Quatro propostas para resolver a falta de professores de Informática

logoAnprA ANPRI, associação profissional que representa os professores do grupo 550 – Informática, mostra-se legitimamente preocupada com a falta de docentes nesta área. Uma tendência que se nota também noutros grupos de recrutamento, mas que aqui não se pode justificar pelo envelhecimento da classe e o aumento das aposentações, pois o grupo de Informática é de criação relativamente recente – só existe desde 1997.

Em documento recentemente divulgado, a ANPRI reflecte sobre as causas da falta crescente de professores no sistema educativo. E, no caso específico da Informática, não é difícil encontrar bloqueios significativos ao recrutamento de professores: a insuficiência de formações específicas para a docência e a pouca atractividade das mesmas e o crescimento da oferta laboral, em quantidade e qualidade, para diplomados na área. Quem é que quer ir dar aulas, com a profissão docente pelas ruas da amargura, quando tem disponíveis empregos bem mais compensadores e desafiantes, a todos os níveis, no sector empresarial?

Com base na realidade actual, a associação apresenta quatro propostas para dar resposta ao problema da falta de professores no GR 550. Pensando especificamente nos professores que representa, mas apontando ideias que também serão válidas e aplicáveis a outros grupos de recrutamento. Assim compreenda o Governo a urgência de criar, desde já, as condições para que não faltem professores qualificados no nosso sistema de ensino ao longo da próxima década.

Propostas da ANPRI para dar resposta ao problema da falta de docentes no Grupo de Recrutamento 550

1. Curto Prazo: Proposta com impacto imediato no próximo ano letivo

A. Revisão da Portaria n.º 814/2005, de 13 de setembro, de modo que, excecionalmente, por 2 ou 3 anos letivos, seja alterado o limite de horas autorizadas para acumulação e horas extraordinárias, com limite máximo entre 7 a 10 horas. Aplicável, após esgotados os procedimentos e fases de concursos definidos na legislação (colocação nacional interna, externa, bolsas de recrutamento, concurso de escola) poder atribuir aos docentes de quadro AE/ENA e contratação de escola.

B. Atualizar a listagem de cursos homologados para a docência com habilitação própria

2. Curto Prazo/médio: Proposta com impacto (2 a 3 anos)

C. Reabrir a Profissionalização em Serviço, gratuitamente, nas Instituições de Ensino Superior, reajustando o modelo que já existiu e alargando o âmbito do despacho, ainda, em vigor para casos específicos (Despacho n.º 7424/2018)

3.Médio/longo prazo

D. Criar incentivos para atrair para os cursos de formação de docentes

Inovação pedagógica ou dinheiro fresco?

Apesar de partilhado no maior grupo de professores no Facebook, o comentário de Paulo Serra merece ser lido e discutido também fora daquela rede social.

paulo-serra.JPG

A verdade é que são tudo menos originais as propostas flexibilizadoras do currículo, a valorização dos reais ou imaginários “saberes do aluno”, a pedagogia construtivista, o trabalho de projecto, as abordagens inter e transdisciplinares da aprendizagem. Estão na génese e nos fundamentos de correntes pedagógicas que entre nós tiveram e têm expressão, por exemplo, no Movimento da Escola Moderna ou no conhecido projecto da Escola da Ponte. No final dos anos 90, um outro governo socialista tentou generalizar estas ideias com mais uma reforma educativa, na qual pontificavam a então chamada gestão flexível do currículo, a área de projecto, as aulas de 90 minutos. Tudo insuflado por uma retórica tão pedante e palavrosa como oca e vazia de substância: o eduquês.

Hoje, tudo isto está em plena recuperação. Tenta-se reciclar, com o recurso às novas tecnologias, teorias educativas datadas e que, quando generalizadas, pouco ou nada fizeram pela melhoria concreta das aprendizagens escolares e, por essa razão, foram progressivamente abandonadas. Exploram-se, em centenas de acções de forma(ta)ção pelo país fora, as potencialidades dos dispositivos electrónicos e do trabalho em rede para recriar a “aprendizagem activa” que antes se promovia a consultar bibliotecas, a organizar debates ou a elaborar cartazes. Uma ideia que faria sentido, se houvesse um investimento efectivo em tecnologias educativas. No entanto, a única coisa que vemos é a instalação de umas quantas salas de aula ditas do futuro em escolas seleccionadas, servindo esporadicamente um número residual de alunos. Enquanto nas salas “normais” os equipamentos ainda funcionais se vão degradando irremediavelmente.

Assim sendo, a que se reduz toda a inovação educativa, nos tempos da flexibilidade e da inclusão? Basicamente, àquilo que Paulo Serra denuncia: há dinheiro europeu para formação, e é isso que se vai fazendo. Multiplicam-se as acções onde se anuncia a boa nova educativa que os professores vão ouvindo e reproduzindo, nem sempre com muita convicção. Mas não se criam as condições necessárias para a mudança. A sensação que fica é que predomina o show-off: todos querem ficar bem na fotografia mas, em última análise, tudo isto durará apenas enquanto houver dinheiro fresco para gastar…

Professores generalistas

professor-faz-tudoO princípio é simples e presente em todas as escolas do sistema de ensino inglês: o professor está habilitado para ensinar e, ao estar habilitado para ensinar, ensina. E ao ensinar, ensina qualquer disciplina. É assim desde o dia em que aqui cheguei, a 5 de Setembro de 2007. Já era assim. Vai continuar a ser.

Ao que parece, e de acordo com notícias recentes, em Portugal o Governo decidiu importar esta medida. Pelas mesmas razões: a falta de professores, seja por doença, mobilidade ou reforma. E são muitos a reformarem-se. Mais de metade dos professores em Portugal nos próximos 10 anos. Por isso preparem-se.

Nem sempre compartilho as posições e opiniões de João André Costa, mas desta vez subscrevo inteiramente o teor da sua última crónica no Público. De facto, as recentes orientações dadas às escolas para colocar professores com horas disponíveis a leccionar disciplinas que não correspondam exactamente à sua habilitação profissional podem ser, como pensarão os mais optimistas, apenas uma tentativa de minimizar o problema da falta de professores. Mas também assinalar o princípio de algo que deve ser desde já denunciado e que nos deve manter vigilantes: se as medidas agora excepcionais se tornarem regra para o futuro, iremos assistir a um retrocesso de décadas na formação e na qualidade do corpo docente.

Digo retrocesso, porque a realidade que ainda hoje é comum nos países anglo-americanos foi  dominante, entre nós, pelo menos até à década de 80: a ausência de regras rígidas em relação a habilitações para a docência, permitindo-se o acesso à profissão a docentes sem formação pedagógica, muitas vezes sem um curso superior completo. Nalguns casos dando aulas em part-time, complementando o rendimento da profissão principal, noutros pouco mais sabendo, sobre as matérias, do que os alunos a quem tinham de ensinar.

No entanto, progressivamente, a nossa realidade mudou: os cursos de formação de professores, integrando obrigatoriamente uma componente pedagógica, generalizaram-se. O acesso à profissão foi-se restringindo aos docentes com habilitação profissional. E o mestrado tornou-se obrigatório para os novos professores.

Neste processo de elevação progressiva da qualidade das formações e da prática docente houve, contudo, algo que falhou: tanto o acesso aos quadros como as contratações anuais têm vindo a diminuir nos últimos vinte anos, ao mesmo tempo que as universidades e escolas superiores de educação continuaram a despejar, no mercado de trabalho, milhares de docentes profissionalizados sem hipótese de colocação.

As expectativas frustradas de toda uma geração – são raros, nas escolas públicas, os professores com menos de 40 anos – tiveram o resultado perverso de afastar definitivamente docentes com muito para dar aos seus alunos e ao sistema educativo, ao mesmo tempo que tornaram os cursos de professores dos menos apetecidos: afinal de contas, quem quer formar-se numa área onde a alternativa ao desemprego, quando existe, é a precariedade das colocações temporárias, a deslocação para longe de casa e o mísero salário que, sobretudo quando se tem horário incompleto, pode nem chegar para as despesas?…

E assim chegámos ao ponto em que nos encontramos, uma situação perfeitamente previsível e para a qual os professores mais atentos foram fazendo os necessários alertas: um corpo docente envelhecido, do qual perto de metade estará em condições de aposentar ao longo dos próximos dez anos, e um sistema de formação inicial que está longe de dar resposta, em qualidade e quantidade, às necessidades futuras de docentes.

Junte-se a isto a pouca atractividade que a profissão docente tem actualmente – muito por culpa de políticas passadas e actuais tendentes a desqualificar profissionalmente, desmoralizar e até humilhar os professores – e percebe-se que não haverá golpes de magia nem coelhos saídos da cartola que possam resolver, no imediato, o problema da falta de professores. Que se manifesta para já apenas em determinadas zonas do país e alguns grupos de recrutamento, mas que se será apenas uma questão de tempo para que se venha a generalizar.

Quando os responsáveis deixarem cair o principal pilar de exigência dos concursos nacionais de docentes – a habilitação profissional – estará dado o sinal para o irreversível declínio da escola pública portuguesa e da profissão de professor.

Um professor “rasteiro” se confessa

praying-silhouettes-7884141.jpgQuando vi, por mero acaso, a lista dos medalhados num recente congresso “pró-inclusão”, chamou-me a atenção o facto de eu também lá constar, integrado num colectivo designado por “professores portugueses”. À partida nada teria a opor, embora pessoalmente prefira outro tipo de homenagens: aquelas que realmente dignificam e valorizam os profissionais da educação. O que passa por confiar no trabalho que realizam, respeitar a sua autonomia profissional e melhorar as condições em que trabalham quotidianamente.

O que na verdade me incomodou foram as más companhias: nesta altura do campeonato, qual é o professor que se preze que aceita ser homenageado ao lado de pessoas como Ariana Cosme ou João Costa? Poderá haver quem ache que os mentores da flexibilidade e da inclusão ficarão para a história da Educação portuguesa. Lamento, não sou dessa opinião. Espero que não fiquem e creio que, se isso suceder, será essencialmente por más razões. Razões essas que tenho, ao longo de dezenas de posts, explanado por aqui.

Volto ao assunto porque constatei que o post original teve alguma repercussão na rede social favorita dos professores. Parece que o dono das inclusões e das pró-inclusões não gostou que um professor sem pedigree académico ousasse criticar, ainda que indirectamente, as suas nomeações.

A prosa é breve mas elucidativa de algo de que muitos de nós nos fomos apercebendo: o discurso fofinho e inclusivo funciona enquanto dizemos ámen aos sábios da flexibilidade inclusiva. Quando se ousa duvidar, criticar, ensaiar pontos de vista divergentes, o verniz não demora a estalar. A arrogância balofa e o argumento da autoridade prevalecem: quem são esses professores “rasteiros” que ousam criticar as nossas escolhas, a nossa sapiência? Esses reles “práticos”, a laborar no erro e no saber de experiência feito? Não percebem que se não fôssemos nós, os académicos que desenvolvem a teoria, dominam o conceito, determinam a “ética”, ainda estariam a ensinar, não na escola do século XIX, mas mergulhados nas profundezas do ensino medieval?

O discurso é lamentável mas, infelizmente, nada surpreendente. Ressoa os dogmas e a intolerância que a entourage de João Costa e os seus acólitos tentam impor como boa nova educativa, para o século XXI e mais além. Com gente desta, o bate-boca é geralmente pouco profícuo. Ainda assim, importa resumir aqui, de forma clara, o meu pensamento, até porque não irei debater o assunto noutros sítios.

Antes de mais, não me revejo na falsa dicotomia entre o saber teórico, “conceptual”, “ético” dos doutores da faculdade e a “prática rasteira” dos professores no terreno. Se há académicos que, em pleno século XXI, ainda precisam de argumentar desta forma, então algumas academias andarão ainda bem piores do que eu pensava… 

Na verdade, é tão limitativo o saber experiencialista como o é a reflexão teórica desligada do trabalho prático. Sobretudo numa área como a pedagogia, que é, no essencial, uma praxis. O que seria de esperar, e que eu defendo, é uma ligação mais frutuosa entre os autoproclamados cientistas da educação e os professores que trabalham nas escolas. Que aqueles tenham a humildade de observar a realidade, de descer ao terreno e comprovar que nem sempre as elaborações teóricas convivem bem com o que é possível e desejável concretizar na prática. Que sejam capazes de valorizar a nossa experiência nas escolas, com alunos concretos e não as meras abstracções que povoam os diplomas legais, os papers e as comunicações aos congressos.

Quanto aos professores no terreno, assoberbados no trabalho diário com dezenas, às vezes centenas, de alunos diferentes, é importante reconhecer que necessitam de tempos, espaços e oportunidades para estudar, aprender e reflectir, regularmente, sobre a sua profissão. Os professores precisam de mais e melhor formação, diz-se frequentemente. Com a colaboração de universitários de diversas áreas, certamente. Mas essa necessidade não pode ser satisfeita remetendo-os ao papel de receptáculos passivos das formatações ministeriais que têm abundado nos últimos tempos. Como trabalhadores intelectuais, os professores devem ser construtores activos e críticos do seu próprio conhecimento profissional. Essa é a primeira e a mais importante dimensão de uma autonomia pedagógica de que muito se fala mas que pouco se valoriza.

O que se tem feito é praticamente o oposto: afogar a profissão em burocracia, ao mesmo tempo que se aumentam as cargas lectivas e não lectivas nos horários. Extenuar os professores pelo stress e o cansaço, o que é uma estratégia clara no sentido de domesticar a profissão, impedindo o desenvolvimento de uma cultura profissional autónoma e transformando os professores em meros reprodutores, obedientes e acríticos, de todas as modas educativas. Uma política que vem de longe e à qual a trupe da flexibilidade inclusiva deu, e continua a dar, um forte impulso.

É por isso que com eles, e enquanto a política for esta, não quero cá medalhinhas…

Bons alunos não querem ser professores? Que entrem os maus, diz o CNE…

exam-question[1]O Conselho Nacional de Educação (CNE) pretende que os futuros professores do 1.º ciclo de escolaridade voltem a não precisar de um exame de Matemática para ingressarem nos cursos do ensino superior que conferem a habilitação para docência. Esta é uma das propostas aprovadas este mês pelo CNE, um órgão consultivo do Parlamento e do Governo, no âmbito de uma recomendação sobre qualificação e valorização de educadores e professores dos ensinos básico e secundário.

Segundo o CNE, a obrigatoriedade de uma prova de Matemática tem “estrangulado ainda mais o ingresso de alunos em cursos de formação de professores”, que estão a ficar sem candidatos. Por essa razão, defende o CNE, devem ser elaboradas novas regras de acesso às licenciaturas em Educação Básica e revogar-se a deliberação da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior que, em 2015, instituiu como prova de ingresso obrigatória o exame a uma das disciplinas de matemática do secundário. O exame de Português é a outra prova exigida.

Discordo absolutamente da solução que o CNE tenta encontrar para a redução do número de candidatos aos cursos de formação de professores do ensino básico. Para a maioria dos conselheiros acácios da Educação, o facilitismo que emana das políticas do ME parece ser contagioso: se resolvemos os problemas de aprendizagem ajustando os currículos, as práticas pedagógicas e os instrumentos de avaliação à vontade – ou à falta dela – de cada aluno, porque não fazer o mesmo com a formação de professores?

Na prática, é isto: os bons alunos não querem ser professores? Não há problema, vamos formar para a docência os maus alunos. Uma solução que poderia fazer sentido se estivéssemos a falar de uma das muitas profissões que, com o advento das novas tecnologias e processos organizacionais, se tornaram menos exigentes nas qualificações dos trabalhadores. Nenhum caixa de supermercado precisa hoje de saber fazer contas manualmente ou sequer calcular mentalmente o troco a entregar ao cliente. Pois a máquina registadora, convertida em sofisticado terminal de computador, diz-lhe tudo o que precisa de saber. Em contrapartida, não devemos pensar no professor como um mero aplicador de programas curriculares e estratégias de aprendizagem, que não domine em profundidade as matérias que deve ensinar. Ou, pelo contrário, será que é isso mesmo que na verdade se pretende? Na verdade, um corpo docente formado por profissionais sem uma base sólida de conhecimentos científicos nas suas áreas de leccionação é uma das receitas mais eficazes para prosseguir o caminho da domesticação e proletarização da docência há muito iniciado…

Voltando ao parecer do CNE e à forma como tenta fundamentar o abaixamento da fasquia no acesso aos cursos de professores, encontramos aquele raciocínio muito comum a um certo chico-espertismo à portuguesa: o de quem sobrevaloriza a sua esperteza, sem contar com a inteligência dos outros. E, sobretudo, sem ser capaz de ver além do imediato nem de considerar a longo prazo as consequências dos seus actos.

Na sua recomendação, o CNE refere que aquilo “que os alunos aprendem no ensino secundário não é a Matemática que vão ter de aprofundar a nível superior para serem futuros professores”, que os tópicos necessários para esta função são os que foram trabalhados até ao 9.º ano e que, por isso, não existe uma “relação directa entre a realização de um exame de Matemática do ensino secundário e o conhecimento matemático necessário para um bom desempenho enquanto professor”.

Para o garantir, defende o CNE, deverá sim ser instituído, “durante a licenciatura, um tempo complementar ou integrado de formação científica em Matemática”.

Vamos ver se nos entendemos: o que a docência no ensino básico necessita não é que os professores tenham aprendido no secundário a Matemática que irão leccionar no básico. Nunca se pediu isso, nem se está a exigir que sido bons especificamente a Matemática. O que é fundamental é recrutar os futuros professores de entre os bons alunos, ponto final.

Um bom professor do primeiro ciclo necessita de dominar de forma segura diversas áreas, desde o Português e a Matemática às diversas expressões. Exigir o exame de Matemática – que até pode ser a Matemática B do curso de Artes Visuais ou a MACS das Humanidades – não é uma exigência disparatada. Parece-me essencial para garantir que não teremos, entre os futuros professores do ensino básico, antigos alunos fugidos à Matemática no secundário que venham a contribuir, não só para um ensino deficiente, como para uma rejeição atávica da disciplina que parece ainda persistir nalguns sectores da nossa sociedade…

Os sistemas educativos mais bem sucedidos comprovam que é seleccionando entre os melhores alunos no acesso à profissão que se conseguem obter os melhores professores. E não, como se insiste por cá, com sistemas burocratizados de avaliação do desempenho. Ou, como se fez no tempo de Lurdes Rodrigues, com formações avulsas para tentar colmatar falhas na formação inicial dos professores.

Começar a formar hoje os bons professores de que iremos necessitar no futuro próximo é algo que não se consegue com medidas facilitistas como a que o CNE irresponsavelmente propõe. Passa, isso sim, por tornar a profissão mais aliciante e atractiva, abrindo efectivamente o acesso a novos profissionais, melhorando as condições de trabalho nas escolas e dignificando, não com meras palavras mas com acções concretas, o estatuto e a dignidade dos professores. Um programa demasiado exigente, talvez, para a geração de políticos medíocres e de vistas curtas que tem dominado a governação do país.

Conselhos às futuras professoras

senhorita-rotesmeier.jpgSeñorita Rotesmeyer é como assina uma professora espanhola do ensino básico que sigo no Twitter. Um destes dias, a propósito de um diálogo com algumas caloiras dos cursos de Ciências da Educação, brindou-nos com uma sequência de tweets que traduz uma interessantíssima reflexão sobre a profissão de professor. E que não quis deixar de partilhar. A tradução e adaptação dos textos é da minha responsabilidade.

Hoje algumas alunas do 1.º ano de Ciências da Educação vieram  fazer-me umas perguntas. Entre elas: – “Qual é a melhor metodologia para a sala de aula?”

– A que funcione com o teu grupo. Não te deixes levar por modas. Experimenta daqui e dali. E o que resultar com as características e peculiaridades do teu grupo, essa será a metodologia perfeita. Se insistimos em fazer funcionar algo que não serve para o teu grupo, só porque a maioria o faz, estarás fechando portas, e a escola serve para abrir o mundo a esses meninos e meninas.

Outra: – “Pensas o mesmo sobre educação que quando começaste?”

– Não. Quando terminas o curso és idealista e tens uma visão da escola baseada nas pedagogias estudadas e no lado bonito. Quando começas a enfrentar problemas, descobres a realidade. E quão difícil é às vezes ter as ferramentas necessárias para resolver muitos aspectos que nos escapam das mãos. Queremos “salvar” cada criança de ambientes complicados, queremos ajudar em situações para as quais não estamos preparados. E é quando aceitas que não podes fazer tudo, que descobres verdadeiramente o sentido de educação.

E no final, a que eu mais gostei: – “Que tens para nos dizer a nós, que só há seis meses estudamos para ser professoras?”

– Digo-vos que acreditem em vocês próprias e no importante trabalho que irão desenvolver. Sois um elo imprescindível ao futuro da sociedade. Sois as criadoras de todas as profissões. Sois as que dão asas para voar aos vossos alunos.

– E digam o que disserem, critiquem o que criticarem, nunca esqueçam que toda a criança que passe pelas vossas mãos merece o maior respeito e carinho. Um dia, muitos anos depois, só posso desejar-vos que olhem para trás e se sintam tão orgulhosas como naquele dia em que pensaram: EU QUERO SER PROFESSORA. Que nunca se esqueçam.

Formação de professores em… exorcismo!

exorcismo.gifVade retro Satanás, é caso para dizer!…

Em Portugal, a caça aos créditos necessários à progressão na carreira docente ainda não levou a isto, mas já estivemos mais longe. Apesar do governo de esquerda, laico e republicano, as formações contínuas para professores, focadas em temas pseudo-científicos e esoterismos variados vão irrompendo por aí…

Nada que chegue, contudo, ao que presentemente sucede em Itália. O Ministério da Educação local decidiu propor a professores e sacerdotes a frequência de um curso de formação em exorcismo. Pela módica quantia de 400 euros, a desembolsar pelos interessados…

O seu objectivo é “descrever, analisar e compreender os aspectos particulares do ministério do exorcismo e a oração de libertação, aprofundando tanto os temas directamente relacionados com o exorcismo e a sua prática correcta, como em assuntos relacionados de antropologia, medicina, criminologia”, entre outros.

Reagindo a esta decisão, sectores da oposição não poupam críticas ao governo italiano, já considerado “o mais obscurantista de todos os tempos”. Mas quando o próprio ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, se mostra publicamente preocupado pelo problema das “seitas satânicas”, percebe-se esta deriva da extrema direita contra os espíritos malignos está solidamente ancorada a nível governamental. A guerra contra os diabos e os diabretes que assombram a sociedade e a política italianas é uma luta para a qual todos são mobilizados. E, como já se percebeu, nem os professores escapam à chamada do ultra-direitista Salvini…

“Não desvalorizemos o problema das seitas satânicas, é necessário confiar nos especialistas para que nos ajudem a combatê-lo. É um fenómeno preocupante, aparentemente afastado da vida diária, mas muito mais próximo e frequente do que se pensa”.