A ilusão do voluntariado

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Foram os primeiros a aterrar em Lisboa. Para muitos, o trabalho começou antes de a arena abrir as portas. Vestem o já habitual azul-turquesa, para se destacarem na multidão. Falam todas as línguas do mundo. Da Polónia ao Panamá, não há nação que escape ao batalhão de voluntários recrutados para a Web Summit. Para não faltarem ao chamamento, tiram a semana de férias no trabalho ou fazem gazeta às aulas. Pagam para trabalhar mas não se importam. “O que conta é a experiência”, podia ser o mantra dos dois mil voluntários que ajudam a pôr de pé a maior cimeira de tecnologia do mundo.

Voluntários que aceitam trabalhar de graça, iludidos com a “experiência”, seduzidos pelo glamour do evento ou apenas com a possibilidade de entrar sem pagar bilhete.

Discursos “inspiradores” que nos ajudam a naturalizar a desigualdade, a especulação, o oportunismo, promovendo-os à categoria de novos valores universais.

Empreendedores que acreditam na multiplicação perpétua dos unicórnios e que a bolha das novas tecnologias continuará a inchar infinitamente.

Iniciativas e lucros privados altamente financiados com dinheiro público – 11 milhões de euros anuais que saem dos cofres públicos para pagar a festa.

Bem-vindos à nova economia do século XXI – e desculpem o indisfarçável cheiro a bafio…

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A ditadura do empresariado

O turismo tem criado milhares de empregos, mas o ritmo de crescimento que o setor tem registado leva os empresários da restauração e do alojamento turístico a prever que sejam necessários 40 mil novos trabalhadores. Mas a oferta é escassa e as empresas debatem-se com dificuldades em encontrar mão-de-obra.

Os empresários de Melgaço enfrentam um problema raro: querem contratar trabalhadores e não encontram e essa falta de mão de obra é comum a quase todas as áreas de atividade.

O ano será de consolidação, diz o presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI), Reis Campos. Ricardo Gomes, líder da Federação da Construção (FEPICOP), alerta para a falta de trabalhadores, admitindo que o défice possa ser, já este ano, da ordem dos 60 a 70 mil trabalhadores.

Portugal continua a ser um país com elevado desemprego, sobretudo entre os jovens e os trabalhadores de meia-idade que perderam os seus empregos “para a vida” e não voltaram a conseguir trabalho. A juntar a estes, sucessivas vagas de trabalhadores, jovens e menos jovens, fizeram as malas para conseguir, noutros países, as oportunidades de vida que as políticas austeritárias e recessivas lhes negaram em Portugal.

No entanto, sinal de que alguma coisa mudou na economia portuguesa, começamos a ouvir, cada vez com mais insistência, da parte de alguns sectores do empresariado, a velha conversa de que precisam de trabalhadores mas não encontram quem queira trabalhar.

É evidente que o problema não está em quem procura emprego, mas sim do lado da oferta: empregos onde se paga o salário mínimo em troca de trabalho precário, horários desregulados e más condições laborais só em último recurso serão aceites por quem precisa de trabalhar.  Como se diz na América de Cima, if you pay peanuts, you get monkeys

Donde se percebe que mesmo a mais ténue recuperação económica nos leva ao ponto de onde verdadeiramente nunca saímos: os “investimentos” dos nossos empresários só são “competitivos” com base no pagamento de baixos salários e na desregulação dos horários e condições de trabalho. Um “modelo de desenvolvimento” avesso à qualificação, à especialização e à competitividade global que é hoje o maior entrave à criação sustentada de emprego e ao crescimento da nossa economia.

desemprego2013.jpgAo nosso empresariado e à sua ditadura dos baixos salários já sobrarão agora saudades dos bons tempos da troika, da austeridade passista e do desemprego a caminho dos 20%…

Bootcamps, a universidade no século XXI

bootcamp.jpgQuando se ouvem as novas teorias acerca da escola que é uma seca, que transmite conhecimentos inúteis, que usa pedagogias ultrapassadas e que precisa de se reinventar aligeirando currículos, simplificando as matérias e garantindo, a todo o custo, o sucesso de todos os alunos, não se pense que a Universidade, de onde  vêm a maioria dos mentores destas novas ideias, ficará imune à anunciada revolução educativa.

A nova realidade, segundo os gurus educativos, é que a geração do milénio quer tudo muito depressa e se aborrece de morte se tiver de andar na universidade a estudar durante todo o tempo necessário para concluir um curso superior normal. Além disso, consta que são empreendedores cheios de ideias e competitivos, que querem começar rapidamente a empreender e a inovar. E receiam perder o entusiasmo se ficarem demasiado tempo parados ou a marcar passo no entediante ensino superior tradicional.

Especialmente para estes jovens apressados, chegaram os Bootcamps, cursos intensivos de aproximadamente três meses em que se aprendem os conhecimentos fundamentais sobre determinada temática, procurando ir ao encontro das tendências e das necessidades do mercado laboral:

[Os Bootcamps] eliminam os conteúdos teóricos desnecessários das carreiras universitárias, resumem os conteúdos práticos e transmitem-nos de tal forma que possam compreender-se em poucas semanas. Num Bootcamp ensinam-se essencialmente habilidades práticas que permitem ao estudante ser mais competitivo.

Estes cursos surgiram inicialmente associados às novas tecnologias e à programação, mas têm vindo a alargar-se a outras áreas, como a gestão ou o empreendedorismo. E até prestigiadas universidades como o MIT se renderam à nova tendência.

As vantagens atribuídas a esta modalidade formativa são praticamente a antítese do que nos habituámos a associar ao ensino universitário tradicional: cursos de 3 a 5 anos, um elevado número de “cadeiras”, uma formação reflexiva e abrangente e, claro, a própria vivência universitária, com ritmos, rotinas, calendários e rituais próprios que deixam a sua marca indelével nos estudantes que por ela passam.

Nestes cursos de curta duração, quase tudo isso desaparece: a formação adquire um carácter utilitário e instrumental que parece contradizer a essência do próprio ensino universitário. As matérias são simplificadas e condensadas, resumidas àquilo que supostamente interessa a estes alunos inquietos e sem tempo a perder.

Um notório sinal dos tempos, quando o conhecimento teórico tende a ser desvalorizado sempre que não tem uma aplicação prática imediata. E em que as escolas superiores são convidadas a procurar financiamentos adaptando a sua oferta educativa às necessidades das empresas e às solicitações do mercado da educação.

A verdadeira diferenciação pedagógica

Lê-se a entrevista do DN à fundadora da Park International School e antevê-se uma escola inacessível a 99% dos Portugueses, mas que segue o modelo que as elites mais cosmopolitas do país desejam para os seus filhos. Aqui a verdadeira diferenciação pedagógica faz-se pela capacidade económica dos pais, que querem que os seus filhos sejam “líderes”, num mundo “sem fronteiras” e aceitam pagar mensalmente, pela escola de cada um, bem mais do que um salário mínimo nacional.

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Apesar da recente partilha de despojos com chineses, angolanos e outros capitalistas globais, com ou sem pátria, há uma casta de donos disto tudo que continua a dar cartas, e até nos apelidos dos empreendedores notamos como o capital dos bancos falidos que agora andamos todos a pagar se reciclou nos novos empreendimentos onde as elites se reinventam.

“Desde que criei o Park – com dinheiro que tinha, uma ajuda da família e de amigos e algum financiamento bancário – que pensei que não queria abrir o capital. Acabei por dar uma posição acionista à Marta (Villarinho), mas nós estamos juntas desde o início e complementamo-nos perfeitamente, portanto fazia sentido. Mas agora (em 2015) achei que tinha mesmo de o fazer se não queria ficar limitada ao 6.º ano. Era ficar ali ou abrir o capital e crescer sem medos.” E não foi preciso pensar muito: entregou uma fatia do negócio a um fundo de private equity gerido pelo Menlo Capital, que permitiu o encaixe financeiro necessário para responder à pressão dos pais para alargar o colégio ao secundário (o plano ficará completo quando os miúdos atualmente no 7.º lá chegarem) e criar a primeira escola internacional de Lisboa. “E tivemos imensa sorte com os sócios que encontrámos” – bem como com a parceria estabelecida com o Imofomento, do BPI, fundo que detém todos os edifícios onde funcionam as escolas e a quem os sócios do Park pagam uma renda.

[Um] colégio que, apesar de relativamente recente, está cotado entre os melhores do país. Onde a alimentação dos miúdos resulta de uma parceria com a Go Natural e eles são ensinados, além do que é vulgar aprenderem na escola, a pensar e a questionar o mundo, com a ajuda de programas inovadores como o My Time, em que, sob proposta dos professores, têm a oportunidade de brilhar no que mais gostam de fazer – tenha ou não ligação direta com o que estão a aprender. Ou o Big Idea, em que se juntam em grupos de dez ou doze, de idades diferentes, para propor uma resposta a perguntas abertas como “para que servem as cores” ou “explica matematicamente a tua escola” – projetos que vão desenvolvendo uma manhã por semana e para cuja conclusão têm todos os professores disponíveis para ajudar e todo o material que possam querer, de papel higiénico e plasticina a impressões 3D.

“Os miúdos vivem aqui numa bolha e se não os preparamos para o que há além dessa bolha não vão ser felizes. Por isso é tão importante essa parte, que passa por lhes mostrarmos que têm de ser cidadãos do mundo, de conhecer diferentes culturas, de aceitar diferentes pontos de vista e de ser responsáveis.” Nessa lógica, o Park construiu um programa notável que passa por dedicar determinado número de horas curriculares – dependendo do ciclo educativo – a um programa de fellowship em que são ensinados a ajudar dentro da escola, na comunidade e no mundo. “Eles é que escolhem, mas podem por exemplo ir ter com a senhora da cozinha para lavar pratos, ou atender telefones.” O serviço à comunidade passa este ano por irem ensinar os velhotes de um lar vizinho a mexer no iPad e os miúdos de uma escola próxima a usar os smart boards oferecidos pelo Park. E na sua versão mais ampla o programa escolhido para este ano foi o Girl Rising, promovido por uma ONG que quer despertar consciência para as muitas raparigas que ainda não vão à escola.

De resto, o projeto educativo do Park funciona na lógica da maioria das escolas: até ao 1.º ciclo há um professor que só fala português e outro que só fala inglês em cada sala; do 1.º ao 6.º ano são seguidas as metas do Ministério da Educação, com aulas em português (Língua Portuguesa, História e Matemática) e em inglês (alguns temas de Estudo do Meio, Ciências, Educação Física, Música, Artes, Tecnologias…), e a partir do 7.º é seguido o programa de Cambridge com o ensino a passar todo para a língua inglesa. Mas com uma preocupação acrescida pela aprendizagem da História, da língua e da cultura portuguesas – que implica um aumento da carga horária mas que Bárbara considera essencial para manter as raízes.

“No fim das aulas, nós levamo-los ao Belenenses, ao CIF (ténis) ou ao Holmes Place (natação) e os pais só têm de os ir buscar ao final da tarde, o que é uma facilidade para eles.

Resta apenas uma questão: quanto custa ter um filho na escola que Bárbara de Beck constrói diariamente? “Cerca de oito mil euros por ano”, responde de imediato.

Empreendedorismo é…

blog-do-empreendedor2[1]Uma ideia potencialmente boa que é completamente desvirtuada quando se pensa em dar dinheiro a desempregados para que se tornem empreendedores à força em vez de apostar em quem tem realmente vocação, conhecimentos e ambição de empreendedor.

O Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) já abriu as candidaturas para o NEET (sigla de “Neither in Employment nor in Education or Training” ou nem-nem), um programa com uma dotação de 5 milhões de euros, apoiado por fundos europeus, que visa estimular e apoiar o empreendedorismo.

Na verdade o empreendedorismo resulta muito mais em com adultos qualificados e empregados, com experiência profissional, do que com jovens desempregados e inexperientes. As boas ideias de negócio de que precisamos são sobretudo investimentos que tirem partido do know-how e da implantação no mercado de empresas já existentes, potenciando o seu crescimento, o aumento das exportações e a criação de emprego. Não são pequenos projectos virados para a “comunidade local” onde os desempregados brincam aos negócios uns com os outros e a serem patrões-de-si-próprios até que se acabem os subsídios ou as poupanças familiares.

Também quero crer que quem congemina e promove estas iniciativas não é tão idiota como parece, e sabe bem que o objectivo inconfessado disto tudo é promover o consumo interno por conta do dinheiro europeu, que aqui entra a fundo perdido, e abater, ainda que provisoriamente, uns milhares de jovens “empreendedores” à lista dos desempregados.

Inverdades – I

Este salário mínimo de 557 euros tem um peso de 877 euros por mês para as empresas, são 300 euros que o Estado leva.

baker_dough.gifQuem assim fala é um dos donos da Padaria Portuguesa em entrevista ao Expresso. Ia embalado pela conversa, e disse-o já depois de defender horários laborais de 60 horas, dignos dos primórdios da Revolução Industrial, defendendo que essa é a solução para a falta de rendimentos das famílias decorrente dos baixos salários que se praticam em Portugal.

Só que os 300 euros não é o Estado que os leva, mas sim, como explica José Soeiro, a Segurança Social. E as contas nem estão bem feitas.

Se quisesse ser honesto, o patrão das padarias reconheceria que um salário de 577 euros mensais, sem mais encargos para os patrões, significaria que os trabalhadores não teriam direito a férias pagas, baixas por doença, subsídios de desemprego ou pensões de reforma.

A WebSummit e as ilusões da nova economia

web.summit.jpgNão é um autor que habitualmente me inspire, mas desta vez Henrique Monteiro coloca questões muito pertinentes a propósito da cimeira da Web que está a decorrer em Lisboa.

Porque é que a nova economia das startups e do empreendedorismo, da quarta revolução industrial e da internet das coisas, da automatização e da robótica, não gera crescimento económico que se veja, não cria empregos e, em vez disso, vai aos poucos esboroando a classe média que empobrece quase ao mesmo ritmo a que os geeks da nova vaga empresarial e tecnológica constroem as suas fortunas?

Nesta nova economia, os cidadãos servem como consumidores, mas são cada vez mais excluídos enquanto produtores. Pois a concepção dos produtos é confiada aos génios da informática e dos negócios, enquanto a produção física fica a cargo de robôs. Empregos normais para pessoas normais, aquilo que existiu em todas as anteriores revoluções industriais, tendem agora a desaparecer.

E se formos a olhar bem para os resultados visíveis de todo o progresso das últimas décadas, vemos que o essencial da evolução tecnológica tende a convergir e a concentrar-se no telemóvel inteligente que quase todos, nos dias de hoje, transportam consigo. A verdade é que, por baixo da carapaça de sofisticação electrónica, os automóveis, os aviões, os elevadores ou os frigoríficos continuam a funcionar basicamente como o faziam há 50 anos atrás. E nalguns casos há mesmo regressões: demora-se hoje mais tempo a ir de Londres ou Paris a Nova Iorque do que nos anos 70 do século passado a bordo de um Concorde.

Haverá verdadeiro futuro numa revolução que exclui a grande massa da população, remetendo-a para a improdutividade, o trabalho indiferenciado ou a economia do biscate, ao mesmo tempo que cria toda uma geração de consumidores passivos, curvados a olhar para o telemóvel de última geração enquanto usam a mais recente e sofisticada das aplicações? O autor não dá respostas, mas desafia todos, inclusivamente a classe dos jornalistas, a olhar mais atenta e criticamente as WebSummits, as empresas que as patrocinam e os negócios que estão na moda:

É tempo de os jornalistas abandonarem a simpatia imediata quando têm contactos com o mundo das start-ups. É tempo de fazer perguntas sérias. Porque é que o dono da Amazon não quer trabalhadores nos seus armazéns? Porque é que só quer drones a arrumar as caixas? De onde vem esta obsessão distópica contra a figura do trabalhador? É tempo de acordar, porque populistas como Trump estão a preencher o abismo que existe entre a boa imprensa imediata das WebSummit e os efeitos negativos que essa economia tem nas pessoas. Sem nunca pôr em causa a inovação, já é tempo de desafiarmos a sereia tecnológica. A economia start-up tem um futuro coletivo lá dentro ou é um fetiche de uma elite?