Ministros da Deseducação

Nenhum dos ministros que se sucedem na pasta de Educação têm sido imunes às merecidas críticas, desejavelmente dirigidas não às pessoas em si, mas às políticas que seguem e à forma como actuam em exercício de funções.

Mas às vezes tudo começa mesmo na pessoa escolhida, e no significado das escolhas. Veja-se o caso de Bolsonaro, que já vai no quarto ministro, cada um melhor do que o anterior…

Derrubar Putin

Que a invasão russa da Ucrânia não seria um passeio de colunas militares até à capital percebeu-se logo nos primeiros dias da ofensiva. O que é agora cada vez mais evidente é que a ofensiva também não tem o apoio da população, nem mesmo o de uma boa parte das elites do regime. Levado pela ambição e excesso de confiança, Putin parece ter avaliado mal as consequências desta aventura perigosa e de consequências trágicas.

Parece evidente que, mais do que ser parte do problema que criou, tornou-se ele próprio o problema: líder incontestado de um regime ditatorial corrupto e preso ao passado, incapaz de inspirar confiança e estabelecer relações sólidas com os seus vizinhos, minado pela corrupção e as oligarquias mafiosas.

Garry Kasparov, o antigo campeão mundial de xadrez que se tornou figura de referência na oposição ao putinismo, continua a pugnar por uma Rússia democrática que só será viável afastando o ditador que se perpetua no poder. A sua reflexão, traduzida e adaptada de uma sequência de tweets, é inspiradora; convida-nos a imaginar um novo e melhor futuro para a Rússia…

O preço a pagar pelo afastamento de Putin será elevado porque subiu sempre à medida que os seus actos foram fincando impunes. Esse preço será suportado por russos, americanos, e europeus. Mas a Ucrânia está a pagar com sangue e o seu sacrifício não deve ser em vão. Não podemos voltar ao status quo.

Como é que Putin cai? Com um milhão de russos na Praça Vermelha? Um golpe palaciano dos militares ou das forças de segurança? Uma rebelião dos oligarcas? Com isso tudo. Deve tornar-se evidente para todos que Putin é um obstáculo aos seus objectivos, sejam eles de poder, liberdade, ou prosperidade.

Os ditadores governam pelo medo e pela ameaça/promessa de que qualquer alternativa é pior. Esse cálculo pode ser alterado. Não dêem escapatórias a Putin. Dêem-nas antes à Rússia pós-Putin, aos russos que o abandonarem para o bem da nação e do mundo.

Até agora, os juízes russos, comandantes, agentes secretos, elites empresariais, etc. nunca tiveram de escolher entre a vida que queriam e Putin. A maioria dos russos nunca sentiu que tivesse qualquer escolha. Permitam-lhes escolher e eles não escolherão Putin.

Pagamento de serviços

Dos casos do mundo da bola, vou sabendo o que de mais relevante as tvs e a imprensa vão divulgando, nada mais.

Posso eventualmente estar a fazer uma apreciação injusta, porque generalista, e admito que haverá gente honesta no futebol, e no desporto profissional em geral.

Mas, a avaliar pelas notícias que há anos nos chegam das negociatas, da corrupção e dos casos judiciais envolvendo dirigentes dos grandes clubes desportivos, esta “folha de pagamentos” que adaptei de uma montagem semelhante, mas clubisticamente enviesada, em circulação na net, retrata bem uma realidade há muito conhecida. Que se condena, ou se desculpa, consoante o clube de eleição.

Só numa coisa o boneco falha: estes pagamentos nunca se fariam no multibanco, onde deixariam rasto impossível de apagar…

O despronunciamento de Sócrates

Como de certa forma era previsível, o juiz Ivo Rosa arrasou a acusação deduzida pelo Ministério Público contra José Sócrates e restantes arguidos da Operação Marquês. Dos 28 acusados, apenas cinco irão a julgamento, sendo Sócrates ilibado dos três crimes de corrupção passiva de que vinha acusado, respondendo apenas por três crimes de branqueamento de capitais e outros três crimes de falsificação de documento. Os outros arguidos são Carlos Silva, Ricardo Salgado, Armando Vara e o motorista João Perna.

Embora a fortuna que Sócrates acumulou enquanto exerceu cargos governativos nunca tenha sido cabalmente explicada, a verdade é que não têm de ser os suspeitos de corrupção a demonstrar a origem lícita dos seus bens. O ónus da prova pertence à acusação e aqui o Ministério Público e a investigação criminal estiveram muito mal, mais preocupados com o linchamento mediático do ex-primeiro ministro do que com a recolha diligente de provas e a formulação de uma acusação robusta.

O extenso relambório ontem lido pelo juiz de instrução da Operação Marquês confirmou o meu cepticismo em relação a um processo que, desde o início, sempre teve muita parra mas pouquíssima uva. Pelo que pouco ou nada tenho a acrescentar ao texto que aqui publiquei há quatro anos e que, com a decisão instrutória de Ivo Rosa, recupera actualidade e pertinência…

Tal como provavelmente a maioria dos portugueses, tenho fundadas dúvidas sobre, já nem digo a honestidade ou o carácter da personagem, mas tão somente a origem da fortuna que acumulou durante o período da sua vida em que exerceu funções governativas.

Recordo-me de ter sido dos poucos, entre os muitos que se opuseram politicamente a Sócrates e ao socratismo, que não rejubilaram naquele 20 de Novembro de há dois anos atrás, quando se soube que o ex-primeiro-ministro fora detido para investigações relacionadas com um mega-processo de fraude fiscal, corrupção e branqueamento de capitais. De suspeito passou rapidamente a arguido e a detenção deu lugar a nove meses de prisão preventiva na cadeia de Évora.

Até aqui nada de mais, seria a justiça a funcionar, e um sinal, para os mais optimistas, de que depois de tanto se falar e tão pouco se fazer em concreto no combate à corrupção, teriam apanhado finalmente um peixe graúdo.

Só que… do que se soube na altura e do que foi sendo divulgado selectivamente sobre a investigação judicial a Sócrates, nada de substantivo surgiu, até hoje, que possa justificar a detenção e sustentar uma acusação susceptível de condenar Sócrates em tribunal.

O motorista que transportava malas de dinheiro, o amigo que lhe emprestou a casa ou lhe comprava os livros nas livrarias para os transformar em best-sellers, as despesas sumptuárias em roupas e restaurantes, nada disto configura, só por si, a prática de crimes puníveis com prisão. A questão é: tudo isto terá sido feito com dinheiro obtido de forma criminosa – mas nesse caso, ou se provam esses crimes, ou tudo o que se tem dito não passa de mera devassa da vida privada.

O pior do sistema

Enquanto houver eleitores a querer votar no Chega para “abanar o sistema”, é preciso continuar a desmascarar as hipocrisias e contradições do discurso populista de André Ventura.

A verdade é que o discurso racista e xenófobo que coloca as minorias debaixo de fogo serve às mil maravilhas para branquear as fraudes, a corrupção e os desfalques dos grandes vigaristas do regime. 

Nesta brilhante intervenção parlamentar, Mariana Mortágua desmascara as ligações do Chega ao BES e outros ninhos de corrupção e tráfico de influências, levantando a ponta do véu que cobre o universo obscuro dos financiadores e apoiantes secretos e discretos de André Ventura.

Como pode ser anti-sistema um partido que representa o pior do sistema?…

Mais logo escrevo sobre o assunto

cavaco-goodfelasMas fica já aqui uma boa introdução…

Um gajo que teve mais-valias em acções não cotadas em bolsa, se esquece do sítio onde guardou a escritura da casa e que, enquanto governante, criou um inner circle que vai desde banqueiros corruptos a suspeitos de assassinato, junta-se em abaixo assinado contra aulas de Educação para a Cidadania a um gajo que fundou empresa única e especificamente para sacar dinheiro dos fundos comunistários, não se lembra do ordenado que recebia nem que era obrigatório descontar para a segurança social. Pelo meio recebem a assinatura solidária de um gajo que não declara ao fisco o dinheiro entrado em caixa [esmolas e donativos] nem paga IMI dos prédios de que é proprietário.

Neoliberalismo calunioso… e corrupto!

Há uma característica especialmente desprezível entre os bernardos da velha direita que agora disfarçam o cheiro a mofo e os preconceitos de classe com as novas roupagens do neoliberalismo. Mas a falta de empatia e o egocentrismo, esses continuam lá, como marca indelével de uma casta que se julga, há demasiado tempo, dona de Portugal.

Vem isto a propósito de um ataque vil mas recorrente que é feito pelos cães de fila direitolas às deputadas do Bloco de Esquerda, as irmãs Mariana e Joana Mortágua, filhas de Camilo Mortágua, um lutador antifascista que esteve envolvido em acções de resistência física à ditadura. As mais conhecidas são o assalto ao paquete Santa Maria e a uma agência do Banco de Portugal.

De acordo com o discurso direitola que se espraia nas redes sociais, as duas deputadas integrariam assim a linhagem de um “ladrão de bancos” e “assassino”, atributos que lhes estariam na massa do sangue que pretensamente as diminuem como pessoas e cidadãs.

camilo-m-tw

Que isto possa ser dito e pensado por quem se auto-intitula liberal só demonstra duas coisas: o baixo nível desta gentalha e quando o conceito de liberdade e de responsabilidade individual é distorcido e manipulado nos nossos dias. Pois no âmago do pensamento liberal esteve sempre a ideia de que cada ser humano se faz a si mesmo, pelas suas escolhas e realizações ao longo da vida, e não pelos constrangimentos impostos pela família ou o grupo social em que se integra.

No entanto, Deus não dorme, como se dizia antigamente, ou o karma é tramado, como está na moda afirmar nos dias de hoje, e eis que um bernardo provocador é apanhado na teia dos laços familiares comprometedores: o pai foi condenado num processo de corrupção.

efzbhmrxoaeqjkg

Neste ponto, até a mente mais retorcida consegue subitamente ver as coisas como elas são: é evidente que o Blanco-filho não é responsável pelos eventuais actos ilícitos do Blanco-pai. Ainda que deles até possa ter, indirectamente, beneficiado.

bblanco-tw

A grande diferença, e que aqui serve de conclusão à estória, é apenas esta: os bernardos têm vergonha de serem associados a actos condenáveis dos progenitores, mas também não são capazes de se demarcar deles. Repare-se como, na hora do aperto, o pai do bernardo é reduzido à mera condição de “familiar”. Já as manas Mortágua, essas terão certamente orgulho no pai que resistiu à ditadura e arriscou a vida na luta pela liberdade.

Diz que vem aí muito dinheiro…

dar-dinheiroPara gastar como?

Cursos de formação sem empregabilidade nem interesse, que o pessoal frequenta apenas porque são remunerados?

Restaurar velhas casas de família para “turismo de habitação”, com subsídios a fundo perdido, sem quaisquer intenções de vir a receber hóspedes?

Registar as terras em nome dos filhos, receber subsídios para “jovens agricultores” e renovar a frota familiar de jipes?

Planear novas autoestradas, aeroportos, plataformas logísticas e outras “obras estruturantes” que nunca chegam a sair do papel? Ou, quando se concretizam, em vez dos prometidos benefícios, apenas deixam um rasto de despesismo inútil, corrupção e aumento da dívida?

Infelizmente, já tivemos muito más experiências neste capítulo da injecção de dinheiro fresco na nossa economia, gasto sem critério, muitas vezes de forma fraudulenta e em consumos improdutivos.

Nem é preciso sair do sector da Educação para perceber como o subfinanciamento e a indefinição de prioridades se conjugam para fazer prevalecer aquilo a que tenho chamado uma cultura do projecto: não se faz o que precisa de ser feito, mas o que se pode, na forma de projecto, candidatar com sucesso aos fundos europeus.

Se é certo que o país, com uma dívida superior ao PIB, não aguenta mais endividamento, também é verdade que os estímulos económicos não podem traduzir-se apenas em lançar umas pazadas de dinheiro sobre a economia real, prontamente capturadas pelos oportunistas do costume e sem efeitos duradouros no desenvolvimento do país ou na melhoria sustentada das condições de vida dos cidadãos.

Em vez disso, é necessário reforçar a estrutura produtiva, melhorar as políticas de rendimentos e emprego. Não jogar quase todas as fichas na monocultura da hotelaria e do turismo, mas apostar na maior diversificação das actividades económicas.

Em vez do consumo poluente, do automóvel individual, das auto-estradas, promover a ferrovia, o transporte público, as velhas e as novas formas ecológicas de mobilidade urbana.

Contudo, o maior investimento deve ser no capital humano: no ensino público e em formação profissional de qualidade, aumentando as competências e qualificações dos actuais e futuros trabalhadores. Mas sem sacrificar a formação integral dos cidadãos, nem instrumentalizar a educação ao serviço das exigências do mercado de trabalho. 

25 políticos a soldo de Ricardo Salgado

Não foram apenas os 18 comparsas e as 7 empresas acusados de implicação nos negócios sujos do BES e do GES que estiveram envolvidos com Ricardo Salgado. O trafulha-mor do regime, que faz as vigarices de Alves dos Reis parecerem brincadeiras de criança.

O BES era efectivamente o banco do regime, e o dinheiro que de lá foi sendo retirado para amparar as empresas falidas do grupo GES serviu também para comprar boas vontades, conivências e silêncios em todo o arco da governação.

CORRUPÇÃO0028.jpg

Como a imagem comprova, os tachos eram mais do que muitos e as liberalidades de Ricardo Salgado contentaram muita gente. Estará a democracia portuguesa suficientemente madura para levar o homem, finalmente, a tribunal? E isso será daqui a quantos anos?…

Por via das dúvidas, desejo-lhe vida longa, com muita saúde.

A velha escola de negócios

Logo-e1527105257613.png

“O cargo de diretor é exercido em regime de dedicação exclusiva, sem prejuízo dos cargos que exerça por inerência.” A norma consta do artigo 43º do Estatuto da Universidade Nova de Lisboa, mas o diretor da respetiva faculdade de Economia, denominada Nova SBE (School of Business and Economics), o economista Daniel Traça, é desde dezembro de 2018 administrador não executivo do banco Santander, um dos patrocinadores, ou “stakeholders” da escola. Aufere nessa qualidade um salário anual de 143 mil euros.

Isso mesmo está patente no relatório de contas de 2019 deste banco, na página 107, assim como o montante do crédito à habitação que tem contratado com a instituição, de 250 mil euros. Já na página 64 é possível consultar os cargos que detém nesta instituição bancária: aí o nome Daniel Abel Monteiro Palhares Traça consta, com a qualificação de “independente”, como vogal não só do referido conselho de administração como da Comissão de Auditoria e do Comité de Riscos e do Comité de Remunerações, sendo ainda presidente do Comité de Nomeações. Mais difícil de encontrar é a remuneração que o mesmo economista aufere como diretor desta faculdade pública. O DN solicitou a Daniel Traça essa informação, mas até à publicação deste texto este não a forneceu. Um professor catedrático – que Traça é – em exclusividade ganha no máximo 5417,74 euros/mês, ou seja 75 848,36 euros anuais. Se o valor do seu salário como diretor da Nova SBE for dessa ordem de grandeza, corresponde a pouco mais de metade do que recebe no banco.

Agora inventem, para justificar o injustificável, os conselhos de ética, os pareceres vinculativos ou não, as comissões remuneratórias, os regimes de excepção que entenderem.

Não sei se o doutor Traça vale, enquanto administrador “não executivo”, os cerca de 10 mil euros mensais que o banco lhe paga. Mas não é difícil perceber que o seu valor no mercado remuneratório lhe advém, não das qualidades enquanto administrador ou gestor, mas do cargo dirigente que ocupa numa instituição que, por muitas siglas em estrangeiro que invente para si própria, continua a ser um estabelecimento de ensino público. Ilegitimamente colocado ao serviço de patrocinadores privados e dos que aceitam servir-lhes de lacaios.

A transformação das faculdades públicas de Economia em medíocres “escolas de negócios” ao serviço do empresariado do regime e das multinacionais da finança integra-se perfeitamente na estratégia de promoção do capitalismo rentista e parasitário que tem empobrecido a economia nacional, afundada no endividamento, na fuga de capitais e numa sórdida teia de corrupção e tráfico de influências com evidentes cumplicidades nas cúpulas do PS e do PSD. Afinal de contas, uma velha escola de negócios, que atravessou o Estado Novo e se recompôs, com a restauração dos antigos grupos económicos e das velhas manhas empresariais, no actual regime.

O que ganha o país com tanta schoolofbusiness é que é um mistério difícil de entender…