Ouvir a voz dos alunos

Ouvir e considerar as opiniões dos/as alunos/as não tem sido uma preocupação frequente entre os profissionais de educação. Nas suas formas mais tradicionais, a escola desenvolveu uma cultura de transmissão de conhecimentos de sentido único: da escola para os alunos/as, com reduzidas possibilidades de acolher as suas intervenções. Ouvir as crianças e os jovens sobre as suas próprias aprendizagens, e genericamente sobre todo o processo educativo, tem sido considerado, na educação tradicional, um procedimento inadequado. A criança é vista como um recetor e um ser humano por vir, ainda desprovido de responsabilidade, de capacidade de decisão e de conhecimento suficiente sobre o mundo. Perante esta conceção de criança, a escola organiza-se como uma estrutura que assume a missão de transmitir conhecimentos e valores, na convicção de que venha mais tarde, então adulta, a poder emitir opiniões e a ser responsável pelos seus atos.

Ouvir a voz dos alunos está a tornar-se o novo mantra educativo dos pedagogos do regime. O SE Costa já anda com essa conversa há algum tempo, e o Conselho Nacional de Educação veio agora reforçar a ideia que urge encasquetar nas mentes dos professores portugueses. Num texto longo e repetitivo, diria mesmo obssessivo, o grupo de conselheiros redactores culpa os docentes por não ouvirem os alunos, nem terem em conta as suas ideias e opiniões no planeamento e na prática lectiva.

Pela minha parte, tenho alguma dificuldade em aceitar o tom sentencioso dos doutores eduqueses que sempre evitaram as salas de aula onde poderiam ouvir todos os dias “a voz dos alunos”, nunca as tendo frequentado ou, quando não conseguiram escapar à fatalidade, fugindo assim que puderam para as suas torres de marfim nas academias, nos gabinetes ministeriais e nas escolas superiores de educação.

Em mais de trinta anos de profissão docente, nunca deixei de ouvir as vozes dos meus alunos – só agora experimento algumas dificuldades, por causa do uso da máscara, que torna os sons menos perceptíveis – e apenas exijo algo que talvez esteja a ficar fora de moda na informalidade dos novos tempos, que é falarem cada um na sua vez. De resto, sou todo ouvidos, e tomara eu que a maioria dos meus alunos ouvissem os seus pares com a mesma atenção que eu dedico a cada um deles quando usa da palavra.

Mas recuso-me a embarcar em relativismos pseudo-democráticos. Uma opinião infundada não pode ser considerada no mesmo plano de um facto comprovado. A intervenção ponderada de um aluno que estudou e reflectiu não vale o mesmo do que um disparate proferido à mesma velocidade com que nos passa pela cabeça. Uma pergunta de quem quer saber mais ou compreender melhor não está ao mesmo nível de uma afirmação movida pela ignorância ou o preconceito. Mas claro que todas estas intervenções podem ser oportunidades de aprendizagem e como tal devem ser trabalhadas e não ignoradas. Mas é para isso mesmo que nós, os professores, sempre lá estivemos.

E sim, os alunos estão na escola para adquirir conhecimento. Desistir de lhes ensinar tudo o que são capazes de aprender, sob o pretexto de que os seus saberes são tão válidos como os de quem estudou para lhes ensinar, seria o maior crime que poderíamos cometer contra os nossos alunos. Ao contrário do que sugerem os defensores mais radicais do construtivismo, nenhuma geração humana construiu, sozinha, o seu próprio conhecimento. Pelo contrário, beneficiou do imenso capital de conhecimento e experiência acumulado e transmitido pelas gerações que a antecederam. A aprendizagem formal, que a escola pública permitiu universalizar, é comprovadamente o meio mais eficaz de democratizar o conhecimento e acelerar o progresso da humanidade.

Estas são reflexões nada estranhas ao quotidiano de qualquer professor, mas que passam ao lado do longo relambório que o CNE aprovou e fez publicar em Diário da República. Um extraterrestre que chegasse agora ao nosso planeta e conseguisse decifrar a Recomendação 2/2021 ficaria certamente a imaginar os professores portugueses como seres cavernícolas, uns brutos insensíveis que vão para as aulas despejar matéria sem permitir que os alunos abram a boca, encarando os jovens cérebros como arcas vazias que precisam de ser atulhadas de conhecimento.

Lá para o final, há um excerto significativo que se torna revelador. É quando recomendam mudanças na formação de professores, no sentido de que as aulas deixem de ser meramente expositivas e permitam o diálogo entre docentes e discentes. Ora isto é o que os professores do básico e do secundário, de um modo geral, sempre fizeram! Pelo que ouso pensar que, antes de invectivar à mudança os docentes que consideram inferiores, talvez os doutores eduqueses da faculdade ganhassem em começar por questionar e melhorar as suas próprias práticas lectivas.

Por onde o vírus ataca

Não sendo completamente eficazes na prevenção do contágio e da doença leve, as vacinas contra a covid-19, conjugadas com o uso da máscara em espaços confinados e o evitar de grandes ajuntamentos, são até agora a arma mais eficiente e segura de que dispomos para vencer a pandemia.

Claro que a imunidade de grupo é posta em causa sempre que um número significativo de pessoas não só recusa vacinar-se como alimenta campanhas anti-vacinação. Em Portugal, onde os grandes progressos ao nível da saúde pública são mais recentes do que na maioria dos países ocidentais, a resistência às vacinas tem sido residual. Mas os pós-modernismos relativistas, as verdades alternativas e a desinformação em geral vão fazendo o seu caminho.

Na base de tudo estão, é claro, a ignorância e o preconceito. Por isso mesmo é oportuna a linguagem gráfica do cartoon ontem publicado pelo The Economist. Porque há quem não chegue lá de outra maneira…

Erros nos exames, e de quem é a culpa?…

Com equipas, com profissionais, com tempo e com meios, como é possível um exame ser visto, revisto, policopiado e distribuído com erros? E não, a culpa não é do Governo nem do ministro e dos secretários de Estado.

Não, não se pedem as famosas culpas políticas. É fácil pedir recorrentemente a cabeça de um ministro, mas a responsabilidade objetiva é de quem? Num sistema que aparenta ser totalmente opaco, apareçam as pessoas que fizeram estes exames.

Como podem os sindicatos ficar calados? Percorramos os seus websites, ou o da Fenprof e, mistério dos mistérios, nem uma palavra de respeito pelos alunos que se viram a fazer exames com erros ou gralhas. É o pleno exercício da revindicação egocentrada o que se encontra. Pouco mais.

Com a quantidade de disparates que se escrevem no Público sobre Educação, já muito pouco me consegue surpreender. Mas desta vez exageraram.

Um universitário que se apresenta como coordenador de “ciência das religiões” da sua instituição escreve sobre os erros detectados nalguns exames nacionais de 2021. Um tema recorrente, pois apesar do tempo que as provas levam a elaborar e das várias revisões que sofrem até que sejam impressas e enviadas às escolas para serem respondidas, as falhas continuam a acontecer. Se é verdade que errar é humano, assumir o erro também o deveria ser. E isso falta na estrutura do IAVE: os dirigentes esquivam-se às responsabilidades, estas diluem-se entre os colaboradores subordinados e escoam-se através da cláusula de “confidencialidade” que envolve a produção das provas.

No entanto, o cientista das religiões não só não culpa nem o IAVE, nem os seus executores e responsáveis, como isenta de responsabilidades o poder político. E ergue o dedo acusador à Fenprof, pelo crime de ainda não se ter pronunciado sobre o assunto. O palerma, que não tem outro nome, diz que andou pelo site da federação de professores à procura de algum escrito acerca do assunto, apenas tendo encontrado “reivindicação egocentrada”.

Então o cronista não sabe o que são e para que servem os sindicatos? Como organizações de defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores que representam, é sobre esses temas em concreto que têm de tomar posição. Até o podem e devem fazer numa perspectiva alargada, olhando não apenas para os aspectos estritamente sindicais, como vencimentos, carreiras, horários e condições de trabalho, mas para o sistema educativo no seu todo e para a sociedade e as famílias a quem a escola serve. Aliás, ainda há um ano atrás a Fenprof fez uma análise pertinente e fundamentada à avaliação interna e externa no contexto de pandemia, tomando uma posição com a qual, julgo, a generalidade dos professores se identifica. Mas não tem de reagir no imediato a toda e qualquer incidência que ocorra com os exames nacionais.

Aliás, se o fizesse não faltariam as acusações de que pretenderia desacreditar os exames ou “perturbar” um processo sensível, complexo e decisivo para a concretização das aspirações académicas de muitos alunos. Assim como, em contextos semelhantes, se acusam os sindicatos de professores de se imiscuírem em assuntos científicos e pedagógicos que não são da sua esfera de acção, retirando margem de manobra à actuação das associações de professores e dos que persistem na defesa de uma ordem de professores.

De facto, quando o que se pretende é apenas um pretexto para a crítica gratuita e preconceituosa aos sindicatos, nota-se bem que qualquer argumento, mesmo o mais disparatado, serve. Como reza o velho ditado, é-se preso por ter cão e preso por o não ter. Mas esta urticária que alguns figurões sentem perante o sindicalismo é a melhor demonstração da necessidade que continuamos a ter de sindicatos fortes e livres. No século XXI e mais além.

DGAE quer os professores felizes

(mas não há meio de publicar as listas…)

O domínio do bem-estar pessoal e profissional docente, bem como o da felicidade organizacional, integram atualmente o leque das preocupações dos sistemas educativos na Europa e no mundo, tendo começado a ocupar alguma centralidade na investigação em educação a partir do momento em que se começaram a recolher evidências sobre o impacto da felicidade nas práticas dos docentes e no sucesso académico dos seus alunos (só para referir alguns exemplos).

Assim, pela sua atualidade e pertinência quis a DGAE, em parceria com a Universidade Atlântica, proporcionar aos diretores/lideranças das UOs públicas uma formação nesse âmbito, na modalidade de curso de formação, acreditada pelo CCPFC, com a designação “Ferramentas para construir uma “Happy School”: docentes, lideranças e organizações educativas”, dinamizada pelos Professores Doutores Jorge Humberto Dias, Tiago Pita e Georg Dutschke, especialistas na área da felicidade pessoal e organizacional.

Estamos quase a meio de Julho e os resultados do concurso interno de docentes continuam no segredo dos deuses. O processo, que há muitos anos é inteiramente informatizado, poderia estar há muito concluído, permitindo a dezenas de milhares de professores que concorreram começar mais cedo a planear os próximos quatro anos da sua vida. É apenas um exemplo de algo que a DGAE poderia e deveria fazer para tornar os professores mais felizes. Mas tarda em fazê-lo, não se percebe se por incompetência própria, se em obediência a ordens superiores.

Sendo um estado de alma geralmente fugaz e transitório, só com atitudes e acções concretas que se fará a felicidade de uma classe profissional: sentirem-se considerados como profissionais mas também respeitados como pessoas com vida e necessidades próprias, protegidos de situações de assédio e stress laboral, ouvidos em todas as matérias que dizem respeito ao exercício da profissão, dignificados na sua carreira, no reconhecimento das suas competências e autonomia profissional e na contagem escrupulosa do tempo de serviço acumulado no exercício da profissão.

Escusado será dizer que quando tudo isto é ignorado, quando não ostensivamente desprezado pela cúpula ministerial, só por rematado cinismo ou falta de sentido do ridículo é que se pode andar a anunciar formações em “felicidade organizacional” visando o bem-estar laboral dos professores, como se isso servisse para alguma coisa a não ser, muito provavelmente, ir buscar algum dinheiro ao pote europeu destinado à formação profissional.

Como afirmava em tempos Raquel Varela, a propósito de um estudo sobre o mal-estar e o burnout na classe docente, os professores são vítimas de uma organização que os adoece. Pelo que seria mais proveitoso reformar o sistema e melhorar as condições de trabalho dos professores do que tentar impingir-lhes a pílula da felicidade.

A fórmula do sucesso

Não é preciso procurar mais: esta semana, um grupo de académicos portugueses, num estudo patrocinado pela Fundação Continente que já aqui comentei, reclamam ter descoberto a autêntica e definitiva fórmula do sucesso educativo, aquela que permite isolar o contributo que “excelentes professores” dão à melhoria das aprendizagens dos seus alunos. Está aqui:

Pois bem, pegando no “estudo” e na rebuscada fórmula, Paulo Guinote desmonta as pretensões, tão arrogantes quanto idiotas, dos magos da estatística. Sem deixar pedra sobre pedra. A ler…

Se a qualidade de um professor, se o seu valor para os seus alunos se pode transformar numa fórmula deste tipo é porque talvez seja mesmo melhor substituir os docentes humanos por máquinas. Aceito que existem ferramentas estatísticas que podem dar um contributo útil para medir a evolução dos resultados dos alunos, mas há aqui algo que em termos filosóficos me provoca uma enorme rejeição. Porque se a Economia da Educação é uma disciplina que pode ter a sua aplicação, muitas vezes bem perversa, em algumas áreas da gestão financeira do sistema educativo, já o mesmo me parece muito mais problemático quanto à definição da qualidade, ou “eficácia”, do trabalho de um professor com os seus alunos.

Ministro em viagem, perigo na estrada

Carro em que seguia ministro Cabrita envolvido em atropelamento que fez uma vítima mortal

Acidente aconteceu na autoestrada A6 e será investigado pela GNR. Vítima mortal era um trabalhador que fazia manutenção da via e tinha 43 anos.

Acidentes trágicos acontecem, infelizmente, e fazer trabalhos de manutenção numa auto-estrada com os carros a passar ao lado a altas velocidades será sempre uma actividade de risco. Mas este pode ser minimizado e controlado se as regras forem cumpridas, tanto da parte dos trabalhadores como dos condutores. O que neste caso, infelizmente, não aconteceu.

Dizem que vão investigar as causas do atropelamento mortal. Conviria que soubéssemos a que velocidade seguia o carro que transportava o ministro, nomeadamente se cumpria o limite de velocidade imposto pelo código da estrada. E isto não é embirração contra o ministro mais impopular deste governo nem um exercício de demagogia: acho que está na altura de uma discussão séria sobre uma realidade que já quase todos os cidadãos, uma vez ou outra, constataram: a velocidade excessiva, a condução perigosa e as infracções sistemáticas ao código da estrada com que os governantes se fazem conduzir nas viaturas oficiais. O que é inteiramente ilegítimo: não só pelos riscos em que fazem incorrer os outros utentes da via pública como pela colocarem acima da lei que deveriam ser os primeiros a respeitar. Com a agravante de, muitas vezes, não irem sozinhos, mas fazerem questão de levar “comitiva”, ou seja, uma série de carros velozes a assapar

As regras e sinais de trânsito, os limites de velocidade, o dever de praticar uma condução prudente e segura são obrigações de todos os utentes das estradas. Por muito importante que seja uma deslocação ministerial, a verdade é que o ministro não vai apagar nenhum fogo nem socorrer um doente em perigo de vida. Para aquilo que fazem nas suas surtidas ao país real, não se justificam de forma alguma estas marchas de urgência.

Se não querem chegar atrasados, façam-se ao caminho mais cedo.

Máscara obrigatória ao ar livre: um sinal errado no combate à pandemia

Na sequência de um confinamento severo no Inverno e um desconfinamento muito prudente e gradual ao longo da Primavera que tornaram controláveis os números da pandemia, a aproximação do Verão parece estar a multiplicar comportamentos imponderados e irresponsáveis. Ao mesmo tempo que órgãos de soberania e autoridades sanitárias persistem em dar sinais errados a uma parte da população que persiste em deitar foguetes antes da festa…

O parlamento aprovou esta quarta-feira a obrigatoriedade do uso de máscara em espaços públicos por mais 90 dias, a partir do próximo domingo.

A iniciativa do PS teve os votos a favor da bancada socialista, do PSD, do CDS e da deputada Cristina Rodrigues e a abstenção do Bloco de Esquerda, PCP, PAN, Verdes e da deputada não inscrita Joacine Katar Moreira. A bancada social-democrata que se tinha abstido, corrigiu o sentido de voto a favor.

O que é que ano e meio com a covid-19 no meio de nós já nos deveria ter feito perceber? Que o vírus não segue regras, protocolos e regulamentos. Oportunisticamente, entra pelas vias respiratórias de pessoas desprotegidas, instala-se e propaga-se através do ar expirado pelas suas vítimas. Ao ar livre, e desde que estas não estejam umas em cima das outras, o vírus dissipa-se na atmosfera, não atingindo a concentração necessária para contagiar. Em contrapartida, em espaços fechados basta haver um infectado para que a doença se propague com relativa facilidade, sobretudo se não se usarem protecções respiratórias.

Quantos desenhos será preciso fazer para que se perceba que andar de máscara na rua ou na praia é estúpido e inútil, enquanto estar em espaços confinados sem protecção, durante tempo prolongado, a respirar e a falar de frente para outras pessoas, representa um elevado risco de contaminação?

Quando conseguiremos sair do condicionamento mental imposto por regras que continuam a dar uma falsa sensação de segurança, dando o necessário passo em frente, que passa por identificar e evitar comportamentos de risco? Não será decerto por falta de informação muito concreta e objectiva que se persiste no erro…

Só na região de Lisboa e Vale do Tejo estão identificados nove surtos relacionados com festas de aniversário, casamentos, batizados e outros eventos sociais, que deram origem a 194 casos confirmados de covid-19 num total de 1063 pessoas envolvidas, segundo dados da Direção-Geral da Saúde (DGS). “Desses nove surtos, dois tiveram origem em casamentos envolvendo um total de 158 pessoas, das quais 41 são casos confirmados”, indica a DGS ao Expresso. “Dos surtos relacio­nados com festas e eventos sociais, o de maior dimensão corresponde a uma festa de aniversário em que estiveram presentes 554 pessoas, resultando, até ao momento, em 66 casos confirmados.”

Bur(r)ocracias

A Câmara Municipal de Lisboa admite ter partilhado os dados dos organizadores de uma manifestação de apoio ao activista Alexei Navalny – e anti-Putin – com a embaixada russa, mas nega qualquer acusação de cumplicidade com o Governo russo.

Em comunicado, a autarquia diz que os dados dos responsáveis pela manifestação foram partilhados para a Polícia de Segurança Pública (PSP), Ministério da Administração Interna e à entidade onde se realizou este evento: a embaixada russa em Lisboa. É ainda dito que a Câmara de Lisboa tem cumprido a lei “de forma homogénea”, adoptando a mesma prática para todas as manifestações. 

Apesar de admitir que os dados foram partilhados com a embaixada russa, a Câmara de Lisboa nega qualquer acusação de cumplicidade com o regime russo – acusando a maioria das críticas de servirem apenas como forma de “aproveitamento político” –, adiantando que mudou internamente os procedimentos para estas manifestações, de modo a acautelar a partilha destes dados sensíveis. 

Ao fim de quase meio século de vivência democrática, ainda prevalece uma cultura de opacidade nos serviços públicos que leva a esconder do escrutínio dos cidadãos actos e procedimentos que deveriam ser públicos ou a invocar conveniências de serviço e deveres de sigilo para sonegar, aos cidadãos que a requerem, informação referente a assuntos do seu interesse. É curioso verificar como os princípios de uma administração aberta e transparente estão há décadas plasmados na lei e continuam a ser largamente desentendidos e ignorados; no entanto, o novíssimo regulamento europeu de protecção de dados foi rapidamente adoptado por administrações públicas e privadas – pelo menos na parte em que pode servir de fácil pretexto para restringir o acesso à informação e ao escrutínio da coisa pública, mantendo os cidadãos desinformados de muitas coisas que deveriam saber.

Contudo, a burocracia, que nunca se evidenciou por ser uma actividade que estimule a inteligência, o discernimento ou o espírito crítico, tem destas coisas: com a mesma facilidade com que indefere liminarmente o requerimento do cidadão, o burocrata zeloso envia automaticamente a fotocópia ou o pdf de um documento contendo dados pessoais de cidadãos para uma embaixada estrangeira. A questão é saber se, à frente dos serviços e orientando os seus subordinados, estão pessoas à altura das suas responsabilidades.

Assim, não basta concentrar as culpas no manga-de-alpaca anónimo e imbecil que cumpriu estritamente as ordens recebidas, nem diluir as culpas pelo “sistema” que permite estas coisas. Os responsáveis dos serviços e o responsável máximo, que é o presidente da autarquia, devem assumir o que andam a fazer, tendo em conta que as consequências das suas acções e omissões não se apagam, num caso como este, com o simples pedido de desculpas. Ou o que permitem que os subalternos façam, quando andam eles próprios entretidos com outras coisas que não o exercício competente e eficaz das suas funções.

Selfie desfocada

O SELFIE «Self-reflection on Effective Learning by Fostering Innovation through Educational technologies» é um instrumento de autorreflexão e autoconhecimento concebida para apoiar as escolas no processo de aprendizagem na era digital, a incorporar tecnologias digitais no ensino, na aprendizagem e na avaliação das aprendizagens dos alunos. A ferramenta pode realçar o que está a funcionar bem, as áreas que requerem melhorias e quais devem ser as prioridades. O SELFIE apoia a compreender de que forma o Digital está integrado na escola e é utilizado pela comunidade educativa.

Utiliza questionários para recolher as opiniões dos dirigentes escolares, professores e alunos, de forma completamente anónima e voluntária, e compila os resultados num relatório interativo que permite identificar os pontos fortes e os pontos fracos sobre a forma como as tecnologias são utilizadas na escola. O SELFIE não mede nem compara os conhecimentos ou as competências dos utilizadores.

Ao contrário das verdadeiras selfies, em que basta escolher o enquadramento, clicar no botão do telemóvel e está feito, esta SELFIE que anda a ser impingida às escolas é uma monumental estopada, que deixa qualquer respondente mal disposto, com tantas perguntas, acerca de coisas tão rebuscadas, subjectivas e muitas vezes impossíveis de exprimir na escala quantitativa apresentada. E nem quero pensar na trabalheira que será transformar a estatística das respostas num suposto auto-retrato das competências digitais latentes em cada escola ou agrupamento.

Há dois erros básicos de concepção nos questionários que andam a ser feitos aos vários grupos que compõem a comunidade escolar. O mais óbvio é, naturalmente, a extensão do documento: demasiadas perguntas, muitas delas repetitivas e com uma formulação que nem sempre é clara. Inquéritos deste tipo acabam por dar resultados pouco fiáveis, por vezes até contraditórios. Pois chega-se a um ponto em que até o respondente mais zeloso acaba por se sentir saturado de um trabalho repetitivo e começa a responder de forma automática e pouco ponderada. Diria mesmo, embora este tipo de considerações raramente passe pela cabeça dos nossos decisores educativos, que é de um profundo desrespeito pelos professores, pelos alunos e por outros inquiridos, presumir que têm o direito de tomar tanto tempo às pessoas, apenas para simular um processo de suposta “auto-reflexão” que irá justificar decisões previamente tomadas.

Outro erro, menos evidente, mas muito vulgarizado nos inquéritos que se fazem na área das chamadas ciências da Educação e que tanto as descredibilizam, é o de se substituir a investigação rigorosa sobre a realidade existente por percepções acerca dessa realidade. Queremos saber se a escola tem um parque informático funcional? Contem os computadores existentes, liguem-nos e meçam o tempo que demoram a arrancar, verifiquem se dão som, se têm câmara ou outros acessórios úteis à escola digital. Analisem a velocidade da rede informática e dos acessos à internet, a cobertura wireless dentro e fora das salas de aula, os sistemas de segurança implantados. Contem quantos alunos e professores estão inscritos em plataformas de ensino online adoptadas pela escola, sejam elas o Moodle, GSuite ou Teams. Quantifiquem quantos as usam frequentemente, quantos o fazem ocasionalmente, quantos apenas se inscreveram. Está tudo nessas plataformas, e é este tipo de dados que nos pode dar informação exacta e objectiva acerca da realidade, não uma qualquer introspecção psicológica para induzir cada elemento da comunidade escolar à descoberta da complexa relação com as novas tecnologias na Educação.

É por estas e outras razões que a SELFIE que agora querem tirar às escolas será forçosamente uma foto desfocada. Quando substituímos o olhar directo sobre o que queremos conhecer por reflexos, percepções ou estados de alma estamos a regredir na procura do conhecimento. É como se regressássemos à caverna de Platão, aos prisioneiros das trevas que confundem as imagens sombrias e distorcidas, projectadas na parede, com a verdadeira realidade.

Inquéritos inconclusivos

Os professores dos ensinos básico e secundário em Portugal, que responderam a um estudo da Universidade do Minho (UMinho), dividem-se na avaliação das medidas tomadas pela tutela no último ano para responder aos efeitos da pandemia nas escolas. O estudo do Centro de Investigação em Educação (CIEd) da Universidade do Minho foi agora apresentado, com a presença do secretário de Estado da Educação, João Costa.

A investigação “Perceções dos professores sobre o ensino à distância” consistiu num inquérito online em janeiro, com a colaboração das duas associações de diretores de escolas públicas, ao qual responderam 280 professores. Aqueles docentes avaliaram as políticas públicas aplicadas no primeiro confinamento (recursos no ensino à distância, acesso a computador e Internet, iniciativa #EstudoEmCasa, entre outras) e avaliaram também o arranque do presente ano letivo (recuperação das aprendizagens e condições sanitárias, por exemplo). No global, as medidas do Ministério da Educação foram consideradas inadequadas para 44% dos inquiridos, enquanto 35% concordaram e os restantes 21% não emitiram opinião.

Apresentado com pompa e circunstância numa sessão com a presença do SE Costa e com ampla divulgação na comunicação social, o estudo da Universidade do Minho é mais um daqueles trabalhos genéricos, inconclusivos e, com toda a franqueza, sem o mínimo de qualidade científica. Algo que entre nós se tornou regra, infelizmente, naquilo a que pomposamente gostam de chamar as “ciências da educação”, mas que em termos de rigor e método científico deixa muito a desejar. Gostaria, ao escrever sobre o assunto, de não fazer generalizações abusivas, mas quando o único elemento que é disponibilizado para consulta dos interessados é um documento-síntese que pouco ou nada acrescenta ao que a comunicação social veiculou, percebe-se que a encomenda cumpre objectivos mais políticos do que propriamente científicos. O que deveria envergonhar a universidade e os investigadores que o produziu.

Os estudos deste tipo, que pretendem avaliar sentimentos, percepções, opiniões ou estados de alma de uma classe profissional vasta e heterogénea, falham desde logo num ponto crucial, que é a representatividade da amostra. Se num universo de mais de 100 mil profissionais optam por interrogar menos de 300, haveria que assegurar que o grupo de respondentes é uma amostra fiel dos professores de todo o país, incluindo, de forma proporcional, idades, distribuição geográfica, níveis de ensino, grupos disciplinares, categorias profissionais. Não há indícios de que tal tenha sido feito. Aliás, a “colaboração” pedida às duas associações de directores sugere que os investigadores nem terão controlado directamente a constituição da amostra: bastou-lhes pedir aos senhores directores que passassem o link no GoogleForms ou similar a um determinado número de docentes, escolhendo quem bem entendessem.

Depois, a forma como estes formulários são geralmente construídos deixa também muito a desejar. Perguntas vagas, que podem ter sentidos contraditórios, ou construídas de forma a induzir determinadas respostas. Quanto a estas, muitas vezes as opções dadas para responder não se adequam ao que é perguntado ou ao que realmente se gostaria de responder. Neste caso em concreto, vemos uma maioria de professores a acusar o excesso de trabalho burocrático e depois a defender uma das coisas mais trabalhosas que se fazem actualmente nas escolas, as adaptações curriculares, com ganhos pedagógicos reais ainda por demonstrar. A única lógica que permite compreender isto é que se encomendam estudos, não para compreender a realidade e tomar melhores decisões, mas para caucionar políticas erradas previamente decididas.

Este panorama desolador nos estudos académicos sobre as escolas e a Educação vai alastrando, infelizmente, a outras áreas das ciências sociais. Quem é que não é regularmente convidado a responder a mais um inquérito, uma sondagem, um estudo nesta ou naquela área, partindo o convite, quase sempre, do correio institucional ou de amigos e conhecidos que têm um filho, um sobrinho, um amigo a fazer um trabalho de mestrado ou doutoramento e precisam de reunir rapidamente um número determinado de respostas, sejam elas de quem for? É preciso que se diga claramente que esta constituição de amostras ditas “aleatórias” não é ciência séria em parte nenhuma do mundo. Entre nós, também não deveria ser.