Educação inclusiva… a distância!…

Educação à distância para alunos com necessidades especiais: eis talvez o maior dos problemas suscitados pelo recurso generalizado ao ensino a distância.

A equacionar-se o regresso precoce à escola de algum grupo de alunos, estes deveriam ser prioritários: os que necessitam em absoluto de ensino individualizado ou pequeno grupo, terapia da fala, apoio psicológico e outros. Aqueles que não têm autonomia para estudar sozinhos em casa; os que dependem de estímulos constantes e interacções sociais e afectivas para o desenvolvimento de competências cognitivas e emocionais.

Com tanta retórica ouvida nos últimos anos em torno da inclusão, seria de esperar que estes alunos estivessem na primeira linha da prioridades e preocupações ministeriais. Mas não: pouco ou nada tendo para lhes oferecer, o ME faz o seu número habitual de dar “orientações” às escolas para que façam e aconteçam. O documento, publicado no site da DGE, é vago e omisso no essencial, que seria garantir a educação inclusiva mesmo em tempo de confinamento social. Em contrapartida, deixa um sério caderno de encargos ao cuidado das EMAEI…

emaei.PNG

Subitamente, e numa chocante inversão de prioridades, parece que só os alunos que têm exames finais no horizonte são dignos dos esforços ministeriais no sentido de garantir que aprendem alguma coisa e de que essas aprendizagens serão efectivamente avaliadas. Paradoxalmente, estamos a falar dos alunos que à partida melhor se poderiam desenrascar sozinhos: porque são mais velhos e porque se encontram na via de ensino mais orientada para o prosseguimento de estudos. De repente, parece que voltámos aos tempos de Nuno Crato: só os exames contam e todos os recursos devem ser mobilizados – no limite, até mesmo a saúde pública pode ser posta em risco – para os “salvar”…

A escola a três velocidades

pombo-correioSerá este o novo normal em que querem as escolas a funcionar no terceiro período? 

  • Escola de primeira para quem dispõe de computador com internet, banda larga e telemóvel topo de gama;
  • Escola de segunda para quem tem computador obsoleto e partilhado com o resto da família, internet aos soluços e telemóvel com dados limitados;
  • E depois a escola dos pobrezinhos, que recebem e enviam fichas e TPC através do pombo-correio…

E não, não são cenários especulativos. O novo modelo de escola inclusiva está, com aparente beneplácito ministerial, a tornar-se realidade num número crescente de concelhos do país.

“Há alunos de classes sociais desfavorecidas, dentro de um grupo de 150 que beneficiam de refeições gratuitas por se encontrarem no Escalão A, que ou não têm Internet em casa ou computador, ou as duas coisas, e a Câmara, para eles não serem prejudicados neste período de paragem de aulas, passou a levar a essas crianças e jovens, do 1.º ciclo do ensino básico ao 12.º ano (ensino secundário), os trabalhos escolares ditados pelos professores”, resume fonte da autarquia.

Esta “ponte entre os docentes e os alunos”, que deverá durar enquanto as escolas estiverem fechadas para tentar travar a pandemia da covid-19, está a ser feita em articulação com o Agrupamento de Escolas da Mealhada (AEM).

“O modo de funcionamento é simples: o AEM envia-nos `e-mail` com os trabalhos, o Setor da Educação da Câmara imprime essas tarefas e encarrega-se de as deixar em oito locais estratégicos, de fácil acesso para os alunos, que depois levantam os trabalhos, realizam-nos em casa e voltam depois a deixar nos mesmos sítios”, explica o presidente do município, Rui Marqueiro.

Ano excepcional, medidas excepcionais – defende a Fenprof

tiagobr2No contexto de exceção que se vive, é estranho que os responsáveis do Ministério da Educação continuem sem revelar uma alternativa para tudo o que ainda falta até final do ano em curso  (atividade letiva, implicação da avaliação do 2.º período e avaliação final, bem como provas e exames), limitando-se a afirmar que, em 9 de abril, se avaliará a situação e se decidirá se as escolas reabrirão ou continuarão encerradas. Isto, apesar de as autoridades de saúde pública e o Governo preverem para 14 de abril o pico epidemiológico em Portugal, uma perspetiva que – a ser bem sucedida a estratégia que lhe está subjacente, ou seja, estender a duração do surto no tempo para evitar um pico repentino – implicará o prolongamento da situação de isolamento ou, pelo menos, de contenção social até praticamente ao final do ano letivo, para evitar um novo surto. O próprio Primeiro-Ministro já admitiu que as escolas se manterão encerradas no 3.º período.

 Neste quadro, em que nada poderá ser facilitado, esperava-se que o Ministro da Educação, no mínimo, apontasse um caminho que fosse conhecido, discutido e acompanhado pela comunidade educativa e a sociedade em geral. Contudo, declarações recentes do governante não permitem perceber, com clareza, qual a estratégia que está a ser preparada para o futuro próximo, não indo muito além de algumas frases feitas. O que os professores e as escolas conseguiram fazer na quinzena ainda em curso não poderá, simplesmente, ser replicado, semanas a fio, no 3.º período. O que é necessário é que deste tempo, que foi, essencialmente, de aprendizagem perante um quadro inesperado, se percebam as dificuldades, as limitações, os problemas, para que não se repitam no futuro. E do Ministro da Educação exige-se clareza e assertividade!

 O que aconteceu na semana que passou, prolongando-se para esta, foi muito diferente de escola para escola. As escolas, os professores e a grande maioria dos alunos procuraram dar o seu melhor, mas há problemas que são de difícil superação, desde logo e sem menorizar outros, o da falta de recursos por parte de muitos alunos e de alguns docentes para poderem desenvolver atividade a distância ou a situação de desigualdade de alunos que, mesmo possuindo os equipamentos, não dispensam um apoio individualizado. Esquecer isto é pôr em causa os fundamentos da escola inclusiva.

Continuar a ler o comunicado…

Rompendo o falso consenso em torno das virtudes da aprendizagem online e do novo mundo tecnológico que, graças ao ataque do coronavírus, parece estar ali ao virar da esquina, a Fenprof assume, num extenso comunicado, uma posição clara e assertiva em relação aos tempos difíceis que vivemos, também, na Educação.

Haja quem diga claramente que o ensino a distância, por melhor que seja, não substitui a presença física de alunos e professores. Que a aprendizagem online, podendo ser uma solução temporária e de recurso, representa também a negação da escola inclusiva em que tanto se diz apostar, prejudicando sobretudo os alunos que mais precisam de ser apoiados. Que as aprendizagens feitas em casa não são equivalentes, em termos de desenvolvimento de competências, compreensão aprofundada das matérias ou até de cumprimento de programas, com o normal desenrolar da aprendizagem em contexto escolar. Que o papel do professor é fundamental e não pode ser substituído por máquinas de ensinar.

Se para alguma coisa serviram estas duas semanas de isolamento social, foi precisamente para que se percebessem as enormes dificuldades e as fortes assimetrias que se impõem perante as tentativas de construir, praticamente a partir do zero, redes de ensino e aprendizagem assentes nas tecnologias de informação. Quando já se percebeu que no terceiro período vamos todos comer, novamente, deste arroz, o estado de negação e as indecisões do ME fazem-nos perder um tempo precioso se queremos ainda tentar fazer, na recta final do ano lectivo, algum trabalho de jeito com os nossos alunos.

E de nada adianta empurrar, uma vez mais, responsabilidades para a autonomia das escolas, as autarquias, as forças vivas locais ou as redes de voluntariado. A dimensão do problema e a urgência da resposta impedem o ME de encetar a habitual fuga às responsabilidades. Não há volta a dar: o Governo que terá de tomar a iniciativa, na Educação, tal como está a fazer na Saúde ou na Economia.

Claro que tudo seria mais fácil se António Costa, em vez de reconduzir uma inexistência, tivesse nomeado um Ministro.

Oportunidade de ouro, ou lógica da batata?

batatas.jpgA crise da covid-19 criou a oportunidade de ouro para darmos o salto, finalmente, para uma Educação do século XXI. Há recursos humanos disponíveis e talento suficiente no país para iniciarmos este caminho já. Mãos à obra!

Todos os que temos filhos em idade escolar demos conta, estas semanas, das iniciativas de ensino à distância que foram lançadas, em escolas públicas e privadas de todo o país. Numa semana, os professores de todo o país tiveram a capacidade de alavancar os seus recursos e competências, para dar início a uma vaga de ensino remoto sem precedentes em Portugal.

Esta revolução digital na Educação deveria ser potenciada pelo Estado numa primeira fase, mas criaria todo um novo ecossistema de parceiros públicos e privados – que já existe em outros países europeus e no resto do mundo –, que seria fonte de criação de valor económico para o país, mas também de novas eficiências em termos de gestão dos recursos alocados à Educação.

A prosa do director da EPIS dá-nos uma pequena amostra do que seria o nosso sistema educativo nas mãos destes empresários com olho para o negócio da educação e as rentáveis “parcerias” com a escola pública, que encaram os professores como meros “colaboradores” das escolas, tão descartáveis como uma qualquer ferramenta que entretanto se tornou obsoleta.

Se bem percebi a lógica da batata, a suspensão forçada das aulas será, para este escriba, a oportunidade de ouro para impor um novo paradigma educativo, em linha com as “melhores práticas” internacionais.

Paradoxalmente, ou talvez não, espera-se fazer a revolução escolar fora da escola, criando plataformas e ferramentas digitais que dispensem a presença física e o contacto directo entre professores e alunos e destes entre si. Eis um projecto educativo tecnocrático e profundamente reaccionário, que pretende substituir a escola por máquinas de ensinar. Fazendo tábua rasa do carácter humanista do processo de ensino e aprendizagem e ignorando a importância fulcral da escola pública, laica e universal, na construção e fortalecimento da sociedade democrática e na concretização da igualdade de direitos e oportunidades.

Ao contrário do que defende o empresário da educação, parece-me que estes dias sombrios que vivemos estão a evidenciar, isso sim, que há aspectos essenciais da relação pedagógica que as interacções virtuais nunca conseguirão substituir. Mesmo recorrendo à melhor tecnologia educativa do século XXI, a verdade é que a dinâmica da sala de aula e o apoio directo dos professores revelam-se insubstituíveis – e ainda mais quanto maiores são as dificuldades ou as necessidades específicas dos alunos.

Enquanto no trabalho burocrático das escolas se confirma, como já se sabia, que muito do que se tem feito em reuniões chatas pode ser tratado por mail ou, se necessário, discutido em videoconferência, na relação com uma turma há sempre alunos que se “perdem” no contacto não presencial. Ao fim de pouco mais de uma semana de ensino a distância já se percebeu que, a prazo, este sistema corrói alguns dos valores mais importantes da escola pública e inclusiva, como a equidade, a justiça e igualdade de oportunidades. Distantes de nós, há sempre alunos que ficam para trás – sem que tenhamos forma de lhes chegar…

Em relação às ferramentas digitais, também se percebe que, além de a sua qualidade ser muito variável e o funcionamento difícil de controlar, elas funcionam melhor para rever ou consolidar conhecimentos adquiridos, do que a desenvolver novas aprendizagens. Quando se trata de aprender, mesmo que a aposta seja em pedagogias construtivistas, a presença física do professor continua a revelar-se um elemento fundamental. Uma ideia fácil de perceber por todos os que estudam e trabalham nas escolas, mas que parece passar ao lado dos empresários inclusivos da Educação…

Indisciplina ao vivo – numa aula portuguesa

O vídeo, divulgado pelo VozProf, apresenta-nos quase quatro minutos de pura indisciplina na sala de aula. O vídeo não é recente – foi originalmente publicado em 2009 – mas a realidade que retrata permanece actual, o que justifica a ampla repercussão que o tema está a ter entre os professores. E é com um misto de constrangimento e revolta que se assiste à atitude de completo desrespeito e gozo descarado que alguns alunos assumem perante a professora.

Perplexo, dei uma volta pelas redes sociais em busca de reacções de professores a uma realidade preocupante mas, infelizmente, já normalizada nalgumas escolas portuguesas. E devo dizer que o que mais me espantou foi a atitude de espanto e negação de alguns colegas: não pode ser, é impossível, o vídeo deve ser fake, como foi possível chegar-se a este ponto?…

Contudo, a realidade documentada neste vídeo, não sendo comum à grande maioria das turmas e das escolas portuguesas, está infelizmente presente num número significativo de salas de aula, sobretudo em escolas que se vêm obrigadas a acolher alunos que não só não querem estudar como carecem das mais básicas competências sociais, a começar pela empatia e o respeito pelos outros. Nalguns casos, serão já reais ou potenciais delinquentes.

Na verdade, o esforço desesperado que esta professora faz para tentar devolver alguma normalidade à sala de aula, impondo ordem e respeito a quem quer apenas provocar e gozar com o sofrimento alheio, demonstra o lado mais negro daquilo a que alguns chamam inclusão: alunos com este comportamento não deveriam ter lugar na sala de aula. Instalou-se insidiosamente a ideia de que o bom professor não “manda para a rua”, pelo que há que fazer das tripas coração e manter na sala quem não tem condições para lá permanecer. E é provavelmente por já se ter transigido, em episódios anteriores, com comportamentos desadequados, que a indisciplina na sala de aula chegou a este ponto.

Não significa isto uma crítica à colega involuntariamente exposta neste vídeo e à qual expresso, incondicionalmente, a minha solidariedade. Os únicos culpados, aqui, são os alunos insubordinados, que desconheço se terão sido punidos como deveriam. E se uns professores têm mais jeito do que outros a lidar com turmas e alunos problemáticos, a verdade é que a nenhum docente deveria ter de lamentar-se por, em vez de estudar Matemática, Ciências ou Línguas, não ter feito antes um curso de domador de feras. Mais: com turmas deste calibre, nenhum professor deveria sequer ver-se forçado a entrar sozinho numa sala de aula.

Falhas óbvias, nestes casos, podem também apontar-se às direcções escolares: é muito fácil constituir estas turmas de “carregar pela boca”, geralmente CEFs, PIEFs ou cursos profissionais, distribuí-las a uns quantos professores, esperando que se desenrasquem, enquanto a direcção se fecha no seu gabinete a tratar da burocracia escolar, em vez de manter um olhar atento e ter uma intervenção oportuna sempre que algo começa a descambar.

Por último falha também a sociedade, sempre que olha para a escola pública como o caixote do lixo da sociedade, para onde se atiram e acomodam delinquentes convertido em falsos estudantes, retirando-os das ruas e evitando colocá-los em centros de reinserção ou em prisões.

Nota: post actualizado pelas 21 horas, com o esclarecimento de que o vídeo que o acompanha foi originalmente publicado em 2009.

Professor não pode ser saco de pancada

billy_bully_ready_for_a_fight_lg_clr[1]Foi no dia 23 de outubro. Já tinha acabado as aulas [na Escola Maria Alberta Meneres, em Sintra] e estava na reprografia quando uma funcionária apareceu a pedir ajuda, porque um aluno de 11 anos estava a abrir os cacifos dos colegas. Decidi ir falar com ele. Estou nesta escola há 20 anos e eles conhecem-me. Quando chegámos lá, estava completamente fora de si. Dizia para a funcionária [de 54 anos]: “Vai-te f…., vai para o c……, filha da p…” Aproximei-me para tentar que viesse comigo, mas assim que lhe agarrei no braço ele começou às cotoveladas, murros e empurrões. Eu e a funcionária éramos autênticos sacos de boxe. Acabámos as duas por ir para o hospital.

Continuar a denunciar as agressões a professores é fundamental para que ninguém possa negar que o problema existe, embora esteja longe de ser generalizável à maioria das escolas. Felizmente, o bom relacionamento entre professores e alunos continua a ser regra entre nós, atestada por sucessivas avaliações internacionais.

Claro que a violência entre alunos também é grave e os casos, muito mais raros, de agressões de professores a alunos são condenáveis sem reservas. A diferença é que, enquanto o professor agressor se torna alvo imediato do poder disciplinar do ME, os professores agredidos são muitas vezes incentivados a perdoar e a esquecer o mal que lhes fizeram. Quando a tutela e, muitas vezes, as lideranças de proximidade encaram as ofensas verbais e físicas aos professores como “ossos do ofício”, em vez de os apoiar e assumir a sua defesa contra o agressor, torna-se bem claro que os professores estão por sua conta. Têm de agir, individual e colectivamente para, também aqui, exigirem respeito e fazerem valer os seus direitos.

Outro ponto a considerar tem a ver com aquilo que pode ser visto como o lado negro da escola inclusiva que todos queremos, supostamente, construir. Meter na escola todos os menores de 18 anos, incluindo os que não querem lá estar e aqueles que, sem apoios e condições especiais, pouco aprenderão, implica um reforço de meios adequados para integrar todos os alunos, gerir conflitos e garantir a segurança das pessoas e das instalações. Aqui, pensamos geralmente em jovens delinquentes ou pré-delinquentes, mas actualmente vão sendo cada vez mais frequentes os casos de alunos com perturbações, patologias ou distúrbios mentais que, não sendo devidamente tratados e acompanhados, se podem tornar violentos. Ainda recentemente uma direcção escolar justificava a agressão a uma professora pelo facto de o aluno ter uma perturbação do espectro do autismo, sendo assim “normal” que ele se torne violento e ataque quem estiver à sua beira.

Ora esta normalização da agressão verbal e física, a pretexto de que o aluno não se controla, vive uma vida difícil ou é aquela a forma que tem de se exprimir, não é de todo aceitável. Os maus tratos, a tortura e outras situações degradantes da dignidade humana não podem aceitar-se em local ou circunstância alguma, muito menos na escola. E se todos reconhecemos o avanço civilizacional que foi o fim dos castigos corporais e das humilhações psicológicas nas escolas, não podemos agora, sob o pretexto de que queremos a escola inclusiva e de que temos de aceitar todos os alunos tal como eles são, permitir que estes possam ofender ou atacar professores, funcionários ou colegas que deles se aproximem.

Finalmente, o caso ontem relatado pelo Expresso e que motiva este post serve de alerta para os excessos de voluntarismo: perante um miúdo violento e descontrolado, o melhor é não lhe tocar sem que se tenha a certeza de conseguir controlar, em segurança, a situação. Caso contrário, corremos o risco de passarmos a ser nós o bombo da festa. Tal como polícias, bombeiros e outros profissionais de segurança fazem há muito, em situações de perigo há que intervir e ajudar os outros, mas preservando a nossa segurança em primeiro lugar. Se ninguém protege os professores, devem eles proteger-se, em primeiro lugar, a si próprios. E se a nova regra é que, em nome da inclusão, devemos aceitar que meninos e meninas façam tudo o que lhes apetecer, então o melhor é sair-lhes da frente.

O dogma da inclusão

inclAs dificuldades em desenvolver a inclusão desembocam – talvez na maioria dos casos – na questão dos recursos. Ouve-se frequentemente que não se faz inclusão, porque faltam recursos. Gostaria de tratar, ainda que sucintamente, este assunto. E em três pontos:

Antes de mais, para assumir que há efetivamente uma falta de recursos: i) conhecemos casos em que os professores de Educação Especial estão sobrecarregados com um número excessivo de casos que não lhes permite um bom acompanhamento de cada um deles, ii) por outro lado, a esperança que os Centros de Recursos para a Inclusão (CRI) pudessem prover os recursos essenciais está completamente abalada. Os CRI recebem há muitos anos o mesmo financiamento, quando o número de casos que precisam de apoio terapêutico-educativo tem aumentado. Trata-se na maioria dos casos de apoios que são reconhecidos pelos CRI e pelas escolas como insuficientes. E isto há muitos anos. A nossa educação fez um percurso notável durante o período após a Revolução de 25 de Abril de 1974, mas, mesmo assim, não foi capaz de se libertar de uma herança de desinvestimento de muitas dezenas de anos. Faltam recursos? Faltam sim, e muitos.

Depois da sobranceria dos últimos tempos, David Rodrigues tenta, em crónica no Público, uma abordagem mais sensata e consensual aos problemas da inclusão dos alunos com necessidades especiais. Assume mesmo a queixa recorrente, mas muito real, dos professores no terreno: a falta de recursos para as respostas educativas diferenciadas que se quer implementar. Um esforço notório, quando ainda há poucos dias menosprezava os professores portugueses que não lhe seguem a cartilha, esses “práticos rasteiros” renitentes em ver a luz com que o profeta da inclusão não desiste de os iluminar.

O principal mentor do “54”, entretanto remendado pela lei n.º 116/2019, reconhece que a menina dos seus olhos não estará a ser implementada como se quer. Faltam recursos, admite. Falta reconhecer que o novo regime, dito de inclusão, não foi concebido para consumir mais recursos do que o anterior modelo. Pelo contrário, reduzir a presença de alunos com necessidades especiais em salas especializadas, enviando-os para as respectivas turmas, é uma forma não muito subtil de realizar poupanças à custa dos alunos que mais precisam. E se dúvidas houvesse, basta ver que a lógica da implementação do novo modelo assentou sempre em “capacitar” os professores para a inclusão em vez de implementar medidas dispendiosas, como coadjuvâncias ou outras medidas de apoio específico, na sala de aula, aos alunos “especiais”.

E claro que todas estas reformas que supostamente se fazem para bem dos alunos poderiam funcionar muito melhor se fossem ouvidos os professores e auscultadas as necessidades reais das escolas e dos alunos. Ainda que agora se diga o contrário, a lógica predominante foi sempre a da inclusão por decreto. Os professores nas escolas continuam a ser vistos, pelos iluminados eduqueses da inclusão, como profissionais obtusos, retrógrados e rotineiros, a quem é preciso impor a mudança à força para que ela se concretize.

Julgo que o maior sucesso de David Rodrigues e dos seus seguidores foi ter conseguido impor, como dogma inquestionável, a ideia de que a inclusão é, em todas as circunstâncias, benéfica e necessária. Perdoe-se o atrevimento, a um professor que não é de Educação Especial nem tem qualquer formação especializada nesta área, mas se há tanto receio de constatar que o rei vai nu, digo-o eu: nem sempre a inclusão é a melhor opção educativa. Há aulas onde alunos com comprometimentos graves ao nível cognitivo não estão a aprender nada. Nem estão a ser incluídos. Vendo os outros a trabalhar e a aprender algo que a eles lhes passa completamente ao lado, estarão apenas a ver sublinhada a sua diferença e as suas limitações. A alternativa, aquilo que alguns líricos vêem como integração harmoniosa, seria o resto da turma deixar de trabalhar as matérias curriculares para realizarem actividades em que o/a colega se pudesse integrar. Ora isto pode e deve fazer-se nalgumas aulas e disciplinas de carácter eminentemente prático, mas não fará sentido na maioria das restantes.

Por último, discordo por completo de David Rodrigues quando este sugere que só fazem falta mais recursos nas escolas se estes forem recursos para a inclusão. Pelo contrário, como profissional da sala de aula, não tenho dúvidas de que todos os recursos de que as escolas venham a dispor devem ser sempre recursos para os alunos. Para a inclusão, sempre que possível e desejável. Ou para outros fins, se estes, consoante a realidade concreta de cada aluno, forem os mais adequados. É a diferença entre os professores que procuram o melhor para os seus alunos e os ideólogos afastados da realidade que se limitam a querer impor, a qualquer preço, a sua Ideia.