Conselhos às futuras professoras

senhorita-rotesmeier.jpgSeñorita Rotesmeyer é como assina uma professora espanhola do ensino básico que sigo no Twitter. Um destes dias, a propósito de um diálogo com algumas caloiras dos cursos de Ciências da Educação, brindou-nos com uma sequência de tweets que traduz uma interessantíssima reflexão sobre a profissão de professor. E que não quis deixar de partilhar. A tradução e adaptação dos textos é da minha responsabilidade.

Hoje algumas alunas do 1.º ano de Ciências da Educação vieram  fazer-me umas perguntas. Entre elas: – “Qual é a melhor metodologia para a sala de aula?”

– A que funcione com o teu grupo. Não te deixes levar por modas. Experimenta daqui e dali. E o que resultar com as características e peculiaridades do teu grupo, essa será a metodologia perfeita. Se insistimos em fazer funcionar algo que não serve para o teu grupo, só porque a maioria o faz, estarás fechando portas, e a escola serve para abrir o mundo a esses meninos e meninas.

Outra: – “Pensas o mesmo sobre educação que quando começaste?”

– Não. Quando terminas o curso és idealista e tens uma visão da escola baseada nas pedagogias estudadas e no lado bonito. Quando começas a enfrentar problemas, descobres a realidade. E quão difícil é às vezes ter as ferramentas necessárias para resolver muitos aspectos que nos escapam das mãos. Queremos “salvar” cada criança de ambientes complicados, queremos ajudar em situações para as quais não estamos preparados. E é quando aceitas que não podes fazer tudo, que descobres verdadeiramente o sentido de educação.

E no final, a que eu mais gostei: – “Que tens para nos dizer a nós, que só há seis meses estudamos para ser professoras?”

– Digo-vos que acreditem em vocês próprias e no importante trabalho que irão desenvolver. Sois um elo imprescindível ao futuro da sociedade. Sois as criadoras de todas as profissões. Sois as que dão asas para voar aos vossos alunos.

– E digam o que disserem, critiquem o que criticarem, nunca esqueçam que toda a criança que passe pelas vossas mãos merece o maior respeito e carinho. Um dia, muitos anos depois, só posso desejar-vos que olhem para trás e se sintam tão orgulhosas como naquele dia em que pensaram: EU QUERO SER PROFESSORA. Que nunca se esqueçam.

Formação de professores em… exorcismo!

exorcismo.gifVade retro Satanás, é caso para dizer!…

Em Portugal, a caça aos créditos necessários à progressão na carreira docente ainda não levou a isto, mas já estivemos mais longe. Apesar do governo de esquerda, laico e republicano, as formações contínuas para professores, focadas em temas pseudo-científicos e esoterismos variados vão irrompendo por aí…

Nada que chegue, contudo, ao que presentemente sucede em Itália. O Ministério da Educação local decidiu propor a professores e sacerdotes a frequência de um curso de formação em exorcismo. Pela módica quantia de 400 euros, a desembolsar pelos interessados…

O seu objectivo é “descrever, analisar e compreender os aspectos particulares do ministério do exorcismo e a oração de libertação, aprofundando tanto os temas directamente relacionados com o exorcismo e a sua prática correcta, como em assuntos relacionados de antropologia, medicina, criminologia”, entre outros.

Reagindo a esta decisão, sectores da oposição não poupam críticas ao governo italiano, já considerado “o mais obscurantista de todos os tempos”. Mas quando o próprio ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, se mostra publicamente preocupado pelo problema das “seitas satânicas”, percebe-se esta deriva da extrema direita contra os espíritos malignos está solidamente ancorada a nível governamental. A guerra contra os diabos e os diabretes que assombram a sociedade e a política italianas é uma luta para a qual todos são mobilizados. E, como já se percebeu, nem os professores escapam à chamada do ultra-direitista Salvini…

“Não desvalorizemos o problema das seitas satânicas, é necessário confiar nos especialistas para que nos ajudem a combatê-lo. É um fenómeno preocupante, aparentemente afastado da vida diária, mas muito mais próximo e frequente do que se pensa”.

Formação em… fake news

fakenewsO Ministério da Educação (ME) e o Sindicato dos Jornalistas (SJ) vão assinar este sábado um protocolo para dar formação na área dos meios de comunicação social a professores. A formação responde à “urgência de formar cidadãos informados”, num tempo que as fake news (notícias falsas) estão na ordem do dia, indica o ME numa nota enviada esta sexta-feira à comunicação social. E pretende chegar às gerações mais novas através da escola.

Numa altura em que “o poder das redes sociais emerge, é urgente formar cidadãos informados, conscientes e participativos para o futuro colectivo”, diz a nota. O objectivo, explica, é desenvolver mais competências “de professores, e por conseguinte, de alunos” em “matérias de consumo informado e crítico dos conteúdos difundidos pelos meios de comunicação social”. E disponibilizar aos professores metodologias, recursos e ferramentas que poderão usar nas actividades de Literacia dos Media em contexto de sala de aula.

A lógica é sempre a mesma: os professores são retrógrados, os seus conhecimentos estão ultrapassados e precisam de ser actualizados nas competências do século XXI. Pegue-se então num tema da moda – as fake news – e ‘bora lá fazer umas formações fixes para o pessoal, que os infelizes não devem ter coisa melhor para fazer a um sábado.

A perplexidade surge quando se percebe que a nova área de formação surge de uma parceria com o Sindicato dos Jornalistas e que metade dos formadores serão, justamente, profissionais dos media. É que quase todos os dias vejo jornais e jornalistas a veicular informação falsa ou tendenciosa, a omitir verdades e a propagar mentiras e factos alternativos, a misturar informação e opinião, a tomar como verdadeiros e a divulgar sem contraditório  os comunicados governamentais e as notícias plantadas, a mando de interesses políticos e económicos, na comunicação social.

Julgo, na minha ingenuidade, que em vez de quererem ensinar os professores a precaver-se, e a alertar os seus alunos, sobre o perigo das notícias falsas, deveriam antes ensinar os seus colegas de profissão a noticiarem com verdade, isenção, objectividade e rigor. Aquele b-á-bá que encontramos em qualquer manual de Iniciação ao Jornalismo e que tantas vezes parece, nos dias de hoje, letra morta.

Infelizmente, não é preciso ir para as redes sociais para encontrar informação falsa e manipulada. Ela está presente, vezes sem conta, nos media em que deveríamos poder confiar. Os profissionais da informação prestam-se demasiadas vezes ao papel de desinformar. Ou de se limitarem a servir de pé de microfone quando deveriam questionar e confrontar.

Sugerir que a culpa de as notícias falsas se propagarem com tanta facilidade é – uma vez mais! – da escola e dos professores, que não preparam os seus alunos para as novas “literacias”, parece-me um lamentável exercício de hipocrisia.

O privado gere melhor…

ponces-alunaA gestão prepotente, os abusos de poder, as suspeitas de abusos e irregularidades, tudo protagonizado pela figura algo ridícula que já foi presença regular nas matinés televisivas: não são de agora os indícios de que muita coisa vai mal numa instituição de ensino que já foi referência na formação de educadores e professores do ensino básico…

António Ponces de Carvalho não está feliz. O diretor da Associação de Jardins Escolas João de Deus diz-se apanhado de surpresa com o que se tem escrito na Internet nos últimos dias – em blogues e grupos do Facebook – sobre ele e a sua gestão na instituição que dirige desde 2000. Haveria de se despedir da SÁBADO três horas depois manifestando a indignação por não termos falado “das coisas boas” e só termos mostrado interesse nos “assuntos de merda.”

Que assuntos foram esses? Por exemplo, as viagens que faz todos os anos com as finalistas da Escola Superior de Educação João de Deus.

Outros assuntos que pode ler na SÁBADO: os gastos da associação com as viagens do diretor, o safari de luxo no Quénia e na Tanzânia antes de uma reunião da organização Mundial de Educação Pré Escolar, a viagem às Ilhas Virgens em 2017 e o segredo das contas de uma insituição que é IPSS e tem isenções fiscais e subsídios do Estado de 8 milhões de euros. 

E ainda todo o ambiente interno com os professores: as baixas psiquiátricas, os comunicados internos agressivos, a pressão das avaliações e dos roulements, a famosa “inspetora” Filomena Caldeira (currículo aqui) que teve um processo por assédio moral, a fuga de professores em Dezembro e a luta fratricida com um irmão que vive no Japão.

Os piores alunos vão para professores?

Em tempos de crise do jornalismo percebe-se o recurso a títulos sensacionalistas para atrair o leitor cada vez mais fugidio. Ainda assim, parece-me que se exagerou um pouco na edição escrita do Público de ontem, ao sugerir que os alunos mais fracos a Português são precisamente os que vão para cursos de formação de professores.

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No interior do jornal, o corpo da notícia adensa ainda mais o aparente paradoxo: os melhores alunos a Português vão para Medicina, para as engenharias, as ciências da vida e da saúde. Já os que obtêm mais baixos resultados no exame de Português enveredam mais pelas áreas do ensino, dos serviços, das artes e das humanidades.

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Claro que a explicação é simples e não vale a pena alimentar confusões: como se sabe, os cursos superiores que têm elevada empregabilidade são os mais pretendidos pelos candidatos ao ensino superior. E como o principal critério de selecção é a média das classificações do Secundário, é natural que para os cursos com média mais elevada entrem os melhores alunos. A Português e às outras disciplinas…

Evidentemente, sem uma política de renovação da classe docente, os cursos de professores formam para o desemprego. E, nestas circunstâncias, tornam-se pouco atractivos e tendem a reunir alunos que estão ali porque não conseguiram entrar noutro curso mais aliciante.

Também não é difícil perceber como se poderia, em poucos anos, inverter esta situação de todo indesejável. Passaria por uma redução substancial das vagas nos cursos de formação de professores em paralelo com a abertura, todos os anos, de um número de novos lugares para a docência que garantisse aos novos profissionais – ou pelo menos aos melhores de entre eles – o acesso à profissão. É assim que se faz noutros lados – e resulta. Não é preciso inventar a pólvora. Basta copiar os bons exemplos.

Entre os países que obtêm melhores resultados na Educação, poucos ou nenhuns terão um sistema de avaliação de professores tão burocrático e rebuscado como o nosso. Em contrapartida, todos investem a sério no sistema de recrutamento e formação de professores, de forma a garantir a selecção dos melhores profissionais para a docência. Tudo isto complementado, claro, com uma carreira digna e adequadas condições de trabalho. Escolher os melhores, investir na sua formação, apoiá-los e incentivá-los ao longo da sua carreira docente: precisamente o oposto do que se insiste em fazer por cá…

Câmaras querem mandar nos professores: e nós deixamos?…

A municipalização da Educação ainda não está em vigor. Mesmo que estivesse, o acordo entre Governo e autarquias deixa os professores sob a tutela das direcções, como até aqui, e não das câmaras municipais. A gestão pedagógica também não está incluída nas competências a transferir para o poder local. Ainda assim, vão surgindo os sinais de que já há autarquias ansiosas por começar a mandar nos professores, dispondo do seu tempo e formatando-os à medida dos seus “projectos”…

A Câmara Municipal de Matosinhos, através de uma ação designada “Escolicidade em Matosinhos” e com a colaboração das Direções dos Agrupamentos, está a tentar impor aos professores do 1.º Ciclo a frequência de uma ação de formação para utilização de uma plataforma digital na aprendizagem dos alunos, num claro objetivo de utilizar os professores do 1.º Ciclo, colocando-os ao serviço da Câmara Municipal, interferindo na suas práticas letivas e sobrecarregando ainda mais os seus horários.

A formação de professores tem um enquadramento legal, que aqui me parece estar a ser claramente ultrapassado. Não me consta que a Câmara de Matosinhos esteja acreditada como entidade formadora de professores, pelo que, do ponto de vista legal, este tipo de “formações” valem zero. Por outro lado, a formação, sendo obrigatória, realiza-se na componente não lectiva de estabelecimento. Pelo que só tem de ser cumprida se for determinada pela escola, realizada dentro do tempo semanal previsto e com dispensa de outras actividades não lectivas. Se estas regras não são cumpridas, e havendo ainda para mais um pré-aviso de greve que cobre estas situações, os professores visados só têm uma coisa a fazer, que é unirem-se na recusa clara de uma imposição ilegal e claramente abusiva. E pura e simplesmente não comparecerem na dita “formação”.

Para finalizar com uma ilustração apropriada, nada melhor do que esta imagem que encontrei há pouco no Twitter. Ela mostra como estaríamos nós, os professores, se nos dessem dinheiro cada vez que alguém nos diz como devemos fazer o nosso trabalho…

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Formatação e propaganda

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Com a nova situação política, anunciada como de reversão e repetindo o refrão da “valorização” da classe docente, seria de esperar uma inflexão. Que aconteceu, é verdade, mas no sentido de transformar quase toda a formação em momentos de propaganda em torno das crenças pessoais de uma clique político-académica. E passou a existir uma vaga de “formações” (ou algo apresentado como tal) em que avulta a presença de um governante ou de um dos seus emissários mais próximos em digressão pelo país a espalhar a palavra dos novos decretos (mesmo antes da sua aprovação). Sendo que nem existe a liberdade de escolha acerca da frequência, porque surgem em forma de convocatória de presença obrigatória, por vezes extensiva a parte dos alunos.

A “formação” passou a confundir-se com uma variante de comício, com direito a discursos sem contraditório e aclamação de pé, a menos que se aspire ao index local. A par da proletarização docente, aposta-se numa desqualificação profissional, desprezando-se a actualização dos conhecimentos científicos, de acordo com uma ideologia que volta a promover um pretenso saber “holístico” em construção. Associada à ruptura geracional que já se verifica no recrutamento docente, esta opção terá graves efeitos a médio prazo. Porque, ao contrário de certos chavões simplistas, só pode ensinar quem sabe.

De uma forma pedagógica, Paulo Guinote desvenda nas páginas do Público as aventuras e as desventuras da formação de professores. Instituída como um direito e um dever profissional pelo Estatuto da Carreira Docente, do qual também depende a progressão na carreira, a formação contínua floresceu, nos anos 90 do século passado, com a injecção de avultadas verbas provenientes de fundos europeus. Mas foi sol de pouca dura. Os cortes nos financiamentos, o redimensionamento da rede de centros de formação, o fim das dispensas para formação e, sobretudo, os congelamentos da carreira, que tornaram inúteis muitos dos créditos obtidos nas acções frequentadas, tudo isto levou a uma redução substancial, em quantidade e em qualidade, da oferta formativa.

Com o lurdes-rodriguismo nasceu e começou a consolidar-se um novo paradigma na formação contínua de professores, que os governos seguintes não contrariaram: as acções deixaram de estar focadas nos interesses e necessidades sentidas pelos professores e na actualização de conhecimentos nas respectivas áreas científicas, passando a privilegiar a implementação de modas pedagógicas e tecnológicas adoptadas pelos governantes de turno e ditadas pelos lobbies mais influentes em cada momento.

De uma formação mais crítica e reflexiva, centrada nos próprios formandos, passou-se a um programa de formações oficiais, em que formadores escolhidos directamente pela hierarquia ministerial transmitiam, a uma plateia de professores nomeados ou “convidados” pelas direcções escolares, a boa nova educativa. A formação tornou-se formatação; o pensamento crítico e reflexivo deu lugar à sessão de propaganda. Instalou-se, na definição feliz de Paulo Guinote, um “modelo assente na mera replicação da ideologia dominante e em formações de tipo doutrinário”.

Este é o modelo de quem não reconhece na classe docente a capacidade de reflectir sobre as suas práticas pedagógicas, de identificar interesses e prioridades formativas, de criar e transmitir autonomamente o seu próprio saber profissional. Há uma contradição de fundo naqueles que acreditam na capacidade dos alunos de construírem o seu conhecimento, mas ao mesmo tempo desconfiam dos professores. E acham que estes carecem de ser continuamente doutrinados e formatados pelos pedagogos do regime. Alunos que aprendem sozinhos com a ajuda do dr. Google e professores que precisam de ser ensinados à moda antiga: gira um mundo às avessas nas cabeças pensadoras que dirigem o ME…