Inquéritos inconclusivos

Os professores dos ensinos básico e secundário em Portugal, que responderam a um estudo da Universidade do Minho (UMinho), dividem-se na avaliação das medidas tomadas pela tutela no último ano para responder aos efeitos da pandemia nas escolas. O estudo do Centro de Investigação em Educação (CIEd) da Universidade do Minho foi agora apresentado, com a presença do secretário de Estado da Educação, João Costa.

A investigação “Perceções dos professores sobre o ensino à distância” consistiu num inquérito online em janeiro, com a colaboração das duas associações de diretores de escolas públicas, ao qual responderam 280 professores. Aqueles docentes avaliaram as políticas públicas aplicadas no primeiro confinamento (recursos no ensino à distância, acesso a computador e Internet, iniciativa #EstudoEmCasa, entre outras) e avaliaram também o arranque do presente ano letivo (recuperação das aprendizagens e condições sanitárias, por exemplo). No global, as medidas do Ministério da Educação foram consideradas inadequadas para 44% dos inquiridos, enquanto 35% concordaram e os restantes 21% não emitiram opinião.

Apresentado com pompa e circunstância numa sessão com a presença do SE Costa e com ampla divulgação na comunicação social, o estudo da Universidade do Minho é mais um daqueles trabalhos genéricos, inconclusivos e, com toda a franqueza, sem o mínimo de qualidade científica. Algo que entre nós se tornou regra, infelizmente, naquilo a que pomposamente gostam de chamar as “ciências da educação”, mas que em termos de rigor e método científico deixa muito a desejar. Gostaria, ao escrever sobre o assunto, de não fazer generalizações abusivas, mas quando o único elemento que é disponibilizado para consulta dos interessados é um documento-síntese que pouco ou nada acrescenta ao que a comunicação social veiculou, percebe-se que a encomenda cumpre objectivos mais políticos do que propriamente científicos. O que deveria envergonhar a universidade e os investigadores que o produziu.

Os estudos deste tipo, que pretendem avaliar sentimentos, percepções, opiniões ou estados de alma de uma classe profissional vasta e heterogénea, falham desde logo num ponto crucial, que é a representatividade da amostra. Se num universo de mais de 100 mil profissionais optam por interrogar menos de 300, haveria que assegurar que o grupo de respondentes é uma amostra fiel dos professores de todo o país, incluindo, de forma proporcional, idades, distribuição geográfica, níveis de ensino, grupos disciplinares, categorias profissionais. Não há indícios de que tal tenha sido feito. Aliás, a “colaboração” pedida às duas associações de directores sugere que os investigadores nem terão controlado directamente a constituição da amostra: bastou-lhes pedir aos senhores directores que passassem o link no GoogleForms ou similar a um determinado número de docentes, escolhendo quem bem entendessem.

Depois, a forma como estes formulários são geralmente construídos deixa também muito a desejar. Perguntas vagas, que podem ter sentidos contraditórios, ou construídas de forma a induzir determinadas respostas. Quanto a estas, muitas vezes as opções dadas para responder não se adequam ao que é perguntado ou ao que realmente se gostaria de responder. Neste caso em concreto, vemos uma maioria de professores a acusar o excesso de trabalho burocrático e depois a defender uma das coisas mais trabalhosas que se fazem actualmente nas escolas, as adaptações curriculares, com ganhos pedagógicos reais ainda por demonstrar. A única lógica que permite compreender isto é que se encomendam estudos, não para compreender a realidade e tomar melhores decisões, mas para caucionar políticas erradas previamente decididas.

Este panorama desolador nos estudos académicos sobre as escolas e a Educação vai alastrando, infelizmente, a outras áreas das ciências sociais. Quem é que não é regularmente convidado a responder a mais um inquérito, uma sondagem, um estudo nesta ou naquela área, partindo o convite, quase sempre, do correio institucional ou de amigos e conhecidos que têm um filho, um sobrinho, um amigo a fazer um trabalho de mestrado ou doutoramento e precisam de reunir rapidamente um número determinado de respostas, sejam elas de quem for? É preciso que se diga claramente que esta constituição de amostras ditas “aleatórias” não é ciência séria em parte nenhuma do mundo. Entre nós, também não deveria ser.

E coisas que a gente não saiba?

Os estudantes de escolas com mais disciplina obtêm melhores notas

A notícia do ABC dá conta de um estudo espanhol, realizado a partir de resultados dos testes PISA na disciplina de Matemática, que comprova cientificamente algo que todos os professores sabem empiricamente: um ambiente de ordem e disciplina na sala de aula contribui, de forma consistente, para a melhoria dos resultados escolares.

Mas este é um estudo de inspiração economicista, para o qual se adaptou uma metodologia construída para avaliar, não escolas, mas sistemas bancários. Tende a reduzir o problema da indisciplina à má gestão da sala de aula – conflitos, desordem, ruído – o que sugere que pode ser resolvido com mais formação dos docentes em técnicas de gestão da aula. Quando todos sabemos que factores como o tamanho das turmas, a atenção ao meio social e familiar dos alunos ou a existência de apoios educativos para quem deles necessita são muito mais relevantes na construção de um ambiente escolar tranquilo e propiciador do sucesso educativo.

Ainda assim, não é demais repisar a ideia essencial: com aulas calmas e disciplinadas, todos os alunos conseguem aprender mais. Já o sabíamos, mas escrito preto no branco em paper publicado na The Manchester School terá certamente, para algumas mentes incrédulas, um outro valor.

Professores stressados

Os professores portugueses do 3.º ciclo são os que mais se queixam de stress, os mais insatisfeitos com o salário e os que têm carreiras mais precárias. Quem o diz é um estudo comparativo da Eurydice, que comparou as condições em que é exercida a profissão docente nos diferentes países europeus.

Analisando não apenas as queixas dos docentes portugueses mas comparando também as suas condições de trabalho, carreira, remuneração e avaliação do desempenho com as dos seus colegas europeus, percebem-se muitas das razões pelas quais a profissão deixou de ser atractiva e motivadora. E que sucessivos governos e administração educativa têm muitas responsabilidades na actual situação.

Fica uma síntese da imprensa com os principais destaques do relatório. O documento integral (em inglês) pode ser consultado aqui.

Quase nove em cada 10 docentes portugueses que dão aulas a alunos do 7.º ao 9.º ano disseram sofrer “muito” ou “bastante” de stress quando estão a trabalhar, segundo o relatório “Professores na Europa: Carreiras, Desenvolvimento e Bem-Estar” da Eurydice, um organismo da Comissão Europeia.

A rede de informação sobre os sistemas educativos na Europa comparou a situação dos professores dos 27 estados-membros e de outros países europeus e concluiu que o stress é “comum entre os professores europeus”.

No entanto, numa comparação com a situação vivenciada nos outros países, Portugal destaca-se pela negativa, uma vez que a média europeia de docentes que se queixa de stress fica-se pelos 50% e em Portugal chega aos 87,2%.

Entre as razões pelas quais os portugueses consideram que o trabalho pode ser stressante estão o trabalho administrativo e o “manter-se a par das mudanças exigidas pelas autoridades”.

“Em França, Malta, Lituânia e Portugal, mais de 60% dos professores atravessam momentos de stress devido às mudanças, vivem em stress devido às mudanças requeridas pelas autoridades”, refere o relatório da Eurydice.

Questionados se estavam satisfeitos com o seu salário, apenas 37,8% dos europeus considerou o ordenado satisfatório ou muito satisfatório.

Nesta análise, os portugueses voltam a surgir no fim da tabela, agora ao lado dos islandeses: Menos de um em cada 10 mostrou-se satisfeito com o salário, ao contrário dos Austríacos e Belgas (70%).Portugal é também referido como um dos exemplos com mais docentes com contratos a termo:”

Embora a percentagem de contratos a termo certo normalmente caia à medida que os professores envelhecem, em alguns países existem elevadas percentagem de docentes na faixa etária dos 35-49 anos que ainda estão em empregos temporários como, por exemplo, em Espanha (39%), Itália (32%) e Portugal (41%)”.

Os portugueses são também dos que mais se queixam dos impactos negativos do trabalho na saúde física e mental, segundo os resultados do Inquérito Internacional de Ensino e Aprendizagem 2018 (TALIS — Teaching and Learning Internacional Survey), da OCDE, utilizado no relatório hoje divulgado.

Na Europa, um em cada quatro professores (24%) considera que o trabalho diário afeta a sua saúde mental e 22% apontam consequências físicas.

Os portugueses surgem ao lado dos belgas com “mais de metade dos docentes a considerar que o seu trabalho afeta negativamente a sua saúde física e mental”, refere o inquérito.

Reabertura das aulas tem impacto na pandemia

A reabertura de escolas tem influência na taxa de transmissão, o chamado Rt, da Covid-19, contribuindo para que o seu valor aumente, de acordo com um novo estudo, o primeiro a analisar o impacto do levantamento das restrições, avança o ‘The Independent’.

O regresso dos alunos às salas de aula foi seguido por um aumento médio de 24% na taxa de transmissão Rt, segundo descobertas de um equipa de investigadores da Universidade de Edimburgo após a análise de dados de 131 países.

A única outra medida ligada a um maior aumento no Rt é o levantamento da proibição de reuniões de grupos, que causou uma subida média de 25%. Para criar os seus modelos, os autores vincularam dados sobre estimativas da taxa de transmissão feitas pela ‘London School of Hygiene & Tropical Medicine’ com outras informações do rastreador de resposta do governo britânico, ‘Covid-19 Oxford’.

Recorrendo a dados de 131 países e a sofisticados modelos matemáticos e estatísticos, o estudo agora publicado lança alguma luz sobre o impacto real que as medidas de confinamento e desconfinamento têm sobre a transmissibilidade da covid-19.

Trata-se de uma questão bastante complexa, desde logo porque não é fácil isolar os efeitos de cada uma das decisões que vão sendo tomadas pelos governos, neste difícil exercício de compatibilizar o controle da pandemia com a vida económica e social. Por exemplo, quando se decide um conjunto de medidas, como permitir maiores ajuntamentos, retomar determinadas actividades económicas ou reabrir as escolas, e em seguida se nota um aumento de casos positivos, como saber qual o contributo de cada uma para o agravamento da pandemia?

No caso das escolas portuguesas, o facto de raramente se tentar identificar cadeias de transmissão em meio escolar – perante um caso positivo, quase sempre um aluno infectado em ambiente familiar, os colegas são geralmente mandados cumprir quarentena, sendo apenas testados quando apresentam sintomas – também contribui para que se continue a afirmar, sem lugar a contraditório, que as escolas são lugares de baixo risco de propagação da doença.

Ficamos agora a saber que não será bem assim. O aumento de 24% na taxa de transmissão que, baseados em sofisticados modelos de análise quantitativa, os autores deste estudo atribuem ao desconfinamento escolar é um valor significativo, que deve suscitar reflexão. Os contágios em meio escolar, ou que a ele podem ser associados, existem, e se as cadeias de contágio raramente são identificadas é porque, em boa verdade, pouco se faz para as detectar.

Explorando o artigo da Lancet, encontram-se outras conclusões interessantes. Por exemplo, que há um desfasamento temporal de cerca de 28 dias entre o aumento máximo da taxa de transmissão, o chamado valor de R, e o aparecimento da causa que o provocou. E bate certo. No caso português, a subida galopante no número de novos casos positivos dá-se precisamente quatro semanas depois do início das aulas…

Os investigadores, embora tenham analisado dados de muitos países, não deixam de admitir que as realidades nacionais são diferentes, o que pode levar a que medidas semelhantes possam ter um impacto diferenciado, consoante a forma como são aplicadas. No caso da Educação, turmas mais pequenas, distanciamento físico nas salas de aula, recreios, refeitórios e transportes, uso de máscara, desinfecção das mãos, medição de temperatura à entrada são factores que reduzem efectivamente os contágios, embora o seu impacto real não tenha sido, neste estudo, considerado. Por cá, sabemos bem que, tirando as máscaras obrigatórias a partir do 5.º ano e o álcool-gel à discrição, pouco mais se fez na preparação segura do novo ano escolar.

Um retrato instantâneo da classe docente

cne-estudo.JPGO Conselho Superior de Educação publicou um estudo, encomendado pela Assembleia da República na anterior legislatura, sobre as necessidades futuras de recrutamento de professores. Mesmo numa leitura rápida, ressalta a abundância de informação e a elevada qualidade técnica do documento, sobretudo ao nível da caracterização da profissão docente.

Uma leitura recomendada a que se poderá aceder clicando na imagem ao lado. De um documento incontornável e a que seguramente voltarei em novos posts, ficam para já as “gordas”: um retrato da classe docente que, não sendo novidade, reforça aquilo que há muito se sabe sobre os professores. Mas que alguns, incluindo gente com responsabilidades, fazem por ignorar.

Nos estabelecimentos de educação e ensino público do Continente estavam recenseados 120 852 docentes em 2018.

Uma profissão essencialmente feminina. Corpo docente constituído por uma percentagem de 78% de mulheres, onde sobressaem as educadoras de infância com 99%. 

Um corpo docente envelhecido. O número de docentes com 50 ou mais anos de idade é muito elevado, enquanto o dos que têm menos de 35 anos é baixo. Em termos percentuais, o primeiro grupo representa 52,9% e o segundo 1,1%.

A classificação profissional média dos professores ronda os 14 valores.

Os professores têm uma elevada experiência profissional. A maioria dos docentes do quadro de agrupamento e de escola não agrupada tem muitos anos de serviço. Na educação pré-escolar, 46,4% dos docentes tem entre 30 a 34 anos de serviço e 28,8% tem entre 25 e 29 anos. No 1.º CEB, a maior percentagem (24,5%) situa-se nos que têm entre 15 e 19 anos de serviço, embora a maioria tenha mais de 20 anos de serviço. O 2.º CEB e o 3.º CEB e secundário registam as maiores percentagens nos intervalos entre os 20-24 anos e 25-29 anos.

Apesar disso, 58,4% dos docentes encontra-se nos primeiros quatro escalões dos índices remuneratórios e 0,02% no último escalão.

A atratividade pela profissão tem vindo a diminuir. Em termos de alunos inscritos [em cursos de mestrado nas áreas de formação para a docência], registou-se uma diminuição de cerca de 50% entre 2011/2012 e 2017/2018.

Até 2030 mais de metade dos professores do quadro (57,8%) poderá aposentar-se.

Ajudas no TPC: só desajudam…

deberes_padres.jpgEm Espanha, onde a discussão em torno dos trabalhos de casa surge muito polarizada, foi publicado há dias um estudo interessante sobre o assunto, realizado nas Astúrias. Fugindo ao eterno dilema de ser contra ou a favor dos TPC, os investigadores analisaram a forma como os pais de alunos que frequentam o equivalente ao nosso 8.º ano de escolaridade se envolvem no quotidiano escolar dos filhos adolescentes.

Verificaram, sem grande surpresa, que o envolvimento das mães tende a ser maior e mais efectivo do que o dos pais. E cruzaram o tipo de acompanhamento que é dado em casa com os resultados obtidos pelos alunos na escola. As conclusões também não nos deverão surpreender…

Alunos com pais que os ajudam a fazer os TPC ou que os supervisionam de forma sistemática obtêm piores resultados académicos do que os que pertencem a famílias onde se fomenta a sua autonomia e se mantêm conversas em casa sobre como vão correndo os estudos ou os amigos, mas sem se centrarem em aspectos específicos do trabalho escolar.

O que está aqui em causa são, evidentemente, a autonomia e a responsabilidade do aluno. Idealmente, o TPC deve ser uma tarefa que o aluno seja capaz de realizar autonomamente, desenvolvendo o seu sentido de responsabilidade. Mas nem sempre isso sucede. Percebendo a necessidade de apoiar a vida escolar dos filhos, mais de 90% das famílias, revela o estudo, tenta fazer a sua parte.

O estudo fala de dois estilos de envolvimento familiar. Um é mais comunicativo e nele os pais mantêm conversas sobre a escola com seus filhos para discutir técnicas e hábitos de estudo, relacionamentos pessoais na sala de aula e motivação, e raramente se concentram em aspectos concretos das tarefas escolares. O outro é mais directivo e controlador e menos comunicativo e nele os pais concentram as suas interacções na ajuda, supervisão e controle dos deveres e, com frequência, envolvem-se directamente na sua realização.

Outra constatação significativa: nas escolas em que predominam alunos de famílias comunicativas, além de os resultados médios serem melhores, existem também menos diferenças entre os alunos: o sistema torna-se mais equitativo.

O estudo deixa também algumas dicas sobre a importância da comunicação entre escola e família. E mostra como, por vezes, uma informação mal compreendida pode ter um efeito oposto ao pretendido…

Se, durante uma reunião, o director de turma disser aos pais que os seus filhos não costumam terminar os trabalhos de casa ou fazem-nos mal, no dia seguinte os pais começarão a ajudá-los a fazê-lo. Este tipo de informação irá automaticamente torná-los mais controladores.

Portuguesas exaustas

mulherO estudo, patrocinado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, envolveu uma amostra significativa da população feminina portuguesa: quase 2500 mulheres entre os 18 e os 64 anos foram entrevistadas.

A maior parte das conclusões não são surpreendentes – confirmam o que há muito se sabe sobre a lenta conquista de direitos, os avanços na escolarização feminina, que já supera a do sexo oposto, e o acesso a empregos mais qualificados.

Contudo, no quotidiano, parece subsistir uma sobrecarga de trabalho doméstico e familiar que recai sobre elas: são muitas as mulheres portuguesas que se sentem exaustas, infelizes e deprimidas…

Traçando um desenho geral do ciclo de vida do sexo feminino em Portugal, o estudo permite dizer ainda que, em média, entram no mercado de trabalho aos 20 anos, saem de casa dos pais por volta dos 23 e foram mães aos 27 anos. Mas ajuda também a concluir que não está feliz.

maioria das mulheres portuguesas (51%) estão descontentes com a sua vida laboral e 44% admitem mesmo que o seu emprego está abaixo ou muito abaixo das expectativas.

Em Portugal, elas estão sempre ou quase sempre “demasiado cansadas”. E tal pode refletir-se na saúde. Uma em cada dez toma diariamente medicação para a ansiedade, distúrbios de sono ou antidepressivos – ainda que a maioria continue a ser pautada por mulheres que nunca necessitaram de recorrer a estes medicamentos.

Mas estas são conclusões que dizem respeito ao campo profissional, mas também doméstico, e podem ser justificadas “se tivermos em conta o escasso tempo que muitas mulheres dispõem para si próprias nos dias úteis”, pode ler-se no documento enviado ao DN.

Durante o ciclo de conferências A Mulher, Hoje, realizado na Aula Magna da Reitoria Clássica de Lisboa, nesta terça-feira, Laura Sagnier disse que, quando questionou as mulheres sobre o que é mais importante no seu emprego ideal, “elas responderam que era a conciliação do tempo” para si e para o trabalho. “Inverteu-se o tempo que temos para nós com o tempo para o trabalho”, explicou.

Em mais de dois terços dos casais, as mulheres fazem muito mais do que o companheiro. Em média, elas ainda efetuam 74% das tarefas domésticas, contra os 23% que o companheiro efetua. E, de acordo com a investigação, “serão necessárias cinco a seis gerações para que se alcance uma distribuição equilibrada das tarefas domésticas entre sexos”, entre os casais em que ambos têm trabalho pago.

Talvez por isso, o que grande parte das mulheres, a partir dos 28 anos, deseja é a possibilidade de “conciliar bem o trabalho pago com a vida pessoal e familiar”.

A verdade sobre o tempo de serviço

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A recuperação integral do tempo de serviço dos professores teria, segundo o Governo afirmou repetidas vezes, um custo anual de cerca de 630 milhões de euros. Mesmo a quem percebe pouco de finanças, como é o meu caso, mas ainda não esqueceu como se fazem as operações aritméticas básicas, o valor parece excessivo. A verdade é que os cálculos que o fundamentam nunca foram apresentados e nem mesmo o grupo de trabalho, criado na sequência da greve às avaliações, que deveria produzir uma estimativa rigorosa dos custos das progressões, apresentou quaisquer resultados.

Pois bem, o nosso colega Maurício Brito pegou em números que são do conhecimento público – quantos professores havia, no fim do período do congelamento, em cada escalão da carreira docente, e respectivos vencimentos – e colocou-os numa folha Excel. Simulou depois a progressão de dois escalões para todos os docentes, mesmo os que estariam, no 4.º e no 6.º, sujeitos a quotas.

Surpreendentemente, ou talvez não, os valores obtidos são muito inferiores à estimativa governamental: 481 milhões de euros de aumento da despesa bruta, que se reduzem a 232 milhões – ou seja, menos de metade – se tivermos em conta que grande parte dos aumentos se traduziriam em subidas nos escalões do IRS e maiores descontos para a CGA. Mesmo não considerando estes últimos, a despesa não iria além dos 290 milhões.

Os resultados e o ficheiro Excel em que se baseiam as contas foram ontem publicados n’O Meu Quintal. Aqui, além de agradecer ao Maurício Brito e ao Paulo Guinote a iniciativa e a sua divulgação, dou o meu contributo para algo que exorto todos os professores a fazer também: partilhar e divulgar, fazendo chegar estes números ao maior número possível de pessoas.

Quando quem governa recorre à desinformação, à ocultação de dados e à mentira para defender as suas posições, isso só se combate eficazmente pela divulgação dos factos e pela defesa intransigente da verdade, do direito à informação e da transparência na relação do poder político com os cidadãos.

Ah, a Matemática!…

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Eterna recordista do insucesso escolar, mal-amada por muitos alunos, mas também apreciada por bastantes, que se deixam seduzir pela disciplina, o ensino da Matemática vai ser estudado em profundidade. A prioridade do grupo de trabalho, já nomeado para o efeito, será o insucesso na disciplina.

Matemáticos, professores de ensino básico e secundário, especialistas em educação. No total, dez professores integram o grupo de trabalho, formalmente constituído esta sexta-feira através de um despacho publicado em Diário da República, que vai estudar o “fenómeno do insucesso” a Matemática no ensino básico e secundário e fazer recomendações para melhorar o ensino, aprendizagem e avaliação desta disciplina.

Anunciado em Março, o grupo é coordenado pelo matemático Jaime Carvalho e Silva, professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

O despacho define que parte do trabalho será de análise à evolução dos resultados a Matemática nas duas últimas décadas: o histórico de taxas de sucesso, das taxas de recuperação, dos programas da disciplina, da eficácia de medidas de apoio e das metodologias de ensino, entre outros parâmetros. Importa perceber se foram, afinal, eficazes e eficientes os diferentes planos e medidas dirigidas à melhoria das aprendizagens e à promoção do sucesso escolar adaptados nos últimos anos.

[…] Além do coordenador, integra o grupo de trabalho – não remunerado – Luís Gabriel, da Direcção-Geral da Educação, e os professores universitários Ana Paula Canavarro, do departamento de Pedagogia e Educação da Universidade de Évora, Carlos Albuquerque, do departamento de Matemática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e Maria Leonor dos Santos, do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Mais os professores de Matemática de 3.º ciclo e secundário Helder Martins, da Escola Secundária António Damásio (Lisboa), João Almiro, da Secundária de Tondela, e Paulo Correia, da Secundária de Alcácer do Sal. Ainda Célia Mestre, professora de ensino básico na escola de Vale Flores (Feijó), e Olga Seabra, docente de Matemática e Ciências da Natureza do 2.º ciclo na Escola Básica do Sobrado (Valongo).

Sem me querer antecipar ao trabalho desta equipa, diria que a falta de uma linha de rumo coerente a nortear o ensino da Matemática contribuiu fortemente para as dificuldades de aprendizagem na disciplina e os fracos resultados médios obtidos pelos alunos, sobretudo ao nível da avaliação externa.

A solução não podem ser programas extensos e desajustados da idade dos alunos, como defendeu Nuno Crato, acreditando que o aumento da exigência conduziria, por si só, a um maior esforço de alunos e professores e, consequentemente, melhores resultados. Mas também não pode passar pelo facilitismo irresponsável da “matemática divertida” ou das teorias estupidificantes que tentam amarrar o estudo da disciplina a realidades e problemas concretos, descurando a abstracção.

Registo com agrado a integração na equipa de verdadeiros professores, e não apenas dos habituais burocratas e investigadores, tantas vezes ignorantes do que é a realidade concreta do quotidiano das salas de aula. Espero que este grupo de trabalho possa estudar com independência e rigor os problemas do ensino da Matemática, indo além do discurso formatado e repetitivo dos relatórios da DGEEC ou da OCDE. E que as conclusões do estudo não estejam, como é tão habitual entre nós, definidas à partida…

Quando os alunos não gostam da escola

escola-aborrecida.JPGEstudo revela que cerca de 30% dos adolescentes dizem não gostar da escola, apontando que “o pior” é a comida do refeitório e as aulas e o “menos mau” os intervalos. Segundo o mesmo estudo, mais de oito em cada dez adolescentes consideram-se felizes, no entanto quase 20% tiveram comportamentos autolesivos pelo menos uma vez no último ano.

O estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC) 2018, uma iniciativa da investigadora Margarida Gaspar de Matos, da Universidade de Lisboa, e da Equipa Aventura Social, é realizado em colaboração com a Organização Mundial de Saúde e conta com a participação de 44 países. Em Portugal, o primeiro estudo foi realizado em 1998, celebrando agora 20 anos.

Do estudo internacional sobre os adolescentes destacou-se por cá, convenientemente, a ideia de que quase um terço dos jovens portugueses não gosta da escola. E embora a maior queixa até tenha a ver com a comida das cantinas, percebe-se que aos divulgadores destes estudos interessa sobretudo o pretexto para debitar um estribilho bem conhecido: que as aulas não têm interesse, que as matérias aborrecem os alunos, que os professores não os motivam e que, na maior parte do tempo, os alunos são remetidos a um papel passivo e pouco participativo.

Não nego a necessidade de a escola, sem esquecer a sua finalidade nem perder a sua identidade, continuar a procurar formas de ir ao encontro dos interesses, necessidades e motivações das crianças e dos jovens dos nossos dias. Que no essencial não serão, ainda assim, tão diferentes dos de gerações passadas. Mas, ao contrário de alguns apóstolos das não-tão-novas pedagogias, custa-me acreditar em aprendizagens puramente intuitivas, fáceis, rápidas e sempre divertidas. Aprender às vezes custa, exige concentração, esforço intelectual, memorização, trabalho, repetição. E é natural que a juventude nem sempre esteja para aí virada, e ache “secantes” a escola e as suas obrigações.

Mas há um outro ponto importante a este propósito que me parece estar a ser convenientemente ignorado: a par do aumento do número dos jovens que não gostam da escola, deu-se o alargamento da escolaridade obrigatória. Somos hoje um dos poucos países do mundo que obriga jovens de 16 ou 17 anos a andarem na escola contrariados. É certo que a imposição da escolaridade de 12 anos teve um amplo apoio parlamentar, mas também é verdade que esteve longe de reunir um consenso tão alargado entre profissionais e especialistas da Educação.

Pelo que, antes de se tentar crucificar uma vez mais a escola e os professores, conviria colocar primeiro outra questão: se há uma minoria de jovens que, aos 14 ou 15 anos, não gostam de estudar, fará sentido tê-los na escola obrigados até aos 18?

E mais: se temos de manter toda a gente na escola até atingir a maioridade, até que ponto aceitaremos que a escola deixe de o ser, e se transforme noutra coisa, para que estes jovens, que não gostam de estudar, gostem de lá andar?…