O verdadeiro prestígio dos professores

nando-lopezHá uma acusação recorrente que pedagogos tão bem-pensantes quanto distantes da sala de aula e dos alunos fazem aos professores: que reprovam demasiados alunos, que estão imbuídos de uma “cultura de retenção” e acham que reter alunos aumenta o seu prestígio enquanto docentes “exigentes”.

Esta luta pela transição a todo o custo faz-se hoje à escala global, com a OCDE e outras organizações internacionais a apontar regularmente o dedo aos países que se destacam no ranking do insucesso. Incapazes de sacudir a pressão ou de assumir a responsabilidade de decretar a passagem administrativa de todos os alunos, os políticos que gerem o sector preferem lançar as culpas do insucesso sobre os professores.

Em Espanha, a pressão tem vindo a aumentar na imprensa, com insinuações e acusações sobre os professores que não hesitam em prejudicar os alunos para beneficiarem do “prestígio” que alcançariam com as reprovações. Contestando esta ideia absurda, o professor e escritor Nando López toma posição no Twitter, dando o seu testemunho numa eloquente defesa da classe docente a que assume pertencer. Fica a tradução da sequência integral de tweets.

A cada semana há uma manchete que nos recorda o mal que fazemos, os professores. O mais recente fala do “prestígio que dá chumbar”, algo que nunca vivi como docente do 3º ciclo e Secundário. Em contrapartida, quero compartilhar algo que, isso sim, vivo em muitas escolas que visito como autor.

Nestes 4 anos que levo de licença visito uma média de 100-120 escolas de toda a Espanha em cada ano e vivi, frequentemente, uma mesma situação. Uma pequena história que se repete em muitas escolas e que talvez devessem conhecer os que alimentam parangonas tão catastrofistas.

A história é simples e sucede sempre da mesma maneira. Tem lugar um instante antes do começo do encontro, mesmo antes de entrar no auditório ou na biblioteca para falar com os alunos. Então há um professor que me detém e pede para falar comigo por um segundo.

Fá-lo discretamente, para que os seus alunos não o vejam. Então ele ou ela dizem-me que me fixe nesse grupo que se sentou ao fundo à direita. Ou na menina que vai ler a minha apresentação. Ou nos desenhos que me irão entregar no final do encontro.

Ou na pergunta que fará alguém que se sentou timidamente na última fila. Ou que mencione os alunos com necessidades especiais, que ainda não terminaram o livro mas estão encantados com a minha visita.

Pedem-me – como algo pessoal – que me fixe neles para que, se for possível, os mencione, os faça sentirem-se visíveis, os felicite pela sua pergunta, pelo seu desenho ou pela sua participação. Sabem que isso os ajudará a fortalecer uma auto-estima que nessas idades é tão quebradiça.

E quando os menciono, quando faço malabarismos para incorporar a presença desses alunos no meu discurso, eles sorriem surpreendidos, sim, mas o sorriso maior é o dos seus professores, que se alegram por os seus miúdos terem esse momento especial, por pequeno que seja.

Alguém que “crê que reprovar dá prestígio” não se preocupa com algo tão pequeno. Não sente esse vínculo afectivo tão poderoso com os seus estudantes. E não se alegra tanto quando vê que as suas raparigas e rapazes progridem. Aprendem. Participam. E são protagonistas do seu processo educativo.

Vivi alguma experiência negativa? Claro. Como a professora de Literatura que passou todo o encontro no WhatsApp. Ou o coordenador de departamento que me disse que “nem tinha lido os meus livros nem os iria ler”. Dois casos em quatro anos é, no mínimo, una estatística raquítica.

Sobretudo se os comparo com os demais docentes (500? 600?) que terei conhecido neste tempo e dos quais não só fiquei com uma magnífica recordação, como também aprendi técnicas, estratégias e modos de fomentar a paixão pela leitura.

Dizem-nos que não se pode educar sem emoção. E estou de acordo. O que não nos contam é que essa emoção está nas nossas aulas. É a que leio nos olhos desses docentes que me agradecem a menção dos seus alunos.

Só quando queres a alguém te perguntas o que fazer para o animar. Para lhe dizer que continue a esforçar-se. Para que saiba que te importa. Por isso, apesar de tudo, continuamos a pôr o nosso coração nas aulas. Porque não saberíamos fazê-lo de outra forma.

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Geringonças e salários mínimos

geringoncaEm Espanha, o governo socialista concretiza entendimentos políticos à esquerda para aumentar o salário mínimo em 22%. Por cá, o governo PS refugia-se na posição dos “parceiros”, leia-se, representantes do patronato, para não ir além de 3,5%. Uma esmola de 20 euros mensais, e na condição de se portarem bem…

Vieira da Silva, ministro do Trabalho e da Segurança Social, não diz “não” a um aumento do valor do salário mínimo acima dos 600 euros. Em entrevista à Antena 1 (acesso livre), admite que o Governo tem “vontade política”, para que o salário mínimo vá além daquela fasquia, garantindo que é um tema que é analisado. Mas diz também que uma medida nesse sentido não pode ser garantida contra a vontade dos parceiros.

O governo espanhol vai aumentar o salário mínimo dos atuais 735,90 (pago em 14 meses ou 858,55 em 12 meses) para os 900 euros. A medida foi acordada entre um dos partidos que sustenta o executivo espanhol, o Unidos Podemos, e o PSOE, que compõe o governo, e está espelhada num documento de 50 páginas com importantes reformas para o Orçamento de Estado espanhol de 2019.

Músicas de Verão: Mimmo Mirabelli – Despacito

A esquerda podemita e a direita bonifácia

moradiaA recente compra de uma moradia com piscina e jardim por Pablo Iglesias, líder do Podemos (o equivalente espanhol do Bloco de Esquerda português) e pela sua companheira, também dirigente do partido, levantou alguma polémica no país vizinho: podem ser levados a sério dirigentes políticos de esquerda, que defendem políticas de igualdade e justiça social, em defesa dos mais desfavorecidos, ao mesmo tempo que, em privado, fazem vida de ricos?

O tema é sempre tentador do ponto de vista da direita, e entre nós foi Fátima Bonifácio que não resistiu a explorar a contradição entre os políticos que falam para os pobres mas querem viver como os ricos. Contudo, o argumentário moralista que se tentou montar em torno deste episódio tem óbvias limitações, como a própria acaba por reconhecer.

O caso, em si mesmo, não vale nada: convenhamos que 600.000 euros não chega a ser dinheiro a sério, que no mercado imobiliário de hoje em dia se cifra em valores muito acima de um milhão. O casal Iglesias ambicionou mais do que um vulgar apartamento, quis um lar como deve ser, uma casinha com jardim e piscina. Por aquele preço, a casinha com jardim e piscina é necessariamente modesta e por certo edificada numa qualquer Picheleira dos arredores de Madrid.

Mas constitui sem dúvida uma muito ofensiva imodéstia aos olhos dos que vivem em habitações pobres e exíguas, numa espécie de lúgubres vãos de escada, em bairros sociais periféricos e de má construção. Estes são aos montes, e é para estes que Iglesias fala, é a estes que Iglesias promete salvação. Mas enquanto os não salva, trata de se salvar a si mesmo.

A análise destas contradições entre o modelo de sociedade que os partidos de esquerda defendem e as formas de vida, gostos e ambições pessoais dos seus líderes políticos parte muitas vezes da percepção de que um líder dos pobres tem de ser pobre e assim permanecer , pois qualquer melhoria do seu nível de vida representa uma “traição” ao povo que representa e aos ideais que defende. Uma ideia errada, porque tem subjacente a falsa noção de que o socialismo e as políticas colectivistas e redistributivas, que os socialistas defendem, se destinam a universalizar a pobreza e a miséria. Pelo contrário: trata-se de distribuir melhor, por todos, a riqueza produzida.

Não há nada de mal em que Iglesias queira proporcionar à sua família uma moradia confortável, uma opção de vida que partilhará com milhões de espanhóis. Irá pagá-la com um empréstimo bancário que certamente consumirá uma boa parte dos seus rendimentos ao longo das próximas décadas. Outros contentar-se-ão em viver num apartamento menos dispendioso, ficando com mais dinheiro para gastar em coisas que consideram mais importantes. Desde que ganhe o suficiente, não apenas para sobreviver, mas para viver com dignidade – isto sim, é um ideal de esquerda -, cada um faz as suas opções livremente, de acordo com os seus interesses e prioridades.

Outra coisa que à direita por vezes se desentende é que há uma diferença fundamental entre os luxos de outros tempos e os que hoje estarão ao alcance de quase todos. A riqueza dos privilegiados de outrora só era possível à custa da exploração e da miséria da grande maioria. Ainda há menos de duzentos anos, até o liberal Almeida Garrett se interrogava acerca de quantos pobres era preciso sacrificar para se fazer um rico…

Pelo contrário, nas sociedades pós-industriais em que hoje vivemos, ter uma casa confortável e bem equipada, um ou dois automóveis na garagem ou hábitos de consumo mais ou menos sofisticados, não é algo que prive, necessariamente, outros cidadãos de conseguir as mesmas coisas. Pelo contrário, o consumo em massa das classes médias gera emprego do lado da produção, alargando o universo de consumidores.

A compra da casa de Iglesias não impedirá outros de fazerem semelhantes aquisições. Antes pelo contrário, irá estimular a construção, a venda, o arrendamento deste tipo de propriedades. Assim como das casas que entretanto ficarão devolutas e que serão recolocadas no mercado. Se forem devidamente controladas as tendências especulativas, o sector da habitação é dos que tem maior capacidade, não só de melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas também de estimular, de uma forma global e sustentada, o crescimento da economia.

Não é preciso ser pobre para se ser convictamente de esquerda, nem os ricos estão condenados a reproduzir os estereótipos mentais e sociais da classe dominante. Melhorar a sua condição económica ou a sua instrução não transforma ninguém em traidor da classe de origem. O que faz a diferença, para o cidadão bem sucedido na vida, é ter vontade de lutar por uma sociedade em que todos possam, tal como ele, aceder à fruição dos bens materiais e culturais ou, pelo contrário, querer reservar esse privilégio a uma elite económica e social à qual passou a pertencer. É sobretudo por aqui que passa, no século XXI, a diferença entre ser de esquerda ou ser de direita.

O novo governo de Espanha

pedro-duque.JPGA formação do novo governo espanhol, do socialista Pedro Sánchez, está a despertar curiosidade e interesse. Por várias razões. Uma delas, por ser um governo maioritariamente feminino – onze dos quinze ministros são mulheres – algo que se saúda, e que só estávamos habituados a ver nalguns países nórdicos.

Quanto aos professores espanhóis que frequentam o Twitter, fartos do eduquês de direita que tem contaminado, por lá, as políticas educativas, começam também a dar a conhecer as suas expectativas, sobretudo depois de se saber que o Ministro da Ciência será Pedro Duque, um engenheiro aeronáutico e astronauta – participou em missões da Agência Espacial Europeia – que é também um activo defensor da cultura científica e um opositor das pseudo-ciências.

O novo Ministro da Ciência demonstrou sempre a sua oposição às pseudo-ciências, terapias alternativas e charlatanice em geral. Espero o mesmo da nova Ministra de Educação.

A verdade é que há uma tendência universal para valorizar mais a ciência quando está em causa a nossa saúde, ou a qualidade das tecnologias que usamos diariamente, do que quando está em jogo a educação dos nossos filhos..

Vem aí a geringonça espanhola

sanchez-rajoy.jpgEstá confirmada a queda do atual Governo espanhol, liderado por Mariano Rajoy, após a aprovação de uma moção de censura. Assim, o próximo primeiro-ministro de Espanha será Pedro Sánchez, líder do PSOE, que promoveu a iniciativa.

Apesar de apenas ter 84 dos 350 deputados do parlamento espanhol, o partido socialista (PSOE) conseguiu reunir o apoio de 180 deputados, incluindo os do Unidos Podemos (Extrema-esquerda, 67), da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, separatistas, 9), do Partido Democrático e Europeu da Catalunha (PDeCAT, separatistas, 8), do Partido Nacionalista Basco (PNV, 5), do Compromís (nacionalistas valencianos, 4), do EH Bildu (separatista basco, 2), e da Nueva Canarias (nacionalista, 1).

Com a nomeação do líder do PSOE como próximo primeiro-ministro, prevista já para segunda-feira, Espanha realiza uma experiência política até agora inédita desde a instauração da democracia: a queda do governo em funções como resultado de uma moção de censura e a chamada ao poder do partido que “perdeu” as últimas eleições.

Tal como sucedeu em Portugal em 2015, será oportunidade de melhor se perceber, em Espanha, que as eleições não se fazem para escolher governos, mas para eleger deputados. E que ganhar as eleições significa apenas estar mais bem posicionado do que os adversários políticos para obter uma maioria parlamentar que possa suportar o governo que vier a formar-se.

Com apenas 24% dos assentos parlamentares, o PSOE estará numa posição ainda mais frágil, perante os seus aliados nas Cortes, do que o PS português face ao BE e ao PCP. Pelo que a instabilidade política poderá, para o futuro governo, ser uma ameaça permanente. O que leva algumas forças políticas e comentadores a reclamar, desde já, a clarificação política que resultaria – ou não! – da realização de eleições antecipadas.

Quanto ao PP e a Mariano Rajoy, desgastados por sucessivos casos de corrupção e pelo clima de permanente tensão em que têm governado a Espanha, que culminou na forma inábil e na reacção desproporcionada com que enfrentaram o independentismo catalão, o afastamento do poder seria já apenas uma questão de tempo.

No momento da despedida e da passagem de testemunho, Rajoy, um político geralmente desagradável e arrogante, consegue ainda assim manter um nível de elevação moral e política que o ressabiado Passos Coelho, ainda hoje convencido de que “ganhou” as eleições de 2015, nunca conseguiu igualar:

Foi uma honra ser presidente do governo de Espanha, foi uma honra deixar uma Espanha melhor do que a que encontrei. […]

Oxalá que o meu substituto possa, um dia, dizer o mesmo. É o que desejo, pelo bem da Espanha. Creio que cumpri com o mandato político que me foi investido, o de servir a vida das pessoas. Se alguém se sentiu prejudicado por esta Câmara ou fora dela, peço desculpa. Obrigado a todos e especialmente ao meu grupo parlamentar. Obrigado aos espanhóis por me compreenderem e apoiarem, e desejo boa sorte a todos pelo bem de Espanha.

A Manada

Cinco jovens foram condenados a nove anos de prisão por abuso, não por agressão sexual. Um juiz queria a absolvição já que nos vídeos a vítima tinha uma expressão “relaxada”.

Os factos, sucedidos em Espanha em 2016 e dados como provados, contam-se em poucas palavras. Um grupo de cinco homens, que apropriadamente se chamavam a si próprios a “Manada”, rodearam uma jovem de 18 anos que tinham conhecido minutos antes, levaram-na para um local isolado e forçaram-na à prática de relações sexuais. A rapariga, perante a esmagadora superioridade física dos homens, ficou em choque, incapaz de resistir. Fechou os olhos e esperou que tudo acabasse o mais depressa possível.

Tratou-se de uma violação colectiva, como facilmente se percebe. Mas, para o tribunal que julgou o caso, foi apenas abuso sexual. E apesar de a sentença de nove anos de cadeia, mais o pagamento de indemnizações, não ter sido propriamente branda – em Portugal, talvez se safassem com uma pena suspensa – a decisão está a indignar a sociedade espanhola, tendo gerado manifestações de protesto nas principais cidades e uma onda de repúdio pela sentença e de solidariedade com a vítima encheu as redes sociais.

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No entanto, a decisão judicial não foi unânime entre os juízes:

Um deles defendia a absolvição, alegando que, nos vídeos que eles gravaram com o telemóvel, a expressão do rosto da vítima era “relaxada e descontraída” e por isso “incompatível com qualquer sentimento de medo, rejeição ou recusa” e que “os seus gestos e sons sugerem prazer”.

Este juiz matarruano é um bom exemplo do machismo e da insensibilidade atroz que infelizmente continua a marcar presença entre a magistratura. Passou-se em Espanha, mas também por cá temos alguns juízes dispostos, em casos deste tipo, em tornarem-se acusadores das vítimas, como se fossem elas que estivessem a ser julgadas. Nestas situações, como alguém comentou no Twitter, a mensagem que o sistema judicial continua a passar é,

Tinhas de ter fechado as pernas;
de ter resistido mais;
de ter gritado.
Morta, acreditaríamos em ti.
São rapazes, estavam a brincar.
A culpa é tua, mulher!

A dimensão avassaladora do movimento de repúdio e revolta que esta decisão está a ter em Espanha mostra que a sociedade espanhola já não se revê nesta justiça e nestes juízes. E isso alimenta a esperança de uma revisão da sentença, com a inevitável apreciação do caso por um tribunal superior.