EF deve contar para a média do Secundário?

desporto-p-totosPelo menos dois terços dos alunos do secundário viram a sua média final ser prejudicada por não terem podido incluir nestas contas a nota de Educação Física. E este é o valor mais baixo encontrado, já que, dos três anos analisados, num deles quase 80% dos estudantes teriam tido melhor média de acesso ao Ensino Superior se a disciplina tivesse contado. Os números fazem parte de um estudo alargado que será apresentado brevemente pelo CNAPEF — Conselho Nacional das Associações de Professores e Profissionais de Educação Física, como contou ao Observador Avelino Azevedo.

Deve a nota de Educação Física, tendo em conta as características da disciplina, contar como todas as outras para a média final do Secundário? Em princípio, diria que sim. Mas ao contrário de tantos que têm esgrimido com vigor as suas convicções, contra ou a favor, não consigo ter uma posição definitiva sobre o assunto. Não pela questão em si mesma – claro que o trabalho e a aprendizagem dos alunos, traduzidos numa classificação, devem sempre ser valorizados. O problema está, obviamente, na formação da média de candidatura ao ensino superior.

Visto na perspectiva dos representantes da disciplina, o caso parece pacífico: como já se suspeitava e os estudos realizados vieram confirmar, cerca de 70 a 80% dos alunos melhoram as suas médias finais se elas incluírem a nota de EF. Isto sucede, naturalmente, porque esta disciplina é das que tem dos melhores resultados médios em todo o Secundário.

Só que esta leitura dos números não espelha por completo a realidade. Em primeiro lugar, porque um benefício tão generalizado tende a anular-se a si próprio: se quase todos os alunos sobem as suas médias, as posições relativas não sofrerão grandes alterações. E se os alunos concorrem ao ensino superior com notas mais altas mas as vagas são as mesmas, o que sucede na prática é que as médias de entrada se tornarão mais elevadas.

Em segundo lugar, há prejudicados: os alunos com médias mais elevadas, que geralmente conseguem notas muito altas nas disciplinas “de estudo” mas nem sempre têm as capacidades físicas ou – há que reconhecê-lo também! – o empenhamento necessário na disciplina de EF, obtendo aqui uma nota mais baixa que lhes pode descer a média.

O ex-ministro Nuno Crato, que em 2012 determinou que a disciplina de EF não contasse para a média do Secundário (excepto para alunos que se candidatassem a cursos de Desporto) reagiu entretanto, no Twitter, com natural desagrado, à reversão da medida:

Diga-se em abono da verdade que, para especialista em estatísticas, o raciocínio simplista de Crato deixa algo a desejar. Não faz sentido querer-nos convencer que a nota mais elevada numa só disciplina levará um aluno a ultrapassar outro que teve melhores notas no conjunto das outras disciplinas. Isso só sucederá se tiverem uma média muito próxima e a diferença das notas em EF for relativamente acentuada.

Note-se ainda que estas questões se colocam essencialmente, por vezes com elevado dramatismo, aos estudantes que se candidatam aos cursos mais pretendidos: a Medicina, as Engenharias da moda e mais uns quantos com elevada procura. Neste campeonato todas as centésimas contam, numa competição entre escolas e alunos nem sempre leal. E é neste contexto que, na falta de medidas verdadeiramente reformistas do actual sistema de acesso ao ensino superior, a não consideração da nota de Educação Física foi vista por muitos, no tempo de Nuno Crato, como indutora de alguma justiça relativa.

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Tudo aprovado!

c-ministros.jpgForam aprovados os novos currículos.

Educação Física volta a contar para entrar no superior

Governo aprova nova lei da Educação Especial

Dando por concluído o processo de consulta pública, o Conselho de Ministros aprovou hoje a extensão, a todas as escolas, da reorganização curricular concebida para o projecto da flexibilidade curricular. Este decreto mexe também nalgumas regras referentes ao cálculo da média do secundário e ao acesso ao ensino superior, para a qual a nota de Educação Física também passará a contar.

O enquadramento dos alunos com necessidades especiais poderá levar uma grande volta com a filosofia, dita inclusiva, do novo regime legal.

E aposto que, apesar das críticas, das dúvidas, das sugestões e dos pareceres desfavoráveis, a maioria dos quais oriundos de professores no terreno, que lidam com alunos e dificuldades reais, e não abstracções teóricas ou estatísticas, os diplomas terão sido aprovados sem alterações significativas em relação aos projectos iniciais.

Daqui por pouco mais de um ano, poderão apresentar estas mudanças como trunfo eleitoral, pois estarão no terreno há tempo suficiente para poderem reivindicar os louros da política “reformista”. No que correr mal, sempre poderão colocar as culpas nos mesmos de sempre: os professores retrógrados, imobilistas avessos à mudança e aos novos “paradigmas” do século XXI.

Falta de material

plinto.gifNo ano passado, estas falhas poderiam justificar-se pela novidade das provas de aferição no 2º ano de escolaridade. Mas agora que a situação se repete, a questão é incontornável: faz sentido avaliar aprendizagens que, por falta de material indispensável, não são efectivamente desenvolvidas no quotidiano escolar?

O material pedagógico faz falta nas escolas durante o ano todo, para poder ser usado pelos alunos, ou apenas é necessário para que se cumpra o guião das provas de aferição?

Avaliar o que não se ensina fará parte das novas competências educacionais do século XXI?…

Com as provas de aferição à porta, há muitas escolas que não têm os equipamentos necessários para a avaliação dos alunos. A partir de dia 2 de Maio, arrancam os exames de Expressões Artísticas e de Expressões Físico-Motoras dos alunos do 2.º ano de escolaridade.

Segundo a imprensa nacional deste domingo, as escolas não têm equipamentos como o plinto ou o espaldar – necessários para Educação Física – e também têm carências de materiais de Expressão Plástica, acabando por pedi-los aos encarregados de educação dos alunos.

As provas de aferição de Expressões Artísticas e de Expressões Físico-Motoras decorrem entre 2 e 10 de Maio. Os alunos do 2.º ano de escolaridade voltarão a ser avaliados a 15 de Junho (a Português e Estudo do Meio) e a 18 de Junho (a Matemática e Estudo do Meio).

Falar verdade sobre a nota de EF no secundário

corrida.gifEm lugar de nos fecharmos em posições fundamentalistas, contra ou a favor da contabilização da nota de Educação Física no secundário, que tal uma discussão franca e aberta sobre o problema, com todos os dados em cima da mesa, incluindo aquelas verdades inconvenientes quase sempre ausentes do debate?

Por que não integrar esta discussão no problema mais vasto da autonomização do ensino secundário como um ciclo de estudos com coerência e finalidades próprias, em vez de continuar a ser menorizado como uma antecâmara do ensino superior, com o sistema de avaliações e exames transformado em máquina de seriação dos alunos destinados à universidade? Sem esquecer, claro, o negócio altamente lucrativo que alguns colégios montaram em torno disto e que põe em causa a equidade do sistema – mas que ninguém se atreve a beliscar.

Ficam, então, e dentro da perspectiva abrangente com que o assunto deve, a meu ver, ser equacionado, algumas constatações mais ou menos evidentes que deveriam fazer parte da discussão.

1. Para a maioria dos alunos do secundário, a contabilização da nota de EF sobe-lhes a média, não a desce.

2. Com o actual sistema de ingresso no ensino superior, nenhum aluno que tenha concluído o secundário é excluído do superior por ter notas demasiado baixas. Se não entra no curso que quer é porque outros alunos tiveram notas melhores e as vagas não chegaram para todos. Não entra porque foi “penalizado”, mas porque outros, sujeitando-se às mesmas regras, conseguiram ser ainda melhores.

3. Um aluno com média de 19 nas disciplinas “de estudo” e uma nota ao mesmo nível em EF é efectivamente melhor aluno do que outro que tenha classificações semelhantes mas, vamos supor, um 13 ou um 14 a EF.

4. Contabilizar ou não a nota de EF é uma falsa questão para os colégios que se especializaram em “meter” alunos em Medicina e outros cursos de média de entrada elevada: correm toda a gente a 19 ou 20 e está o assunto arrumado.

5. A não consideração da nota de EF é uma medida que por vezes é defendida não por ser justa ou sensata do ponto de vista pedagógico, mas enquanto instrumento para ajudar a estancar a fuga para os colégios por parte de alunos que precisam de elevadas classificações no secundário.

6. Para serem coerentes, aqueles que assim querem proteger a escola pública da batota dos colégios, deveriam defender também que não contassem para a média do secundário todas as outras disciplinas não sujeitas a exame final. Ou, em alternativa, exames a todas as disciplinas que constam do currículo.

7. Tão ou mais importante do que a nota de EF “contar” ou não, seria discutir os critérios de avaliação da disciplina em cada escola. No caso de EF, será lógico que valorizem, não a capacidade atlética ou a destreza técnica do aluno, mas sobretudo o empenhamento e o esforço no sentido de corresponder ao que lhe é pedido e a progressão realizada. E se assim for, mais facilmente obtém boa nota o aluno com limitações físicas, mas esforçado, do que o atleta que tem um desempenho, na aula, muito inferior às suas capacidades.

8. O expediente de inflacionar as notas nas disciplinas não sujeitas a exame final, e não apenas EF, é amplamente usado por algumas escolas, públicas e privadas, sendo levado ao seu expoente máximo nestas últimas.

9. Dizer que determinado aluno não se conseguiu entrar no curso x por causa da nota de EF é a mesma coisa que dizer que não entrou por causa da nota de Filosofia, por exemplo. Pela mesma lógica, diríamos que é injusto a nota de Inglês contar para a média dos alunos que não vão para cursos de línguas, pois isso favorece injustamente os que andaram em escolas de línguas. Em última análise, faríamos um currículo para cada aluno do secundário só com as disciplinas em que ele conseguisse ter boas notas.

10. A fórmula de cálculo da média do secundário representa de forma distorcida o real aproveitamento dos alunos, ao contabilizar com o mesmo peso as disciplinas anuais, bienais e trienais. Isto faz com que EF, sendo uma disciplina trienal, tenha na prática um peso na avaliação muito inferior à carga curricular da disciplina.

Currículo oculto

consulta-curr.JPGReintroduzir a nota de Educação Física na média do ensino secundário faz parte das promessas do ME ainda por concretizar. Mas não está esquecida, e o governo prepara-se para a introduzir, à socapa, e à margem da discussão pública a que está obrigado, na revisão do Decreto-Lei 139/2012.

Reconheça-se que a questão é polémica, por causa das elevadas médias que são exigidas no acesso a alguns dos cursos superiores mais procurados: argumenta-se que bastará um aluno ter menos gosto ou habilidade para a disciplina para que a nota de EF, inferior à média das restantes, lhe retire as duas ou três décimas que podem ser determinantes na entrada em Medicina ou numa das engenharias da moda.

Do outro lado, contrapõe-se que não faz sentido atribuir um estatuto de menoridade, no campo da avaliação, à Educação Física, uma disciplina considerada tão importante que é a única, em conjunto com o Português, a estar obrigatoriamente presente nos doze anos de escolaridade.

Não consigo ter, sobre esta matéria, uma opinião tão definitiva e irredutível como as que leio ou ouço, tanto para um lado como para o outro, de alguns colegas. Não tenho dúvidas de que todas as notas devem contar para a média do secundário. Já em relação à candidatura ao superior, parece-me que podem coexistir diferentes critérios, tendo em conta a natureza dos cursos, a procura que estes têm ou o perfil de aluno pretendido pelas instituições. Por outras palavras, penso que deveriam ser as universidades a dizer de sua justiça. Por exemplo, gostaria que me explicassem, por a+b, que a Matemática do secundário é mais importante para a formação de um médico do que as competências desenvolvidas na Educação Física. Até poderá ser, ou se calhar serão ambas importantes – mas os senhores doutores do superior deveriam pronunciar-se sobre o assunto.

Agora, independentemente das diferentes posições em confronto e do desfecho que este virá a ter, há um jogo dissimulado da parte do ministério que deve ser condenado por todos os que defendem um debate franco e aberto sobre os temas educativos. É que, como explicava ontem o Público, o assunto foi ardilosamente excluído da discussão pública sobre o novo diploma de organização curricular do básico e secundário:

A questão da Educação Física contar ou não para a média de acesso ao ensino superior é um dos temas que suscitam mais polémica entre pais e professores. Mas, na prática, encontra-se assim excluído da consulta pública. Isto porque só existe uma referência explícita a esta alteração no preâmbulo do diploma e este não acompanha o projecto que foi disponibilizado no site do Governo.

O preâmbulo faz, contudo, parte do documento que foi enviado para os órgãos que legalmente têm de ser consultados antes da sua promulgação. Um deles é a Assembleia Legislativa dos Açores e foi na sua página electrónica que o PÚBLICO descobriu o que consta nesta parte inicial do diploma e que é o seguinte: “A valorização de todas as componentes do currículo impõe a eliminação do regime excepcional relativo à classificação da disciplina de Educação Física, passando esta a ser considerada, a par das demais disciplinas, para o apuramento da classificação final de todos os cursos do ensino secundário.”

Reconheça-se que o actual governo tem toda a legitimidade para reverter, em 2018, uma decisão tomada em 2012 pelo ministério de Nuno Crato, e que na altura foi imposta ainda com menos discussão e debate do que está a ser agora. Não alinho no jogo de quem acha que as decisões com as quais concorda são reformas estruturantes do sistema educativo e devem prevalecer para além da legislatura em que foram produzidas, enquanto as mudanças defendidas pelos seus adversários políticos devem ser combatidas em nome da “estabilidade” do sistema. Mas condeno, da mesma forma, um governo que tenta abafar a discussão dos temas polémicos impondo, como consensos de regime, medidas que estão muito longe de ser consensuais entre os intervenientes e interessados nos assuntos educativos.

Ainda a nota de Educação Física

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A disciplina de Educação Física tem estado no centro de várias discussões e polémicas nos últimos tempos. Seja pela sua insuficiente valorização no 1º ciclo, apesar de fazer parte do currículo obrigatório, seja em torno da questão de a nota da disciplina contar, ou não, para a média do secundário e da candidatura ao ensino superior.

Independentemente do que está em causa, julgo que seria bom que a discussão se fizesse de forma serena e ponderada, sem os excessos que me pareceu notar em alguns textos e comentários que li pela blogosfera e pelas redes sociais.

Da minha parte, não terei muito a acrescentar ao que escrevi recentemente sobre o assunto. Realço apenas alguns pontos que me parecem fulcrais.

Mente sã em corpo são. Já os antigos o diziam e creio que a ideia continua hoje, mais do que nunca a ser importante. Não se trata de promover “estilos de vida”, como dizem alguns, mas sim de assumir a importância do desenvolvimento das capacidades físicas e da coordenação motora na infância e na adolescência. Trata-se da única disciplina, em paralelo com o Português, que está presente, de forma obrigatória, nos doze anos de escolaridade. E se assim é, faz pouco sentido exigir que os alunos sejam avaliados mas a nota não conte para a média final.

Atenção ao que avaliamos. Seria importante compreender que a Educação Física não é uma disciplina de Desporto, nem deve ter uma base competitiva. Julgo que a visão de uma disciplina onde se avaliam atletas, reservando as melhores notas para os que correm mais depressa ou marcam mais golos está há muito ultrapassada. Cada aluno deve ser avaliado em função das suas próprias capacidades e do empenho que coloca em aprender e melhorar. E quando leio queixas de que haverá alunos que são atletas federados, que ganham prémios e medalhas em competições e que apesar disso obtêm notas modestas em Educação Física, fico com a convicção que há um caminho certo que vai sendo trilhado. Resta agora, aos mais fracos na disciplina, esforçarem-se por corresponder ao que lhes é solicitado. Que se deve traduzir, sempre, em metas que estejam ao seu alcance.

Não pode haver disciplinas de primeira e de segunda categoria. Se em todas existem classificações, então todas elas devem valer para avaliar globalmente os alunos. Já no acesso à universidade, é compreensível que se valorizem mais, consoante o curso superior, determinada disciplina ou conjunto de disciplinas – é o que se faz através das provas específicas. Ora isto significa que, se não faz sentido a escola secundária dizer aos seus alunos que a nota de determinada disciplina não interessa para nada, fará todo o sentido que as universidades, de uma vez por todas, definam o que é para elas importante como pré-requisito de cada curso superior.

Os gordinhos merecem respeito. Assim como os desajeitados. Ou os que meteram na cabeça que não gostam, não têm jeito, não são capazes. Parte do estigma que existe ainda, nas escolas portuguesas, contra a disciplina, advém de, durante muito tempo, se ter achado natural gozar ou inferiorizar alguns alunos com menos capacidades, gosto ou talento para as actividades físicas e desportivas. Ora estes alunos não só têm direito a usufruir plenamente e sem constrangimentos da disciplina, como serão até, atrevo-me a supor, os que mais têm a beneficiar com a sua frequência. Quem, aqui ou além, ainda não entendeu o papel fulcral da Educação Física e as responsabilidades que tem enquanto docente da disciplina, era bom que o começasse a perceber.

A Educação Física conta ou não conta?

exercices009[1]Tinha sido anunciado, já há algum tempo, que a classificação da disciplina de Educação Física iria voltar a contar para a média do ensino secundário, revertendo-se assim uma decisão tomada no tempo de Nuno Crato. Contudo, perante as hesitações do governo, o BE tomou uma iniciativa parlamentar destinada a clarificar posições.

A Educação Física “sofreu uma acentuada desvalorização” por culpa da alteração verificada em 2012, consideram os deputados [do BE] na proposta de resolução que chegou ao Parlamento e que será discutida nesta quarta-feira na Comissão de Educação e Ciência.

Por isso, exigem a inclusão da classificação obtida nesta disciplina no cálculo da média de conclusão do ensino secundário — e, consequentemente, na média de acesso ao superior — como forma de a “valorizar”.

A questão não é fácil. Por um lado, há bons argumentos para defender que todas as disciplinas contem para o apuramento da média final do secundário. Afinal de contas, não deve haver disciplinas de primeira e de segunda categoria. Faz pouco sentido impor a Educação Física como obrigatória nos três anos deste ciclo – só o Português goza de semelhante estatuto – e depois considerar irrelevante a nota obtida pelos alunos. Sabendo-se, ainda para mais, que a nota tende a favorecer a maior parte dos alunos, que obtêm na disciplina uma das suas melhores classificações. E, finalmente, do balanço que é possível fazer desde que a nota deixou de contar para a média, notou-se que muitos alunos passaram efectivamente a demonstrar menor empenho numa disciplina que, aparentemente, “não serve para nada”.

Mas também se pode argumentar, de forma pertinente, em sentido oposto. Sabemos que que se trata de uma disciplina onde muito do que os alunos conseguem realizar deriva das capacidades físicas, da habilidade, do gosto e de uma motivação e talento que em larga medida são inerentes a cada um. E embora outros critérios possam ser valorizados pelos professores de EF – o esforço, o empenhamento, o espírito de equipa, entre outros – há em todas as escolas uma minoria de bons e de excelentes alunos que, por mais que se esforcem, não conseguem obter, nesta disciplina, o mesmo nível de classificações que alcançam nas outras, ditas “de estudo”. Ou seja, há estudantes que se candidatam a certos cursos superiores, como Medicina ou algumas Engenharias, que não conseguiriam vaga se a nota de EF, que lhes desce a média, fosse considerada.

Numa matéria onde o consenso é quase impossível, o Conselho de Escolas tem defendido uma posição salomónica: que a nota de EF conte para a média do secundário, mas não para o acesso ao ensino superior. Uma proposta razoável, mas que remete para um velho problema do nosso sistema de ensino, aparentemente sem solução: não há meio de encontrarmos uma forma de separar a conclusão do secundário do sistema de acesso ao ensino superior.

Contudo, a solução, mais tarde ou mais cedo, terá de ser encontrada dessa forma. Sendo consensuais os benefícios para os alunos da actividade física e da disciplina que a promove, e que por esse motivo existe, de forma continuada, em todos os anos de escolaridade, então não faz sentido retirar-lhe peso ou dignidade na avaliação. Agora decidir se a nota é relevante para entrar em determinado curso superior, essa deveria ser uma responsabilidade a assumir pelas universidades.

Valorizar ou não determinadas disciplinas, considerar ou não, e com que peso, as notas do ensino secundário – sabendo que muitas delas, sobretudo nalguns colégios, são altamente inflacionadas -, determinar até que ponto é que os exames do secundário – feitos em função dos programas em vigor neste nível de ensino – sinalizam objectivamente os candidatos mais bem preparados para qualquer curso do ensino superior: estas são questões que deveriam merecer amplo debate nacional, envolvendo nomeadamente, além dos especialistas e dos “investigadores” do costume, alunos, pais e professores do secundário e do superior. Pois é desta discussão que pode nascer alguma luz sobre um futuro modelo, mais justo e equitativo, de acesso ao ensino superior.