Algum dia havia de concordar com um liberal

Hoje é o dia.

O valor do trabalho

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Não foi com a receita neoliberal da especulação e do lucro que enfrentámos a pandemia. Ela não foi combatida em todo o lado da mesma forma, mas os países mais bem sucedidos foram, de um modo geral, aqueles que dispõem de um sistema nacional de saúde universal, um Estado robusto e uma administração pública competente. O fim de tudo isto ainda vem longe, mas tarda o reconhecimento e a valorização dos trabalhadores da saúde e dos serviços essenciais. Como muito bem sintetiza Pedro Prola:

A OMS declarou a pandemia há 7 meses. Neste tempo, trabalhadores da saúde têm trabalhado incansavelmente e, após os aplausos diários nas janelas por todo o mundo terem acabado, continuam sem aumentos.

O fracasso do neoliberalismo ficou demonstrado durante a pandemia, mas ele permanece, como um morto-vivo. Milhões de pessoas entram na pobreza e na pobreza extrema, enquanto os mais ricos enriquecem.

A pandemia evidenciou a importância de funções sociais mal-remuneradas. a sociedade depende de trabalhadores que, muitas vezes, recebem o salário mínimo. ainda assim, continua a oposição da direita a aumentos reais de salário mínimo, demonstrando a injustiça do sistema.

O motivo pelo qual a direita se opõe aos aumentos de salário não é a preocupação meritocrática ou a capacidade do mercado em identificar as funções sociais mais importantes. É apenas porque, para aumentar o salário das pessoas na base, tem que se reduzir os lucros no topo.

Covid-19, filhos e enteados

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Todos os membros do Conselho de Estado testaram negativo à Covid-19, apurou a TVI24, sendo António Lobo Xavier é o único conselheiro de estado infetado.

CONSELHO DE ESTADO REUNIU-SE NA TERÇA-FEIRA, no Palácio da Cidadela, em Cascais, entre as 14:00 e as 18:00, tendo como convidada a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Esta foi a primeira reunião presencial do órgão político de consulta do Presidente da República em período de pandemia de covid-19, depois de duas reuniões por videoconferência.

O chefe de Estado escolheu o Palácio da Cidadela, em Cascais, precisamente para “assegurar o devido distanciamento físico”, de acordo com uma nota da Presidência da República.

A Presidência da República foi informada de que Lobo Xavier estava infetado com o novo coronavírus, pelo próprio, no domingo ao fim da tarde, e “avisou de imediato todas as pessoas que estiveram presentes” na reunião de terça-feira em Cascais.

Quase exemplares os procedimentos neste caso do conselheiro de Estado infectado pela covid-19. Após o teste positivo, informação imediata a todos os potenciais contactos de risco. Pouco mais de 24 horas passadas, já quase todos tinham o teste feito e o respectivo resultado.

A manchar o retrato, apenas a participação de alguns responsáveis de cargos políticos em iniciativas públicas, desrespeitando as regras de isolamento que são impostas ao comum dos cidadãos.

Agora compare-se a actuação rápida e eficaz perante uma possível contaminação no Conselho de Estado com a desorganização e o desleixo que, com o agravar da pandemia, alastram pelo país. Surtos nos lares, o que significa que a pandemia está de novo descontrolada e não se fazem os testes necessários a quem contacta grupos de risco. Infectados que não são vigiados e apoiados. Casos suspeitos, mas assintomáticos, a quem é dito para fazerem a vida normal. Demora na realização e obtenção de resultados dos testes. Alunos mandados para casa porque testaram positivo, mas os colegas continuam na escola. Os professores, esses, parecem ser cartas fora do baralho e devem já ser todos imunes ao “bicho”, pois não se equaciona sequer que possam ser também infectados, quanto mais a possibilidade de contagiarem outras turmas.

A República, cujo aniversário ontem se celebrou, fez-se para instituir, entre outras coisas, a plena igualdade de direitos entre os cidadãos. Para acabar com monarquias, fidalguias e outras formas de privilégio e discriminação. Mas há ainda um longo caminho a percorrer até que, na relação com os cidadãos – e mesmo estando em causa a saúde e a vida das pessoas – o Estado deixe de ter filhos e enteados.

Não estamos todos no mesmo barco

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Sei bem que o sindicalismo da CGTP e da Fenprof provoca alguma urticária em boa parte da classe docente. Percebo que muitos professores não se revejam nos discursos, nas lideranças ou nas posições políticas. Mas a falha maior não é a de quem, à sua maneira, age em defesa dos professores. O que há é, da parte de outros quadrantes políticos, um grande vazio e uma profunda ignorância relativamente aos problemas sociais e laborais dos professores.

Isabel Camarinha, secretária-geral da CGTP, não é professora. Mas fez ontem, a pretexto da celebração do Dia Mundial do Professor, uma análise muito incisiva e pertinente da realidade social e política que condiciona, não só os direitos e reivindicações dos professores, mas de todos os trabalhadores. Por muito que se diga o contrário, não estamos todos no mesmo barco. E se há uma política de fundo que favorece o capital em detrimento do trabalho, não é a pandemia que irá, só por si, inverter a situação. Vai é servir de pretexto para continuar a política que já antes era seguida.

A secretária-geral da CGTP, Isabel Camarinha, disse esta segunda-feira que as “opções têm sido muito desequilibradas” e que “as medidas que têm vindo a ser tomadas” face à pandemia da Covid-19 mostram que nem todos estão no mesmo barco.

“Neste momento particular que estamos a viver impõem-se outro caminho, um caminho que rompa com este caminho. Não estamos todos no mesmo barco. As opções têm sido muito desequilibradas e as medidas que têm vindo a ser tomadas para fazer face ao surto epidémico são a favor do capital e deixam os trabalhadores em situação de grande fragilidade”, disse Isabel Camarinha.

[…]

Num discurso marcado por reivindicações, Isabel Camarinha defendeu que “o modelo de baixo salários, da precariedade, das normas gravosas da legislação laboral, do desinvestimento nas funções sociais do Estado (…) são opções dos sucessivos Governos, não são culpa da pandemia”.

“É hora de avançar nos direitos, nos salários e nas pensões e no reforço do papel do Estado. Agora todos aplaudem e todos dizem que a administração pública e os serviços públicos são importantes e fundamentais para dar resposta às necessidades colocadas pelo surto epidémico, mas não chega valorizar só de nome. Tem de se dar condições e uma escola pública que efetivamente tenha qualidade”, apontou.

Iniciativa Laboral

No dia em que a CGTP-Intersindical comemora os seus 50 anos, seja-me permitido assinalar aqui a importância do movimento sindical em todos os sectores do mundo laboral do século XXI.

Mais iniciativas laborais – em prol dos muitos que trabalham, criando a riqueza de que poucos usufruem – e menos iniciativas liberais, promotoras da desigualdade, da concentração da riqueza, da perpetuação da pobreza e da falta de oportunidades.

Como tão bem se exprime no inspirado boneco que encontrei aqui.

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Empregos de merda

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O confinamento mostrou que certas actividades são essenciais para vivermos (empregos produtivos que implicam fabricação, transportação, entrega, reparação ou manutenção, bem como cuidadores, profissionais de saúde, etc) e outras foram vitais para nos fazerem sentir vivos (cultura, artes, humanidades, ensino, comunicação). A questão, para [David] Graeber, são as actividades intermédias, muitas delas de administração ou supervisão, que terão crescido exponencialmente nas últimas décadas, sem que se vislumbre uma razão lógica – administrativos, gerentes de fundos de investimentos, accionistas, consultores, especuladores, oficiais de justiça, conselheiros jurídicos, serviços financeiros, telemarketing, direito empresarial ou recursos humanos.

[…]

O resultado é profissionais de outras actividades (no ensino, investigação, saúde) perderem tempo precioso com burocracia porque nos níveis intermédios existe quem tenha de justificar a sua ocupação. Porque é que isso acontece? Não é apenas oferta e procura. Há motivações económicas e políticas, da ordem da complexidade sistémica, mas também morais. A idealização do trabalho, enquanto valor em si mesmo, da produção e do consumo. A ideia de que a criação de empregos é sinónimo de prosperidade. Por outro lado, muitos empregos produtivos foram automatizados, mas em vez da redução do tempo de trabalho, o que se assistiu foi a um aumento dos empregos administrativos em sentido amplo. E há também mecanismos de controlo. Dividir para reinar. Criar postos de trabalho que se identifiquem com as visões e valores das classes dominantes, ao mesmo tempo que se promovem ressentimentos contra os que têm um trabalho de valor social inegável – não é a isso que se vislumbra quando existem manifestações de enfermeiros ou professores?

E aqui estamos. Quanto mais útil é o trabalho, mais mal pago é, parece ter sido o ensinamento do confinamento, segundo Graeber, com óbvias excepções, como os médicos. As políticas que tornaram a vida e o emprego mais difícil para tantas pessoas produziram em simultâneo uma série de actividades inconsequentes e com regalias para muitas outras. Antes de morrer, alertou para o facto de o mundo não ter aprendido nada com a crise de 2008, não sendo capaz de perceber quais os empregos sistemicamente mais importantes e os mais irrelevantes. E agora?

Pegando no conceito de empregos de merda criado por David Graeber, Vítor Belanciano tece interessantes e oportunas reflexões acerca da necessidade e do valor do trabalho nas sociedades do século XXI.

Na base, um aparente paradoxo. Vivemos num mundo onde os computadores, os robôs e as redes de comunicação deveriam progressivamente dispensar o trabalho humano, criando condições para a libertação da humanidade da obrigação de trabalhar, um pesado fardo que transportamos connosco desde, pelo menos, os alvores do Neolítico. No entanto, para a grande massa da população, a globalização económica e a revolução tecnológica da computação e da automação não estão a permitir, nem trabalhar menos, nem obter melhor remuneração ou maior realização pessoal do trabalho realizado.

Mesmo quem realiza trabalho produtivo, fabricando bens ou prestando serviços, vê-se muitas vezes constrangido a passar boa parte do seu tempo, não a produzir, mas a justificar aquilo que fez ou o que irá fazer. Quem é professor, por exemplo, sabe bem quando do seu tempo vai sendo tomado pela burocracia, pela produção de relatórios, planificações e todo o tipo de registos escritos que, na maioria dos casos, ninguém irá ler. Mas que são necessários a um número crescente de pessoas que justificam os seus salários pela intermediação que fazem entre os decisores no topo da hierarquia e, na base, os executores das tarefas e os prestadores dos serviços.

Subitamente, o confinamento imposto pela pandemia abriu-nos os olhos para uma realidade pouco visível: há profissões essenciais, sem as quais a economia e a vida em sociedade, tal como as conhecemos, se desmoronariam. O comércio de bens essenciais, a produção agrícola e industrial, o fornecimento de água, energia e telecomunicações, os serviços de saúde, os cuidados geriátricos, a educação – tudo isto se revelou essencial e não deixou de funcionar. Mas, com a óbvia excepção dos médicos, quantos trabalhadores destas áreas são efectivamente valorizados pelo trabalho que realizam?

Em contrapartida, temos sectores da administração pública e privada, dos bancos e serviços financeiros, das consultadorias e advocacias do regime, que pagam salários milionários aos seus funcionários de topo, apesar de os seus serviços pouco ou nenhum valor acrescentarem à economia ou à felicidade individual e ao bem-estar colectivo: em muitos casos, limitam-se a parasitar o Estado e a economia privada e a complicar a vida dos cidadãos.

Na base da pirâmide dos empregos de merda, temos uma série de profissões com diferentes graus de utilidade, mas em geral desprezadas e mal pagas, que subsistem enquanto os arquitectos do capitalismo pós-industrial não os conseguirem dispensar: o novo proletariado ao serviço das ubers e amazons nos transportes, nas logísticas e nas entregas porta-a-porta.

O dinamismo laboral da nova economia disfarça mal uma realidade que veio para ficar: um elevado desemprego estrutural, que tende a crescer à medida que aumenta a produtividade e a eficácia das empresas e organizações. Em vez da desejada reforma laboral, que passaria pela redistribuição e a valorização do trabalho – trabalho para todos, trabalhar menos, viver melhor – vemos ressurgir, mesmo em países desenvolvidos, formas de precariedade e exploração laboral dignas dos primórdios do capitalismo. E nem o discurso politicamente correcto da inclusão e da igualdade de direitos e oportunidades consegue escamotear o crescimento das desigualdades.

Racismo estrutural

O recorte do Jornal de Notícias é de 28 de Julho de 1888. Mais de um século volvido sobre a Declaração de Independência dos EUA, onde solenemente se proclamava a crença de que todos os Homens foram criados iguais.

No estado de Nova Iorque, a escravatura foi abolida ainda no século XVIII, como sucedeu na generalidade dos estados do Norte. A derrota dos confederados na Guerra da Secessão (1861-65) ditou o fim da escravatura em todos os estados norte-americanos.

Mesmo assim, na distinta sociedade novaiorquina de finais de oitocentos, ainda que homem livre e created equal, com dinheiro e “maneiras distintas”, um preto continuava a ser um preto…

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Recorte daqui.

O ensino não é isto!

ead-fenprofEnsino não é isto, nem nada que se pareça! – afirmou, assertivo, um dos docentes que respondeu ao inquérito da Fenprof sobre o ensino a distância que, em virtude da pandemia, foi implantado nas escolas portuguesas.

Entre os mais de 3500 professores e educadores que responderam, nota-se a percepção clara de que, ainda que esta possa ter sido a resposta possível perante as circunstâncias que ditaram o fecho das escolas, ela está longe de constituir uma resposta satisfatória às necessidades dos alunos.

O E@D exclui um elevado número de alunos e, apesar da exaustão a que leva os professores, tem conduzido a aprendizagens pobres e limitadas. Quando já se fala em continuar a brincadeira pelo próximo ano lectivo, é altura de assentar os pés na terra e prestar atenção a abordagens sérias e realistas acerca do ensino não presencial, construídas a partir do conhecimento e das percepções de quem está no terreno. De quem lida com a frustrante realidade de um modelo de pseudo-ensino que, de dia para dia, vai cavando cada vez mais o fosso da desigualdade no acesso à educação. E deixando um número crescente de alunos para trás…

As respostas dos professores não deixam dúvidas, com a opinião maioritária a resumir-se numa afirmação que se poderá tornar icónica: O ensino não é isto, nem nada que se pareça!

Apesar disso, os professores, como sempre, foram solidários com os alunos e colocaram ao seu serviço as casas, o computador, a Internet, o telemóvel e, até, a sua privacidade. Fizeram-no porque, desde cedo, perceberam que a tutela não estava a fazer a sua parte. Não a de emitir ordens, orientações, circulares, disposições, plataformas ou aplicações, pois essas têm jorrado em cascata, mas a de, atempadamente, criar condições efetivas para o que designou por E@D. Deixou cada um à sua sorte e todos por sua conta.

Nas respostas abertas, há dois tópicos que os professores destacam:

– A desigualdade entre os alunos, que se agravou, em alguns casos, perigosamente. Assinalam, como principais razões, a falta de apoios, que, para alguns, são absolutamente indispensáveis e, também, as questões de ordem social que, já tendo contornos graves, se tornaram ainda mais problemáticas, com dois milhões de trabalhadores a ficarem em layoff ou no desemprego. Esta situação tem forte repercussão no funcionamento das famílias, designadamente no acompanhamento dos filhos;

– O desgaste dos professores, que manifestam enorme cansaço, decorre de diversos fatores, que vão da necessidade de adaptação a um modelo inédito de atividade até ao facto de ser bastante mais complicado, estando distante, acompanhar todos os alunos e satisfazer as necessidades educativas específicas de cada um; contribui, ainda, para este desgaste o facto de a atividade profissional ter tomado conta de todas as horas do dia e, ao invadir a casa de cada professor, dificultar a sua indispensável e saudável separação da vida familiar.

Confirma-se que, a meio do terceiro período letivo, mais de metade dos docentes ainda não tinha conseguido contactar com todos os seus alunos; apesar disso, mais de dois terços avançaram novos conteúdos curriculares, impelidos que foram pelas direções de algumas escolas e pelo ministério da Educação; porém, de entre esses docentes, é significativo o número dos que afirmam não considerar esses conteúdos na avaliação que farão dos seus alunos. Conscientes dos défices que se verificarão no final do presente ano letivo, os professores consideram inevitável, em 2020-2021, tê-los em conta, tentar superá-los e reforçar os apoios pedagógicos aos alunos.

Os resultados completos do inquérito encontram-se aqui.

400 milhões para a Escola Digital

O Governo vai lançar um programa para assegurar a universalização do acesso e utilização de recursos educativos digitais, um investimento no valor de 400 milhões de euros, anunciou o primeiro-ministro, esta quinta-feira.

“Esta crise demonstrou bem como é essencial combater as desigualdades, designadamente aquelas do ensino à distância”, afirmou António Costa em conferência de imprensa, no final da reunião do Conselho de Ministros, sublinhando a necessidade de assegurar o acesso ao ensino digital em suporte digital.

O programa que foi hoje aprovado pelo Conselho de Ministros faz parte do Programa de Estabilização Económica e Social, que vai enquadrar o futuro Orçamento Suplementar.

No documento oficial onde o Governo explica como vão ser gastos os 400 milhões de euros na digitalização da educação, a prosa é lacónica e pouco inspiradora…

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Posso estar enganado, mas costuma dizer-se que, em política, o que parece, é. E o que aqui se não parece nada um programa educativo estruturado, reflectido e coerente. É mais com um lançar de dinheiro em cima de reais ou supostos problemas, de forma a beneficiar determinados interesses, sem nada de substancial resolver naquilo que são as verdadeiras carências, fragilidades e bloqueios do sistema educativo.

Para começar, é difícil não ver no nome que escolheram para a coisa uma involuntária declaração de interesses. A expressão Escola Digital aglutina as designações comerciais das duas plataformas de aprendizagem online que disputam o mercado português, o duopólio formado pela Escola Virtual e a Aula Digital, respectivamente da Porto Editora e do Grupo Leya. Vendedores óbvios das “licenças de software” a serem pagas pelo contribuinte.

Quanto à “capacitação digital” dos docentes, é caso para perguntar: há quantas décadas se anda a fazer formação na área das TIC para professores? Será por falta de “capacitação” que não somos todos, ainda, génios da educação digital? Não andaremos a esquecer-nos de uma coisa básica, que é o objecto do trabalho docente serem os alunos e não as tecnologias educativas? A verdade é que, para a grande maioria dos docentes, é impossível conciliar as elevadas cargas de trabalho lectivo e as correspondentes exigências ao nível da burocracia escolar com o tempo que é necessário para conhecer diferentes programas e plataformas de aprendizagem, produzir materiais e usá-los com os alunos.

Não é por acaso que nestes quase três meses que levamos de confinamento se deram passos de gigante no domínio das tecnologias educativas. É que todo o quotidiano docente ganhou uma configuração radicalmente nova, levando cada professor a potenciar o uso das ferramentas digitais que já antes utilizava ou, em muitos casos, a partir à descoberta de novos instrumentos, adequados aos novos contextos de aprendizagem. Mas não se pense que, no futuro, os professores continuarão com a mesma disponibilidade física e mental para, depois de um dia de escola presencial retomarem, pela noite dentro, a escola virtual.

Por último, o que dizer da ambição de António Costa, que quer combater a desigualdade no acesso à educação dando aos alunos carenciados computadores e acessos à internet? Diz-se em poucas palavras: este período de confinamento e de ensino a distância deu para perceber várias coisas, entre elas que a realidade educativa não é – nunca foi – a preto e branco. Tivemos alunos sem acesso a computador e internet que, assim que estes lhes foram disponibilizados, se puseram em contacto com a escola e os professores, cumprindo com afinco as tarefas escolares. E outros que, dispondo de todos os recursos necessários, nunca assumiram os seus compromissos. Há ainda aqueles que, embora tendo os meios para trabalhar, não se conseguem orientar sem a presença ou o apoio de proximidade dos professores.

Em suma, se é verdade que sem conexão à escola, aos professores e aos colegas não se aprende, é igualmente certo que a tecnologia não garante só por si o acesso à educação, muito menos em condições de equidade. A desigualdade e a exclusão no acesso à educação combatem-se na escola. Não quero com isto negar a importância dos apoios directos às famílias e aos alunos carenciados noutras vertentes, nomeadamente económicas e sociais. Mas é uma perigosa ilusão pensar que um computador em casa é remédio santo para mais e melhores aprendizagens. Ou que uma escola mais personalizada, humanista e inclusiva se constrói na base de aprendizagens automáticas e padronizadas, ministradas por máquinas de ensinar.

Leituras: Confinamento e efeito-escola

Sendo a actual pandemia um fenómeno à escala global, é natural que gere, em diferentes países, problemas e dificuldades semelhantes. O texto que se segue refere-se à realidade espanhola, mas o leitor português constata, sem dificuldade, que a reflexão se adequa perfeitamente à situação que vivemos por cá.

A grande diferença é que, enquanto noutros países a Psicologia e a Sociologia da Educação produzem reflexões de grande interesse e valor sobre os dilemas do presente e do futuro imediato, por cá os nossos académicos continuam a evidenciar a incapacidade de tentar compreender um mundo de que, empoleirados nas suas cátedras, sempre estiveram distantes. E continuam debitando as vulgaridades de sempre

Confinamento e efeito-escola

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O vírus que nos atormenta põe, de muitas formas, a a sociedade em frente ao espelho. Uma delas é a da educação e da aprendizagem. A situação inédita produzida pela actual pandemia permite-nos observar a realidade quase como uma experiência social: eliminar de repente o trabalho da instituição escolar (pelo menos o presencial) e observar quem é mais afectado pela paragem. Dir-se-á que para essa viagem não fariam falta esses alforges: afectarão os mesmos de sempre. Certo. Mas nunca antes tivemos a oportunidade de ver tão claramente activar-se o capital cultural e social das famílias, nem de observar as reacções díspares das escolas. Isto permite-nos avaliar o real valor acrescentado do papel da escola para diferentes grupos sociais.

As diferenças devem-se, em parte, à brecha digital. Segundo dados da Unicef, 300 mil crianças espanholas não utilizaram um computador nos últimos três meses, ou 22% dos jovens ciganos dizem não ter internet em casa por razões económicas. Mas, para além das barreiras digitais, onde a desigualdade é mais evidente é nas diferentes respostas das escolas e na capacidade desigual das famílias para oferecer actividades de formação e aprendizagem aos seus filhos e filhas.

O confinamento exige mais do que nunca a cumplicidade das famílias no processo de aprendizagem. Enquanto a classe média faz uma espécie de curso intensivo em ensino doméstico, outros grupos sociais ou não estão em casa porque estão a trabalhar ou não dispõem dos meios, recursos ou competências necessários para se tornarem professores numa semana. À desigualdade familiar soma-se uma resposta desigual das escolas. A informação que nos chega sobre a forma como as escolas estão a reagir à paragem revela que algumas escolas criaram horários de aulas online completos e pedem múltiplas tarefas escolares, enquanto outras estão completamente inactivas. Entre os dois extremos, as escolas estão a ser activadas de várias formas, por vezes tão bem quanto é possível. Também aqui é mais do que provável que se observe a existência de uma rede tripla, com escolas concertadas e algumas escolas públicas actuando de forma hiperactiva e a partir de lógicas colaborativas escola-família (ou de serviço ao cliente), e outro grupo de escolas públicas ultrapassadas pelas condições de pobreza e vulnerabilidade dos alunos, cujas famílias sofrem especialmente as consequências do novo cenário provocado pela pandemia.

Paradoxalmente, o período de confinamento sublinha a importância de uma instituição como a escola, que é cada vez mais ultrapassada pelos seus concorrentes (aprendizagem em linha, educação não formal) e desfasada das suas funções sociais tradicionais. O efeito-escola sobre a aprendizagem mostra-se assim quase irrelevante para os colectivos com capacidade de substituição imediata, mas fundamental para os de menor capital cultural. Curiosamente, são os primeiros que estão mais obcecados em escolher escolas com maior qualidade académica e composição social mais homogénea, enquanto o comportamento estratégico é mais fraco para aqueles para quem a escola é realmente decisiva.

O confinamento põe a nu muitos pressupostos sobre a crise da escola como instituição, a irrelevância dos professores ou as virtudes da auto-aprendizagem como dogmas absolutos generalizáveis. Por mais defeitos que tenha e por mais vozes críticas que repitam que a escola permaneceu ancorada no século XIX, para certos grupos ela continua a ser a única tábua de salvação da exclusão social e da reprodução da pobreza. O confinamento, por sua vez, expõe os defeitos de um sistema incapaz de dar uma resposta coordenada que vai além do que cada escola, e por vezes cada professor, é capaz de oferecer. Em 2020, a brecha digital (tanto no acesso como no uso) está a tornar impossível que muitas crianças nas nossas escolas continuem a aprender. Este é um indicador implacável (e vergonhoso) de uma desigualdade de oportunidades educativas que agora vemos aumentar. Não ter acesso à rede no século XXI é equivalente a ser analfabeto no início do século XX.

Hoje, mais do que nunca, sentimos falta de uma política de educação diferente, capaz de responder, a partir de estruturas administrativas próximas e flexíveis, às necessidades de aprendizagem dos mais desfavorecidos. Esperemos que esta crise constitua também uma oportunidade de mudança.

Xavier Bonal y Sheila González