Por Espanha: união contra o “pin parental”

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Tem estado ao rubro a polémica, na vizinha Espanha, acerca do que por lá chamam o “pin parental”. A vulgar autorização que costuma pedir-se aos pais para que os seus filhos participem em actividades opcionais ou extracurriculares. Mas que o Vox, partido de extrema-direita que consolidou posições nalgumas regiões espanholas, quer alargar a todo o tipo de actividades que constem das planificações escolares e que, como tal, se devem considerar obrigatórias para todos os alunos.

Claro que, na visão dos partidos de direita – o PP e até o Ciudadanos têm-se mostrado receptivos à ideia do pin parental – se trata de defender o direito dos pais a escolherem a educação que querem para os filhos, rejeitando o que consideram ser doutrinação de esquerda a respeito de educação sexual, “ideologia” de género e outros temas-tabu para a direita mais conservadora.

E nem se trata apenas de vetar, por exemplo, palestras sobre educação sexual ou temáticas LGBT. No Twitter, onde tenho acompanhado a discussão entre professores espanhóis, e de onde retirei a imagem que apropriadamente ilustra o post, comentava-se há dias o caso de uma turma da região de Múrcia na qual vários alunos foram impedidos, pelos pais, de assistir a uma palestra sobre… a vida subaquática!

Na prática, trata-se de sobrepor a “liberdade de escolha” dos pais ao direito à educação dos filhos. Permitir aos pais decidir o que os filhos aprendem significa negar a estes o acesso a uma educação integral, pondo em causa valores fundamentais como a tolerância, a igualdade de direitos ou o respeito pelas diferenças. Afinal de contas, nem os conteúdos curriculares obrigatórios nem os princípios inscritos na Constituição espanhola e na Declaração Universal dos Direitos do Homem podem ser considerados opcionais.

Mais de 128 mil espanhóis já assinaram um texto contra o “pin parental” proposto pelo partido Vox, que pretende o consentimento dos pais para que os filhos frequentem aulas com conteúdo moral ou sexual.

A possibilidade de os pais vetarem certos aspetos da educação dos filhos nas escolas públicas é completamente rejeitado pelo Governo de esquerda e por uma grande parte da comunidade educativa.

A proposta polémica do Vox, que a quer impor nas regiões onde o seu apoio é necessário para aprovar os orçamentos autonómicos, como Múrcia, Andaluzia ou Madrid, está a dividir a sociedade espanhola e é o principal tema de debate político dos últimos dias.

Uma petição, que já tem mais de 128 mil assinaturas, foi lançada na sexta-feira passada e defende que o “pin parental” vai contra a Constituição e as leis da Educação, além de ir contra a autonomia das escolas e a liberdade dos professores para ensinar.

“Ninguém tem o direito de educar os seus filhos no ódio à diversidade, no sexismo, na xenofobia e numa infinidade de males sociais que se tentam combater através da educação”, conclui a petição.

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Aulas sem telemóveis

estudo-e-telemovelUtilizar telemóveis nas salas de aula da Comunidade de Madrid vai passar a ser proibido a partir do próximo ano letivo, escreve o El Mundo. A medida do Governo regional será obrigatória para todos os estudantes do ensino não universitário, “nos períodos escolares” — exceto quando utilizados para fins educativos ou em casos de alunos que precisam dos telemóveis “por razões de saúde ou incapacidade”.

Caso os alunos não cumpram a medida adotada pelo Governo regional, será o professor ou a direção da escola a decidir como o aluno deverá ser punido: uma das consequências previstas é a apreensão temporária do telemóvel.

Aos poucos, vários países vão tomando medidas radicais contra a utilização não autorizada do telemóvel na sala de aula. A Comunidade de Madrid será a terceira região espanhola a abolir o uso dos aparelhos.

Por cá, a proibição é explícita, em moldes semelhantes, no Estatuto do Aluno. O uso indevido pode ser penalizado com a apreensão do telefone, mas na verdade serão poucos os professores que enveredam, logo à primeira infracção, pelo castigo mais duro.

Claro que há circunstâncias em que os telemóveis podem ter um papel relevante no contexto escolar. Nestes casos não serão, como nunca foram, proibidos.

Trata-se aqui de ter em conta que as salas de aula ditas “do futuro”, recheadas de tecnologia, não passam de uma miragem nas escolas portuguesas. E que a renovação do equipamento informático obsoleto que ainda resiste ao serviço vai sendo eternamente adiada. Neste contexto, faz todo o sentido aproveitar as potencialidades de um aparelho que quase todos os alunos transportam consigo e que, com a instalação de aplicações simples, pode transformar-se num importante recurso educativo.

Patxi Andión (1947-2019)

“Para um criador que tem uma preocupação social como eu, é hoje mais complicado. Quando comecei a fazer canções o mundo era muito mais simples, mais esquemático. Mas agora, na aparente riqueza da sociedade de consumo, onde temos mais coisas mas sobretudo coisas materiais, coisas com um valor limitado, temos menos tempo e menos liberdade. Pagamos caro, para ter esses bens materiais. Por isso há hoje menos gente com preocupações sociais.”

E já agora, revisite-se El Maestro, a comovente homenagem do grande cantautor a todos os professores…

Por Espanha (quase) tudo na mesma…

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As eleições gerais em Espanha não alteraram substancialmente a situação política do país, embora tenham modificado a distribuição de forças ao longo do espectro partidário. A ligeira subida da abstenção, ainda assim em valores inferiores aos habituais no nosso país, parece traduzir a descrença e algum cansaço com o impasse político da parte do eleitorado espanhol.

À esquerda, PSOE e Unidas Podemos foram penalizados, mais o segundo do que o primeiro, pela incapacidade de ultrapassarem as suas diferenças, construindo, com a ajuda de alguns pequenos partidos, uma solução governativa – uma espécie de geringonça à espanhola.

Embora sem maioria para governar, a direita sai reforçada destas eleições. O PP aumenta o número de votos e de deputados, embora a subida mais espectacular seja a do Vox, que passa a terceira força política e transforma a Espanha num dos países europeus com maior presença parlamentar da extrema direita. Nesta viragem à direita do eleitorado, foi o Ciudadanos o grande sacrificado: o partido passa de 57 para 10 deputados e Albert Rivera não deverá ter condições para se manter na liderança. Será desta que a carismática Inés Arrimadas, líder da oposição ao independentismo catalão, ascenderá à liderança do partido?

O cenário político permanece complicado e formar governo continuará a ser missão quase impossível. Basicamente, há uma grande dispersão de votos pelos partidos regionais, alguns deles independentistas, que impedem que a nível nacional se forme uma maioria tanto à esquerda como à direita. E este extremar de posições em torno da questão catalã complicou ainda mais a busca de uma solução governativa, pois a forma de agir perante o independentismo divide profundamente a esquerda, comprometendo quer a eventual aliança entre socialistas e podemistas quer o entendimento com a esquerda catalã.

Vista de Portugal, a crise política espanhola parece sublinhar a pertinência da solução política encontrada em 2015. A “coligação de perdedores”, como chegou a ser designada pelos seus detractores, acabou por corresponder afinal à vontade política da maioria do eleitorado que rejeitou nas urnas o neoliberalismo austeritário de Passos Coelho. E se os compromissos do PS com os partidos à sua esquerda ficaram longe de concretizar, nalguns aspectos, uma verdadeira política de esquerda, a verdade é que o reforço eleitoral do PS em 2019, embora sem maioria absoluta, parece confirmar que uma ampla maioria do eleitorado se revê na solução encontrada. Por outro lado, um bloqueio sistemático de soluções à esquerda acaba por favorecer o crescimento eleitoral da direita, como as eleições espanholas ontem demonstraram.

Noto no entanto um ponto de aparente convergência na conjuntura política dos dois países. Assim como o novo governo de António Costa parece querer seguir uma linha reformista que o afasta dos parceiros à esquerda e o aproxima do PSD, também Pedro Sánchez, no seu braço de ferro com os independentistas e na recusa de integrar o Podemos num governo de coligação, poderá vir a encontrar algum apoio num PP ainda fragilizado politicamente, mas determinado em combater o independentismo e a influência política da esquerda mais radical. Embora recusem uma solução de bloco central que abriria espaço político tanto ao Podemos, à esquerda, como ao Vox, à direita, estarão os dois grandes partidos do regime, PSOE e PP, condenados a entenderem-se?…

Pai detido por ameaçar professor

preso.jpgVamos com calma… não aconteceu em Portugal.

Em todos os países acontecem casos de ameaças, insultos e agressões físicas contra professores. A diferença está no tratamento que as autoridades públicas dão a estas situações e aos intervenientes no conflito.

E não é preciso ir muito longe para perceber essa diferença. Neste caso, nem foi preciso existir agressão física para o caso ser levado a sério e tomadas as medidas adequadas, punitivas e dissuasoras. Basta atravessar a fronteira para compreender o que poderia e deveria ser feito também entre nós.

Passou-se hoje mesmo, num pequeno município da Comunidade Valenciana.

Um homem foi preso esta quarta-feira por agredir um dos professores do centro educativo de Alfafar (Valência), onde estuda a sua filha.

O preso e pai da criança apresentou-se no Colégio de Educação Infantil e Primária de La Fila, na localidade valenciana, proferindo ameaças, supostamente, contra o professor que lecciona Educação Física.

Segundo informou a Polícia Local de Alfafar nas redes sociais, o pais da aluna foi detido “como presumível autor de um crime de atentado a funcionário docente no exercício de suas funções”.

Fontes do Conselho de Educação garantiram à ABC que os factos foram denunciados e que foi ativado o Plano de Prevenção da Violência e Promoção da Convivência (PREVI), que está a prestar assistência à vítima.

Além disso, asseguram desde a Administração Valenciana, em breve será convocada uma reunião na Câmara Municipal de Alfafar, na qual estarão presentes a equipa directiva da escola, o Inspector da Unidade de Assistência e Intervenção, o Inspector de Educação, o Vereador, Polícia Local e Serviços Sociais.

O Conselho também oferece os serviços jurídicos da Advocacia da Generalitat gratuitamente – como normalmente é feito nesses casos – para acompanhar e cobrir qualquer necessidade legal solicitada pelo corpo docente.

Desvalorização contínua

devaluacion-continua_andreu-navarra_201906061159.jpgAndreu Navarra é um professor catalão que, como é comum entre os profissionais que trabalham com alunos reais em vez de se limitarem a teorizar, tem um olhar bastante crítico sobre os rumos actuais da Educação, em Espanha e no mundo. Uma reflexão importante, em tempos de plena ofensiva neo-eduquesa e quando se percebe, no horizonte, uma nova ordem educativa mundial em preparação. Que pouco ou nada nos trará de bom.

Mais preocupado com as consequências da forma como estamos sendo coagidos a ensinar e aprender do que com os temas da agenda educativa impostos pelos governos e as organizações internacionais com interesse na Educação, o nosso colega publicou em livro – Devaluación Continua, Tusquets, Barcelona, 2019 – os seus receios, alertas e inquietações. Uma visão pessimista, dirão alguns. Pela minha parte, e do que li, parece-me uma análise pertinente e fortemente escorada na realidade. Uma visão realista, acrescento, à qual tento juntar uma nota de optimismo: compreender a realidade é o primeiro passo para arrepiar caminho. Enquanto é tempo…

A partir da entrevista ao autor publicada na edição brasileira do El País, ficam, expressas na primeira pessoa, algumas das ideias polémicas, mas certamente incisivas e desassombradas, de Andreu Navarra. E com as quais a maioria dos professores “no terreno” se identificam, estou certo, sem dificuldade.

Nós, professores, queremos criar cidadãos autónomos e críticos, mas, em vez disso, estamos criando o ciberproletariado, uma geração sem dados, sem conhecimento, sem léxico. Estamos vendo o triunfo de uma religião tecnocrática que evolui para menos conteúdo e alunos mais idiotas. Estamos servindo a tecnologia e não a tecnologia a nós. O professor está exausto, devorado por uma burocracia para gerar estatísticas que lhe tiram a energia mental para dar aulas.”

O audiovisual está criando uma nova Idade Média de pessoas dependentes de satisfazer o prazer aqui e agora, quando a vida é muito diferente. Na vida você precisa saber ler contratos, alugar apartamentos, cuidar dos idosos, criar filhos. Mas o ciberproletariado desmorona por qualquer problema. São pessoas que não serão capazes de trabalhar porque têm a concentração sequestrada pelas redes.

Conhecemos vários capitalismos e agora estamos no capitalismo da atenção, em uma economia de plataformas que mercantilizam a atenção. Se você estiver vendo algumas mensagens, alguém ganha dinheiro e, se vê outras, outro alguém ganha. Não podemos repensar a educação se não pensarmos em como devolver a atenção às salas de aula, o regresso do mundo virtual.