente. Parece que a Europa não é capaz controlar a pandemia. Na Itália, morrem diariamente centenas de pessoas. Retiram os respiradores dos pacientes idosos para socorrer os jovens. Porém, também se podem observar ações inúteis. O fechamento de fronteiras é evidentemente uma expressão desesperada de soberania. Nos sentimos de volta à época da Monarquia. O soberano é quem decide sobre o estado de exceção. É soberano aquele que fecha fronteiras. Mas isso é uma exibição vazia de soberania que não serve para nada. Seria muito mais útil cooperar intensamente dentro da zona do Euro do que fechar fronteiras a esmo. Entretanto, também a Europa decretou a proibição de entrada a estrangeiros: um ato totalmente absurdo diante do fato de que a Europa é precisamente aonde ninguém quer vir. Quando muito, seria mais sensato decretar a proibição de saída de europeus, para proteger o mundo da Europa. Afinal, a Europa neste momento é o epicentro da pandemia.

Em comparação com a Europa, que vantagens oferece o sistema da Ásia que resultem eficientes para combater a pandemia? Estados asiáticos como Japão, Coreia, China, Hong Kong, Taiwan ou Singapura têm uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos relutantes e mais obedientes do que na Europa. Também confiam mais no Estado. E não só na China, mas também na Coreia ou no Japão a vida cotidiana está organizada muito mais estritamente do que na Europa. Sobretudo, para enfrentar o vírus os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Acreditam que no big data poderia encontrar-se um potencial enorme para defender-se da pandemia. Poderíamos dizer que na Ásia as epidemias não são combatidas apenas pelos virólogos e epidemiólogos, mas sobretudo também pelos informáticos e os especialistas em macrodados. Uma mudança de paradigma da qual a Europa ainda não se deu conta. Os apologetas da vigilância digital proclamariam que o big data salva vidas humanas.

A consciência crítica em relação à vigilância digital na Ásia é praticamente inexistente. Quase não se fala de proteção de dados, inclusive em Estados liberais como Japão e Coreia. Ninguém se incomoda com o frenesi das autoridades por recompilar dados. Entretanto, a China introduziu um sistema de crédito social inimaginável para os europeus, que permite uma avaliação ou uma análise exaustiva dos cidadãos. Cada cidadão deve ser avaliado de acordo com sua conduta social. Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido a observação. Se controla cada clique, cada compra, cada contato, cada atividade nas redes sociais. De quem avança com o semáforo no vermelho, de quem interage com críticos do regime ou de quem posta comentários críticos nas redes sociais: são tirados pontos. Então, a vida pode chegar a ser muito perigosa. Ao contrário, a quem compra pela internet alimentos saudáveis ou lê jornais afins com o regime, são dados pontos. Quem tem pontos suficientes obtém um visto de viagem ou créditos baratos. Ao contrário, quem cai abaixo de um determinado número de pontos poderia perder seu trabalho. Na China é possível esta vigilância social porque se produz um irrestrito intercâmbio de dados entre os provedores de Internet e de telefonia móvel e as autoridades. Praticamente não existe proteção de dados. No vocabulário dos chineses não aparece o termo “esfera privada”.

Na China há 200 milhões de câmeras de vigilância, muitas delas providas de uma técnica muito eficiente de reconhecimento facial. Captam inclusive as pintas no rosto. Não é possível escapar da câmera de vigilância. Estas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar qualquer cidadão nos espaços públicos, nas lojas, nas ruas, nas estações e nos aeroportos.

Toda a infraestrutura para a vigilância digital resultou agora ser sumamente eficaz para conter a epidemia. Quando alguém sai da estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante, todas as pessoas que estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus telefones celulares. Não à toa, o sistema sabe quem estava sentado onde no trem. As redes sociais contam que inclusive estão se usando drones para controlar as quarentenas. Se alguém rompe clandestinamente a quarentena, um drone se dirige voando a ele e lhe ordena regressar a sua casa. Talvez ainda lhe imprima uma multa e a deixe cair voando, quem sabe. Uma situação que para os europeus seria distópica, mas à qual, pelo visto, não se oferece resistência na China.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han demonstra a superior eficácia dos regimes autoritários e das democracias musculadas do Oriente, comparativamente com o demoliberalismo europeu, na contenção da pandemia do novo coronavírus. Enquanto a secular tradição de obediência e a confiança nos prodígios da tecnologia e do big data parecem apresentar resultados na luta contra o covid-19, a Europa experimenta sem grande sucesso as velhas receitas do fecho de fronteiras, das quarentenas voluntárias e do isolamento dos infectados.

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A História é imprevisível

pacheco-pereiraUm homem que se diz socialista está muito à frente na competição pela nomeação para candidato presidencial americano no Partido Democrático. Sim, nos EUA. No Parlamento português foi apresentado e recusado administrativamente um projecto de castração química. Uma maioria de deputados portugueses votou a favor da legalização da eutanásia. Vasco Pulido Valente morreu e uma nuvem de panegíricos ouviu-se por todo o lado. Parece que não foi ele que morreu. A ameaça de uma epidemia levou as equipas de futebol italianas a jogar em estádios vazios de público. Um governo português tentou fazer um aeroporto pela enésima vez e falhou porque uma lei de que ninguém se lembrou dá a um grupo de pequenos municípios um direito de veto sobre a obra. Um jogador negro saiu do campo por ter sido insultado com frases de carácter racista e subitamente todo o Portugal desatou a fazer juras anti-racistas. Nos EUA, um mentiroso patológico sofrendo de uma perturbação narcisista caminha, com muito poucos travões, para uma autocracia. A NATO, que parecia eterna, está comatosa. O ditador da Coreia do Norte é tratado pelo Presidente dos EUA como se fosse seu namorado. Um cavaleiro tauromáquico, cuja profissão é torturar animais em público, foi processado por maltratar uns galgos que tinha a morrer à fome. Angola sob a direcção do MPLA tornou-se a capital africana do combate à corrupção. Soldados portugueses estão no Kosovo, no Mali ou no Afeganistão, terras essas de quem nem sequer no Estado-Maior devia haver um mapa decente que não fosse do National Geographic. O Reino Unido entrou para a União Europeia e depois saiu. Há um movimento no PS e no Bloco de Esquerda para candidatar Ana Gomes à Presidência da República. Portas é lobbyista de negócios latino-americanos e africanos. Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente. O aeroporto da Madeira tem o nome de um jogador de futebol. O Partido Socialista é defensor do défice zero e das “contas certas”. A Maçonaria tentou tomar conta do PSD. Um número significativo de portugueses usa uma rede social criada para que meia dúzia de estudantes soubessem que namorados tinham (ou não tinham) as suas colegas na universidade. A Quadratura do Círculo tornou-se a Circulatura do Quadrado. Os adolescentes passam o dia a mandar mensagens uns aos outros. Centenas. Ainda não há TGV. Um partido que quer um Serviço Nacional de Saúde para os animais tem um grupo parlamentar. Santana Lopes saiu do PPD/PSD e não tem nada. O Presidente francês tem um exército aguerrido de gente vestida com coletes amarelos. O desprendimento de glaciares na Antárctida é notícia de primeira página. Há paradas de orgulho LGBTQ+ em Vila Real. Ninguém sabe o que é o +, mas ninguém liga, nem ousa perguntar. Existe censura feita por uma multidão de anónimos na Internet. A verdade está moribunda nas redes sociais. A mentira domina as redes sociais. Vladimir Putin manda na verdade e na mentira e o Presidente dos EUA é o seu discípulo dilecto.

Dificilmente algum dos factos elencados por Pacheco Pereira seria previsível há duas ou três décadas atrás. Mas caracterizam bem a realidade incontornável dos nossos dias.

Acrescente-se que a impossibilidade de prever o futuro não torna o conhecimento histórico dispensável.

Pelo contrário. Permite-nos compreender o mundo em que vivemos hoje e de que forma chegámos até aqui.

Pois só a partir deste ponto podemos fazer escolhas esclarecidas em relação ao nosso futuro individual e colectivo.

Leituras: Tecnologia e Felicidade

inteligencia-art.gifInterrogo-me muitas vezes se o progresso tecnológico exponencial criará uma felicidade humana exponencial, para além de 1% de criadores, proprietários e detentores de lucros dessas geniais máquinas miraculosas. Será uma meta virtuosa construir uma máquina humana perfeita, liberta de todas as suas imperfeições e ineficiências, para que possamos finalmente tornar-nos deuses, o que quer que isso signifique?

Não sei o que pensa quem me lê, mas não é um mundo que eu gostasse de ajudar a construir. Propor esse caminho é como brincar com o nosso futuro e condenar, à partida, o futuro dos nossos filhos e das gerações vindouras.

A felicidade não pode ser programada em máquinas, automatizada ou vendida. Não pode ser copiada, codificada ou aprendida a partir de um conjunto de dados. Deve emanar e crescer dentro de nós e entre nós, e a tecnologia está aqui para nos ajudar, como ferramenta. Somos uma espécie que usa tecnologia, não uma espécie destinada a ser tecnologia.

Finalmente, reflicta sobre isto: na língua inglesa, a própria palavra felicidade provém da palavra viquingue para sorte, happ. Isto relaciona-se igualmente com a noção de casualidade ou acaso. Os apologistas da tecnologia podem professar que estão a libertar as nossas vidas do lado negativo do acaso, que todos sabemos ser incalculável, desde a doença à pobreza, até à própria morte. No entanto, ao fazê-lo, poderão estar a alterar sistematicamente a capacidade do ser humano de experienciar níveis mais profundos de felicidade que não dependem de circunstâncias mensuráveis.

Sim, por favor, usemos as ferramentas que a tecnologia nos oferece para eliminar os perigos e os riscos de sermos humanos no planeta Terra. Mas não, não nos tornemos ferramentas das nossas ferramentas, trocando a nossa consciência mercurial e o nosso livre-arbítrio por um monte de bugigangas e emoções fáceis como nativos inocentes de um Novo Mundo.

Gerd Leonhard, Tecnologia Versus Humanidade (2017).

Por Espanha (quase) tudo na mesma…

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As eleições gerais em Espanha não alteraram substancialmente a situação política do país, embora tenham modificado a distribuição de forças ao longo do espectro partidário. A ligeira subida da abstenção, ainda assim em valores inferiores aos habituais no nosso país, parece traduzir a descrença e algum cansaço com o impasse político da parte do eleitorado espanhol.

À esquerda, PSOE e Unidas Podemos foram penalizados, mais o segundo do que o primeiro, pela incapacidade de ultrapassarem as suas diferenças, construindo, com a ajuda de alguns pequenos partidos, uma solução governativa – uma espécie de geringonça à espanhola.

Embora sem maioria para governar, a direita sai reforçada destas eleições. O PP aumenta o número de votos e de deputados, embora a subida mais espectacular seja a do Vox, que passa a terceira força política e transforma a Espanha num dos países europeus com maior presença parlamentar da extrema direita. Nesta viragem à direita do eleitorado, foi o Ciudadanos o grande sacrificado: o partido passa de 57 para 10 deputados e Albert Rivera não deverá ter condições para se manter na liderança. Será desta que a carismática Inés Arrimadas, líder da oposição ao independentismo catalão, ascenderá à liderança do partido?

O cenário político permanece complicado e formar governo continuará a ser missão quase impossível. Basicamente, há uma grande dispersão de votos pelos partidos regionais, alguns deles independentistas, que impedem que a nível nacional se forme uma maioria tanto à esquerda como à direita. E este extremar de posições em torno da questão catalã complicou ainda mais a busca de uma solução governativa, pois a forma de agir perante o independentismo divide profundamente a esquerda, comprometendo quer a eventual aliança entre socialistas e podemistas quer o entendimento com a esquerda catalã.

Vista de Portugal, a crise política espanhola parece sublinhar a pertinência da solução política encontrada em 2015. A “coligação de perdedores”, como chegou a ser designada pelos seus detractores, acabou por corresponder afinal à vontade política da maioria do eleitorado que rejeitou nas urnas o neoliberalismo austeritário de Passos Coelho. E se os compromissos do PS com os partidos à sua esquerda ficaram longe de concretizar, nalguns aspectos, uma verdadeira política de esquerda, a verdade é que o reforço eleitoral do PS em 2019, embora sem maioria absoluta, parece confirmar que uma ampla maioria do eleitorado se revê na solução encontrada. Por outro lado, um bloqueio sistemático de soluções à esquerda acaba por favorecer o crescimento eleitoral da direita, como as eleições espanholas ontem demonstraram.

Noto no entanto um ponto de aparente convergência na conjuntura política dos dois países. Assim como o novo governo de António Costa parece querer seguir uma linha reformista que o afasta dos parceiros à esquerda e o aproxima do PSD, também Pedro Sánchez, no seu braço de ferro com os independentistas e na recusa de integrar o Podemos num governo de coligação, poderá vir a encontrar algum apoio num PP ainda fragilizado politicamente, mas determinado em combater o independentismo e a influência política da esquerda mais radical. Embora recusem uma solução de bloco central que abriria espaço político tanto ao Podemos, à esquerda, como ao Vox, à direita, estarão os dois grandes partidos do regime, PSOE e PP, condenados a entenderem-se?…