Leituras: Liberdade e espontaneidade

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Do lado esquerdo do espectro político, assistimos hoje a uma perigosa deriva do pensamento pedagógico em direcção ao facilitismo, ao conformismo e ao hedonismo. Em vez da procura de alternativas que contrariem os efeitos da massificação, da padronização e da globalização educativa, vemos personalidades, partidos e organizações de esquerda rendidos ou simplesmente indiferentes às políticas educativas promovidas pelas multinacionais, as fundações empresariais e as organizações internacionais que impulsionam a agenda da globalização.

E, no entanto, uma visão verdadeiramente emancipadora da Educação sempre foi apanágio da esquerda política. A confirmá-lo, talvez a revisitação de Gramsci nos devolva um outro olhar sobre conceitos hoje tão mal compreendidos e destratados, no mundo educativo, como são os de liberdade, autonomia, espontaneidade, disciplina…

O conceito de liberdade entendido como abandono da criança aos seus próprios interesses momentâneos é perigoso para uma educação saudável e consciente, uma vez que toda a educação implica sempre o trabalho da geração adulta, que deve encaminhar as crianças para objectivos concretos cuja realização exige esforço, disciplina interna, numa palavra, a superação da espontaneidade e da liberdade entendidas de forma naturalista.

O conceito de liberdade deve ser examinado em relação ao de autonomia, entendido como a capacidade de autocontrole, de autodeterminação individual, base necessária para dar uma base sólida à vida social. É livre quem é senhor de si mesmo, consciente dos seus deveres e direitos e capaz de se conduzir autonomamente na vida. Portanto, a liberdade é o resultado mais importante da educação; é uma conquista individual obtida pela submissão de paixões e instintos.

A personalidade adquire maior valor à medida que se afasta do mundo infantil, e as atitudes e interesses não são considerados dados originais, mas o resultado do trabalho educativo. Quando a personalidade estiver formada, então expressará de maneira segura e consolidada “as inclinações mais profundas e permanentes, porquanto surgiram no mais alto nível de desenvolvimento de todas as forças vitais”.

Deste modo, a espontaneidade é reconquistada ao final do processo educativo, mas com um significado muito diferente – e em certo sentido oposto – ao que é característico das concepções pedagógicas modernas. Na espontaneidade, manifesta-se o mais alto grau de eficiência que a personalidade alcança para explicar a sua personalidade.

Betti, G. (1976), Escola, educação e pedagogia em Gramsci

Ainda a demagogia dos rankings

raquel-varelaPolémica, por vezes excessiva, para alguns, na forma como exprime os seus pontos de vista, Raquel Varela tem o imenso mérito de não alinhar com os consensos pantanosos que continuamente se vão erigindo na área da Educação. Sob a batuta da OCDE e do internacionalismo financeiro e traduzido naquela novilíngua de tiradas pedantes e chavões pretensiosos a que convencionou chamar-se eduquês.

A pretexto ainda dos rankings das escolas, feitos a partir dos resultados dos exames, e das leituras que deles vão sendo feitas, a investigadora demarca-se tanto do discurso da direita elitista em busca das melhores escolas e da glorificação do ensino privado, como do discurso miserabilista de alguma esquerda, que louva as pequenas vitórias das escolas do fundo da tabela. As escolas onde a maioria dos alunos não aprendem satisfatoriamente, mas em contrapartida realizam outras “conquistas”: vêm às aulas em vez de vadiarem na rua, convivem com os colegas, almoçam na cantina – nalguns casos a única refeição completa que fazem ao longo do dia.

Ora a escola é, acima de tudo, o lugar onde se ensina e aprende. Onde, pela educação, os alunos se descobrem a si mesmos, mas também ao mundo em que vivem, na sua imensa variedade e complexidade, e as pessoas que os rodeiam. Uma escola onde os alunos não aprendem até poderia ter uma cantina com estrelas Michelin, mas continuaria a falhar redondamente na sua missão educativa. E são indignas e miseráveis todas as esquerdas que se conformem e compactuem com esta realidade.

Deixemo-nos de demagogia, que cresce fértil no país, e será cada vez pior com a promoção da ignorância a que assistimos. Uma escola que está no fim do ranking não fez um bom trabalho porque “pelo menos os alunos comem, e não andam no tráfico de droga”. A escola é um lugar para educar e transmitir o pensamento científico às novas gerações. Não é uma cantina, um depósito de crianças, nem um departamento da assistência social. O professor é um educador, não é um mediador, nem um cuidador, nem um animador cultural. Uma escola com média de 1,7 em 20 é um lugar onde os alunos são analfabetos funcionais. Contra a direita segregadora que defende a lei da selva, uma parte da esquerda, com responsabilidades governativas, resume a sua política cada vez mais à defesa do Estado Assistencial em vez do Estado Social, universal, de qualidade. O direito à educação plena é basilar de uma sociedade democrática. Que andemos a discutir no século XXI que “pelo menos eles comem” não é um sintoma de boas políticas do governo, é a confissão do seu falhanço total. Estas escolas servem para produzir mão de obra para limpar centros comerciais às 4 da manhã por 2 euros e meio à hora e serventes de pedreiro. 

A esquerda podemita e a direita bonifácia

moradiaA recente compra de uma moradia com piscina e jardim por Pablo Iglesias, líder do Podemos (o equivalente espanhol do Bloco de Esquerda português) e pela sua companheira, também dirigente do partido, levantou alguma polémica no país vizinho: podem ser levados a sério dirigentes políticos de esquerda, que defendem políticas de igualdade e justiça social, em defesa dos mais desfavorecidos, ao mesmo tempo que, em privado, fazem vida de ricos?

O tema é sempre tentador do ponto de vista da direita, e entre nós foi Fátima Bonifácio que não resistiu a explorar a contradição entre os políticos que falam para os pobres mas querem viver como os ricos. Contudo, o argumentário moralista que se tentou montar em torno deste episódio tem óbvias limitações, como a própria acaba por reconhecer.

O caso, em si mesmo, não vale nada: convenhamos que 600.000 euros não chega a ser dinheiro a sério, que no mercado imobiliário de hoje em dia se cifra em valores muito acima de um milhão. O casal Iglesias ambicionou mais do que um vulgar apartamento, quis um lar como deve ser, uma casinha com jardim e piscina. Por aquele preço, a casinha com jardim e piscina é necessariamente modesta e por certo edificada numa qualquer Picheleira dos arredores de Madrid.

Mas constitui sem dúvida uma muito ofensiva imodéstia aos olhos dos que vivem em habitações pobres e exíguas, numa espécie de lúgubres vãos de escada, em bairros sociais periféricos e de má construção. Estes são aos montes, e é para estes que Iglesias fala, é a estes que Iglesias promete salvação. Mas enquanto os não salva, trata de se salvar a si mesmo.

A análise destas contradições entre o modelo de sociedade que os partidos de esquerda defendem e as formas de vida, gostos e ambições pessoais dos seus líderes políticos parte muitas vezes da percepção de que um líder dos pobres tem de ser pobre e assim permanecer , pois qualquer melhoria do seu nível de vida representa uma “traição” ao povo que representa e aos ideais que defende. Uma ideia errada, porque tem subjacente a falsa noção de que o socialismo e as políticas colectivistas e redistributivas, que os socialistas defendem, se destinam a universalizar a pobreza e a miséria. Pelo contrário: trata-se de distribuir melhor, por todos, a riqueza produzida.

Não há nada de mal em que Iglesias queira proporcionar à sua família uma moradia confortável, uma opção de vida que partilhará com milhões de espanhóis. Irá pagá-la com um empréstimo bancário que certamente consumirá uma boa parte dos seus rendimentos ao longo das próximas décadas. Outros contentar-se-ão em viver num apartamento menos dispendioso, ficando com mais dinheiro para gastar em coisas que consideram mais importantes. Desde que ganhe o suficiente, não apenas para sobreviver, mas para viver com dignidade – isto sim, é um ideal de esquerda -, cada um faz as suas opções livremente, de acordo com os seus interesses e prioridades.

Outra coisa que à direita por vezes se desentende é que há uma diferença fundamental entre os luxos de outros tempos e os que hoje estarão ao alcance de quase todos. A riqueza dos privilegiados de outrora só era possível à custa da exploração e da miséria da grande maioria. Ainda há menos de duzentos anos, até o liberal Almeida Garrett se interrogava acerca de quantos pobres era preciso sacrificar para se fazer um rico…

Pelo contrário, nas sociedades pós-industriais em que hoje vivemos, ter uma casa confortável e bem equipada, um ou dois automóveis na garagem ou hábitos de consumo mais ou menos sofisticados, não é algo que prive, necessariamente, outros cidadãos de conseguir as mesmas coisas. Pelo contrário, o consumo em massa das classes médias gera emprego do lado da produção, alargando o universo de consumidores.

A compra da casa de Iglesias não impedirá outros de fazerem semelhantes aquisições. Antes pelo contrário, irá estimular a construção, a venda, o arrendamento deste tipo de propriedades. Assim como das casas que entretanto ficarão devolutas e que serão recolocadas no mercado. Se forem devidamente controladas as tendências especulativas, o sector da habitação é dos que tem maior capacidade, não só de melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas também de estimular, de uma forma global e sustentada, o crescimento da economia.

Não é preciso ser pobre para se ser convictamente de esquerda, nem os ricos estão condenados a reproduzir os estereótipos mentais e sociais da classe dominante. Melhorar a sua condição económica ou a sua instrução não transforma ninguém em traidor da classe de origem. O que faz a diferença, para o cidadão bem sucedido na vida, é ter vontade de lutar por uma sociedade em que todos possam, tal como ele, aceder à fruição dos bens materiais e culturais ou, pelo contrário, querer reservar esse privilégio a uma elite económica e social à qual passou a pertencer. É sobretudo por aqui que passa, no século XXI, a diferença entre ser de esquerda ou ser de direita.

Insubmisso até ao fim

melenchon.JPGAo contrário dos que se têm entretido a crucificar o candidato derrotado de esquerda, Jean-Luc Mélenchon, por ainda não ter apelado claramente ao voto em Emmanuel Macron na segunda volta das presidenciais francesas, parece-me que as reservas do candidato da esquerda “insubmissa” faz todo o sentido:

  • Reafirma a ideia de que os candidatos não são donos dos votos dos seus eleitores. Cada um dos votantes em Mélenchon terá agora de, pensando pela sua cabeça, decidir qual a forma mais inteligente e eficaz de usar o seu voto de acordo com aquilo que pretende para o futuro da França.
  • Passa a bola para o lado do candidato centrista, que é quem efectivamente vai a jogo no próximo domingo. Se está interessado nos votos da esquerda e quer derrotar a direita nacionalista, racista e xenófoba representada por Le Pen, não pode limitar-se a promessas vagas e a agitar o papão da extrema-direita. Tem de assumir compromissos concretos e mostrar claramente, aos eleitores de esquerda, as boas razões que poderão ter para votar nele.
  • A democracia tende a funcionar melhor quando não estende a passadeira vermelha a políticos situacionistas, oportunistas e demagogos, como Macron aparenta ser. E mais importante do que a eleição, praticamente certa, é o que irá fazer um Presidente que não dispõe do apoio de um grande partido para governar. Em vez de lhe passarem um cheque em branco, os Franceses terão tudo a ganhar se venderem caro o seu voto ao mais que provável vencedor das presidenciais de domingo.

Sectarismo prejudicial à saúde

glifosatoO PCP votou esta quarta-feira contra a proposta do Bloco de Esquerda (BE) para banir a aplicação de produtos que contenham glifosato em zonas urbanas, de lazer e vias de comunicação mas os bloquistas já reagiram. E com estrondo. Num artigo publicado no esquerda.net, Nelson Peralta, dirigente do BE, critica o partido liderado por Jerónimo de Sousa e atira, logo no título: “Glifosato: o sectarismo faz mal à saúde”.

A coligação negativa, que leva o PCP a unir-se aos partidos de direita para rejeitar iniciativas do BE que têm o apoio do PS já não é inédita, mas neste caso surpreende porque revela uma incoerência pouco habitual no PCP. De facto, este partido é muitas vezes criticado por alguma rigidez nas suas práticas e princípios, mas no caso da tentativa de proibição dos herbicidas cancerígenos parece haver um posicionamento dúbio destinado a inviabilizar a iniciativa do Bloco.

De outra forma, como se compreende que o PCP não tivesse repetido a absenção de há um mês atrás, que teria viabilizado a proposta? Ou que militantes do partido defendam e aprovem, em câmaras e assembleias municipais pelo país fora, a proibição do glifosato que os deputados rejeitam?

Puro sectarismo, responde o dirigente do BE, recomendando cuidado: tal como o glifosato, aquele também faz mal à saúde…

Era escusado

Nunca foi meu hábito explorar as velhas divisões e sectarismos que existem na política portuguesa, em especial à esquerda, a área política com que me identifico. Mas não consigo ficar indiferente a algumas palavras proferidas na noite de ontem por Jerónimo de Sousa:

Podíamos arranjar uma candidata mais engraçadinha e com um discurso mais populista. São opções e não quero criticá-las.
Não somos capazes de mudar. Fazemos sempre a mesma opção por uma forma séria de fazer política.

jeronimoOra bem, depois de todos termos percebido que Marisa Matias e o Bloco de Esquerda são os destinatários óbvios desta crítica de quem diz não querer criticar, não posso deixar de perguntar: quem impediu o PCP de arranjar uma “candidata mais engraçadinha” do que Edgar Silva? Se a mensagem a passar nestas eleições era importante, se segurar o voto do eleitorado comunista era um objectivo essencial, porque não escolheram uma carinha mais jovem e laroca para, defendendo exactamente as mesmas ideias e valores que Edgar Silva assumiu, conseguir apelar mais facilmente aos eleitores? Não deveriam os interesses da “luta do povo e dos trabalhadores” estar acima dos protagonismos individuais? E o papel determinante que o PCP quer continuar a ter nessa luta não seria merecedor de um pouco mais de inovação e ousadia, em vez de se insistir em fórmulas que cada vez menos irão funcionar e na crítica ressabiada a outras forças políticas, culpando-as pelas incapacidades e limitações próprias?

E ainda pergunto: é menos “séria” a forma de fazer política de Marisa Matias? Por ser mais jovem ou não ser desengraçada, as suas palavras e as suas ideias têm menos valor? Será misoginia que subitamente descubro no discurso do líder do partido “dos trabalhadores e das trabalhadoras”, ao defender uma liderança de homens maduros e sisudos, pondo de parte as mulheres, os jovens e os sorrisos?

Marisa e Egdar: as candidaturas partidárias

Marisa Matias e Edgar Silva são excepções num universo de candidaturas presidenciais que, ou são assumidamente apartidárias, ou nasceram da iniciativa de militantes que não lograram obter o apoio oficial do partido a que pertencem.

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Edgar Silva, um ex-padre com um percurso interessante na defesa dos desfavorecidos e de uma sociedade mais justa e que o terá levado do catolicismo social à militância no PCP na Madeira, parece-me uma candidatura colada aos habituais taticismos deste partido, que pretende “segurar” o mais possível o seu eleitorado, evitando que este se disperse por candidaturas das áreas políticas mais próximas.
Eventualmente, como sucedeu com todos os líderes que se sucederam a Álvaro Cunhal, a candidatura de Edgar Silva servirá para testar este dirigente partidário como eventual sucessor de Jerónimo de Sousa, dando-o a conhecer publicamente através da campanha presidencial. O que sendo uma estratégia aceitável do ponto de vista partidário, me parece pouco para justificar o voto nesta candidatura.

Quanto a Marisa Matias, eurodeputada do BE, sendo uma candidata com hipóteses quase nulas de vencer, penso que daria, ainda assim, uma boa Presidente da República. Em primeiro lugar, porque poria fim ao estereótipo do Chefe de Estado do sexo masculino, relativamente idoso, e com uma extensa carreira política.
Agradar-me-ia ter uma Presidente relativamente jovem, com ideias arejadas, cultura política democrática e sensibilidade social para os problemas e as aspirações dos cidadãos. Penso que esta vontade é ainda maior por contrastar com a mentalidade, o discurso e a acção da lúgubre e medíocre figura que ocupou o lugar nos últimos dez anos.

O voto desalinhado

2[1]A vitória anunciada da extrema-direita nas eleições regionais em França, para além de fazer soar as campainhas de alarme em relação ao alastrar da xenofobia e do medo que levam à busca das soluções securitárias em que uma certa direita se especializou, permite também fazer um paralelismo interessante com o nosso recente período pós-eleitoral.

Em França, perante o alastrar da extrema-direita, foram os socialistas que vieram propor uma espécie de cordão sanitário em defesa da democracia e dos valores da República Francesa, aceitando até desistir de candidaturas nos círculos onde tiveram menos votos, para permitir a concentração de votos na direita moderada de Sarkozy e a derrota do partido de Marine LePen. Mas o partido do ex-presidente é que parece não estar pelos ajustes, recusando estratégias para desvirtuar a expressão da vontade popular.

Já em Portugal, os dois partidos da direita são praticamente indistinguíveis, e é à esquerda que se notam as maiores clivagens, entre um PS europeísta, atlantista e comprometido até à medula com todos os grandes consensos do regime construídos ao longo de quatro décadas de democracia, e os partidos de extrema-esquerda, críticos de quase tudo o que caracteriza essa política. Assim, o cordão sanitário, entre nós, tem existido entre o PS e os partidos à sua esquerda, excluindo-os do chamado “arco da governação” e remetendo-os à condição de partidos de protesto.

Este medo das escolhas democráticas dos cidadãos que leva a tentar construir “Uniões Nacionais” deixando de fora forças que, bem ou mal, representam uma parte significativa do eleitorado, pode manifestar-se, como se vê, tanto à direita como à esquerda. E significa acima de tudo que os partidos tradicionalmente dominantes se têm distanciado dos cidadãos que os elegem e se  vão mostrando incapazes de dar respostas capazes aos problemas de fundo das economias, das sociedades e dos sistemas políticos. Que não têm soluções fáceis, e por isso também não se compadecem com a demagogia, a displicência e o alheamento com que têm sido tratados.

Mais candidatos presidenciais

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“Padre Edgar” é candidato do PCP a Belém

BE aprova Marisa Matias como candidata a Belém

Enquanto à direita prevalecem os calculismos em torno do melhor candidato presidencial, que será sempre o que, unindo a direita, for capaz de ir buscar mais votos à esquerda, do outro lado os candidatos vão-se multiplicando.

Ao unanimismo da direita, que tantas vezes leva a votar em quem não se gosta, porque a única lógica que prevalece é a da conquista do poder, à esquerda assume-se, e vive-se, a liberdade de escolha que a direita invoca mais do que pratica.

Candidatos para todos os gostos. Prefiro assim.

Regresso ao passado

O Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP) suspendeu, no dia seguinte às eleições legislativas, o histórico dirigente Garcia Pereira, bem como mais três membros do comité central e o secretário-geral, Luís Franco.

MRPP[1]No comunicado assinado por Espártaco e publicado no órgão oficial do partido, Luta Popular, afirma-se, usando uma linguagem que quem já por cá andava nos tempos do PREC recorda com alguma nostalgia:

Se nestas condições objectivamente favoráveis o Partido não alcançou nenhum dos objectivos políticos imediatos ao seu alcance – aumento substancial da votação nas listas do Partido e eleição de uma representação parlamentar – tal fica unicamente a dever-se à incompetência, oportunismo e anticomunismo primário do secretário-geral do Partido e dos quatro membros do comité permanente do comité central, que tudo fizeram para sabotar a aplicação do comunismo, do marxismo-leninismo, dos métodos de trabalho, do programa político e da linha de massas que sempre caracterizaram a vida e luta do Partido.

Mas as partes mais deliciosas da prosa dos mais puros militantes do único e verdadeiro partido dos trabalhadores em geral e dos operários em particular vem no final, entre as determinações acerca do “que fazer”:

10. Cada um dos cinco membros agora suspensos deve preparar e apresentar, dentro de oito dias, ao comité central em exercício de funções, o relatório sobre as respectivas actividades políticas e a autocritica [sic] quanto aos erros que cometeu na direcção do Partido.

12. Apelo aos militantes do Partido e ao proletariado português para se empenharem denodadamente neste trabalho pela refundação do partido comunista operário português, correndo das nossas fileiras com os social-revisionistas, social-fascistas e demais oportunistas que tomaram conta do seu quartel-general.

Longa vida ao partido do proletariado e morte aos traidores, como eles gostam de dizer…