Resposta certa, errada ou assim-assim?

O exercício era simples, até para uma criança de sete anos: escrever usando algarismos números escritos por extenso.

E o miúdo sabia fazê-lo, como se depreende pelas respostas que deu. No entanto, a sua “interpretação” da pergunta foi diferente do que era pretendido pela professora, que considerou as respostas erradas. Mas o pai da criança teve dúvidas e acabou, como conta o DN, por colocar o assunto à consideração superior. No Twitter…

Será que a expressão “os seguintes números” pode entender-se como “os números seguintes”?

Será a pergunta suficientemente ambígua para permitir a possibilidade de responder de duas formas diferentes, ambas correctas?

Deveria a professora valorizar a capacidade de raciocínio do aluno e considerar certo o exercício?

Ou estamos precisamente perante um raciocínio incorrecto, que induziu o aluno em erro, embora acabando a fazer algo até mais difícil do que o pedido?

Ou ainda: o que temos aqui é uma expressão de criatividade, algo que a escola deve valorizar e estimular nos alunos, ou já o embrião de um vício demasiado frequente nos adultos, a mania de complicar?

Como se vê, são mais importantes as dúvidas e as reflexões que este caso suscita – o tweet original tem já mais de cinco mil respostas – do que a resposta definitiva para a questão colocada.

Em todo o caso, e se quisermos uma posição que possa servir de voto de qualidade, talvez o tweet da Real Academia Española, instada a pronunciar-se, possa servir a esse fim. Os académicos não têm dúvidas: “tal como está redigido o exercício, a interpretação natural é que se escrevam com algarismos os números que se citam a seguir“. E não haveria, pergunta ainda alguém, uma forma mais clara de colocar a questão? Sim, responde a Academia, o mais claro seria escrever “estes números”.

Entretanto Ignacio Bárcena, o pai da criança, perante a repercussão de um tweet que rapidamente se converteu num quase julgamento público da professora do seu filho, sentiu também a necessidade de esclarecer: da sua parte, foi apenas uma brincadeira. E gosta muito da professora do seu filho.

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Decidirem a vida deles? E se a moda pega?…

juncker.JPGLapidar o argumento usado por Jean-Claude Juncker para rejeitar a intervenção da União Europeia, pedida pelo governo autónomo da Catalunha, no conflito que opõe os independentistas ao governo de Madrid:

“Se permitirmos que a Catalunha se torne independente, outros irão fazer o mesmo.”

Que isto de os povos se arrogarem o direito a decidir fora do menu de escolhas admitidas pelos governantes é perigoso e não pode ser permitido.

Qualquer dia ainda se põem a pensar que a União Europeia é uma democracia!…

O discurso do rei

felipevi.JPGAo terceiro dia, falou o Bourbon.

Não condenou a violência policial instigada pelo governo de Madrid na Catalunha.

Nem uma palavra de conforto às centenas de feridos em resultado das agressões violentas e completamente desproporcionadas da Polícia Nacional e da Guarda Civil contra pessoas pacíficas e indefesas.

Nenhum apelo ao diálogo e à conciliação.

Em vez disso, um discurso digno de qualquer um dos seus antepassados absolutistas, acusando de deslealdade os seus súbditos catalães, invocando o “poder legítimo” do Estado e, claro, a legalidade assente na Constituição que devolveu à sua família o privilégio de reinar.

Depois de Rajoy ter feito mais pela causa independentista do que qualquer um dos rebeldes da Generalitat ou do Parlamento da Catalunha, vem agora Felipe VI mostrar como pode um rei, em vez de promover a concórdia e a unidade nacional, fomentar a desunião e o conflito.

Não o escolhemos e não nos representa, dirão milhões de Espanhóis, e não apenas na Catalunha.

Homenagem à Catalunha

O que se está a passar hoje na Catalunha era até certo ponto previsível, mas nunca pensei que as forças policiais enviadas de Madrid chegassem aos excessos de violência e desordem que estamos a testemunhar.

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Respeito e valorizo os sentimentos identitários e autonomistas da Catalunha e até os anseios independentistas de uma parte significativa da sua população. Mas não me parece nem que a independência da região seja uma boa ideia nem que, após amplo debate democrático, e havendo a alternativa de um aprofundamento da autonomia, a maioria dos Catalães se deixasse seduzir pela separação completa de Espanha e a criação de um novo Estado independente, com tudo o que isso implicaria.

Espanta-me por isso a inépcia e a estupidez do poder político instalado em Madrid, que está a fazer hoje, pela causa independentista, mais do que terão feito, até hoje, todas as forças políticas que a têm defendido.

Mostrando uma brutalidade inédita para a maioria dos Espanhóis, e que para os mais velhos poderá ter paralelo com a repressão nos tempos do Franquismo, a reacção desproporcionada e descontrolada do governo de Rajoy só pode atiçar os ânimos contra o centralismo e a prepotência de Madrid. E estão a provocar revolta generalizada na Catalunha, onde muitos dos mais moderados, que nem tencionariam envolver-se em confusões, fazem agora questão de, enfrentando a Policia Nacional e a Guardia Civil, ir votar no referendo proibido.

Como se fosse possível resolver um problema político, que é o que está em causa no desafio referendário, com o uso gratuito da força policial, tentando calar e desmobilizar as pessoas pela violência e pelo medo. Claro que só vão aumentar o número de resistentes e descontentes, numa espiral que não sabemos onde parará. Mas que, em todo o caso, aprofunda o conflito, dificulta o diálogo e torna mais difíceis e distantes as soluções que ainda se possam vir a desenhar.

Independentemente de tudo o que se possa dizer sobre constituições e referendos em Espanha, parece-me evidente que a Catalunha conquistou, hoje, o seu direito à autodeterminação. E que Rajoy é, a partir de agora, um primeiro-ministro desacreditado e a prazo.

isaltino.JPGEmbora hoje também tivesse havido eleições por cá, elas passam para um plano secundário perante a enormidade do que está a suceder na Catalunha. Como se comentava há pouco no Twitter, por lá batem nas pessoas e prendem-nas por irem votar. Por cá, prefere votar-se em pessoas que já estiveram presas. Desculpem, mas não tem comparação.

A Pedagogia no século XXI

fernando-trijullo.jpgOs pedagogos no nosso país habitam, fundamentalmente, a universidade e hoje esta é, mais do que nunca, uma torre de marfim, concentrada em obter um grande impacto das suas publicações em revistas especializadas para poder assim melhorar sua posição nos rankings e conseguir projectos de pesquisa com bons financiamentos. A consequência directa é que muitos pedagogos vivem hoje afastados das escolas e de outras experiências educativas. Disto ressente-se não só o seu conhecimento, determinado em grande parte pela publicabilidade em certas revistas, mas também a sua influência real na escola, onde são vistos como estranhos que às vezes chegam carregados de questionários, mas raramente trazem soluções ou, pelo menos, possibilidades.

O texto é de Fernando Trujillo, um professor espanhol da Universidade de Granada, mas este desfasamento entre a pedagogia dos académicos e aquela que os professores do básico e secundário aplicam diariamente com os seus alunos é algo que também se constata entre nós.

Contudo, esta pedagogia que se teoriza para os papers e as conferências universitárias e que ignora, quando não hostiliza, os saberes, a experiência e as dificuldades dos professores no terreno, não é boa para ninguém. E abre espaço, no sector da educação, para a influência dos interesses económicos e para a afirmação de novos mitos educativos ligados à informática, às neurociências e a uma amálgama de novas modas educativas associadas ao que se vai chamando Educação do século XXI.

Perante isto, Trujillo defende a importância da Pedagogia e de explica porque não podemos prescindir dela: em tempos de mercadores, necessitamos de pedagogos.

A Educação não pode esquecer os contributos da Pedagogia. Por um lado, a sua abordagem histórica e, por outro lado, o seu posicionamento crítico são absolutamente necessários para não perder o Norte da Educação em tempos de neoliberalismo. A Educação é um direito de todos, mas para fazer valer este princípio necessitamos de conhecimento para resolver a grande questão deste início do século XXI: há uma clara tentativa de usar a Educação para manter e reforçar a desigualdade no mundo, e a marginalização da Pedagogia e dos pedagogos, incluindo o seu próprio isolamento e estigmatização, fazem parte desse intento desequilibrador.

Para uma reforma educativa COM os professores

professor.jpgPor cá as ideias, a este respeito, ainda andam algo confusas. Mas aqui ao lado, entre os professores espanhóis, parece começar já a desenhar-se um claro consenso na defesa de reformas na Educação feitas com os professores e não contra eles.

Retirado, com a devida vénia, daqui, tradução e sublinhados da minha responsabilidade. Sem mais comentários, eis o que esperam e como pretendem contribuir os professores para as mudanças necessárias na Educação:

  • Voz e decisão nas reformas educativas;
  • Tempo para programar, planificar e desenvolver os seus próprios projectos curriculares;
  • Dotar docentes e escolas dos recursos necessários para fazer face às necessidades dos alunos;
  • Equipas directivas abertas, acessíveis e que mostrem preocupação com as pessoas;
  • Não submeter os professores a ordens e normativos degradantes;
  • Condições dignas e respeito pela autonomia profissional dos professores;
  • Políticas que apoiem e respeitem os docentes.

 

Exigimos aos pobres, quando os ricos passam sem saber?

– Disse aos do 4° ano que não os podia aprovar se não soubessem reconhecer as orações subordinadas, mas depois disto do Froilán não sei se fiz bem.

– Fizeste bem. Os teus alunos não têm a família de Froilán que, ainda que não saiba fazer nada de nada, lhe vai subvencionar a vida.

O percurso escolar do jovem Froilán, que já foi tema de outro post, está a ser tema de conversa entre os professores espanhóis.

Lá como cá, todos nos debatemos entre a dificuldade de conseguir que todos os alunos aprendam, a necessidade de construir respostas individualizadas num contexto de turmas heterogéneas e numerosas e o imperativo ético e deontológico de não andar simplesmente a certificar a ignorância: é necessário que os alunos adquiram conhecimentos, desenvolvam competências e, nos momentos de avaliação, as suas notas reflictam as aprendizagens efectivamente realizadas.

froilan3.jpgMas depois aparecem estes jovens de boas famílias, aos quais o poder do dinheiro permite superar a falta de “queda para os estudos”, e não podemos deixar de nos questionar: vale mesmo a pena andarmos a exigir tanto aos nossos pobres e esforçados alunos, se com os filhos das elites é o que se vê?

Claro que vale: desde logo porque aos filhos dos pobres e remediados ninguém lhes pagará uma vida de parasitas, como é comum fazer-se, nas velhas e novas aristocracias, aos filhos menos dotados…