Erros nos exames, e de quem é a culpa?…

Com equipas, com profissionais, com tempo e com meios, como é possível um exame ser visto, revisto, policopiado e distribuído com erros? E não, a culpa não é do Governo nem do ministro e dos secretários de Estado.

Não, não se pedem as famosas culpas políticas. É fácil pedir recorrentemente a cabeça de um ministro, mas a responsabilidade objetiva é de quem? Num sistema que aparenta ser totalmente opaco, apareçam as pessoas que fizeram estes exames.

Como podem os sindicatos ficar calados? Percorramos os seus websites, ou o da Fenprof e, mistério dos mistérios, nem uma palavra de respeito pelos alunos que se viram a fazer exames com erros ou gralhas. É o pleno exercício da revindicação egocentrada o que se encontra. Pouco mais.

Com a quantidade de disparates que se escrevem no Público sobre Educação, já muito pouco me consegue surpreender. Mas desta vez exageraram.

Um universitário que se apresenta como coordenador de “ciência das religiões” da sua instituição escreve sobre os erros detectados nalguns exames nacionais de 2021. Um tema recorrente, pois apesar do tempo que as provas levam a elaborar e das várias revisões que sofrem até que sejam impressas e enviadas às escolas para serem respondidas, as falhas continuam a acontecer. Se é verdade que errar é humano, assumir o erro também o deveria ser. E isso falta na estrutura do IAVE: os dirigentes esquivam-se às responsabilidades, estas diluem-se entre os colaboradores subordinados e escoam-se através da cláusula de “confidencialidade” que envolve a produção das provas.

No entanto, o cientista das religiões não só não culpa nem o IAVE, nem os seus executores e responsáveis, como isenta de responsabilidades o poder político. E ergue o dedo acusador à Fenprof, pelo crime de ainda não se ter pronunciado sobre o assunto. O palerma, que não tem outro nome, diz que andou pelo site da federação de professores à procura de algum escrito acerca do assunto, apenas tendo encontrado “reivindicação egocentrada”.

Então o cronista não sabe o que são e para que servem os sindicatos? Como organizações de defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores que representam, é sobre esses temas em concreto que têm de tomar posição. Até o podem e devem fazer numa perspectiva alargada, olhando não apenas para os aspectos estritamente sindicais, como vencimentos, carreiras, horários e condições de trabalho, mas para o sistema educativo no seu todo e para a sociedade e as famílias a quem a escola serve. Aliás, ainda há um ano atrás a Fenprof fez uma análise pertinente e fundamentada à avaliação interna e externa no contexto de pandemia, tomando uma posição com a qual, julgo, a generalidade dos professores se identifica. Mas não tem de reagir no imediato a toda e qualquer incidência que ocorra com os exames nacionais.

Aliás, se o fizesse não faltariam as acusações de que pretenderia desacreditar os exames ou “perturbar” um processo sensível, complexo e decisivo para a concretização das aspirações académicas de muitos alunos. Assim como, em contextos semelhantes, se acusam os sindicatos de professores de se imiscuírem em assuntos científicos e pedagógicos que não são da sua esfera de acção, retirando margem de manobra à actuação das associações de professores e dos que persistem na defesa de uma ordem de professores.

De facto, quando o que se pretende é apenas um pretexto para a crítica gratuita e preconceituosa aos sindicatos, nota-se bem que qualquer argumento, mesmo o mais disparatado, serve. Como reza o velho ditado, é-se preso por ter cão e preso por o não ter. Mas esta urticária que alguns figurões sentem perante o sindicalismo é a melhor demonstração da necessidade que continuamos a ter de sindicatos fortes e livres. No século XXI e mais além.

Denúncias e exclusões no concurso de professores

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Foram essencialmente as denúncias de outros candidatos que levaram à verificação, pela DGAE, de um número recorde de candidaturas que estariam em situação irregular. Segundo o esclarecimento oficial entretanto publicado, foram feitas 3.725 denúncias, mais do dobro das que foram feitas no ano passado. Contudo, apenas em 360 se comprovou haver fundamento para exclusão com base na indicação incorrecta do tempo de serviço, um valor idêntico às 352 exclusões, pelo mesmo motivo, que houve no concurso de 2016/17.

Ao contrário do que ontem aventei, não parece não ter havido uma verificação sistemática da situação de todos os candidatos, confrontando-a com os dados da administração educativa. Mas comprova-se que o sistema actual de contagem do tempo de serviço, sobretudo no caso dos contratos temporários e dos horários incompletos, é complexo e demasiado vulnerável a erros de contagem ou interpretações divergentes da legislação em vigor. E isto não tem a ver apenas com o tempo de serviço. Que dizer, por exemplo, da situação de candidatos que foram agora excluídos porque não indicaram a escola em que estavam colocados quando, na altura em que se candidataram, não estavam de facto a trabalhar?

Uma trapalhada perfeitamente escusada está aqui criada, sendo evidente que estes casos não se irão já decidir antes da saída das colocações, obrigando os candidatos a penosos e demorados recursos hierárquicos. Ora, volto a dizê-lo, a maneira mais justa e simples de evitar tudo isto seria a informatização dos registos biográficos numa plataforma que, a partir do lançamento dos dados referentes a colocações e contratos, fizesse o cálculo e o preenchimento automático, e com regras uniformes, do tempo de serviço e de outros dados relevantes para a candidatura ao concurso de professores.

Respeito, como é evidente, o direito de todos os colegas que, sentindo-se prejudicados por ultrapassagens indevidas na lista de graduação, denunciem as situações que lhes levantem suspeitas. Devemos lutar pelos nossos direitos e ninguém tem de pactuar com eventuais falcatruas e irregularidades, ainda para mais quando é directamente prejudicado. Mas não devemos assentar unicamente na promoção da denúncia o controle de eventuais erros ou fraudes nos concursos, sobretudo quando temos meios para prevenir e corrigir essas situações, de modo muito mais eficiente, fazendo bom uso dos meios informáticos ao nosso dispor.

Um quase suicídio… político

ppc-joao-marques.JPGDe Pedro Passos Coelho, nas suas lamentáveis declarações sobre suicídios na sequência do incêndio de Pedrógão. Ressalve-se que já admitiu o erro e pediu desculpa pelas palavras incendiárias e irreflectidas, mas note-se que, se o líder é o que sabemos, o partido que dirige não é melhor do que ele…

João Marques, o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande que deu a Passos Coelho a informação errada sobre suicídios no concelho, é o candidato do PSD àquela autarquia. E foi presidente da câmara durante 16 anos

Erro humano

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Os investigadores concluíram que o comboio que fazia o trajeto Vigo-Porto e que descarrilou na sexta-feira, matando quatro pessoas e deixando dezenas de feridos, ia em excesso de velocidade. Após analisar a caixa negra que seguia a bordo do comboio, Juan Carlos Carballeira, um dos peritos, afirmou ao jornal local Faro de Vigo, que foram encontrados “dados relevantes” que comprovam que o comboio circulava a 118 km/h numa via em que o limite máximo era de 30 km/h.

Depois do grave acidente ferroviário de 2013 na Galiza, um novo descarrilamento com vítimas mortais, também provocado por excesso de velocidade, veio demonstrar que pouco ou nada se fez para aumentar a segurança da circulação de comboios. Continua a confiar-se quase exclusivamente na competência dos maquinistas e no seu escrupuloso cumprimento da sinalização e das regras de segurança, esquecendo-se que errar é humano e mesmo o mais experiente dos profissionais está sujeito a ter um momento de distracção que, ocorrendo aos comandos de um comboio, pode terminar em tragédia.

Claro que, do ponto de vista institucional, e sem pôr em causa a veracidade das conclusões da investigação, este é o resultado mais cómodo que se poderia obter: o maquinista morreu no acidente e já não se poderá defender. E tanto a empresa gestora da via férrea, como a proprietária espanhola do comboio e a operadora portuguesa se vêem ilibadas de responsabilidades directas.

E no entanto o comboio, que é apesar de tudo o mais seguro de todos os meios de transporte, poderia sê-lo ainda mais se fossem obrigatórios os sistemas que travam automaticamente os comboios em excesso de velocidade, e que já existem nas linhas principais, tanto em Espanha como em Portugal.

Elaboram-se tantas directivas comunitárias para defender a saúde e a segurança dos cidadãos e consumidores europeus, sendo algumas delas tão pouco relevantes, que não se entende como medidas fundamentais e obrigatórias para garantir a segurança ferroviária e prevenir os acidentes sobre carris continuam a ficar de fora dos regulamentos nacionais e europeus.