A Educação na encruzilhada

Quarta-feira, a minha filha mais velha participou na segunda eliminatória das Olimpíadas da Matemática deste ano, categoria júnior, correspondente ao 6º e 7º ano. Quando chegou a casa, claro, obrigou-me a resolver com ela a prova para poder aquilatar as probabilidades de chegar à final. A prova era interessantíssima (parabéns aos seus autores), exigindo alguns conhecimentos de Matemática — não muito avançados, diga-se — e bastante destreza de raciocínio. E, mais uma vez, pude confirmar o que já sabia: o ensino atual é bem mais exigente do que era há umas décadas e exige das crianças bem mais do que boa memória.

O preconceito de que o ensino “antigamente é que era bom” está solidamente enraizado em muitos portugueses, sobretudo nas gerações mais idosas. Mas não corresponde à realidade. É tão erróneo como o seu oposto, a presunção de que, graças à exposição cada vez mais precoce das crianças à novas tecnologias, elas aprendem automaticamente, com prazer e sem esforço, transformando-se em pequenos génios imersos no mundo digital.

É evidente que se ensina e aprende melhor do que há décadas atrás: mal fora que a Educação tivesse ficado de fora dos progressos generalizados que a humanidade conheceu a todos os níveis. Faz tanto sentido a saudade do ensino de há 50 anos como faria ansiarmos por viver o nosso quotidiano com os automóveis, o conforto doméstico, os meios de comunicação ou os tratamentos médicos disponíveis nesse tempo. Claro que a educação não está tão dependente da tecnologia como outras áreas, mas não deixou igualmente de evoluir.

Essa evolução fez-se pela identificação das aprendizagens verdadeiramente essenciais e estruturantes, em vez de um ensino tornado difícil pela memorização de informação muitas vezes irrelevante. Mais do que classificar alunos, procura-se que a avaliação identifique as falhas e dificuldades de aprendizagem, de forma a definir estratégias de superação. E os currículos escolares tornaram-se mais abrangentes – por vezes até com algum excesso – procurando não apenas transmitir conhecimentos mas desenvolver competências e alargar horizontes.

Contudo, apesar dos progressos evidentes, há que moderar o optimismo que noto na prosa de Luís Aguiar-Conraria. Desde logo, porque nada está adquirido para todo o sempre. Depois de duas décadas de progressos graduais, mas sustentados, da Educação portuguesa, visíveis nos resultados dos nossos alunos nos principais testes internacionais, as mudanças insensatas e irreflectidas dos últimos anos abriram caminho ao facilitismo – e isso começa a ser visível nalgum declínio das prestações dos alunos, já notório nas últimas avaliações feitas antes da pandemia.

Por outro lado, num sistema de ensino massificado, a necessidade de construir uma oferta educativa universal e inclusiva colocará o eterno dilema: deve apostar-se em programas e currículos exigentes, correndo o risco de excluir quem não consegue corresponder, ou moderar a ambição, priorizando conteúdos e estratégias pedagógicas ao alcance de todos, com menos matéria leccionada mas melhor socialização, mais afectos e muito trabalho colaborativo e de projecto? Nuno Crato, enquanto ministro, optou decididamente pela primeira hipótese – e criou, para os excluídos do rigor e exigência propalados, o refugo educativo dos cursos vocacionais. Já com o actual governo, inclusão parece ser a palavra de ordem. Mas sem um reforço dos recursos educativos disponíveis nas escolas, a inclusão obrigatória e o direito ao sucesso a qualquer preço poderão ter um custo muito elevado: o declínio inexorável da escola pública.

Aulas de Cidadania: tribunal decide a favor dos alunos

A Justiça decidiu a favor dos pais dos alunos que recusaram frequentar as aulas de Cidadania, na Escola Camilo Castelo Branco, em Famalicão, e deu provimento à providência cautelar que pedia a manutenção dos estudantes nos anos letivos para os quais tinham transitado, apesar de estarem “chumbados por faltas”, devido à não frequência daquela disciplina – sobre a qual os pais invocaram objeção de consciência.

Os alunos já estavam a frequentar os níveis de ensino para os quais progrediram, de forma provisória. Mas, segundo informação transmitida pela Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEST), no início do ano letivo, a situação iria manter-se “apenas até à decisão da providência cautelar”. Agora, o Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga decidiu, em sentença datada de 21 de janeiro, suspender a decisão de retroceder os dois irmãos, de 12 e 15 anos, para o 5.º e 7.º ano, respetivamente. “Suspenderam-se todas as decisões e, para o tribunal, os alunos transitaram de ano e devem ser mantidos no ano em que estão”, explica ao DN o advogado da família, João Pacheco Amorim.

Contudo, estavam a decorrer dois processos em simultâneo e um deles não foi decidido a favor dos pais. “Trata-se da providência cautelar antecipatória que pedia a suspensão de eficácia de futuras decisões, o que vai obrigar os pais, caso haja novas decisões da tutela no mesmo sentido, a ter de voltar a pedir providência cautelar”, explica João Pacheco Amorim. Segundo o causídico, “isto faz que as autoridades educativas possam praticar novos atos que ponham em causa o percurso académico dos alunos”.

Um caso complicado, que ameaça arrastar-se nos tribunais e que deveria levar a questionar, não o ensino obrigatório dos valores da Cidadania e dos Direitos Humanos – que numa república que se quer laica, democrática e solidária não deve ser ponto de discussão – mas a sua abordagem na forma de uma disciplina autónoma, onde temas supostamente polémicos podem ter uma abordagem descontextualizada e superficial, mais vulnerável às pressões dos poderes políticos e económicos e mais susceptível às críticas e aos preconceitos dos pais ou da sociedade civil.

Pessoalmente, repugnam-me cruzadas de pais conservadores que não hesitam em sacrificar o interesse dos filhos a uma agenda política reaccionária que, incapazes de impor no debate público ou nas urnas, querem legitimar através dos tribunais. Mas também não me parece que o ME, que permitiu que estes alunos transitassem dois anos consecutivos com bom aproveitamento nas restantes disciplinas, tenha qualquer legitimidade moral para persistir em litigâncias destinadas a fazê-los recuar dois anos no seu percurso escolar.

Em suma, trata-se de defender o superior interesse dos alunos sem legitimar, de alguma forma, o falso direito à “objecção de consciência” dos pais relativamente aos currículos escolares. Se juízes e tribunais irão estar à altura do desafio, é algo que neste momento, e tendo em conta alguns antecedentes, me suscita muitas dúvidas…

E daqui a 15 dias?

Todos os estabelecimentos de ensino estarão encerrados nas próximas duas semanas. A pergunta para a qual todos os responsáveis do sector procuram agora resposta é outra: o que acontece depois destes 15 dias? O Governo não antecipa cenários, mas as associações de directores e a Confederação das Associações de Pais (Confap) concordam que o regresso às aulas presenciais deve ser faseado, dando prioridade aos alunos mais novos.

A opção tomada pelo Governo era a que tinha sido defendida pelos representantes dos pais nos últimos dias. É uma “boa solução para serenar os ânimos e ganhar forças”, sintetiza o presidente da Confap, Jorge Ascenção. A proposta que a associação fez chegar ao Ministério da Educação apontava também para um retorno gradual dos alunos às escolas. Um regresso de todos os estudantes seria “precipitado”, defendem.

Os representantes dos directores concordam com a ideia, antecipando que dentro de duas semanas “dificilmente existirão condições sanitárias” para voltar a uma situação semelhante à desta semana, afirma Filinto Lima da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas.

O cenário “ideal” para a Confap seria o regresso dos alunos do 1.º e 2.º ciclo às aulas presenciais a partir de 8 de Fevereiro. Os colegas mais velhos, do 3.º ciclo e do ensino secundário, mantêm-se em ensino à distância por mais algum tempo. Caso a evolução da pandemia não o permita, terá que haver “uma nova alteração ao calendário lectivo”, defende Jorge Ascenção.

A notícia do Público de ontem é duplamente reveladora. De onde saiu a brilhante ideia de parar o ano lectivo, introduzindo duas semanas de férias forçadas e confinadas e obrigando as escolas a compensar as aulas que o ME as proíbe de dar com o sacrifício das férias escolares? A Confap, demonstrando uma vez mais ter uma visão muito tendenciosa e limitada do quotidiano escolar, apresenta-se como a principal suspeita. A organização de pais não esconde o seu contentamento nem a influência que continua a ter nos bastidores ministeriais.

Por outro lado, a pseudo-solução encontrada, não só quebra o ritmo das aprendizagens e complica a gestão do calendário escolar, como se limita a adiar o problema que agora não se quis enfrentar: ninguém acredita que daqui a duas semanas os números alarmantes da pandemia tenham descido substancialmente, ao ponto de permitir o regresso seguro às aulas. A opção pelo ensino à distância, que agora não se quis assumir, surgirá nessa altura como uma necessidade incontornável, pelo menos para os alunos mais velhos.

Será então altura de os arautos governamentais que agora glorificam a escola presencial descobrirem, uma vez mais, as maravilhas do ensino remoto e do novo mundo digital…

Confinamento quase geral

Imagem de autoria indeterminada, em circulação nas redes sociais.

Sendo que o quase, ou seja, a manutenção das escolas abertas, implica a circulação diária de mais de dois milhões de pessoas.

No país do mundo com maior número de novas infecções por milhão de habitantes, algo tem de ser feito para contrariar rapidamente esta tendência, antes do colapso mais do que previsível dos serviços de saúde. Confinar a população escolar é neste momento a medida óbvia e que pode ter melhores resultados imediatos.

Inicialmente poder-se-iam ter mandado para casa apenas os alunos a partir do 7.º ano, mas no ponto a que chegámos provavelmente só o confinamento total poderá ser eficaz. Quando empurrar o problema com a barriga só agrava a situação, chegou o tempo das decisões difíceis, mas necessárias.

Sairá hoje, do Conselho de Ministros, a decisão mais aguardada?…

Adiar o inevitável

“Só estamos a adiar o inevitável, o fecho das escolas”, lamenta Manuel Carmo Gomes, epidemiologista e um dos especialistas que aconselha o Governo, que se confessa “desapontado” com as novas medidas de confinamento apresentadas esta segunda-feira pelo primeiro-ministro, até porque já tinha aconselhado na reunião do Infarmed que, por uma questão de precaução, se colocassem os alunos acima dos 12 anos em aulas à distância.

O professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa revela que as estimativas da sua equipa apontam para cerca de 200 mortes e 14 mil novos casos de infecção no próximo domingo. E os cálculos, ainda provisórios para o período entre 9 e 11 de Fevereiro, apontam para 6100 doentes internados nos hospitais, 840 dos quais em unidades de cuidados intensivos.

O problema, avisa, é que o grupo etário dos 13 aos 17 anos é aquele em que mais tem aumentado a incidência da infecção pelo novo coronavírus nas duas últimas semanas. Uma incidência que é já de cerca de 1200 novos casos por 100 mil habitantes no valor acumulado a 14 dias, colocando estes adolescentes agora em terceiro lugar, a seguir aos jovens entre os 18 e os 24 anos, que lideram a tabela com cerca de 1550 casos por 100 mil habitantes nas últimas duas semanas, e a população activa.

Quando o impacto da pandemia continua a bater recordes – cada vez mais casos, mais internamentos e mais mortes – já não é altura para brincar aos confinamentos. Não faz sentido pensar agora que se combate a pandemia “salvando o ano lectivo” como há um mês atrás se quis salvar o Natal, com os resultados que conhecemos. Na vergonhosa posição de país do mundo que pior está a lidar, nesta altura, com a pandemia, já não é tempo de apelar a responsabilidades individuais e colectivas e ficar à espera de resultados imediatos, nem de invocar a falta de consensos para não tomar as decisões inadiáveis.

Numa análise serena e objectiva, o epidemiologista ouvido pelo Público refuta o mito de que as faixas etárias mais jovens não transmitem a doença e de que nas escolas não se originam surtos: pelo contrário, está a crescer a ocorrência de novas infecções entre os adolescentes, o que é natural que suceda com as escolas, e todo o seu entorno, a funcionar. As novas variantes da doença também contribuem e certamente que testagens mais frequentes e apuradas, que convenientemente se evita fazer, também apanhariam, por certo, alguns jovens assintomáticos que ainda assim vão espalhando o coronavírus.

Sendo a realidade o que é, parece-me que o dilema é relativamente simples de resolver: passar já o terceiro ciclo e o secundário ao regime não presencial, mantendo nas escolas apenas os alunos mais novos, ou continuar a adiar o inevitável e acabar em confinamento total, mandando todos os alunos para casa.

Decisão política

Numa altura em que o Governo se prepara para fechar o país, realizou-se mais uma reunião com os peritos em saúde pública, no Infarmed. O primeiro-ministro anunciou no final as principais conclusões: houve um consenso para que as medidas “tenham um horizonte de um mês e com um perfil no início da pandemia”, ou seja, Março e Abril. A divergência esteve na questão das escolas. Fora de causa está a interrupção da avaliação que decorre no ensino superior – até porque nessa fase os alunos “fazem menos deslocações”, explicou depois o socialista José Luís Carneiro – e “nada justifica fechar as escolas até aos 12 anos”. Mas se estes são pontos de certeza, a incerteza está em torno do que fazer à escola para os alunos acima dos 12 anos. Aqui houve uma “divergência particularmente viva” entre os peritos e, por isso, a decisão será política depois de ouvidos também os responsáveis do sector da educação.

A Educação é há muito uma área secundária da governação, habitualmente arredada das grandes discussões políticas. No entanto, quando os números da pandemia batem todos os recordes e se prepara apressadamente um novo confinamento, o fecho das aulas presenciais assume-se como o grande pomo da discórdia entre políticos e especialistas de saúde pública.

Não por acaso, um dos maiores defensores do não confinamento das escolas é o ministro da Educação: Brandão Rodrigues sabe bem que quase nada foi feito, pelo ministério que incompetentemente dirige, para preparar um retorno ao ensino à distância em condições substancialmente mais favoráveis do que as do ensino remoto de emergência que vigorou em 2020. Com uma política educativa inconsistente, permeável a lobbies e a jogos de influência, replicando de forma inconsequente a agenda da OCDE e incapaz de ouvir e motivar as escolas e os professores, o actual ME acumula desaires, sendo as recentes descidas nos rankings das avaliações internacionais apenas o seu resultado mais visível. Por esse motivo, querem os alunos na escola, com muitas aulas, tutorias, mentorias e “recuperações de aprendizagens”, pois percebem que nada disto funciona no ensino à distância.

Do outro lado, mesmo dando de barato que as escolas são, ou tentam ser, lugares seguros, que as regras sanitárias se vão ali cumprindo, apesar de tudo, bem melhor do que noutros lugares e que as crianças adoecem e contagiam menos do que os adultos, percebe-se que o quotidiano escolar, que não se cinge às salas de aula ou aos rituais da desinfecção de mãos, é feito de riscos: os miúdos aproximam-se, tocam-se, retiram com frequência as máscaras para comer ou beber, misturam-se nas entradas e saídas dos edifícios escolares, viajam nos mesmos autocarros, frequentam juntos a cantina. Para muitos, a ida para a escola é também pretexto para a saída de casa, em descontraído desconfinamento, dos respectivos pais.

Na busca de um meio termo, vai fazendo caminho a ideia de um confinamento parcial, mantendo a escola presencial para a educação pré-escolar e os seis primeiros anos de escolaridade e remetendo os mais velhos, supostamente mais autónomos e capazes de ficar sozinhos em casa, para o ensino não presencial. Mas mesmo aqui não há consenso. Sem que nem os técnicos nem os governantes se entendam, a decisão final será puramente política. O que não é inédito, sublinhe-se. No primeiro confinamento, a decisão de fechar as escolas foi tomada à revelia do parecer dos especialistas, que se tinham pronunciado na véspera contra o confinamento escolar. Dessa vez, a coragem e o faro político de António Costa levou-o o tomar a decisão certa, a que permitiu a Portugal enfrentar com relativa serenidade a primeira vaga da pandemia, sem o impacto que teve em países próximos como Espanha ou Itália. Agora a situação é bastante pior, mas ainda vamos a tempo de, com decisões difíceis, mas ponderadas e corajosas, conter a pandemia.

Escolas fechadas até final de Abril

marcelo_rebelo_de_sousa_997045[1]Afinal não foi o ministro da Educação, nem qualquer autoridade de saúde, nenhum dos directores escolares que, nestas alturas, gostam de se pôr em bicos dos pés. Foi o próprio Presidente da República que anunciou solenemente o que, na verdade, já toda a gente sabia: até ao final do mês não haverá condições para reabrir as escolas.

O Presidente da República indicou esta terça-feira que as escolas deverão continuar encerradas pelo menos até ao final do mês de abril, mas destacou a “tendência positiva” da pandemia em Portugal.

“Se queremos ganhar a liberdade em maio precisamos de a ganhar em abril”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa no final da reunião técnica com as autoridades de saúde, no Infarmed, em Lisboa.

Questionado sobre a manutenção do encerramento das escolas durante este mês, o Presidente afirmou que “isso pode depreender, obviamente. Não haverá, mas daquilo que disseram os especialistas a opção a fazer é ganhar em abril o mês de maio” e isso significa “manter este esforço durante o mês de abril”, acrescentou o chefe de Estado, lembrando que cabe ao primeiro-ministro anunciar essa decisão no dia 09 de abril.

Nas declarações do Presidente também se lê o amplo consenso de regime em torno da reabertura das escolas em Maio, apenas para os alunos do secundário. A preocupação com os exames nacionais, mesmo em tempo de pandemia e de isolamento social, sobrepõe-se a tudo, e pode levar à insensatez de fazer das comunidades escolares as cobaias de um experiência social de regresso à normalidade.

Em complemento das declarações presidenciais, o JN apresenta hoje um panorama dos diversos cenários em estudo para o terceiro período e tenta encontrar respostas para as perguntas que, por estes dias, todos vamos fazendo:

O QUE FALTA DECIDIR ATÉ QUINTA-FEIRA

Que alunos devem regressar às escolas?

A proposta em cima da mesa prevê o regresso dos alunos do 12.º ano à escola, apurou o JN. Os do Básico, do 1.º ao 9.º, devem manter-se com ensino à distância até final do ano letivo. Falta decidir relativamente aos do Pré-Escolar e restantes do Secundário, incluindo cursos profissionais que têm aulas práticas.

Todos os exames vão realizar-se?

Os do 12.º que determinam o acesso ao Ensino Superior são a prioridade. As provas de aferição do Ensino Básico (2.º, 5.º, e 8.º anos) podem ser suspensas, assim como as provas nacionais de Português e Matemática do 9.º, a manter-se o ensino à distância. O regresso às aulas do 11.º ano será determinante para a realização dos exames.

Como será a avaliação no 3.º período?

É uma pergunta ainda sem resposta. A manter-se o ensino à distância, os professores vão ter de diversificar os instrumentos de avaliação pelas tarefas pedidas aos alunos online. Critérios como a participação, assiduidade ou empenho manifestado pelos alunos, que já são tidos em conta, podem vir a ter outro peso. O apoio dos pais na execução das tarefas também deverá ser ponderado.

Quando arranca a telescola?

A transmissão de conteúdos para os alunos do 1.º ao 9.º, na RTP Memória, por TDT ou cabo, também ainda não tem data definida para arrancar. É a solução para se chegar aos alunos sem Internet ou computador em casa. Os professores, frisa Manuel Pereira (ANDE), precisam dessa grelha de programação para alinharem o planeamento das aulas.

O que fazer no terceiro período?

mochila.PNGNas vésperas do segundo momento de avaliação, com alunos e professores em recolhimento nas suas casas, o terceiro período continua a ser uma grande incógnita. Com as salas de aula fechadas, haverá condições, materiais e anímicas, para enveredar pela massificação do ensino online?

Confesso alguma perplexidade que senti quando, na ronda habitual pela blogosfera docente, me deparei com a afirmação ousada do Paulo Prudêncio, um dos observadores e comentadores mais lúcidos e perspicazes da nossa realidade educativa. Mas o certo é que, quanto mais releio estas palavras, mais lhes vou encontrando sentido:

Dissemina-se a ideia de que vamos ter uma escola do século XXI à distância em todos os lares do país. Confesso que me espanto. Mas ao contrário, o que não me espantaria era que o ano lectivo terminasse amanhã como uma decisão absolutamente excepcional. Os alunos do básico e do secundário transitavam sem notas. Ficariam poucas questões por resolver, entre elas o acesso ao ensino superior.

Na verdade, se o que se pretende é um ensino de faz-de-conta, um entreter de meninos e meninas, fazendo vista grossa aos que não respondem à chamada e avançando às cegas por um modelo de ensino a distância oscilando entre a “escola dos afectos” para “manter o contacto” e a dos TPCs para os “manter ocupados”, então estou com o Paulo: o melhor é acabar já o ano lectivo.

Pois do que estamos a falar é da necessidade de construir, em tempo recorde, respostas educativas destinadas a faixas etárias muito diversificadas – crianças e jovens dos 6 aos 18 anos – sem descurar a questão da universalidade do acesso e da igualdade de oportunidades. Ignorar as enormes disparidades económicas, sociais e geográficas no acesso às tecnologias que permitem aprender em casa é negar os princípios em que se fundamenta a escola pública, universal e inclusiva – e uma óbvia inconstitucionalidade.

Avançar com um terceiro período feito de aulas não presenciais sem acautelar as fragilidades do modelo que se tenta construir atabalhoadamente, sem alocar recursos nem fazer investimentos, esperando que tudo se resolva à base de parcerias, de sacrifícios pessoais e boas vontades colectivas, apenas aprofundará a brecha educativa entre os que têm, podem e conseguem e os outros, que ficarão cada vez mais para trás.

No ComRegras, partindo dos mesmos fundamentos, Alexandre Henriques apresenta uma proposta diferente:

Se os princípios Constitucionais da equidade, da inclusão, da igualdade estão postos em causa, não deve a escolar avançar sem que todos possam estar no mesmo comboio da aprendizagem. É um absurdo avançar na matéria e ter a plena consciência que vão ficar alunos na estação. É um atentado à verdadeira essência da Escola Pública, uma escola feita por todos e para todos.

Retiremos a pressão de dar novos conteúdos, retiremos a pressão da avaliação, retiremos a pressão de querer chegar a todos da mesma forma. Este 3º período deve ser um período de consolidação de conteúdos já lecionados, aproveitando uma oportunidade rara de ter tempo.

A proposta do Alexandre resolve o problema da exclusão. Ao não darmos ordem de partida ao comboio da aprendizagem, garantimos que ninguém fica apeado na estação. Mas cria outro problema: é que nem os bons alunos gostam de uma escola que os obriga a marcar passo, revendo e consolidando matérias, em vez de os fazer progredir nas aprendizagens. Esta escola, que não ensina coisas novas nem avalia, corre o risco de perder os bons alunos sem que consiga chegar aos restantes, que dela mais necessitam. Ninguém frequenta uma estação de onde não partem comboios…

Covid-19, desorientação e mentiras

…as 2000 camas que se divulgam estarem preparadas para receber estes doentes, na realidade não existem. Foi-nos pedido (e eu respondi a este inquérito) quantas camas existiam em cada um dos nossos hospitais em quartos individuais. Nunca nos foi perguntado quantas camas estavam vagas. No seu conjunto, os hospitais em Portugal terão essas camas sim, mas ocupadas com outros doentes. Não estão vagas, à espera dos doentes com CoVID-19. A não ser que se pretenda uma ocupação dupla na mesma cama, podemos esquecer a capacidade das 2000 camas no país.

Sempre me pareceu muita fruta aquele número subitamente atirado para o ar, duas mil camas hospitalares surgidas do nada e imediatamente disponíveis para futuros casos de infecção pelo Covid-19. Sobretudo quando bastou o aparecimento de dois ou três casos na região de Lisboa para que surgissem, de um dia para o outro, uns barracos hospitalares destinados a acolher os infectados…

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Na verdade, demasiadas vezes os jornalistas se prestam ao papel de pés de microfone, em vez de confrontarem os responsáveis com as perguntas que se impõem. Neste caso, e sabendo que a falta de camas, tanto na rede hospitalar como na de cuidados continuados e paliativos, é uma realidade, importa saber que doentes irão ser desalojados dos hospitais para receber os casos de Covid-19 que vierem a surgir. Ou se não é tudo isto, uma vez mais, um lamentável exercício de irresponsabilidade e demagogia.

Quanto às escolas básicas e secundárias, é cada um por si. Aqui, parte-se em visita de estudo para Espanha como se não se passasse nada. Acolá, basta um aluno dar um espirro mais sonoro ou tossir com mais força para ser encaminhado, imediatamente, para a sala de isolamento. Proíbem-se saídas para espaços abertos, mas continuam a amontoar-se turmas de quase 30 alunos em salas de aula acanhadas.

Enquanto se equaciona a antecipação das férias da Páscoa, quantos estudantes anseiam pela suspensão das aulas, não pelo medo do contágio, mas pela alegria de umas férias antecipadas? Não para se irem enfiar em casa em isolamento, mas para intensificar a sua vida social em centros comerciais, bares e discotecas?…

Escolas e universidades encerram em Itália

milao-covid.jpgO Governo italiano decidiu fechar todas as escolas e instituições de ensino superior até meados de março, por forma a limitar a propagação do novo coronavírus.

Esta decisão foi tomada após a reunião entre o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, e os restantes ministros, sendo que será publicado ainda esta quarta-feira um decreto-lei a validar a medida. Vai entrar em vigor esta quinta-feira e tem efeitos até 15 de março, aponta o La Reppublica (acesso livre, conteúdo em italiano).

É uma decisão com grande impacto. Espero que os estudantes regressem assim que possível e estou empenhada em fornecer o serviço público essencial, ainda que remotamente, aos nossos estudantes”, disse esta quarta-feira a ministra da Educação, Lucia Azzolina, em conferência de imprensa.

Com esta iniciativa, as escolas e universidades estarão igualmente restritas aos funcionários do corpo docente e não docente.

Por cá, sendo certo que nem a intensidade nem a velocidade de propagação do coronavírus são comparáveis ao que se tem passado em Itália, a ausência de uma estratégia clara e perceptível, da parte das autoridades de saúde, é cada vez mais indisfarçável.

No sector da Educação, especialmente, segue-se a linha de rumo habitual sempre que surgem dilemas difíceis de resolver, que é remeter para decisões locais, tomadas no âmbito da autonomia das escolas. Só que, se até nos hospitais e centros de saúde têm sido reportados procedimentos incorrectos, o que se espera que aconteça nas escolas, onde não existem profissionais de saúde, quando cada uma começar a aplicar, à sua maneira, o respectivo plano de contingência?

Para já, o cenário de uma epidemia generalizada parece distante, mas mesmo assim os profissionais de rectaguarda tomam medidas preventivas: cancelam-se reuniões e visitas de estudo, adiam-se acções de formação presenciais, a DGAE suspende e des-suspende reuniões. Já em relação às aulas, às cantinas, aos recreios e a todos os espaços escolares onde se concentram alunos, professores e funcionários, e onde os potenciais riscos de propagação serão maiores, não se anunciam quaisquer medidas de contenção.

Entretanto, o ministro da Educação veio garantir que está a trabalhar no assunto, que as escolas estão “atentas e preocupadas”, mas impera a serenidade. Sendo investigador em bioquímica de profissão, é natural que até perceba mais de propagação de vírus do que de Educação. Contudo, conhecendo-o como já o conhecemos, será que o que diz nos pode deixar descansados?…