Aumentam as desigualdades, faltam os professores

Sucedem-se os factos. Ao aumento brutal das desigualdades educativas, associou-se a crescente falta de professores. A novidade, ou a tempestade perfeita, é que os dois fenómenos cresceram paralelamente, em consequência do desinvestimento na escola pública e na valorização social e profissional dos professores.

É fundamental debater as causas e encontrar soluções.

Mas antes do mais, recorde-se que a massificação escolar no Ocidente conseguiu uma escolarização quase plena nos primeiros nove anos de escolaridade. Os países que mais avançaram, fizeram-no sem turmas numerosas, sem educação a tempo inteiro na escola, com currículos completos, com avaliação contínua e exigente e com confiança nos professores. Digamos que foi o quadro da transição para a democratização. O que agora se regista, é a queda desses pilares da prosperidade.

E para a compreensão da descida, é crucial estudar as teses de Daniel Markovits e Michael Sandel muito críticas da armadilha meritocrática, ou “tirania do mérito”, que travou a fundo o elevador social. No fundamental, os autores explicam como o investimento financeiro na educação se sobrepôs ao talento e ao esforço e originou, com efeito de bola de neve, um fosso crescente entre os ricos e as restantes classes sociais.

Num texto rico e reflexivo, ao estilo a que já nos habituou, Paulo Prudêncio analisa as causas da crise e do declínio dos sistemas educativos que, em Portugal e um pouco por todo o mundo, estamos a viver. No blogue Correntes e também, tentando alcançar um público mais vasto com interesse nos temas educativos, nas páginas do Público.

Certeiramente, começa por recordar um facto insofismável: foi a escola do século XX, hoje tão criticada, que alcançou esse enorme sucesso que é a escolarização universal, erradicando o analfabetismo e pondo em andamento o melhor elevador social: o que dá a todos a oportunidade de se instruírem, de usufruírem plenamente dos direitos de cidadania, de acederem a profissões que até aí lhes estavam vedadas.

Já da escola do século XXI, temos visto muito foguetório e palavrório, mas os resultados escasseiam: uma busca desesperada por soluções imediatas, baratas e facilitistas, uma ilusão com o digital, como se pudéssemos pôr as máquinas a pensar por nós, um desprezo pelos “conhecimentos inúteis”, como se as “competências” que pudessem construir no vazio. Não temos “melhores aprendizagens” nem alunos mais motivados do que no passado; em contrapartida, as desigualdades educativas estão a aumentar, persiste o mal-estar docente e a falta de professores denota a falta de atractividade da profissão.

Ideias que Paulo Prudêncio articula e desenvolve num texto a merecer leitura integral.

Escolas públicas preparam melhor para a Universidade

Um estudante formado numa escola secundária pública tem 63% mais probabilidades de obter boas notas na Universidade Complutense de Madrid do que um estudante que vem de uma escola privada (subsidiada ou não). Esta é a conclusão a que chegaram os investigadores María Fernández Mellizo-Soto e Alexander Constante num artigo baseado em dados sobre as cadeiras em que foram aprovados 8.660 estudantes inscritos no primeiro ano da sua licenciatura que concluíram o ensino secundário no ano académico 2017/2018. Mas os dados da Complutense, que cruza todo o tipo de indicadores, não são isolados e podem ser extrapolados para outras universidades públicas em Espanha. Num estudo posterior, Análisis del abandono de los estudiantes de grado en las universidades presenciales en España (2021), Fernández Mellizo-Soto concluiu novamente o mesmo para os 240.500 estudantes do primeiro ano matriculados em 2015-2016, embora nesse caso a professora de Sociologia Aplicada não tenha estabelecido um modelo, porque a solicitação do Ministério das Universidades se concentrou no número de estudantes que tinham deixado o ensino superior quatro anos mais tarde.

O elemento que mais determina o desempenho de um estudante universitário em Espanha é a nota com que ele ou ela entrou no curso de licenciatura, mas também é influenciado pelo facto de ter sido a primeira opção escolhida ou pelo género (as mulheres inscrevem-se em mais disciplinas e passam mais). Na Complutense, a probabilidade mais baixa de ter um bom desempenho (13%) é para um homem que obteve um 5 (em 10), estudou numa escola secundária privada e cuja família não vive em Madrid.

“Os alunos das escolas públicas têm melhor desempenho do que os das escolas privadas quando têm a mesma nota na EBAU [Evaluación del Bachillerato para el Acceso a la Universidad]. Colocámos então três hipóteses que ainda não foram provadas”, explica Fernández Mellizo-Soto, uma economista por formação. “Pode ser que o ensino seja de melhor qualidade [na escola pública]; ou que os da privada tenham dificuldade em adaptar-se à universidade, porque no colégio os professores andaram muito em cima deles e na universidade é preciso demonstrar outras competências – mais autonomia, mais fazer-se à vida… – que talvez a secundária pública lhe dê”. E aponta uma terceira hipótese: “Pode ser que no sector privado inflacionem as notas para que os alunos entrem em determinados cursos”.

O estudo agora divulgado pela imprensa espanhola confirma as conclusões de uma investigação da Universidade de Porto publicada em 2018: os bons alunos das escolas públicas mostram-se, em média, mais bem preparados para enfrentar as dificuldades e os desafios da universidade do que os provenientes das escolas privadas. Um resultado que pouco varia, sejam estas colégios de elite, ou o ensino privado ao gosto neoliberal, aquele em que as despesas são pagas pelos contribuintes mas os lucros ficam para os donos das escolas.

Estes resultados, que os autores consideram extrapoláveis para o resto de Espanha, assumem um especial significado por terem sido obtidos numa das comunidades autonómicas onde o ensino concertado – escolas privadas com financiamento público – mais tem sido promovido. As políticas neoliberais da presidente Ayuso, subfinanciando as escolas públicas e reduzindo a sua oferta educativa, ao mesmo tempo que promove a expansão das escolas privadas, não estão a melhorar globalmente a qualidade do sistema educativo. Mas promovem a segregação dos públicos escolares e o aumento das desigualdades: num país onde a gestão da Educação está quase inteiramente entregue ao poder regional, a Comunidade de Madrid é presentemente a campeã espanhola da segregação escolar e das desigualdades no acesso à Educação. Só suplantada, no contexto europeu, pela Turquia

A escola pública está sob ataque…

Já pouco do que se vai dizendo e escrevendo sobre Educação desperta interesse: é um facto que todos constatamos, e não é por falta de assuntos pertinentes ou problemas prementes a resolver. A realidade é que o sector está em crise há muito tempo, os diagnósticos estão feitos, mas nada de essencial muda ou se resolve. Pelo contrário: insiste-se no erro e sucedem-se as asneiras.

Os professores, frustrados nas suas expectativas profissionais, estão cansados de denunciar o excesso de trabalho inútil, a burocracia galopante, as turmas numerosas, os programas e currículos insensatos, a indisciplina, o centralismo ministerial temperado por uma “autonomia das escolas” que apenas serve, na prática, para reforçar o poder discricionário dos directores. Resultados? Nenhuns. Foi preciso faltarem professores e ficarem as turmas sem aulas durante meses a fio para que os governantes, a imprensa, os pais e o país percebessem que talvez não sejam só “interesses corporativos” que têm levado os professores a alertar para os problemas e a denunciar o que está mal.

Por todas estas razões, achei interessante e merecedor de alcançar um público mais vasto do que os leitores habituais dos temas educativos o artigo de André Castro Soares no Público. Antropólogo de formação, uma pausa no seu doutoramento levou-o a experimentar a docência numa escola da Grande Lisboa. E a escrever sobre a sua experiência. Ora este olhar da escola por dentro, por parte de alguém vindo de fora, confirma o que há muito é evidente para quem cá anda há mais tempo: a uma profissão já por natureza exigente, não haveria necessidade de juntar tanta burocracia inútil e desgastante. Muito menos menorizar e desprezar os professores que mantêm as escolas a funcionar.

A escola pública está sob ataque, está dividida, desmotivada e sem energia. Os anos de neoliberalismo dos sucessivos governos colocaram a educação num atordoamento tal que só as analogias da guerra e dos bombardeamentos de uma cidade descrevem, infelizmente, o que se está a passar. Os alunos e alunas estão sem professores durante meses e os professores e professoras que concorrem desistem, pois não conseguem lidar com tamanhas requisições. Uma energia que é sugada, não apenas pela aula e sala onde a ligação entre aprendizes e pedagogos acontece, mas pela teia burocrática a que estão votados.

Quando cheguei à Gama Barros e me apresentei, fui dar aulas de língua portuguesa a turmas de 5.º ano (quatro turmas) e uma direcção de turma de 6.º ano, onde tive de leccionar História e Geografia de Portugal e as essenciais aulas de Cidadania e Desenvolvimento. Não basta preparar as aulas e transmitir e discutir os conhecimentos, processo necessariamente colectivo e de diálogo. Tive de aprender a mexer nas plataformas digitais onde se reproduzem tarefas que são replicadas em papel. Muito papel, os papéis, que fazem lembrar a rábula dos Gato Fedorento.

Para além disso, os encarregados de educação, 28 pessoas responsáveis pelo acompanhamento dos alunos e alunas da direcção de turma, também eles 28 seres especiais e únicos, com desejos, angústias, questões, emoções. O pós-pandemia colocou os alunos mais novos em momentos de ansiedade e questionamento que a escola pública não tem possibilidade de acomodar. Precisamos de dar matéria, precisamos de entender as dificuldades de cada um e de cada uma. Em menos de uma semana, vi-me na vida de mais de uma centena de crianças, o futuro do nosso país. Em paralelo, lidar com uma máquina tenebrosa de leis e decretos, de relatórios, credenciais e passwords, emails, reuniões e mais reuniões, a avaliação e os PIMUS (Planos de Implementação de Medidas Universais), mais as adaptações curriculares aos alunos com necessidades específicas… Para tudo a escola pública é convocada sem que o Ministério da Educação entenda que os valores salariais e as carreiras não compensam de todo o esforço e performance a que estão votados os professores e professoras neste país.

A sala de professores da escola onde fui professor por uns meses tem uma média de idades acima dos 50 anos. As jovens e os jovens professores são tão poucos que acabamos por ter uma ligação imediata. Para partilhar a estupefacção, mas também para escutarmos os relatos dos professores mais velhos a braços com uma impotência de uma máquina construída para colocar docentes e discentes como meras roldanas numa máquina de números capaz de dar os resultados que mantenham Bruxelas de que tudo vai bem na educação em Portugal.

Lamento o desabafo, mas não vai tudo bem. Se nada for feito, se não voltarem a escutar aqueles e aquelas que estão há anos a construir gerações e gerações de cidadãos e cidadãs sérias, empresários inovadores, cientistas sagazes, matemáticos e operários e trabalhadores competitivos, o nosso país não tem futuro. E o futuro da nossa economia e sociedade joga-se na escola pública, da qual sou filho, com muito orgulho.

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O governo a matar a escola pública

Das coisas que mais me irrita é ver a classe média e alta, que tem os filhos na escola privada, pedir que lhes devolvam o dinheiro que gastam na educação dos filhos. Porque não lhes serve a escola pública, e como desoneram o Estado desse custo, querem de volta parte dos impostos que pagaram. Irrita-me porque têm o privilégio financeiro de poder escolher a escola dos filhos e argumentam que, com uma qualquer espécie de cheque ensino fornecido pelo Estado, todos poderiam escolher a escola. É tão evidente a mentira que só pode mesmo irritar. E estou muito à vontade nesta matéria porque também tenho as minhas filhas no privado, nada tenho contra o privado, só não quero que me devolvam dinheiro nenhum, porque fui eu que fiz a opção.

Não vou voltar agora a esse debate, porque o que agora me está a irritar mais é o facto de ser um governo socialista que está a matar o ensino público, onde eu gostaria que as minhas filhas entrassem no próximo ano. Temos um ministro que diz com pompa e circunstância que “a despesa por aluno nestes últimos anos tem aumentado muito significativamente”, chegando aos 6200 euros anuais, e não se envergonha da figura que faz. Gasta cada vez mais dinheiro para ter cada vez piores resultados.

Nem sempre concordo com Paulo Baldaia, mas neste caso cumpre dizê-lo: aprecio a objectividade e isenção com que abordou os problemas da Educação, especialmente a degradação da escola pública e a crescente falta de professores. Demarcando-se tanto do egoísmo neoliberal, que quer o Estado a desviar recursos da escola pública para sustentar os privados, como do ministro que não sabe fazer contas e confunde as despesas globais do ministério com o que é gasto directamente com cada aluno da escola pública, Baldaia centra-se numa verdade simples e insofismável: não há educação sem professores. Quando, por incompetência ou desleixo, se permite que alunos possam estar meses a aguardar um professor que tarda em ser colocado, as suas aprendizagens estão a ser prejudicadas e, nalguns casos, irremediavelmente comprometidas.

O ministro que se gaba de gastar cada vez mais dinheiro não está, de facto, a gastá-lo bem. Esbanja-o no acessório – basta ver a sucessão de projectos, planos e propostas de actividades que inundam as escolas ou a abundância de formação neo-eduquesa de escassa ou nula utilidade – permitindo que nunca chegue para o essencial: contratar os professores em falta, estabilizar os quadros docentes das escolas e agrupamentos, dotar as escolas de profissionais especializados que são fundamentais a uma escola que se diz inclusiva – psicólogos, terapeutas, assistentes sociais.

Não basta insistir no primado da escola presencial e no papel central dos professores, cuja importância a pandemia veio sublinhar. É necessário passar das palavras aos actos, recrutando os profissionais necessários, valorizando-os e rentabilizando o seu trabalho. Mas, também aqui, o Governo segue a velha política de apregoar repetidas vezes a mesma coisa, enquanto vai fazendo o seu contrário. Paulo Baldaia denuncia agora uma realidade de que os professores no terreno já se aperceberam há muito tempo.

Leituras: A escola conspira contra o mundo

Um belíssimo texto em defesa da Educação e da escola pública, escrito por Jaime Buedo, um jovem professor espanhol, na forma de uma carta aos seus alunos, finalistas do Secundário em tempo de pandemia. Exemplar este colega, na forma como encara os seus alunos e concebe a sua profissão. Mas nunca ganharia um desses prémios de professores do ano com que as multinacionais da Educação tentam domesticar a profissão docente…

Queridos alunos, queridas alunas:

Penso que é justo que comece por vos felicitar. Hoje chegais ao fim de um caminho que começastes há alguns anos e do qual creio que deveis estar orgulhosos. Um orgulho, certamente, que vos pertence a todos, independentemente de qual tenha sido o vosso percurso específico ao longo deste caminho comum a que chamamos ensino secundário.

Por que deveis estar orgulhosos?

Não vou esconder o facto de que iniciar um discurso lisonjeando o seu público principal é o truque retórico mais antigo que existe. Portanto, lamento dizer-vos que, para demonstrar que as minhas felicitações são rigorosamente honestas e não uma mera estratégia discursiva, não tenho outra escolha senão apelar a uma dessas histórias filosóficas que estais fartos de escutar nas minhas aulas.

Acontece que há mais de dois mil anos, um famoso rei macedónio, Ptolomeu II, quis aprender geometria. Para acrescentar um pouco de contexto, a geometria era uma tendência em moda na civilização grega e os geómetras mais famosos eram praticamente estrelas de rock. Naqueles tempos, o geómetra mais famoso chamava-se Euclides, e tinha escrito um livro muito complicado onde reunia e sistematizava todo o conhecimento geométrico dos gregos até então.

Assim, o famoso monarca agarrou naquele livro, que se intitulava Os Elementos, e dispôs-se a mergulhar em teoremas e demonstrações, quem sabe se para se exibir depois, calculando hipotenusas perante a corte. Aparentemente, o rei não tinha ultrapassado a segunda página quando já exigia a presença do mestre no palácio. “Ei, Euclides, não podes dar-me um truque para que eu possa aprender geometria sem ter de ler este calhamaço?”

O que pensam que Euclides respondeu ao homem mais poderoso da Grécia?

“Meu senhor, em geometria não há atalhos para a realeza”.

Com isto, Euclides quis mostrar ao rei Ptolomeu qual tinha sido a verdadeira descoberta dos gregos: dependendo da condição social com que nascemos, o nosso caminho na vida pode ser mais pesado ou mais leve; pelo contrário, compreender a geometria exige o mesmo de todos nós. Não importa se é o rei da Macedónia ou uma jovem de Usera, porque quando se trata de aprender o teorema de Pitágoras, os mesmos passos devem ser dados pelos filhos de uma dinastia imperial e pelos filhos de um humilde camponês.

E o que foi dito sobre este teorema deve também ser dito sobre a Lei da Gravitação Universal, as descobertas arqueológicas de Atapuerca, o imperativo categórico de Kant, ou os poemas de Garcia Lorca. O fascinante do episódio de Euclides é que ele nos mostra como o teorema de Pitágoras, que todos conhecem, não só exige que o quadrado da hipotenusa seja a soma do quadrado dos catetos; mas ao mesmo tempo exige, com a mesma necessidade, a existência de uma escola pública. E exige-o porque o conhecimento científico e humanístico constitui uma riqueza comum que não pode ser apropriada com dinheiro ou privilégios, mas só é acessível através do uso da razão. O único caminho aqui, portanto, é o da curiosidade, do esforço e do estudo.

Espero, pois, que estejais orgulhosos, porque o caminho que percorreram aqui é o mesmo que Euclides exigia ao rei Ptolomeu; o mesmo que a humanidade levou séculos a conquistar. E por isso, merecem todo o meu reconhecimento, para além dos vossos resultados concretos, pelo simples facto de terem decidido percorrer este caminho. Com isso contribuíram, tenham consciência disso ou não, para preservar a única vacina que conhecemos até agora contra a tirania, o abuso de poder e as desigualdades sociais: o acesso público ao conhecimento.

Por outro lado, creio que deveis estar orgulhosos porque o último ano não vos facilitou a vida. Calhou-vos terminar o Secundário num contexto de pandemia mundial, de crise económica galopante e de mudanças que transformaram a vida quotidiana num filme de ficção científica. Chegais ao fim desta etapa num momento em que o mundo vos mostra os dentes. Não posso esconder a minha indignação por ver como os media utilizaram o rótulo de “os jovens” para fazer de vós o símbolo da cidadania irresponsável; ao mesmo tempo que fui testemunha diária da força com que assumiram a privação do contacto com os seus pares, do direito a verem-se as caras e mesmo do calor no Inverno.

A esses rostos, que agora só posso ver do nariz para cima, gostaria também de expressar os meus sinceros agradecimentos. Não vos surpreenderá saber que esses rostos, os vossos rostos, foram os primeiros a que, há três anos atrás, pude chamar “meus alunos”. E foram esses rostos, olhando para mim do outro lado da sala de aula, que pela primeira vez se dirigiram a mim como “professor”. É inevitável, portanto, reconhecer que em muitos aspectos foram vocês que me ensinaram, e por isso vos ficarei eternamente grato.

Eu tinha proposto chegar ao fim deste discurso evitando qualquer tipo de conselho para o futuro. Não vos vou mentir: o futuro é um tempo verbal que hoje é difícil de conjugar.

Gostaria de vos poder dizer, aproveitando a história de Euclides, que um mundo geométrico vos espera, onde a igualdade entre hipotenusas e catetos se traduz em igualdade entre mulheres, homens, classes e povos. Mas a verdade é que saís para um mundo que conspira contra a geometria.

Gostaria de vos ter dito que saís para um mundo belo, como o amor é belo em Garcilaso, como a Lua é bela em García Lorca, mas a verdade é que saís para um mundo que conspira contra a beleza, contra o amor e mesmo contra a Lua.

Finalmente, queridos alunos, porque vão para um mundo que conspira, lembrem-se da escola; pois ainda assim, felizmente, a escola conspira contra o mundo.

Jaime Buedo

Jornalismo preconceituoso e mentiroso

Na turma do meu filho, a última semana de maio foi vivida num ambiente de fim de ano. Segunda-feira, dia 31, as aulas deveriam ter começado às 8:15 horas e terminado às 16:00 horas. Às 9:30 , o meu filho chegou a casa com a boa notícia – julga ele – de que as aulas estavam terminadas. Todos os professores que deveriam dar as aulas entre as 9:30 e as 16:00 avisaram que não iam aparecer. Alguns deles já avisaram mesmo que por este ano a coisa está feita. Não voltam mais à sala de aulas...

O jornal só se publica online, e chama-se Observador. A cronista é Raquel Abecasis, uma senhora que já foi, não sei se ainda é, jornalista, já foi candidata autárquica pelo CDS/PP e assume agora o conveniente papel de mãe de família, preocupada com a educação do seu filho, na desprezível tarefa de atacar, recorrendo a mentiras e falsidades, a escola pública. Ao contrário do habitual, não coloquei o link para a crónica mentirosa, escondida atrás de uma paywall.

O calendário escolar em vigor prolonga-se, no caso do 10.º ano, até ao dia 23 de Junho. Está em vigor em todas as escolas, públicas e privadas, do país. Como é possível que os professores de alguma escola decidam que não vão dar mais aulas neste ano lectivo? Saberá a cronista que essa não é uma decisão que deles dependa? Que na função pública as faltas são sempre justificadas, sob pena de, além de penalizações no vencimento e no tempo de serviço, poderem originar processos disciplinares? Terá consciência, a cronista caluniosa e incendiária, da gravidade das insinuações que está a formular? Que escola é essa, afinal, onde se decide acabar as aulas quatro semanas mais cedo do que está estipulado? Se a informação que apresenta é factual, porque não identifica a escola, explorando aquilo que seria, se fosse verdade, um verdadeiro furo jornalístico?

Este jornalismo de sarjeta, manipulatório e tendencioso, disfarça mal o projecto político e ideológico de direita que originou o Observador. O preconceito contra a escola pública e pela promoção do ensino privado sempre lá estiveram, mas havia até agora um pouco de pudor e uma tentativa de manter alguma elevação moral na forma como defendiam as suas convicções. Neste momento parece valer tudo, até a desinformação e a mentira pura e simples para descredibilizar a escola pública. E quando assim é, há uma opção clara a assumir em relação a um pseudo-jornalismo deste calibre: enquanto a linha editorial dos observadores for esta, não voltarei a divulgar ou a comentar por aqui os comentadores do pasquim.

O péssimo serviço dos rankings

O Ranking das Escolas Públicas é um péssimo serviço prestado ao país. E mostra bem o mundo em que vivemos: temos dados, tecnologia, informação, mas não retiramos os ensinamentos desses dados, não os usamos para melhorar e pura e simplesmente consideramos que os dados organizados de uma determinada forma são um caminho. Não são. São antes um enorme engano.

A Escola Pública é um grande objetivo civilizacional. Não se mede por rankings anuais ou por médias de exames. A Escola não pode ser avaliada por uma métrica de curto prazo, assim como a ciência não se pode medir pelos artigos publicados, ou pelas citações num determinado momento. Os objetivos são de longo prazo e têm a ver com o impacto global e sustentado na nossa sociedade, na forma como vivemos e no caminho que queremos fazer como civilização. Desmerecer a Escola Pública com este tipo de avaliações é lutar contra nós próprios;

No entanto, os dados mostram que há coisas a fazer e a alterar. E isso os números dizem com clareza, pelo que é desesperante que quase 50 anos depois do 25 de Abril o país continue preso a processos ineficazes, atrasos de todo o tipo, questões ideológicas inaceitáveis, falta de clareza, falta de eficácia, problemas de organização e ausência de compromissos claros que impedem a Escola Pública de cumprir melhor os seus muito nobres e essenciais objetivos…

Por entre as vulgaridades e lugares comuns que se repetem, ano após ano, na sequência da divulgação dos rankings, sabe bem encontrar, na imprensa dita de referência, uma ou outra reflexão verdadeiramente interessante, original e pertinente.

É o caso desta prosa do professor Norberto Pires, que começa por colocar a questão no ponto essencial. Nunca dispusemos de tanta informação acerca de tudo, nem de tanta diversidade de meios para a obter e divulgar. E no entanto, persistimos na ideia absurda de pretender avaliar a qualidade das escolas e do sistema educativo a partir de um indicador tão pobre e limitado como são as médias de resultados dos exames nacionais.

O problema de fundo da escola pública, e que a privada de elite consegue à sua maneira ultrapassar, é a falta de investimento. As dificuldades, as insuficiências, a incapacidade de dar a todos tudo o que necessitam. São carências há muito diagnosticadas, que exigem alocação de mais meios, melhor organização, foco nos objectivos concretos que a escola deve prosseguir e não em preconceitos ideológicos ou no cumprimento de uma agenda ao serviço de interesses que não os dos alunos. Que exigem fazer da Educação a prioridade nacional que está muito longe de ser.

Em vez da infantilidade dos rankings, o autor propõe a valorização da escola pública, fazendo dela um espaço onde se aposta em cada aluno, se ensina e aprende com prazer e se despertam interesses e vocações. Assumindo, como muitos da sua geração, ser um produto da escola pública, Norberto Pires salienta a importância de termos nas escolas professores dedicados, criativos, com vida própria e com mundo, mas também com tempo para os seus alunos. Recorda que a escola pública pode mudar a vida das pessoas. Mas para isso é preciso resistir à tentação de as transformar em números.

Mais uma campanha contra a escola pública

manif-amarelaA comparação com as escolas privadas deixa as escolas públicas numa posição desconfortável. Nos privados, em geral, houve aulas à distância, o mérito académico não foi dispensado, a reabertura do ensino presencial foi serena e a aposta na aprendizagem dos alunos assume-se prioridade absoluta.

A primeira narrativa dos media sobre a educação em tempos de pandemia garantia-nos – quem se recorda? – que o ensino à distância iria obrigar alunos e professores a trabalhar e a aprender como nunca, operando uma verdadeira revolução educativa e fazendo de todos uns craques em tecnologias de informação.

Poucos meses passados, dá-se uma aparatosa cambalhota no discurso: afinal, ensinar e aprender a sério só se consegue na escola, na interacção directa dos alunos entre si e com os seus professores, sendo o E@D um parco remedeio, que empobrece as aprendizagens e aprofunda as desigualdades no acesso à educação.

Com a reabertura das escolas, o discurso mudou outra vez: os habituais comentadores oficiosos destas coisas, que raramente são professores dos que dão aulas, asseguram-nos agora que o ensino à distância funcionou afinal às mil maravilhas, mas apenas nos colégios. Os alunos das escolas públicas ficaram a ver navios. E por isso teríamos agora os pais preocupados, numa sangria desatada, a querer mudar os filhos para o ensino privado.

Há aqui alguns pontos a clarificar. Antes de mais, os colégios da moda que asseguram ter cada vez mais alunos em lista de espera já se encontravam nessa situação muito antes da pandemia. É uma realidade radica numa política educativa que tem conduzido ao aprofundamento das desigualdades: a exagerada mediatização de rankings, o desinvestimento na escola pública, a inclusão feita por decreto, são apenas algumas das facetas mais notórias. A pandemia apenas terá acentuado uma tendência que vem muito de trás e é consequência das políticas de sucessivos governos.

Depois há que ter em conta as assimetrias sócio-económicas. É evidente que quem gasta anualmente milhares de euros nas propinas de um colégio não terá problemas em proporcionar aos filhos o computador, o tablet, o smartphone e tudo o que mais precisar para se manter conectado com os professores. Nas escolas públicas, boa parte do esforço despendido nas primeiras semanas foi apenas para garantir, numa inédita mobilização de esforços entre escola, famílias, autarquias e instituições locais, que nenhum aluno ficava para trás.

Na minha experiência de professor à distância, a preocupação de não perder alunos, de não deixar nenhum deles para trás, condicionou fortemente o trabalho desenvolvido, que considero bom, sem falsas modéstias. O agrupamento de escolas públicas onde ensino avaliou o E@D num processo amplamente participado por alunos e pais e a grande maioria valorizou muito positivamente a experiência. Muitos pais fizeram questão de agradecer aos professores o esforço, a competência e tudo o que, em condições difíceis, conseguiram fazer pelos seus filhos. Admito que nalguns lados possa não ter corrido tão bem. Mas espanta-me a facilidade com que alguns comentadores e especialistas encartados decretaram já, e em definitivo, a incapacidade das escolas públicas em acompanhar os alunos em ambiente de ensino remoto.

Sublinhe-se, finalmente, a contradição do discurso: porque a experiência do ensino remoto não foi boa, agora que as escolas retomam o presencial é que os pais procuram os colégios, supostamente melhores a ensinar à distância? Há algo aqui em que falha a lógica. Em boa verdade, este discurso só faz sentido enquanto parte da velha campanha contra a escola pública e em favor do ensino privado. Pretende-se insinuar que as escolas privadas preparam melhor os seus alunos, apesar de haver estudos sérios, aprofundados e independentes a demonstrar claramente que os estudantes oriundos do ensino público têm em média melhor desempenho académico no ensino superior do que os provenientes do privado.

Há, no entanto, um ponto em que devo dar razão aos críticos da escola pública: com a sua política de desinvestimento na Educação, atolando as escolas em burocracia e pseudo-reformismo, promovendo uma falsa inclusão e o facilitismo avaliativo para conseguir sucesso estatístico, o governo socialista está a atentar gravemente contra a qualidade da escola pública. Urge reconhecer os erros e arrepiar caminho…

O manifesto da vergonha

clemente-cavaco-passosCerca de 100 personalidades públicas assinaram um manifesto contra a obrigatoriedade da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento nas escolas, considerando que os pais devem ter direito à objecção de consciência para não permitirem que os filhos a frequentem.

Este abaixo assinado surge no âmbito do caso despoletado pelos pais de duas crianças de Vila Nova de Famalicão que não deixaram os filhos frequentar as aulas da disciplina que é obrigatória.

O manifesto, tortuoso e dissimulado em relação aos fins pretendidos pelos seus promotores, assemelha-se a um parecer jurídico daqueles que se encomendam, para defender interesses manhosos, a professores de Direito e escritórios de advocacia.

Impressiona desde logo pela sucessão de assinaturas, um mosaico do conservadorismo social e político que continua a influenciar os destinos do país. Cavaco Silva, sempre do lado errado da História, Passos Coelho, representando a velha cepa do liberalismo “conservador nos costumes” e o cardeal Clemente, representante máximo da ICAR, serão os nomes mais sonantes. Há também um numeroso grupo de professores da Universidade Católica, de onde a iniciativa terá partido, e outro de ex-governantes da área do PSD/CDS. Aqui, cumpre destacar David Justino, um homem de quem, pelas posições que assumiu e pelas responsabilidades que teve, no ME e posteriormente no CNE, se esperaria uma posição mais esclarecida e equidistante nesta polémica. Enfim, percebe-se que houve toque a rebate nas fileiras da direita conservadora e até gente afastada de guerras ideológicas como o dom pretendente ao trono e a doutora Jonet do Banco Alimentar foram chamados a alimentar esta ideia.

Quanto à sofisticação jurídica da prosa, e apesar das inúmeras evocações da Constituição, da Declaração dos Direitos Humanos e outros pactos e convenções internacionais, ela parte de um pressuposto errado que inquina todo o raciocínio: aquilo que está consagrado em todos esses textos é o princípio de que os pais têm o direito de procurar, numa escola privada, uma educação alternativa à que o Estado proporciona, de acordo com as suas convicções morais e religiosas. Em lado algum se estabelece o princípio de que os pais podem decidir retirar partes do currículo de acordo com as suas preferências ou convicções. Se querem escola ideologicamente enviesada ou comprometida com a religião e a moral que professam, que a escolham entre as ofertas disponíveis no mercado e a paguem do seu bolso.

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Oportunidade de ouro, ou lógica da batata?

batatas.jpgA crise da covid-19 criou a oportunidade de ouro para darmos o salto, finalmente, para uma Educação do século XXI. Há recursos humanos disponíveis e talento suficiente no país para iniciarmos este caminho já. Mãos à obra!

Todos os que temos filhos em idade escolar demos conta, estas semanas, das iniciativas de ensino à distância que foram lançadas, em escolas públicas e privadas de todo o país. Numa semana, os professores de todo o país tiveram a capacidade de alavancar os seus recursos e competências, para dar início a uma vaga de ensino remoto sem precedentes em Portugal.

Esta revolução digital na Educação deveria ser potenciada pelo Estado numa primeira fase, mas criaria todo um novo ecossistema de parceiros públicos e privados – que já existe em outros países europeus e no resto do mundo –, que seria fonte de criação de valor económico para o país, mas também de novas eficiências em termos de gestão dos recursos alocados à Educação.

A prosa do director da EPIS dá-nos uma pequena amostra do que seria o nosso sistema educativo nas mãos destes empresários com olho para o negócio da educação e as rentáveis “parcerias” com a escola pública, que encaram os professores como meros “colaboradores” das escolas, tão descartáveis como uma qualquer ferramenta que entretanto se tornou obsoleta.

Se bem percebi a lógica da batata, a suspensão forçada das aulas será, para este escriba, a oportunidade de ouro para impor um novo paradigma educativo, em linha com as “melhores práticas” internacionais.

Paradoxalmente, ou talvez não, espera-se fazer a revolução escolar fora da escola, criando plataformas e ferramentas digitais que dispensem a presença física e o contacto directo entre professores e alunos e destes entre si. Eis um projecto educativo tecnocrático e profundamente reaccionário, que pretende substituir a escola por máquinas de ensinar. Fazendo tábua rasa do carácter humanista do processo de ensino e aprendizagem e ignorando a importância fulcral da escola pública, laica e universal, na construção e fortalecimento da sociedade democrática e na concretização da igualdade de direitos e oportunidades.

Ao contrário do que defende o empresário da educação, parece-me que estes dias sombrios que vivemos estão a evidenciar, isso sim, que há aspectos essenciais da relação pedagógica que as interacções virtuais nunca conseguirão substituir. Mesmo recorrendo à melhor tecnologia educativa do século XXI, a verdade é que a dinâmica da sala de aula e o apoio directo dos professores revelam-se insubstituíveis – e ainda mais quanto maiores são as dificuldades ou as necessidades específicas dos alunos.

Enquanto no trabalho burocrático das escolas se confirma, como já se sabia, que muito do que se tem feito em reuniões chatas pode ser tratado por mail ou, se necessário, discutido em videoconferência, na relação com uma turma há sempre alunos que se “perdem” no contacto não presencial. Ao fim de pouco mais de uma semana de ensino a distância já se percebeu que, a prazo, este sistema corrói alguns dos valores mais importantes da escola pública e inclusiva, como a equidade, a justiça e igualdade de oportunidades. Distantes de nós, há sempre alunos que ficam para trás – sem que tenhamos forma de lhes chegar…

Em relação às ferramentas digitais, também se percebe que, além de a sua qualidade ser muito variável e o funcionamento difícil de controlar, elas funcionam melhor para rever ou consolidar conhecimentos adquiridos, do que a desenvolver novas aprendizagens. Quando se trata de aprender, mesmo que a aposta seja em pedagogias construtivistas, a presença física do professor continua a revelar-se um elemento fundamental. Uma ideia fácil de perceber por todos os que estudam e trabalham nas escolas, mas que parece passar ao lado dos empresários inclusivos da Educação…