A ilusão do voluntariado

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Foram os primeiros a aterrar em Lisboa. Para muitos, o trabalho começou antes de a arena abrir as portas. Vestem o já habitual azul-turquesa, para se destacarem na multidão. Falam todas as línguas do mundo. Da Polónia ao Panamá, não há nação que escape ao batalhão de voluntários recrutados para a Web Summit. Para não faltarem ao chamamento, tiram a semana de férias no trabalho ou fazem gazeta às aulas. Pagam para trabalhar mas não se importam. “O que conta é a experiência”, podia ser o mantra dos dois mil voluntários que ajudam a pôr de pé a maior cimeira de tecnologia do mundo.

Voluntários que aceitam trabalhar de graça, iludidos com a “experiência”, seduzidos pelo glamour do evento ou apenas com a possibilidade de entrar sem pagar bilhete.

Discursos “inspiradores” que nos ajudam a naturalizar a desigualdade, a especulação, o oportunismo, promovendo-os à categoria de novos valores universais.

Empreendedores que acreditam na multiplicação perpétua dos unicórnios e que a bolha das novas tecnologias continuará a inchar infinitamente.

Iniciativas e lucros privados altamente financiados com dinheiro público – 11 milhões de euros anuais que saem dos cofres públicos para pagar a festa.

Bem-vindos à nova economia do século XXI – e desculpem o indisfarçável cheiro a bafio…

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Queima das Fitas ou banho de cerveja?

04-CORTEJO-QUEIMA-CJM-78.jpgCumprindo o calendário, lá se realizou, ontem, aquela que passa por ser a maior das festas académicas portuguesas, a Queima das Fitas de Coimbra.

Mas se por um lado a tradição há muito deixou de ser o que era, a verdade é que a festa dos estudantes tem evoluído em direcção à vulgaridade, infantilidade e falta de imaginação. Desde a restauração, nos anos 80, de praxes e tradições descartadas com as lutas académicas na fase final do antigo regime, o nível da festa coimbrã tem vindo quase sempre a descer.

A sátira política e social, que era norma nos carros dos estudantes, passou quase despercebida no cortejo deste domingo da Queima de Coimbra, marcado pelos já habituais banhos de cerveja e cânticos de cursos.

Passado o tempo da contestação social e política que ainda marcava os cortejos académicos no meu tempo de estudante, veio a época das épicas bebedeiras que chegavam a levar centenas de estudantes às urgências hospitalares. Mas dos foliões actuais dir-se-á que nem para isso prestam. Pois que, em vez de beberem a cerveja, a entornam por cima uns dos outros, e a isso se resume a diversão de muitos dos participantes na Queima.

Paulo Esteves, antigo estudante de Engenharia Informática, reconheceu que os tempos são outros e, como tal, há que aceitar esta mudança . “No meu tempo, enfiávamos mais a cerveja dentro do corpo”, referiu.

Mas nem tudo é mau nos novos hábitos estudantis: se os trajes e as ruas ficam imundos com a cerveja derramada, em contrapartida há menos ocorrências graves nas urgências.

Com o tempo quente, o piso depressa se tornou escorregadio no cortejo deste ano, com estudantes a correrem atrás uns dos outros à procura de molhar os seus colegas.

O novo hábito veio também alterar o tipo de ocorrências que a Cruz Vermelha tem de atender.

“O chão fica todo molhado e há entorses, cortes ou alguns traumas”, conta Vítor Figueiredo, a dar apoio no cortejo há 27 anos, relatando que, se antes não havia tantas quedas por causa do piso escorregadio, havia muito vidro e os pneus das ambulâncias ficavam furados numa festa que se fazia essencialmente à base de espumante.

O primeiro 10 de Junho de Marcelo

ng7002897[1]Excelente ideia de Marcelo Rebelo de Sousa, a de recuperar, a pretexto das comemorações do 10 de Junho, o simbolismo e a dignidade do Terreiro do Paço. E revejo-me inteiramente nestas palavras do conciso discurso:

Foi o povo quem nos momentos de crise soube compreender os sacrifícios e privações em favor de um futuro mais digno e mais justo. O povo, sempre o povo, a lutar por Portugal, mesmo quando algumas elites ou, melhor, as que como tal se julgavam nos falharam em troca de prebendas vantajosas, de títulos pomposos, de meros ouropéis luzidios, de autocontemplações deslumbradas ou simplesmente tiveram medo de ver a realidade e de decidir com visão e sem preconceitos.

Um Presidente como deve ser

marcelo25-4.PNGAo fim de dez anos de constrangimento, sabe bem ter de novo um presidente que se possa levar às comemorações do 25 de Abril e que por lá se saiba comportar, sem nos envergonhar a nós, o povo que o elege e que ele representa.

Aquela conversa dos consensos já começa a tornar-se um pouco enjoativa, é certo, mas o presidente faz o que dizem ser o seu papel e não se pode por isso levar-lhe a mal.

E a decisão hoje anunciada pelo próprio Marcelo de que irá atribuir postumamente, a Salgueiro Maia, a Ordem do Infante D. Henrique contrasta, pela positiva, com o baixo nível de Cavaco Silva, que não só nunca foi capaz de homenagear condignamente o símbolo maior da abnegação e coragem com que se fez a Revolução de Abril, como lhe recusou a pensão que veio a atribuir a dois pides por “serviços relevantes prestados à Pátria”.

Os tempos começam a ser outros, realmente, e espero que as mudanças para melhor tenham vindo para ficar.

25 de Novembro

Parece que vamos ter hoje, quem sabe se pela última vez juntos e ao vivo, a dupla Passos&Portas no Parlamento, a comemorar os 40 anos do 25 de Novembro de 1975.

14055777_SQhbZ[1]Para quem não sabe, uma acção militar que pôs fim a algum radicalismo e aventureirismo de extrema-esquerda, reconduzindo o país a uma normalidade democrática que correspondia afinal à vontade do povo, expressa em eleições democráticas.

Sendo um momento marcante na evolução da nossa então muito jovem democracia, e tendo unido, do mesmo lado da barricada PS, PSD (então PPD) e CDS, compreende-se a aposta fracturante da direita ao projectar para este dia uma grande comemoração.

Esqueceram-se foi de decretar o feriado…

Chicana política

comportamento-birra-e1353572823945[1]A direita parlamentar refila e faz birra porque a deixaram a brincar sozinha ao 25 de Novembro.

Mas quando o Presidente das direitas, que por enquanto ainda é o da República, se recusa a participar nas comemorações do 5 de Outubro para alegadamente “reflectir” sobre uma decisão que, passado mês e meio, ainda não foi capaz de tomar, será que a direita tem moral para se indignar acerca seja do que for?

Para que é que isto serve?

A quantos agrada, a quem interessa, esta mistura espúria de futebol, religião e política com que, aparentemente sem grandes resultados, se continua a tentar alienar o povo e a construir os falsos consensos do regime?

Em que é que engrandece o grande futebolista que foi Eusébio este aproveitamento que medíocres dirigentes políticos e desportivos fazem dos seus restos mortais, andando a passeá-los a uma sexta-feira à tarde pelo centro de Lisboa?

Que sentido fazem hoje os panteões, esses símbolos datados do positivismo e da sua “religião da humanidade”?

E finalmente, quanto é que custou a festa aos contribuintes?

ng4404871[1]© STEVEN GOVERNO/LUSA

ng4404900[1]© Álvaro Isidoro/Global Imagens

ng4404914[1].©  JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA