O maior inquérito de sempre… aos professores

É o resultado de uma parceria entre a Fenprof e uma equipa de investigadores universitários liderada por Raquel Varela. Deverá abranger cerca de 40 mil dos 140 mil docentes actualmente no activo em Portugal e pretende avaliar o desgaste profissional que sentem hoje os professores portugueses.

Ambiciona ser o maior e mais completo estudo desta matéria feito até hoje no nosso país, e embora não se preveja que traga grandes revelações em relação ao que estamos cansados de saber, é sempre importante caracterizar, com dados objectivos, os problemas que todos sabemos existir numa classe envelhecida, exausta devido ao excesso de trabalho e às condições muitas vezes penosas em que é realizado e desmoralizada com a falta de reconhecimento e de valorização pessoal e profissional.

Entre as várias ideias que surgiram na apresentação da iniciativa, há um número que me ficou na cabeça e que dá que pensar: 12 mil professores actualmente de baixa por razões de saúde. São quase a décima parte dos professores portugueses. Mas quantos mais haverá que, não estando bem física ou psicologicamente, continuam a leccionar? Até que ponto o adiamento da indispensável renovação da classe docente não estará já a comprometer a formação das novas gerações de professores e alunos e a criar graves problemas para o futuro? Perguntas a que o inquérito agora anunciado, e cujos resultados deverão ser apresentados no final do ano lectivo, deverá ajudar a responder…

O inquérito, da responsabilidade de uma equipa de cinco investigadores, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/UNL), do Instituto Superior Técnico, e de duas universidades brasileiras, foi ontem apresentado publicamente.

Raquel Varela, da FCSH/UNL, que coordena a equipa, disse à Lusa que o estudo deverá ser o mais abrangente alguma vez feito em Portugal neste setor e é constituído por 100 perguntas.

O estudo, realizado em parceria com a Federação Nacional dos Professores (Fenprof), versa questões como as relações dos professores com os alunos, com os colegas ou com as chefias, passando pelas ligações entre a vida privada e profissional, disse a responsável.

“Pretende-se perceber o estado de desgaste dos profissionais”, disse Raquel Varela, acrescentando que a classe dos professores está envelhecida e com uma taxa de adoecimento elevada, traduzida em 12 mil professores de baixa.

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Os exames nacionais agravam as desigualdades

exams_1238018b[1]Para que servem os exames? Os seus defensores terão a resposta pronta: para regular o sistema escolar, para validar a avaliação interna e corrigir ou atenuar assimetrias regionais e locais e para garantir a leccionação do currículo nacional nas disciplinas consideradas estruturantes dos cursos científico-humanísticos do ensino secundário. Se forem honestos, acrescentarão ainda que tudo isto se tornou acessório, ao longo do tempo, e hoje há uma só razão essencial para manter o actual modelo de exames: ordenar e seleccionar os candidatos ao ensino superior.

Se quanto a objectivos estamos conversados, em relação aos efeitos que têm sobre os alunos e sobre o próprio sistema, uma recente tese de doutoramento apresentada na Universidade de Aveiro veio tirar as dúvidas que pudessem existir.

Um estudo realizado na Universidade de Aveiro concluiu que os exames nacionais agravam desigualdades sociais e beneficiam o “mercado paralelo” dos centros de explicações.

“É inegável que existem fundadas razões para ver no instrumento ‘exame’ uma causa para o agravamento das desigualdades sociais no acesso ao reconhecimento escolar”, aponta Andreia Gouveia, autora da tese de Doutoramento em Educação “Exames nacionais, apoios pedagógicos e explicações: a complexa construção dos resultados escolares em Portugal”.

Durante quatro anos, a investigadora esteve num colégio e num agrupamento de escolas considerados de topo pelos ‘rankings’ noutro colégio e agrupamento de escolas colocados no fundo dessas tabelas.

Apenas os jovens do agrupamento de escolas público pior classificado no ‘ranking’ afirmaram não recorrer a explicações porque “a sua condição socioeconómica não lhes permitia”.

O facto levanta “inquietantes preocupações de justiça social e equidade, já que nem todas as famílias podem suportar uma média de 80 euros mensais por duas horas semanais de explicações, no caso dos alunos do Ensino Básico, ou os 160 euros para os alunos do Ensino Secundário”, considera a investigadora.

São precisamente os estudantes das escolas melhor posicionadas no ‘ranking’ que mais procuram centros de explicações, sendo que a maioria dos alunos da escola pública melhor classificada afirmaram recorrer a explicações em todos os níveis de ensino.

Estes dados, aponta Andreia Gouveia, “permitiram-nos verificar como o mercado de explicações influencia o sistema formal de ensino, pois ao frequentarem as explicações fora da escola, os alunos deixam de frequentar os apoios oferecidos por esta”.

Se dessa “excelência” depender o acesso à universidade e, com isso, a um futuro promissor, as famílias informadas e com poder de compra sabem quais as estratégias mais seguras: “assegurar a frequência das ‘melhores’ escolas e dos ‘melhores’ explicadores e quanto mais cedo melhor”.

Esta tese é particularmente interessante porque, não só confirma o que os professores há muito sabem, como deita abaixo, qual castelo de cartas, os estudos preguiçosos da DGEEC, do CNE, da FFMS e de outras entidades que sobre este tema nos têm andado, estes anos todos, a lançar poeira para os olhos. Ora é a qualidade e a estabilidade dos professores, a capacidade das “lideranças” escolares, a excelência das instalações e da organização escolar: sucessivos factores que nos dizem que “fazem a diferença” são afinal de contas obliterados por uma realidade bem simples e comezinha: os pais que querem que os filhos tenham boas notas e têm possibilidades económicas para isso investem em explicações. E as escolas onde há melhores resultados são aquelas onde esse investimento é mais massivo e sistemático.

Claro que no boletim de renovação de matrícula não está lá nenhum quadradinho para indicar se o menino ou menina têm explicações e a que disciplinas. Por isso, as estatísticas oficiais ensaiam explicações com base nos dados que possuem – o escalão da ASE, as habilitações dos pais ou das mães, o “ter internet em casa”… – deixando de parte a informação relevante, aquela que implicaria investigação no terreno. Mas isso leva tempo, dá trabalho, custa dinheiro. E acima de tudo não interessa à agenda dos decisores, dos opinadores e dos influentes do regime, pois não lhes fornece argumentos para atacar e culpar, uma vez mais, as escolas e os professores.

A investigação de Andreia Gouveia reforça a necessidade, de que há muito se vem falando, de corrigir o peso excessivo das actuais provas, o que nem precisa de passar pela sua eliminação: bastaria que os exames fossem exclusivamente aplicados para efeitos de conclusão do ensino secundário, remetendo o acesso ao ensino superior para um processo específico de avaliação e seriação de candidatos da responsabilidade de universidades e politécnicos.

Monitor da Educação 2017

O Monitor da Educação é um observatório da Comissão Europeia que reúne informação relevante e actualizada sobre todos os estados-membros da UE no que se refere a educação e formação.

O tema principal da edição deste ano é a desigualdade na Educação. Aparentemente, as actuais elites políticas, formatadas nos dogmas do neoliberalismo, parecem comungar das preocupações neo-marxistas com a escola reprodutora de desigualdades. Mas não: a apreensão com os fracos resultados académicos dos filhos dos pobres e dos emigrantes reflecte apenas a ideia errada de que a escola pode, por si só, reduzir ou eliminar as desigualdades, sem ser preciso mudar as estruturas económicas e sociais que a originam. No fundo é isto: já que não podemos incomodar os donos do dinheiro nem interferir nos processos de acumulação de riqueza à escala global, vamos então invectivar os professores a fazerem alguma coisa pelos mais desfavorecidos.

O relatório referente a Portugal traz alguma informação relevante, mas precisa de ser lido com cautelas, pois algumas observações são pouco rigorosas ou têm um cunho marcadamente político: percebe-se que os burocratas europeus não andaram pelo terreno a confirmar todos os dados e confiaram em muita informação fornecida directamente pelos organismos governamentais dos diversos países.

Fica o quadro comparativo dos principais indicadores Portugal/UE.

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O estado da Educação segundo o CNE

cne2016.JPGNuma evidente e escusada duplicação de esforços e de recursos públicos, o Conselho Nacional de Educação continua a rivalizar com a DGEEC na produção de um anuário estatístico que pretenderá servir de referência para qualquer coisa. Só não se percebe bem o quê. Na verdade, as 396 páginas do Estado da Educação 2016 pedem meças às 306 das Estatísticas da Educação 2015/2016 recentemente publicadas pelo referido organismo ministerial. Mas pouco ou nada trazem de novo.

De facto, nada disto é verdadeiramente original. No entanto, se a DGEEC ainda trabalha, em primeira mão, os dados do MISI e de outras bases de dados ministeriais onde se encontra quase tudo o que, do ponto de vista estatístico, é possível saber-se dos alunos, dos docentes e das escolas portuguesas, o CNE limita-se a mastigar, em segunda mão, os dados da DGEEC, complementados, no enquadramento internacional, com as estatísticas e estudos da OCDE e de outras organizações de referência.

Percebe-se assim que a verdadeira utilidade destes estudos seja, mais do que apontar ideias e caminhos novos para a Educação portuguesa, manter na agenda educativa o programa de pseudo-reformas que o centrão político e alguns sectores influentes no sector pretendem forçar. Sempre que surge um novo estudo, nem precisamos de o ler para adivinhar o que sairá nas parangonas: a “cultura da retenção”, a “metodologia expositiva”, a classe docente “envelhecida”, o rácio favorável de alunos por professor (só dez alunos por docente, de que é que se queixam?), a redução da população escolar como justificação apressada para a diminuição do número de professores. E outras “evidências”, mais insidiosas, que o martelanço dos números permite ir elaborando, à medida das encomendas e das conveniências de cada momento.

Por aqui, voltarei ao estudo hoje apresentado, e às leituras mais ou menos enviesadas que, a partir dele, já começaram a ser veiculadas pelos media mais atentos a estas coisas da educação…

O estudo do ISCTE e o choradinho dos milhões

bullshit-detectorEis uma iniciativa do ME que retoma duas tradições do socratismo educativo: os estudos de impacto financeiro tomados como critério para condicionar o investimento em Educação e a chancela do ISCTE e de colaboradores próximos do poder como forma de garantir, mais do que a fiabilidade dos resultados, a conveniência das conclusões.

A redução do número de alunos por turma para os níveis em vigor antes da troika representaria em 2020/2021, ano da generalização da medida, um acréscimo orçamental de cerca de 84 milhões de euros, conclui-se num estudo encomendado pelo Ministério da Educação (ME) ao Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE-UL, com o objectivo de avaliar os impactos financeiros e pedagógicos desta política.

Antes de mais, sublinhe-se o irrisório alcance da medida: voltar aos números pré-troika significa formar turmas de 24 alunos no 1º ciclo e de 28 nos restantes, uma redução pouco mais do que simbólica de dois alunos por turma relativamente aos limites actuais, impostos por Nuno Crato.

Em segundo lugar, questione-se a forma como o estudo, que pode ser consultado aqui, chega aos valores obtidos. Apesar de ter sido consultado o MISI, poderosa base de dados do ministério onde constam os dados de todos os alunos do ensino público português, e de estes terem sido desagregados ao nível concelhio, ficam dúvidas acerca da metodologia usada para se chegar aos valores obtidos, que me parecem intencionalmente exagerados. Pois há variáveis, no processo de constituição de turmas, que só localmente, caso a caso, podem ser consideradas. Muito haveria aqui a dizer, mas bastará isto: na maioria das escolas as turmas de 30 alunos são inexistentes ou em número residual e a criação de mais uma ou duas turmas teria custos reduzidos, até porque poderiam ser rentabilizados recursos humanos já existentes.

Além disso, o estudo parece subvalorizar um factor que, quando se trata de dispensar professores, se costuma salientar: o número de alunos que tende, de ano para ano, a diminuir. E todos os anos há professores que se aposentam e são substituídos por colegas mais jovens, logo mais “baratos” e obrigados a maiores horários lectivos. Há ainda mais de cinco mil docentes na mobilidade por doença, com componente lectiva reduzida ou não atribuída, que poderiam ser mais bem aproveitados num quadro de redução gradual da dimensão das turmas.

Claro que todos estes pontos poderiam e deveriam ser equacionados se o ministério mobilizasse os seus próprios serviços para planearem, de forma global e integrada, o redimensionamento da rede educativa para os desafios da escola dita do século XXI, em vez de andar a encomendar estudos “amigos” para justificar a sua inoperância e falta de ambição.

Finalmente, e quanto aos 84 milhões de euros que temem gastar em benefício dos alunos e da melhoria das condições pedagógicas das escolas: um governo que tão levianamente descarta a possibilidade de cortar 250 milhões nas rendas excessivas do sector energético carece de autoridade moral para continuar a impor, na Educação, uma austeridade sem sentido.

Um “estudo” para dizer mal dos professores

Com a perspectiva de uma expressiva greve de professores e de uma manifestação frente ao Parlamento marcadas para a próxima semana, o governo não consegue resistir à tentação e recorre ao habitual golpe baixo: faz publicar mais um estudo a dar conta de maus resultados dos alunos. Nas entrelinhas, e desta vez de forma bem evidente, passa-se a ideia da incapacidade das escolas e dos professores em promover o sucesso dos seus alunos, sobretudo dos mais desfavorecidos.

O estudo em si não traz nada de novo. É semelhante a um outro publicado há tempos para o segundo ciclo, e tira partido do imenso manancial de dados que o ME recolhe sistematicamente, fazendo o tratamento estatístico e um estudo sumário dos resultados obtidos. Com uma direcção-geral inteiramente dedicada a estas coisas, é normal que o façam, partilhando a informação com todos os interessados.

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O que aqui se estranha, para além do timing, é o tom demasiado opinativo e coloquial dos textos, num trabalho que deveria ser isento e rigoroso. Não me parece apropriado ao rigor técnico e científico próprio de um documento desta natureza a referência recorrente a resultados “impressionantes”, a classificações “negativas” (será que andamos a dar notas abaixo de zero?) ou a “chumbos” (um termo do antigo regime com uma carga política e ideológica evidente e cuja utilização nunca é inocente).

Quanto ao estudo propriamente dito, ele não nos diz, sobre o insucesso escolar no 3º ciclo, nada que não soubéssemos já há muito tempo:

  • Que é maior o insucesso no início (7º ano) do que no final do ciclo;
  • Que é a Matemática que o insucesso é mais elevado e mais persistente;
  • Que o Português, o Inglês e a Físico-Química vêm logo a seguir, no rol das disciplinas com piores classificações.

Finalmente, a grande novidade, com a qual se pretenderá alimentar alguma polémica na comunicação social: a grande maioria dos alunos que ficam retidos no 7º ano reprovam com 5 ou 6 negativas. E os alunos provenientes de famílias de menores rendimentos estão mais sujeitos às retenções do que os restantes.

Como é evidente, o facto de os critérios de transição serem, na maioria das escolas, menos exigentes nos anos não terminais de ciclo, permite que alunos com três, por vezes até com quatro níveis dois acabem por transitar de ano. Obviamente que, quando isto sucede, os que ficam para trás são apenas os que têm muitas “negativas”.

Por outro lado, e embora as escolas tentem recuperar todos os alunos em dificuldades, é evidente que esse trabalho não se faz sem o empenhamento dos alunos e a colaboração das famílias. É assim natural que, nas situações em que é a escola, sozinha, a remar contra a maré do insucesso, haja maiores probabilidades de não conseguir chegar a bom porto. Ou, que é o que acontece na quase totalidade dos casos, de estes alunos levarem mais tempo a concluir o 3º ciclo.

Claro que é perfeitamente legítimo, desejável até, esperar que a escola consiga que os seus alunos superem as condicionantes e as limitações impostas pelo seu meio de origem: famílias desestruturadas, de muito baixos rendimentos, pouco escolarizadas e com carências de vária ordem. Mas este é um trabalho para o qual as escolas precisam de mais meios e do apoio, nem sempre disponível, de outras entidades. Necessita de uma intervenção que não se pode confinar ao ambiente escolar, mas tem de actuar na criação ou na melhoria efectiva das condições adversas em que vivem muitos alunos e as suas famílias.

Melhorar os níveis de sucesso escolar reduzindo ao mesmo tempo a desigualdade de oportunidades terá de ser um esforço colectivo que passa pela escola mas não se reduz a ela. E é bem mais trabalhoso, custoso e demorado do que fazer um estudo às três pancadas onde se sinalizam meia dúzia de problemas como se em seguida as escolas, com um passe de mágica, os pudessem resolver.

Como diz a ancestral sabedoria africana, é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.

Mais estatísticas para o sucesso

epis.JPGAnunciado ontem com pompa e circunstância, o Atlas da Educação 2017 é mais um estudo estatístico a juntar aos muitos que se vão fazendo entre nós, e com a ajuda dos quais se vai abrindo caminho para sucessivas “reformas educativas” que deixam quase tudo na mesma. Apesar da boa qualidade de alguns destes trabalhos, a informação de base acaba por ser sempre a mesma: as estatísticas do INE e os dados recolhidos pela DGEEC a partir das bases de dados do ME. Depois é só dar-lhes uma nova apresentação, mais vistosa e “interactiva”.

De uma leitura rápida, posso concluir que este novo estudo aprofunda algumas análises, mas não nos diz nada que não soubéssemos já: que há mais insucesso e abandono no interior do que nas zonas urbanizadas do litoral; que os filhos dos pobres têm mais insucesso escolar do que os dos ricos, que viver numa zona deprimida, pertencer a uma etnia marginalizada ou ter uma mãe menos escolarizada (a igualdade de género ainda não chegou às estatísticas da educação) é meio caminho andado para ser mal sucedido na escola.

Para além do aparato científico e académico destes estudos, o seu objectivo primordial é cumprido com a divulgação pela comunicação social. Mais importante do que as centenas de páginas do pdf que poucos irão ler, são as ideias-chave que a imprensa irá transmitir e a mensagem que, dessa forma, se pretende passar para a opinião pública. Vejam-se a título de exemplo dois excertos da notícia do DN:

A conclusão parte da constatação feita no estudo de que perduram em Portugal “bolsas de segregação/exclusão de escolas, motivadas por múltiplos fatores: assimetrias de rendimentos, fenómenos de imigração e até as próprias preferências de colocação de professores feita predominantemente por sua escolha”.

O documento adianta que “as variáveis socioeconómicas explicam uma parte do sucesso (habilitações da mãe e rendimentos familiares), as variáveis organizacionais e a cultura de escola parecem explicar menos do que seria de esperar ou desejável”, para concluir que “parece restar a hipótese de ser nos processos pedagógicos e de sala de aula que poderá residir a “fórmula mágica” para o sucesso de determinadas escolas em zonas demográficas com menos capital escolar familiar”.

Em suma, os alunos são segregados e excluídos por serem pobres, essa pobreza concentra-se em “bolsas” espalhadas pelo país, é acentuada pela pertença a comunidades de imigrantes e até, pasme-se, por os professores escolherem as escolas para onde se candidatam e são colocados…

Mas quando falham as políticas de rendimento e emprego, de inclusão social e apoio à família, de combate à desigualdade e às assimetrias de desenvolvimento, os autores encontram uma “fórmula mágica” que irá resolver os problemas da pobreza e da exclusão social: os professores, na sala de aula, encontrarão formas de suprir tudo aquilo que faltou às crianças e jovens desfavorecidos que chegam às escolas.

Mais do que nos professores, parece apostar-se nos directores das escolas e agrupamentos para desenvolver e difundir as “boas práticas”. E no desenvolvimento de “estratégias locais”, o que cai que nem ginjas na municipalização da Educação promovida tanto pelo actual como pelo anterior governo. Tudo para que as bolsas de insucesso deixem de existir.

Por mim, confiaria menos em milagres. E levaria mais a sério estes empresários altruístas se promovessem a “inclusão social” nas suas empresas, em vez de insistirem em atirar para cima das escolas uma tarefa que é de toda a sociedade.