De pantufas na sala de aula

De Inglaterra, chega mais uma descoberta importante para todos os que persistem na senda do sucesso educativo: os alunos aprendem melhor se calçarem, na escola, os chinelos ou as pantufas que usam em casa. A investigação parece demonstrar que os alunos ficam mais calmos e concentrados nas aulas.

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Como acertadamente comenta, no Twitter, o nosso colega Javier, isto da inovação educativa é um poço sem fundo…

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Escolas onde a tecnologia não entra

waldorf.JPGAs galochas estão sujas de lama, alinhadas em prateleiras antes das salas de aula. Sinal de que, apesar da chuva, foram calçadas para chapinhar nas poças de água do pátio, onde com um resguardo não há chuva que incomode… e ninguém impede as crianças de brincar, de subir às árvores, de ajudar a tratar dos animais… Nas salas de aula, os alunos calçam pantufas quentinhas que oferecem o mesmo conforto de casa. Esta é a Escola Jardim do Monte, numa quinta em Alhandra (Vila Franca de Xira), onde cerca de 130 alunos estudam desde o jardim-de-infância ao 6.º ano de acordo com a pedagogia Waldorf, a mesma que pretende desenvolver indivíduos livres, integrados, socialmente competentes e moralmente responsáveis. Onde as crianças são vistas como um indivíduo único e se contesta a teoria de que cada criança é uma tábua rasa.

Uma escola que segue a pedagogia Waldorf é uma escola muito diferente das do ensino convencional – desde logo porque nestas salas de aula não entram computadores, tablets e smartphones antes do terceiro ciclo, nunca antes de as crianças terem 13 ou 14 anos. O debate cá fora faz-se ao contrário, enaltecem-se as vantagens das tecnologias como instrumento da procura de informação e do saber e a sua utilização na sala.

Espante-se quem nunca tinha ouvido falar da pedagogia Waldorf ao ficar ainda a saber que os pais de Silicon Valley, aqueles que são cérebros de empresas de tecnologia como a Google, a Facebook ou a Microsoft, só para dar três exemplos, estão a procurar estas escolas para os seus filhos… porque querem as suas crianças arredadas dos ecrãs nas salas de aula e preferem que tomem contacto com um tipo de ensino alternativo, cujo objetivo é integrar de maneira holística o desenvolvimento físico, espiritual, intelectual e artístico.

A reportagem do DN é um exemplo de bom jornalismo: em vez de se limitar a reproduzir a propaganda do Governo e a cartilha, passada de validade, dos pedagogos do regime, a repórter foi à procura de uma realidade que contraria, na prática, o discurso oficioso que nos querem impingir acerca dos “nativos digitais” e do conhecimento “na palma da mão”. Na verdade, quem melhor conhece as potencialidades das novas tecnologias – e ganha dinheiro com elas – também se apercebe mais facilmente dos seus eventuais malefícios e limitações. E não quer os filhos precocemente viciados no uso dos aparelhos electrónicos, antes mesmo de terem experimentado e desenvolvido tudo aquilo que não se aprende nos computadores: o contacto com a natureza, a leitura e a escrita em papel, a destreza manual, as actividades físicas, as competências sociais.

Talvez haja aqui algum exagero, e não seja preciso irmos até uma filosofia radical e algo fundamentalista como a pedagogia Waldorf. Não creio que a introdução precoce das tecnologias no ensino seja propriamente um malefício. O problema é sobretudo o custo de oportunidade: o tempo curricular é limitado – e em Portugal, no 1º ciclo, especialmente sobrecarregado – pelo que introduzir alguma coisa implica retirar algo que antes lá estava. Não são os telemóveis e os computadores que fazem mal às criancinhas – é o tempo que passam entretidas com eles que lhes é prejudicial, ao impedi-las de fazerem outras coisas, mais adequadas ao seu desenvolvimento físico, psíquico e social e ao seu bem-estar.

Recentemente, tornou-se conhecido a nível nacional o caso da escola de Lourosa que aboliu o uso recreativo dos telemóveis no espaço escolar. Os alunos recuperaram tempos e espaços para brincar, jogar e conviver uns com os outros. E, ao contrário de algumas afirmações feitas na altura, os aparelhos continuaram a ser usados, quando necessário, em contexto educativo. Como um professor da escola aqui esclareceu quando o assunto foi abordado:

Os telemóveis e tablets na António Alves Amorim podem ser usados na sala de aula. Há vários professores que o fazem (Kahoot, Plickers, Seesaw, Nearpod, GMail, Google Drive, Socrative são alguns dos recursos usados para atividades com os alunos). Pode dizer-se então que, nesta escola, o único lugar onde os telemóveis podem ser usados é na sala de aula.
É um facto que, no recreio, os alunos voltaram a brincar, a conversar e a jogar uns com uns outros. Isto é assim já há mais de um ano.

Claro que, seja numa escola pública de frequência heterogénea, seja numa escola privada de inspiração waldorfiana, retirar os telemóveis aos alunos é sempre uma decisão difícil e corajosa. Mas parece-me uma medida útil e necessária, que provavelmente mais escolas irão adoptar nos próximos anos, em benefício da qualidade das aprendizagens e da melhoria do ambiente escolar. E que poderá ditar a diferença entre uma escola realmente comprometida com a educação dos seus alunos e outra que anda apenas a vê-los passar…

Pois ao contrário do que nos querem fazer crer, o ensino baseado nas tecnologias de informação e nos gadgets tecnológicos será, no futuro, o mais barato de todos. No mundo cada vez mais desigual que andamos a construir, os ricos vão fazendo a sua opção: querem que as escolas dos filhos tenham, como as deles tiveram, jardins, laboratórios, oficinas, campos de jogos, ginásios, bibliotecas. Que as crianças usufruam de todos estes espaços, e aprendam neles. Na versão para pobres, tudo isto pode ser metido dentro de um telemóvel e acedido virtualmente através de uma aplicação ou um vídeo no Youtube. Uns viverão a vida, outros olharão para ela a passar pelo ecrã…

Cidadania e Desenvolvimento Processo Disciplinar

Francisco Torrinha.jpgApós averiguar o que aconteceu na escola Francisco Torrinha, no Porto, o Ministério da Educação considera que há matéria suficiente para encaminhar o assunto para a Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC).

A partir de agora será a IGEC a decidir se existe – ou não – matéria suficiente para abrir uma ação disciplinar contra a escola Francisco Torrinha, depois de uma situação tornada publica ontem ter gerado várias críticas. Durante uma aula de Cidadania e Desenvolvimento, no âmbito do tema Igualdade de Género, foi entregue aos alunos de uma turma do 5.º ano um questionário – intitulado “Ficha Sóciodemográfica” – onde se perguntava aos estudantes de apenas nove anos se se sentiam atraídos por homens, mulheres ou pelos dois sexos.

Agora, a IGEC vai analisar, que pode resultar num inquérito ou num  processo disciplinar.

O caso do inquérito à orientação sexual de pré-adolescentes, aplicado a alunos da Escola Básica Francisco Torrinha, está, nos seus desenvolvimentos, a mostrar-se revelador. Não só dos riscos da impreparação e do excesso de voluntarismo na abordagem de temas sensíveis, mas também do que se pode esperar do ME quando os percalços acontecem.

O ME criou a nova disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Definiu um conjunto de temas genéricos a abordar nestas aulas, deixando à criatividade e à autonomia das escolas a sua concretização. Experimentem, arrisquem, saiam da zona de conforto, façam diferente. Nós damos ideias, mas não temos receitas. Avancem, não se esqueçam de produzir papelada suficiente para que o vosso trabalho fique documentado, que no fim cá estaremos para avaliar os resultados.

Claro que, concebidas desta forma, há uma grande probabilidade de algumas coisas correrem mal. A longa experiência profissional dos actuais professores permite-lhes fugir aos riscos e armadilhas mais evidentes, mas haverá sempre um ou outro a meter a pata na poça. Como sucedeu com aquele inquérito “sociodemográfico” passado aos alunos da Francisco Torrinha.

Nestas alturas, que esperaria o professor entusiasta das reformas e ansioso por responder aos desafios, mesmo aos mais precipitados e irresponsáveis, lançados pela tutela? Talvez o apoio, a compreensão, o aconselhamento da parte de quem andou a incitar estas apressadas “mudanças de paradigma” nas escolas portuguesas.

Pois desenganem-se os caros colegas que ainda confiam na rede de segurança que o ME deveria ter montado em torno da cidadania, da flexibilidade, da autonomia curricular: tudo está feito de forma a isentar de responsabilidades os responsáveis políticos pelas reformas. E a responsabilizar os professores e as escolas pelos erros, os fracassos e os insucessos do experimentalismo educativo imposto pelo ME.

A mensagem clara que aqui se passa é: se errarem ou falharem, aguentem-se à bronca.

Para a semana já aí têm os inspectores a morderem-vos as canelas…

Em contrapartida, se tiverem sucessos a celebrar, não hesitem em convidar os dirigentes do ME para se associarem à festa.

Professores “chumbam” a flexibilidade curricular

Certíssima a posição da Fenprof sobre a flexibilidade curricular, tal como Mário Nogueira, ontem, a explicitou:

Se se quer avançar para um processo que exige mais horas de trabalho dos professores, então contratem-se mais professores.

Não é à conta dos que já têm os seus horários sobrecarregados e ilegais que se vem dizer “tem que se fazer mais”.

A “escola do futuro” não é só com os actuais professores que se constrói; é também, e sobretudo, com a geração mais jovem de professores que os governos continuam a não querer colocar nas escolas.

16JunEncNac_AutonFlex.jpgO encontro nacional que ontem decorreu na Escola Secundária do Cerco prestou verdadeiro serviço público, pois cumpriu duas obrigações de que o ME, promotor e entusiasta do projecto, se descartou: começar por ouvir e envolver os professores e, uma vez implementado o projecto-piloto, fazer uma avaliação rigorosa e isenta do seu desenvolvimento, antes de, irresponsavelmente, o pretender generalizar a todas as escolas do país.

Claro que, quando damos a palavra, não aos mentores do projecto da flexibilidade ou aos directores que cederam as suas escolas, alunos e professores para que ele se concretizasse, mas aos próprios professores que tiveram que se desunhar, pondo em prática os lirismos que outros idealizaram, o discurso é muito diferente dos delírios construtivistas da escola “do século XXI” que têm sido propagandeados.

“A voz dos professores está completamente ausente da conceptualização e implementação do projecto de autonomia e flexibilidade curricular”, conclui o estudo da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), apresentado numa sessão na Escola Secundária do Cerco, no Porto.

Agora, ouvindo mais de 400 professores de 54 escolas, de um total de 235 escolas com PAFC, de todo o país, o estudo conclui que a implementação do PAFC foi feita à custa dos professores, trouxe mais burocracia e trabalho não reconhecido e que o programa não é avaliado nem nas próprias escolas, onde foi implementado sem a preparação dos estabelecimentos e dos professores.

O estudo conclui também que os currículos são muitos extensos, os professores estão desmotivados e falta maturidade aos alunos para o desenvolvimento de projectos.

As conclusões do estudo assinalam ainda o “substancial aumento da carga de trabalho para os professores” e o elevado número de alunos por turma.

Os professores ouvidos apontaram igualmente a falta de recursos materiais, a indefinição de objectivos ou a burocratização como aspectos negativos do PAFC, além de também colocar em causa o currículo nacional.

[…]

Questionada pela Lusa, a coordenadora do grupo de trabalho que fez o estudo, a professora Brígida Batista, disse não poder destacar aspectos positivos do PAFC porque “não há condições para o implementar nas escolas”.

“Não se pode mudar o paradigma sem mudar as condições nas próprias escolas”, disse a responsável, acrescentando que o PAFC não trouxe “uma mais-valia em termos de aprendizagem dos alunos”.

O projecto, considerou, “até podia ser interessante” se tivesse sido eficazmente preparado, com turmas pequenas, com bons espaços e boas salas, mas, ao contrário, disse, trouxe “horários sobrecarregados em turmas de 30 alunos”.

Gurus e líderes educativos…

indisciplina…direitinhos às escolas de meios desfavorecidos!

É um abaixo-assinado que começou a correr em Espanha, onde a praga dos teóricos da educação também tem feito estragos e criado anticorpos entre os professores no terreno. De facto, não é a mesma coisa desenvolver belas teorias educativas para o século XXI em meios universitários e testá-las em escolas seleccionadas, com turmas escolhidas a dedo, fazendo uso de recursos que não são disponibilizados à generalidade dos professores, ou ter de o fazer em escolas problemáticas. Por isso, a proposta parece-me honesta: saiam da zona de conforto e experimentem nas condições mais difíceis e nas escolas mais complicadas. Se aí resultar, funcionará em qualquer lado…

Gurus e influenciadores educativos vinculados a interesses do poder económico, político e social que ignoram os factores relacionados com as consequências devastadoras de políticas educativas corrosivas e da pobreza sobre o insucesso escolar, deveriam ir direitinhos a escolas de meios e comunidades desfavorecidas, para demonstrar que os seus métodos estandardizados não funcionam só em escolas de famílias de classe média-alta ou com alunos universitários.

Colaborações: ComRegras

No Topo: Concurso de mobilidade interna para todos os professores

Direita e esquerda parlamentares uniram-se para decidir o que não poderá deixar de ser considerado uma derrota política do ME e, especialmente, da secretária de Estado Alexandra Leitão: ao contrário do pretendido pelo governo, o concurso de mobilidade interna de 2018 irá ser realizado com todas as vagas a concurso. Incluindo as dos professores que estão satisfeitos com a sua colocação e desejariam conservá-la nos próximos três anos…

topo-e-fundo_ComRegras

No Fundo: Flexibilidade curricular – a obrigatoriedade facultativa

O projecto de autonomia e flexibilidade curricular, uma experiência pedagógica a funcionar actualmente em mais de duzentas escolas e agrupamentos do país, está longe de ser consensual: embora haja um notório esforço da parte do ME e dos directores das escolas envolvidas em elogiar sucessos alcançados e abafar vozes discordantes, a verdade é que muitos professores envolvidos se queixam do excesso de trabalho e da modéstia de resultados.

Flexibilidade curricular: a persistência no erro

flex2.gifA partir do próximo ano lectivo, todas as escolas poderão aderir ao projecto de flexibilidade curricular, que por agora tem estado a ser aplicado, em regime de projecto-piloto, em 225 estabelecimentos de ensino. A generalização deste regime a todas as escolas, embora com carácter facultativo, foi aprovada nesta quinta-feira em Conselho de Ministros.

“Alarga-se assim à escola pública uma ferramenta de trabalho que até aqui estava garantida apenas às escolas privadas”, frisou o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues. Em declarações aos jornalistas no final da reunião do Governo, o ministro considerou também que este modelo “é um importante instrumento de trabalho, de equidade e de promoção do sucesso escolar”.

A decisão do Conselho de Ministros é má por diversas razões.

Em primeiro lugar, generaliza uma experiência pedagógica sem que a mesma tivesse sido avaliada de uma forma rigorosa, séria e independente. Neste contexto, o beneplácito da OCDE só pode entender-se como piada de mau gosto: desde quando uma organização internacional define e valida políticas nacionais? E sendo proponente e parte interessada nas mudanças flexibilizadoras, que credibilidade merece enquanto juiz em causa própria? E mais, irá o governo seguir os delírios reformistas de Andreas Schleicher, e acabar com os exames nacionais do secundário, face à desgraça previsível da flexibilidade curricular aplicada a este nível de ensino?

Em segundo lugar, o voluntarismo da fuga para a frente é acompanhado pela notória falta de coragem política para impor as reformas que se defendem: a flexibilidade é obrigatória, mas só adere quem quiser. E para a baralhada ser maior, invocam a “equidade” e a “igualdade de oportunidades” de todos os estudantes, como se a participação no projecto fosse uma escolha individual de cada um. Deixemos-nos de lirismos, toda a gente sabe que entrar ou não neste projecto continuará a ser uma escolha pessoal dos senhores directores.

De resto, o que efectivamente garante a “igualdade de oportunidades” entre os alunos portugueses é a existência de um currículo nacional, a ser cumprido em todas as escolas, conforme é determinado pela Lei de Bases do Sistema Educativo. A “uniformização” de que se queixa Schleicher é um imperativo que decorre da lei, e nesse sentido há uma óbvia ilegalidade no diploma da flexibilidade curricular na qual se finge não reparar. Permitir que, em nome de um projecto imposto localmente, 25%, ou até mais, dos conteúdos curriculares das diversas disciplinas fiquem por leccionar nalgumas escolas, substituídos por aprendizagens que alguém decidiu serem mais “significativas” é promover, dêem-lhe as voltas que quiserem, a desigualdade. Que nestas coisas prejudica sobretudo, como é bem sabido, os alunos oriundos de meios mais desfavorecidos.

Quanto ao projecto em si mesmo, continua envolto nas convenientes meias-tintas que convêm a um ministério que pretende alcançar mérito à custa de reformas que alguns consideram indispensáveis, mas não se quer responsabilizar pelos seus maus resultados. Até porque, também já se percebeu, não sabe muito bem o que anda a fazer. E é por isso que a flexibilidade continua a vir, no discurso ministerial, convenientemente acompanhada pelo presente envenenado da “autonomia”: damos liberdade para fazerem como entenderem – se correr mal, não se venham queixar…