Bons alunos não querem ser professores? Que entrem os maus, diz o CNE…

exam-question[1]O Conselho Nacional de Educação (CNE) pretende que os futuros professores do 1.º ciclo de escolaridade voltem a não precisar de um exame de Matemática para ingressarem nos cursos do ensino superior que conferem a habilitação para docência. Esta é uma das propostas aprovadas este mês pelo CNE, um órgão consultivo do Parlamento e do Governo, no âmbito de uma recomendação sobre qualificação e valorização de educadores e professores dos ensinos básico e secundário.

Segundo o CNE, a obrigatoriedade de uma prova de Matemática tem “estrangulado ainda mais o ingresso de alunos em cursos de formação de professores”, que estão a ficar sem candidatos. Por essa razão, defende o CNE, devem ser elaboradas novas regras de acesso às licenciaturas em Educação Básica e revogar-se a deliberação da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior que, em 2015, instituiu como prova de ingresso obrigatória o exame a uma das disciplinas de matemática do secundário. O exame de Português é a outra prova exigida.

Discordo absolutamente da solução que o CNE tenta encontrar para a redução do número de candidatos aos cursos de formação de professores do ensino básico. Para a maioria dos conselheiros acácios da Educação, o facilitismo que emana das políticas do ME parece ser contagioso: se resolvemos os problemas de aprendizagem ajustando os currículos, as práticas pedagógicas e os instrumentos de avaliação à vontade – ou à falta dela – de cada aluno, porque não fazer o mesmo com a formação de professores?

Na prática, é isto: os bons alunos não querem ser professores? Não há problema, vamos formar para a docência os maus alunos. Uma solução que poderia fazer sentido se estivéssemos a falar de uma das muitas profissões que, com o advento das novas tecnologias e processos organizacionais, se tornaram menos exigentes nas qualificações dos trabalhadores. Nenhum caixa de supermercado precisa hoje de saber fazer contas manualmente ou sequer calcular mentalmente o troco a entregar ao cliente. Pois a máquina registadora, convertida em sofisticado terminal de computador, diz-lhe tudo o que precisa de saber. Em contrapartida, não devemos pensar no professor como um mero aplicador de programas curriculares e estratégias de aprendizagem, que não domine em profundidade as matérias que deve ensinar. Ou, pelo contrário, será que é isso mesmo que na verdade se pretende? Na verdade, um corpo docente formado por profissionais sem uma base sólida de conhecimentos científicos nas suas áreas de leccionação é uma das receitas mais eficazes para prosseguir o caminho da domesticação e proletarização da docência há muito iniciado…

Voltando ao parecer do CNE e à forma como tenta fundamentar o abaixamento da fasquia no acesso aos cursos de professores, encontramos aquele raciocínio muito comum a um certo chico-espertismo à portuguesa: o de quem sobrevaloriza a sua esperteza, sem contar com a inteligência dos outros. E, sobretudo, sem ser capaz de ver além do imediato nem de considerar a longo prazo as consequências dos seus actos.

Na sua recomendação, o CNE refere que aquilo “que os alunos aprendem no ensino secundário não é a Matemática que vão ter de aprofundar a nível superior para serem futuros professores”, que os tópicos necessários para esta função são os que foram trabalhados até ao 9.º ano e que, por isso, não existe uma “relação directa entre a realização de um exame de Matemática do ensino secundário e o conhecimento matemático necessário para um bom desempenho enquanto professor”.

Para o garantir, defende o CNE, deverá sim ser instituído, “durante a licenciatura, um tempo complementar ou integrado de formação científica em Matemática”.

Vamos ver se nos entendemos: o que a docência no ensino básico necessita não é que os professores tenham aprendido no secundário a Matemática que irão leccionar no básico. Nunca se pediu isso, nem se está a exigir que sido bons especificamente a Matemática. O que é fundamental é recrutar os futuros professores de entre os bons alunos, ponto final.

Um bom professor do primeiro ciclo necessita de dominar de forma segura diversas áreas, desde o Português e a Matemática às diversas expressões. Exigir o exame de Matemática – que até pode ser a Matemática B do curso de Artes Visuais ou a MACS das Humanidades – não é uma exigência disparatada. Parece-me essencial para garantir que não teremos, entre os futuros professores do ensino básico, antigos alunos fugidos à Matemática no secundário que venham a contribuir, não só para um ensino deficiente, como para uma rejeição atávica da disciplina que parece ainda persistir nalguns sectores da nossa sociedade…

Os sistemas educativos mais bem sucedidos comprovam que é seleccionando entre os melhores alunos no acesso à profissão que se conseguem obter os melhores professores. E não, como se insiste por cá, com sistemas burocratizados de avaliação do desempenho. Ou, como se fez no tempo de Lurdes Rodrigues, com formações avulsas para tentar colmatar falhas na formação inicial dos professores.

Começar a formar hoje os bons professores de que iremos necessitar no futuro próximo é algo que não se consegue com medidas facilitistas como a que o CNE irresponsavelmente propõe. Passa, isso sim, por tornar a profissão mais aliciante e atractiva, abrindo efectivamente o acesso a novos profissionais, melhorando as condições de trabalho nas escolas e dignificando, não com meras palavras mas com acções concretas, o estatuto e a dignidade dos professores. Um programa demasiado exigente, talvez, para a geração de políticos medíocres e de vistas curtas que tem dominado a governação do país.

Conselhos às futuras professoras

senhorita-rotesmeier.jpgSeñorita Rotesmeyer é como assina uma professora espanhola do ensino básico que sigo no Twitter. Um destes dias, a propósito de um diálogo com algumas caloiras dos cursos de Ciências da Educação, brindou-nos com uma sequência de tweets que traduz uma interessantíssima reflexão sobre a profissão de professor. E que não quis deixar de partilhar. A tradução e adaptação dos textos é da minha responsabilidade.

Hoje algumas alunas do 1.º ano de Ciências da Educação vieram  fazer-me umas perguntas. Entre elas: – “Qual é a melhor metodologia para a sala de aula?”

– A que funcione com o teu grupo. Não te deixes levar por modas. Experimenta daqui e dali. E o que resultar com as características e peculiaridades do teu grupo, essa será a metodologia perfeita. Se insistimos em fazer funcionar algo que não serve para o teu grupo, só porque a maioria o faz, estarás fechando portas, e a escola serve para abrir o mundo a esses meninos e meninas.

Outra: – “Pensas o mesmo sobre educação que quando começaste?”

– Não. Quando terminas o curso és idealista e tens uma visão da escola baseada nas pedagogias estudadas e no lado bonito. Quando começas a enfrentar problemas, descobres a realidade. E quão difícil é às vezes ter as ferramentas necessárias para resolver muitos aspectos que nos escapam das mãos. Queremos “salvar” cada criança de ambientes complicados, queremos ajudar em situações para as quais não estamos preparados. E é quando aceitas que não podes fazer tudo, que descobres verdadeiramente o sentido de educação.

E no final, a que eu mais gostei: – “Que tens para nos dizer a nós, que só há seis meses estudamos para ser professoras?”

– Digo-vos que acreditem em vocês próprias e no importante trabalho que irão desenvolver. Sois um elo imprescindível ao futuro da sociedade. Sois as criadoras de todas as profissões. Sois as que dão asas para voar aos vossos alunos.

– E digam o que disserem, critiquem o que criticarem, nunca esqueçam que toda a criança que passe pelas vossas mãos merece o maior respeito e carinho. Um dia, muitos anos depois, só posso desejar-vos que olhem para trás e se sintam tão orgulhosas como naquele dia em que pensaram: EU QUERO SER PROFESSORA. Que nunca se esqueçam.

Formação de professores em… exorcismo!

exorcismo.gifVade retro Satanás, é caso para dizer!…

Em Portugal, a caça aos créditos necessários à progressão na carreira docente ainda não levou a isto, mas já estivemos mais longe. Apesar do governo de esquerda, laico e republicano, as formações contínuas para professores, focadas em temas pseudo-científicos e esoterismos variados vão irrompendo por aí…

Nada que chegue, contudo, ao que presentemente sucede em Itália. O Ministério da Educação local decidiu propor a professores e sacerdotes a frequência de um curso de formação em exorcismo. Pela módica quantia de 400 euros, a desembolsar pelos interessados…

O seu objectivo é “descrever, analisar e compreender os aspectos particulares do ministério do exorcismo e a oração de libertação, aprofundando tanto os temas directamente relacionados com o exorcismo e a sua prática correcta, como em assuntos relacionados de antropologia, medicina, criminologia”, entre outros.

Reagindo a esta decisão, sectores da oposição não poupam críticas ao governo italiano, já considerado “o mais obscurantista de todos os tempos”. Mas quando o próprio ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, se mostra publicamente preocupado pelo problema das “seitas satânicas”, percebe-se esta deriva da extrema direita contra os espíritos malignos está solidamente ancorada a nível governamental. A guerra contra os diabos e os diabretes que assombram a sociedade e a política italianas é uma luta para a qual todos são mobilizados. E, como já se percebeu, nem os professores escapam à chamada do ultra-direitista Salvini…

“Não desvalorizemos o problema das seitas satânicas, é necessário confiar nos especialistas para que nos ajudem a combatê-lo. É um fenómeno preocupante, aparentemente afastado da vida diária, mas muito mais próximo e frequente do que se pensa”.

Formação em… fake news

fakenewsO Ministério da Educação (ME) e o Sindicato dos Jornalistas (SJ) vão assinar este sábado um protocolo para dar formação na área dos meios de comunicação social a professores. A formação responde à “urgência de formar cidadãos informados”, num tempo que as fake news (notícias falsas) estão na ordem do dia, indica o ME numa nota enviada esta sexta-feira à comunicação social. E pretende chegar às gerações mais novas através da escola.

Numa altura em que “o poder das redes sociais emerge, é urgente formar cidadãos informados, conscientes e participativos para o futuro colectivo”, diz a nota. O objectivo, explica, é desenvolver mais competências “de professores, e por conseguinte, de alunos” em “matérias de consumo informado e crítico dos conteúdos difundidos pelos meios de comunicação social”. E disponibilizar aos professores metodologias, recursos e ferramentas que poderão usar nas actividades de Literacia dos Media em contexto de sala de aula.

A lógica é sempre a mesma: os professores são retrógrados, os seus conhecimentos estão ultrapassados e precisam de ser actualizados nas competências do século XXI. Pegue-se então num tema da moda – as fake news – e ‘bora lá fazer umas formações fixes para o pessoal, que os infelizes não devem ter coisa melhor para fazer a um sábado.

A perplexidade surge quando se percebe que a nova área de formação surge de uma parceria com o Sindicato dos Jornalistas e que metade dos formadores serão, justamente, profissionais dos media. É que quase todos os dias vejo jornais e jornalistas a veicular informação falsa ou tendenciosa, a omitir verdades e a propagar mentiras e factos alternativos, a misturar informação e opinião, a tomar como verdadeiros e a divulgar sem contraditório  os comunicados governamentais e as notícias plantadas, a mando de interesses políticos e económicos, na comunicação social.

Julgo, na minha ingenuidade, que em vez de quererem ensinar os professores a precaver-se, e a alertar os seus alunos, sobre o perigo das notícias falsas, deveriam antes ensinar os seus colegas de profissão a noticiarem com verdade, isenção, objectividade e rigor. Aquele b-á-bá que encontramos em qualquer manual de Iniciação ao Jornalismo e que tantas vezes parece, nos dias de hoje, letra morta.

Infelizmente, não é preciso ir para as redes sociais para encontrar informação falsa e manipulada. Ela está presente, vezes sem conta, nos media em que deveríamos poder confiar. Os profissionais da informação prestam-se demasiadas vezes ao papel de desinformar. Ou de se limitarem a servir de pé de microfone quando deveriam questionar e confrontar.

Sugerir que a culpa de as notícias falsas se propagarem com tanta facilidade é – uma vez mais! – da escola e dos professores, que não preparam os seus alunos para as novas “literacias”, parece-me um lamentável exercício de hipocrisia.

O privado gere melhor…

ponces-alunaA gestão prepotente, os abusos de poder, as suspeitas de abusos e irregularidades, tudo protagonizado pela figura algo ridícula que já foi presença regular nas matinés televisivas: não são de agora os indícios de que muita coisa vai mal numa instituição de ensino que já foi referência na formação de educadores e professores do ensino básico…

António Ponces de Carvalho não está feliz. O diretor da Associação de Jardins Escolas João de Deus diz-se apanhado de surpresa com o que se tem escrito na Internet nos últimos dias – em blogues e grupos do Facebook – sobre ele e a sua gestão na instituição que dirige desde 2000. Haveria de se despedir da SÁBADO três horas depois manifestando a indignação por não termos falado “das coisas boas” e só termos mostrado interesse nos “assuntos de merda.”

Que assuntos foram esses? Por exemplo, as viagens que faz todos os anos com as finalistas da Escola Superior de Educação João de Deus.

Outros assuntos que pode ler na SÁBADO: os gastos da associação com as viagens do diretor, o safari de luxo no Quénia e na Tanzânia antes de uma reunião da organização Mundial de Educação Pré Escolar, a viagem às Ilhas Virgens em 2017 e o segredo das contas de uma insituição que é IPSS e tem isenções fiscais e subsídios do Estado de 8 milhões de euros. 

E ainda todo o ambiente interno com os professores: as baixas psiquiátricas, os comunicados internos agressivos, a pressão das avaliações e dos roulements, a famosa “inspetora” Filomena Caldeira (currículo aqui) que teve um processo por assédio moral, a fuga de professores em Dezembro e a luta fratricida com um irmão que vive no Japão.

Os piores alunos vão para professores?

Em tempos de crise do jornalismo percebe-se o recurso a títulos sensacionalistas para atrair o leitor cada vez mais fugidio. Ainda assim, parece-me que se exagerou um pouco na edição escrita do Público de ontem, ao sugerir que os alunos mais fracos a Português são precisamente os que vão para cursos de formação de professores.

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No interior do jornal, o corpo da notícia adensa ainda mais o aparente paradoxo: os melhores alunos a Português vão para Medicina, para as engenharias, as ciências da vida e da saúde. Já os que obtêm mais baixos resultados no exame de Português enveredam mais pelas áreas do ensino, dos serviços, das artes e das humanidades.

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Claro que a explicação é simples e não vale a pena alimentar confusões: como se sabe, os cursos superiores que têm elevada empregabilidade são os mais pretendidos pelos candidatos ao ensino superior. E como o principal critério de selecção é a média das classificações do Secundário, é natural que para os cursos com média mais elevada entrem os melhores alunos. A Português e às outras disciplinas…

Evidentemente, sem uma política de renovação da classe docente, os cursos de professores formam para o desemprego. E, nestas circunstâncias, tornam-se pouco atractivos e tendem a reunir alunos que estão ali porque não conseguiram entrar noutro curso mais aliciante.

Também não é difícil perceber como se poderia, em poucos anos, inverter esta situação de todo indesejável. Passaria por uma redução substancial das vagas nos cursos de formação de professores em paralelo com a abertura, todos os anos, de um número de novos lugares para a docência que garantisse aos novos profissionais – ou pelo menos aos melhores de entre eles – o acesso à profissão. É assim que se faz noutros lados – e resulta. Não é preciso inventar a pólvora. Basta copiar os bons exemplos.

Entre os países que obtêm melhores resultados na Educação, poucos ou nenhuns terão um sistema de avaliação de professores tão burocrático e rebuscado como o nosso. Em contrapartida, todos investem a sério no sistema de recrutamento e formação de professores, de forma a garantir a selecção dos melhores profissionais para a docência. Tudo isto complementado, claro, com uma carreira digna e adequadas condições de trabalho. Escolher os melhores, investir na sua formação, apoiá-los e incentivá-los ao longo da sua carreira docente: precisamente o oposto do que se insiste em fazer por cá…

Câmaras querem mandar nos professores: e nós deixamos?…

A municipalização da Educação ainda não está em vigor. Mesmo que estivesse, o acordo entre Governo e autarquias deixa os professores sob a tutela das direcções, como até aqui, e não das câmaras municipais. A gestão pedagógica também não está incluída nas competências a transferir para o poder local. Ainda assim, vão surgindo os sinais de que já há autarquias ansiosas por começar a mandar nos professores, dispondo do seu tempo e formatando-os à medida dos seus “projectos”…

A Câmara Municipal de Matosinhos, através de uma ação designada “Escolicidade em Matosinhos” e com a colaboração das Direções dos Agrupamentos, está a tentar impor aos professores do 1.º Ciclo a frequência de uma ação de formação para utilização de uma plataforma digital na aprendizagem dos alunos, num claro objetivo de utilizar os professores do 1.º Ciclo, colocando-os ao serviço da Câmara Municipal, interferindo na suas práticas letivas e sobrecarregando ainda mais os seus horários.

A formação de professores tem um enquadramento legal, que aqui me parece estar a ser claramente ultrapassado. Não me consta que a Câmara de Matosinhos esteja acreditada como entidade formadora de professores, pelo que, do ponto de vista legal, este tipo de “formações” valem zero. Por outro lado, a formação, sendo obrigatória, realiza-se na componente não lectiva de estabelecimento. Pelo que só tem de ser cumprida se for determinada pela escola, realizada dentro do tempo semanal previsto e com dispensa de outras actividades não lectivas. Se estas regras não são cumpridas, e havendo ainda para mais um pré-aviso de greve que cobre estas situações, os professores visados só têm uma coisa a fazer, que é unirem-se na recusa clara de uma imposição ilegal e claramente abusiva. E pura e simplesmente não comparecerem na dita “formação”.

Para finalizar com uma ilustração apropriada, nada melhor do que esta imagem que encontrei há pouco no Twitter. Ela mostra como estaríamos nós, os professores, se nos dessem dinheiro cada vez que alguém nos diz como devemos fazer o nosso trabalho…

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