O novo governo de Espanha

pedro-duque.JPGA formação do novo governo espanhol, do socialista Pedro Sánchez, está a despertar curiosidade e interesse. Por várias razões. Uma delas, por ser um governo maioritariamente feminino – onze dos quinze ministros são mulheres – algo que se saúda, e que só estávamos habituados a ver nalguns países nórdicos.

Quanto aos professores espanhóis que frequentam o Twitter, fartos do eduquês de direita que tem contaminado, por lá, as políticas educativas, começam também a dar a conhecer as suas expectativas, sobretudo depois de se saber que o Ministro da Ciência será Pedro Duque, um engenheiro aeronáutico e astronauta – participou em missões da Agência Espacial Europeia – que é também um activo defensor da cultura científica e um opositor das pseudo-ciências.

O novo Ministro da Ciência demonstrou sempre a sua oposição às pseudo-ciências, terapias alternativas e charlatanice em geral. Espero o mesmo da nova Ministra de Educação.

A verdade é que há uma tendência universal para valorizar mais a ciência quando está em causa a nossa saúde, ou a qualidade das tecnologias que usamos diariamente, do que quando está em jogo a educação dos nossos filhos..

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Vem aí a geringonça espanhola

sanchez-rajoy.jpgEstá confirmada a queda do atual Governo espanhol, liderado por Mariano Rajoy, após a aprovação de uma moção de censura. Assim, o próximo primeiro-ministro de Espanha será Pedro Sánchez, líder do PSOE, que promoveu a iniciativa.

Apesar de apenas ter 84 dos 350 deputados do parlamento espanhol, o partido socialista (PSOE) conseguiu reunir o apoio de 180 deputados, incluindo os do Unidos Podemos (Extrema-esquerda, 67), da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, separatistas, 9), do Partido Democrático e Europeu da Catalunha (PDeCAT, separatistas, 8), do Partido Nacionalista Basco (PNV, 5), do Compromís (nacionalistas valencianos, 4), do EH Bildu (separatista basco, 2), e da Nueva Canarias (nacionalista, 1).

Com a nomeação do líder do PSOE como próximo primeiro-ministro, prevista já para segunda-feira, Espanha realiza uma experiência política até agora inédita desde a instauração da democracia: a queda do governo em funções como resultado de uma moção de censura e a chamada ao poder do partido que “perdeu” as últimas eleições.

Tal como sucedeu em Portugal em 2015, será oportunidade de melhor se perceber, em Espanha, que as eleições não se fazem para escolher governos, mas para eleger deputados. E que ganhar as eleições significa apenas estar mais bem posicionado do que os adversários políticos para obter uma maioria parlamentar que possa suportar o governo que vier a formar-se.

Com apenas 24% dos assentos parlamentares, o PSOE estará numa posição ainda mais frágil, perante os seus aliados nas Cortes, do que o PS português face ao BE e ao PCP. Pelo que a instabilidade política poderá, para o futuro governo, ser uma ameaça permanente. O que leva algumas forças políticas e comentadores a reclamar, desde já, a clarificação política que resultaria – ou não! – da realização de eleições antecipadas.

Quanto ao PP e a Mariano Rajoy, desgastados por sucessivos casos de corrupção e pelo clima de permanente tensão em que têm governado a Espanha, que culminou na forma inábil e na reacção desproporcionada com que enfrentaram o independentismo catalão, o afastamento do poder seria já apenas uma questão de tempo.

No momento da despedida e da passagem de testemunho, Rajoy, um político geralmente desagradável e arrogante, consegue ainda assim manter um nível de elevação moral e política que o ressabiado Passos Coelho, ainda hoje convencido de que “ganhou” as eleições de 2015, nunca conseguiu igualar:

Foi uma honra ser presidente do governo de Espanha, foi uma honra deixar uma Espanha melhor do que a que encontrei. […]

Oxalá que o meu substituto possa, um dia, dizer o mesmo. É o que desejo, pelo bem da Espanha. Creio que cumpri com o mandato político que me foi investido, o de servir a vida das pessoas. Se alguém se sentiu prejudicado por esta Câmara ou fora dela, peço desculpa. Obrigado a todos e especialmente ao meu grupo parlamentar. Obrigado aos espanhóis por me compreenderem e apoiarem, e desejo boa sorte a todos pelo bem de Espanha.

A Manada

Cinco jovens foram condenados a nove anos de prisão por abuso, não por agressão sexual. Um juiz queria a absolvição já que nos vídeos a vítima tinha uma expressão “relaxada”.

Os factos, sucedidos em Espanha em 2016 e dados como provados, contam-se em poucas palavras. Um grupo de cinco homens, que apropriadamente se chamavam a si próprios a “Manada”, rodearam uma jovem de 18 anos que tinham conhecido minutos antes, levaram-na para um local isolado e forçaram-na à prática de relações sexuais. A rapariga, perante a esmagadora superioridade física dos homens, ficou em choque, incapaz de resistir. Fechou os olhos e esperou que tudo acabasse o mais depressa possível.

Tratou-se de uma violação colectiva, como facilmente se percebe. Mas, para o tribunal que julgou o caso, foi apenas abuso sexual. E apesar de a sentença de nove anos de cadeia, mais o pagamento de indemnizações, não ter sido propriamente branda – em Portugal, talvez se safassem com uma pena suspensa – a decisão está a indignar a sociedade espanhola, tendo gerado manifestações de protesto nas principais cidades e uma onda de repúdio pela sentença e de solidariedade com a vítima encheu as redes sociais.

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No entanto, a decisão judicial não foi unânime entre os juízes:

Um deles defendia a absolvição, alegando que, nos vídeos que eles gravaram com o telemóvel, a expressão do rosto da vítima era “relaxada e descontraída” e por isso “incompatível com qualquer sentimento de medo, rejeição ou recusa” e que “os seus gestos e sons sugerem prazer”.

Este juiz matarruano é um bom exemplo do machismo e da insensibilidade atroz que infelizmente continua a marcar presença entre a magistratura. Passou-se em Espanha, mas também por cá temos alguns juízes dispostos, em casos deste tipo, em tornarem-se acusadores das vítimas, como se fossem elas que estivessem a ser julgadas. Nestas situações, como alguém comentou no Twitter, a mensagem que o sistema judicial continua a passar é,

Tinhas de ter fechado as pernas;
de ter resistido mais;
de ter gritado.
Morta, acreditaríamos em ti.
São rapazes, estavam a brincar.
A culpa é tua, mulher!

A dimensão avassaladora do movimento de repúdio e revolta que esta decisão está a ter em Espanha mostra que a sociedade espanhola já não se revê nesta justiça e nestes juízes. E isso alimenta a esperança de uma revisão da sentença, com a inevitável apreciação do caso por um tribunal superior.

Ladra de supermercado

cifuentes.JPGHá muito que era pedida a demissão de Cristina Cifuentes, presidente da Comunidade Autónoma de Madrid. Esta figura de topo do PP espanhol tem sido protegida por Mariano Rajoy, mas as suspeitas de envolvimento em casos de corrupção, as ligações perigosas a um narcotraficante ou, mais recentemente, a falsificação de documentos para comprovar a posse de um mestrado que nunca concluiu, tudo isto fez de Cifuentes um símbolo da corrupção endémica que mina o Partido Popular. Tornou-se um alvo a abater, não só pelos seus adversários políticos, como por todos os que defendem a honestidade e a transparência no exercício dos cargos políticos.

Afinal de contas, a presidente do governo regional de Madrid não sai por nenhum dos crimes de que tem sido acusada: demitiu-se porque foi divulgado um vídeo, registado há sete anos atrás, que comprova que a então deputada do PP furtou dois cremes num supermercado.

O caso Cifuentes demonstra assim que há uma tolerância para os crimes dos ricos – corrupção, desvio de fundos, falsificação de documentos, favorecimentos pessoais – que não existe para os crimes habitualmente cometidos pelos pobres.

Demonstra ainda outra coisa: ninguém guarda durante sete anos uma filmagem de uma câmara de videovigilância, a não ser que tenha objectivos específicos a longo prazo. Alguém, no interior do PP, teria este trunfo guardado para qualquer eventualidade. E quis agora mostrar a Cifuentes, de forma veemente, a porta de saída.

Estado laico

meia-haste.JPGBandeira a meia-haste em Espanha? Três dias de luto nos quartéis espanhóis em homenagem a um líder religioso falecido, segundo a tradição, há 2018 anos?…

A polémica está lançada esta Páscoa em Espanha, depois do provedor de justiça do país ter criticado a ordem do Ministério da Defesa espanhol para que todas os quartéis e bases militares coloquem a bandeira a meia-haste para marcar a época da Páscoa.

“Das 14h00 de quinta-feira santa até à 00h01 de Domingo da Ressurreição a bandeira nacional deve ser colocada a meia-haste em todas as unidades militares, bases, centros e quartéis bem como no Ministério da Defesa e os seus departamentos regionais”, anunciou o Ministério da Defesa espanhol.

A decisão, pelo segundo ano consecutivo, foi criticada pelo provedor da justiça espanhol, Francisco Fernández Marugán, que recordou o carácter secular do estado espanhol decretado na Constituição espanhola.

Os demónios do franquismo continuam vivos no país vizinho…

Música para a Primavera: Joaquín Sabina – Canción de Primavera

Professor não entra

O bullying motivado pela orientação sexual dos alunos pode ser um grave problema escolar. Para lhe dar resposta, foi recentemente constituída na província de Huelva, sul de Espanha, a Mesa de Expertos contra el Acoso Escolar por Orientación Sexual, que teve hoje a sua primeira reunião de trabalho.

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O assunto é relevante e certamente a nova comissão terá um trabalho importante pela frente. Mas não é menos interessante constatar que desta equipa, recheada de políticos e especialistas, não faz parte um único professor.

Só que, enquanto por cá já nem ligamos a estas coisas, os docentes espanhóis comentam-no, com desagrado, nas redes sociais. Lá como cá, os “peritos” em assuntos escolares podem ser todos, menos os professores.