Não é a pedagogia. É a economia, estúpido!

javier.jpgO que limita a capacidade de aprendizagem de muitas crianças e dificulta a tarefa do docente não é a nossa falta de motivação ou o desconhecimento de alguns métodos de ensino, mas sim a desigualdade e a pobreza. E esta reforma não resolve o problema, mas desmantelará a educação pública.

O tweet foi escrito por um professor espanhol e refere-se à realidade educativa de Espanha.

Javier não estaria a pensar nas flexibilidades curriculares e noutras reformas educativas à portuguesa.

Mas ajuda-nos a perceber o quanto é fácil acusar os professores em vez de questionar a voragem do capitalismo neoliberal.

E mostra-nos que a agenda da OCDE e das multinacionais com interesses económicos na educação não conhece fronteiras…

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Colaborações: ComRegras

No Topo: O inquérito nacional aos professores

É sabido que a classe docente está desgastada, descrente e envelhecida, sofrendo as consequências de uma política de desinvestimento público no sector da Educação que os anos da austeridade acentuaram. Uma parte significativa dos professores portugueses não estão bem de saúde – suspeita-se de números alarmantes ao nível de baixas médicas – e a falta de melhores perspectivas para a profissão só tenderá a agravar os problemas actuais…

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No Fundo: O agravamento das desigualdades na educação

Há uma realidade indesmentível que diversos estudos e estatísticas que vão sendo publicados continuam a sublinhar: a organização do nosso sistema educativo está a contribuir para o aumento das desigualdades…

Os exames nacionais agravam as desigualdades

exams_1238018b[1]Para que servem os exames? Os seus defensores terão a resposta pronta: para regular o sistema escolar, para validar a avaliação interna e corrigir ou atenuar assimetrias regionais e locais e para garantir a leccionação do currículo nacional nas disciplinas consideradas estruturantes dos cursos científico-humanísticos do ensino secundário. Se forem honestos, acrescentarão ainda que tudo isto se tornou acessório, ao longo do tempo, e hoje há uma só razão essencial para manter o actual modelo de exames: ordenar e seleccionar os candidatos ao ensino superior.

Se quanto a objectivos estamos conversados, em relação aos efeitos que têm sobre os alunos e sobre o próprio sistema, uma recente tese de doutoramento apresentada na Universidade de Aveiro veio tirar as dúvidas que pudessem existir.

Um estudo realizado na Universidade de Aveiro concluiu que os exames nacionais agravam desigualdades sociais e beneficiam o “mercado paralelo” dos centros de explicações.

“É inegável que existem fundadas razões para ver no instrumento ‘exame’ uma causa para o agravamento das desigualdades sociais no acesso ao reconhecimento escolar”, aponta Andreia Gouveia, autora da tese de Doutoramento em Educação “Exames nacionais, apoios pedagógicos e explicações: a complexa construção dos resultados escolares em Portugal”.

Durante quatro anos, a investigadora esteve num colégio e num agrupamento de escolas considerados de topo pelos ‘rankings’ noutro colégio e agrupamento de escolas colocados no fundo dessas tabelas.

Apenas os jovens do agrupamento de escolas público pior classificado no ‘ranking’ afirmaram não recorrer a explicações porque “a sua condição socioeconómica não lhes permitia”.

O facto levanta “inquietantes preocupações de justiça social e equidade, já que nem todas as famílias podem suportar uma média de 80 euros mensais por duas horas semanais de explicações, no caso dos alunos do Ensino Básico, ou os 160 euros para os alunos do Ensino Secundário”, considera a investigadora.

São precisamente os estudantes das escolas melhor posicionadas no ‘ranking’ que mais procuram centros de explicações, sendo que a maioria dos alunos da escola pública melhor classificada afirmaram recorrer a explicações em todos os níveis de ensino.

Estes dados, aponta Andreia Gouveia, “permitiram-nos verificar como o mercado de explicações influencia o sistema formal de ensino, pois ao frequentarem as explicações fora da escola, os alunos deixam de frequentar os apoios oferecidos por esta”.

Se dessa “excelência” depender o acesso à universidade e, com isso, a um futuro promissor, as famílias informadas e com poder de compra sabem quais as estratégias mais seguras: “assegurar a frequência das ‘melhores’ escolas e dos ‘melhores’ explicadores e quanto mais cedo melhor”.

Esta tese é particularmente interessante porque, não só confirma o que os professores há muito sabem, como deita abaixo, qual castelo de cartas, os estudos preguiçosos da DGEEC, do CNE, da FFMS e de outras entidades que sobre este tema nos têm andado, estes anos todos, a lançar poeira para os olhos. Ora é a qualidade e a estabilidade dos professores, a capacidade das “lideranças” escolares, a excelência das instalações e da organização escolar: sucessivos factores que nos dizem que “fazem a diferença” são afinal de contas obliterados por uma realidade bem simples e comezinha: os pais que querem que os filhos tenham boas notas e têm possibilidades económicas para isso investem em explicações. E as escolas onde há melhores resultados são aquelas onde esse investimento é mais massivo e sistemático.

Claro que no boletim de renovação de matrícula não está lá nenhum quadradinho para indicar se o menino ou menina têm explicações e a que disciplinas. Por isso, as estatísticas oficiais ensaiam explicações com base nos dados que possuem – o escalão da ASE, as habilitações dos pais ou das mães, o “ter internet em casa”… – deixando de parte a informação relevante, aquela que implicaria investigação no terreno. Mas isso leva tempo, dá trabalho, custa dinheiro. E acima de tudo não interessa à agenda dos decisores, dos opinadores e dos influentes do regime, pois não lhes fornece argumentos para atacar e culpar, uma vez mais, as escolas e os professores.

A investigação de Andreia Gouveia reforça a necessidade, de que há muito se vem falando, de corrigir o peso excessivo das actuais provas, o que nem precisa de passar pela sua eliminação: bastaria que os exames fossem exclusivamente aplicados para efeitos de conclusão do ensino secundário, remetendo o acesso ao ensino superior para um processo específico de avaliação e seriação de candidatos da responsabilidade de universidades e politécnicos.

O aumento das desigualdades

nadar-em-dinheiro.gifPara quem ainda acredita, ou faz por acreditar, nas fábulas do capitalismo neoliberal, os números ontem divulgados pela Oxfam são demolidores: os mais ricos continuam a acumular cada vez mais riqueza, que é distribuída de forma mais desigual. E só não erradicamos a pobreza porque continuamos a ter um sistema económico criado para favorecer a acumulação de fortunas em indivíduos que, nem que vivessem mil anos, as conseguiriam gastar.

A partir da notícia do Público, alguns números que ilustram a irracionalidade económica do mundo em que vivemos e que deveriam dar que pensar:

  • 80% da riqueza mundial criada em 2017 foram parar às mãos do 1% mais rico da população;
  • A riqueza dos multimilionários aumentou 13% ao ano em média desde 2010, seis vezes mais do que os aumentos dos salários pagos aos trabalhadores (2% ao ano);
  • Mais de metade da população mundial tem um rendimento diário entre 2 e 10 dólares (entre 1,6 euros e 8,1 euros);
  • A sétima parte dos 762 mil milhões de dólares em que aumentou a riqueza dos 2043 maiores multimilionários em 2017 seria suficiente para acabar com a pobreza extrema a que está condenada a população mundial que sobrevive com menos de um dólar por dia.

Mas os grandes multimilionários, um clube quase só de homens (9 em cada 10) e que está a aumentar, não actuam sozinhos: eles dominam grandes grupos económicos à escala global, geridos de forma a maximizar o lucro dos seus accionistas. Para conseguirem enriquecer ao ritmo a que o fazem, recorrem sobretudo a duas coisas: a evasão fiscal e o esmagamento dos salários dos trabalhadores.

E mesmo o velho mito de que há uma ética no capitalismo e de que o enriquecimento é o prémio pelo esforço, o risco, a iniciativa, a poupança ou o talento dos que acabam por ser bem sucedidos é desmontado pelas evidências…

A Oxfam recusa a ideia de que este aumento de riqueza no topo possa constituir um incentivo para que, depois, se gere mais investimento e inovação. “Há cada vez mais provas de que os actuais níveis de desigualdade extrema excedem em muito aquilo que pode ser justificado pelo talento, esforço e tomada de risco. Em vez disso, essa desigualdade é cada vez mais do produto das heranças, dos monopólios e das ligações suspeitas aos Governos”.

Monitor da Educação 2017

O Monitor da Educação é um observatório da Comissão Europeia que reúne informação relevante e actualizada sobre todos os estados-membros da UE no que se refere a educação e formação.

O tema principal da edição deste ano é a desigualdade na Educação. Aparentemente, as actuais elites políticas, formatadas nos dogmas do neoliberalismo, parecem comungar das preocupações neo-marxistas com a escola reprodutora de desigualdades. Mas não: a apreensão com os fracos resultados académicos dos filhos dos pobres e dos emigrantes reflecte apenas a ideia errada de que a escola pode, por si só, reduzir ou eliminar as desigualdades, sem ser preciso mudar as estruturas económicas e sociais que a originam. No fundo é isto: já que não podemos incomodar os donos do dinheiro nem interferir nos processos de acumulação de riqueza à escala global, vamos então invectivar os professores a fazerem alguma coisa pelos mais desfavorecidos.

O relatório referente a Portugal traz alguma informação relevante, mas precisa de ser lido com cautelas, pois algumas observações são pouco rigorosas ou têm um cunho marcadamente político: percebe-se que os burocratas europeus não andaram pelo terreno a confirmar todos os dados e confiaram em muita informação fornecida directamente pelos organismos governamentais dos diversos países.

Fica o quadro comparativo dos principais indicadores Portugal/UE.

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Reflexões natalícias III

pai-natal.JPGQuando a avaliação das “competências” invade à força toda o sistema educativo – veja-se o novo Perfil do Aluno e todo o enfoque nas educações para a cidadania que os novos planos ministeriais trazem consigo – espera-se que os professores dediquem cada vez mais tempo a transformar os seus alunos em cidadãos autónomos, críticos, activos, capazes de actuar no meio envolvente e de se tornarem eles próprios agentes da mudança económica, social e política.

Mas antes de se pensar em avaliar os alunos pela sua capacidade de melhorar o mundo em que vivemos, não seria mais lógico avaliar em primeiro lugar a comprovada incapacidade de políticos, gestores e burocratas em fazê-lo?…

Indo um pouco mais longe: não será já a busca das escolas e das pedagogias capazes de “fazer a diferença”, conduzindo ao sucesso escolar as crianças oriundas de meios desfavorecidos, um sinal inequívoco de uma sociedade conformada com a persistência da desigualdade e da pobreza?…

Heterodoxias: Sem Sombra de Pecado

manuel+antónio+pina.jpg[…]

Talvez o maior erro do marxismo tenha sido o seu optimismo, a sua injustificada confiança na natureza humana (incluindo a natureza humana dos marxistas…). Mas, provavelmente, o pior crime dos liberais «après la lettre» que por aí agora andam é o do cinismo. Os bárbaros tomaram de assalto a cidadela: os relatórios das empresas, os projectos económicos, os programas dos partidos e dos governos ululam desvairadamente por «agressividade» e por «competitividade»; o «lucro» e o vampirismo social tornaram-se no desmedido motor do novo «progresso»; a «iniciativa privada» numa feroz fortaleza fechada onde se desfazem os destroços das últimas instituições fundadas na solidariedade e na cultura. (Já vi pateticamente defender, a seguir à privatização e sujeição à lógica do «lucro» das escolas, dos hospitais e por aí adiante, também a apropriação privada dos rios, dos mares, do próprio ar que respiramos!)

No meio disto indo, «cultura» é ter um óleo de Vieira da Silva na sala de jan­tar ou no cofre-forte ou «investir» num contador indo-português em algum leilão da Leiria & Nascimento. E a ostentação mais primária tornou se no sinal exterior de felicidade e de inocência da parte dos que (e são cada vez mais) alegremente se vão libertando dos encargos da consciência moral. Curioso é que a espécie de «cultura económica» que cauciona a predação social instalada não prescinda de pregar ética às presas…

[…]

Cristo — que não percebia nada de Finanças — expulsou à chibatada os economistas do Templo, e Dante, vivesse ele em Portugal e soubesse o que nós sabemos hoje, ter-lhes-ia certamente destinado um penoso lugar no último círculo do Inferno. O triunfo da Economia passa pela expulsão dos poetas e dos visionários da cidade. Quem se surpreenderá, pois, que a Poesia, sob todas as suas incertas e gratuitas formas, seja o inimigo mortal dos mercado­res?

De facto, a vulgata económica capitalista e a sua cultura de clã contamina­ram, como uma peste, a nossa vida e a nossa alma colectivas. Os melhores de nós vagueiam agora, como indefesos sobreviventes, no pesadelo climati­zado finissecular que resta da antiga cultura. Passou o tempo de queimar livros, agora compram-se (e os escritores também) sob a forma de «best sellers»; a religião formalizou-se e ritualizou-se até perder qualquer significado cultural; a própria História foi reescrita.

Swift, há 250 anos, sugeriu aos ricos que comessem os pobres. Na altura nin­guém o levou a sério, mas os nossos economistas liberais estão já a servi-los vorazmente à mesa, aos pobres, aos reformados, aos velhos, aos fracos. Sem sombra de pecado, isto é, de cultura, que é o mais preocupante.

Manuel António Pina (1943-2012), in Jornal de Notícias, 11/11/1992