Problemas e soluções para a escola pública

escolapublica

Em tempos de pandemia, o Bloco de Esquerda desenvolveu uma iniciativa interessante com o objectivo de descobrir e denunciar os principais problemas e dificuldades decorrentes do ensino a distância.

Ao contrário do que tem sido o padrão mais habitual de quem tem promovido a divulgação pública destes assuntos, que é falar com políticos, académicos, empresários e pais à beira de um ataque de nervos, o BE prefere dar voz aos professores no terreno, que testemunham em primeira mão a abnegação com que a generalidade da classe abraçou um desafio para o qual quase ninguém estava preparado. Mas também a frustração de, mesmo trabalhando muito para além do horário estabelecido, não conseguir chegar a todos os alunos. A falta de computadores, de acessos à internet e de apoio familiar em muitos lares. A desorientação dos responsáveis educativos, oscilando entre o deixar andar e os assomos de controleirismo e autoritarismo.

Fica uma recolha pessoal de alguns excertos que achei mais significativos num conjunto de testemunhos que não são, de um modo geral, animadores. Mas são autênticos. Reflectem a experiência vivida e não as ilusões em que alguns gostam de viver. Fica também o convite a visitar o escolapublica.pt, onde há mais leituras interessantes a fazer. E também a oportunidade, para quem o entender, de deixar o seu testemunho.

No conforto da nossa profissão a relação humana é central. A empatia, a entreajuda e o afeto permitem estabelecer com os nossos discípulos uma proximidade, que estabelece o sucesso, ou não, do percurso académico do aluno. A máquina, a rede e a internet podem ser ferramentas poderosas, mas neste momento são como uma espécie de muro gigante de vidro, que nos separa da nossa turma. Impõe comportamentos “arrumados” e “mecanizados” por grelhas, direções ou outros.
Nesta nova sala, não há cheiro, não há o som do trabalho e não há profundidade no olhar. Há tarefas, há pesquisas, há jogos e há ruído na videochamada. Muito ruído, do que sai das casas das famílias, com inquietações sobre o presente e o futuro e esta coisa “chata” de ter que ensinar os descendentes a aprender de uma “nova” maneira.

…um conjunto de problemas no Ensino à distância:
– Orientações ministeriais sobre os modos de aplicação do E@D vagas e pouco consistentes;
– Má qualidade das videoaulas e videoreuniões (neste caso sobretudo através do googlemeet, segundo indicações do Conselho Pedagógico);
– Insistência na avaliação, no caso do 3º Ciclo, sem que as condições à distância o permitam fazer com equidade e qualidade pedagógica, e quando já há dois períodos letivos avaliados;
– insistência de alguns professores na penalização da falta de participação dos alunos no E@D, indiferentes à situação social e económica nacional.

Temos que assumir que este ano lectivo acabou e que deveríamos apenas estar a trabalhar no sentido de manter os nossos alunos e alunas interessados/as em aprender sem os stressar e nunca avaliar quantitativamente. Temos que ter consciência que não podemos programar como vai ser o próximo ano devido a que esta pandemia não tem prazo para acabar e, apesar de eu considerar que não podemos estar fechados/as e que a vida “normal” tem que continuar, temos que colocar a saúde em primeiro lugar.

Na qualidade de professora, estou descontente com várias situações:
1) Ninguém me perguntou se eu dispunha dos meios tecnológicos para trabalhar em casa, partiram do pressuposto que sim.
2) Os recursos da escola (tablets, portáteis e computadores) não foram disponibilizados aos alunos carenciados e estão todos “off” na escola.
3) A autarquia não providenciou Net para todos os alunos.
4) Estou a trabalhar ininterruptamente desde 27 de fevereiro, não tive direito à higiénica e necessária interrupção letiva da Páscoa. E a partir de 16 de março estou a trabalhar em média 12 horas por dia. Compreendo que situações excepcionais exigem medidas excepcionais, mas dizer umas coisas bonitas na televisão, aos professores, não chega e não nos convence.
Receio que, terminado o confinamento, se esqueçam novamente da classe profissional que ajuda a formar todas as outras!

O E@D não funciona. Isto não é escola nenhuma. Admito-o agora, neste período de excepção. A partir daqui vou bater me eu pelo seu fim.
Alunos completamente perdidos e desmotivados (sim, a novidade já passou). Estamos a perder os alunos com mais dificuldades e de meios mais desfavorecidos ou mais desacompanhados face às condições de trabalho dos pais.
Para nós, professores, a frustração é grande e o sentimento de impotência é esmagador. O trabalho é absolutamente insuportável. Exaustão e depressão, computadores a avariar em virtude de utilização excessiva, tendinite e contraturas musculares. Em suma, não funciona.

Poderosos e intocáveis

É possível fazer bom jornalismo em Portugal, isento, corajoso, pertinente? Quando os assuntos mexem com os interesses dos poderosos, dificilmente. Na área do jornalismo económico, então, conhecem-se há muito as ligações e dependências entre os grupos da finança e da comunicação social.

Também não é novidade a forma como o antigo dono disto tudo subornava a imprensa amiga com generosos contratos publicitários e os jornalistas com passeatas e diversões. As férias na neve que José Gomes Ferreira descreveu num livro recente são um exemplo paradigmático.

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Mesmo pessoas sem necessidade alguma de se meterem nisto, como o actual presidente da República, na altura colaborador próximo de Ricardo Salgado, participaram activamente nestas operações de domesticação da imprensa. A teia de dependências e favores criada e robustecida ao longo dos anos criou de Ricardo Salgado a imagem de distinção que explica, ainda hoje, a reverência que se nota em torno daquele que ficará provavelmente, para a posteridade, como o trafulha mais caro de sempre para os contribuintes portugueses.

O texto que se segue é de certa forma o reverso da medalha do que acabei de referir. O testemunho é de Miguel Szymanski, um jornalista que, por não se submeter aos fretes habituais de que sobrevive o nosso jornalismo económico, teve de se fazer à vida como correspondente no estrangeiro. Um depoimento corajoso e desassombrado que não hesita, como eu gosto, em chamar aos bois pelos seus nomes.

A propósito de Berardo, lembro-me de alguns dos ‘poderosos’ e ‘intocáveis’ com os quais, para meu azar, me cruzei em Portugal ao longo de 25 anos de jornalismo.

Ricardo Salgado/BES: depois de dois artigos publicados na revista Fortunas&Negócios sobre os ‘donos da banca’ em 2001, Salgado queixou-se à administração. Sentia-se retratado no meu artigo “como se fosse um gatuno” (quem transmitiu esta citação de Salgado é hoje director de informação de um canal de televisão). Fiquei sem emprego e os meus colegas também – a administração fechou a revista para não perder a publicidade no Diário Económico e no Semanário Económico.

Jorge Jardim Gonçalves/Millennium: depois de uma crónica numa revista enviou-me um bilhete, manuscrito, assinado e não muito subtil, a ameaçar com processos judiciais.

André Jordan/magnata do imobiliário: não gostou de um artigo que escrevi sobre ele para a ‘Sábado’ e o, na altura, director da revista veio dizer-me que a minha colaboração não podia continuar: “Lamento, passaste a persona non grata; o Jordan deve ter oferecido uns cartões gold para jogar golfe a alguém da administração”.

Outras ‘figuras do regime’, da área política, que se queixaram de artigos meus e levaram um director de jornal a despedir-me: Santana Lopes e Dias Loureiro. Depois houve o jornal, de primeira linha (Expresso), com o qual deixei de poder colaborar, subitamente e depois de meses de elogios aos meus artigos, porque alguém, imagino eu, mas não sei ao certo quem, não gostava da minha abordagem aos temas.

Houve ainda, também essa uma forma de censura, várias publicações que deixaram de me encomendar artigos porque, simplesmente, deixaram de ter verbas para pagar (recentemente o DN, por exemplo).

Enfim, nunca isto me deitou abaixo por muito tempo. Quando deixei de ter trabalho em Lisboa, que me permitisse sobreviver, fui durante uns anos trabalhar como jornalista para – excelentes publicações – em Berlim e Frankfurt.

Tenho a enorme sorte de poder trabalhar para órgãos de comunicação social na Alemanha e na Áustria. Mas tenho muita pena de alguns excelentes e incorruptíveis jornalistas que, aqui em Portugal, ficaram pelo caminho.

Valorizar o ensino profissional

guia-turistico.jpgÉ algo que se consegue mais com testemunhos concretos, positivos e autênticos de alunos e professores que têm passado por este subsistema de ensino, do que com a hipocrisia e as palavras gastas de políticos, burocratas da educação e pedagogos do regime.

E já agora, também com mais autonomia e mais recursos fornecidos às escolas, para que estas possam alargar e melhorar a oferta formativa, indo ao encontro dos reais interesses e necessidades dos alunos.

Tirei um Curso Profissional. Sou menos inteligente?

Cheguei ao Ensino Secundário sem nenhuma retenção. Estava na hora de escolher e as áreas que eu mais ouvia falar eram Ciências e Tecnologias, Línguas e Humanidades, Ciências Sócio Económicas ou Artes Visuais. Dentro destas, sempre tive mais interesse em Línguas e Humanidades.

Chegada a hora da minha consulta na Psicóloga da escola, para ter os meus 30 minutos de Orientação Vocacional, foram apresentados os cursos científico humanísticos, ou seja, os que referi anteriormente e depois, de uma forma mais rápida diz-me a psicóloga: “Também existem alguns cursos profissionais em áreas específicas, mas são mais direcionados para quem quer ingressar no mercado do trabalho após o 12º ano e tu és bom aluno, por isso…”

Posto isto, perguntei na mesma quais existiam e se haveria hipótese de prosseguir estudos e a dra, disse-me que existiam vários, mas nas escolas mais perto, os que se destacavam eram: Turismo, Informática de Gestão, Receção e Comércio. Quando eu ouvi “Turismo”, eu quis logo saber mais, quis ver o Plano Curricular e percebi que estavam ali agregadas as disciplinas que eu queria, mais virado para as Línguas. Era o tipo de curso que eu queria, algo mais prático, com Formação em Contexto de Trabalho e com uma “mini tese”, a Prova de Aptidão Profissional.

Disse logo que era aquilo que eu queria. Se me arrependo? Nem por isso.

Acabei o curso nos 3 anos estimados, sem nenhum módulo nem disciplina, em atraso. Fiz uma Prova de Aptidão Profissional, que foi um trabalho árduo, ao qual mais nenhuma vertente de cursos está sujeita, só mesmo os Cursos Superiores, à semelhança da Formação em Contexto de Trabalho (Estágio), que também me fez amadurecer, crescer e aprender imenso.

Terminei com 20 na PAP e 20 na Formação em Contexto de Trabalho, mas foi devido ao meu esforço. Se sei tudo aquilo que sei hoje em dia, devo agradecer ao Ensino Profissional. Se descobri a minha vocação, tenho que agradecer ao Ensino Profissional. Obrigado, Ensino Profissional, por seres a vertente de ensino mais completa, mais rica e mais interessante.

Tal como todos os outros alunos dos outros cursos, consegui entrar no Ensino Superior e obtive 16 valores no exame nacional de Português. Mas não fui o único. Na minha turma, mais alunos conseguiram tal feito. Porque os alunos dos cursos profissionais não são burros, nem são mal preparados.

Os Cursos Profissionais se forem levados a sério têm tudo para ser a melhor vertente de Ensino existente. Afirmo isto, com toda a certeza.

Leituras: A Revolução dos Cravos

salgueiro-maia.JPGO MFA triunfou sem encontrar qualquer resistência. A insurrei­ção causou três vítimas, três transeuntes mortos acidentalmente diante do quartel da Direcção-Geral de Segurança.

Na noite dos acontecimentos, sentia-me confundido perante a facilidade com que o Movimento das Forças Armadas conseguira, sem efusão de sangue, abater as estruturas existentes.

O que para mim permanecia inexplicável era a atitude passiva dos corpos de elite (Guarda Nacional Republicana, Polícia Militar), encarregados da defesa das instituições. No entanto, a relação de forças era-lhes favorável; o seu material era superior ao dos amoti­nados. Então? Pois se reflectirmos bem, poucas tropas participaram na rebelião: uma ínfima parte da guarnição de Lisboa, apoiada por algumas centenas de oficiais e soldados e por veículos blindados da Escola Prática de Santarém e algumas unidades militares vindas de Leiria e Tomar. Estas tropas, numericamente inferiores e menos bem armadas, foram suficientes para neutralizar, em poucas horas, mili­tares profissionais mais aguerridos que elas.

Otelo Saraiva de Carvalho expôs, numa obra publicada em 1977, as forças de que dispunha. Manobrava, de Lamego, no Norte, a Faro, no Sul, um pequeno exército de 5 mil homens, 3 mil dos quais convergiram para Lisboa. Houve hesitações em Coimbra, em Leiria e em Tomar. Em Évora, a tropa não seguiu os oficiais que se dispu­nham a actuar.

O número de tropas que realmente participou na insurreição não foi, portanto, elevado. Além do mais, os soldados que nela intervie­ram pareceram-me muito jovens e sem experiência; davam a impres­são de ir para um simples exercício militar e não fazer uma revolução. Quanto ao equipamento, segundo o capitão Salgueiro Maia, da Es­cola Prática de Cavalaria de Santarém, eram velhas máquinas blin­dadas que, de cada vez que saíam, costumavam sofrer várias pannes. Mas nesse dia, a 60 quilómetros à hora, “uma velocidade infernal”, só houve um pneu rebentado à entrada de Lisboa…

De facto, nesta aventura, a audácia e a coragem compensaram.

Na ponta das espingardas, que, felizmente, não tinham sido necessárias, os soldados colocaram a flor da estação, generosamente oferecida pela população: o cravo. Os acontecimentos que eu acabava de viver tiveram, na história de Portugal, a designação idílica de “Revolução dos Cravos”.

A revolta, que se circunscreveu à área da capital, não tocou as guarnições de província, nem as do Ultramar. As tropas não inter­vieram; a população civil, os estudantes e os operários não participa­ram, de maneira nenhuma, no confronto. Foi obra de um punhado de militares. Passa-se com a vida dos regimes políticos o mesmo que com a das pessoas: nascem, desenvolvem-se durante um período mais ou menos longo e morrem. Assim, como um fruto maduro de mais se solta da árvore por efeito de um sopro de vento, o regime desmoronou-se no meio da indiferença geral, testemunho da incrível passividade daqueles que pagavam para o sustentar.

A 25 de Abril, num só dia, um regime velho de meio século apagava-se. Uma página da história portuguesa acabava de ser definitivamente virada.

Diante dos meus olhos, uma população exuberante saudara com entusiasmo delirante a queda do regime. Assisti a cenas de ruas realmente emocionantes. As pessoas interpelavam-se, sorriam umas às outras, abraçavam-se, sem sequer se conhecerem. As raparigas e os rapazes clamavam a sua alegria; no entanto, nunca tinham vivido um regime de liberdade. Os adultos gritavam e cantavam, a trans­bordar de felicidade; as pessoas idosas, algumas septuagenárias, que se lembravam dos tempos de antanho, desfaziam-se em lágrimas. E dizer, meditava eu, que esta mesma multidão, somente duas sema­nas antes, concedera um acolhimento indiscritível a Marcelo Caeta­no. Estranha versatilidade a das multidões!

Max Wery, e assim murcharam os cravos (1994).

A aula de Marcelo

marcelo-pedronunes.JPGDeve ter sido interessante a “aula” de Marcelo Rebelo de Sousa aos alunos do antigo liceu onde o Presidente estudou, a actual Escola Secundária Pedro Nunes. No ginásio, para caberem mais.

Não consta que tenha usado powerpoint ou zingarelhos electrónicos, embora nos digam que sem as tecnologias a escola é uma chatice. Mas a malta aguentou firme. E, suprema heresia, não se mostrou entediada e até teve perguntas a fazer a Marcelo, apesar de a sessão ter durado bem mais do que os regulamentares 90 minutos de uma aula “bué secante”.

“O tempo não volta para trás; aproveitem bem cada dia. Às vezes parece uma chatice, que nunca mais envelhecem. Mas vão é ter muitas saudades deste tempo. Os exames são a horas fixas; depois, na vida, os exames são quando menos se espera.”

Aos alunos contou como foram os seus sete anos no Pedro Nunes, onde chegava todos os dias a correr, a queimar a campainha, num pulinho desde a São Bernardo. Falou da Lisboa e do país de então – da ditadura (contou que o pai foi ministro de Salazar), da pobreza generalizada, da mortalidade infantil, das crianças que iam trabalhar aos dez anos depois dos quatro anos de escola obrigatória, dos liceus separados por sexo, das disciplinas de que gostava e das que odiava, de como passava os tempos livres entre o desporto, o snooker e os livros (porque a TV não o marcou, então), dos aviões de papel para ajudar os testes dos outros, dos namoros, das acções de cidadania.

Ali apanhou as mudanças de mentalidades dos finais da década de 60, ali decidiu que queria cursar Direito, um “factor subliminar de vingar o que foi o sonho falhado” do pai, médico que pouco exerceu e se converteu em político. E quase fez ali os testes psicotécnicos para os futuros universitários, avisou que “é mais importante a vocação que o curso” e, na dúvida, perguntem à família ou aos amigos o que devem seguir. “Não há perguntas difíceis, pode haver é respostas incómodas.”

E elas apareceram dos alunos, mas Marcelo soube sempre dar a volta. Defendeu que “tudo é política”, desde “servir os outros” às escolhas no futebol ou ao trabalho numa fábrica que faz o país avançar. E como ele precisa do contributo dos jovens para isso! O Presidente que o é “porque calhou”, prefere ser tratado por “professor”. Porque o primeiro “é cinco anos” e o segundo “toda a vida”. Não se arrepende “de nada”, mas aprendeu a nunca se “auto-avaliar” e tem por princípio “gozar cada dia como se fosse o último e todos os dias aproveitar bem ao máximo cada experiência, cada pessoa, cada situação”. Apesar desta vida cheia, não tenciona escrever as suas memórias nem sobre os primeiros-ministros com quem trabalhou, ou outros chefes de Estado ou de Governo de outros países (recado a Cavaco Silva). “O que passou, passou.” Nem será comentador novamente. “Não fica bem a um Presidente; não é isso que se espera dele.”

Vinculação extraordinária: uma proposta injusta do ME

vinculacao.jpgA alteração da proposta negocial do ME relativamente à vinculação extraordinária está a indignar muitos professores contratados que anteviam já, com a proposta inicial, a possibilidade de vincularem no próximo ano escolar, mas que no novo enquadramento já não o conseguirão.

A maior injustiça relaciona-se com a exigência de o professor a vincular estar este ano em horário completo e anual: na verdade, há muitos docentes com mais tempo de serviço que não cumprem esta condição, enquanto outros, menos graduados, tiveram essa possibilidade graças à lotaria que é, muitas vezes, o processo de colocações, nas suas sucessivas fases.

Como exemplo significativo, publico a carta que recebi de uma colega, professora há vinte anos e que mesmo assim será preterida no acesso à vinculação se a proposta do ministério se transformar em diploma legal.

Excelentíssimos Senhores,

Eu, Sofia A., candidata número (…), venho por este meio reclamar da injustiça deste processo de vinculação extraordinária de professores e educadores. Fiquei chocada com a vossa tomada de posição ao aceitarem e concordarem com a nova proposta do MEC.

Se a decisão do MEC assenta em perceber quais os docentes que são efetivamente uma necessidade permanente para o Estado, deve o mesmo refletir sobre o número de anos em que esses candidatos estão a ser recrutados. Para garantir que esta vinculação abranja aqueles que, como eu trabalha, há vinte anos, com 15 anos de serviço, mas com a infelicidade de ter ficado colocada num horário completo, mas temporário. Mesmo sabendo que este será anual, pois a colega está de atestado prolongado há 3 anos! Serei ultrapassada por colegas com 12 anos de serviço, muito abaixo de mim na lista de graduação, mas que tiveram a felicidade de ficarem num horário anual e completo. Definir como critério estar colocado num horário anual e completo é desconhecer a dinâmica das colocações. 

Em virtude das vagas não serem lançadas todas em simultâneo, muitos colegas menos graduados acabam por ficar em horários melhores, nomeadamente os horários da mobilidade interna que este ano saíram na RR3, sendo a maioria horários anuais e completos. Como fiquei colocada na RR2 acabei por ficar “penalizada” em relação a muitos colegas que foram colocados posteriormente.

Uma vinculação não pode assentar no fator sorte ou azar.

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Leituras: Paulo Moura – E Depois do Fim

depoisdofim.jpgPaulo Moura, o maior repórter da imprensa portuguesa dos últimos 25 anos, aquele que por mais tempo, de forma mais intensa e regular, cobriu a vida em mais partes do mundo, onde ela corria o risco de ser derradeira, ou ficar escondida, acaba de publicar um livro literalmente único. Que eu conheça, nada existe em português com a amplitude de Depois do Fim, estas 620 páginas onde o Paulo revisita centenas de cadernos de reportagens, de 1991 a 2016, costurando um retrato do último quarto de século.

Subscrevo integralmente as palavras de Alexandra Lucas Coelho sobre a obra de grande fôlego e excepcional qualidade em que Paulo Moura descreve, magistralmente, a “Guerra de Civilizações” dos últimos vinte e cinco anos, contada a partir de diferentes cenários, acontecimentos e protagonistas, mas sempre directamente testemunhada pelo autor enquanto jornalista.

Nos últimos tempos tenho zurzido com alguma frequência nalgum jornalismo preguiçoso, tendencioso e manipulador que vamos tendo, pelo que é inteiramente justo saudar agora o talento de Paulo Moura, cujas grandes reportagens leio com interesse e prazer há muitos anos, e a sua imensa capacidade de nos reconciliar com o bom jornalismo.

Tiago Brandão Rodrigues – a entrevista

tiago-rodrigues.JPGConcluímos agora o primeiro quarto de uma legislatura que tem, na educação, um caderno de encargos conhecido: vencer as inaceitáveis taxas de retenção através de um verdadeiro plano de promoção do sucesso escolar; promover, desde o pré-escolar, este sucesso reforçando a equidade e, assim, superando a determinação socioeconómica ainda demasiado presente no fracasso ou sucesso dos nossos alunos; revalorizar a função docente, deixando de ver quem é essencial à Educação como seu inimigo; educar ao longo da vida todos aqueles que desejam e merecem ter a Educação como um serviço público de qualidade, independentemente da idade que tenham; e, finalmente mas jamais em último, ajudar a qualificar os portugueses para que todos encontrem, na economia e na sociedade portuguesas, o lugar em que podem ser mais úteis.

Com um ano de mandato praticamente cumprido, Tiago Brandão Rodrigues faz o balanço do que já foi feito pelo seu ministério e, sobretudo, dos planos para cumprir o que está por fazer. Embora não traga propriamente novidades, a entrevista vale sobretudo pela assumpção clara, por parte do ministro, das prioridades do ministério. Ganha em ser lida na íntegra, mas não deixo ainda assim de destacar algumas das ideias principais:

O fim do experimentalismo: este só foi um ano de reversão para aqueles que consideravam o experimentalismo neoliberal o único paradigma da Educação a que Portugal tinha direito, ou seja, uma escassíssima e radicalizada minoria.

As provas de aferição: O regresso ao paradigma nacional de aferição universalizar-se-á, conforme previsto, neste ano letivo e continuará a, rotativamente, cobrir todas as áreas de ensino para que a melhoria nas aprendizagens seja tão global quanto é a Educação.

Os contratos de associação: surgiram há já 20 anos, não como uma solução de financiamento do Estado aos estabelecimentos particulares e cooperativos, mas porque o Ministério da Educação estava em falta com o país. Nessa exata medida, e não noutra, contratou privados, cuja qualidade foi validada, para assegurarem transitoriamente algo que o Estado sempre viu como a sua obrigação: ter uma rede escolar pública o mais alargada e coerente possível em termos financeiros e de sustentabilidade.

Manuais escolares gratuitos: importa, desde já, consciencializar todos, desde logo os alunos, que este investimento do Estado na sua educação, com a proporcional devolução de rendimentos às suas famílias, merece que se esforcem ainda mais para ter sucesso e que tenham uma maior preocupação em cuidar dos meios que o Estado lhes confere. Daí a aposta no compromisso assumido por encarregados de educação e pelos alunos de reutilização dos manuais escolares sempre que tal seja possível […].

Plano Nacional de Promoção do Sucesso Escolar: O país não se pode permitir o luxo e o desperdício de ter uma Escola do insucesso que, em vez de diminuir, aumenta, como mostram os últimos dados relativos aos 2º, 7º e 10º anos de escolaridade. O insucesso no 2º ano de escolaridade atinge os 10% de alunos retidos e, nos últimos dois anos, duplicou o insucesso nos anos de transição de ciclo, 7º e 10º. Enquanto este falhanço for, como os dados igualmente comprovam e ao contrário do que acontece em muitos países europeus, estatisticamente quase determinado em função do contexto económico, social e cultural do aluno, a Escola do Sucesso será uma miragem, minando o projeto de Portugal como país de sucesso.

Gestão flexível do currículo: Temos em marcha um plano de trabalho para definição das aprendizagens essenciais, atacando o problema identificado de estarmos perante um currículo obeso, com tantos conteúdos que se torna inexequível. Esta concentração nas aprendizagens mais relevantes permitirá uma flexibilidade na gestão curricular que potencia a sua adequação a contextos específicos; o desenvolvimento de competências associadas aos trabalhos de projeto; o cumprimento da dimensão inclusiva da educação; o aprofundamento de alguns temas; e a promoção de trabalho interdisciplinar. Está a ser preparada no quadro das alterações legislativas que enquadrarão a gestão flexível do currículo quer na dimensão disciplinar, quer no tempo da matriz deixado ao critério dos projetos educativos de escola e de turma. Pretende-se que estes 25% sejam, essencialmente, dedicados a projetos interdisciplinares, a trabalho experimental, de cidadania, temático.

Tutorias: As tutorias oferecidas pretendem ser uma medida de apoio aos alunos numa perspetiva socioemocional, de apoio à sua relação com a escola e com as aprendizagens, para que possam identificar o que os levou a ter percursos de insucesso e a encontrarem formas de inverter esse percurso. […] Estruturam-se em dinâmicas de grupo, para que cada aluno possa, junto do seu grupo, desenvolver as competências de autorregulação em conjunto com os seus pares.

Educação de adultos: Os défices de qualificação da população ativa do país são um dos principais problemas estruturais de Portugal. Ao inscrever a qualificação dos adultos no Programa Nacional de Reformas, o Governo pretende reinvestir nos adultos, assegurando-lhes percursos de orientação, formação e certificação. Para isto, estamos já a expandir a rede de Centros Qualifica, a trabalhar na creditação e modularização de toda a formação de nível Secundário e a criar instrumentos para a orientação, como o Passaporte Qualifica.

De tudo o que foi anunciado e defendido, vejo com alguma apreensão o anúncio dos 25% do currículo a serem geridos ao nível das escolas. Reconheço que a ideia tem potencialidades, mas não para arrancar do zero, reduzindo drasticamente as cargas curriculares da generalidade das disciplinas – estamos a falar de cerca de oito tempos lectivos! – para criar espaços de interdisciplinaridade que ninguém saberá exactamente como concretizar. Espero que prevaleça pelo menos o bom senso de, retomando a boa prática das experiências pedagógicas, testar e afinar previamente a ideia antes de a generalizar a todas as escolas.

Perfil dos professores

professor-idosoEvocando o Dia Mundial dos Professores, o DN traça, a partir de alguns dados estatísticos recentes e do testemunho da professora do 1º ciclo Teresa Costa, 59 anos de idade, 36 de serviço, um retrato possível do presente e do futuro da profissão.

Num grau de ensino no qual, de acordo com O Perfil dos Professor 2014/2015, do ministério da Educação, 86,6% dos docentes são mulheres (o que ainda assim nos coloca abaixo da média da OCDE) – só há mais na pré-primária, em que são uns impressionantes 99,1%, contra 72,3% nos segundo ciclo e 71,6% no terceiro ciclo e secundário – Teresa é parte dos 33,1% mais velhos; só 1,4% têm menos de 30 anos, 30,4% têm entre 30 e 39 e 35,2% entre 40 e 49. Um valor um pouco acima da média da OCDE (31% dos professores primários têm mais de 50 anos), em contraste com o facto de sermos o segundo país, depois de Itália, com menos docentes neste grau menores de trinta. “Os professores do primeiro ciclo estão envelhecidos. Se calhar não era normal a reforma ser aos 52, como era até há 10 anos. Mas ensinar até aos 66? Acho que não faz sentido.” O que faria sentido, então? “Até aos 60, talvez. As pessoas a partir de uma certa idade perdem uma série de capacidades para estar perante crianças. Até em termos físicos. São cinco horas consecutivas com alunos na sala de aula: ó professora isto, ó professora aquilo…” Suspira. “Quando assinei o meu contrato tinha de dar 32 ou 34, já nem sei, anos de serviço… Precisamos de injetar sangue novo no sistema, boa disposição, alegria.”

Estagnação de carreiras e salários, aumento da idade de aposentação, envelhecimento e ausência de renovação geracional na docência, aumento das exigências e desafios da profissão, a par de um crescente desfasamento da organização escolar e das práticas pedagógicas face às mudanças sociais e às expectativas e exigências das famílias: não é claro o futuro da escola, tal como a conhecemos, nem será fácil, hoje e nos tempos mais próximos, a profissão de professor.

Leituras: Eça de Queiroz – Um génio que era um santo

anteroEm Coimbra, uma noite, noite macia de Abril ou Maio, atravessando lentamente com as minhas sebentas na algibeira o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas pela lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem, de pé, que improvisava.

A sua face, a grenha densa e loura com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro, frisada e aguda à maneira siríaca, reluziam, aureoladas. O braço inspirado mergulhava nas alturas como para as revolver. A capa, apenas presa por uma ponta, rojava por trás, largamente, negra nas lajes brancas, em pregas de imagem. E, sentados nos degraus da igreja, outros homens, embuçados, sombras imóveis sobre as cantarias claras, escutavam, em silêncio e enlevo, como discípulos.

Parei, seduzido, com a impressão que não era aquele um repentista picaresco ou amavioso, como os vates do antiquíssi­mo século XVIII — mas um bardo, um bardo dos tempos novos, despertando almas, anunciando verdades. O homem com efeito cantava o céu, o infinito, os mundos que rolam carregados de humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura e

…os transcendentes recantos
Aonde o bom Deus se mete,
Sem fazer caso dos Santos
A conversar com Garrett!

Deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou por entre os lábios abertos de gosto e pasmo:

— É o Antero!…

Deus conversava com Garrett. Depois, se bem me lembro, conversava com Platão e com Marco Aurélio. Todo o céu era uma radiante academia. Os santos mais ilustres, os Agostinhos, os Ambrósios, os Jerónimos, permaneciam fora, pelos pátios divinos, sumidos num névoa subalterna, como plebe imprópria a penetrar no concílio dos filósofos e dos poetas. Mas o escravo Epicteto aparecia, ainda coberto das cicatrizes do látego e dos ferros — e Deus estendia ao escravo Epitecto a sua vasta mão direita, de onde se esfarelava o barro com que ele fabrica os astros…

Epitecto, meu amigo,
Quero ouvir o teu ditame
E aconselhar-me contigo…

Então, perante este céu onde os escravos eram mais gloriosamente acolhidos que os doutores, destracei a capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero que improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo. E para sempre assim me conservei na vida.

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