IAVE: o reino da estupidez

iaveA situação já ocorreu várias vezes no passado e sempre se resolveu sem dramas: havendo alunos inscritos para exame que estudaram a mesma disciplina com programas diferentes, a solução lógica é, obviamente, fazer dois exames distintos: um baseado no antigo programa, outro no novo.

Mas o IAVE e o ministério insistiram em seguir pelo caminho mais complicado: um único exame, a realizar por todos os alunos e que supostamente seria compatível com os dois programas. Deu asneira…

Segundo o PÚBLICO apurou, os professores que estão a corrigir os exames de Matemática A receberam nesta quinta-feira um “esclarecimento” do Iave relativo à classificação dos três itens, todos eles de escolha múltipla, em que eram feitas perguntas em alternativa: uma dirigida aos alunos que estudaram pelo programa que esteve em vigor até 2015; outra para os estudantes que já seguiram o novo programa.

Em qualquer bloco é dada a informação sobre a que programa respeita cada item, com a seguinte formulação: “Os dois itens que se apresentam a seguir são itens em alternativa (…). Responda apenas a um dos dois itens. Na sua folha de respostas identifique claramente o item seleccionado.”

Ora, no esclarecimento enviado nesta quinta-feira aos professores, a que o PÚBLICO teve acesso, o Iave dá instruções opostas ao que estava expresso na prova e também nas informações que publicou antes da realização do exame. Estipula agora o Iave que se o aluno, ao contrário do que era pedido no exame, tiver acabado por responder aos dois itens e uma das respostas estiver correcta, “esta deve ser considerada” para efeitos de cotação.

Indica também que se o aluno “não identificar o item pelo qual optou, isto é, se o examinando se limitar a escrever, por exemplo 1. [em vez de 1.1 ou 1.2], a resposta do examinando deve ser considerada”.

Professores ouvidos pelo PÚBLICO, e que pediram o anonimato, frisam que com esta alteração dos critérios de correcção, o Iave está a colocar em “desvantagem os alunos que cumpriram as instruções e apenas responderam a uma das opções”, porque se tiverem errado na sua escolha única não lhes é atribuída cotação. Nas redes sociais também já existem comentários indignados por parte de pais de estudantes que estão nesta última situação.

Com a sua inépcia, o IAVE complicou a vida aos examinandos de Matemática A, criando um problema que era perfeitamente escusado. E a forma desajeitada como o quer tentar resolver, impondo critérios de classificação que contrariam as instruções dadas na prova e beneficiam os incumpridores, apenas irá aumentar o sentimento de prepotência e de injustiça entre os alunos que, tendo cumprido escrupulosamente as regras estabelecidas sairão, inevitavelmente, prejudicados.

O IAVE não é, ao contrário do que a sigla possa sugerir, uma entidade sobrenatural. É constituído por seres homens e mulheres que, sendo humanos, estão sujeitos a errar. Mas por isso mesmo há que ter a humildade de ouvir os outros, de reflectir antes de decidir e de ponderar todas as consequências das decisões que se tomam, em vez de impor teimosamente o que se decidiu de forma precipitada ou mal informada.

Lamentavelmente, entre os dirigentes do ME e das suas adjacências, não só erram com cada vez mais frequência como se nota uma incapacidade crescente de reconhecer os erros, de reparar os danos que causam a terceiros e, acima de tudo, de aprender a evitá-los.

Tudo seria menos mau se a incompetência prejudicasse apenas os incompetentes; a realidade é que brincam irresponsavelmente com as expectativas de milhares de jovens, cujo futuro académico depende dos resultados dos exames.

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Coimbra é uma lição… de democracia. Olé!…

garraiada.jpgO Conselho de Veteranos da Universidade de Coimbra (UC) reuniu, esta quarta-feira à noite, e escolheu manter a garraiada no programa da Queima das Fitas deste ano, contrariando assim o resultado de um recente referendo realizado na UC.

Nessa consulta, 70,7% dos alunos votantes responderam que não querem continuar a ter a garraiada no programa da Queima das Fitas, enquanto 26,7% se pronunciaram pela manutenção do evento tauromáquico na festa estudantil.

“O Conselho decidiu, por maioria, manter a garraiada”, afirmou ao JN, João Luís Jesus, o Dux Veteranorum (que preside ao Conselho), descrevendo este resultado como “surpreendente”. No entanto, João Luís Jesus recusou, para já, tecer mais considerações, adiantando que irá pronunciar-se sobre a posição do Conselho de Veteranos mais tarde.

A decisão do Conselho de Veteranos foi tomada por 27 membros. Este é o órgão supremo da Sociedade Académica, retendo simultaneamente poder executivo e legislativo.

Claro que o erro está em esperar atitudes democráticas de órgãos intrinsecamente antidemocráticos, como o dito conselho dos “veteranos”, formado por estudantes cujo único mérito é o de coleccionarem matrículas em vez de completarem os cursos.

O Dia da Mulher em Pedrógão Grande

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Profunda incompreensão do significado deste dia, ou apenas obscurantismo e estupidez?

Será que o fogo que varreu aqueles lugares, além de vidas, casas e bens, também levou sensibilidade e inteligência aos dirigentes autárquicos? Ou teremos somente de constatar que ninguém consegue dar aquilo que não tem?…

Crianças que não sabem pegar num lápis

desenhar.jpg…o uso excessivo de ecrãs tácteis está a impedir que os músculos dos dedos das crianças se desenvolvam de forma correcta, revela o The Guardian, depois de ouvir vários especialistas britânicos.

Segundo os médicos e terapeutas ouvidos, as crianças têm cada vez mais dificuldade em pegar num lápis ou numa caneta e isso deve-se ao uso das novas tecnologias, desde cedo. “As crianças não entram na escola com a força e destreza com que entravam há cerca de dez anos”, revela Sally Payne, terapeuta pediátrica da Fundação Heart of England, ao The Guardian.

Sally Payne conta que as crianças que chegam à escola recebem um lápis, mas são cada vez menos as que são capazes de segurá-lo porque não têm destreza e as aptidões fundamentais do movimento. “Para poder agarrar num lápis e movê-lo é necessário um forte controlo sobre os músculos dos dedos. As crianças precisam de oportunidades para desenvolver essas competências”, acrescenta a terapeuta. Oportunidades essas que podem ser desenvolvidas em casa ou no pré-escolar.

Sabe-se há muito que um dos processos evolutivos que mais contribuiu para o aparecimento da humanidade foi o desenvolvimento da motricidade fina associada às nossas mãos. Na verdade, a oponibilidade do polegar em relação aos outros dedos – que nos dá a possibilidade de agarrar e manipular objectos com força e precisão – existe em todos os primatas, mas está especialmente desenvolvida no género humano.

Contudo, como sucede em geral com as capacidades inatas, a habilidade manual precisa de ser precocemente treinada para poder ser desenvolvida em toda a plenitude. Quando damos, às crianças pequenas, aparelhos onde elas apenas têm de tocar ou fazer deslizar os dedos para interagir com a bonecada que vai aparecendo no ecrã, estamos a impedir que desenvolvam a coordenação motora dos músculos da mão, algo que se consegue facilmente oferecendo à criança um lápis ou uma caneta para desenhar.

Correndo atrás do canto de sereia das novas tecnologias, acreditando nas fábulas que nos contam sobre os “nativos digitais” e o “conhecimento na palma da mão” estamos na realidade a descurar importantes etapas do desenvolvimento infantil, sem haver sequer a noção dos prejuízos que a falta de estímulos físicos e interacções sociais, substituídos pela omnipresença dos ecrãs, pode estar a causar às crianças do século XXI.

Como sempre, perante a falta de discernimento dos pais e da própria sociedade, é à escola, considerada por muitos retrógrada e fora de moda, que compete zelar pelos interesses das crianças que lhe são confiadas. O que implica, sempre que necessário, pôr de parte a falsa modernidade das tecnologias digitais, confiando sem receios no conhecimento, no bom-senso e na experiência dos profissionais da educação. E nas antiquíssimas, mas sempre eficazes, tecnologias analógicas.

O país dos doutores (e engenheiros)

socrates-engenheiro.jpgA polémica acerca das habilitações académicas e profissionais de José Sócrates é antiga, e nada tem a ver com o mega-processo judicial em que o antigo primeiro-ministro está envolvido. Mas foi agora reaberta perante aquilo que a Ordem dos Engenheiros diz ser um “inusitado número de interpelações e pedidos de informação” da parte de membros e cidadãos, aparentemente incomodados com o facto de, no site do Parlamento, Sócrates aparecer designado como “engenheiro”.

A Ordem dos Engenheiros enviou um esclarecimento aos seus associados em que revela que o ex-primeiro-ministro José Sócrates não é engenheiro. A ordem informa ainda que vai alertar a Assembleia da República para “a desconformidade existente na referência biográfica patente no seu portal” na Internet.

A ordem diz não ter conhecimento “que o cidadão em causa tenha alguma vez utilizado indevidamente o título profissional de engenheiro, em violação do n.º 4 do Art.º 7.º dos referidos Estatutos”. Reconhece, porém, ser público que em múltiplas ocasiões é feita uma menção a esse título “indevidamente por terceiros”.

Sobre a referência ao título na página oficial da Assembleia da República a associação profissional diz num e-mail enviado a um dos seus associados que pediu esclarecimentos: “A Ordem dos Engenheiros irá, dentro das suas obrigações estatutárias, contactar a Assembleia da República no sentido de alertar para a desconformidade existente na referência biográfica patente no seu portal.”

É ridículo, para não dizer pior, haver gente que perde tempo, que se calhar perde até o sono, com coisas destas. E das duas uma, ou é uma “campanha” contra a figura política há muito caída em desgraça, e aí é caso para dizer que não havia necessidade, ou será apenas expressão do velho e cobarde hábito de bater nos caídos. Porque quando o agora visado se afirmava como líder determinado e carismático à frente dos destinos do país, muito poucos eram os que lhe faziam frente.

Este caso é ainda revelador de como, por baixo da aparente modernidade da nossa sociedade, subsiste a mentalidade de um Portugal antigo, conservador e respeitador dos títulos. Agora de doutores e engenheiros, como em tempos mais antigos de fidalgos e eclesiásticos. As ordens profissionais são de facto dignas representantes, no século XXI, de uma ordem social típica da pré-modernidade na qual, em vez de direitos universais, se reconheciam ou negavam privilégios segundo a condição de cada um. Onde a hierarquia social estava cuidadosamente regulada, e isso se exprimia de diversas maneiras, entre elas as formas de tratamento a que cada um tinha direito.

Esta ideia de que, antes de chamar “engenheiro” a qualquer licenciado em engenharia, o cidadão deve averiguar se o mesmo está inscrito na respectiva ordem – e, já agora, se tem as quotas em dia! – é uma perfeita e rematada estupidez. Quando na maioria dos países desenvolvidos há muito tempo deixaram de se usar os títulos académicos no trato social, ou nunca o chegaram sequer a fazer, por cá continuamos a alimentar corporações profissionais que, em vez de se cingirem aos aspectos técnicos e regulatórios do exercício da profissão, pretendem funcionar como uma espécie de polícia de costumes, impondo as suas regras próprias a toda a sociedade e inclusive aos órgãos de soberania. Como se até o Parlamento, incumbido pelas regras da democracia de fazer as leis em nome do povo, estivesse ele próprio subordinado aos regulamentos das corporações.

Pelos States

armas-livros.jpg

O regresso da praxe

praxeFatal como o destino. Saem as colocações nas universidades, os novos estudantes matriculam-se e de imediato começam a ser arregimentados para as actividades da chamada praxe académica.

Já sem grande paciência para as brincadeiras estúpidas e pouco imaginativas, para o jogo da submissão e da humilhação que se tenta apresentar como integração e lição de vida, não terei muito a acrescentar, em mais um início de temporada praxística, ao que já escrevi em anos anteriores.

Contra a estupidez contagiosa, o humor é quase sempre o melhor antídoto, e por isso aqui deixo, com a devida vénia, alguns trechos de uma inspirada crónica de João Quadros sobre o tema das praxes.

A praxe “é a tradição”. Esse argumento funciona para as praxes e para a excisão do clitóris. As justificações da malta das praxes são muito semelhantes às dos amantes da tourada. Não é por acaso. Ainda vão dizer, como na tourada, que se não houvesse praxe não havia caloiros. “Ai, mas é bom para o salutar convívio”. Isto parece a conversa sobre as mulheres que levam dos maridos — “Até é para meu bem. Ando desaustinada”.

“Foi graças à praxe que fiz amigos”. Não há paciência. Esta gente que diz que tem amigos porque fez a praxe é o equivalente a dizer que tem namorada porque foi a uma casa de prostitutas. O mais irritante, são as pessoas que acham que os outros não sabem o que é a praxe como justificação para a sua própria estupidez.

A praxe não é tradição. Uma tradição, e isso sim é um clássico, é que metade dos tipos que estão a fazer praxe, vamos descobrir nos anos seguintes, são do pior que anda na faculdade. São os mesmos que tocam pandeireta e cantam a “Mulher Gorda”; o que dá para adivinhar do grau de humanismo destas criaturas. Em vez de “integrar” os caloiros, eu desintegrava os que fazem praxe. Tenho a certeza que melhorava a qualidade de vida do estabelecimento de ensino.

“Pois é, Quadros, mas se não aceitarmos a praxe depois não vamos poder usar o traje”. Não é verdade. Mas e se fosse? Quem é que quer usar aquilo quando pode não usar?! Isso é o mesmo que dizer: “Se eu não aceito a praxe depois não me deixam pôr umas botas ortopédicas para fazer ginástica”. Não compensa usar uma capa se nem sequer vos dão uma vassoura que voa, está bem? É parvo.