Leituras: A praia é de todos

banhistas.jpgNum qualquer domingo de Agosto é vê-los passar, os corpos que envergonhariam o Tarzan dos Macacos, tatuados, depilados, bron­zeados nas camas dos solários, exibindo com brio o resultado de dietas proteicas e serviço de ginásio. São corpos que dão trabalho a tempo inteiro, preparados para a exibição da força, sobretudo da força de vontade, da disciplina, da virilidade sem ruga e sem pêlo, de peitos lisos e glabros, pernas e braços pelados. Algumas barbas parecem desenhadas a pincel fino e tinta-da-china, com barrocos arabescos de personagem de banda desenhada; ou são farfalhudas como bichos, imitando barbas postiças. Os cortes de cabelo apropriam-se das irregularidades do punk, mas são de alta manutenção e carinhosamente feitos e refeitos a régua e esquadro. É um corpo em que todo o animalesco foi suprimido, mantendo-se a imagem idealizada do animalesco, propondo uma aparência quase robótica de combatente de jogo de vídeo, imaginado por um computador. Impera a tatuagem, o piercing declina, mas ainda marca presença. Cada um propõe uma leitura da imagem que esco­lheu para o ilustrar. Opta-se por tatuagens de catálogo, algumas pormenorizadas, que devem ter doído muito. Motivos geométri­cos, escorpiões e dragões, flores estilizadas, cometendo alguns o erro crasso de mandar gravar o nome da amada do momento, que depois custa milhares de euros a raspar. E eu penso na utilidade que teria, em vez destas tatuagens meramente artísticas, se cada um mandasse gravar em si informações relevantes como o nome, a ocupação e o número de contacto. «Reparação de máquinas de lavar loiça» ou «trabalhos de costura», «tintureira a domicílio», «Tânia, reiki e massagem terapêutica»; ou o mero aviso «sou muito bom rapaz»; ou algo íntimo, perene: «o meu sonho é trabalhar no Pingo Doce», que é, aliás, escrito mais próprio para uma t-shirt. A praia seria um funcional serviço de anúncios e a gente sempre ia despachando a lista dos afazeres.

O corpo ideal, que há duzentos anos era divino, escondido, desconhecido, secreto, branco, perfumado de óleos, empoado, ele­gante, erecto com requebros, recamado de sedas e veludos, orna­mentado de jóias e toucados, fitas e cabeleiras – transformou-se nesta parada nua de guerreiros e amazonas. Até há bem poucas décadas, o corpo era mantido na sua porcaria natural e nunca se tomava banho – a higiene era espiritual e fazia-se com missas e expiações. A gordura, que já foi formosura nos tempos em que fidalgos e abades eram anafados, é desde o Romantismo pura e sim­plesmente interdita. E é assim que, a partir de meados do século XX, proscrita a gordura, se prescreve o biquíni. O corpo passou a ter de estar em boa forma para ser exibido e socialmente avaliado, fazendo florescer à sua volta uma miríade de paraciências e indús­trias, mormente a da saúde, que se foi abarbatando com noventa por cento do espaço psíquico dos cidadãos. Claro que nem todos se achegam ao ideal. A maioria não pode, nem quer. Descansa e deixa-se ir. A praia relaxa e a todos acolhe com boa cara.

Luísa Costa Gomes, Da Costa, praias e montes da Caparica (2018).

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A Escola Portuguesa vai de férias

beach_with_sail_boat_animation_5C.gifMas não fecha as portas…

Até ao final de Agosto diminuirá o ritmo de publicação, a escrita tornar-se-á mais concisa e alguns posts serão agendados.

Em tempo de férias, tentarei aligeirar e diversificar, fugindo um pouco aos temas mais acesos e polémicos que nos últimos tempos têm dominado o blogue.

A actualidade educativa, contudo, também marcará presença, sobretudo se eventos relevantes o vierem a justificar.

Boas férias a todos os leitores!…

Greve às avaliações pode prosseguir em Agosto

ferias.jpgSe, como é provável, a 31 de Julho os professores não tiverem conseguido mais do que alcançaram até agora no seu braço de ferro com o governo, e que é quase nada, faz sentido equacionar o prolongamento da greve pelo mês de Agosto.

Em boa verdade, seguindo na lógica do “é agora ou nunca” que um número significativo de professores continua a defender, fará tanto sentido parar a greve a 31 de Julho como fazê-lo agora.

E perante a ameaça do adiamento das férias dos professores, com o pretexto da greve, o prolongamento desta esvaziará o argumento que lhe serve de base: o de que, adiando as férias dos professores, não se sabendo bem para quando, se conseguiria finalizar as avaliações e encerrar o ano lectivo.

Esta estratégia, que não é isenta de riscos, tem um pressuposto claro: a partir do momento em que os professores comecem a entrar no gozo das férias a que têm direito, já nem será preciso fazer greve para impedir as reuniões de avaliação, pois os conselhos de turma ficarão, naturalmente, incompletos.

Com a luta em suspenso por parte da Fenprof e dos outros sindicatos da plataforma, a responsabilidade da decisão cabe agora, por inteiro, aos sindicalistas do STOP…

A direção do Sindicato de Todos os Professores (S.T.O.P.) deverá decidir este fim de semana prolongar a greve às avaliações durante o mês de agosto, tentando desta forma contornar uma eventual orientação das escolas para adiar férias dos professores.

André Pestana, dirigente do recém-criado sindicato, disse à Lusa que a decisão será tomada pela direção este fim de semana para que o pré-aviso possa ser entregue logo na segunda-feira, acautelando o prazo de entrega de dez dias úteis de antecedência.

Segundo André Pestana, apesar de pendente da decisão da maioria dos membros da direção, o prolongamento da greve às avaliações convocada pelo S.T.O.P. por todo o mês de agosto – até agora só está garantida a paralisação até 31 e julho – deverá responder a “uma solicitação dos colegas, para se sentirem mais tranquilos em relação a agosto”.

Isto, porque, com a greve ainda em curso, e com milhares de reuniões de avaliação de alunos ainda por realizar, impedindo dessa forma que o ano letivo seja encerrado, as escolas viram-se forçadas a pedir orientações ao Ministério da Educação (ME), para saberem como agir e se devem, eventualmente, forçar os docentes a remarcar férias, mantendo-os nas escolas a trabalhar em agosto.

“Nós, neste caso concreto, não queremos autonomia nenhuma, o ME tem de dizer algo”, disse à Lusa Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), acrescentando que espera que o ME “não vá cair no erro de, confrontado com um problema concreto, dizer às escolas para o resolver no âmbito da sua autonomia”.

Até, porque, continuou, esta questão é administrativa e as orientações têm que vir dos serviços centrais do ME, para evitar casos de diretores que imponham ordens contrárias à lei.

Férias suspensas

O que sucederá se, a partir dos vinte e tais deste mês, quando se inicia o período de férias de muitos professores, ainda houver conselhos de turma por realizar?

ordem-servicoComo se pode ver pela imagem reproduzida, há pelo menos uma escola que passou a escrito a resposta que, informalmente, muitos directores andam a dar aos professores das suas escolas: em Faro, no Agrupamento Tomás Cabreira, enquanto não estiver finalizado o ano lectivo, não há férias para ninguém. O que levanta de imediato várias questões. Isto é legal? Sendo muito limitado o prazo em que os professores podem gozar férias (em regra, os últimos dias de Julho e o mês de Agosto), que sentido faz adiá-las, sabendo que não poderão, nesse caso, ser gozadas na totalidade? Pode a mera “conveniência de serviço” negar aos professores o usufruto de um direito fundamental de todos os trabalhadores?

Uma vez que o ME se fecha em copas sobre o assunto, preferindo deixar que se instale o receio, a insegurança e a confusão que servem objectivamente os seus interesses, vejamos o que disseram, ao Público, alguns directores.

O presidente da Associação de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, defende que o caso da escola Tomás Cabreira reforça a necessidade de intervenção do Ministério da Educação sobre esta matéria e é um exemplo de “como os directores, na ânsia de resolverem o problema das notas, podem acabar por criar outros problemas que podem vir a recair sobre si”.

“As escolas não têm gabinetes jurídicos. Precisávamos que o ministério assumisse responsabilidades e enviasse informações às escolas sobre como proceder”, acrescenta Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Directores de Escolas.

O Ministério da Educação continua sem responder às dúvidas que já tinham sido colocadas pelo PÚBLICO na quinta-feira.

Os dois dirigentes dizem que não tem conhecimento de outros casos com o da escola de Faro. O PÚBLICO falou com oito directores de agrupamentos de escolas de várias zonas do país e não encontrou mais nenhuma situação em que as direcções tivessem adiado as férias dos docentes devido ao atraso na realização dos conselhos de turma.

E para concluir, a posição corajosa e exemplar de Manuel Esperança, o Director com maiúscula que alguns ditadorzecos escolares deveriam querer ser quando crescerem…

O único destes dirigentes que garante abertamente que vai autorizar as férias dos professores é o director do Agrupamento de Escolas de Benfica, em Lisboa, Manuel Esperança, que não encontra na lei enquadramento para uma eventual suspensão das férias: “Esse é um direito que os professores têm e relativamente ao qual não vamos fazer nada.”

Isto!…

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Uma praia cheia de gente a descansar e a divertir-se sem perturbar ninguém.

Ao largo, um motoqueiro das ondas que para se divertir precisa de incomodar milhares de pessoas com o barulho agressivo da maquineta.

Está mal!…

Recados para uma avó

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…que vai ficar com os netos alguns dias em Agosto

  • A Matilde não come arroz. Diz que fica enjoada. Ainda não percebemos bem de onde vem isso, pensámos que fosse do glúten, mas ela só come arroz sem glúten. Aliás, ela não come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de aviário.
  • Deixei um saco com comida para os miúdos. Arroz sem glúten, massa sem glúten, bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e quinoa dos Andes.
    Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem chocolates. Nem leite com chocolate.
  • Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo de cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da dose. E cenoura biológica.
  • Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar explorada de forma sustentável.
  • Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta biológica. Ou um abraço.
  • O Pedro pode brincar com o iPad dele antes de ir para a cama. Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
  • Se ele ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe tire o iPad das mãos à força. Dialogue com ele. Convença-o. Queremos que os miúdos tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de mais, para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim, dê-lhe um abraço.
  • O iPad é a única coisa eletrónica que o Pedro tem. O psicólogo dele dizia que não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudámos de psicólogo e o outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do cérebro onde se constroem as emoções. Como ficámos baralhados, arranjámos um terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos.

O texto inspirado do jornalista Paulo Farinha diverte-nos ao mesmo tempo que nos convida a uma reflexão amena, como convém a uma tarde de Verão, sobre as novas tendências na educação dos filhos. Para continuar a leitura, clicar aqui.

Escola Portuguesa em tempo de férias

praia.JPGComo tem sido habitual, a Escola Portuguesa não fecha para férias, mas com professores e alunos a gozar o merecido descanso estival, o noticiário e o comentário sobre os temas de Educação reduz-se bastante.

E o autor também precisa de férias, pelo que a partir de hoje e até finais de Agosto o ritmo das postagens será substancialmente reduzido e alguns posts serão pré-programados.

Mas vou continuar a passar por aqui e a publicar, sempre que tenha disponibilidade e a actualidade dos assuntos ou a inspiração do momento o determinem.

Boas férias!