O país dos doutores (e engenheiros)

socrates-engenheiro.jpgA polémica acerca das habilitações académicas e profissionais de José Sócrates é antiga, e nada tem a ver com o mega-processo judicial em que o antigo primeiro-ministro está envolvido. Mas foi agora reaberta perante aquilo que a Ordem dos Engenheiros diz ser um “inusitado número de interpelações e pedidos de informação” da parte de membros e cidadãos, aparentemente incomodados com o facto de, no site do Parlamento, Sócrates aparecer designado como “engenheiro”.

A Ordem dos Engenheiros enviou um esclarecimento aos seus associados em que revela que o ex-primeiro-ministro José Sócrates não é engenheiro. A ordem informa ainda que vai alertar a Assembleia da República para “a desconformidade existente na referência biográfica patente no seu portal” na Internet.

A ordem diz não ter conhecimento “que o cidadão em causa tenha alguma vez utilizado indevidamente o título profissional de engenheiro, em violação do n.º 4 do Art.º 7.º dos referidos Estatutos”. Reconhece, porém, ser público que em múltiplas ocasiões é feita uma menção a esse título “indevidamente por terceiros”.

Sobre a referência ao título na página oficial da Assembleia da República a associação profissional diz num e-mail enviado a um dos seus associados que pediu esclarecimentos: “A Ordem dos Engenheiros irá, dentro das suas obrigações estatutárias, contactar a Assembleia da República no sentido de alertar para a desconformidade existente na referência biográfica patente no seu portal.”

É ridículo, para não dizer pior, haver gente que perde tempo, que se calhar perde até o sono, com coisas destas. E das duas uma, ou é uma “campanha” contra a figura política há muito caída em desgraça, e aí é caso para dizer que não havia necessidade, ou será apenas expressão do velho e cobarde hábito de bater nos caídos. Porque quando o agora visado se afirmava como líder determinado e carismático à frente dos destinos do país, muito poucos eram os que lhe faziam frente.

Este caso é ainda revelador de como, por baixo da aparente modernidade da nossa sociedade, subsiste a mentalidade de um Portugal antigo, conservador e respeitador dos títulos. Agora de doutores e engenheiros, como em tempos mais antigos de fidalgos e eclesiásticos. As ordens profissionais são de facto dignas representantes, no século XXI, de uma ordem social típica da pré-modernidade na qual, em vez de direitos universais, se reconheciam ou negavam privilégios segundo a condição de cada um. Onde a hierarquia social estava cuidadosamente regulada, e isso se exprimia de diversas maneiras, entre elas as formas de tratamento a que cada um tinha direito.

Esta ideia de que, antes de chamar “engenheiro” a qualquer licenciado em engenharia, o cidadão deve averiguar se o mesmo está inscrito na respectiva ordem – e, já agora, se tem as quotas em dia! – é uma perfeita e rematada estupidez. Quando na maioria dos países desenvolvidos há muito tempo deixaram de se usar os títulos académicos no trato social, ou nunca o chegaram sequer a fazer, por cá continuamos a alimentar corporações profissionais que, em vez de se cingirem aos aspectos técnicos e regulatórios do exercício da profissão, pretendem funcionar como uma espécie de polícia de costumes, impondo as suas regras próprias a toda a sociedade e inclusive aos órgãos de soberania. Como se até o Parlamento, incumbido pelas regras da democracia de fazer as leis em nome do povo, estivesse ele próprio subordinado aos regulamentos das corporações.

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Pelos States

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O regresso da praxe

praxeFatal como o destino. Saem as colocações nas universidades, os novos estudantes matriculam-se e de imediato começam a ser arregimentados para as actividades da chamada praxe académica.

Já sem grande paciência para as brincadeiras estúpidas e pouco imaginativas, para o jogo da submissão e da humilhação que se tenta apresentar como integração e lição de vida, não terei muito a acrescentar, em mais um início de temporada praxística, ao que já escrevi em anos anteriores.

Contra a estupidez contagiosa, o humor é quase sempre o melhor antídoto, e por isso aqui deixo, com a devida vénia, alguns trechos de uma inspirada crónica de João Quadros sobre o tema das praxes.

A praxe “é a tradição”. Esse argumento funciona para as praxes e para a excisão do clitóris. As justificações da malta das praxes são muito semelhantes às dos amantes da tourada. Não é por acaso. Ainda vão dizer, como na tourada, que se não houvesse praxe não havia caloiros. “Ai, mas é bom para o salutar convívio”. Isto parece a conversa sobre as mulheres que levam dos maridos — “Até é para meu bem. Ando desaustinada”.

“Foi graças à praxe que fiz amigos”. Não há paciência. Esta gente que diz que tem amigos porque fez a praxe é o equivalente a dizer que tem namorada porque foi a uma casa de prostitutas. O mais irritante, são as pessoas que acham que os outros não sabem o que é a praxe como justificação para a sua própria estupidez.

A praxe não é tradição. Uma tradição, e isso sim é um clássico, é que metade dos tipos que estão a fazer praxe, vamos descobrir nos anos seguintes, são do pior que anda na faculdade. São os mesmos que tocam pandeireta e cantam a “Mulher Gorda”; o que dá para adivinhar do grau de humanismo destas criaturas. Em vez de “integrar” os caloiros, eu desintegrava os que fazem praxe. Tenho a certeza que melhorava a qualidade de vida do estabelecimento de ensino.

“Pois é, Quadros, mas se não aceitarmos a praxe depois não vamos poder usar o traje”. Não é verdade. Mas e se fosse? Quem é que quer usar aquilo quando pode não usar?! Isso é o mesmo que dizer: “Se eu não aceito a praxe depois não me deixam pôr umas botas ortopédicas para fazer ginástica”. Não compensa usar uma capa se nem sequer vos dão uma vassoura que voa, está bem? É parvo.

O génio da banalidade

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Cavaco Silva reapareceu ontem naquilo a que chamam a Universidade de Verão do PSD, apenas para mostrar que continua ressabiado com a actual solução governativa e ainda mais com o seu sucessor na Presidência da República. Uma assombração, como sugere Joana Mortágua?

Saí de casa e entrei no carro e assisti a um anti-milagre de ressuscitação. Parece que ouvi no rádio uma voz do além, das profundezas, a dizer uma série de disparates e afinal era o Cavaco Silva que tinha voltado, não se sabe bem de onde, para dizer umas coisas.

O que ouvi não foi muito, mas o cinismo, o argumento tortuoso, as meias palavras e as meias verdades típicas do discurso cavaquista, isso estava lá tudo. E recordou-me o retrato certeiro de José Saramago, possivelmente a pessoa que melhor definiu este político tão medíocre quanto mesquinho:

Sempre que fala o professor Cavaco Silva está dando uma lição. Mas hoje descobri – não direi exactamente com surpresa – que tudo quanto ele diz é banal. É uma espécie de génio da banalidade.

 

 

Desconstrução do currículo

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É melhor ir com cuidado!…

Os professores têm muita culpa

culpado.jpgE quem diz os professores diz os directores escolares e os diversos titulares de cargos de gestão intermédia das nossas escolas e agrupamentos. Não estou a pôr-me de fora – eu também sou professor!

E digo que temos a nossa parte da culpa em todos estes experimentalismos educativos que nos vão caindo em cima porque estamos quase sempre demasiado solícitos e disponíveis para fazer tudo o que nos mandam.

Somos demasiado sensíveis ao discurso do poder que vai minando as nossas convicções e o nosso profissionalismo com ataques insidiosos: a escola está parada no tempo, os professores são imobilistas e avessos à mudança, os alunos sofrem de um tédio de morte nas aulas maçadoras que os obrigam a suportar, o conhecimento está todo na internet e alcança-se, à velocidade da luz, com um qualquer zingarelho electrónico.

A maioria destas críticas tem escasso ou nulo fundamento, e o discurso insidioso contra o trabalho dos professores é relativamente fácil de desmontar. Mas todos sabemos que há coisas que funcionam mal nas escolas portuguesas. E a nossa permanente capacidade de reflexão e auto-crítica, que é uma ferramenta de enorme valia que os professores transportam consigo, volta-se nalguns casos contra nós: e se andamos mesmo a fazer tudo mal? Não devemos aceitar a mudança? Não é tudo para bem dos nossos alunos, aqueles que nos preocupam acima de tudo?

E quando damos conta, lá estamos nós a elaborar complicados grelhados curriculares, projectos transdisciplinares para redescobrir a pólvora ou intragáveis prosas eduquesas onde só o copy/paste nos livra da desinspiração e do sentimento de profunda inutilidade em relação ao que andamos a fazer.

O caminho para uma educação mais focada nos alunos e nas suas necessidades, mais atenta e reflexiva, mais humanista, passa também por desenvolvermos a capacidade de dizer não aos domesticadores da classe docente. Recusar a burocracia eduquesa e dirigir o nosso trabalho apenas para o que é importante para as turmas e alunos que temos à nossa frente.

O nosso trabalho não é fazer dos nossos alunos cobaias de académicos que querem impor as suas teorias educativas, de políticos em busca de popularidade, de burocratas da educação ansiosos por cortar despesa e apresentar resultados fáceis e imediatos.

Em vez da vontade de agradar a quem manda, falta-nos a ousadia de lhes desagradar, recusando a arreata que nos querem impor.

Em vez de obedecer cegamente, usar o pensamento crítico que nos dizem que devemos ter para questionar e resistir a tudo o que nos desvia do essencial na nossa profissão de professores.

Usar as margens de autonomia de que ainda dispomos no nosso exercício profissional para desconstruir, não o currículo dos nossos alunos, mas as políticas educativas que se fazem contra os verdadeiros interesses e as reais necessidades das comunidades escolares.

Eduquês 2.0

coelho-da-cartola.gifComeçam a surgir pela internet esses tesourinhos deprimentes que são os novos documentos organizadores da flexibilidade curricular, a serem produzidos, em ritmo acelerado, nas escolas aderentes. É a reciclagem do velho eduquês bolorento da viragem do milénio, dos PCT e dos PCE, das transversalidades curriculares e da aprendizagem cooperativa, da área-escola e da área de projecto. E de muita, muita cidadania.

[…] necessidade de ultrapassar uma visão de cur­rículo como um conjunto de normas a cumprir de modo supostamente uniforme em todas as salas de aula e de ser apoiado, no contexto da crescente autonomia das escolas, o desenvolvimento de novas práticas de gestão curricular. Neste sentido, ensaiando as potencialidades de um novo dese­nho curricular, as escolas foram convidadas a apresentar projectos de gestão flexível do currículo.

No quadro do desenvolvimento da autonomia das escolas estabelece-se que as estratégias de desenvolvimento do currículo nacional, visando adequá-lo ao contexto de cada escola, deverão ser objecto de um projecto curricular de escola, concebido, apro­vado e avaliado pelos respectivos órgãos de administração e gestão, o qual deverá ser desenvolvido, em função do contexto de cada turma, num projecto curricular de turma, concebido, aprovado e avaliado pelo professor titular de turma ou pelo conselho de turma, consoante os ciclos.

Integração, com carácter transversal, da educação para a cidadania em todas as áreas curri­culares;

Reconhecimento da autonomia da escola no sentido da definição de um projecto de desen­volvimento do currículo adequado ao seu contexto e integrado no res­pectivo projecto edu­cativo;

Valorização da diversidade de metodologias e estratégias de ensino e actividades de aprendizagem, em particular com recurso a tecnologias de informação e comunicação, visando favorecer o desenvolvimento de competências numa pers­pectiva de formação ao longo da vida; […]

Toda esta prosa poderia perfeitamente ser subscrita pelos novos evangelizadores do sucesso educativo, ou transcrita com pequenas adaptações pela habitual adesivagem que, pelas escolas, se dispõe a replicar as prédicas vindas de cima.

Na verdade, são excertos do decreto-lei nº 6/2001, que vigorou durante uma anterior passagem do PS pelo poder. Quinze anos depois, os eduqueses atacam de novo. A tentação pelo abismo mostra-nos que nada aprenderam, e que estão cheios de vontade de repetir os mesmos erros.