O castigo de Deus

castigo-obsSerá então que Deus nos está a castigar com esta pestilência que estamos a sofrer em Portugal? Um sr. ministro alemão, ao contrário de um sr. bispo, responderá que sim. O sr. ministro dirá que é um castigo divino porque acredita na causalidade. E acreditando que Deus existe, e é a causa última de todas as causas, parecer-lhe-á evidente que terá sido Ele que, na sua sabedoria, terá estabelecido desde toda a eternidade as coisas para que o PS perdesse as eleições em 2015 sem que a coligação Portugal à Frente obtivesse a maioria absoluta. Para isso bastou-Lhe ordenar, através de outras causas secundárias, os afazeres e preferências de 44% dos eleitores para que não fossem votar, bem como infetar 32% dos votantes com o vírus socialista e outros 18% com uma bactéria marxista resistente a toda a evidência histórica. Embora esta calamidade nacional, que são os governos do sr. eng. Costa, tenha tido como causa próxima estas doenças ideológicas, de caracter endémico no nosso país, um crente estará consciente que a sua causa última é Deus Nosso Senhor, que opera por causas quer aparentes quer misteriosas.

Não sei se o economista que assim escreve, tomando-se a sério, no Observador, se enganou na profissão. Ou se, simplesmente, nasceu no século errado.

A pandemia do novo coronavírus é o castigo divino no século XXI: não sei o que andaram a comprar e a distribuir lá pela redacção com o dinheiro dos novos apoiantes e subscritores. Mas a mocada parece ser forte…

Perante prosas delirantes como esta, já há muita gente a querer experimentar o produto…

A “revolução cultural” nas aulas de HGP

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O tweet já tem alguns dias e, não tendo ponta por onde se lhe pegue, abstive-me de o comentar. Mas gerou, no Twitter, uma polémica inesperada. Que em grande medida seria evitada se alguns opinadores se dessem ao trabalho de espreitar o programa, constatando como é absurda a acusação de manipulação ideológica.

Claro que Rui Tavares não é professor da “tele-escola”. Apareceu ocasionalmente porque um trecho de uma série documental da sua autoria, disponível no espólio da RTP, foi seleccionado para ilustrar um ponto concreto da matéria que estava a ser leccionada. O recurso a conteúdos multimédia tem sido regra nas aulas do #EstudoEmCasa, na linha do que é habitual fazer-se, hoje em dia, nas aulas presenciais.

Que dizer então de um eurodeputado que se indigna, provavelmente por não ter inteligência para mais, ao ver um historiador a ensinar… História? As opções políticas de um professor ou de um académico impedem-no de ser um profissional isento e competente na sua área? Talvez a melhor e mais convincente resposta ao cabotinismo do diletante Melo tenha sido dada por David Justino, depois de o próprio Rui Tavares sentir a necessidade de colocar os pontos nos is. Tudo isto no Twitter, uma rede social que tantos internautas continuam a subvalorizar…

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A pequena polémica parece ilustrar bem a imparável caminhada do CDS em direcção à irrelevância política, com um Nuno Melo displicente e trauliteiro a tentar em vão marcar pontos no terreno movediço de André Ventura e do populismo de direita. Mas sem jeito, talento ou sentido de oportunidade para a coisa.

Com a mesma falta de noção, o grupo parlamentar do CDS decidiu cavalgar politicamente o não-assunto, interpelando o governo sobre a alegada doutrinação ideológica e obrigando o ME a dar-lhe a resposta apropriada. É o que se chama ir buscar lã e vir tosquiado…

O Governo já reagiu à polémica em torno de Rui Tavares e do projeto #EstudoEmCasa” (vulgo telescola). Numa nota enviada ao Expresso e ao “Polígrafo SIC”, o Ministério da Educação garante que o dirigente do Livre “não é professor do projeto #EstudoEmCasa” e que o recurso aos conteúdos da RTP é prática corrente neste e nos outros anos letivos.

Na nota enviada às redações, o gabinete de Tiago Brandão Rodrigues esclarece que o que aconteceu “foi a utilização de um recurso pedagógico por parte das duas professoras de História e Geografia de Portugal do 5.º e 6.º anos” e que, “como em qualquer aula, planificada pelos professores e validada pela Direção-Geral da Educação, os docentes utilizam os recursos pedagógicos que entendem adequar-se às matérias em questão”.

“No caso, trata-se do excerto de 5 minutos de um programa de História, exibido na RTP2 em 2018, e disponível na plataforma RTP Ensina, à qual os docentes recorrem com regularidade para utilizarem nas suas aulas (presenciais ou não presenciais)”, completa a mesma fonte oficial.

Previsível, mas evitável…

youtube.PNGUm grupo de ‘youtubers’ conseguiu aceder às palavras-chave do programa informático que permite a alunos e professores estarem ligados para as aulas através da Internet. A situação obrigou a que muitas das aulas estejam a ser canceladas está sexta feira.

De acordo com um email enviado aos encarregados de educação às primeiras horas da manhã, um grupo denominado RedLive13 entra no sistemas e faz “todo o tipo de disparates”, impedido o normal funcionamento das aulas online, onde cada turma está ligada em sincronia com o professor da respetiva disciplina.

Desconhece-se para já quantas escolas ou turmas estão a ser afetadas pelo problema.

O grupo já divulgou vídeos no YouTube onde mostra como entraram no sistema e o que fazem para boicotar as aulas.

Fica a informação lacónica, pois me recuso a dar publicidade a estes malandros desocupados que querem, com escasso esforço e nulo talento, fazer vida de youtubers.

Faltando talento a estes rebentos da geração digital que procuram avidamente visualizações, cliques e likes nas suas páginas, eles tentam alcançar os seus objectivos da forma mais fácil, que é gozar com quem tenta trabalhar.

Há várias coisas a dizer sobre isto, e a primeira é que os vídeos publicados configuram a prática de diversos crimes, pelo que se espera que os visados denunciem e as autoridades actuem, identificando os responsáveis e levando-os perante a justiça.

Depois, acrescentar que o verdadeiro talento existe em todas as gerações, e portanto também na dos youtubers e instagramers. O que sucede é que os jovens talentosos estão sobretudo na concepção e programação dos equipamentos e do software, não tanto entre os seus utilizadores, que primam, na grande maioria, pela mediocridade. O tombo destes pretensos génios acontecerá, mais cedo do que tarde, assim que, passado o efeito da novidade, deixarem de lhes achar piada.

Outra coisa que nunca é demais lembrar é que nenhum professor é obrigado a dar aulas online ou a tentar reproduzir, frente a uma câmara, o que faria numa aula real. Há demasiada precipitação no recurso ao Zoom e outros programas de videoconferência por parte de colegas que cedem à pressão e às modas do momento, recorrendo a tecnologias com as quais ainda não se sentem à vontade. E já sabemos que a tutela ministerial, sempre pronta a atirar os professores às feras, é a primeira a deixá-los por sua conta e risco quando algo corre mal…

Para os colegas corajosos e afoitos que querem mesmo assim integrar a videoconferência nas suas sessões de ensino a distância, há um princípio básico a ter em mente no uso do Zoom e outras plataformas populares de videoconferência: quem dirige a reunião é que manda, e essa autoridade deve ser assumida sem condescendências. Bem utilizada, ela acaba por ser mais efectiva do que numa aula normal:

  • Os candidatos à entrada podem ser colocados em espera e só entram com aprovação de quem dirige a reunião;
  • Depois de terem entrado todos os convidados, podem-se bloquear novas entradas, barrando os intrusos, mesmo que estes disponham dos dados de acesso;
  • Um intruso pode ser de imediato expulso e bloqueado, ficando impossibilitado de voltar a entrar;
  • Existem ferramentas para que quem dirige a sessão silencie ou corte a imagem de quem não se souber comportar;
  • O chat pode ser desactivado na totalidade, ou apenas de forma a não permitir mensagens privadas, impedindo conversas paralelas e distracções;
  • A partilha do ambiente de trabalho pelos convidados deve estar desactivada, ficando dependente de autorização expressa do professor.

Diria que o professor que ainda não se familiarizou minimamente com estas funcionalidades poderá não estar preparado para usar a videoconferência com os seus alunos. Sobretudo se entre estes estiverem daqueles adolescentes engraçadinhos que gostam de pôr os seus professores à prova…

Cortejo de bêbedos

CORTEJO-DA-QUEIMA-DAS-FITAS-CJM.pngEstudantes da universidade, do politécnico e dos institutos de ensino superior privado de Coimbra assinaram um abaixo-assinado em que contestam o novo regulamento dos carros no Cortejo da Queima das Fitas.

Recorde-se que, há algumas semanas, foi apresentado o regulamento que prevê a diminuição do número de bebidas alcoólicas transportadas nos carros dos cursos.

O abaixo-assinado foi subscrito por mais de 1.600 estudantes de 66 cursos.

Perdida toda e qualquer noção do que possa ser o mítico espírito académico, esgotadas a irreverência e a criatividade que se exprimiam nos carros do cortejo, incapazes de se divertir apenas com a companhia uns dos outros, sem o recurso a drogas estimulantes, a actual geração estudantil de Coimbra mobiliza-se em defesa da épica bebedeira e do imundo chavascal a que a Queima das Fitas se vem reduzindo, ano após ano.

Há décadas que a cerveja destronou o vinho enquanto fornecedora dos carros da Queima. Mas, nos últimos anos, nem estômago vão tendo para beber as litrosas, preferindo despejar, uns sobre os outros, peganhentos banhos de cerveja.

Neste caso, nem sei o que mais me desgosta: se a imaturidade e a irresponsabilidade dos autoproclamados “doutores”, incapazes de controlar o álcool que consomem; se a reacção dos estudantes, que encontram nesta limitação de consumo um pretexto para se unirem em defesa do direito aos banhos de cerveja, do cortejo de bêbedos e dos comas alcoólicos.

Note-se que, desde a restauração da Queima das Fitas nos anos pós-revolucionários, a relação entre os estudantes das várias instituições de ensino superior não tem sido fácil, com os universitários a recusar a plena integração dos colegas do politécnico e das escolas privadas na festa da academia. E estes a serem reiteradamente discriminados, obrigados a desfilar no fim do cortejo, contidos a uma distância higiénica dos “doutores da faculdade”. Há, afinal, algo que os une: a incondicional defesa do bar aberto nos carros da Queima.

“Ideologia de género”

escola-lgbtEspecialmente dedicado aos pais homofóbicos, à direita liberal mas “conservadora nos costumes” e a todos os que, em geral desconfiam da idoneidade dos professores. E temem que a presença da educação sexual, da igualdade de género e das temáticas LGBT no currículo escolar possa despertar nas crianças e adolescentes tendências homossexuais.

Enternece-me a fé que a direita tem nos professores.

Não consigo que ponham um til e vou ser capaz de fazer deles maricas…

O Triunfo da Estupidez

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Quanto mais estúpidos, boçais e ignorantes se mostram, mais se afirmam nas suas lideranças.

Parece que o pessoal gosta disto. E rende votos…

E porque fui buscar este boneco? É evidente que, além de ter sido feito por um professor que também é artista, isto tem tudo a ver com Educação. Ou com a falta dela…

O conhecimento na palma da mão

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Cada vez mais pessoas acreditam que a Terra é plana. A culpa é de um vídeo no YouTube

Nunca como no século XXI o conhecimento científico se tornou tão acessível, com a quantidade de vídeos, mapas e literatura disponíveis online. Também nunca fizemos o nosso quotidiano depender tanto da tecnologia como sucede nos dias de hoje. Ninguém duvida dos prodígios da ciência e da engenharia quando se trata de viajar de automóvel ou de avião, de usar computador ou telemóvel, de recorrer a tecnologias como as redes sem fios ou o GPS. O que leva então um número crescente de pessoas a acreditar que as vacinas provocam autismo, que os americanos nunca foram à Lua ou que a Terra é, afinal, um disco achatado?

O que move as pessoas a contestar a ideia da esfericidade da Terra, que surgiu há mais de dois mil anos na Grécia Antiga e se tornou consensualmente aceite desde o Renascimento, com as viagens marítimas à descoberta do mundo feitas nesse tempo por navegadores portugueses e espanhóis a demonstrarem, categoricamente, a esfericidade da Terra?

Parece evidente a fragilidade do conhecimento científico e do pensamento crítico que hoje tanto se valoriza: afinal, basta afirmar convictamente umas aldrabices, gravar com elas um vídeo de produção cuidada e divulgá-lo através do Youtube: rapidamente se arranjam “seguidores” para a ideia mais espatafúrdia que se consiga inventar.

Quanto à universidade norte-americana que constatou a popularidade da crença na Terra plana parece ela própria prisioneira da lógica que denunciou. Segundo os investigadores, o remédio para os vídeos anti-científicos está em fazer novos vídeos, desta feita com os cientistas a divulgar o verdadeiro conhecimento científico acerca desta matéria. Uma ideia que o Youtube certamente agradece…

Pela minha parte, em vez da competição pelos cliques e likes que é sugerida, julgo que seria mais importante capacitar as pessoas a fazerem um uso mais crítico e selectivo do imenso manancial da informação que têm ao seu dispor. Em vez do relativismo com que se pretende equiparar todos os saberes, é importante reafirmar as diferenças entre factos e opiniões e entre o conhecimento cientificamente estruturado e as balelas que se pretendem fazer passar por ciência. Entre sites de referência que divulgam informação credível e rigorosa e plataformas onde qualquer um pode publicar o que entender.

Música de Natal… politicamente incorrecta?

É uma cantiga de Natal heterodoxa, difícil de cantar, mas belíssima – uma das mais originais e comoventes músicas natalícias de sempre.

Fairytale of New York, uma criação da banda irlandesa The Pogues, assinalou por aqui o Dia de Natal de 2017.

Pois há dias descobri, perplexo, que a brigada do politicamente correcto resolveu implicar com a canção. Pelo meio de acusações de que a letra é ofensiva para a comunidade gay, há já quem queira censurar a cantiga. O DN conta a história…

Passaram 31 anos desde que os Pogues lançaram Fairytale of New York, uma cantiga que conta a história de dois vagabundos que interrompem a lástima dos seus dias para viver um amor de Natal.

Na Irlanda, terra de origem da banda, estalou nesta semana uma polémica, quando um locutor da rádio nacional pôs em causa o uso da expressão “faggot” na canção, alegando que era linguagem imprópria e ofensiva para a comunidade LGBT.

“Perguntei a dois colegas gays o que achavam disto”, escreveu Eoghan McDermott num tweet que entretanto já apagou. “Um achava que se devia censurar, outro disse que se devia simplesmente banir a canção. Nenhum deles gosta da música. A expressão não tem nenhuma utilidade social e deve sair.”

Nas horas seguintes, as redes sociais explodiram, com gente a apoiar a ideia de que a frase era homofóbica, e com outra a chamar ao locutor de rádio e seus seguidores a “brigada do politicamente correto”.

Tanto que o próprio vocalista Shane McGowan veio a público responder à polémica: “A palavra foi usada pela personagem, porque cabia no seu tipo de discurso”, disse num comunicado da sua editora, a Virgin Media.

“Não é suposto que ela seja uma mulher simpática ou sequer salutar. É uma mulher de uma certa geração, num certo momento da sua história em que a sorte se esgotou e ela está desesperada.”

Sem mais comentários sobre uma estupidez e falta de juízo que me deixa sem palavras, resta-me finalizar com uma interpretação da canção de que aqui se fala. Não querendo repetir o post do ano passado, escolhi uma das dezenas de covers que esta música já tem. Fugindo de algumas interpretações nitidamente sem pedalada para a tarefa exigente que é recriar o original – sobretudo a voz da malograda Kristy MacKoll – escolhi a versão de um grupo de jovens músicos irlandeses que consegue duas coisas interessantes: fugir da lamechice, preservando a força e a mensagem da cantiga original.

 

Provérbios amigos dos animais

Quando alguns fundamentalistas dos direitos dos animais querem já abolir ou modificar os provérbios que sugerem maus tratos a animais, ninguém se espante se um dia destes a onda do animalisticamente correcto se espraiar pelas nossas escolas.

Como sabemos, a idiotice tende a ser contagiosa e, nestas coisas, o que custa é começar.

E se, em vez dos animais, passarem a ser os professores o bombo da festa, também já não será nada que nos cause estranheza.

O nosso bem humorado colega Antero Valério já começou os exercícios de aquecimento…

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A falta que faz uma gravata

Muito modernas e progressistas, mas às vezes dão nisto: há uma quase histeria entre alguns frequentadores das redes sociais pela publicação desta foto do primeiro-ministro, vestido informalmente, na recepção oficial com que teve início a sua visita oficial a Angola.

Todos gabam o à-vontade dos governantes nórdicos que vão de transporte público para o trabalho ou dos anglo-saxónicos que não perdem tempo a tratarem-se por senhor doutor. Mas a calça de ganga de António Costa e a falta de gravata afiguram-se um crime de lesa majestade e um golpe irreparável nas relações luso-angolanas.

Eu não faço ideia de qual terá sido o percalço ocorrido com o fatinho de cerimónia ou que voltas terá dado a mala em que seria transportado. Não é preciso ser muito viajado para saber que estas coisas sucedem esporadicamente, e pelos vistos nem um primeiro-ministro está livre de tais contratempos.

Mas fico perplexo com a facilidade com que ainda se julgam as pessoas pela roupa que trazem vestida. A quantidade de vigaristas e trafulhas de fato e gravata que têm passado pelos bancos, pela advocacia dos negócios, pelas empresas do regime e pela política, e ainda há quem ache que é a fatiota que confere seriedade, dignidade, honestidade, ou o que quer que seja, a quem a veste.