Trump e a censura nas redes sociais

trump_targets_twitter__derkaoui_abdellahUsuário assíduo do Twitter, onde conta com mais de 80 milhões de seguidores, o presidente dos EUA teve algumas de suas postagens recentes moderadas pelo microblog.

Na última terça-feira (26), duas de suas publicações sobre o voto por correspondência foram sinalizadas pela plataforma como “potencialmente enganosas”, ganhando links que levam a artigos contestando as informações divulgadas por ele.

Foi por causa desta sinalização que Trump assinou um decreto permitindo punições às redes sociais. No documento, ele afirma ter tomado a medida em defesa à liberdade de expressão e acusa as plataformas de censura.

Nesta sexta-feira (29), o Twitter voltou a sinalizar uma publicação do político, desta vez por “apologia à violência”, ocultando a publicação. Na mensagem, ele fazia referência aos protestos em Minneapolis pela morte de um homem negro.

São curiosos os protestos em relação à censura nas redes sociais quando o Twitter começa a sinalizar – não a eliminar – publicações de Donald Trump que violam as regras da plataforma relativamente à divulgação de notícias falsas e incitamento à violência. Como se a capacidade de controlar e limitar aquilo que se publica e partilha e até de suspender ou eliminar contas que violem as “condições do serviço” não fizessem parte do ADN original de todas as redes sociais. Que são um negócio como outro qualquer e, como tal, regem-se pelas leis do mercado, não pelas regras da democracia.

Mais curioso ainda é que, depois de Trump ter ameaçado fechar a rede social onde escreve diariamente, Zuckerberg, o CEO do Facebook, tenha vindo a público demarcar-se das opções editoriais do Twitter:

Acredito firmemente que o Facebook não deve ser o árbitro da verdade de tudo o que as pessoas dizem online. As empresas privadas não se deviam colocar nessa posição.

Vamos a ver. Pessoalmente, abomino todo o tipo de filtros e censuras existentes tanto nos media tradicionais como nas redes sociais. Por isso optei, desde que decidi ter uma intervenção pública regular na internet, criar um blogue onde, até ver, me exprimo livremente e dou a palavra a todos os que, livremente também, a queiram usar. Mas se tivesse de escolher, dar-me-ia certamente melhor com o ecossistema muito mais liberal do Twitter, onde a regra habitual é as pessoas bloquearem ou deixarem de seguir quem não lhes interessa, do que o sistema das queixinhas e dos castigos vigente no Facebook.

Prefiro a moderação, claramente assumida e devidamente explicada, às intervenções reprováveis de um presidente – que nas redes sociais é um utilizador como outro qualquer – ao sistema hipócrita do Facebook, em que qualquer grupo organizado de utilizadores pode recorrer à denúncia de publicações para activar os filtros automáticos que eliminam posts e suspendem utilizadores. Como alguns dos professores mais interventivos nesta rede tiveram oportunidade de constatar nos últimos tempos. E lá cumpriram o castigo, sem direito a recurso nem defesa, nem oportunidade sequer de conhecer a acusação ou os acusadores…

Não haverá terceiro período!

ultima-hora.gifAno lectivo termina com as avaliações desta semana.

Não haverá provas de aferição nem provas finais no ensino básico.

As classificações do segundo período tornam-se notas finais.

Todos os alunos transitam administrativamente para o ano seguinte, sem lugar a retenções.

As escolas deverão manter o contacto regular com os alunos durante o 3.º período, promovendo actividades formativas, de consolidação de aprendizagens e de enriquecimento. Mas sem carácter obrigatório nem sujeitas a avaliação.

Para minimizar a longa paragem das aulas, o novo ano lectivo começará mais cedo, previsivelmente no primeiro dia útil de Setembro.

Os exames do secundário vão ser adiados e será criado, só para este ano, um regime excepcional de acesso ao ensino superior, a ser negociado com as universidades e politécnicos.

Isto é, no essencial, o que estará a ser anunciado a um grupo restrito de directores, com quem os responsáveis políticos têm reunido para decidir o que fazer perante o longo encerramento a que estarão sujeitas as escolas básicas e secundárias.

Tomadas já as principais decisões, faltará apenas acertar pormenores da sua execução e decidir quando e por quem será feita a divulgação ao país.

Adenda às 19 horas:

Esta foi, como alguns leitores certamente notaram, a notícia falsa com que se assinalou, por aqui, o Dia das Mentiras.

Efectivamente, não tive acesso a qualquer tipo de informação privilegiada que me permita garantir que o governo tomará, proximamente, decisões num ou noutro sentido. Mas há sinais óbvios que têm surgido nos últimos dias, bem como a entrada em cena de novos protagonistas, perante o habitual desaparecimento do ministro, sempre que dificuldades ou decisões difíceis surgem no horizonte.

Formalmente, parece existir uma forte determinação política de reafirmar que “o ano lectivo não terminou”, pelo que algo terá de ser feito para simular que, apesar dos novos condicionalismos, os professores continuam a ensinar e os alunos a aprender. Perante a perspectiva de gastar dinheiro a fornecer computadores e ligações de internet a quem as não tem, o governo orienta-se cada vez mais para um modelo assente em aulas televisivas, uma espécie de telescola para o século XXI. Mas sem testes, provas, exames ou qualquer outro tipo de avaliação “a doer”, pela óbvia falta de condições objectivas para aplicação desses instrumentos avaliativos.

Caindo este post, sem apelo nem agravo, na categoria das fake news, estou ainda assim convencido de pelo menos metade das medidas aqui enunciadas acabarão, de uma forma ou de outra, por se concretizar.

Vai uma aposta?…

Combater as fake news

fake-news.jpg

Nos últimos anos, tem-se revelado o poder que as notícias falsas e tendenciosas podem adquirir, manipulando a opinião dos cidadãos e degradando a qualidade das democracias.

A desinformação leva os cidadãos a fazer escolhas erradas ou insensatas, dando poder aos populismos. E se é mau decidir com base na ignorância ou no preconceito, pior ainda é quando o fazemos com base em mentiras intencionalmente propagadas.

Tudo isto é mais grave quando é alimentado por profissionais que deveriam ser capazes de separar o trigo do joio, evitando as ratoeiras da informação falsa e não induzindo em erro outras pessoas que neles confiam – estou a pensar nos jornalistas mas, também, nos professores.

Em tempos eleitorais, desgosta-me profundamente ver – e por isso tenho espaçado ultimamente as minhas visitas – grupos de professores no Facebook a ser usados para difundir propaganda política baseada na desinformação, na distorção intencional dos factos e na mentira.

É verdade que o governo da geringonça deixa ressentimentos entre os professores. Mas não deveria valer tudo para tentar impedir o aumento dos votos no PS de António Costa.

Um manifesto em defesa da verdade

jose-eduardo-lemosEntre as várias reacções que suscitou, na imprensa, o manifesto colectivo dos blogues de Educação a que a Escola Portuguesa se associou, destaco a posição de José Eduardo Lemos.

Em depoimento ao Educare, o presidente do Conselho das Escolas não hesita em acusar o Governo e alguma comunicação social pela forma como propagaram informação falsa e deturpada, tentando denegrir a imagem e a carreira dos professores junto da opinião pública. Foi esse, efectivamente o sentimento e o objectivo que nos mobilizou enquanto professores e bloggers: denunciar a campanha de desinformação e mentira, repondo a verdade dos factos quanto à carreira e ao tempo de serviço dos professores.

Há outro ponto pertinente que Eduardo Lemos não deixa de salientar: servem de muito pouco as campanhas de promoção da literacia para os media – não passam, melhor dizendo, de um exercício de hipocrisia – quando os governos que as promovem são os primeiros a recorrer à manipulação e às fake news para obter ganhos políticos, denegrindo quem quer que se atravesse à sua frente.

“Manifesto Pela Verdade dos Factos” é o documento que reúne professores e autores dos principais blogues de Educação com o objetivo de desmontar a “vil e manipuladora campanha de intoxicação da opinião pública” à volta da lei de recuperação do tempo congelado aos professores, chumbada na última sexta-feira na Assembleia da República, com os votos contra do PS, PSD e CDS-PP. Os subscritores não retiram uma vírgula ao texto, explicam os seus motivos, e analisam os acontecimentos das últimas semanas, depois de o primeiro-ministro ter colocado a hipótese de demissão do Governo no horizonte – entretanto afastada com a reprovação da lei. 

José Eduardo Lemos, presidente do Conselho das Escolas (CE), não assinou o manifesto mas conhece o conteúdo. E aplaude a atitude. O manifesto, na sua perspetiva, é uma excelente iniciativa de professores-bloggers que, de uma forma certeira, “desmontaram uma série de falsidades ou, mais benignamente, de imposturas intelectuais, justificadas por interesses político-partidários e profusamente difundidas pelos órgãos de comunicação social e pelas redes sociais”. E vai mais longe. Em seu entender, os blogues prestaram um serviço público, “um serviço cívico que se impunha em favor da transparência e da verdade”. “Serviço que competia a outros, desde logo ao Governo e à comunicação social, mas que, nesta matéria, generalizadamente, intoxicaram a opinião pública com falsidades (mais até do que com meias-verdades), perseguindo fins políticos e não olhando a meios para os atingir”, refere ao EDUCARE.PT.

“Este manifesto tem o condão de colocar a nu a farsa montada em torno da recuperação do tempo de serviços dos professores, trazendo à memória coletiva factos que ocorreram entre 2017 e a atualidade e que, indesmentivelmente, mostram quem é que tem andando às arrecuas, quem descaradamente tem mentido aos professores e à população, quem tem sentido de Estado e quem não o tem”, sublinha, dando os parabéns aos autores do manifesto.

O que, para si, está verdadeiramente em causa não é apenas a recuperação do tempo de serviço congelado aos professores, é também “a velha arte de mentir no espaço público e o mau exemplo”. O presidente do CE lança uma pergunta e dá uma resposta: “Como se podem sentir os professores que ouviram responsáveis políticos declarar que recuperariam todo o tempo de serviço, que viram a Assembleia da República aprovar a Resolução 1/2018 e que leram os orçamentos de Estado de 2018 e de 2019? Diabolizados e enganados, obviamente!”

O responsável pelo CE olha para o caso como um episódio de “fake news”, com o efeito perverso de ter colocado os professores como vilões da história para, refere, “envenenar a opinião pública”. “Tal vem apenas confirmar a necessidade de formação em Literacia para os Media, que está a ser promovida pelo Ministério da Educação, e também oferecer uma interessante temática para debate nas aulas de Cidadania e Desenvolvimento”, observa com alguma ironia.

Fake News… all over the world!

A denúncia partiu do STOP: a agência Reuters está desde ontem a difundir, à escala global, uma notícia falsa. Segundo a agência, os professores portugueses estariam a reivindicar ao Governo o pagamento de aumentos salariais retroactivos.

Apesar do protesto feito pelo sindicato, a notícia não foi corrigida. A imagem que publico reproduz o print do site que fiz por volta das 20 horas. Como se vê, a frase mentirosa por lá continua, inalterada.

reuters.png

É evidente, e estes casos vão-no demonstrando, que a proliferação das fake news não é apenas um subproduto das redes sociais ou da acção de grupos organizados de contra-informação. Elas surgem também, como sempre aconteceu, quando os jornalistas esquecem os princípios basilares do seu ofício e difundem notícias que parecem feitas com os pés, reproduzindo informação não rigorosa e factualmente incorrecta. Ou confiando em “fontes” que são ao mesmo tempo partes interessadas no assunto noticiado, sem a imprescindível confirmação dos factos.

maior agência internacional de notícias do mundo publicou, ontem, uma notícia falsa sobre as reivindicações dos professores, e o que esteve em causa na recente votação da Assembleia para a recuperação do tempo de serviço: “aumento salarial retroativo para os professores” (“proposed retroactive pay rises for teachers”)!
https://uk.reuters.com/article/uk-portugal-politics-poll/portugal-pms-party-up-in-poll-after-teachers-pay-gamble-idUKKCN1SJ135

Já contactamos a agência Reuters Portugal e, também, a sede em Londressolicitando a correção desta falsidade que circula em todo Mundo.

Na linha do que temos feito, sobretudo desde dia 3 de maio, temos contactado vários órgãos de comunicação social (jornais, canais de televisão) para informar, corrigir, e solicitar entrevistas para o esclarecimento correto da opinião pública, inclusive de todos os colegas que tem procurado clarificar e repor a verdade dos factos e números. 

Repor a verdade continua a ser urgente!

Temos recebido contactos de colegas indignados, os quais nos informam que amigos e conhecidos, inclusive, continuam a pensar que estamos a reivindicar retroativos!

Não colegas, os cerca de 8 mil milhões (que os professores contribuíram durante a chamada crise) não estão a ser reivindicados e, mesmo assim, parece que alguém insiste em passar nomeadamente essa mentira para colocar a população contra a luta dos professores.

O conhecimento na palma da mão

terra-plana.png

Cada vez mais pessoas acreditam que a Terra é plana. A culpa é de um vídeo no YouTube

Nunca como no século XXI o conhecimento científico se tornou tão acessível, com a quantidade de vídeos, mapas e literatura disponíveis online. Também nunca fizemos o nosso quotidiano depender tanto da tecnologia como sucede nos dias de hoje. Ninguém duvida dos prodígios da ciência e da engenharia quando se trata de viajar de automóvel ou de avião, de usar computador ou telemóvel, de recorrer a tecnologias como as redes sem fios ou o GPS. O que leva então um número crescente de pessoas a acreditar que as vacinas provocam autismo, que os americanos nunca foram à Lua ou que a Terra é, afinal, um disco achatado?

O que move as pessoas a contestar a ideia da esfericidade da Terra, que surgiu há mais de dois mil anos na Grécia Antiga e se tornou consensualmente aceite desde o Renascimento, com as viagens marítimas à descoberta do mundo feitas nesse tempo por navegadores portugueses e espanhóis a demonstrarem, categoricamente, a esfericidade da Terra?

Parece evidente a fragilidade do conhecimento científico e do pensamento crítico que hoje tanto se valoriza: afinal, basta afirmar convictamente umas aldrabices, gravar com elas um vídeo de produção cuidada e divulgá-lo através do Youtube: rapidamente se arranjam “seguidores” para a ideia mais espatafúrdia que se consiga inventar.

Quanto à universidade norte-americana que constatou a popularidade da crença na Terra plana parece ela própria prisioneira da lógica que denunciou. Segundo os investigadores, o remédio para os vídeos anti-científicos está em fazer novos vídeos, desta feita com os cientistas a divulgar o verdadeiro conhecimento científico acerca desta matéria. Uma ideia que o Youtube certamente agradece…

Pela minha parte, em vez da competição pelos cliques e likes que é sugerida, julgo que seria mais importante capacitar as pessoas a fazerem um uso mais crítico e selectivo do imenso manancial da informação que têm ao seu dispor. Em vez do relativismo com que se pretende equiparar todos os saberes, é importante reafirmar as diferenças entre factos e opiniões e entre o conhecimento cientificamente estruturado e as balelas que se pretendem fazer passar por ciência. Entre sites de referência que divulgam informação credível e rigorosa e plataformas onde qualquer um pode publicar o que entender.

Plano europeu contra as notícias falsas

eight_col_01-header-truth-and-lies.gifPara grandes males, grandes remédios. O poder da informação falsa e tendenciosa, dos factos alternativos e dos perfis falsos nas redes sociais está a corroer a democracia, manipulando opiniões e intenções de voto de forma a forjar os resultados eleitorais que interessam a quem gere as centrais que produzem as fake news. A eleição de Trump e a vitória do Brexit são dois exemplos recentes de processos eleitorais que provavelmente teriam outro desfecho sem a influência da desinformação e da manipulação.

Por cá, prefere-se ignorar a dimensão do problema e apostar em formações da treta, atirando responsabilidades e chatices para as escolas e os professores, enquanto a aliança espúria entre partidos políticos e patrões dos media vai alimentando o plantio de notícias falsas. E o esquecimento das verdadeiras, quando tidas por inoportunas ou inconvenientes…

A União Europeia prepara-se para lançar um sistema de alerta rápido para detectar notícias falsas. Faz parte de um “Plano de Acção” global contra a desinformação que foi anunciado o ano passado.

Bruxelas explica que o projecto está assente numa “plataforma digital segura” e que as informações apresentadas virão de “fontes abertas” para impedir “tentativas coordenadas de agentes estrangeiros para manipular o debate.”

“O sistema estará pronto por volta de Março”, disse ao PÚBLICO a porta-voz da Comissão Europeia, Maja Kocijancic. “Ao conectar governos e especialistas através dos Estados-membros, [o sistema] vai-nos ajudar a apresentar uma resposta europeia aos desafios da desinformação.”

Está também a ser criada uma rede de verificadores de factos para a qual está previsto um financiamento inicial de 2,5 milhões de euros ao abrigo do Mecanismo Interligar a Europa (investimento para melhoria das redes de transporte, energia e digital). Haverá equipas para identificar em tempo real campanhas organizadas a partir do exterior.