ME faz a descoberta do ano: alunos aprendem melhor com professores!

Os alunos que durante o ensino ‘online’ mantiveram um maior contacto com os professores foram os menos prejudicados pela pandemia de Covid-19, revela o diagnóstico das aprendizagens que confirma a importância dos docentes mesmo à distância.

Esta é uma das principais conclusões do segundo relatório do estudo diagnóstico realizado em janeiro pelo Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) divulgado esta segunda-feira e que tinha como objetivo avaliar o impacto da suspensão das atividades presenciais nas escolas em 2020 devido à pandemia.

O estudo, que envolveu mais de 23 mil alunos do 3.º, 6.º e 9.º anos, procurou perceber o estado das aprendizagens em três áreas: literacia matemática; literacia científica e literacia de leitura e informação.

“Nada substitui o papel do professor e o que este estudo nos mostra é que, mesmo em contexto de ensino à distância, a presença do professor em interação direta com os alunos é muito melhor para as aprendizagens“, sublinhou o secretário de Estado e Adjunto da Educação na sessão de apresentação do relatório.

Segundo os resultados do estudo de diagnóstico, os alunos que tiveram aulas síncronas ‘online’ conseguiram melhores desempenhos nas três áreas avaliadas.

“Isto volta a reforçar o reconhecimento que todos temos de ter do papel que os professores desempenham e não endeusarmos máquinas que nunca vão substituir o papel dos professores”, defendeu João Costa.

Depois do enaltecimento do trabalho dos professores, que se saúda, embora mais não seja do que o reconhecimento de uma evidência, o secretário de Estado da Educação, acolitado pelo presidente do IAVE, voltou a uma ideia que lhe é cara, mas também já não é nova: a pandemia prejudicou as aprendizagens de todos os alunos, no entanto foram os mais carenciados, seja em equipamentos para o ensino à distância, seja em apoio familiar, os que sofreram maiores prejuízos.

O estudo agora divulgado pretende quantificar as aprendizagens perdidas pelos alunos que beneficiam da acção social escolar comparativamente com os restantes. E mostra que aprenderam menos, o que, para os professores no terreno, também não é notícia: já assim sucedia antes da pandemia.

O que aí vem também não surpreende: os professores são exortados a trabalhar os dados do estudo de diagnóstico e as dificuldades evidenciadas pelos alunos no sentido de as superar. Mas fica a dúvida habitual: será que sem o estudo do IAVE os professores não seriam capazes de perceber o que é que os alunos não sabem? É um estudo feito com uma amostra de alunos de todo o país que nos vai indicar o que devemos fazer em concreto com cada uma das nossas turmas e dos nossos alunos?

Assumindo os professores, como sempre fizeram, a sua parte, espera-se que também o Governo comece a fazer o que lhe compete: assumir que o combate pelo sucesso escolar pleno e pela igualdade de oportunidades no acesso à Educação não se faz só nas escolas. Se persistentemente se identificam factores extra-escolares que condicionam o insucesso, está mais do que na altura de desenvolver políticas económicas e sociais que atenuem ou corrijam esses desequilíbrios e desigualdades. Ou, enquanto essas assimetrias persistirem, instituir apoios directos aos alunos e às famílias em risco.

Limitar-se a mandar os outros fazer coisas é muito pouco para um Governo que continua, apesar das propaladas autonomias e descentralizações, a controlar ferreamente o orçamento da Educação.

Valorizar os cursos profissionais

O preconceito de que os Cursos Profissionais (CP) são uma via menor de conclusão dos estudos secundários começa a dissipar-se, mas, como afirma Pedro Lourtie, “é preciso continuar a valorizá-los porque são um sucesso educativo”. O conselheiro e coordenador da Comissão Especializada Permanente Necessidades e Desafios Educativos dos Jovens (15-24 anos) do Conselho Nacional de Educação (CNE) falava no debate que sucedeu a apresentação do relatório ‘Avaliação do Contributo do PT2020 para a Promoção do Sucesso Educativo, Redução do Abandono Escolar Precoce e Empregabilidade dos Jovens’, que decorreu esta semana. Aliás, segundo o relatório que avalia os resultados do Programa Operacional Capital Humano (POCH), no período entre 2014 e 2019, os CP tiveram um papel decisivo na trajetória de redução da taxa de abandono escolar precoce, que se situou, no fim de 2020, em 8,9%.

“Os cursos profissionais fazem uma diferença significativa em termos de conclusão do secundário”, salienta Luís Capucha, à margem da conferência. O professor do ISCTE, e coordenador deste trabalho de avaliação, explica que a procura por esta oferta educativa tem aumentado ao longo dos anos — em 2019 foram 116 mil os alunos a frequentar as vias profissionais —, o que multiplicou o número de estudantes que anualmente completa o ensino secundário. Ao longo dos últimos sete anos foram mais 300 os jovens que terminaram os seus estudos secundários.

Mas há outras conclusões interessantes. No ensino profissional, 87 em cada 100 alunos completa o ensino secundário, número que desce para os 57 nos Cursos Científico-Humanísticos (CCH). Quando analisamos a empregabilidade, o relatório, produzido pelo consórcio ISCTE, IESE e PPLL, demonstra que 54% dos alunos que completam os CP encontram trabalho até seis a nove meses depois, enquanto nos CCH esta percentagem desce para 36%. O estudo indica ainda que os alunos de CP conseguem auferir, em média, remunerações superiores quando ingressam no mercado de trabalho, apesar dos que terminam o secundário pela via de ensino terem mais facilidade em ter um contrato permanente. Também a OCDE, na sua publicação “Education at a Glance 2020”, reconhece que os cursos profissionais têm mais saídas profissionais do que as licenciaturas. O alto grau de empregabilidade justifica-se com a forte ligação ao mercado de trabalho.

O estudo, que pode ser consultado no site do POCH, é até bastante extenso e complexo. Mas quando o objectivo destas análises, por mais aprofundadas e quantificadas que sejam, é mais o de justificar o dinheiro gasto e os novos investimentos a fazer no ensino profissional do que o de compreender a realidade, há sempre uma ou outra pergunta que fica por responder.

E surgem, é claro, as verdades de La Palisse: pois se o objectivo dos cursos profissionais é qualificar para o exercício de profissões com algum nível de especialização, é natural que estes estudantes, que ainda por cima são à partida os menos motivados para continuar a estudar, consigam emprego mais rapidamente do que os colegas que enveredaram pelos cursos científico-humanísticos. Interessaria saber, e isso o estudo não esclarece, a percentagem de jovens oriundos dos cursos profissionais que vai trabalhar na área em que se formou. Estes dados seriam cruciais para se perceber, por exemplo, se a formação que está a ser dada responde às necessidades dos jovens e das empresas ou se, pelo contrário, aqueles acabam por ser absorvidos pelo mercado de trabalho indiferenciado em sectores como o turismo, os serviços não especializados ou a grande distribuição. Os dados disponíveis parecem apontar nesta última direcção: quando se compara a inserção no mercado de trabalho, ao longo da última década, nota-se que há cada vez menos “técnicos” e cada vez mais “indiferenciados” a ingressar no mercado de trabalho com um diploma do ensino profissional.

Esta realidade também justifica, por sua vez, que haja cada vez mais estudantes dos cursos profissionais a ingressar no ensino superior, quase sempre em politécnicos. Continua a existir a noção de que os melhores empregos, mais bem remunerados ou desafiantes profissionalmente, estão destinados a quem tem estudos superiores. Mas esta é, em tempos de massificação do ensino superior, uma ideia enganadora. O acesso à profissão, o ordenado ou o vínculo profissional que se consegue dependem cada vez mais das leis da oferta e da procura: o técnico especializado numa área carente de profissionais consegue facilmente melhores condições laborais do que o licenciado ou o mestre numa área onde os candidatos são muitos e as ofertas de emprego escassas ou inexistentes.

Outro ponto que tende a ficar por teorizações abstractas e “percepções” é determinar se há efectiva exigência ao nível formativo nos cursos profissionais, demasiadas vezes acusados de facilitistas. O sucesso educativo que, pelo menos a nível estatístico, é evidente, traduz-se em qualidade das aprendizagens, sobretudo no âmbito das competências que hoje tanto se valorizam? Ou mede-se, sobretudo, pela capacidade de captar de fundos europeus e de manter os jovens mais tempo na escola, ajudando o país a fazer boa figura em matéria de abandono escolar precoce? Creio que não haverá uma resposta única nem definitiva a estas questões. Analisando caso a caso encontraremos por certo realidades muito distintas, consoante as escolas e os públicos escolares, os recursos disponíveis ou as parcerias possíveis de estabelecer localmente. Um levantamento de tudo isto está em grande medida está por fazer. Mas só ele nos daria a radiografia completa do estado deste importante subsector do sistema educativo.

A fórmula do sucesso

Não é preciso procurar mais: esta semana, um grupo de académicos portugueses, num estudo patrocinado pela Fundação Continente que já aqui comentei, reclamam ter descoberto a autêntica e definitiva fórmula do sucesso educativo, aquela que permite isolar o contributo que “excelentes professores” dão à melhoria das aprendizagens dos seus alunos. Está aqui:

Pois bem, pegando no “estudo” e na rebuscada fórmula, Paulo Guinote desmonta as pretensões, tão arrogantes quanto idiotas, dos magos da estatística. Sem deixar pedra sobre pedra. A ler…

Se a qualidade de um professor, se o seu valor para os seus alunos se pode transformar numa fórmula deste tipo é porque talvez seja mesmo melhor substituir os docentes humanos por máquinas. Aceito que existem ferramentas estatísticas que podem dar um contributo útil para medir a evolução dos resultados dos alunos, mas há aqui algo que em termos filosóficos me provoca uma enorme rejeição. Porque se a Economia da Educação é uma disciplina que pode ter a sua aplicação, muitas vezes bem perversa, em algumas áreas da gestão financeira do sistema educativo, já o mesmo me parece muito mais problemático quanto à definição da qualidade, ou “eficácia”, do trabalho de um professor com os seus alunos.

Os maus professores… outra vez!

Animado por um estudo do Edulog, o ramo da fundação do grupo SONAE que se dedica a influenciar os destinos da educação portuguesa, o Público regressa aos velhos preconceitos contra a classe docente e aos títulos vergonhosos a que em tempos nos habituou. Leituras enviesadas, estudos parcelares e, apesar da sofisticação da estatística utilizada, demasiado tendenciosos: eis o que basta para voltarmos ao discurso maniqueísta dos bons e maus professores, em vez de analisarmos as verdadeiras causas do sucesso e do fracasso na Educação.

Contextualizemos: tal como sucede noutros países, a Educação parece estar a ser percebida como uma área de interesse dos grandes grupos económicos e financeiros. Por cá, a competição intensifica-se entre os merceeiros do regime: se a fundação do Pingo Doce, há largos anos estuda e influencia as políticas sociais, a do Continente não lhe poderia ficar atrás. Recorrendo a um grupo de doutores da estatística, entre os quais avulta uma ex-ministra de má memória, Maria do Carmo Seabra, a Fundação Belmiro de Azevedo abandonou as contas de merceeiro, abriu os cordões à bolsa e patrocinou um estudo que, recorrendo a informação vasta e privilegiada fornecida pela DGEEC e à aplicação de sofisticados modelos matemáticos e estatísticos, tenta determinar a influência dos professores nos resultados escolares dos alunos.

O método é complexo, tem inúmeras nuances e quem o quiser analisar em pormenor deverá consultar o estudo original. Mas pode resumir-se de uma forma relativamente simples: trata-se de comparar as notas dos alunos nas provas finais do 4.º, 6.º e 9.º ano da Português e Matemática. Minimizando o efeito de outros factores, como a condição socio-económica ou a escolarização dos pais, será possível isolar estatisticamente a variável que interessa aos encomendadores do estudo: a influência dos professores na evolução dos resultados dos alunos.

Que é muita. Analisando os dados referentes a 1, 7 milhões de avaliações, envolvendo mais de 40 mil professores, o estudo chega à conclusão esperada: alguns alunos melhoram os seus resultados ao longo de um ciclo de estudos, enquanto outros os mantêm ou até pioram. O mérito – ou a culpa, na maior parte dos casos – reside, sem surpresas, nos professores que lhes calharam em sorte.

Claro que nem a vastidão dos dados usados, a complexidade dos modelos estatísticos ou o determinismo das conclusões conseguem escamotear por completo as fragilidades deste tipo de estudos. Passam ao lado de factores determinantes como o número de alunos por turma ou a organização e o ambiente escolar. Partem de uma visão muito pobre da escola e da educação, ao terem em conta apenas os resultados obtidos em provas e exames, o que pressupõe que o bom professor é aquele que prepara bem os seus alunos para a avaliação externa. E, acima de tudo, não têm em conta um factor que, sobretudo no secundário, tende a ser bem mais decisivo do que as qualidades do professor ou o apoio da família: o recurso a explicadores nas disciplinas sujeitas a exame nacional.

Mas claro que nada disto é feito ao acaso, e este aparente passar a mão pelo pêlo dos “bons professores” é tudo menos inocente. Identificar o professor como determinante no sucesso das aprendizagens permite continuar a manter turmas numerosas e escolas degradadas em funcionamento: afinal de contas, um bom professor deve ser capaz de superar tudo isso, adaptando-se aos contextos menos favoráveis em que trabalha. Permite que se continuem a adiar investimentos em recursos materiais e humanos nas escolas. E mesmo a necessidade de atrair e valorizar os bons profissionais acaba por ser, não muito subtilmente, descartada: se são maus professores, não merecem bons salários. E se são bons, não devem ser mercenários da Educação: devem estar imbuídos, isso sim, do espírito de missão tão bem ilustrado na eleição dos sucessivos “professores do ano”…

Educação em tempo de pandemia: o estudo do CNE

A implementação do ensino remoto de emergência foi dificultada pelo número insuficiente de dispositivos digitais e de uma ligação à internet de qualidade. A maioria das escolas em Portugal (92%) não dispunha de equipamentos em número suficiente nem de ligação de internet com qualidade. E numa percentagem expressiva de escolas (80%), a falta desses dispositivos por parte dos alunos e famílias afetou o trabalho realizado. A conclusão é de um inquérito promovido pelo Conselho Nacional de Educação junto de diretores e professores com funções de coordenação nas escolas e retrata o forte impacto da pandemia de covid-19 no ensino em Portugal.

Ensaiando uma comunicação mais simples e acessível com o público interessado, o CNE traduz numa linguagem visual e gráfica, em princípio mais apelativa, as principais conclusões do inquérito promovido junto das escolas no final do primeiro confinamento. Baseando-se, como vem sendo regra neste tipo de trabalhos, mais nas percepções dos respondentes do que na pesquisa de dados quantitativos concretos – o que implicaria algum trabalho no terreno, saindo dos gabinetes e descendo das torres de marfim – há ainda assim algum interesse neste tipo de estudos: se não trazem propriamente novidades a quem conhece a realidade das escolas e dos alunos portugueses, servem pelo menos para a evidenciar perante o país.

Inquéritos inconclusivos

Os professores dos ensinos básico e secundário em Portugal, que responderam a um estudo da Universidade do Minho (UMinho), dividem-se na avaliação das medidas tomadas pela tutela no último ano para responder aos efeitos da pandemia nas escolas. O estudo do Centro de Investigação em Educação (CIEd) da Universidade do Minho foi agora apresentado, com a presença do secretário de Estado da Educação, João Costa.

A investigação “Perceções dos professores sobre o ensino à distância” consistiu num inquérito online em janeiro, com a colaboração das duas associações de diretores de escolas públicas, ao qual responderam 280 professores. Aqueles docentes avaliaram as políticas públicas aplicadas no primeiro confinamento (recursos no ensino à distância, acesso a computador e Internet, iniciativa #EstudoEmCasa, entre outras) e avaliaram também o arranque do presente ano letivo (recuperação das aprendizagens e condições sanitárias, por exemplo). No global, as medidas do Ministério da Educação foram consideradas inadequadas para 44% dos inquiridos, enquanto 35% concordaram e os restantes 21% não emitiram opinião.

Apresentado com pompa e circunstância numa sessão com a presença do SE Costa e com ampla divulgação na comunicação social, o estudo da Universidade do Minho é mais um daqueles trabalhos genéricos, inconclusivos e, com toda a franqueza, sem o mínimo de qualidade científica. Algo que entre nós se tornou regra, infelizmente, naquilo a que pomposamente gostam de chamar as “ciências da educação”, mas que em termos de rigor e método científico deixa muito a desejar. Gostaria, ao escrever sobre o assunto, de não fazer generalizações abusivas, mas quando o único elemento que é disponibilizado para consulta dos interessados é um documento-síntese que pouco ou nada acrescenta ao que a comunicação social veiculou, percebe-se que a encomenda cumpre objectivos mais políticos do que propriamente científicos. O que deveria envergonhar a universidade e os investigadores que o produziu.

Os estudos deste tipo, que pretendem avaliar sentimentos, percepções, opiniões ou estados de alma de uma classe profissional vasta e heterogénea, falham desde logo num ponto crucial, que é a representatividade da amostra. Se num universo de mais de 100 mil profissionais optam por interrogar menos de 300, haveria que assegurar que o grupo de respondentes é uma amostra fiel dos professores de todo o país, incluindo, de forma proporcional, idades, distribuição geográfica, níveis de ensino, grupos disciplinares, categorias profissionais. Não há indícios de que tal tenha sido feito. Aliás, a “colaboração” pedida às duas associações de directores sugere que os investigadores nem terão controlado directamente a constituição da amostra: bastou-lhes pedir aos senhores directores que passassem o link no GoogleForms ou similar a um determinado número de docentes, escolhendo quem bem entendessem.

Depois, a forma como estes formulários são geralmente construídos deixa também muito a desejar. Perguntas vagas, que podem ter sentidos contraditórios, ou construídas de forma a induzir determinadas respostas. Quanto a estas, muitas vezes as opções dadas para responder não se adequam ao que é perguntado ou ao que realmente se gostaria de responder. Neste caso em concreto, vemos uma maioria de professores a acusar o excesso de trabalho burocrático e depois a defender uma das coisas mais trabalhosas que se fazem actualmente nas escolas, as adaptações curriculares, com ganhos pedagógicos reais ainda por demonstrar. A única lógica que permite compreender isto é que se encomendam estudos, não para compreender a realidade e tomar melhores decisões, mas para caucionar políticas erradas previamente decididas.

Este panorama desolador nos estudos académicos sobre as escolas e a Educação vai alastrando, infelizmente, a outras áreas das ciências sociais. Quem é que não é regularmente convidado a responder a mais um inquérito, uma sondagem, um estudo nesta ou naquela área, partindo o convite, quase sempre, do correio institucional ou de amigos e conhecidos que têm um filho, um sobrinho, um amigo a fazer um trabalho de mestrado ou doutoramento e precisam de reunir rapidamente um número determinado de respostas, sejam elas de quem for? É preciso que se diga claramente que esta constituição de amostras ditas “aleatórias” não é ciência séria em parte nenhuma do mundo. Entre nós, também não deveria ser.

E coisas que a gente não saiba?

Os estudantes de escolas com mais disciplina obtêm melhores notas

A notícia do ABC dá conta de um estudo espanhol, realizado a partir de resultados dos testes PISA na disciplina de Matemática, que comprova cientificamente algo que todos os professores sabem empiricamente: um ambiente de ordem e disciplina na sala de aula contribui, de forma consistente, para a melhoria dos resultados escolares.

Mas este é um estudo de inspiração economicista, para o qual se adaptou uma metodologia construída para avaliar, não escolas, mas sistemas bancários. Tende a reduzir o problema da indisciplina à má gestão da sala de aula – conflitos, desordem, ruído – o que sugere que pode ser resolvido com mais formação dos docentes em técnicas de gestão da aula. Quando todos sabemos que factores como o tamanho das turmas, a atenção ao meio social e familiar dos alunos ou a existência de apoios educativos para quem deles necessita são muito mais relevantes na construção de um ambiente escolar tranquilo e propiciador do sucesso educativo.

Ainda assim, não é demais repisar a ideia essencial: com aulas calmas e disciplinadas, todos os alunos conseguem aprender mais. Já o sabíamos, mas escrito preto no branco em paper publicado na The Manchester School terá certamente, para algumas mentes incrédulas, um outro valor.

Professores stressados

Os professores portugueses do 3.º ciclo são os que mais se queixam de stress, os mais insatisfeitos com o salário e os que têm carreiras mais precárias. Quem o diz é um estudo comparativo da Eurydice, que comparou as condições em que é exercida a profissão docente nos diferentes países europeus.

Analisando não apenas as queixas dos docentes portugueses mas comparando também as suas condições de trabalho, carreira, remuneração e avaliação do desempenho com as dos seus colegas europeus, percebem-se muitas das razões pelas quais a profissão deixou de ser atractiva e motivadora. E que sucessivos governos e administração educativa têm muitas responsabilidades na actual situação.

Fica uma síntese da imprensa com os principais destaques do relatório. O documento integral (em inglês) pode ser consultado aqui.

Quase nove em cada 10 docentes portugueses que dão aulas a alunos do 7.º ao 9.º ano disseram sofrer “muito” ou “bastante” de stress quando estão a trabalhar, segundo o relatório “Professores na Europa: Carreiras, Desenvolvimento e Bem-Estar” da Eurydice, um organismo da Comissão Europeia.

A rede de informação sobre os sistemas educativos na Europa comparou a situação dos professores dos 27 estados-membros e de outros países europeus e concluiu que o stress é “comum entre os professores europeus”.

No entanto, numa comparação com a situação vivenciada nos outros países, Portugal destaca-se pela negativa, uma vez que a média europeia de docentes que se queixa de stress fica-se pelos 50% e em Portugal chega aos 87,2%.

Entre as razões pelas quais os portugueses consideram que o trabalho pode ser stressante estão o trabalho administrativo e o “manter-se a par das mudanças exigidas pelas autoridades”.

“Em França, Malta, Lituânia e Portugal, mais de 60% dos professores atravessam momentos de stress devido às mudanças, vivem em stress devido às mudanças requeridas pelas autoridades”, refere o relatório da Eurydice.

Questionados se estavam satisfeitos com o seu salário, apenas 37,8% dos europeus considerou o ordenado satisfatório ou muito satisfatório.

Nesta análise, os portugueses voltam a surgir no fim da tabela, agora ao lado dos islandeses: Menos de um em cada 10 mostrou-se satisfeito com o salário, ao contrário dos Austríacos e Belgas (70%).Portugal é também referido como um dos exemplos com mais docentes com contratos a termo:”

Embora a percentagem de contratos a termo certo normalmente caia à medida que os professores envelhecem, em alguns países existem elevadas percentagem de docentes na faixa etária dos 35-49 anos que ainda estão em empregos temporários como, por exemplo, em Espanha (39%), Itália (32%) e Portugal (41%)”.

Os portugueses são também dos que mais se queixam dos impactos negativos do trabalho na saúde física e mental, segundo os resultados do Inquérito Internacional de Ensino e Aprendizagem 2018 (TALIS — Teaching and Learning Internacional Survey), da OCDE, utilizado no relatório hoje divulgado.

Na Europa, um em cada quatro professores (24%) considera que o trabalho diário afeta a sua saúde mental e 22% apontam consequências físicas.

Os portugueses surgem ao lado dos belgas com “mais de metade dos docentes a considerar que o seu trabalho afeta negativamente a sua saúde física e mental”, refere o inquérito.

Reabertura das aulas tem impacto na pandemia

A reabertura de escolas tem influência na taxa de transmissão, o chamado Rt, da Covid-19, contribuindo para que o seu valor aumente, de acordo com um novo estudo, o primeiro a analisar o impacto do levantamento das restrições, avança o ‘The Independent’.

O regresso dos alunos às salas de aula foi seguido por um aumento médio de 24% na taxa de transmissão Rt, segundo descobertas de um equipa de investigadores da Universidade de Edimburgo após a análise de dados de 131 países.

A única outra medida ligada a um maior aumento no Rt é o levantamento da proibição de reuniões de grupos, que causou uma subida média de 25%. Para criar os seus modelos, os autores vincularam dados sobre estimativas da taxa de transmissão feitas pela ‘London School of Hygiene & Tropical Medicine’ com outras informações do rastreador de resposta do governo britânico, ‘Covid-19 Oxford’.

Recorrendo a dados de 131 países e a sofisticados modelos matemáticos e estatísticos, o estudo agora publicado lança alguma luz sobre o impacto real que as medidas de confinamento e desconfinamento têm sobre a transmissibilidade da covid-19.

Trata-se de uma questão bastante complexa, desde logo porque não é fácil isolar os efeitos de cada uma das decisões que vão sendo tomadas pelos governos, neste difícil exercício de compatibilizar o controle da pandemia com a vida económica e social. Por exemplo, quando se decide um conjunto de medidas, como permitir maiores ajuntamentos, retomar determinadas actividades económicas ou reabrir as escolas, e em seguida se nota um aumento de casos positivos, como saber qual o contributo de cada uma para o agravamento da pandemia?

No caso das escolas portuguesas, o facto de raramente se tentar identificar cadeias de transmissão em meio escolar – perante um caso positivo, quase sempre um aluno infectado em ambiente familiar, os colegas são geralmente mandados cumprir quarentena, sendo apenas testados quando apresentam sintomas – também contribui para que se continue a afirmar, sem lugar a contraditório, que as escolas são lugares de baixo risco de propagação da doença.

Ficamos agora a saber que não será bem assim. O aumento de 24% na taxa de transmissão que, baseados em sofisticados modelos de análise quantitativa, os autores deste estudo atribuem ao desconfinamento escolar é um valor significativo, que deve suscitar reflexão. Os contágios em meio escolar, ou que a ele podem ser associados, existem, e se as cadeias de contágio raramente são identificadas é porque, em boa verdade, pouco se faz para as detectar.

Explorando o artigo da Lancet, encontram-se outras conclusões interessantes. Por exemplo, que há um desfasamento temporal de cerca de 28 dias entre o aumento máximo da taxa de transmissão, o chamado valor de R, e o aparecimento da causa que o provocou. E bate certo. No caso português, a subida galopante no número de novos casos positivos dá-se precisamente quatro semanas depois do início das aulas…

Os investigadores, embora tenham analisado dados de muitos países, não deixam de admitir que as realidades nacionais são diferentes, o que pode levar a que medidas semelhantes possam ter um impacto diferenciado, consoante a forma como são aplicadas. No caso da Educação, turmas mais pequenas, distanciamento físico nas salas de aula, recreios, refeitórios e transportes, uso de máscara, desinfecção das mãos, medição de temperatura à entrada são factores que reduzem efectivamente os contágios, embora o seu impacto real não tenha sido, neste estudo, considerado. Por cá, sabemos bem que, tirando as máscaras obrigatórias a partir do 5.º ano e o álcool-gel à discrição, pouco mais se fez na preparação segura do novo ano escolar.

Um retrato instantâneo da classe docente

cne-estudo.JPGO Conselho Superior de Educação publicou um estudo, encomendado pela Assembleia da República na anterior legislatura, sobre as necessidades futuras de recrutamento de professores. Mesmo numa leitura rápida, ressalta a abundância de informação e a elevada qualidade técnica do documento, sobretudo ao nível da caracterização da profissão docente.

Uma leitura recomendada a que se poderá aceder clicando na imagem ao lado. De um documento incontornável e a que seguramente voltarei em novos posts, ficam para já as “gordas”: um retrato da classe docente que, não sendo novidade, reforça aquilo que há muito se sabe sobre os professores. Mas que alguns, incluindo gente com responsabilidades, fazem por ignorar.

Nos estabelecimentos de educação e ensino público do Continente estavam recenseados 120 852 docentes em 2018.

Uma profissão essencialmente feminina. Corpo docente constituído por uma percentagem de 78% de mulheres, onde sobressaem as educadoras de infância com 99%. 

Um corpo docente envelhecido. O número de docentes com 50 ou mais anos de idade é muito elevado, enquanto o dos que têm menos de 35 anos é baixo. Em termos percentuais, o primeiro grupo representa 52,9% e o segundo 1,1%.

A classificação profissional média dos professores ronda os 14 valores.

Os professores têm uma elevada experiência profissional. A maioria dos docentes do quadro de agrupamento e de escola não agrupada tem muitos anos de serviço. Na educação pré-escolar, 46,4% dos docentes tem entre 30 a 34 anos de serviço e 28,8% tem entre 25 e 29 anos. No 1.º CEB, a maior percentagem (24,5%) situa-se nos que têm entre 15 e 19 anos de serviço, embora a maioria tenha mais de 20 anos de serviço. O 2.º CEB e o 3.º CEB e secundário registam as maiores percentagens nos intervalos entre os 20-24 anos e 25-29 anos.

Apesar disso, 58,4% dos docentes encontra-se nos primeiros quatro escalões dos índices remuneratórios e 0,02% no último escalão.

A atratividade pela profissão tem vindo a diminuir. Em termos de alunos inscritos [em cursos de mestrado nas áreas de formação para a docência], registou-se uma diminuição de cerca de 50% entre 2011/2012 e 2017/2018.

Até 2030 mais de metade dos professores do quadro (57,8%) poderá aposentar-se.