Falares “calafonas”

Voltando a uma antiga série de posts sobre os falares regionais do nosso país, eis um complemento à lista de palavras e expressões típicos dos Açores já aqui publicada: os termos de origem inglesa que, trazidos pelos emigrantes regressados da Califórnia e doutras partes dos EUA, acabaram por entrar no uso popular em algumas comunidades açorianas…

Pico.jpgAçucrim: gelado.
Alvarozes: jardineiras, fato-macaco.
Base: autocarro.
Calafona: emigrante regressado dos EUA.
Candiles: rebuçados.
Clauseta: armário, despensa.
Cula: mala térmica.
Estoa: loja.
Frejoeira: frigorífico.
Frisa: congelador.
Gama: pastilha elástica.
Gárbixa: lixo.
Mapa: esfregona.
Pana: alguidar.
Pinabara: manteiga de amendoim.
Pinotes: amendoins.
Ratdogue: cachorro quente.
Sinco: lava-louça.
Sinó: neve.
Slipas: chinelos.
Snicas: sapatilhas, ténis.
Sonavabicha: filho da p…
Sonavagone: filho da mãe.
Suera: camisola.
Traque: camião.
Trela: atrelado.

O país dos baixos salários

limpezas.jpgNeste país de baixos salários, um número crescente de empregadores mostra-se preocupado: habituados a pagar mal, usando como bitola o salário mínimo, não é que andam com dificuldade em arranjar “quem queira trabalhar”?

No sector do alojamento local, muitos proprietários encontraram forma de ganhar dinheiro fácil desalojando inquilinos para alojar turistas. Mas apesar de enriquecerem a olhos vistos graças à nova galinha dos ovos de ouro do turismo português, faz-lhes confusão terem de pagar mais alguns euros a quem lhes limpa os apartamentos antes da chegada dos clientes.

O boom do turismo, com a multiplicação de casas em alojamento local, está a fazer disparar os preços da mão-de-obra na limpeza dos apartamentos turísticos. Num negócio onde a arrumação e a limpeza funcionam como o primeiro cartão-de-visita, arranjar quem faça bem este trabalho é cada vez mais caro. Há já quem só consiga arranjar trabalhadores a pagar 14 euros à hora, o dobro do preço dos anos de crise, e, no Algarve e em Lisboa, começa-se a cobrar não pelo tempo mas pelo metro quadrado dos apartamentos.

Estamos aqui a falar de limpezas, trabalhos geralmente considerados pouco qualificados, mas que nem todos, a começar pelos donos das casas, querem fazer. E o que dizer de jovens altamente qualificados, com competências muito valorizadas no mercado de trabalho a nível mundial? Aqui até a SONAE, um grupo económico cuja visão estratégica já terá conhecido melhores dias, parece andar a ver navios…

A Sonae tinha dez vagas de emprego para tecnologias de informação. Oferecia 1000 euros por mês, mais subsídios… não conseguiu preenchê-las. As TI estão no auge, as faculdades portuguesas, que todos os anos libertam centenas de jovens talentos, não respondem à crescente procura. E há já empresas estrangeiras a virem contratar a Portugal os profissionais mais qualificados. “Mil euros é praticamente o salário mínimo a pagar na área”, frisa Paulo Ayres, manager de TI na Spring Professional Portugal. “A escassez de mão-de-obra está a gerar uma grande pressão salarial”, acrescenta Victor Pessanha, manager na Hays.

Note-se que estamos a falar de uma área onde os bons profissionais podem facilmente ganhar, nos EUA ou nos países mais desenvolvidos da Europa, três ou quatro vezes mais do que as nossas empresas lhes querem oferecer. Pelo que o problema não é exactamente, como tantas vezes nos dizem, a falta de formação ou de talentos em quantidade suficiente para a procura existente. Aumentar o número de cursos ou de vagas nas ciências dos computadores iria apenas intensificar a emigração dos futuros profissionais, pois por cá a persistente tendência continua a ser a contenção salarial.

O problema são mesmo os ordenaditos baixos, e esta ideia dos nossos empresários de que qualquer trabalhador lhes deve ficar agradecido por ter emprego. É o mileurismo militante de empresas e grupos económicos que negoceiam à escala mundial, tirando partido da economia globalizada para multiplicar lucros e oportunidades. Mas que, quanto a remunerações, continuam a funcionar à antiga portuguesa: nem pensar em partilhar o lucro do patrão com os trabalhadores que lho deram a ganhar.

Uma proposta disparatada sobre o estudo da emigração

emigrante.JPGPaulo Pisco, deputado do PS eleito pelo círculo eleitoral da Europa, quer que os Portugueses conheçam e compreendam melhor a realidade histórica da emigração portuguesa. E depois de várias considerações, em artigo de opinião no Público, sobre o desconhecimento e o preconceito que, segundo ele, a sociedade portuguesa mantém em relação à emigração, saiu-se com isto:

Infelizmente, nos currículos escolares, a abordagem da emigração portuguesa não vai além de umas breves referências superficiais e sem significado no ensino secundário nas disciplinas de Geografia ou História. A emigração não pode continuar a ser uma espécie de tabu, nem ser mantida à distância, até porque é reconhecida pela própria Constituição da República.

Já para o final da prosa, percebe-se que o objectivo é divulgar a “iniciativa legislativa” do deputado, designação presunçosa de um mero projecto de resolução de que é primeiro subscritor e onde se recomenda que se passe a “ensinar de forma aprofundada a história da emigração a nível do ensino secundário”.

Ora bem, nem sei por onde começar perante tão rematado disparate. Talvez por salientar que a emigração é uma constante estrutural da História portuguesa, estando obrigatoriamente presente nos programas da disciplina no ensino básico, especialmente no 6º e no 9º ano. E não é tratada superficialmente, antes pelo contrário: motiva até, frequentemente, trabalhos de pesquisa e entrevistas feitos pelos alunos a antigos emigrantes.

Quando escreve que a emigração é um tema “tabu” o deputado não sabe do que fala, mas pelo menos num ponto importante posso esclarecê-lo: com a concretização dos planos da flexibilidade curricular do seu correligionário João Costa a disciplina de História, tal como a de Geografia, ficarão reduzidas, no 9º ano, a meros 90 ou 100 minutos semanais. E aí não será apenas a emigração, mas todos os outros temas de um programa que foi recentemente aumentado que serão dados superficialmente. Por não haver tempo para mais.

Ainda assim, se quiser sensibilizar o ME para a importância dos temas históricos na formação pessoal, cultural e cívica dos nossos alunos e para a importância de não reduzir os tempos lectivos da disciplina mais do que tem sido feito nos últimos anos, ficar-lhe-ei sinceramente agradecido.

No entanto, nota-se que o deputado Pisco não se mostra muito interessado no ensino básico. Ele quer que se estude em profundidade a emigração portuguesa, sim, mas no secundário. Ora experimente então olhar para os planos curriculares deste nível de ensino e diga-nos onde colocaria esse estudo, que não faz parte de nenhuma das disciplinas comuns a todos os cursos. Em Português? Na Filosofia? Estará a pensar em criar uma nova disciplina para tratar especificamente do assunto que o preocupa? Ou em produzir mais um “referencial”, a juntar aos que já existem, para suscitar a abordagem interdisciplinar dos fenómenos migratórios?

Atrevo-me a supor que o deputado não pensou em nada disto, assim como a generalidade dos políticos nada pensam, em concreto, cada vez que mandam os seus bitaites acerca do que a escola deveria fazer. Apenas saberá, e é isso que lhe interessa, que necessita de ir fazendo a sua prova de vida parlamentar, não vá correr o risco de ficar esquecido quando forem elaboradas as próximas listas de candidatos ao Parlamento. Ora é a este género de parlamentares que as resoluções se adequam às mil maravilhas: não legislam, nada propõem de concreto, a ninguém comprometem.

Nas escolas, é que vamos ficando fartos de tantos treinadores de bancada e do eco mediático que tão facilmente encontram quando debitam as suas ideias disparatadas.

Excesso de habilitações

faxineira.JPGPercebo que se queira aumentar a escolarização dos jovens portugueses, garantindo que todos cumprem a escolaridade obrigatória e que o maior número possível possa completar os seus estudos no ensino superior, de forma a que o país disponha da maior número de quadros qualificados e os jovens realizem as suas legítimas ambições profissionais.  Mas a verdade é que as estatísticas vêm consistentemente apontando um problema sério: a economia não se desenvolve ao mesmo ritmo a que o sistema educativo produz novos licenciados, mestres e doutores, e o resultado é que as pessoas acabam muitas vezes a trabalhar em áreas que não correspondem à sua formação académica ou a realizar tarefas para as quais não precisavam de tantas habilitações. A alternativa, para muitos dos que querem mesmo trabalhar naquilo para que se prepararam e sentem vocacionados é, como bem sabemos, a emigração.

Entre os jovens empregados, mais de metade considera ter as qualificações escolares adequadas para as funções que ocupa no seu trabalho, mas há ainda uma grande franja – um terço – que diz existir algum desajustamento por ter qualificações superiores às necessárias, estima o Instituto Nacional de Estatística (INE) num estudo publicado nesta sexta-feira.

Este excesso de habilitações afecta sobretudo os mais jovens, o que confere com a ideia generalizada de que se trata de um fenómeno relativamente recente: tradicionalmente, os engenheiros, advogados, engenheiros, arquitectos, professores e outros profissionais com formação superior encontravam colocação com relativa facilidade logo que acabavam os cursos, e muitas vezes o seu reduzido número nem chegava para suprir a procura existente.

Não havendo uma estratégia para o crescimento e o desenvolvimento económico que passe pela aposta em sectores estratégicos capazes de criar emprego qualificado, não fará sentido continuar a apostar no aumento da oferta de cursos e de vagas no ensino superior. Andamos apenas a frustrar as expectativas de tantos jovens, preparando-os para profissões que nunca irão exercer, ao mesmo tempo que fornecemos a países mais ricos, a custo zero, os profissionais especializados que eles se dispensam de formar. Além do esbanjamento de dinheiro isto representa, acima de tudo, um desperdício de capital humano, o mais valioso dos nossos recursos e o que, desta forma, menos estamos a aproveitar.

 

Mitos sobre a emigração portuguesa

Emigrantes.jpgA emigração é uma constante estrutural da sociedade portuguesa, pelos menos desde a época dos Descobrimentos. Confinados a um território escasso e com recursos limitados, os Portugueses começaram cedo a sair do seu país em busca de oportunidades de uma vida melhor que por cá lhes iam sendo negadas.

Mas a emigração, se nunca deixou de existir, nem sempre ocorreu com a mesma intensidade. Pondo de parte épocas mais remotas, e olhando apenas os últimos 60 anos, eles iniciam-se com um período, correspondente aos anos 50, 60 e início da década de 70 do século passado, caracterizado por uma intensa emigração para os países da Europa Central. A emigração, legal e clandestina, chegou a ser superior ao saldo fisiológico, tendo a população residente em Portugal diminuído ao longo da década de 60.

Já o final do século XX e o início do novo milénio foram marcados por um claro refluxo do movimento migratório, tendo Portugal passado a ser sobretudo um país de acolhimento de imigrantes, oriundo primeiro das antigas colónias, mais tarde dos países da Europa de Leste.

Mas o que se veio a tornar preponderante, no novo milénio, foi o ressurgimento da emigração, à medida que a estagnação económica e a crise financeira fizeram aumentar fortemente o desemprego e reduziram ainda mais os baixos salários da maioria dos trabalhadores que conseguiram manter o posto de trabalho. Ora é sobre o actual ciclo migratório, que estará a ter um impacto económico e social comparável ao da segunda metade do século passado, que se debruçam um novo livro lançado pela Gradiva e a correspondente peça jornalística do Público.

Os investigadores sociais que escreveram o livro basearam-se num estudo aprofundado que lhes permitiu negar aquilo a que chamam mitos sobre a emigração portuguesa:

Os novos emigrantes não são maioritariamente pessoas altamente qualificadas. Em particular no que se refere à emigração para a Europa, que é o fluxo mais numeroso, predominam ainda emigrantes com qualificações médias ou baixas. A crise económica e a consequente falta de empregos afectam pessoas de todos os estratos sociais, e a emigração reflecte a sociedade portuguesa no seu todo. Comparativamente com épocas anteriores, ela é agora mais jovem, mais feminina e mais qualificada.

Portugal não perdeu meio milhão de habitantes com a emigração. Porque as 485 mil saídas contabilizadas pelo INE entre 2011 e 2014 foram, em muitos casos, temporárias. Muitos empregos no estrangeiro são, também eles, precários, levando os trabalhadores a regressar no final dos contratos. O que leva a rebater o terceiro mito…

Muitos emigrantes de longa duração acabam por regressar, ou tencionam fazê-lo. Esperam é por uma melhoria das condições económicas do país, que tarda em acontecer. O que significa igualmente que muitos dos que regressam voltam, mais tarde, a emigrar.

Não sei se o estudo o refere, mas sabemos que historicamente a emigração tende a aliviar as tensões e contradições da economia e da sociedade portuguesa, funcionando como uma válvula de escape perante os bloqueios tradicionais da nossa economia, como os baixos salários, a escassa produtividade e o desemprego ou o subemprego elevados. A emigração torna mais fácil aos que ficam encontrar emprego, mas traz também consigo o reverso da medalha: sendo muitas vezes os mais jovens, dinâmicos e inconformados os que saem, torna-se mais difícil para os que ficam imporem as mudanças necessárias para tornar a economia mais produtiva e eficiente e a remuneração do trabalho mais justa e equitativa.

Sucesso escolar

tap-portugal-1.jpgQue agora está na moda medir, de todas as maneiras e feitios, e promover, também de diversas formas, desde que todas elas saiam baratas ao contribuinte.

Pois o que eu pergunto é se o sucesso escolar se mede apenas pelo sucesso das aprendizagens escolares, ou deve ser aferido também, e só assim ganha sentido, quando contribui para a integração de cada indivíduo na sociedade, aproveitando-se ao serviço de todos as competências e conhecimentos adquiridos por cada um.

Por exemplo, e em números redondos, se Portugal forma anualmente 3000 enfermeiros e 2000 emigram todos os anos, alguma coisa merece ser questionada quanto ao investimento que fazemos, às expectativas que criamos e ao sucesso que estamos de facto a ter, não apenas na qualificação de pessoas, mas também no desenvolvimento da sociedade no seu todo.

Racismo e xenofobia na Polónia

De acordo com um inquérito feito em 2013 pelo Centro de Investigação sobre Preconceito, da Universidade de Varsóvia, 69% dos polacos não queriam não brancos a viver no país. Desde então, o ambiente piorou. E isso não se nota apenas nos protestos contra o acolhimento de refugiados, que têm levado milhares de pessoas a desfilar pelas ruas de diversas cidades da Polónia.

Reflecte-se na estatística criminal. “A Procuradoria-Geral da República registou 835 crimes de ódio em 2013. Em 2015, 1548. As vítimas são, sobretudo, pessoas de etnia cigana (236), judeus (208), muçulmanos (192) e negros (166). Os muçulmanos e os negros são muito raros na Polónia, pelos que estes números são surpreendentemente altos”, aponta Michal Bilewicz, membro daquele centro de investigação, numa entrevista por e-mail. 

DG-kJDmbuwA.jpgNos últimos tempos, têm-se tornado mais frequentes os relatos de insultos, intimidação e violência racista e xenófoba, que causam alguma perplexidade num país com uma grande homogeneidade étnica e cultural: quando mais de 99% dos habitantes da Polónia são eslavos, é caso para perguntar de que é que têm medo. Mas a realidade é que a desconfiança e o preconceito contra os estrangeiros estão bem presentes na sociedade e na mentalidade de uma grande parte dos polacos.

Sucede ainda que a Polónia é o segundo destino preferencial dos estudantes portugueses envolvidos no programa Erasmus, havendo também alguns portugueses, a maioria quadros de empresas, a trabalhar na Polónia. E estes nossos concidadãos vão sentindo igualmente a expressão desse ódio contra os estrangeiros bastante disseminado no país. Por vezes por as barbas ou o tom moreno da pele levarem a que sejam confundidos com árabes, outras vezes apenas por serem estrangeiros. E as agressões, se na maioria das vezes, são apenas verbais, por vezes envolvem também humilhação e violência física, como sucedeu nalguns casos relatados na notícia do Público acima citada.

Claro que nem todos os polacos pensam ou agem desta forma, que a intolerância é maior nas pequenas cidades do que em Varsóvia ou Cracóvia e que há portugueses que gostam de viver no país e não têm até agora razões de queixa. Mas também é verdade que o discurso do ódio e da intolerância tem sido aproveitado por políticos demagogos e irresponsáveis em busca de um bode expiatório para o descontentamento das populações, que tardam em sentir os benefícios do crescimento económico que a Polónia tem vindo a registar.

O ódio aos estrangeiros, particularmente aos judeus, a minoria étnica e cultural mais significativa, tem raízes profundas na Polónia, e já existia quando o país foi invadido e ocupado pela Alemanha nazi, que aí instalou os principais campos de concentração e extermínio. Hoje, restará um número residual de judeus, mas continuam a aparecer cruzes suásticas e mensagens anti-semitas pintadas nas paredes. E diaboliza-se a ameaça islâmica, como se vê na capa da revista polaca que ilustra este texto, quando praticamente não há muçulmanos na Polónia.

Preocupantes neste recrudescer da xenofobia e do racismo são, por um lado, os sinais de que o poder político conservador não irá tentar conter o discurso do ódio, responsabilizando e criminalizando os que o fomentam, como o exigem as leis europeias de defesa dos direitos humanos. Por outro lado, a relativa indiferença, quando não cumplicidade, com que a maior parte da população encara as acções dos activistas que defendem a discriminação e a expulsão dos imigrantes: ao contrário do que sucede noutros países, incluindo a Alemanha, na Polónia os neonazis não têm a oposição de um movimento forte, e extensivo a todos os quadrantes políticos, de rejeição do nazismo e do fascismo.