Como serão os exames no futuro?

exame[1]No arranque de mais uma época de exames nacionais, o Público ouviu alguns especialistas sobre o presente e o futuro destas provas de avaliação externa. E há, logo à partida, uma ideia com que todos parecem estar de acordo:

“Ainda não podemos viver sem eles”, comenta Domingos Fernandes. Ainda que a investigação mostre que “os exames tendem a ter mais desvantagens do que vantagens”, desde logo o fenómeno de “afunilamento do currículo”, ou seja, a tendência para que professores e alunos se centrem nas matérias que sabem de antemão que vão sair nos exames, as provas nacionais têm funções de que não podem ser dispensadas. “Têm a vantagem de tenderam a moderar a avaliação interna”, diz Fernandes. E são ainda determinantes para certificar a conclusão do ensino secundário e permitir o acesso ao ensino superior. “Não vislumbro um outro [modelo] que permita a avaliação de conhecimentos e competências de toda a população estudantil com as garantias de equidade que fornece o exame”, sublinha, por isso, o presidente do Conselho de Escolas, José Eduardo Lemos.

Dizem os entendidos que as provas de exame deverão acentuar, no futuro, tendências que já hoje são visíveis: um foco maior na resolução de problemas e na aplicação dos conhecimentos adquiridos, em vez do apelo à memorização; questões de resposta aberta onde se avalie, sobretudo, a forma como o aluno justifica a resposta que deu; exames que avaliem conjuntamente competências adquiridas em mais do que uma disciplina, como já se ensaiou este ano com as provas de aferição.

A flexibilização pedagógica, com a qual o governo quer entregar às escolas a gestão de 25% do currículo apresenta, por sua vez, novos desafios. Há quem pense que os exames terão de, futuramente, reflectir as novas formas de aprender que a interdisciplinaridade ou os trabalhos de projecto irão propiciar. Realisticamente, há também quem veja a questão ao contrário: com o actual modelo de exames, centrado num número restrito de disciplinas e nos conteúdos definidos a nível nacional, que o ME já anunciou não querer alterar, muitas escolas terão a tentação de usar a sua autonomia, não para fazer flores a nível pedagógico, mas sim para reforçar ainda mais as disciplinas sujeitas a exame final.

Coligação do caos

eleicoesUK

O cenário político temido por Theresa May e por todos os apreciadores das maiorias absolutas concretizou-se no Reino Unido.

Ou, em alternativa, teremos uma versão britânica da geringonça?

Para já Theresa May, cujo partido, embora tenha perdido a maioria absoluta, continua a ser o mais votado, diz que não se demite. Mas num cenário em que os Conservadores não encontrem apoios parlamentares que viabilizem um governo estável, a solução alternativa poderá passar por um governo trabalhista apoiado pelos pequenos e médios partidos que compõem o Parlamento britânico.

Jeremy Corbyn, o líder do Partido Trabalhista a quem quase todos vaticinavam a morte política nas eleições de ontem, pode vir a ser a peça-chave para resolver o imbróglio político criado pelas contradições em torno do brexit e agora por este hung parliament ditado pelos resultados eleitorais.

Há greve ou não há greve?

manif.JPGO Correio da Manhã antecipa as negociações de amanhã, entre os sindicatos de professores e o ME, e conclui: o mais certo é a greve aos exames marcados para o dia 21 de Junho não se realizar.

As principais associações sindicais de professores elegem a questão do horário de trabalho como tema prioritário para o qual exigem respostas do Ministério da Educação na reunião de amanhã, de modo a cancelarem a greve do dia 21, data em que se realizam três exames nacionais (Física e Química A, Geografia A e História da Cultura e das Artes).

“A determinação do horário de trabalho do próximo ano letivo é o aspeto mais urgente. É preciso que as componentes letiva e não letiva fiquem claramente definidas”, disse ao CM João Dias da Silva, secretário-geral da Federação Nacional de Educação. Já quanto às questões do descongelamento das carreiras, regime especial de aposentação e vinculação docente, a FNE admite que a urgência é menor: “Sobre as outras matérias é preciso que da reunião saia uma orientação sobre o sentido em que vamos.”

Mário Nogueira, secretário-geral da Federação Nacional de Professores (Fenprof), também considera a questão dos horários “a mais imediata, por ter impacto já em setembro”. Os outros temas “são de negociação mais longa”, diz, exigindo ao Governo compromissos.

Parece-me verosímil o cenário descrito na peça: ninguém estará à espera de decisões imediatas sobre descongelamentos, progressões e aposentações, matérias que em grande medida transcendem a capacidade negocial do ME, porque têm impacto em toda a administração do Estado e, sobretudo, nas finanças públicas. Já as matérias relacionadas com o lançamento do próximo ano lectivo e que deverão ter impacto favorável na organização dos horários e distribuição de serviço, esses são temas urgentes que devem constituir prioridade negocial, pelo que uma resposta insatisfatória às principais pretensões dos professores deve ser motivo para manter a greve já agendada.

Quanto ao resto, acho que nem as lutas de âmbito sindical podem ser feitas na base do tudo ou nada, nem os professores têm, neste momento, especial disposição ou vontade de encetar um período de greves de consequências pouco previsíveis.

Ao contrário dos que seguem o caminho, sempre popular, da diabolização fácil dos sindicatos ou dos dirigentes sindicais, não me parece que o factor determinante, na marcação de uma greve, ou até de uma manifestação destinada a ter impacto mediático, seja a vontade dos líderes ou das forças sociais ou políticas que os podem influenciar.

Pelo contrário, o que determina o êxito – que nunca é garantido! – de uma luta laboral, é acima de tudo a determinação, a vontade e o espírito de sacrifício dos que a realizam. E o sentimento dominante da grande maioria dos professores é, nestes tempos de uma geringonça que até se está a sair melhor do que as previsões iniciais, de expectativa, se calhar de muito moderado optimismo, em relação ao que novos e melhores tempos lhes possam trazer.

Estamos muito longe, felizmente, de viver problemas como os de alguns professores angolanos, com longos meses de salários em atraso, desconsiderados, demitidos sem justa causa e revoltados contra a prepotência das autoridades. Estes sim, fazem greve, e não é preciso vir nenhum sindicato convencê-los…

Professores da província angolana do Bengo iniciaram greve por tempo indeterminado

 

História do Futuro

harari.JPGUma das entrevistas mais interessantes que li nos últimos tempos: Yuval Harari, um historiador israelita especialmente sagaz, não só a analisar a evolução da humanidade, mas também a antever o que poderá ser o nosso futuro colectivo.

Neste exercício sempre arriscado, Harari evita as leituras deterministas e procura olhar a evolução previsível nas próximas décadas com o mesmo distanciamento crítico com que os historiadores tradicionalmente analisam e interrogam o passado. E claro que as suas antevisões, embora bem fundamentadas, são sempre discutíveis.

Alguns excertos de uma peça que merece ser lida na íntegra:

Atualmente, a humanidade produz tanta comida e consegue transportá-la tão rapidamente e de forma tão barata que os desastres naturais nunca resultam, por si próprios, em fome em massa. Já não existe fome natural no mundo, há apenas fome de origem política. Se as pessoas ainda morrem de fome na Síria, no Sudão ou na Coreia do Norte é apenas porque alguns governos assim o desejam.

No século XVIII, Maria Antonieta supostamente aconselhou as massas famintas a que, se ficassem sem pão, comessem bolos. Hoje, os pobres seguem este conselho à letra. Enquanto os habitantes ricos de Beverly Hills comem salada de alface e tofu cozido a vapor com quinoa, nos bairros da lata e guetos os pobres engolem bolos industriais, pacotes de aperitivos salgados, hambúrgueres e pizzas. Em 2014, mais de 2100 milhões de pessoas tinham excesso de peso, contra 850 milhões que sofriam de desnutrição. Calcula-se que em 2030 metade da humanidade sofra de excesso de peso. Em 2010, a fome e a desnutrição combinadas mataram cerca de um milhão de pessoas, enquanto a obesidade matou três milhões.

Anteriormente, a riqueza era principalmente riqueza material: campos de trigo, minas de ouro, escravos, gado. Isso encorajava a guerra, porque era relativamente fácil conquistar riqueza material através da guerra. Hoje, a riqueza está cada vez mais baseada no conhecimento. E não se pode conquistar o conhecimento através da guerra. Não se pode, por exemplo, conquistar a riqueza de Silicon Valley através da guerra, porque não há minas de silício no Vale do Silício – a riqueza vem do conhecimento dos engenheiros e técnicos. Consequentemente, hoje, a maioria das guerras está restrita àquelas partes do mundo – como o Médio Oriente – onde a riqueza é a riqueza material antiquada (principalmente campos de petróleo).

O terrorismo é em grande parte teatro. Os terroristas encenam um espetáculo de violência aterrorizador que domina a nossa imaginação e nos faz sentir como se estivéssemos a resvalar de novo para o caos medieval. Consequentemente os estados sentem-se muitas vezes obrigados a reagir ao teatro do terrorismo com um espetáculo de segurança, orquestrando enormes exibições de força, como a perseguição de populações inteiras ou a invasão de países estrangeiros. Na maior parte dos casos, essa reação exagerada ao terrorismo representa uma ameaça muito maior à nossa segurança do que os próprios terroristas.

O marxismo assume que a classe trabalhadora é vital para a economia e os pensadores marxistas tentaram ensinar ao proletariado como traduzir o seu imenso poder económico em força política. Esses ensinamentos podem tornar-se completamente irrelevantes no séc. XXI, pois a IA e os robôs substituem os seres humanos em mais e mais empregos e as massas perdem o seu valor económico. Na verdade, pode haver quem argumente que o brexit e Trump já demonstram uma trajetória oposta à que Marx imaginava. Em 2016, os britânicos e os americanos que perderam a sua utilidade económica, mas que ainda conservam o poder político, usaram esse poder para se revoltarem antes que seja tarde demais. Eles não se revoltam contra uma elite económica que os explora, mas contra uma elite económica que já não precisa deles.

À medida que a biotecnologia se for desenvolvendo será possível prolongar o tempo da vida humana e melhorar as capacidades humanas, mas os novos tratamentos maravilha podem ser caros e podem não estar disponíveis gratuitamente para todos os milhares de milhões de seres humanos. Assim, a sociedade humana no séc. XXI pode ser a mais desigual da História. Pela primeira vez na História, a desigualdade económica será traduzida em desigualdade biológica. Pela primeira vez na História, as classes superiores não serão apenas mais ricas do que o resto da humanidade, mas também viverão muito mais tempo e terão muito mais talento.

Os seres humanos têm basicamente apenas dois tipos de capacidades – físicas e cognitivas – e se os computadores nos superarem em ambas, eles podem superar-nos nos novos empregos tal como o fizeram nos antigos. Então, qual será a utilidade de seres humanos nesse mundo? O que faremos com milhares de milhões de seres humanos economicamente inúteis? Não sabemos. Não temos qualquer modelo económico para tal situação. Esta pode ser a maior questão económica e política do século XXI.

No passado, as pessoas discriminavam grupos inteiros como mulheres, homossexuais e negros. Assim, as mulheres, os homossexuais ou os negros, podiam organizar-se e protestar contra a sua discriminação coletiva. Mas agora o algoritmo pode discriminá-lo a si, e você não faz ideia da razão. Talvez o algoritmo tenha encontrado alguma coisa no seu ADN ou na sua história pessoal que não lhe agrada. O algoritmo discrimina-o não porque você é mulher ou homossexual ou negro, mas porque você é você. Há algo específico sobre si de que o algoritmo não gosta. Você não sabe o que é, e mesmo que soubesse, não se pode organizar com outras pessoas para protestar, porque não há outras pessoas. É apenas você. Em vez da discriminação coletiva como no século XX, talvez no século XXI tenhamos um grande problema de discriminação individual.

A verdadeira escola do futuro

criancas-dormindo.jpgEsqueçam as cadeiras com rodinhas, os tablets de última geração, os quadros interactivos, os ecrãs 4K e as restantes maravilhas tecnológicas que nos dizem que irão existir, aos pontapés, na escola do século XXI.

Em S. Paulo, no Brasil, parece estar a ter sucesso um modelo de educação pré-escolar que propõe às famílias obter algo que pode ser considerado mais valioso de que o gadget mais cobiçado: tempo livre. Que ser pai e mãe é responsabilidade que toma muito tempo. E nuns casos por exigências da vida profissional, noutros por simples preguiça ou comodismo, a verdade é que o tempo para estar com os miúdos é, nalgumas famílias, muito reduzido. E eles acabam por passar na escola, com os professores e educadores, muito mais horas do que em casa, com os pais.

Consegue-se imaginar uma escola onde os alunos tomam todas as refeições, libertando os pais da tarefa aborrecida de os alimentar? E que ainda fornece, a pedido, refeições já preparadas para o fim-de-semana? Com serviço de lavandaria, que trate da limpeza da farda do colégio, e de cabeleireiro, que liberte da chatice de levar os filhos a cortar o cabelo? E que tal, cereja no topo do bolo, para o pouco tempo em que têm os filhos em casa, poderem contratar uma professora como babá para tomar conta deles?

O colégio rejeita as acusações de estar a facilitar em demasia a vida aos pais, privando as crianças de experiências importantes que deveriam viver em família: para os responsáveis da escola, todas estas facilidades permitem ganhar aquilo que é essencial: tempo de qualidade das crianças com a família. Boa desculpa.

Uma escola em que os pais podem deixar os filhos das 8 às 20 horas e não se preocupar com os uniformes – que são lavados no próprio colégio – nem com as refeições das crianças, que ainda podem ser compradas congeladas para os fins de semana. Para as famílias economizarem tempo com atividades domésticas, a escola Ponto Omega, na região dos Jardins, zona oeste de São Paulo, passou a oferecer serviços que vão além das preocupações pedagógicas.

A escola, que atende crianças de 4 meses a 6 anos, também oferece aos pais a opção de contratarem professores e assistentes como babás e leva uma vez por mês uma cabeleireira para cortar o cabelo dos alunos no colégio. Maria Gruppi, diretora da escola, diz que os serviços começaram a ser ofertados por reivindicação dos pais, que requeriam “tempo de qualidade” com os filhos.

“Se a gente consegue eliminar algumas preocupações dos pais, eles têm mais tempo livre e disposição para se dedicar à criança”, argumenta Maria. O serviço de lavanderia, por exemplo, é para todas as crianças de até 2 anos. Elas chegam com as roupas comuns de casa e recebem todos os dias o uniforme.

Os alunos que ficam em período integral fazem todas as refeições na escola. Por isso, segundo Maria, os pais precisavam fazer feira, mercado e cozinhar apenas para os fins de semana. “Eles tinham todo esse trabalho para fazer sopinha para só dois dias. Por isso, começamos a vender as refeições congeladas, que já servíamos na escola.”

O bom aluno da OCDE

tiagobrandaorodrigues-leiria“Claro que há muitos professores e directores que ouvem os seus estudantes diariamente. Mas quando se trata de o fazer de forma estruturada, com o objectivo de incorporar os seus contributos na definição das políticas e práticas educativas, ainda é um fenómeno raro”, explicou ao PÚBLICO o director do Departamento de Educação e Competências da OCDE, Andreas Schleicher.

O Ministério da Educação apelidou a iniciativa como “A Voz dos Alunos”. O encontro decorreu em Leiria, em Novembro, e reuniu dezenas de alunos do 1.º ciclo ao ensino secundário, de vários pontos do país. Agora, a OCDE pretende replicar o projecto noutros países e, com esse objectivo, vai promover nesta terça-feira o seu lançamento internacional em Lisboa, durante a sessão de abertura de mais um encontro dos peritos da organização no âmbito do programa Educação 2030. Esse programa tem como objectivo conceber novos currículos escolares de modo a responder a um mundo em constante mudança e à aquisição de competências consideradas indispensáveis “para a formação dos cidadãos do século XXI”.

O que defenderam os alunos reunidos, por iniciativa do ME, para discutirem a revisão curricular, foi em larga medida aquilo que já se aguardava que dissessem, e que veio ao encontro das intenções reformistas do ministério: mais aulas práticas, trabalhos de grupo, experimentação e visitas de estudo, mais atenção à cidadania e às artes, maior flexibilidade nos currículos e menos compartimentação nas áreas de estudo. Os alunos querem também turmas mais pequenas e professores mais atentos às necessidades e motivações de cada um.

A OCDE integrou a audição dos alunos nas boas práticas previstas no seu programa para a educação e vai procurar convencer outros países a seguir o exemplo de Portugal. O director para a área da Educação elogia também o novo perfil do aluno, que corresponde em larga medida às competências-chave definidas pela OCDE para o século XXI. E deixa uma dica acerca do que ainda temos de fazer para melhorar o nosso sistema educativo: “Os resultados do PISA mostraram que os estudantes portugueses se tornaram bons na reprodução dos conteúdos. Mas ficam ainda aquém quando se trata de extrapolar aquilo que sabem de modo a aplicar os seus conhecimentos em novos contextos. E isto é cada vez mais importante.”

Elogios à parte, resta saber até que ponto devemos seguir, acriticamente, as avaliações e as recomendações da OCDE, uma organização demasiado comprometida com os grandes interesses económicos e os princípios ideológicos do neoliberalismo para aceitarmos de ânimo leve a bondade, a neutralidade e a tecnicidade das “políticas públicas” que tenta impor à escala global.

Na educação, como em tudo o resto, haverá sempre escolhas a fazer e falsos consensos que é necessário desconstruir. Sobre isso se continuará a falar e a escrever, também por aqui.

A geração do milénio

joana-andrade-vicente.jpgJoana Andrade Vicente escreve no Público sobre os millennials, essa geração da internet que nasceu entre as décadas de 80 e 90 do século passado e entrou na adolescência na viragem do milénio ou já na primeira década do novo século.

Entalados entre o velho mundo analógico que muitos, imersos no digital desde os primeiros anos de vida, mal conheceram, e as prometidas oportunidades do admirável mundo novo que tardam em chegar, estes jovens sentem cada vez mais a incómoda sensação de serem uma geração perdida.

Os primeiros millennials já são agora trintões. Estão na idade de querer casa, carro, emprego estável. Mas poucos são os que têm condições para tal. Aos 30 anos, em Portugal, ainda se é considerado jovem, e grande parte destes ‘jovens’ não tem condições para sequer sair de casa. De acordo com dados do Eurostat, 60% dos jovens entre os 25 e os 29 ainda vive com os pais.

Apesar de se integrarem numa sociedade cada vez mais globalizada e com mais oportunidades (teoricamente), são a geração que mais tem sentido as consequências da grande recessão (entre 2008 e 2012). Não estão perto de se reformar, nem têm um emprego ‘para a vida’ como a geração dos seus pais.

Mesmo os que têm mestrado, um bom curso numa boa faculdade, boas notas e alguma experiência, afirmam que a sua expetativa salarial não ultrapassa os 1.000 euros. E estão dispostos a aceitar 700/800 euros a recibos verdes.

São já lugares-comuns as afirmações de que estes jovens globais, digitais, omnipresentes nas redes sociais e adeptos das compras online, dão mais valor às experiências e à partilha do que à posse de bens, ou que constituem a geração mais qualificada de sempre. Ainda assim, na hora de arranjar emprego, a grande maioria não consegue mais do que trabalhos precários e mal pagos, muitas vezes intervalados com longas permanências no desemprego. Este cenário, comum na maioria dos países europeus, agrava-se entre nós devido aos efeitos da severa e prolongada crise económica que ainda não debelámos por completo. E a autora que venho a citar atribui ainda a falta de oportunidades no mercado de trabalho a um outro factor:

Os sistemas educacionais não providenciam as habilitações adequadas para o mercado de trabalho vigente. Aptidões transferíveis como a comunicação e trabalho em equipa não estão a ser, de todo ou devidamente, ensinadas. Enquanto os jovens estão ansiosos por trabalhar, os empregadores não conseguem encontrar nestes as habilitações que os seus negócios requerem. Isto sugere uma incompatibilidade entre o que os empregadores estão à procura, e o que os trabalhadores têm para oferecer.

Tenho sérias dúvidas de que o problema estrutural do desemprego jovem resida neste défice de qualificações académicas. Por esta lógica, trabalhadores mais velhos haveriam de ser ainda mais penalizados, pois se os actuais universitários, com tantos trabalhos de grupo que fazem e com os quais são avaliados, não sabem trabalhar em equipa, que dizer de gente mais velha, fruto de um sistema bem mais individualista e ainda menos focado nas competências sociais?

As queixas recorrentes acerca da impreparação dos jovens parecem-me mais uma outra coisa: um mercado de trabalho viciado na precariedade, nos baixos salários e na exploração laboral, que tem dificuldade em encontrar trabalhadores com determinado perfil simplesmente porque não quer abrir os cordões à bolsa e pagar mais a pessoas que tenham as qualificações específicas pretendidas.

O resto do problema está num modelo económico que através da informática e da automação vai destruindo emprego a um ritmo muito superior ao da criação de novos postos de trabalho. E em políticos que se recusam a encarar a realidade, equacionando uma redução ou uma redistribuição do trabalho, e dos seus rendimentos, de forma a contrariar os desequilíbrios e as clivagens que cada vez mais se acentuam na sociedade pós-industrial.

Analisar questões económicas e sociais complexas da perspectiva do conflito de gerações pode ser aliciante e até ajudar a entender melhor uma parte dos problemas. Mas não é esse o fundo das questões, pelo que será sempre redutor ficarmo-nos por aí…