A IGEC – cada vez mais – ao serviço do ME

inspeccaoO Sindicato dos Inspectores da Educação e do Ensino acusou nesta terça-feira o ministério tutelado por Tiago Brandão Rodrigues de estar a cortar o “cordão umbilical” destes profissionais com as escolas, o que considera ser “muito grave”. Numa nota divulgada na sequência das declarações na semana passada do secretário de Estado da Educação, João Costa, a propósito do novo ciclo de avaliação externa das escolas, o sindicato afirma que estas contradizem a prática recente do ministério no que respeita ao recrutamento de novos inspectores.

João Costa anunciou que as equipas responsáveis pelo novo ciclo de avaliação externa passarão a integrar pessoas “que tiveram funções em escolas (…) já que é importante ter quem sabe como funciona uma escola a avaliar o que nela se faz”.

As manobras de João Costa, a pretexto do novo ciclo de avaliação externa das escolas, não são surpreendentes. Pelo menos desde a passagem de David Justino pelo ME que a política dos sucessivos governos, em relação à Inspecção, tem seguido a mesma linha. No plano da teoria e dos princípios, proclamam a existência e o reforço de um organismo isento, autónomo e independente do Governo na sua acção fiscalizadora e reguladora do sistema educativo. Na prática, procuram condicionar o trabalho dos inspectores, fazendo deles uma espécie de polícia do ministério, ao serviço das políticas governamentais. Uma realidade que ficou bem à vista no final da greve às avaliações ocorrida no Verão passado, com os inspectores a visitarem as escolas mais renitentes em acatar as ordens do ministério e a impor o cumprimento do que sabiam ser ilegalidades.

Outra linha de actuação, destinada a reforçar a dependência da IGEC relativamente a quem manda no ministério, é a preocupação em evitar a constituição de um corpo inspectivo demasiado coeso e especializado nas suas funções. Uma inspecção formada apenas por inspectores de carreira tenderia a actuar por critérios mais uniformes e independentes dos humores ministeriais, e não é isso que se deseja. Por isso, há sempre a preocupação de introduzir nas equipas uma espécie de inspectores precários, mais influenciáveis e manipuláveis. Num passado recente, avaliadores externos, em regra recrutados em instituições de ensino superior. Agora, gente com experiência de trabalho nas escolas, escolhida segundo critérios ainda por especificar, mas que certamente já bailam na cabeça de João Costa.

Há ainda uma característica da inspecção que é pouco referida, mas que ajuda a compreender o seu papel no sistema educativo: ela actua apenas sobre as escolas e agrupamentos, deixando de fora os serviços centrais e regionais do ME. É certo que são as escolas os prestadores do serviço educativo, e nessa perspectiva faz todo o sentido que sejam o centro das atenções quando se pretende aferir e melhorar a qualidade desse serviço. Mas é igualmente verdade que muitas vezes as escolas não trabalham melhor por falta de orientações claras da parte da tutela, por receberem directrizes contraditórias, por não obterem respostas em tempo útil para os seus problemas e necessidades ou, simplesmente, pela forma incompetente como os serviços ministeriais tratam dos assuntos da sua competência. Mas nada disto é escrutinado.

Toda a gente quer avaliar as escolas e o trabalho dos professores. Mas quem avalia os serviços do ME, a qualidade das decisões, o andamento que dão aos processos, a competência dos que são nomeados ou destacados por decisão política, os resultados das sucessivas e contraditórias políticas que os decisores resolvem implementar? Eis uma vasta área que, caso fosse aberta à actuação de uma inspecção verdadeiramente independente, teria muita margem para melhorar…

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O Big Brother da Educação

Big-Brother-Is-Watching-You-1984.jpgUm sistema que pretende acabar com os “milhares de toneladas de papel impresso” que são usados diariamente pelas escolas foi apresentado nesta terça-feira em Lisboa, no âmbito de um processo de modernização das escolas.

“Transformação Digital no Sistema Educativo” foi o tema que juntou centenas de directores escolares, professores e responsáveis governamentais no Centro de Congressos de Lisboa, onde foram apresentados vários projectos que já estão a ser implementados nas escolas.

Estas inovações apresentam-se na versão soft e amigável das aplicações que permitem aos pais saber informações das escolas e do sistema educativo, dos directores e administrativos que poderão fazer o seu trabalho eficientemente sem as “toneladas de papel” necessárias actualmente ou dos sistemas que analisam em tempo real os gastos energéticos possibilitando poupanças orçamentais e reparações com maior prontidão.

Contudo, uma leitura completa e atenta da notícia permite-nos antever que o que está em preparação é um verdadeiro big brother informático, um super-sistema que centraliza informação de todos os alunos, escolas, professores e funcionários, permitindo a qualquer burocrata estrategicamente instalado em Lisboa saber, por exemplo, quanta electricidade está a gastar, àquela hora, um determinado pavilhão de uma qualquer escola transmontana. Quantos professores estão ausentes ao serviço nesse dia. Ou quais os alunos que, em determinada cidade, não estão a frequentar a escola que o computador do ministério lhes determinou.

Quem tenha acompanhado a evolução da administração educativa percebe que a “transformação digital” agora anunciada está longe de ser novidade. Há muitos anos que vêm sendo introduzidas plataformas digitais para controlar à distância o trabalho dos directores. Os concursos de professores ou as candidaturas dos alunos ao ensino superior são processos completamente informatizados há décadas. E todas as escolas exportam regularmente as bases de dados dos alunos para a plataforma MISI, permitindo ao ME conhecer todo o percurso escolar de qualquer aluno do ensino básico ou secundário. O que parece ser novidade, isso sim, é a vontade de interligar e centralizar tudo isto, dando aos serviços centrais do ministério uma capacidade de acumular e usar informação sobre todos os intervenientes no sistema educativo que julgo não ter precedentes.

Se o controle centralista e a desconfiança sistemática em relação aos agentes no terreno é uma característica antiga e marcante da nossa administração pública, há neste controleirismo de contornos orwellianos algo que não bate certo: então não está em marcha um processo dito de descentralização da rede escolar? Não se pretende entregar às câmaras municipais a gestão das escolas e agrupamentos, deixando à responsabilidade do ME apenas os professores e pouco mais? Para que interessa ao ME saber, daqui a um ano ou dois, quanto se gasta em gás ou electricidade nesta ou naquela escola, ou se há funcionários a mais ou a menos, se essas despesas e responsabilidades estarão na alçada camarária? Ou haverá algo, no obscuro processo de municipalização da educação, que nos andam a esconder?

O lado sombrio da gamificação do ensino

big-brother.JPGA gamificação, ou seja, a aprendizagem através de jogos educativos mais ou menos sofisticados, tirando partido do enorme e recente desenvolvimento das TIC, tem sido apontada por alguns como uma das grandes tendências da Educação no século XXI. E já mereceu por aqui as honras de um post.

Sabemos que os desafios lançados através de jogos que atribuem uma recompensa imediata a quem cumpre os objectivos propostos podem ser extremamente motivadores. E como a motivação dos alunos é frequentemente um calcanhar de Aquiles no ensino massificado dos nossos dias, compreende-se a atracção dos pedagogos mais inquietos e inovadores pela integração do potencial dos jogos educativos na sala de aula.

Contudo, converter a aprendizagem num jogo, no qual se ganha pontos à medida que se cumpre o que vai sendo pedido, envolve também riscos, sendo um deles bem conhecido: habituar o aluno a agir apenas em função da recompensa e do cumprimento de um conjunto de tarefas pré-definidas e padronizadas não contribui muito para o desenvolvimento nem do espírito de iniciativa nem da autonomia. E torna mais complicado assumir tarefas e compromissos que, podendo ser altamente compensadores a longo prazo, estão longe de proporcionar uma recompensa ou satisfação imediatas.

Recentemente, Laura R. Pinkerton, da Universidade de Oxford, investigou outro lado sombrio da gamificação: não serão que os jogos electrónicos uma forma de preparar os nossos alunos para a vida num estado policial?

O aumento da vigilância massiva está também a acontecer na sala de aula – através do uso de jogos online que guardam os resultados e informam o professor em tempo real acerca do comportamento e capacidades dos alunos.

A gamificação nas escolas ensina às crianças que devem esperar que cada movimento seu seja vigiado, avaliado e eventualmente partilhado publicamente. Faz a perda de privacidade parecer normal e prepara a juventude para aceitar a vigilância massiva na sua vida adulta.

A investigadora cita ferramentas digitais altamente sofisticadas que permitem captar e registar detalhadamente uma gama cada vez maior de comportamentos infantis, incluindo a forma como as crianças pensam e sentem. Sistemas aparentemente inofensivos como o ClassDojo guardam informação sobre os alunos na nuvem digital, que depois pode ser partilhada com a turma ou com os pais. Este big brother digital imposto na vida das crianças sob a forma de um “olho que tudo vê” pode ser por muitos considerado uma forma branda de controle. Mas, se enveredarmos por este caminho, duvido que estejamos a prestar um bom serviço aos nossos alunos e aos nossos filhos…

A popularidade da gamificação é compreensível. Aprender deveria ser divertido pelo menos durante parte do tempo e os professores precisam de saber o que os estudantes estão a fazer na sala de aula. Mas com o aumento crescente dos meios de vigilância massiva no mundo dos adultos, deveríamos estar a ensinar as crianças a pensar criticamente sobre privacidade e medo – em vez de as treinarmos para renunciarem à primeira e viverem subjugadas pelo segundo.

 

Receita para o sucesso educativo

cozinhar.gifNuma escola a gosto, e depois de a terem previamente esvaziado, não de alunos, mas de professores “do século XX”, que como sabemos são irremediavelmente retrógrados, conservadores e avessos à mudança, reúnam-se, quatro dirigentes ministeriais, a saber:

  • Um da Direção-Geral da Educação (DGE), que chefiará;
  • Um da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE);
  • Um da Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional (ANQEP);
  • Um da Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC).

Acrescentem-se, para dar pleno cumprimento à lei, as seguintes individualidades, os senhoras e senhores professores doutores:

  • Ariana Cosme;
  • Isabel Valente Pires;
  • Joaquim Azevedo;
  • José Matias Alves;
  • José Verdasca;
  • Rui Trindade;
  • Ricardo Rodrigues.

Misture-se bem, e quando estiverem bem entrosados mandem-nos refazer o currículo, reconstruir as matrizes curriculares, programar para cada turma um plano curricular específico.

Inventem-lhes mil e uma papeletas para criarem e preencherem, ao mesmo tempo que articulam programas, transversalizam aprendizagens, diferenciam pedagogias, desenvolvem competências e resolvem dificuldades dos seus alunos.

Enfim, coloquem-se por uma vez os altos dignitários, superiormente nomeados para coordenarem, a partir dos seus confortáveis gabinetes, a experiência da flexibilidade curricular, a mostrarem-nos como se faz.

Que o mal maior do nosso sistema educativo, cada vez me convenço mais, é mesmo este: termos a mandar, a coordenar, a inventar, a decidir, pessoas que nunca deram uma aula em ambiente não universitário.

Ou que o fizeram há tantos anos, ou em condições tão especiais, que essa vaga experiência nada lhes diz do que é ensinar hoje numa escola básica ou secundária.

Há ainda aqueles a quem a experiência docente correu tão mal que fugiram da escola a sete pés. Mas não se desligaram do sector: passaram a teorizar e a decidir sobre a profissão que não quiseram para si próprios, tornando-se cientistas e burocratas da Educação. Estes traumatizados da sala de aula, que farão tudo o que for preciso para não terem de regressar à condição de professores básicos e secundários, são os mais fiéis serventuários de todos os reformadores da Educação. Os mais hipócritas, e também os mais perigosos.

Novas oportunidades

É professor mas está farto de dar aulas?

Acredita na inovação pedagógica e gostaria de inovar na sua prática docente, mas sente-se cansado, e quer que sejam outros a fazê-lo?

Prefere criticar os colegas a ter de submeter o seu próprio trabalho à avaliação e à crítica de terceiros?

Quer fazer novos contactos e conhecimentos nas esferas do poder, e construir para si próprio uma carreira em que, com um pouco de sorte, não voltará a ter de dar aulas?

É director em fim de mandato, não pode ou não quer continuar na função, mas não pretende voltar para a sala de aula nem para a condição subalterna de professor?

Se respondeu afirmativamente a uma ou várias destas perguntas, a Direcção-Geral da Educação talvez tenha a solução para si.

Pretendem recrutar docentes para evangelizarem as escolas portuguesas na doutrina do sucesso educativo a todo o custo e a qualquer preço, e o caro colega pode fazer parte da vasta e dinâmica equipa que irá ser constituída.

dge.JPGOu, dito no eduquês ministerial, “a DGE pretende solicitar a mobilidade de docentes de carreira com nomeação definitiva, para o exercício de funções técnico-pedagógicas de apoio a escolas na implementação de medidas e programas de flexibilização curricular, inovação pedagógica, promoção da inclusão e do sucesso escolar”.

Se acha que esta pode ser a sua oportunidade, clique na imagem para ampliar, conferir o perfil e aceder a mais informações.

Envie a sua candidatura até ao dia 14 de maio, para dge@dge.mec.pt.

 Boa sorte!