Generosidades…

Claro que ajudar vítimas de calamidades ou investir no desenvolvimento e na melhoria das condições de vida nos países pobres não é incompatível com o restauro de monumentos ou o mecenato cultural em geral.

No mundo abundante de riquezas e de recursos em que vivemos, há dinheiro e capacidade para fazer tudo isso e muito mais. Assim fosse mais aplicado em investimento produtivo e menos concentrado na especulação. Mais e melhor redistribuído por toda a humanidade e menos concentrado no 1% da população mundial que, quanto mais tem, mais quer.

A questão é, como sempre, de prioridades. Que parecem andar invertidas quando, para certos fins, o dinheiro jorra abundante, enquanto para outros nunca é suficiente. Ou chega sempre tarde e a más horas…

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A perversidade dos rankings

futebol-infantil.jpgFinanciamentos públicos para escolas privadas, cheque-ensino, rankings de escolas, segregação e segmentação dos públicos escolares: o programa educativo das direitas ataca em força na vizinha Espanha, tendo em conta o próximo embate eleitoral num país que, politicamente, se encontra profundamente dividido.

Mas há também vozes de colegas nossos que contestam uma instrumentalização da educação ao serviço dos lucros privados e do aprofundamento das desigualdades. E que pedagogicamente, numa linguagem clara e acessível, explicam as consequências destas políticas. É o caso desta inspirada sequência de tweets de @CarlosGaMart, que traduzi e adaptei.

Imaginemos que um município organiza uma série de competições desportivas por bairros para os jovens da cidade. O distrito vencedor receberá uma dotação económica que deve ser investida em serviços para seus habitantes.

O bairro A, deprimido e trabalhador, contrata técnicos especializados em educação física para treinar a equipa concorrente. O bairro B, de pessoas sócio-economicamente bem acomodadas, faz o mesmo.

Os treinadores da equipa A têm problemas desde o início: por causa da falta de instalações desportivas no bairro, os jovens não têm hábitos saudáveis. Há que motivá-los, fazê-los entender que, ao contrário do que parece, a prática e o esforço lhes trarão muitos benefícios. A estes miúdos custa-lhes ter uma certa perspectiva: elas não vêem além do imediato.

As infraestruturas desportivas do bairro A, como dizia, são precárias. É preciso partilhar o material de treino, as pistas, etc. Nem sempre é possível substituir o que se estraga e, com frequência, muitos miúdos faltam às sessões programadas. Eles estão habituados a outro tipo de lazer: àquele que proporciona satisfação imediata. Contudo, apesar das muitas pedras que vão surgindo pelo caminho, a equipa prepara-se apresenta-se em competição.

No bairro B, as coisas foram diferentes. Acostumados a praticar desporto desde sempre, os seus jovens começam com uma disposição natural favorável: são disciplinados, pontuais, entendem os benefícios da actividade física face a outro tipo de hábitos desaconselháveis ​​e têm boas infraestruturas à sua disposição. Pois bem, a competição é realizada e, como era de esperar, a equipa B vence todas as provas. Os resultados do evento são publicados. Nos jornais locais, os cidadãos lêem, sem mais delongas, a classificação.

Tempos e posições, isso é tudo. Conclusões precipitadas: a equipa A foi a pior. Talvez não tenham treinado o suficiente ou simplesmente sejam fisicamente incapazes. Não se empenharam com a seriedade que o evento exigia.

Obviamente, um forasteiro que chegasse à cidade, à vista dos resultados, escolheria o bairro B para criar os seus filhos. A partida foi justa: ambos competiram em igualdade de condições, o juiz foi imparcial e as condições das provas foram as mesmas.

No entanto, quem realmente ganhou? O que queremos dizer com ganhar? É correcto estabelecer uma classificação como a publicada nos jornais? O que pensarão os atletas que, partindo de uma condição física e mental muito inferior, foram capazes de competir com dignidade?

Não nos esqueçamos que o prémio é recebido pelo bairro B. Apesar de já ter umas boas infraestruturas desportivas, esse dinheiro servirá para melhorá-las ainda mais. Uma pescadinha de rabo na boca.

Se substituirmos “bairro” por “escola” e “desporto” por “desempenho académico”, talvez possamos compreender a perversidade que é estabelecer e publicar rankings de escolas. Para alguns partidos, é uma medida emblemática nestas próximas eleições.

Fico estupefacto. Se algo está claro para mim, é que o que está acontecendo com a educação neste país recairá sobre todos nós, em toda a sociedade. Como um plástico no mar que acaba por se integrar na cadeia trófica.

Quando chegar a hora de pedir responsabilidades, muito receio que os olhares se dirijam, como sempre, para os treinadores.

Pensas que estás na tua barraca?

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Uma admoestação infeliz da professora à filha da colunista, que estaria mal sentada na sala de aula, serviu de pretexto à crónica no DN. A rapariga de 12 anos comentou em casa. E perguntou à mãe se achava bem que a professora fizesse uma pergunta destas.

Não, não acho. Não valorizei. Não falei com a professora. Não falei sequer com o diretor de turma. Mas não acho. E expliquei porquê à minha filha. Naquela pergunta que a professora lhe fez, e que não a afetou porque ela não vive numa barraca, está toda a injustiça social, a falta de pedagogia e a falta de empatia que tantas vezes persiste nas salas de aula portuguesas.

Na cabeça de quem fez aquela pergunta, que, calha, é professora, uma criança que vive numa barraca porta-se naturalmente mal, tem maus resultados, não tem emenda, talvez não tenha mesmo lugar ali, naquela escola, que, calha, é uma escola pública.

Até aqui, estaremos de acordo: admitindo que tudo se passou como é descrito, terá sido excessiva a linguagem da professora. Embora também se saiba como algumas turmas difíceis testam os professores até ao limite, e como por vezes é difícil corrigir atitudes e comportamentos, reagindo sempre no momento certo, no tom adequado e da forma mais eficaz, sem dizer uma só palavra ou expressão além do que é necessário ou apropriado.

Mas houve outra passagem desta crónica que também me chamou a atenção.

Uma das questões com que me debato e que me deixa os nervos em franja é porque é que a escola pública, que deveria ser o principal instrumento de justiça social e de criação de igualdade de oportunidades, continue a não conseguir, quase 45 anos depois do 25 de Abril, garantir um ensino igual para todos.

Confesso que fiquei um pouco perplexo com esta defesa do ensino igual para todos, uma ideia que defendo convictamente e que sempre associei aos ideais de liberdade, igualdade, democracia e justiça social que se impuseram no nosso país com a Revolução de Abril. É que o actual governo tem apostado exactamente no oposto: numa escola feita à medida de cada aluno, onde o ensino deve ser ministrado de forma diferenciada, tendo em conta a diversidade, não só de públicos escolares, mas de alunos dentro da sala de aula. Aquilo a que o ministro, num dos seus raros momentos de inspiração, chamou uma vez a escola-alfaiate, onde o ensino é como um fato talhado à medida de cada aluno.

Olho assim o desabafo desta mãe com algum optimismo: afinal não sou só eu, e mais uns quantos professores passadistas da velha guarda, a considerar que um ensino “igual para todos” é o melhor garante da igualdade de oportunidades. O aluno pobre tem de ser tratado com dignidade e respeito. Mas a pobreza por si só não justifica que lhe seja exigido menos do que a outro, mais afortunado economicamente. O ensino à medida de cada um acaba demasiadas vezes com o pobre “a aprender um ofício” e o rico a preparar a entrada na universidade, perpetuando a desigualdade social ao longo de sucessivas gerações.

Fraude no acesso à universidade

stanfordA notícia já tem alguns dias, mas as ondas de choque continuam a propagar-se por terras do Tio Sam. Num país que gosta de acreditar na meritocracia, na igualdade de oportunidades e noutras fábulas neoliberais, descobrir que os ricos, além de serem naturalmente beneficiados no acesso à Educação, ainda fazem batota quando nem tudo corre de feição, é naturalmente perturbador…

Meia centena de pessoas foram acusadas, nesta terça-feira, de envolvimento num gigantesco esquema fraudulento que garantiu a entrada a inúmeros alunos em universidades conceituadas dos Estados Unidos — como Yale, Stanford, Georgetown, a Universidade do Sul da Califórnia (USC) e a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) — através do pagamento de milhões de dólares.

Entre figuras de Hollywood e directores executivos de grandes empresas, pelo menos 33 pais são acusados de terem pago elevadas quantias para garantir que os seus filhos eram aceites em determinadas universidades dos EUA, segundo a acusação judicial agora conhecida. Mas no esquema estariam também envolvidos treinadores desportivos de universidades de topo, que são acusados de aceitar subornos de milhões de dólares para garantir que determinados alunos fossem aceites nas instituições de ensino, ao abrigo de programas teoricamente reservados para jovens atletas promissores, acabando por acolher estudantes que não preenchiam os requisitos académicos e atléticos necessários.

Segundo o diário New York Times, este é o maior processo relacionado com candidaturas universitárias alguma vez movido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. A investigação mobilizou 200 agentes a nível nacional e resultou em acusações contra 50 pessoas em seis estados norte-americanos.

O ensino superior dos EUA, embora de qualidade mundialmente reconhecida, sobretudo nas suas instituições de topo, é um sistema duplamente elitista: no acesso às universidades mais prestigiadas, onde os candidatos excedem largamente as vagas disponíveis e nos valores proibitivos das propinas cobradas, dificultando o acesso, não apenas aos pobres, mas também a quase todos os que não fazem parte daquele 1% da população norte-americana para quem o dinheiro nunca constitui problema.

A mega-fraude no acesso às universidades está a ter ampla discussão e diversas leituras. Do que li, partilho convosco um excerto da que me pareceu mais pertinente, incisiva e esclarecedora.

Os filhos da classe trabalhadora aprenderam uma lição brutal esta semana, quando os procuradores federais acusaram criminalmente pessoas ricas de comprar o ingresso em universidades de elite para os seus filhos não-tão-brilhantes.

A lição é que não importa o quanto trabalhes duro, não importa o quão inteligente ou talentoso fores, porque no fim um garoto burro, preguiçoso e rico vai-te vencer.

É crucial que todos os que não são estrelas de cinema, gestores de fundos de risco ou executivos – ou seja, 99% de todos os americanos – vejam o escândalo das admissões na faculdade pelo que ele é realmente: um microcosmo do mais vasto e corrupto sistema que funciona contra os trabalhadores, esmagando as suas oportunidades de progredir.

Esse sistema é o motivo pelo qual as pessoas ricas e as corporações receberam cortes fiscais massivos no ano passado, enquanto para os 99% eles foram insignificantes. É a razão pela qual o salário mínimo federal e o limite de horas extraordinárias estão fixos em níveis de pobreza. É a razão pela qual os sindicatos diminuíram nas últimas quatro décadas.

Este sistema é a razão pela qual não podemos ter coisas boas. Apesar de toda essa treta da terra da igualdade de oportunidades, os ricos garantem que só eles podem ter coisas boas, começando com o que podem comprar legalmente e ilegalmente para seus filhos e continuando com o que podem comprar legalmente e ilegalmente aos políticos que fazem as regras que tiram dinheiro dos bolsos de trabalhadores e o depositam nas contas bancárias dos fabulosamente ricos.

Quando o mentor do esquema de admissão em universidades de elite, William Singer, se declarou culpado esta semana, ele expôs a plataforma de lançamento disponível para os bem sucedidos garantirem que seus filhos serão bem sucedidos. Mesmo depois que os ricos pagarem para os seus herdeiros frequentar academias preparatórias proibitivamente caras, as suas notas, os resultados de testes e as actividades extra-curriculares podem não ser suficientes para entrar nas universidades da Ivy League, nas quais um diploma praticamente garante uma posição bem paga em Wall Street e, com isso, uma nova geração de acumulação de riqueza.

Do colégio dos betinhos à escola dos coitadinhos

colegio.JPGO Público é um jornal geralmente atento aos temas educativos, que têm aqui uma cobertura mais extensa e regular do que na generalidade da imprensa escrita. No entanto, nota-se demasiadas vezes a intromissão de uma agenda ideológica que perturba a objectividade, o rigor e a isenção que deve, em todas as circunstâncias, caracterizar o bom jornalismo.

Vem isto a propósito da divulgação dos rankings das escolas, que foi durante anos uma causa defendida por este jornal. É ainda hoje uma matéria que os seus jornalistas têm dificuldade em gerir com sobriedade, acabando algumas peças por deslizar para um moralismo hipócrita de inspiração neoliberal que se torna difícil de suportar.

“Estes alunos suaram de facto, mas isso dá-lhes estofo para o que vem a seguir”

Este colégio de elite da linha de Cascais recebe meninos de boas famílias, que têm acesso a tudo o que o dinheiro pode comprar. E, claro, as mensalidades caras também pagam as turmas reduzidas, os reforços curriculares, os apoios ao estudo e os gabinetes de psicologia. Têm as melhores condições materiais e humanas para brilhar nos estudos, e muitos brilham, efectivamente, catapultando a escola para o topo dos rankings. Agora era escusado dizer que suam muito – quem sua serão certamente as empregadas de limpeza das famílias destes meninos, que nunca terão oportunidade de ter os seus filhos a “suar” no colégio dos meninos ricos. E, para sermos honestos, deveremos acrescentar: as famílias que investem na educação dos filhos nestes colégios fazem-no para tentar assegurar-lhes um futuro em que não tenham, precisamente, de suar para ganhar a vida.

…um professor não pode viver dissociado da realidade de tantas famílias, de tantas crianças, do desemprego, da violência, dos problemas com a polícia, da revolta, a toxicodependência, os abusos físicos e emocionais, as noites mal dormidas, a falta de comida em casa, a falta de roupa, a falta de um abraço e um sorriso, poder finalmente chorar, a falta de amor. 

E na Básica do Bairro Padre Cruz os professores são mais do que professores, são missionários, dedicando os dias à causa destas crianças e às vidas destas crianças, e as noites a sonhar com a vida destas crianças, tantas vezes acordando a meio, e os miúdos debaixo da pele, os problemas dos miúdos debaixo da pele, os problemas que não saem e passam a ser parte do que somos. 

No extremo oposto, temos o fado triste da escola dos meninos pobres, que aí vão em busca da comida e do afecto que muitos não têm em casa, e dos professores-missionários dedicados a uma causa que, embora podendo somar todos os dias pequenas vitórias está, no seu todo, invariavelmente perdida. Porque a luta contra a pobreza, a fome, o desemprego, a marginalidade, a violência doméstica e outras realidades que enchem o quotidiano destes alunos não se combate na escola. As refeições escolares, os apoios sociais e psicológicos, os programas de tutoria, os mediadores culturais, tudo isto são paliativos que tentam remediar, mas não resolvem os problemas de fundo.

Claro que este fadinho do professor-missionário encaixa bem na lógica economicista e neoliberal do “menos Estado”: para quê ambiciosas políticas sociais, se podemos resolver os problemas todos através da escola, com professores faz-tudo, que tanto dão a sopa como tentam ensinar a tabuada e, com sorte, ainda vão a casa saber do menino quando ele não aparece na escola? Afinal de contas, estes miúdos pobres não têm os “sonhos”, as “ambições” dos outros, os dos colégios da Linha, pelo que alimentá-los e entretê-los na escola já parece um programa satisfatório – pelo menos será melhor do que o ambiente que têm em casa…

Em boa verdade, os professores não têm de ser missionários, muito menos de fazer de pais ou mães dos alunos carenciados. Tal como todas as crianças têm direito a uma família que as ame e que cuide delas, e se demasiados miúdos a não têm, crescendo negligenciados e desamparados, então são o Estado e a sociedade que estão a falhar. E o desemprego, a doença, as dificuldades das famílias monoparentais com baixos rendimentos, as carências habitacionais nas grandes cidades, tudo isto são problemas sociais que requerem respostas prontas e adequadas – mas não é a escola que as pode dar.

Os professores destas escolas – cujo trabalho é incomparavelmente mais difícil do que o das que lutam pelos primeiros lugares dos rankings – fazem o que podem pelos seus alunos. E fazem bastante. Mas o muito que fazem fica muito aquém daquilo que são as exigências de um currículo nacional a que estes alunos não conseguem aceder. Como as médias negativas dos resultados dos exames claramente demonstram.

A escola convertida em centro de assistência social não cumpre a sua verdadeira missão com estes alunos – limita-se a tentar fazer, de forma insuficiente e limitada, a intervenção que caberia a outras entidades. E não, ao contrário do que afirma João André Costa, esta não é a melhor escola do país. Mas poderá sê-lo – no dia em que se puder dedicar realmente a educar e instruir os seus alunos, em vez de se preocupar em saber se passaram bem a noite ou tomaram o pequeno-almoço.

Megamilionários, para quê?

nadar-em-dinheiroQue o sistema capitalista, ao mesmo tempo que potencia a criação de riqueza, gera profundas desigualdades sociais, é algo que se sabe desde os primórdios da ciência económica. Que este fenómeno gera crises cada vez mais graves, que no limite podem pôr em causa o próprio capitalismo, também não é novidade: foi claramente explicado por Marx e outros economistas. Daí o sucesso das políticas redistributivas que, na senda do keynesianismo e da social-democracia, procuram corrigir os excessos do sistema capitalista, permitindo aos empresários e investidores concentrarem-se na criação de riqueza, ao mesmo tempo que garantem aos trabalhadores o rendimento necessário para que continuem a consumir e a produzir.

Contudo, o advento do neoliberalismo e da globalização anulou os equilíbrios entre capital e trabalho que haviam garantido, após o fim da II Guerra Mundial, trinta anos de prosperidade e de crescimento económico ininterrupto.  O desenvolvimento das forças e capacidades produtivas potenciou a criação de riqueza a níveis nunca vistos. E se é certo que a economia global retirou muitos milhões de pessoas da miséria, é igualmente verdade que trouxe consigo, também, o agravamento das desigualdades: nunca foi tão grande o fosso que separa hoje a fortuna dos maiores milionários dos rendimentos dos pobres ou mesmo da classe média.

Ora é precisamente partindo do valor obsceno que têm hoje as maiores fortunas que Rui Tavares, no Público, tenta reflectir sobre uma realidade que, apesar de interiorizada como desigualdade natural, na verdade foge a qualquer racionalidade. Faz sentido um sistema que concentra tanto dinheiro em pessoas que, mesmo que vivessem mil anos, não o conseguiriam gastar, ao mesmo tempo que uma percentagem ainda tão elevada da humanidade não consegue satisfazer as necessidades mais elementares?…

Mas a pergunta que devemos fazer é: e à humanidade, fazem falta megamilionários? A resposta é: não. Ninguém precisa de ter um bilião de euros, ou um milhão de milhões de euros, que demorariam a enormidade de 32 mil anos (seis vezes a idade das pirâmides egípcias) a desaparecer se se gastasse um euro por segundo ou 86 mil euros por dia, ou 2300 anos se se gastasse um milhão por dia. Se ninguém precisa de ter um bilião de euros, a humanidade não precisa que ninguém tenha um bilião de euros.

Mas já ouço objetar: e se alguém tiver ganho um bilião de euros por si mesmo, de forma legal? Não mereceria essa pessoa o fruto do seu trabalho, supondo que tal expressão fizesse sentido? (Para mim, a expressão não faz sentido: Bezos ganhou o seu hectoquiliomilhão sendo um génio da logística, mas não o ganhou só com o seu trabalho, antes assentando o seu negócio em cima da exploração do trabalho de muita gente, e de bens públicos de que se serviu, como a rede de correios ou o estado de direito).

De qualquer forma, a pergunta pode ser devolvida: e se Bezos pudesse comprar um arsenal nuclear (neste momento ele já poderia pagar os custos de manutenção de todo o arsenal nuclear dos EUA durante vários anos)? Seria “justo” ou “merecido” que ele pudesse ter um arsenal nuclear?

[…]

Num planeta que tem um PIB per capita que, se fosse distribuído, daria cerca de 20 mil euros por pessoa (muito confortável, mais do que aquilo que ganham 75% dos portugueses) mas em que ainda há centenas de milhões a viver com menos de um euro por dia, faria sentido pensar em impostos fortemente progressivos, como defende Alexandra Ocasio-Cortez para financiar um plano de investimentos verde, com uma taxa marginal de 70% a quem ganhe mais de dez milhões de dólares (atenção: nem sequer significa pagar sete milhões de imposto e ficar com três milhões, mas antes 70 cêntimos pelo primeiro dólar ganho após os dez milhões). E impostos, além de fortemente progressivos, transnacionais, como defende Thomas Piketty, propondo a criação de impostos globais para redistribuição global. Ou, mais simplesmente e à escala europeia, pondo a Comissão Europeia a fazer sistematicamente o que já fez de forma ad hoc: cobrando às multinacionais os impostos que elas já devem aos Estados-membros.

Detidos individualmente, os megamilhões podem estar a umas décadas de distância. Mas entre os super-ricos e as multinacionais, um milhão de milhões é já o que a União Europeia perde todos os anos em evasão fiscal e planeamento fiscal agressivo. Isto é o equivalente a todo o orçamento da UE, não por um ano, nem dois, nem três — mas por sete anos. E aqui não estamos a falar de impostos que poderiam ser cobrados, mas que deveriam já estar a ser cobrados. Quando lhes perguntarem onde se iria buscar dinheiro para escolas, hospitais, ou simplesmente erradicar a pobreza num dos continentes mais ricos do mundo, pensem nisto.

Desigualdades e hipocrisias

pobreza-educ.JPGDirectora do Pordata lembra que a escola não está a conseguir atenuar as desigualdades “à velocidade necessária” para que determinismos sociais “terríveis” se apaguem.

A demógrafa e directora do portal de estatísticas Pordata mostra-se preocupada com a desigualdade de oportunidades no acesso à Educação. Os alunos mais carenciados continuam, em geral, a ter piores resultados escolares. Mas o discurso situacionista sobre Educação que as fundações e as organizações internacionais vão alimentando parte de pressupostos errados que, pela minha parte, nunca me cansarei de denunciar.

Se a escola não é eficaz a combater a perpetuação das desigualdades, isso não significa que devemos que fazer mais uma reforma educativa, insistindo naquilo que, comprovadamente, não funciona.

A necessidade que temos é de encontrar outras formas de realizar as transformações sociais que a escola, está mais do que demonstrado, não consegue fazer sozinha.

Por muito boa que seja a escola, se a sociedade não criar oportunidades reais de ascensão económica e social aos filhos dos pobres, a pobreza irá sempre perpetuar-se.

Por muito talentosas que sejam as crianças de meios desfavorecidos, se as fortunas e as heranças se continuarem a transmitir entre um punhado de famílias, a multidão de remediados e deserdados terá sempre de se contentar com os restos do banquete.

Se a exploração do trabalho, agora organizada à escala global, continuar a favorecer, na distribuição de rendimentos, o capital em detrimento do trabalho, não haverá “nivelador social” que consiga contrariar o aprofundamento das desigualdades.

Mas é óbvio que interessa propagar a ideia, e por isso ela está tão presente no discurso institucional, de que podemos combater eficazmente a desigualdade através da escola, deixando intactos os mecanismos políticos, económicos e sociais que a reproduzem.

O grupo Jerónimo Martins, ao qual pertence a Pordata, é o campeão português da desigualdade salarial. O CEO da empresa ganha 130 vezes mais do que o trabalhador médio do grupo. Se estivessem mesmo preocupados com a pobreza e as desigualdades, provavelmente encontrariam muito que fazer portas adentro, na gestão do seu universo empresarial.

Muito mais fácil do que pôr em causa o modelo de negócio, os lucros milionários e o dumping fiscal é culpar o sistema educativo e os professores, por não serem capazes de corrigir as injustiças sociais e a desigualdade de oportunidades que o capitalismo neoliberal faz questão de acentuar.

Restará saber, no dia em que o filho de uma caixeira do Pingo Doce provar ser melhor gestor do que qualquer um dos que actualmente se sentam no Conselho de Administração, qual dos soaresdossantos colocaria o seu lugar à disposição.