O ensino não é isto!

ead-fenprofEnsino não é isto, nem nada que se pareça! – afirmou, assertivo, um dos docentes que respondeu ao inquérito da Fenprof sobre o ensino a distância que, em virtude da pandemia, foi implantado nas escolas portuguesas.

Entre os mais de 3500 professores e educadores que responderam, nota-se a percepção clara de que, ainda que esta possa ter sido a resposta possível perante as circunstâncias que ditaram o fecho das escolas, ela está longe de constituir uma resposta satisfatória às necessidades dos alunos.

O E@D exclui um elevado número de alunos e, apesar da exaustão a que leva os professores, tem conduzido a aprendizagens pobres e limitadas. Quando já se fala em continuar a brincadeira pelo próximo ano lectivo, é altura de assentar os pés na terra e prestar atenção a abordagens sérias e realistas acerca do ensino não presencial, construídas a partir do conhecimento e das percepções de quem está no terreno. De quem lida com a frustrante realidade de um modelo de pseudo-ensino que, de dia para dia, vai cavando cada vez mais o fosso da desigualdade no acesso à educação. E deixando um número crescente de alunos para trás…

As respostas dos professores não deixam dúvidas, com a opinião maioritária a resumir-se numa afirmação que se poderá tornar icónica: O ensino não é isto, nem nada que se pareça!

Apesar disso, os professores, como sempre, foram solidários com os alunos e colocaram ao seu serviço as casas, o computador, a Internet, o telemóvel e, até, a sua privacidade. Fizeram-no porque, desde cedo, perceberam que a tutela não estava a fazer a sua parte. Não a de emitir ordens, orientações, circulares, disposições, plataformas ou aplicações, pois essas têm jorrado em cascata, mas a de, atempadamente, criar condições efetivas para o que designou por E@D. Deixou cada um à sua sorte e todos por sua conta.

Nas respostas abertas, há dois tópicos que os professores destacam:

– A desigualdade entre os alunos, que se agravou, em alguns casos, perigosamente. Assinalam, como principais razões, a falta de apoios, que, para alguns, são absolutamente indispensáveis e, também, as questões de ordem social que, já tendo contornos graves, se tornaram ainda mais problemáticas, com dois milhões de trabalhadores a ficarem em layoff ou no desemprego. Esta situação tem forte repercussão no funcionamento das famílias, designadamente no acompanhamento dos filhos;

– O desgaste dos professores, que manifestam enorme cansaço, decorre de diversos fatores, que vão da necessidade de adaptação a um modelo inédito de atividade até ao facto de ser bastante mais complicado, estando distante, acompanhar todos os alunos e satisfazer as necessidades educativas específicas de cada um; contribui, ainda, para este desgaste o facto de a atividade profissional ter tomado conta de todas as horas do dia e, ao invadir a casa de cada professor, dificultar a sua indispensável e saudável separação da vida familiar.

Confirma-se que, a meio do terceiro período letivo, mais de metade dos docentes ainda não tinha conseguido contactar com todos os seus alunos; apesar disso, mais de dois terços avançaram novos conteúdos curriculares, impelidos que foram pelas direções de algumas escolas e pelo ministério da Educação; porém, de entre esses docentes, é significativo o número dos que afirmam não considerar esses conteúdos na avaliação que farão dos seus alunos. Conscientes dos défices que se verificarão no final do presente ano letivo, os professores consideram inevitável, em 2020-2021, tê-los em conta, tentar superá-los e reforçar os apoios pedagógicos aos alunos.

Os resultados completos do inquérito encontram-se aqui.

400 milhões para a Escola Digital

O Governo vai lançar um programa para assegurar a universalização do acesso e utilização de recursos educativos digitais, um investimento no valor de 400 milhões de euros, anunciou o primeiro-ministro, esta quinta-feira.

“Esta crise demonstrou bem como é essencial combater as desigualdades, designadamente aquelas do ensino à distância”, afirmou António Costa em conferência de imprensa, no final da reunião do Conselho de Ministros, sublinhando a necessidade de assegurar o acesso ao ensino digital em suporte digital.

O programa que foi hoje aprovado pelo Conselho de Ministros faz parte do Programa de Estabilização Económica e Social, que vai enquadrar o futuro Orçamento Suplementar.

No documento oficial onde o Governo explica como vão ser gastos os 400 milhões de euros na digitalização da educação, a prosa é lacónica e pouco inspiradora…

escoladigital

Posso estar enganado, mas costuma dizer-se que, em política, o que parece, é. E o que aqui se não parece nada um programa educativo estruturado, reflectido e coerente. É mais com um lançar de dinheiro em cima de reais ou supostos problemas, de forma a beneficiar determinados interesses, sem nada de substancial resolver naquilo que são as verdadeiras carências, fragilidades e bloqueios do sistema educativo.

Para começar, é difícil não ver no nome que escolheram para a coisa uma involuntária declaração de interesses. A expressão Escola Digital aglutina as designações comerciais das duas plataformas de aprendizagem online que disputam o mercado português, o duopólio formado pela Escola Virtual e a Aula Digital, respectivamente da Porto Editora e do Grupo Leya. Vendedores óbvios das “licenças de software” a serem pagas pelo contribuinte.

Quanto à “capacitação digital” dos docentes, é caso para perguntar: há quantas décadas se anda a fazer formação na área das TIC para professores? Será por falta de “capacitação” que não somos todos, ainda, génios da educação digital? Não andaremos a esquecer-nos de uma coisa básica, que é o objecto do trabalho docente serem os alunos e não as tecnologias educativas? A verdade é que, para a grande maioria dos docentes, é impossível conciliar as elevadas cargas de trabalho lectivo e as correspondentes exigências ao nível da burocracia escolar com o tempo que é necessário para conhecer diferentes programas e plataformas de aprendizagem, produzir materiais e usá-los com os alunos.

Não é por acaso que nestes quase três meses que levamos de confinamento se deram passos de gigante no domínio das tecnologias educativas. É que todo o quotidiano docente ganhou uma configuração radicalmente nova, levando cada professor a potenciar o uso das ferramentas digitais que já antes utilizava ou, em muitos casos, a partir à descoberta de novos instrumentos, adequados aos novos contextos de aprendizagem. Mas não se pense que, no futuro, os professores continuarão com a mesma disponibilidade física e mental para, depois de um dia de escola presencial retomarem, pela noite dentro, a escola virtual.

Por último, o que dizer da ambição de António Costa, que quer combater a desigualdade no acesso à educação dando aos alunos carenciados computadores e acessos à internet? Diz-se em poucas palavras: este período de confinamento e de ensino a distância deu para perceber várias coisas, entre elas que a realidade educativa não é – nunca foi – a preto e branco. Tivemos alunos sem acesso a computador e internet que, assim que estes lhes foram disponibilizados, se puseram em contacto com a escola e os professores, cumprindo com afinco as tarefas escolares. E outros que, dispondo de todos os recursos necessários, nunca assumiram os seus compromissos. Há ainda aqueles que, embora tendo os meios para trabalhar, não se conseguem orientar sem a presença ou o apoio de proximidade dos professores.

Em suma, se é verdade que sem conexão à escola, aos professores e aos colegas não se aprende, é igualmente certo que a tecnologia não garante só por si o acesso à educação, muito menos em condições de equidade. A desigualdade e a exclusão no acesso à educação combatem-se na escola. Não quero com isto negar a importância dos apoios directos às famílias e aos alunos carenciados noutras vertentes, nomeadamente económicas e sociais. Mas é uma perigosa ilusão pensar que um computador em casa é remédio santo para mais e melhores aprendizagens. Ou que uma escola mais personalizada, humanista e inclusiva se constrói na base de aprendizagens automáticas e padronizadas, ministradas por máquinas de ensinar.

Leituras: Confinamento e efeito-escola

Sendo a actual pandemia um fenómeno à escala global, é natural que gere, em diferentes países, problemas e dificuldades semelhantes. O texto que se segue refere-se à realidade espanhola, mas o leitor português constata, sem dificuldade, que a reflexão se adequa perfeitamente à situação que vivemos por cá.

A grande diferença é que, enquanto noutros países a Psicologia e a Sociologia da Educação produzem reflexões de grande interesse e valor sobre os dilemas do presente e do futuro imediato, por cá os nossos académicos continuam a evidenciar a incapacidade de tentar compreender um mundo de que, empoleirados nas suas cátedras, sempre estiveram distantes. E continuam debitando as vulgaridades de sempre

Confinamento e efeito-escola

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O vírus que nos atormenta põe, de muitas formas, a a sociedade em frente ao espelho. Uma delas é a da educação e da aprendizagem. A situação inédita produzida pela actual pandemia permite-nos observar a realidade quase como uma experiência social: eliminar de repente o trabalho da instituição escolar (pelo menos o presencial) e observar quem é mais afectado pela paragem. Dir-se-á que para essa viagem não fariam falta esses alforges: afectarão os mesmos de sempre. Certo. Mas nunca antes tivemos a oportunidade de ver tão claramente activar-se o capital cultural e social das famílias, nem de observar as reacções díspares das escolas. Isto permite-nos avaliar o real valor acrescentado do papel da escola para diferentes grupos sociais.

As diferenças devem-se, em parte, à brecha digital. Segundo dados da Unicef, 300 mil crianças espanholas não utilizaram um computador nos últimos três meses, ou 22% dos jovens ciganos dizem não ter internet em casa por razões económicas. Mas, para além das barreiras digitais, onde a desigualdade é mais evidente é nas diferentes respostas das escolas e na capacidade desigual das famílias para oferecer actividades de formação e aprendizagem aos seus filhos e filhas.

O confinamento exige mais do que nunca a cumplicidade das famílias no processo de aprendizagem. Enquanto a classe média faz uma espécie de curso intensivo em ensino doméstico, outros grupos sociais ou não estão em casa porque estão a trabalhar ou não dispõem dos meios, recursos ou competências necessários para se tornarem professores numa semana. À desigualdade familiar soma-se uma resposta desigual das escolas. A informação que nos chega sobre a forma como as escolas estão a reagir à paragem revela que algumas escolas criaram horários de aulas online completos e pedem múltiplas tarefas escolares, enquanto outras estão completamente inactivas. Entre os dois extremos, as escolas estão a ser activadas de várias formas, por vezes tão bem quanto é possível. Também aqui é mais do que provável que se observe a existência de uma rede tripla, com escolas concertadas e algumas escolas públicas actuando de forma hiperactiva e a partir de lógicas colaborativas escola-família (ou de serviço ao cliente), e outro grupo de escolas públicas ultrapassadas pelas condições de pobreza e vulnerabilidade dos alunos, cujas famílias sofrem especialmente as consequências do novo cenário provocado pela pandemia.

Paradoxalmente, o período de confinamento sublinha a importância de uma instituição como a escola, que é cada vez mais ultrapassada pelos seus concorrentes (aprendizagem em linha, educação não formal) e desfasada das suas funções sociais tradicionais. O efeito-escola sobre a aprendizagem mostra-se assim quase irrelevante para os colectivos com capacidade de substituição imediata, mas fundamental para os de menor capital cultural. Curiosamente, são os primeiros que estão mais obcecados em escolher escolas com maior qualidade académica e composição social mais homogénea, enquanto o comportamento estratégico é mais fraco para aqueles para quem a escola é realmente decisiva.

O confinamento põe a nu muitos pressupostos sobre a crise da escola como instituição, a irrelevância dos professores ou as virtudes da auto-aprendizagem como dogmas absolutos generalizáveis. Por mais defeitos que tenha e por mais vozes críticas que repitam que a escola permaneceu ancorada no século XIX, para certos grupos ela continua a ser a única tábua de salvação da exclusão social e da reprodução da pobreza. O confinamento, por sua vez, expõe os defeitos de um sistema incapaz de dar uma resposta coordenada que vai além do que cada escola, e por vezes cada professor, é capaz de oferecer. Em 2020, a brecha digital (tanto no acesso como no uso) está a tornar impossível que muitas crianças nas nossas escolas continuem a aprender. Este é um indicador implacável (e vergonhoso) de uma desigualdade de oportunidades educativas que agora vemos aumentar. Não ter acesso à rede no século XXI é equivalente a ser analfabeto no início do século XX.

Hoje, mais do que nunca, sentimos falta de uma política de educação diferente, capaz de responder, a partir de estruturas administrativas próximas e flexíveis, às necessidades de aprendizagem dos mais desfavorecidos. Esperemos que esta crise constitua também uma oportunidade de mudança.

Xavier Bonal y Sheila González

Quarentena de luxo

rei-tailandia.JPGQuando se é o rei da Tailândia, há problemas do comum dos mortais que passam completamente ao lado. Ou dos quais é possível desviar-se em grande estilo.

Enquanto os tailandeses se debatem com a doença do coronavírus – a Tailândia foi o segundo país, depois da China, a registar ocorrências – o rei foge do país e isola-se em luxuosa quarentena, com as suas vinte mulheres, numa estância turística da Baviera, ao serviço exclusivo da real comitiva…

A actual pandemia de coronavírus dita o isolamento social, mas o rei Maha Vajiralongkorn – Rama X – faz a quarentena de outra forma, com o seu harém de 20 mulheres, num hotel na Baviera, numa excepção à lei local do estado de emergência da região alemã.

A estância de luxo, o Grand Hotel Sonnenbichl, em Garmisch-Partenkirchen, foi reservada na totalidade pelo monarca, com “permissão especial” do distrito para o acomodar e à sua comitiva – que inclui as 20 concubinas e múltiplos empregados, não sendo claro se as quatro esposas de Rama X estarão incluídas.

A excepção concedida tem que ver com o facto de “os hóspedes serem um só grupo de pessoas, homogéneo e sem flutuações”, segundo o porta-voz do conselho distrital da região, citado do tablóide local Bild pelo espanhol El País. Entretanto, foi também reportado que 119 membros da comitiva do monarca de 67 anos foram extraditados para a Tailândia, sob suspeita de terem contraído a covid-19.

A insólita quarentena do rei Rama X na Europa está a enfurecer a Tailândia, que tem acorrido às redes sociais para criticar o soberano – um feito que pode dar até 35 anos de pena de prisão no país. Segundo o El País, nas 24 horas após as primeiras notícias do lazer alemão do monarca, uma hashtag tailandesa de revolta esteve nas tendências do Twitter, registando 1,2 milhões de entradas.

Cair na real

patricia-reis.jpgEnsinar e avaliar remotamente, substituindo as aulas presenciais por sessões de estudo em casa, com recurso às tecnologias de informação e comunicação? Às vezes é necessário um olhar desassombrado e exterior ao mundo dos profissionais e dos decisores da Educação para nos deixarmos de sonhos mirabolantes e, como se costuma dizer, cairmos na realidade.

A quem anda embaído pelas ideias utópicas do admirável mundo das aulas online, ou seduzido pelas propostas “gratuitas” das multinacionais tecnológicas, que à boleia da pandemia investem no negócio da Educação, a escritora e jornalista Patrícia Reis explica claramente porque não é possível implantar com sucesso, num par de semanas, um sistema de educação para todos exclusivamente baseado na aprendizagem a distância.

Talvez este banho de realidade seja necessário, para nos prepararmos para o que aí vem. Um passo indispensável antes de reflectirmos sobre o que, nas actuais circunstâncias, ainda podemos fazer pelos nossos alunos, apesar do isolamento e da distância. Mas com a plena consciência de que, nos próximos tempos, não vamos chegar a todos os nossos alunos como o faríamos na sala de aula, “dar o programa” como conseguiríamos nas circunstâncias normais, ajustar a prática pedagógica em função das necessidades e dificuldades específicas dos alunos e das turmas, avaliar com equidade e justiça o trabalho de cada um.

O cenário idílico: as crianças em casa, em frente ao computador, do outro lado o professor, entusiasta da disciplina que for, desenrascado com as tecnologias, e capaz de prender às cadeiras, à distância, uma turma de pirralhos com dez anos. A realidade: não vai acontecer o cenário idílico, temos pena, tente mais tarde. Tempo de espera previsto? Talvez uns anos. E porquê, perguntarão alguns leitores que, na sua maioria residentes de grandes centros urbanos, consideram que são tu-cá-tu-lá com as tecnologias.

O banho de realidade vem já a seguir, segure-se bem que a água nem está tépida, está gelada: um em cada cinco alunos não tem computador em casa e 5% das famílias com crianças até aos 15 anos não tem internet. Pois é. Um smartphone nem é uma banalidade neste país, acredita? Portanto, vamos lá ver: como é que vamos manter os alunos ocupados (são dois milhões de alunos, senhores!) e a aprender até ao final do ano lectivo? A resposta é simples: não vamos, não somos um país modernizado de norte a sul, de este a oeste. E, tantas vezes, demasiadas vezes, encaramos o país com os olhos privilegiados de quem mora em Lisboa ou no Porto. O país não são essas pessoas, nas quais me incluo.

[…] À falta de meios, das famílias e dos professores, há ainda que ter em conta que a miudagem não está habituada ao teletrabalho escolar e, tantas vezes, não terá a concentração para tanto. Não me refiro aos alunos universitários, esses sim, estão prontos para trabalhar remotamente (assim tenham como), quanto mais não seja porque têm outra capacidade de concentração e de compreensão sobre os dias que estão a viver. Os miúdos são vítimas do momento que atravessamos, as famílias não têm resposta, o país não tem condições, não há lugar para ilusões. Volta-se a falar de aulas através da televisão. Seja, vamos a isso, mas à portuguesa vamos ter de criar duas comissões, três gabinetes e um protocolo e regulamento, que a burocracia está mais no nosso sangue do que qualquer outra coisa. Num cenário idílico este último período escolar teria salvação? Sim, isso e porcos a andar de bicicleta também andariam pelo ar a deixar-nos os bens essenciais para sobreviver ao isolamento profilático.

A escola a três velocidades

pombo-correioSerá este o novo normal em que querem as escolas a funcionar no terceiro período? 

  • Escola de primeira para quem dispõe de computador com internet, banda larga e telemóvel topo de gama;
  • Escola de segunda para quem tem computador obsoleto e partilhado com o resto da família, internet aos soluços e telemóvel com dados limitados;
  • E depois a escola dos pobrezinhos, que recebem e enviam fichas e TPC através do pombo-correio…

E não, não são cenários especulativos. O novo modelo de escola inclusiva está, com aparente beneplácito ministerial, a tornar-se realidade num número crescente de concelhos do país.

“Há alunos de classes sociais desfavorecidas, dentro de um grupo de 150 que beneficiam de refeições gratuitas por se encontrarem no Escalão A, que ou não têm Internet em casa ou computador, ou as duas coisas, e a Câmara, para eles não serem prejudicados neste período de paragem de aulas, passou a levar a essas crianças e jovens, do 1.º ciclo do ensino básico ao 12.º ano (ensino secundário), os trabalhos escolares ditados pelos professores”, resume fonte da autarquia.

Esta “ponte entre os docentes e os alunos”, que deverá durar enquanto as escolas estiverem fechadas para tentar travar a pandemia da covid-19, está a ser feita em articulação com o Agrupamento de Escolas da Mealhada (AEM).

“O modo de funcionamento é simples: o AEM envia-nos `e-mail` com os trabalhos, o Setor da Educação da Câmara imprime essas tarefas e encarrega-se de as deixar em oito locais estratégicos, de fácil acesso para os alunos, que depois levantam os trabalhos, realizam-nos em casa e voltam depois a deixar nos mesmos sítios”, explica o presidente do município, Rui Marqueiro.

Uma professora em tempos de covid-19

ana-mercedes-pescada.pngNo Público, e contado na primeira pessoa, um retrato inspirado da vida, inquietações e angústias de uma professora portuguesa. Ana Mercedes Pescada encontra-se remetida, como todos os outros docentes, ao regime de teletrabalho. E se a escola, pelo menos a presencial, pode esperar, há um novo quotidiano que se impõe: na vida em família, nas idas ao supermercado e, sobretudo, nesse medo insidioso e sem nome que o surto do coronavírus instalou entre nós.

Sou professora e estou em casa, depois de terem fechado todas as escolas, em regime de teletrabalho. Teletrabalho, no meu caso, que trabalho numa escola inserida num Território Educativo de Intervenção Prioritária (Escola TEIP) é esperar —​ no verdadeiro sentido etimológico da palavra — que os meus alunos acedam ao email para verificar o plano de trabalho que lhes enviei e aguardar que me remetam dúvidas, pelo mesmo meio, e me devolvam depois o trabalho, que eu corrigirei e cujo feedback lhes remeterei, no final. Até aqui, nada de mais; apenas mais um constrangimento à minha prática, dos tantos que tento diariamente vencer. Por isso, quando oiço falar de plataformas digitais colocadas gratuitamente à disposição de alunos e professores, não posso deixar de sentir a injustiça das assimetrias de um país, em pleno século XXI; ansiando, serenamente, que pelo menos 50% dos meus alunos tenham um computador para aceder ao plano que lhes enviei.

Sou mãe da geração que mais teve; filha da que mais lutou por direito básicos como a alimentação, a salubridade e a Educação. Aos meus filhos quero oferecer o mundo pleno de realizações, de sonhos que não permitem fracassos; aos meus pais, o descanso merecido, depois de tudo o que me deram. E a verdade é que me sinto incapaz de realizar qualquer um desses feitos a que me proponho. Sinto-me em guerra, assistindo às notícias que correm na televisão, na internet e nos grupos de WhatsApp que debitam memes como se procurassem pelo riso vencer o medo que a todos assiste, em diferentes medidas. E sinto-me injustiçada porque, nesta guerra, o meu inimigo pode ser o meu vizinho do lado, a senhora da caixa do supermercado, o homem da empresa de engomar que me vai trazer hoje, pela última vez, a minha própria roupa e ela pode vir suja de um mal sem rosto. E posso ser eu. E é isso, julgo eu, que mais assusta.

Diz que agora é tudo pela net…

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Com os alunos sem aulas, a DGE não perdeu tempo e criou um site de apoio às escolas e aos professores, para que estes se aventurem no mundo do ensino a distância. Recheado de ideias, umas práticas e viáveis na maioria dos contextos, outras nem tanto, o site elenca uma quantidade apreciável de ferramentas e recursos disponíveis online.

Na realidade, criar uma rede de aprendizagem online em meia dúzia de dias, em muitos casos a partir do zero, é tarefa quase impossível. Claro que, quando já se usavam determinados programas e plataformas como complemento do trabalho das aulas, será agora uma questão de dar a esses meios um maior protagonismo no processo educativo. Quando os alunos têm computador em casa com acesso à internet e dominam a tecnologia, o isolamento forçado imposto pelo novo coronavírus pode ser uma oportunidade para desenvolver as tão faladas competências digitais.

No resto, podemos dar as voltas que quisermos, que a realidade não deixará de ser o que é: subsistem fortes assimetrias no acesso às tecnologias de informação por parte dos nossos alunos. Com todos os defeitos que é agora moda apontar-se-lhe, a escola pública é o local onde essas diferenças mais se conseguem atenuar ou anular. A escola coloca todos os alunos em pé de igualdade. Idealmente ela deve dar mais, não a quem mais tem, mas a quem mais precisa.

Nesta perspectiva, substituir o ensino presencial por aprendizagens online implica cavar o fosso educativo entre os que dispõem de acesso facilitado às tecnologias e aqueles que o não têm. Antes de embarcar nas promessas sedutoras dos “acessos grátis” e dos “programas gratuitos”, que escondem negócios de milhões em torno do que passa por ser a “educação do século XXI”, convém termos sempre presente esta realidade.

Saliente-se ainda que, para quem tanto pregou a favor da escola inclusiva, há demasiada incoerência neste súbito interesse em plataformas e recursos que irão excluir boa parte dos alunos, em grande medida aqueles que já estão à partida entre os mais fracos e necessitados.

Digam-nos alguma coisa que a gente não saiba…

edulogAs universidades portuguesas reproduzem as desigualdades sociais e económicas das famílias. Os alunos de famílias com mais recursos económicos e cujos pais têm mais habilitações académicas entram em cursos com mais prestígio e notas mais elevadas, enquanto os estudantes vindos de famílias com dificuldades económicas e cujos pais têm menos formação optam por cursos com cotas mais baixas e cursos técnicos. Estas são as principais conclusões do estudo A Equidade no Acesso ao Ensino Superior, realizado pelo Edulog, think tank da Fundação Belmiro de Azevedo, que será apresentado esta quarta-feira em Matosinhos.

As qualificações dos pais e das mães dos estudantes e a percentagem de alunos que recebem bolsas de ação social foram os dois indicadores usados neste estudo com coordenação científica de Alberto Amaral.

De acordo com o Público e com o Jornal de Notícias, as conclusões são muito claras: os estudantes oriundos de famílias com níveis de escolaridade mais altos vão sobretudo para as universidades e não para os institutos politécnicos, e optam por cursos com mais prestígio (como medicina e engenharias).

Com o ar de quem nos está a dar grandes novidades, o tanque-de-pensar do grupo SONAE dedicado aos temas educativos informa que os jovens oriundos das classes mais favorecidas têm mais e melhor acesso aos cursos superiores com média de entradas mais elevadas. E que os filhos dos pobres entram preferencialmente nos politécnicos.

A razão principal não é difícil de compreender. É a mesma que permite que os ricos influenciem a agenda dos media, criando fundações para fabricar as notícias que lhes interessam e as plantar selectivamente nos media: o poder do dinheiro.

Será preciso uma investigação aprofundada para concluir que as famílias mais ricas, sendo também, regra geral, mais instruídas, tendem a proporcionar um ambiente cultural mais estimulante aos seus filhos?

Ou que, mal começam a surgir dificuldades nos estudos, essas famílias recorrem facilmente aos melhores explicadores?

A verdade é que a indústria das explicações e o peso que este “subsistema” de ensino paralelo foi adquirindo explicam grande parte do binómio do sucesso/insucesso educativo. Mas a opacidade que o envolve não parece aliciar os investigadores a tentar avaliar o impacto e a abrangência do fenómeno, muito menos as fundações do regime que os financiam. Bem mais fáceis são estes estudos preguiçosos que se fazem a partir de dados pré-existentes: a informação estatística sobre as habilitações dos pais dos alunos ou os escalões da acção social escolar é recolhida rotineiramente pelo ME e a própria DGEEC já vez várias análises semelhantes à que agora se apresenta.

O facto de chegarem mais longe nos estudos não quer dizer que os ricos sejam mais inteligentes do que os pobres. Não impede a existência de ricos ignorantes e obtusos – algumas figuras públicas que andam por aí a desfalcar os bancos do regime demonstram-no à saciedade mal abrem a boca em público – nem determina que os pobres sejam incapazes de educar bem os seus filhos. Significa apenas que, estatisticamente, será sempre expectável que os filhos dos mais ricos e instruídos sejam mais apoiados e consigam chegar mais longe nos seus percursos escolares. Existe uma correlação forte, mas não determinante, do rendimento familiar e nível de escolaridade dos pais com o sucesso escolar dos seus descendentes.

No entanto, para saber estas coisas, não é preciso fazer grandes “estudos”. Bastaria, por exemplo, verificar quantos administradores das empresas do grupo SONAE têm ou planeiam ter os filhos a estudar num qualquer politécnico. É que o “elevador social” não consegue levar toda a gente para cima quando as vagas no topo são limitadas. Quantos, entre a elite dominante, aceitarão que jovens pobres mas talentosos ocupem os lugares que têm destinados para os seus rebentos, ainda que estes revelem “pouca queda para os estudos”? Quem é que aceita resignadamente que os seus filhos tomem o elevador social em sentido descendente?

Exposto o essencial, o resto é a agenda oculta das fundações e das organizações internacionais que regularmente vão promovendo determinadas linhas de investigação criteriosamente seleccionadas. Enquanto for possível ter sucesso a responsabilizar as escolas e os professores pelos fracassos, reais ou imaginários, dos alunos mais desfavorecidos, pode-se continuar a ignorar ou a adiar as reformas de que verdadeiramente precisamos: as que combatam as desigualdades sociais e promovam uma efectiva igualdade de oportunidades.

Como a realidade, em Portugal e no mundo, vem demonstrando, é tanto maior o desejo de reformar a escola quanto menor é a vontade de melhorar a sociedade.

O Prédio Coutinho e a Retrete Berardo

predio-coutinho.PNGNão restam dúvidas de que o chamado prédio Coutinho, no centro de Viana do Castelo, é um genuíno mamarracho. Nesse aspecto, é semelhante a milhares de outros que, perante a indiferença colectiva, desfeiam a paisagem e descaracterizam as nossas cidades. Mas só a demolição deste se converteu numa causa do regime que, ao fim de quase vinte anos de luta, parece estar prestes a vencer, finalmente, a resistência dos últimos moradores.

Contudo, o prédio foi construído legalmente, estava habitado e em bom estado de conservação, pelo que é difícil perceber a sanha que se abateu contra este edifício e os seus moradores, quando há por aí tantas zonas urbanas degradadas a precisar de ser reabilitadas, tantas construções clandestinas e edifícios a ameaçar ruína, pedindo o uso imediato do camartelo.

Afinal de contas, este país em que se ameaçam idosos com o uso da força para os expulsar das suas casas e se corta a água, a luz e o gás para vencer pela fome, a sede e a exaustão aqueles que tentam resistir a ordens que consideram ilegítimas, este país, dizia eu, é o mesmo em que o inefável Joe Berardo constrói ilegalmente um WC no terraço do seu apartamento de luxo com vista para o Palácio das Necessidades. E resiste com sucesso a todas as tentativas de promover, por via judicial, a demolição das obras ilegais.

Depois de o prédio Coutinho ter sido condenado, sem apelo nem agravo, pela Arquitectura do Regime, será que ainda veremos a retrete Berardo promovida a património nacional?…