Não há quem queira trabalhar?…

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A musa inspiradora da direita neoliberal portuguesa, o oráculo anunciador da desgraça que aí vinha, retoma, aos 70 anos, em entrevista ao jornal i, o velho discurso das matronas da alta sociedade perante a falta de criadas de servir: já não há quem queira trabalhar!

Dando o devido desconto às palas ideológicas, ainda assim poderia esperar-se mais do economista de esmerada educação: então não sabe que estas coisas se explicam, antes de mais, pela lei da oferta e da procura?

Não sabe que, como dizem os amaricanos, se pagar em amendoins, só arranja macacos para trabalhar? E se a paga, mesmo assim, for pouca, nem os macacos quererão trabalhar de graça?

Quanto à referência aos lares de terceira idade, não exprime apenas a arrogância e a displicência habituais nestes espécimes. É o verdadeiro fundo moral com que as velhas famílias do antigo regime criavam os seus filhos a vir ao de cima – a insensibilidade, o cinismo, o egocentrismo – apenas disfarçado por grossa camada de verniz. Que, ainda assim, estala quando menos se espera.

De resto, pegando na imagem de fino gosto usada pelo antigo “patrão dos patrões”, diria apenas que, nas empresas portuguesas, o lugar que mais se assemelha a lar de terceira idade é o conselho de administração. E aí não será por “não haver quem queira” que não se faz a desejável renovação geracional.

Aliás, do que verdadeiramente precisamos no nosso empresariado não é de necessariamente de gente mais nova: é acima de tudo de novas mentalidades, de pessoas com ideias mais arejadas. Capaz de perceber que a competitividade que queremos, que é a que têm os países mais desenvolvidos do mundo, não se constrói com base em baixos salários. E que há óbvias limitações no “modelo de desenvolvimento” defendido pelos ferrazesdacosta desta vida: um mundo de senhores e meninos-família nascidos para mandar e, abaixo deles, a imensa ralé destinada a trabalhar e a obedecer.

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O Presidente não vai a todo o lado

triumph.jpgSe a fábrica tivesse ardido o Presidente da República vinha cá, quando são os nossos direitos, já não.

Foi desta forma que uma trabalhadora da ex-Triumph denunciou a posição hipócrita do auto-proclamado presidente dos afectos. Que na passada sexta-feira se dizia interessado em “conhecer mais em pormenor a situação” complicada das operárias desempregadas e se dispôs a recebê-las. Mas quando ontem rumaram ao Palácio de Belém, apenas tinham à sua espera os assessores do Presidente.

Não deveria surpreender: a campanha de popularidade de Marcelo é erigida em cima dos “consensos” que tanto aprecia. Está sempre pronto a dar um abraço ou uma palavra de conforto às vítimas de um incêndio ou de uma seca, a um sem-abrigo ou ao voluntário que o ajuda, por vezes até se atreve a dar eco a um ou outro protesto contra o governo. Dá afecto, e até podemos acreditar que o faz de forma genuína, mas a verdade é que estas trabalhadoras, assim como os operários da Auto-Europa ou tantos outros cidadãos que se erguem em defesa dos seus direitos e dos seus postos de trabalho precisam – e merecem – bem mais do que isso: são credores da nossa solidariedade, não só porque lutam por causas justas, mas também porque defendem, de forma determinada, o nosso interesse colectivo. Lutam pelo país mais justo, solidário e produtivo que todos deveríamos querer deixar aos nossos filhos.

Só que isto é política: tomar partido no conflito entre patrões e trabalhadores, mesmo que seja apenas para defender a legalidade e a justiça, é algo de que Marcelo foge como o diabo da cruz. Há quem pense que o faz apenas porque nunca deixou de ser ver como a estrela mediática e consensual construída com a ajuda da TVI. Eu atrevo-me a pensar que não toma partido simplesmente porque, se tivesse de o fazer, seria do lado dos patrões sem escrúpulos e das multinacionais sem rosto que vêem saqueando o nosso país com a cumplicidade dos partidos do poder. Como nota António Santos:

O dom de Marcelo é ir a todo o lado sem nunca estar em lado nenhum. Omnipresente na comunicação social, falta à chamada sempre que o interesse nacional coincide com os interesses da classe trabalhadora. Onde está Marcelo quando as populações se batem pelos correios do povo? Porque não dá os seus «afectos» às quase 500 trabalhadoras da Gramax? Meio milhar de operárias com meses de salário em atraso defendem a dignidade e os postos de trabalho de um processo fraudulento de insolvência. Quando, em piquetes de 24 horas, à chuva e ao frio, desafiando a fome, a incerteza e muitos dramas familiares, as operárias da antiga Triumph impedem o roubo da maquinaria estão também a impedir a destruição do aparelho produtivo português.
Porque será que Marcelo, sempre tão palavroso sobre moda, jogos de futebol, restaurantes e exercício físico, nada tem a dizer sobre esta matéria? Porque será que o Presidente, incansável na sua digressão afectiva, não vai a Sacavém?

A resposta é que Marcelo só visita vítimas e voluntários, e as inderrotáveis mulheres de Sacavém não aceitam ser uma coisa nem outra. O que lhe sobra em «afecto», falta-lhe em solidariedade.

 

A ditadura do empresariado

O turismo tem criado milhares de empregos, mas o ritmo de crescimento que o setor tem registado leva os empresários da restauração e do alojamento turístico a prever que sejam necessários 40 mil novos trabalhadores. Mas a oferta é escassa e as empresas debatem-se com dificuldades em encontrar mão-de-obra.

Os empresários de Melgaço enfrentam um problema raro: querem contratar trabalhadores e não encontram e essa falta de mão de obra é comum a quase todas as áreas de atividade.

O ano será de consolidação, diz o presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI), Reis Campos. Ricardo Gomes, líder da Federação da Construção (FEPICOP), alerta para a falta de trabalhadores, admitindo que o défice possa ser, já este ano, da ordem dos 60 a 70 mil trabalhadores.

Portugal continua a ser um país com elevado desemprego, sobretudo entre os jovens e os trabalhadores de meia-idade que perderam os seus empregos “para a vida” e não voltaram a conseguir trabalho. A juntar a estes, sucessivas vagas de trabalhadores, jovens e menos jovens, fizeram as malas para conseguir, noutros países, as oportunidades de vida que as políticas austeritárias e recessivas lhes negaram em Portugal.

No entanto, sinal de que alguma coisa mudou na economia portuguesa, começamos a ouvir, cada vez com mais insistência, da parte de alguns sectores do empresariado, a velha conversa de que precisam de trabalhadores mas não encontram quem queira trabalhar.

É evidente que o problema não está em quem procura emprego, mas sim do lado da oferta: empregos onde se paga o salário mínimo em troca de trabalho precário, horários desregulados e más condições laborais só em último recurso serão aceites por quem precisa de trabalhar.  Como se diz na América de Cima, if you pay peanuts, you get monkeys

Donde se percebe que mesmo a mais ténue recuperação económica nos leva ao ponto de onde verdadeiramente nunca saímos: os “investimentos” dos nossos empresários só são “competitivos” com base no pagamento de baixos salários e na desregulação dos horários e condições de trabalho. Um “modelo de desenvolvimento” avesso à qualificação, à especialização e à competitividade global que é hoje o maior entrave à criação sustentada de emprego e ao crescimento da nossa economia.

desemprego2013.jpgAo nosso empresariado e à sua ditadura dos baixos salários já sobrarão agora saudades dos bons tempos da troika, da austeridade passista e do desemprego a caminho dos 20%…

Falta de trabalhadores?

saldos.gifO trabalho é temporário e o pagamento será certamente alinhado pelo salário mínimo, o habitual em funções que não carecem de especialização.

Nesta altura do ano, é habitual que as empresas comerciais contratem mão-de-obra suplementar para fazer face ao aumento das vendas típico da época natalícia. Contudo, este ano está a haver falta de candidatos para preencher todas as vagas disponíveis.

Ora isto pode ser interpretado naquele tom lamentoso típico da burguesia portuguesa quando não encontra quem os sirva como pretendido: já não há quem queira trabalhar! Mas também pode ter uma leitura mais positiva, como a do CEO da Science4You:

Não podemos, por um lado, andar a queixar-nos de que o desemprego é alto, e depois, por outro, reclamar que não se encontram pessoas para trabalhar.

Pela minha parte, gostaria de ver as leis do mercado, que durante anos serviram aos patrões para, tirando partido do elevado número de desempregados, imporem baixos salários, precariedade e más condições de trabalho, funcionarem agora no sentido inverso, beneficiando quem trabalha por conta de outrem.

Pois na verdade, e apesar de a taxa de desemprego ter descido nos últimos anos, os 444 mil desempregados referenciados pelo INE chegam e sobram para preencher as cerca de três mil vagas disponíveis nas grandes superfícies comerciais. Ou seja: ofereçam maiores salários e melhores incentivos, que os candidatos acabarão por aparecer.

Ganhem vergonha!

vergonha.JPGÉ assim designado um site que se dedica a denunciar casos documentados de exploração do trabalho por parte de empresas e pessoas sem escrúpulos. Entre os casos mais frequentes estão as falsas ofertas de emprego, designadamente os anúncios que recrutam trabalhadores a custo zero sob a promessa de um “estágio” fictício ou uma experiência profissional “relevante” e enriquecedora do currículo.

Foi por aqui que soube que o externato A Ritinha, de Lisboa, pretende recrutar um professor do 1º ciclo para leccionar uma turma de três anos de escolaridade, pagando-lhe apenas a alimentação e os transportes!

A desfaçatez, como é habitual nestes casos, é disfarçada pela converseta do “crescimento profissional” e da experiência “desafiante” que propõem aos candidatos, valendo-se do desemprego generalizado entre os jovens professores.

Só visto, que contado há sempre quem não queira acreditar…

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Não se pode criticar a Altice?

O primeiro-ministro, António Costa, criticou a Altice no debate do estado da nação, em vésperas da empresa comprar a TVI, mas deixou também um desabafo que tem outro peso quando é dito por um primeiro-ministro: “Por mim, já fiz a minha escolha da companhia que utilizo”.

No debate do estado da nação, o primeiro-ministro disse ainda temer que a PT “acabe por transformar este caso num caso Cimpor, com um novo desmembramento que ponha não só em causa os postos de trabalho, como o futuro da empresa”.

No último debate parlamentar em que tomou parte, António Costa foi um pouco mais longe do que costuma ser habitual em declarações de um PM visando uma empresa privada, o que não deixou de ser criticado pelo líder do PSD:

Pedro Passos Coelho manifestou perplexidade e criticou Costa pela intromissão em assunto da esfera privada. Passos considera “inaceitável” a “admoestação pública” no Parlamento do primeiro ministro à Altice. “Um péssimo sinal quando um primeiro-ministro e um Governo sente que podem desta maneira junto de uma empresa”, vincou Passos.

Claro que para Passos Coelho o tom dos comentários de Costa seria perfeitamente aceitável se estivesse a invectivar, por exemplo, dirigentes sindicais. Já o “respeitinho” com as empresas e os “mercados”, que os serventuários do neoliberalismo dominante não se cansam de recomendar, acredito que nalgumas situações possa ser conveniente por razões tácticas. Mas não aceito que a subserviência incondicional seja especialmente vantajosa na relação com gente que olha apenas o seu interesse a curto prazo e não respeita nem clientes, nem trabalhadores, nem o país que lhes deu todas as facilidades para o desenvolvimento dos seus negócios.

patrick.JPGPara quem já não se lembra, a administração da Altice, que agora tenta adoptar um discurso conciliador e low-profile, é a mesma cujo CEO, há dois anos atrás, não tinha problemas em assumir:

Eu não gosto de pagar salários. Pago o mínimo possível.

E despeço todos os que puder, poderia ter acrescentado.

A geração do milénio

joana-andrade-vicente.jpgJoana Andrade Vicente escreve no Público sobre os millennials, essa geração da internet que nasceu entre as décadas de 80 e 90 do século passado e entrou na adolescência na viragem do milénio ou já na primeira década do novo século.

Entalados entre o velho mundo analógico que muitos, imersos no digital desde os primeiros anos de vida, mal conheceram, e as prometidas oportunidades do admirável mundo novo que tardam em chegar, estes jovens sentem cada vez mais a incómoda sensação de serem uma geração perdida.

Os primeiros millennials já são agora trintões. Estão na idade de querer casa, carro, emprego estável. Mas poucos são os que têm condições para tal. Aos 30 anos, em Portugal, ainda se é considerado jovem, e grande parte destes ‘jovens’ não tem condições para sequer sair de casa. De acordo com dados do Eurostat, 60% dos jovens entre os 25 e os 29 ainda vive com os pais.

Apesar de se integrarem numa sociedade cada vez mais globalizada e com mais oportunidades (teoricamente), são a geração que mais tem sentido as consequências da grande recessão (entre 2008 e 2012). Não estão perto de se reformar, nem têm um emprego ‘para a vida’ como a geração dos seus pais.

Mesmo os que têm mestrado, um bom curso numa boa faculdade, boas notas e alguma experiência, afirmam que a sua expetativa salarial não ultrapassa os 1.000 euros. E estão dispostos a aceitar 700/800 euros a recibos verdes.

São já lugares-comuns as afirmações de que estes jovens globais, digitais, omnipresentes nas redes sociais e adeptos das compras online, dão mais valor às experiências e à partilha do que à posse de bens, ou que constituem a geração mais qualificada de sempre. Ainda assim, na hora de arranjar emprego, a grande maioria não consegue mais do que trabalhos precários e mal pagos, muitas vezes intervalados com longas permanências no desemprego. Este cenário, comum na maioria dos países europeus, agrava-se entre nós devido aos efeitos da severa e prolongada crise económica que ainda não debelámos por completo. E a autora que venho a citar atribui ainda a falta de oportunidades no mercado de trabalho a um outro factor:

Os sistemas educacionais não providenciam as habilitações adequadas para o mercado de trabalho vigente. Aptidões transferíveis como a comunicação e trabalho em equipa não estão a ser, de todo ou devidamente, ensinadas. Enquanto os jovens estão ansiosos por trabalhar, os empregadores não conseguem encontrar nestes as habilitações que os seus negócios requerem. Isto sugere uma incompatibilidade entre o que os empregadores estão à procura, e o que os trabalhadores têm para oferecer.

Tenho sérias dúvidas de que o problema estrutural do desemprego jovem resida neste défice de qualificações académicas. Por esta lógica, trabalhadores mais velhos haveriam de ser ainda mais penalizados, pois se os actuais universitários, com tantos trabalhos de grupo que fazem e com os quais são avaliados, não sabem trabalhar em equipa, que dizer de gente mais velha, fruto de um sistema bem mais individualista e ainda menos focado nas competências sociais?

As queixas recorrentes acerca da impreparação dos jovens parecem-me mais uma outra coisa: um mercado de trabalho viciado na precariedade, nos baixos salários e na exploração laboral, que tem dificuldade em encontrar trabalhadores com determinado perfil simplesmente porque não quer abrir os cordões à bolsa e pagar mais a pessoas que tenham as qualificações específicas pretendidas.

O resto do problema está num modelo económico que através da informática e da automação vai destruindo emprego a um ritmo muito superior ao da criação de novos postos de trabalho. E em políticos que se recusam a encarar a realidade, equacionando uma redução ou uma redistribuição do trabalho, e dos seus rendimentos, de forma a contrariar os desequilíbrios e as clivagens que cada vez mais se acentuam na sociedade pós-industrial.

Analisar questões económicas e sociais complexas da perspectiva do conflito de gerações pode ser aliciante e até ajudar a entender melhor uma parte dos problemas. Mas não é esse o fundo das questões, pelo que será sempre redutor ficarmo-nos por aí…