Lição de cidadania

Lição de cidadania seria o deputado José Silvano, apanhado a falsificar presenças no Parlamento, renunciar de imediato ao seu mandato. Ou, mostrando-se incapaz, como parece ser, de reconhecer a gravidade e de assumir a responsabilidade dos seus actos, o próprio Parlamento dispor de mecanismos expeditos para limpar a nódoa.

Pois não basta aos deputados arrogarem-se a superioridade moral que lhes permite estabelecer, nesta e noutras matérias, que a palavra do próprio “faz fé”. Se querem ser fiscais de si próprios, então têm de aceitar a responsabilidade acrescida que daí decorre.

E não podem, quando um deles é apanhado com a boca na botija, refugiar-se num silêncio envergonhado que só serve para alimentar as piores suspeitas: quantos mais deputados haverá a fazer o mesmo?…

Alguém explique, à classe política que nos desgoverna, que enquanto os representantes eleitos do povo derem exemplos vergonhosos e ficarem impunes, rindo na cara do povo que os elegeu, escusam bem de vir impingir aos alunos do básico aulas de Cidadania.

Não é por acaso que há cada vez menos vontade, nas escolas, de levar os alunos em visita de estudo à Casa da Democracia. Não é de agora, mas a imagem que muitos deputados dão de si mesmos e do seu trabalho é profundamente desmoralizadora para os jovens e para quem os quer instruir nas virtudes da democracia.

Entretanto, enquanto o deputado Silvano continua agarrado ao tacho, o seu feito atravessa fronteiras. E era ontem merecidamente gozado pelo El País…

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Rebeldia

criancas-tanque.jpgNo dia em que se comemoram 44 anos passados sobre esse grande acto de rebeldia colectiva que foi a vitoriosa Revolução de Abril, pergunto-me se faz hoje algum sentido ser-se rebelde em relação a autoridades e poderes instituídos.

A ditadura – a que agora já não é de bom tom chamar fascista – tinha os seus rostos, apoios, instrumentos de poder e repressão. Oprimia o povo, e isso legitimava e orientava a revolta que, naquela madrugada de Abril, acabou por ser vitoriosa. Mas os poderes que hoje nos dominam são mais vagos e insidiosos, não têm nome nem rosto, infiltram-se por toda a parte e impõem-se à escala global.

Que lição de coragem e rebeldia podemos então, nos dias de hoje, passar às novas gerações? A pergunta não terá uma resposta única ou definitiva, mas agradou-me especialmente aquela que li hoje no Twitter:

Digo aos meus alunos adolescentes que o maior acto de rebeldia que podem ter, nos dias de hoje, é aprender. Porque convertendo-se em pessoas cultas e formadas serão muito mais difíceis de manipular. Não há nada mais estimulante para um estudante do que ver que aprende e progride.

Colaborações: ComRegras

No Topo:Alunos manifestam-se em defesa da sua escola

Numa semana carente de boas notícias na área da educação, temos ainda assim um bom exemplo de como uma situação lastimável – o estado de degradação a se deixou chegar a Escola Secundária Camões, bem no centro da capital – pode afinal traduzir-se em algo de muito positivo e encorajador: os alunos da escola organizaram um protesto colectivo para denunciar as condições da escola e exigir o início imediato das obras inúmeras vezes prometidas mas nunca concretizadas.

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No Fundo: O recenseamento dos professores

A DGAE, a mando do governo, impôs às escolas públicas do continente o recenseamento de todos professores em funções. A tarefa, que tem assoberbado nas últimas semanas os serviços administrativos e as direcções escolares, chegou esta semana aos professores, que foram convidados a verificar os dados que lhes dizem respeito e a reclamar caso encontrassem algo que não estivesse em conformidade.

Reflexões natalícias III

pai-natal.JPGQuando a avaliação das “competências” invade à força toda o sistema educativo – veja-se o novo Perfil do Aluno e todo o enfoque nas educações para a cidadania que os novos planos ministeriais trazem consigo – espera-se que os professores dediquem cada vez mais tempo a transformar os seus alunos em cidadãos autónomos, críticos, activos, capazes de actuar no meio envolvente e de se tornarem eles próprios agentes da mudança económica, social e política.

Mas antes de se pensar em avaliar os alunos pela sua capacidade de melhorar o mundo em que vivemos, não seria mais lógico avaliar em primeiro lugar a comprovada incapacidade de políticos, gestores e burocratas em fazê-lo?…

Indo um pouco mais longe: não será já a busca das escolas e das pedagogias capazes de “fazer a diferença”, conduzindo ao sucesso escolar as crianças oriundas de meios desfavorecidos, um sinal inequívoco de uma sociedade conformada com a persistência da desigualdade e da pobreza?…

Prevenir a corrupção… numa escola perto de si

corrupcao.jpgJulgava eu que prevenir a corrupção, ou pelo menos reduzi-la aos níveis residuais das democracias mais antigas e sólidas do norte da Europa, passaria por dar o máximo de transparência aos actos da administração pública e do governo, através da publicação sistemática dos contratos públicos, das despesas dos diferentes serviços e das declarações de rendimentos dos titulares dos altos cargos políticos.

Pensava que dotar as polícias e tribunais de mais e melhores meios e competências para detectar e investigar a criminalidade económica permitiria identificar e levar à justiça, de forma célere, os culpados de crimes de corrupção activa e passiva. Que continuam a ser tentadores num país onde, por dificilmente se enriquecer a trabalhar, deixar-se corromper continua a ser, para muitos, uma tentação demasiado forte.

Afinal, estava enganado. No país onde se finge resolver os problemas nomeando conselhos e comissões, criaram mais um para “prevenir a corrupção”. E por onde é que estes senhores vão começar a atacar o problema? Quem é professor adivinha facilmente a resposta: pela escola!

Esclarece-nos a notícia do DN algo que sozinhos nunca iríamos discorrer: ninguém explicou aos corruptos, quando andaram na escola, que a corrupção é uma coisa má. O que vale é que o problema estará prestes a ser resolvido…

Chama-se “Mais vale prevenir que remediar” é o novo projeto que vai ser ensaiado nas escolas pelos Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC) no próximo ano. Este projeto-piloto visa a formação dos professores e nesta primeira fase vai abranger seis escolas (cinco no continente e uma nos Açores), do 4º ao 12ºano. Fonte oficial do CPC adiantou ao DN que “o objetivo é que com esta formação de educação para a cidadania relacionada com a prevenção da corrupção, os professores possa depois partilhar esses conhecimentos e valores com os seus alunos”. Até ao final de 2018 o CPC estima que sejam envolvidos cerca de 2000 alunos.

Continuo a pensar que, em matéria de comportamentos, atitudes e valores, a melhor pedagogia é a do exemplo, sobretudo daquele que vem de cima. De pouco serve os professores empenharem-se diariamente em dar aos seus alunos noções e modelos de honestidade, justiça e civismo, envolvendo-os em actividades que reforcem estes valores, se depois os exemplos de sucesso que a sociedade lhes apresenta, na política, na economia, no desporto, nos media, vão frequentemente no sentido oposto.

São o autarca que rouba-mas-faz, o dirigente desportivo que corrompe arbitragens mas ganha campeonatos, o ex-ministro que enriqueceu subitamente após a passagem pelo governo, o empresário que ganha concursos públicos e recebe favores estatais ao mesmo tempo que oferece viagens, presentes ou outros benefícios aos governantes e dirigentes que decidem a seu favor. Não faltam casos públicos que ilustram estas situações, havendo certamente muitos mais que nunca foram divulgados. E quase todos os visados, ilibados judicialmente ou punidos com penas pouco mais do que simbólicas, são a demonstração clara de que, em matéria de corrupção, o crime quase sempre compensa.

Mas claro que podemos sempre fingir que, com mais formação para professores sobre o tema e umas aulas de Cidadania para os alunos, o problema da corrupção ficará definitivamente resolvido…

Educação Financeira à moda dos Costas

ed-financ.JPGConduzindo uma agenda mediática ao sabor de efemérides, eventos, patrocínios e outras iniciativas avulsas, o secretário de Estado da Educação, João Costa aproveitou uma sessão de entrega de prémios para falar, no Dia Mundial da Poupança, sobre os planos do ministério relativamente à Educação Financeira. Uma área curricular que não tem direito a honras disciplinares mas para a qual já existe há alguns anos um referencial e que o governo quer tornar, no próximo ano, obrigatória.

A partir do próximo ano, a formação financeira vai ser lecionada em todas as escolas, na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, estando em preparação a formação de professores, anunciou hoje o secretário de Estado da Educação, João Costa.

“Não nos passa pela cabeça que um aluno passe 12 anos pela escola [do 1º ao 12º ano] sem adquirir conhecimentos relacionados com a formação financeira ou a educação rodoviária”, afirmou o governante, numa sessão solene onde foram anunciados os vencedores da 6.ª edição do concurso de literacia financeira “Todos Contam”, na Escola EB 2,3 de Fernando Pessoa, em Lisboa. O plano do Governo é, segundo o secretário de Estado, formar ainda este ano um coordenador de cidadania e desenvolvimento “em cada escola”.

João Costa lembrou que atualmente a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento já é lecionada em 235 escolas, no âmbito do projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, mas a partir do próximo ano a disciplina vai ser alargada a todas as escolas do país.

Discordo profundamente desta organização avulsa do currículo, com base em saberes utilitários, dispersos e desestruturados, feita ao sabor das modas pedagógicas e, neste caso em concreto, do discurso neoliberal que insidiosamente se vai impondo como pensamento único em matérias económicas.

Reafirmo, como já por aqui escrevi diversas vezes, que a literacia financeira se adquire aprendendo Economia, uma disciplina que hoje só existe no secundário, disponível apenas para um reduzido número de alunos. Subscrevo por isso a proposta da Associação de Professores de Ciências Económico Sociais (APROCES) no sentido de que a educação económica e financeira seja efectivamente integrada no currículo, mas na forma de uma disciplina e não de um qualquer apêndice curricular. E acrescento: leccionada por professores com habilitações científicas na área, não com as formações instantâneas que o secretário de Estado, assim que arranjar dinheiro para as fazer, nos vai querer impingir.

Quanto aos actuais programas promovidos pelas autoridades reguladoras e supervisoras da actividade financeira junto de algumas escolas seleccionadas: achei especialmente indecorosa a presença do governador do Banco de Portugal, tendo em conta o que já nos custou o resgate de diversos bancos sob a sua supervisão. É espantoso como é que quem se mostrou incapaz de impedir os banqueiros de desviar e esbanjar tantos milhões ainda tem a desfaçatez de vir às escolas ensinar aos meninos a poupar uns tostões. Como se os problemas económicos e financeiros que temos, e que deixaremos às próximas gerações, se resolvessem com o facto de sermos poupadinhos. Como se tivesse alguma coisa para ensinar os outros quem se falha tão clamorosamente no seu próprio trabalho.

 

Leituras: António Sérgio – Educação Republicana

antonio-sergio.JPGQue se deve entender por democratização ou republicanização do ensino? É ter escolas onde se pregue a democracia e a república?

Não: é ter escolas onde se adquiram aqueles hábitos, aquelas maneiras de proceder, que devem caracterizar o cidadão republicano.

A pregação de doutrinas políticas, sociais ou religiosas, feita pelos mestres à mocidade, é muitas vezes contrapro­ducente; a melhor mocidade, a de espírito mais vivo, tem tendência a opor-se ao que lhe pregam os seus mestres; saíram muitos ateus do colégio religioso de Campolide; nas escolas da Monarquia surgiu a mocidade republicana; das escolas da República não deixam de ir saindo, agora; muitos jovens que são monárquicos. – Que significa tudo isto? – Significa que o que importa, neste caso, não é pregar a Democracia dentro das aulas da escola pública: o que importa, sobretudo, é fazer da própria escola, do conjunto dos estudantes, uma sociedade democrática.

É isto o que tenho pregado, e o que expus há muitos anos, numa série de estudos sobre a educação cívica, mos­trando como os alunos de uma escola se podem organizar sob a forma de democracia, elegendo os seus magistrados, desde o presidente da República até aos vereadores e aos juízes, e habituando-se assim a proceder republicanamente. Seria isto, senhores, a democratização da mocidade, não por palavras, mas por actos.

Democratizar a escola é, além disso, desvanecer o mais possível a velha distinção das classes liberais e das classes mecânicas, obrigando os futuros cidadãos, a qualquer classe que eles pertençam, ao trabalho manual na escola; dando carácter e base científica e portanto liberal, aos trabalhos mecânicos; colocando nas mesmas escolas, em comunidade de trabalho, os filhos do povo e os da burguesia; e organi­zando os grupos de alunos em corporações profissionais.

Democratizar a escola é ainda dificultar o acesso das altas carreiras universitárias aos filhos dos ricos que não têm capacidade para os mais difíceis trabalhos de ciência e da literatura; e, pelo contrário, facilitar esse acesso aos filhos dos pobres que nasceram com talento.

António Sérgio, excerto de um discurso proferido a 31/01/1924.