O Big Brother da Educação

Big-Brother-Is-Watching-You-1984.jpgUm sistema que pretende acabar com os “milhares de toneladas de papel impresso” que são usados diariamente pelas escolas foi apresentado nesta terça-feira em Lisboa, no âmbito de um processo de modernização das escolas.

“Transformação Digital no Sistema Educativo” foi o tema que juntou centenas de directores escolares, professores e responsáveis governamentais no Centro de Congressos de Lisboa, onde foram apresentados vários projectos que já estão a ser implementados nas escolas.

Estas inovações apresentam-se na versão soft e amigável das aplicações que permitem aos pais saber informações das escolas e do sistema educativo, dos directores e administrativos que poderão fazer o seu trabalho eficientemente sem as “toneladas de papel” necessárias actualmente ou dos sistemas que analisam em tempo real os gastos energéticos possibilitando poupanças orçamentais e reparações com maior prontidão.

Contudo, uma leitura completa e atenta da notícia permite-nos antever que o que está em preparação é um verdadeiro big brother informático, um super-sistema que centraliza informação de todos os alunos, escolas, professores e funcionários, permitindo a qualquer burocrata estrategicamente instalado em Lisboa saber, por exemplo, quanta electricidade está a gastar, àquela hora, um determinado pavilhão de uma qualquer escola transmontana. Quantos professores estão ausentes ao serviço nesse dia. Ou quais os alunos que, em determinada cidade, não estão a frequentar a escola que o computador do ministério lhes determinou.

Quem tenha acompanhado a evolução da administração educativa percebe que a “transformação digital” agora anunciada está longe de ser novidade. Há muitos anos que vêm sendo introduzidas plataformas digitais para controlar à distância o trabalho dos directores. Os concursos de professores ou as candidaturas dos alunos ao ensino superior são processos completamente informatizados há décadas. E todas as escolas exportam regularmente as bases de dados dos alunos para a plataforma MISI, permitindo ao ME conhecer todo o percurso escolar de qualquer aluno do ensino básico ou secundário. O que parece ser novidade, isso sim, é a vontade de interligar e centralizar tudo isto, dando aos serviços centrais do ministério uma capacidade de acumular e usar informação sobre todos os intervenientes no sistema educativo que julgo não ter precedentes.

Se o controle centralista e a desconfiança sistemática em relação aos agentes no terreno é uma característica antiga e marcante da nossa administração pública, há neste controleirismo de contornos orwellianos algo que não bate certo: então não está em marcha um processo dito de descentralização da rede escolar? Não se pretende entregar às câmaras municipais a gestão das escolas e agrupamentos, deixando à responsabilidade do ME apenas os professores e pouco mais? Para que interessa ao ME saber, daqui a um ano ou dois, quanto se gasta em gás ou electricidade nesta ou naquela escola, ou se há funcionários a mais ou a menos, se essas despesas e responsabilidades estarão na alçada camarária? Ou haverá algo, no obscuro processo de municipalização da educação, que nos andam a esconder?

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O lado sombrio da gamificação do ensino

big-brother.JPGA gamificação, ou seja, a aprendizagem através de jogos educativos mais ou menos sofisticados, tirando partido do enorme e recente desenvolvimento das TIC, tem sido apontada por alguns como uma das grandes tendências da Educação no século XXI. E já mereceu por aqui as honras de um post.

Sabemos que os desafios lançados através de jogos que atribuem uma recompensa imediata a quem cumpre os objectivos propostos podem ser extremamente motivadores. E como a motivação dos alunos é frequentemente um calcanhar de Aquiles no ensino massificado dos nossos dias, compreende-se a atracção dos pedagogos mais inquietos e inovadores pela integração do potencial dos jogos educativos na sala de aula.

Contudo, converter a aprendizagem num jogo, no qual se ganha pontos à medida que se cumpre o que vai sendo pedido, envolve também riscos, sendo um deles bem conhecido: habituar o aluno a agir apenas em função da recompensa e do cumprimento de um conjunto de tarefas pré-definidas e padronizadas não contribui muito para o desenvolvimento nem do espírito de iniciativa nem da autonomia. E torna mais complicado assumir tarefas e compromissos que, podendo ser altamente compensadores a longo prazo, estão longe de proporcionar uma recompensa ou satisfação imediatas.

Recentemente, Laura R. Pinkerton, da Universidade de Oxford, investigou outro lado sombrio da gamificação: não serão que os jogos electrónicos uma forma de preparar os nossos alunos para a vida num estado policial?

O aumento da vigilância massiva está também a acontecer na sala de aula – através do uso de jogos online que guardam os resultados e informam o professor em tempo real acerca do comportamento e capacidades dos alunos.

A gamificação nas escolas ensina às crianças que devem esperar que cada movimento seu seja vigiado, avaliado e eventualmente partilhado publicamente. Faz a perda de privacidade parecer normal e prepara a juventude para aceitar a vigilância massiva na sua vida adulta.

A investigadora cita ferramentas digitais altamente sofisticadas que permitem captar e registar detalhadamente uma gama cada vez maior de comportamentos infantis, incluindo a forma como as crianças pensam e sentem. Sistemas aparentemente inofensivos como o ClassDojo guardam informação sobre os alunos na nuvem digital, que depois pode ser partilhada com a turma ou com os pais. Este big brother digital imposto na vida das crianças sob a forma de um “olho que tudo vê” pode ser por muitos considerado uma forma branda de controle. Mas, se enveredarmos por este caminho, duvido que estejamos a prestar um bom serviço aos nossos alunos e aos nossos filhos…

A popularidade da gamificação é compreensível. Aprender deveria ser divertido pelo menos durante parte do tempo e os professores precisam de saber o que os estudantes estão a fazer na sala de aula. Mas com o aumento crescente dos meios de vigilância massiva no mundo dos adultos, deveríamos estar a ensinar as crianças a pensar criticamente sobre privacidade e medo – em vez de as treinarmos para renunciarem à primeira e viverem subjugadas pelo segundo.

 

Receita para o sucesso educativo

cozinhar.gifNuma escola a gosto, e depois de a terem previamente esvaziado, não de alunos, mas de professores “do século XX”, que como sabemos são irremediavelmente retrógrados, conservadores e avessos à mudança, reúnam-se, quatro dirigentes ministeriais, a saber:

  • Um da Direção-Geral da Educação (DGE), que chefiará;
  • Um da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE);
  • Um da Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional (ANQEP);
  • Um da Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC).

Acrescentem-se, para dar pleno cumprimento à lei, as seguintes individualidades, os senhoras e senhores professores doutores:

  • Ariana Cosme;
  • Isabel Valente Pires;
  • Joaquim Azevedo;
  • José Matias Alves;
  • José Verdasca;
  • Rui Trindade;
  • Ricardo Rodrigues.

Misture-se bem, e quando estiverem bem entrosados mandem-nos refazer o currículo, reconstruir as matrizes curriculares, programar para cada turma um plano curricular específico.

Inventem-lhes mil e uma papeletas para criarem e preencherem, ao mesmo tempo que articulam programas, transversalizam aprendizagens, diferenciam pedagogias, desenvolvem competências e resolvem dificuldades dos seus alunos.

Enfim, coloquem-se por uma vez os altos dignitários, superiormente nomeados para coordenarem, a partir dos seus confortáveis gabinetes, a experiência da flexibilidade curricular, a mostrarem-nos como se faz.

Que o mal maior do nosso sistema educativo, cada vez me convenço mais, é mesmo este: termos a mandar, a coordenar, a inventar, a decidir, pessoas que nunca deram uma aula em ambiente não universitário.

Ou que o fizeram há tantos anos, ou em condições tão especiais, que essa vaga experiência nada lhes diz do que é ensinar hoje numa escola básica ou secundária.

Há ainda aqueles a quem a experiência docente correu tão mal que fugiram da escola a sete pés. Mas não se desligaram do sector: passaram a ser teorizar e a decidir sobre a profissão que não quiseram para si próprios, tornando-se burocratas ou cientistas da Educação. Ora são estes traumatizados da sala de aula, que farão tudo o que preciso for para não terem de regressar à condição de professores básicos e secundários, os mais fiéis serventuários de todos os reformadores da Educação. São os mais hipócritas, e também os mais perigosos.

Novas oportunidades

É professor mas está farto de dar aulas?

Acredita na inovação pedagógica e gostaria de inovar na sua prática docente, mas sente-se cansado, e quer que sejam outros a fazê-lo?

Prefere criticar os colegas a ter de submeter o seu próprio trabalho à avaliação e à crítica de terceiros?

Quer fazer novos contactos e conhecimentos nas esferas do poder, e construir para si próprio uma carreira em que, com um pouco de sorte, não voltará a ter de dar aulas?

É director em fim de mandato, não pode ou não quer continuar na função, mas não pretende voltar para a sala de aula nem para a condição subalterna de professor?

Se respondeu afirmativamente a uma ou várias destas perguntas, a Direcção-Geral da Educação talvez tenha a solução para si.

Pretendem recrutar docentes para evangelizarem as escolas portuguesas na doutrina do sucesso educativo a todo o custo e a qualquer preço, e o caro colega pode fazer parte da vasta e dinâmica equipa que irá ser constituída.

dge.JPGOu, dito no eduquês ministerial, “a DGE pretende solicitar a mobilidade de docentes de carreira com nomeação definitiva, para o exercício de funções técnico-pedagógicas de apoio a escolas na implementação de medidas e programas de flexibilização curricular, inovação pedagógica, promoção da inclusão e do sucesso escolar”.

Se acha que esta pode ser a sua oportunidade, clique na imagem para ampliar, conferir o perfil e aceder a mais informações.

Envie a sua candidatura até ao dia 14 de maio, para dge@dge.mec.pt.

 Boa sorte!