E@D, do mito à realidade

Não tenhamos dúvidas: não há nada que chegue a ter o professor ali ao lado…

Daqui.

Dinheiro deitado fora

As novas aulas da telescola, que têm estado no ar desde o início do novo ano letivo, não repetem o sucesso da primeira edição da iniciativa, e têm mantido o canal do grupo público durante a maior parte do dia com números residuais de audiência.

Nas 148 aulas emitidas desde setembro, a média não ultrapassa os 0%, e se formos olhar o detalhe, a aula mais vista desde o início do ano letivo teve um auditório de 16,8 mil espectadores. Esta terça (15), por exemplo, as disciplinas de Educação Artística, Educação Tecnológica, Português Língua Não Materna e Francês – 3.º Ciclo não tiveram qualquer espectador detectado pelos audímetros da GfK/CAEM.

Apoiei sem reservas a iniciativa de transmitir, durante o confinamento escolar, aulas televisivas para os diversos níveis de ensino. Não sendo a solução perfeita, o #EstudoEmCasa foi, na maioria das disciplinas, um complemento válido dos programas de ensino remoto de emergência criados pelas escolas, especialmente relevante nos casos em que o acesso à internet e a meios de comunicação síncrona entre alunos e professores era limitado ou inexistente.

No entanto, a partir do momento em que se definiu superiormente que o 2020/21 seria um ano lectivo presencial, em que as escolas se manteriam abertas a todo o custo e os eventuais confinamentos seriam sempre excepcionais e pelo menor tempo possível, deixou de fazer sentido insistir na programação de aulas pela televisão. Ainda para mais quando sabemos que o orçamento para a Educação continua a ser escasso e nem em tempo de pandemia se equacionou reforçar as verbas disponíveis ou acudir às verdadeiras prioridades do sector. Que nesta altura passam, essencialmente, por melhorar as condições em que se estuda e trabalha nas escolas.

Não sei se o que ditou a continuidade da telescola foi simples incompetência no planeamento do novo ano lectivo, cedência à inércia ou a um lobby recém-formado, expressão da eterna desconfiança em relação ao trabalho dos professores ou a aposta num trunfo mediático que no ano anterior trouxe alguns resultados positivos à imagem pública do ME. Em qualquer dos casos, as audiências nulas ou residuais dos programas confirmam o que era mais do que previsível desde o início: se os alunos têm escola presencial a tempo inteiro, não faz sentido propor-lhes mais do mesmo como trabalho de casa. Dinheiro deitado à rua, portanto.

A professora que não gosta de ler

prof-isaA professora de português que deu a primeira aula da telescola deu uma entrevista ao Expresso este fim de semana onde diz que nunca gostou de ler, cito, e está a fazer um esforço para ler um livro no Verão. Como professora e mãe também senti vergonha alheia. Na realidade há muito que acho que a maioria das crianças quando entra na escola sofre um processo acelerado de perda da curiosidade, vitalidade, interesse e educação que levavam da infância. O burnout docente contagiou as crianças, o desinteresse pega-se, contagia. O mesmo retrocesso se dá com os professores, entram na escola muitos a pensar que vão ser educadores, entram rapidamente em burnout quando percebem que vão ser operadores de uma linha de montagem – crianças – para um mercado de trabalho desqualificado.

A confissão da professora Isa, uma das mais conhecidas e mediáticas docentes que o #EstudoEmCasa trouxe aos lares portugueses, incomoda muitos dos que se interessam pelo mundo da Educação. Afinal de contas, espera-se que a escola, além de ensinar a ler e a escrever, seja capaz de despertar também o gosto pela leitura e a boa literatura. Mas como se pode transmitir algo que não se tem?…

Claro que existem aqui várias condicionantes. O apelo da leitura concorre com uma miríade de outras actividades capazes de se tornar, no imediato, mais sedutoras e prazerosas. Os professores do primeiro ciclo são generalistas, é natural que alguns não gostem muito de ler, assim como outros se sentirão menos entusiasmados, por exemplo, com as matemáticas, não deixando uns e outros de exercer bem a profissão. E sendo o ofício de ensinar, por diversas razões, cada vez menos atractivo, é natural que os candidatos aos cursos de formação de professores surjam menos motivados e revelem um perfil cada vez mais distante da imagem idealizada do professor.

De facto, há um aspecto do problema que Raquel Varela explica muito bem e que passa pela proletarização da classe docente e pela desqualificação do seu labor profissional. O professor deveria ser visto como um profissional autónomo e criativo, um trabalhador intelectual especializado que constrói e aplica criticamente o seu próprio saber. Mas quantos docentes portugueses se conseguem ver hoje, a si mesmos, dessa forma?

A professora de português que não gosta de ler não é um caso, mas um problema disseminado na educação – a proletarização dos docentes, transformados em mediadores de entrega de conteúdos pré feitos, desprovidos e expropriados do seu ser-pensar-intelectual. No nosso estudo sobre o trabalho docente era visível a desintelectualização da profissão e a falta de consciência desse processo. Quando nós dissemos aos docentes que eles eram intelectuais expropriados uma larga parte ficava impressionado, “então eu devia ser um intelectual”? pensavam com estranheza. Insistimos que para não haver burnout eles tinham que se assumir como sapateiros e não como vendedores de sapatos. Como produtores de conteúdos e não entregadores de conteúdos. E tinham que lutar por isso, não havia e não há outra forma de driblar a depressão, perda de qualidade e sentido do trabalho que não seja lutar contra estas condições de trabalho, por mais ioga e auto ajuda que façam. 

Reflectindo sobre o mesmo tema, Bárbara Wong nota que o problema se evidencia logo nas ESEs e universidades onde se formam professores: o desinteresse, a falta de entusiasmo, o derrotismo estarão, segundo a jornalista do Público, generalizados entre os futuros professores, o que afectará a forma como irão desenvolver o seu trabalho. Este é um problema tanto dos estudantes como das instituições que os formam, fechadas nas suas torres de marfim e alheias à realidade actual das escolas e dos seus próprios alunos. Pela sua transversalidade e amplitude, não é difícil concordar que é, em boa verdade, um problema de toda a sociedade.

Não é fácil encontrar culpados. Temos faculdades vetustas e que se julgam imunes aos preconceitos que existem em relação às ciências sociais e humanas, não os combatendo, convencidas que estão num Olimpo inatingível — há que lembrá-las que os deuses morreram. Temos escolas básicas e secundárias que trucidam professores, afogando-os em trabalho burocrático, em vez de lhes darem espaço para criarem, para fazerem alguma coisa em benefício dos seus alunos. Temos pais que acham graça à função decorativa do livro, que vivem em casas onde o ecrã da televisão é panorâmico, tal como o do smartphone. Temos filhos que “não gostam de ler”, porque ninguém lhes pôs um livro na mão nem no coração. Temos um Plano Nacional de Leitura activo, muito activo, com imensos projectos, mas cujos resultados pouco se vêem porque, afinal, os livros são bons para ter, mas não para ler. Temos uma sociedade que reflecte isso mesmo: bom é ter, não é ser.

Stor Marcelo

marcelo-tvO Presidente da República vai estar na RTP Memória esta segunda-feira, em direto, a dar uma aula de Cidadania. A novidade já está na grelha do canal.

Marcelo Rebelo de Sousa vai dar uma aula de Cidadania nesta segunda feira, dia 15, na telescola, da RTP Memória.

O Presidente da República vai para o ar às 13.30 H, em direto, a partir do estúdio 1 da estação pública, para uma aula do “Estudo em Casa” de 30 minutos.

Professores, estrelas televisivas?

rap-estudoemcasaO mediatismo que alguns professores da “telescola” adquiriram nos últimos tempos extravasou das aulas para a presença noutros programas televisivos e para o comentário na imprensa e nas redes sociais. E levou-me a escrever sobre o assunto no balanço da semana que faço habitualmente no blogue ComRegras. Este texto recupera e desenvolve o breve comentário que então fiz.

É tão invulgar a presença de professores do básico ou do secundário na televisão portuguesa que as emissões do “EstudoEmCasa teriam, forçosamente, de dar nisto: o cidadão comum apercebeu-se de que o ensino já não é hoje a tal escola retrógrada e parada no tempo que se tornou cliché de uns quantos charlatães da (semi)nova pedagogia. Afinal, parece que as aulas dos professores formados na “escola do século XX” podem ser dinâmicas, integrar recursos diversificados e recorrer às tecnologias. Os professores podem ser imaginativos e até divertidos, na constante busca de formas eficazes de ensinar e aprender. Mesmo que o ensino continue a ser directivo e expositivo, o que no caso da telescola é uma inevitabilidade, tendo em conta o carácter unidirecional da comunicação pelo meio televisivo.

O #EstudoEmCasa trouxe fama a alguns professores e deu-os a conhecer a outros públicos, além dos alunos da telescola. O caso mais notório foi o da dupla de professoras de Inglês que inventou uma espécie de rap para ensinar os meses do ano. O convite para irem a programas de entretenimento televisivo foi insistente, e as colegas acabaram decidir comparecer.

Durante a semana, o assunto foi amplamente discutido entre os professores. Uma discussão que começou com um post algo polémico no ComRegras, chegou à imprensa e se espraiou pelas redes sociais. Não tendo estado em causa, suponho, a liberdade pedagógica inerente à criação de uma estratégia motivadora para os alunos, a questão colocou-se sobretudo ao nível do estrelato televisivo. Devem os professores expor-se desta forma, a eles e ao seu trabalho, em programas de entretenimento? Discutível, sobretudo quando uma das envolvidas acabou a confessar o seu arrependimento e as pressões a que terá sido sujeita.

Mas… por outro lado, porque não? Estará um professor civicamente diminuído em relação à generalidade dos cidadãos que desta forma se dão a conhecer? Se um ministro, que calhou ser da Educação, pode ir a um programa de entretenimento matinal falar do que não sabe, não fará melhor figura um professor a falar da sua profissão?

Pela minha parte, bato-me há muitos anos por uma maior visibilidade pública da classe docente e por um papel mais influente desta, tanto junto da opinião pública como na definição das políticas educativas. Pelo que só devo congratular-me com o protagonismo dado às colegas, ainda para mais assente no reconhecimento da sua competência profissional.

Contudo, importa estar atento às cedências e compromissos que os quinze minutos de fama televisiva podem implicar. Quer isto dizer que qualquer professor que, sendo convidado nessa qualidade, vá à televisão, deve estar consciente de que, mesmo involuntariamente, está de alguma maneira a representar a sua profissão.

Intervir de uma forma que valorize o nosso trabalho e dignifique a nossa profissão, num ambiente que não é aquele a que estamos habituados, nem sempre é fácil, sobretudo em programas que abusam do tom ligeiro, e às vezes brejeiro, para entreter audiências. Pelo que o desafio é usar com inteligência o meio televisivo, sem se deixar instrumentalizar por ele. Há a considerar que reduzir o trabalho docente à caricatura da sala de aula e à piada fácil, preconceituosa e estereotipada é uma velha tradição do humor à portuguesa. Que vem já do tempo, pelo menos, das Lições do Tonecas

Os “erros” do #EstudoEmCasa

sobreiro-caducaNo meu último artigo, manifestei receio sobre a possibilidade de se “normalizar” a solução improvisada para entreter alunos afastados da escola, a que, impropriamente, chamaram ensino a distância. Em tempo de confinamento drástico, essa solução foi um instrumento para preservar uma actividade mínima de ensino, cumprida com espírito de missão e contornando dificuldades múltiplas. Entretanto, este “ensino a distância”, de emergência, começa agora a ser sugerido como alternativa. Se a ideia colher, revelar-se-á perversa por tender, no limite, a substituir professores de corpo e alma por assistentes digitais, sem sindicatos, sem greves e com enormes vantagens económicas para o empregador, no que toca a custos operacionais.

Para o êxito da coisa terá contribuído a vertente “telescola”, protagonizada por professores do século XXI, aparentemente prosélitos das pedagogias não directivas e opositores das aulas magistrais. Cantam rap, dançam zumba e prestam-se a demonstrar as suas metodologias inovadoras nos programas de Cristina Ferreira e de Manuel Luís Goucha.

Para quem bate palmas, pouco importam a pobreza de muitas abordagens e os erros científicos. Vi uma aula de Português dominada pela leitura soletrada de um PowerPoint medíocre, onde Camões foi apresentado como coisa menor. Numa aula de História, a propósito do Renascimento, o astrónomo Nicolau Copérnico, polaco, foi associado a Itália. A Polónia, cuja origem vem do século X, foi citada como criada após a Primeira Guerra Mundial. A embaixada da Polónia protestou. Numa aula de Ciências Naturais, os transgénicos foram apontados como perigosos para a saúde e foi feita uma referência ao “uso inadequado de hormonas de crescimento nas explorações pecuárias”, quando, na verdade, as hormonas de crescimento estão proibidas para tal fim, no espaço europeu. O biólogo Pedro Fevereiro, presidente do Centro de Informação de Biotecnologia, antigo Bastonário da Ordem dos Biólogos e ex-membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, reagiu publicamente, dizendo que o que foi ensinado está errado, do ponto de vista científico, e constituiu doutrina, que não ciência. Por outro lado, numa outra aula, o sobreiro foi apresentado como árvore de folha caduca, quando é sabido que as folhas do sobreiro não caem no inverno.

Tenho concordado quase sempre, nos últimos tempos, com as análises e pontos de vista de Santana Castilho sobre temas educativos. Não é o caso da crónica semanal que ontem saiu no Público.

Saudei por aqui a ideia das aulas televisivas, implementada em tempo recorde, como resposta educativa mais adequada, durante o confinamento, a determinados públicos escolares, nomeadamente os alunos mais novos e os que não têm computador nem internet. Reconheci o esforço e a boa vontade dos colegas que, podendo estar a bom recato ministrando o seu ensino à distância, aceitaram o desafio da exposição mediática. Mas nunca esperei que as aulas da nova telescola revelassem um modelo perfeito de ensinar ou fossem isentas das pequenas falhas que podem acontecer e, qualquer aula normal. Encarei até o risco de suceder o que frequentemente acontece quando se tenta satisfazer as expectativas de todos, que é não agradar a ninguém.

Olhei por isso com condescendência para pequenas falhas como as que foram apontadas às aulas de História, e que na altura comentei aqui. Fiquei perplexo com aquela aula do primeiro ciclo em que se incluiu o sobreiro na categoria das caducifólias. Foi um erro grave, pois contraria não só o conhecimento científico mas até a experiência comum – alguma vez se viu um sobreiro sem folhas? No entanto, não é algo irremediável: como muito bem nota o Duilio Coelho, professor do primeiro ciclo e companheiro de andanças blogosféricas, o professor titular continua no seu posto para isso mesmo: corrigir o erro e explicar correctamente a matéria que foi mal ensinada.

Já a questão dos OGM não é tão linear como Santana Castilho pretende fazer crer. É um tema controverso, e não é pelo facto de haver uma inclinação crescente da comunidade científica a favor das manipulações genéticas na indústria agro-alimentar que devemos impor, nas aulas de Ciências, consensos que estão longe de ser alcançados.

O uso de transgénicos não se resume a saber se são seguros ou não a curto prazo. Ele envolve decisões que podem alterar de forma irreversível o nosso modelo de economia e sociedade. Implica, por exemplo, decidir se queremos patentear as tecnologias que irão permitir alimentar um mundo do oito ou nove biliões de seres humanos e com menos terra cultivável do que temos actualmente. Se queremos que decisões que podem reduzir a biodiversidade no planeta ou determinar a sobrevivência de milhões de pessoas possam estar dependentes do que gera mais “valor para o accionista”. Se mais dúvidas houvesse, bastaria olharmos as implicações da actual pandemia, cuja origem exacta está ainda por determinar, mas cuja factura já sabemos quem irá pagar: a sociedade, os cidadãos, os contribuintes. Não, decidir usar ou não os OGM não decorre de ciência pura nem tão pouco de “doutrina”: é uma discussão livre e informada que interessa a todos e que, por isso mesmo, deve começar na escola. Sem dogmas nem doutrinas, mas não esquecendo a visão macro do problema e fazendo uso de toda a informação disponível.

Quanto ao uso das hormonas de crescimento no gado, é verdade que ele está proibido pelas regras da UE, mas na aula em causa também não se disse o contrário. Contudo, esse uso é permitido em muitos outros países e nada nos garante que a decisão europeia não venha um dia a ser revogada. E aqui a única força que o pode impedir é uma opinião pública consciente e informada, capaz de se unir a nível europeu para defender uma coisa boa que a integração europeia nos trouxe: regras ambientais e de segurança alimentar mais rigorosas e exigentes do que na maioria dos nossos parceiros comerciais.

Apesar destas discordâncias, há um grito de alerta que SC deixa na sua crónica e que subscrevo inteiramente. O ensino remoto que vamos fazendo por estes dias é um parco remendo e não substitui a escola física nem a presença real de alunos e professores. O nosso brio profissional pode levar-nos a dizer que estamos, nas actuais e difíceis circunstâncias, a fazer o nosso melhor. Mas esse melhor é muito pouco, comparado com o que podemos fazer – e fazemos! – em ensino presencial.

Sob o pretexto das medidas sanitárias e explorando a lógica do medo, o ensino remoto vai, assim, fazendo o seu caminho, ante professores passivos e incapazes de criticarem e combaterem aquilo de que se arrependerão futuramente. A apologia das vantagens do ensino remoto ameaça transformá-lo no modelo pedagógico dominante. Isso, nas condições actuais de menorização social do professor, implica enfraquecer e degradar ainda mais a profissionalidade docente, que é o fundamento anímico para a existência da Escola.

Professores favorecem videoconferências e aulas na TV

ZoomSegundo os resultados preliminares de um inquérito da Universidade Nova de Lisboa, sobre o ensino à distância, os 2.647 professores inquiridos dizem trabalhar, em média, mais 11 horas por semana e 88% afirmam dar aulas através de videoconferência.

Entre aqueles que não optaram por esta ferramenta estão, sobretudo, educadores do pré-escolar (cerca de 44% de educadores) e do primeiro ciclo (cerca de 14%).

A adesão dos alunos tem sido positiva, segundo os docentes que responderam ao inquérito do Centro de Economia da Educação da Faculdade de Economia (Nova SBE) entre 05 e 19 de maio, e aqueles que utilizam as plataformas de videoconferência afirmam que 86% dos seus alunos assiste às aulas. […]

A transmissão televisiva de conteúdos educativos foi uma das propostas do Governo para mitigar as dificuldades de acesso ao ensino, em tempos de trabalho à distância, dos alunos mais carenciados, mas iniciativa foi bem recebida por muitos dos professores, que incluíram a ferramenta nas suas planificações para o 3.º período.

Estas aulas foram também analisadas no inquérito da Nova SBE e, segundo os resultados, cerca de 62% dos 2.647 professores inquiridos lecionam disciplinas com aulas no #EstudoEmCasa e a avaliação é tendencialmente positiva.

Em média, os professores avaliam em 5,2 (numa escala de 1-7) a qualidade das aulas da RTP Memória e, numa escala de 1-5, recomendam o visionamento aos alunos em 3,7.

Os resultados do inquérito ao funcionamento da escola não presencial não surpreendem. Penso que vêm ao encontro do que os professores no terreno vêm experimentando e constatando.

Apesar das limitações de vária ordem, as vídeo-aulas acabaram por se impor enquanto principal forma de comunicação síncrona entre os professores e as suas turmas. E até se consegue controlar a assiduidade, a pontualidade e a participação dos alunos. Já a percepção de estarem ou não a aprender, algo que um professor experiente consegue detectar com relativa facilidade na sala de aula, é muito mais falível no ambiente virtual.

Percebe-se assim que a chegada das aulas televisivas, direccionadas sobretudo para os alunos sem contacto regular com a escola, tenha sido aproveitada, em muitos casos, como recurso a utilizar também pelos restantes alunos. A verdade é que, havendo uma aula na TV onde se “dá a matéria”, as sessões síncronas podem ser mais bem aproveitadas para rever, consolidar, questionar os alunos, tirar dúvidas. Pena é que isto não seja aplicável em todas as disciplinas, pois o desfasamento entre matérias nem sempre permite a articulação de conteúdos.

Por último, uma incógnita que permanece, e que um estudo desta natureza também nunca permitiria esclarecer, é o número real de alunos que permanece excluído das diversas modalidades de E@D, tendo desaparecido por completo do radar da sua escola ou dando sinais muito ténues da sua existência. Nas primeiras semanas de confinamento houve um esforço assinalável, da parte de algumas escolas, autarquias e outros parceiros locais no sentido de disponibilizar computadores, tablets e acessos à internet, reduzindo-se assim substancialmente o número de alunos sem comunicação com os professores.

Mas a infoexclusão não desapareceu completamente. E soma-se a um fenómeno porventura mais difícil de erradicar: o daqueles alunos que dispõem de tudo o que precisam para manter o contacto, mas optam deliberadamente por permanecer offline. Com escasso ou nulo controlo parental, entraram antecipadamente de férias. Tornaram-se invisíveis e, se nada for feito, assim permanecerão até terminar o ano…

Faltam professores para as aulas presenciais

aula-vaziaDirectores e sindicatos bem podem insistir, mas o Ministério da Educação (ME) está determinado a avançar com o regresso à escola nos moldes em que definiu, nomeadamente no que respeita à obrigação de os alunos assistirem às aulas presenciais de disciplinas onde existem exames nacionais. E o resultado poderá ser este: não existirem professores para assegurar estas aulas, nomeadamente na área de Lisboa.

O ME continua a acenar com mecanismos expeditos para a contratação de professores em falta que, em vésperas da reabertura das aulas do secundário, ainda ninguém percebeu bem quais serão.

O que já se vai sabendo é que têm estado a ser recusados pedidos de substituição de professores de disciplinas e níveis de ensino não contemplados com aulas presenciais. O que só dá razão aos críticos deste “estudo em casa”, que aparentemente pode ser substituído por férias antecipadas e repescagem da nota do 2.º período como avaliação final.

Por outro lado, os professores que dia após dia tentam vencer a distância e continuar, apesar dela, a ensinar os seus alunos, percebem cada vez melhor onde está a principal falha deste modelo improvisado de ensino: nos alunos com maiores dificuldades de aprendizagem, com falta de autonomia, com necessidades especiais, carentes de apoio individualizado.

Se houvesse algum sentido pedagógico neste regresso antecipado à escola, ele deveria orientar-se para aqueles alunos que, em casa, estão permanentemente desacompanhados e que, percebemos nós, estão a evoluir zero nas suas aprendizagens.

Em vez disso, construiu-se uma resposta educativa presencial unicamente em função dos exames e orientada para os alunos que mais facilidade teriam em continuar a trabalhar em casa.

Uma pirueta de 180 graus num ministério que tanto nos encheu a paciência com o discurso da inclusão. Que mostra o quão poderosos são certos interesses. E como os velhos hábitos são difíceis de mudar.

A “revolução cultural” nas aulas de HGP

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O tweet já tem alguns dias e, não tendo ponta por onde se lhe pegue, abstive-me de o comentar. Mas gerou, no Twitter, uma polémica inesperada. Que em grande medida seria evitada se alguns opinadores se dessem ao trabalho de espreitar o programa, constatando como é absurda a acusação de manipulação ideológica.

Claro que Rui Tavares não é professor da “tele-escola”. Apareceu ocasionalmente porque um trecho de uma série documental da sua autoria, disponível no espólio da RTP, foi seleccionado para ilustrar um ponto concreto da matéria que estava a ser leccionada. O recurso a conteúdos multimédia tem sido regra nas aulas do #EstudoEmCasa, na linha do que é habitual fazer-se, hoje em dia, nas aulas presenciais.

Que dizer então de um eurodeputado que se indigna, provavelmente por não ter inteligência para mais, ao ver um historiador a ensinar… História? As opções políticas de um professor ou de um académico impedem-no de ser um profissional isento e competente na sua área? Talvez a melhor e mais convincente resposta ao cabotinismo do diletante Melo tenha sido dada por David Justino, depois de o próprio Rui Tavares sentir a necessidade de colocar os pontos nos is. Tudo isto no Twitter, uma rede social que tantos internautas continuam a subvalorizar…

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A pequena polémica parece ilustrar bem a imparável caminhada do CDS em direcção à irrelevância política, com um Nuno Melo displicente e trauliteiro a tentar em vão marcar pontos no terreno movediço de André Ventura e do populismo de direita. Mas sem jeito, talento ou sentido de oportunidade para a coisa.

Com a mesma falta de noção, o grupo parlamentar do CDS decidiu cavalgar politicamente o não-assunto, interpelando o governo sobre a alegada doutrinação ideológica e obrigando o ME a dar-lhe a resposta apropriada. É o que se chama ir buscar lã e vir tosquiado…

O Governo já reagiu à polémica em torno de Rui Tavares e do projeto #EstudoEmCasa” (vulgo telescola). Numa nota enviada ao Expresso e ao “Polígrafo SIC”, o Ministério da Educação garante que o dirigente do Livre “não é professor do projeto #EstudoEmCasa” e que o recurso aos conteúdos da RTP é prática corrente neste e nos outros anos letivos.

Na nota enviada às redações, o gabinete de Tiago Brandão Rodrigues esclarece que o que aconteceu “foi a utilização de um recurso pedagógico por parte das duas professoras de História e Geografia de Portugal do 5.º e 6.º anos” e que, “como em qualquer aula, planificada pelos professores e validada pela Direção-Geral da Educação, os docentes utilizam os recursos pedagógicos que entendem adequar-se às matérias em questão”.

“No caso, trata-se do excerto de 5 minutos de um programa de História, exibido na RTP2 em 2018, e disponível na plataforma RTP Ensina, à qual os docentes recorrem com regularidade para utilizarem nas suas aulas (presenciais ou não presenciais)”, completa a mesma fonte oficial.

#EstudoEmCasa: uma caricatura da Educação Física

eec-efAs duas associações que representam a disciplina e os profissionais que a leccionam parecem estar de acordo. Na carta conjunta dirigida à DGE (clicar na imagem para aceder ao documento) criticam incisivamente a forma como a disciplina está a ser leccionada nas aulas televisivas.

A efetiva impossibilidade de se garantirem aulas de Educação Física na sua plenitude por E@D, acima referida, conduz a que a área das Atividades Físicas tenda a ser remetida / confinada a uma caricatura das matérias que a integram, em especial quando estas atividades físicas se formalizam de acordo com a sua referência ou matriz cultural, o que acontece, no currículo de Educação Física de forma progressiva, fundamentalmente, a partir do 2º ciclo.

Outro motivo de preocupação e de confusão, principalmente quando se percebe que as sessões pretendem representar aulas de Educação Física, é o desrespeito pela referência curricular expressa nas Aprendizagens Essenciais, utilizando nomenclatura que não consta do currículo (por exemplo, a Ginástica Artística), e/ou apresentando objetivos/conteúdos sem referência aos programas específicos (por exemplo, a velocidade de reação não integra os objetivos da matéria de Atletismo) ou utilizando terminologia em desconformidade com os documentos curriculares de referência da disciplina (por exemplo, o “rolamento dorsal com saída de frente”).

Estes aspetos, que podem parecer irrelevantes, num quadro de urgência e de esforço realizado, pervertem as boas intenções da instituição que dirige, provocando reações negativas dos professores de Educação Física e transmitindo uma imagem distorcida do que é a Educação Física no sistema educativo português e do papel que assume na formação e na saúde dos nossos jovens.

Não me vou embrenhar pelas questões técnicas e terminológicas invocadas, não só porque não as domino, mas também porque me parece que o essencial é dito logo de início e transcende tudo o resto: trata-se de uma disciplina eminentemente prática, que não faz sentido leccionar num contexto de E@D. Mesmo que se proponham exercícios e actividades para fazer em casa que se integrem nos objectivos e conteúdos curriculares da disciplina, não é possível garantir o acompanhamento adequado aos alunos. Pode estar em causa, não apenas a correcta execução mas também, e mais grave do que isso, a segurança dos alunos.

Questionado recentemente nalgumas reuniões com directores, o SE João Costa terá sido claro: não devem ser propostas aos alunos, para fazer em casa, atividades físicas que possam originar acidentes. Se estes ocorrerem, não poderá ser accionado o seguro escolar, como sucederia no contexto de uma actividade escolar presencial.

Em vez do modelo maximalista – e ridículo, nalguns casos – de E@D que, com a conivência de muitos professores, andamos a desenvolver, faria mais sentido assumir, logo à partida, que este é um modelo muito limitado e imperfeito. Há aprendizagens que não se conseguem fazer desta forma, há alunos que nada aprendem desta maneira, há disciplinas que não podem ser ensinadas à distância. Podemos fingir, podemos inventar, podemos até, como tanto gostamos de fazer, descrever no computador ou no papel uma realidade virtual onde tudo funciona às mil maravilhas. Só que não é verdade, e todos o sabemos.

Deixo a última palavra, naturalmente, aos professores e especialistas da área. Mas quer-me parecer que a única forma de a Educação Física deixar de ser uma caricatura de si própria no #EstudoEmCasa: é retirar a disciplina da grelha de programação…