Protestos de alunos e professores demitem directora

ies-lebrija.pngO caso sucedeu em Espanha, numa escola de Lebrija, pequena cidade da Andaluzia: professores e alunos uniram-se para protestar publicamente contra a directora, acusada de manter uma atitude laxista perante a indisciplina de alguns alunos e as agressões de que foi vítima um professor da escola.

Os protestos, que se mantiveram durante vários dias, culminaram anteontem com o pedido de demissão da directora, que reconheceu finalmente não ter condições para continuar à frente do estabelecimento de ensino.

Os incidentes surgiram com uma turma de um curso profissional, onde alguns alunos agrediram o professor de Carpintaria com um pedaço de madeira, o que motivou tanto a manifestação solidária da quase totalidade do corpo docente da escola como o protesto dos alunos contra a falta de actuação adequada por parte da direcção.

Ao que parece, em vez de prevenir e punir adequadamente este tipo de incidentes, a directora preferia instigar os pais a que denunciassem os professores que “insultavam” os alunos. Quanto aos docentes, deixaram claro, na sua tomada de posição colectiva, que o protesto se deveu:

…às contínuas atitudes de desconsideração, ofensas, resistência activa, coacções, humilhações e condutas disruptivas que vêm tendo desde o início do presente ano os alunos do segundo curso de FPB de Carpintaria contra o seu tutor e a equipa docente».

E a finalizar, permitam-me a pergunta, e desculpem a pequena provocação: por cá, quantos excelentíssimos colegas estariam dispostos a agir da mesma forma em defesa de um colega e da dignidade da nossa profissão?…

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Segue a Constituição, filha!…

Que enquanto ela existir terás emprego para a vida…

felipeVIisabel.jpg

O rei de Espanha assinalou hoje os seus 50 anos atribuindo a mais alta condecoração do reino à sua filha herdeira, Leonor, de 12 anos, aconselhando-a, na cerimónia, a “guiar-se em permanência pela Constituição” espanhola, “cumprindo-a e respeitando-a”.

Um porta-voz do Palácio real de Espanha classificou o evento de hoje como “um ato de importância histórica para o rei [Felipe VI] e para a princesa herdeira”. A Ordem do Tosão de Ouro é a mais elevada ordem honorífica de Espanha, e remonta a 1430.

O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy (PP, direita conservadora, no poder), considerou que o ato constitui uma forma de sublinhar “a vontade de permanência da monarquia parlamentar em Espanha.

A cerimónia teve lugar em pleno conflito político entre os independentistas catalães e os constitucionalistas da Catalunha e do resto de Espanha.

A culpa é dos professores

nando-lopez.JPGFalta-lhes formação.

Falta-lhes motivação.

Faltam-lhes ganas.

Poderíamos falar das reformas supostamente educativas que se foram sucedendo, sem ordem nem consenso, nos últimos anos. Do investimento insuficiente – e pior ainda, decrescente – em educação. De aulas massificadas e do aumento de horas lectivas. Da redução salarial e da deterioração das condições laborais dos docentes.

Mas para quê? A culpa é dos professores!

Poderíamos falar dos quilómetros que faz diariamente a maioria dos docentes da escola pública. Dos que têm de mudar de casa e fazer malabarismos com o salário para poderem trabalhar onde foram colocados. Da instabilidade dos quadros, de onde resulta quase impossível formar equipas. Da situação precária de tantos professores. De matérias afins sem afinidade alguma. De baixas de docentes a aguardar substituição. De professores obrigados a dar aulas em mais de uma escola. De como a maioria das actividades em escolas básicas e secundárias funciona, sem recompensa alguma, graças à boa vontade de uns quantos.

Nada disso importa. A culpa é dos professores.

Poderíamos falar de segregação nas nossas aulas. De escolas que se estão a converter em guetos. De falta de investimentos e de apoios. De provas externas e currículos desfasados. Do pouco valorizados que se sentem muitos docentes. Da indisciplina nas aulas.

Não digas tolices. A culpa é dos professores.

Poderíamos falar, sentarmo-nos de uma vez por todas a falar sobre a vida real nas salas de aula. E abordar o problema juntos: docentes, fartos de não ser escutados; famílias, cansadas de se sentirem invisíveis; alunos, a quem se nega o protagonismo da sua própria educação. Mas resulta muito mais cómodo procurar um inimigo único – se possível, sempre o mesmo – e lançar contra ele as farpas habituais – o que felizmente já não nos surpreende: os docentes que não estão preparados, que – por muitos cursos que façam ou métodos que experimentem – não se reciclam, que não vão para as aulas motivados (porque, como é óbvio, nas outras profissões toda a gente vai trabalhar feliz, sem um dia mau e por amor à arte).

Poderíamos procurar – e mais, deveríamos fazê-lo – o caminho para um verdadeiro pacto educativo. Mas é impossível conseguir pacto algum sem descer à realidade da sala de aula. E afinal, para quê fazer esse esforço quando o diagnóstico é tão óbvio:

A culpa é dos professores!

Tradução livre e adaptação, com algumas supressões, de um texto de Fernando López, escritor e professor universitário espanhol. Uma leitura que recomendo, não só pela acutilância das ideias e a qualidade da escrita mas também porque nos ajuda a compreender que o desinvestimento na educação e a agenda anti-professores ultrapassam fronteiras e inclinações políticas.

Maré humana nas ruas de Bilbau

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Notícias destas raramente chegam à imprensa portuguesa, e levar-nos-ia longe a tentativa de perceber as razões deste silenciamento selectivo, entre nós, de muito do que se passa no país vizinho.

Perto de cem mil pessoas – 95 mil segundo a organização, 70 mil de acordo com a polícia – desfilaram hoje em Bilbau, à chuva e ao frio, exigindo o fim da política de dispersão dos cerca de 300 presos condenados por delitos relacionados com as actividades terroristas da ETA.

Estes presos estão espalhados por cadeias situadas a distâncias entre 400 e mil quilómetros do país basco, obrigando os familiares dos condenados, incluindo em muitos casos crianças, a fazer longas viagens todos os fins de semana para poderem visitar os presos. É uma política prisional que honra os velhos tempos do franquismo, assente no ódio e na vingança, que castiga inocentes e é indigna de um país democrático e respeitador dos direitos humanos. Em França, o governo de Macron tinha já anunciado, perante os protestos, que os presos bascos que cumprem pena em cadeias francesas serão recolocados em prisões próximas da fronteira espanhola.

O terrorismo etarra pertence já ao passado, mas parece haver quem se obstine, no governo do Partido Popular, em alimentar ódios e ressentimentos que podem vir a atear novos conflitos separatistas no futuro. Aliás, e não por acaso, os presos políticos catalães foram também lembrados pelos manifestantes. A sua reclusão é também um preocupante sinal do evidente esgotamento político do governo do PP. Mas poderá representar também algo de ainda mais profundo e preocupante: a incapacidade do actual regime de Madrid em construir os necessários consensos sociais e políticos numa Espanha cada vez mais fragmentada e desunida.

Um Natal fascista

franquismo.JPGFoi há oitenta anos o Natal mais sangrento da história de Cáceres. A 25 de Dezembro de 1937, em plena Guerra Civil de Espanha, as forças nacionalistas que dominavam a cidade celebraram o Natal fuzilando 34 prisioneiros. Entre estes, professores, sindicalistas, militantes de partidos democráticos e titulares de cargos públicos, incluindo o alcaide da cidade.

Não se tratou de um acto de guerra ou uma acção de represálias contra um atentado eminente, como os assassinos alegaram na altura, pois a província estava controlada pelos Nacionalistas há mais de um ano. O massacre natalício continuou nos dias seguintes, vitimando um total de 196 pessoas.

Quanto à Igreja Católica, nem os princípios cristãos também invocados pelos revoltosos nacionalistas, nem o simbolismo da data, levaram os seus responsáveis a interceder a favor das vítimas. A única coisa que as autoridades religiosas fizeram foi pedir que aos condenados fosse ministrada a extrema-unção.

De Juan Doncel, fuzilado em Malpartida de Cáceres, ficou a curta e emotiva missiva que deixou à família:

Escrevo à minha esposa e filhos para me despedir deles. Não duvideis da conduta do vosso pai, que sempre foi bom, honrado e trabalhador. Juro-vos pelas cinzas do meu pai. Querida esposa, terás agora, com a ajuda dos nossos filhos, de ganhar o pão de cada dia. Do que temos, tu disporás. Que mais vos vou dizer? Tenho tantas coisas na ideia que não consigo dizer mais nada. Um adeus para todos, para ti Josefa e Maria, Vítor, Dionísia, Rafael, Luísa, o meu Afonso e a minha Antonita, tão pequeninos e sem pai. Lembranças à minha irmã e a todos em geral. Despede-se o teu esposo para sempre. Adeus a todos.

Josefa não viveu para sustentar os filhos. Foi também fuzilada passados alguns dias. Os filhos foram encaminhados para orfanatos, tal como sucedeu a milhares de crianças órfãs cujos pais foram vítimas do franquismo.

Do Pacto Educativo

pacto-educativo.JPGNo rescaldo dos resultados insatisfatórios dos PIRLS vai voltar a falar-se, certamente, da necessidade de um pacto educativo. Pois está visto que o fazer e desfazer, cada vez que há um novo governo, de políticas que deveriam ser estruturantes e pensadas a longo prazo, não produz grandes resultados.

O problema destas coisas é que os entendimentos de regime, na Educação, se fazem geralmente contra as escolas e os professores e nem sequer colocam em primeiro lugar os interesses dos alunos.

Mas não é só por cá que as coisas funcionam assim. Aqui ao lado, Espanha também não está satisfeita com os resultados, idênticos aos nossos, obtidos nos testes internacionais de leitura. E quando se preparam para discutir um pacto de regime tendo em vista a introdução de reformas no sistema educativo, os professores mais atentos mostram abertamente o seu cepticismo. E não se coíbem de fazer as perguntas incómodas:

Nas reformas educativas deste país, consultam e implicam o docente? Não.
Consideram-nos os especialistas? Não.
Têm em conta as nossas necessidades e direitos? Não.
Procuram favorecer o aluno sem repercutir negativamente nas nossas condições de trabalho? Não.
Não há mais perguntas.

Resposta certa, errada ou assim-assim?

O exercício era simples, até para uma criança de sete anos: escrever usando algarismos números escritos por extenso.

E o miúdo sabia fazê-lo, como se depreende pelas respostas que deu. No entanto, a sua “interpretação” da pergunta foi diferente do que era pretendido pela professora, que considerou as respostas erradas. Mas o pai da criança teve dúvidas e acabou, como conta o DN, por colocar o assunto à consideração superior. No Twitter…

Será que a expressão “os seguintes números” pode entender-se como “os números seguintes”?

Será a pergunta suficientemente ambígua para permitir a possibilidade de responder de duas formas diferentes, ambas correctas?

Deveria a professora valorizar a capacidade de raciocínio do aluno e considerar certo o exercício?

Ou estamos precisamente perante um raciocínio incorrecto, que induziu o aluno em erro, embora acabando a fazer algo até mais difícil do que o pedido?

Ou ainda: o que temos aqui é uma expressão de criatividade, algo que a escola deve valorizar e estimular nos alunos, ou já o embrião de um vício demasiado frequente nos adultos, a mania de complicar?

Como se vê, são mais importantes as dúvidas e as reflexões que este caso suscita – o tweet original tem já mais de cinco mil respostas – do que a resposta definitiva para a questão colocada.

Em todo o caso, e se quisermos uma posição que possa servir de voto de qualidade, talvez o tweet da Real Academia Española, instada a pronunciar-se, possa servir a esse fim. Os académicos não têm dúvidas: “tal como está redigido o exercício, a interpretação natural é que se escrevam com algarismos os números que se citam a seguir“. E não haveria, pergunta ainda alguém, uma forma mais clara de colocar a questão? Sim, responde a Academia, o mais claro seria escrever “estes números”.

Entretanto Ignacio Bárcena, o pai da criança, perante a repercussão de um tweet que rapidamente se converteu num quase julgamento público da professora do seu filho, sentiu também a necessidade de esclarecer: da sua parte, foi apenas uma brincadeira. E gosta muito da professora do seu filho.