Estado laico

meia-haste.JPGBandeira a meia-haste em Espanha? Três dias de luto nos quartéis espanhóis em homenagem a um líder religioso falecido, segundo a tradição, há 2018 anos?…

A polémica está lançada esta Páscoa em Espanha, depois do provedor de justiça do país ter criticado a ordem do Ministério da Defesa espanhol para que todas os quartéis e bases militares coloquem a bandeira a meia-haste para marcar a época da Páscoa.

“Das 14h00 de quinta-feira santa até à 00h01 de Domingo da Ressurreição a bandeira nacional deve ser colocada a meia-haste em todas as unidades militares, bases, centros e quartéis bem como no Ministério da Defesa e os seus departamentos regionais”, anunciou o Ministério da Defesa espanhol.

A decisão, pelo segundo ano consecutivo, foi criticada pelo provedor da justiça espanhol, Francisco Fernández Marugán, que recordou o carácter secular do estado espanhol decretado na Constituição espanhola.

Os demónios do franquismo continuam vivos no país vizinho…

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Música para a Primavera: Joaquín Sabina – Canción de Primavera

Professor não entra

O bullying motivado pela orientação sexual dos alunos pode ser um grave problema escolar. Para lhe dar resposta, foi recentemente constituída na província de Huelva, sul de Espanha, a Mesa de Expertos contra el Acoso Escolar por Orientación Sexual, que teve hoje a sua primeira reunião de trabalho.

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O assunto é relevante e certamente a nova comissão terá um trabalho importante pela frente. Mas não é menos interessante constatar que desta equipa, recheada de políticos e especialistas, não faz parte um único professor.

Só que, enquanto por cá já nem ligamos a estas coisas, os docentes espanhóis comentam-no, com desagrado, nas redes sociais. Lá como cá, os “peritos” em assuntos escolares podem ser todos, menos os professores.

Preparação para o PISA – e parece que é legal…

exame-murcia.JPGAo contrário de Portugal, onde os resultados dos alunos nos últimos testes PISA, realizados em 2015, registaram uma subida, em Espanha o panorama foi algo desanimador. E se de então para cá poucas melhorias foram introduzidas no sistema educativo, agora que as provas de 2018 estão quase à porta – realizam-se em Maio – a região espanhola de Múrcia decidiu fazer algo que supunha, na minha ingenuidade, ser interdito: treinar os alunos especificamente para a prova, a fim de que obtenham melhores resultados do que os seus colegas de há três anos atrás.

Dizem-nos que os alunos até são bons, mas falta-lhes perseverança suficiente para responder a todas as questões e manter a boa performance até ao final da prova. Perante isto, nada como umas sessões de “coaching” para tornar os alunos mais persistentes e confiantes. E obter, para os políticos que os patrocinam, melhores resultados nos testes internacionais. Não quereria duvidar da bondade da iniciativa; apenas noto que, nesse caso, deveria ser extensiva a todos os alunos da região de Múrcia, e não apenas aos 2000 que foram aleatoriamente seleccionados para realizar os testes PISA. Mas os responsáveis educativos não ficam por aqui…

Além disso, a inspecção educativa informará as escolas sobre as características da prova e serão postas à disposição dos professores provas-modelo para que os estudantes se familiarizem com o tipo de exame, centrado na aplicação de conhecimentos pelos alunos, diferente do modelo de provas que realizam habitualmente nas avaliações normais nas escolas.

Ora toma, OCDE, que já almoçaste. E se alguém pensa que este empurrãozinho em prol da melhoria de resultados é exclusivo da região murciana, a notícia esclarece que não é bem assim. Se calhar os outros fazem é menos alarido das “boas práticas” para a subida nos rankings internacionais…

Este tipo de preparação é posta em prática em muitas das comunidades e países que participam no programa, mas na Região não se tinha  levado a cabo nas outras convocatórias do PISA.

Protestos de alunos e professores demitem directora

ies-lebrija.pngO caso sucedeu em Espanha, numa escola de Lebrija, pequena cidade da Andaluzia: professores e alunos uniram-se para protestar publicamente contra a directora, acusada de manter uma atitude laxista perante a indisciplina de alguns alunos e as agressões de que foi vítima um professor da escola.

Os protestos, que se mantiveram durante vários dias, culminaram anteontem com o pedido de demissão da directora, que reconheceu finalmente não ter condições para continuar à frente do estabelecimento de ensino.

Os incidentes surgiram com uma turma de um curso profissional, onde alguns alunos agrediram o professor de Carpintaria com um pedaço de madeira, o que motivou tanto a manifestação solidária da quase totalidade do corpo docente da escola como o protesto dos alunos contra a falta de actuação adequada por parte da direcção.

Ao que parece, em vez de prevenir e punir adequadamente este tipo de incidentes, a directora preferia instigar os pais a que denunciassem os professores que “insultavam” os alunos. Quanto aos docentes, deixaram claro, na sua tomada de posição colectiva, que o protesto se deveu:

…às contínuas atitudes de desconsideração, ofensas, resistência activa, coacções, humilhações e condutas disruptivas que vêm tendo desde o início do presente ano os alunos do segundo curso de FPB de Carpintaria contra o seu tutor e a equipa docente».

E a finalizar, permitam-me a pergunta, e desculpem a pequena provocação: por cá, quantos excelentíssimos colegas estariam dispostos a agir da mesma forma em defesa de um colega e da dignidade da nossa profissão?…

Segue a Constituição, filha!…

Que enquanto ela existir terás emprego para a vida…

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O rei de Espanha assinalou hoje os seus 50 anos atribuindo a mais alta condecoração do reino à sua filha herdeira, Leonor, de 12 anos, aconselhando-a, na cerimónia, a “guiar-se em permanência pela Constituição” espanhola, “cumprindo-a e respeitando-a”.

Um porta-voz do Palácio real de Espanha classificou o evento de hoje como “um ato de importância histórica para o rei [Felipe VI] e para a princesa herdeira”. A Ordem do Tosão de Ouro é a mais elevada ordem honorífica de Espanha, e remonta a 1430.

O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy (PP, direita conservadora, no poder), considerou que o ato constitui uma forma de sublinhar “a vontade de permanência da monarquia parlamentar em Espanha.

A cerimónia teve lugar em pleno conflito político entre os independentistas catalães e os constitucionalistas da Catalunha e do resto de Espanha.

A culpa é dos professores

nando-lopez.JPGFalta-lhes formação.

Falta-lhes motivação.

Faltam-lhes ganas.

Poderíamos falar das reformas supostamente educativas que se foram sucedendo, sem ordem nem consenso, nos últimos anos. Do investimento insuficiente – e pior ainda, decrescente – em educação. De aulas massificadas e do aumento de horas lectivas. Da redução salarial e da deterioração das condições laborais dos docentes.

Mas para quê? A culpa é dos professores!

Poderíamos falar dos quilómetros que faz diariamente a maioria dos docentes da escola pública. Dos que têm de mudar de casa e fazer malabarismos com o salário para poderem trabalhar onde foram colocados. Da instabilidade dos quadros, de onde resulta quase impossível formar equipas. Da situação precária de tantos professores. De matérias afins sem afinidade alguma. De baixas de docentes a aguardar substituição. De professores obrigados a dar aulas em mais de uma escola. De como a maioria das actividades em escolas básicas e secundárias funciona, sem recompensa alguma, graças à boa vontade de uns quantos.

Nada disso importa. A culpa é dos professores.

Poderíamos falar de segregação nas nossas aulas. De escolas que se estão a converter em guetos. De falta de investimentos e de apoios. De provas externas e currículos desfasados. Do pouco valorizados que se sentem muitos docentes. Da indisciplina nas aulas.

Não digas tolices. A culpa é dos professores.

Poderíamos falar, sentarmo-nos de uma vez por todas a falar sobre a vida real nas salas de aula. E abordar o problema juntos: docentes, fartos de não ser escutados; famílias, cansadas de se sentirem invisíveis; alunos, a quem se nega o protagonismo da sua própria educação. Mas resulta muito mais cómodo procurar um inimigo único – se possível, sempre o mesmo – e lançar contra ele as farpas habituais – o que felizmente já não nos surpreende: os docentes que não estão preparados, que – por muitos cursos que façam ou métodos que experimentem – não se reciclam, que não vão para as aulas motivados (porque, como é óbvio, nas outras profissões toda a gente vai trabalhar feliz, sem um dia mau e por amor à arte).

Poderíamos procurar – e mais, deveríamos fazê-lo – o caminho para um verdadeiro pacto educativo. Mas é impossível conseguir pacto algum sem descer à realidade da sala de aula. E afinal, para quê fazer esse esforço quando o diagnóstico é tão óbvio:

A culpa é dos professores!

Tradução livre e adaptação, com algumas supressões, de um texto de Fernando López, escritor e professor universitário espanhol. Uma leitura que recomendo, não só pela acutilância das ideias e a qualidade da escrita mas também porque nos ajuda a compreender que o desinvestimento na educação e a agenda anti-professores ultrapassam fronteiras e inclinações políticas.