A solução final, revisitada

Tentámos de todas as maneiras. Testámos todos os tipos de métodos. Você tenta métodos não letais e não funcionam. Só nos restam estas más opções. É mau.

A afirmação não é de Hitler, nem de qualquer dos responsáveis nazis pela solução final que conduziu ao massacre de milhões de judeus e de outras minorias étnicas e sociais indesejadas. Embora eles também só tenham recorrido às câmaras de gás porque, alegadamente, outras soluções “não letais”, como os guetos e os campos de concentração, não funcionaram.

Quem de facto proferiu estas palavras foi Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, tentando justificar o massacre, pela tropa de Israel, de mais de 60 palestinianos. A culpa destas mortes, segundo ele, não foi de quem disparou as armas, mas dos desgraçados que se foram colocar mesmo à frente das balas.

Quem diria, em 1945, que os ideais nazis do Estado racista, da conquista de “espaço vital” e da submissão das “raças inferiores”, deportadas ou confinadas a guetos, seriam tão fielmente recuperadas pelos descendentes dos que sobreviveram à guerra e ao genocício? Quem diria que a ideologia dos algozes sobreviveria através dos netos das vítimas?

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Sionismo, o nazismo do século XXI?

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Há uma diferença de escala, de intensidade do conflito. Não há execuções em massa, matam-nos à vez. Nem campos de extermínio; toda a Palestina ocupada é um imenso gueto onde os palestinianos que não desistiram da sua pátria sobrevivem à mercê da violência, das anexações de território e do terrorismo de estado promovido por Israel.

Mas a política racista do governo israelita, o holocausto em lume brando que vitima o povo palestiniano desde 1948, a afirmação da raça superior pela expulsão ou a segregação dos que não partilham a pureza étnica e religiosa do “povo eleito”, as condições sub-humanas em que os palestinianos são condenados a viver, pela privação da terra, da água e do trabalho; as humilhações quotidianas a que são submetidos; tudo isto encontra um claro paralelo com a forma como os próprios judeus foram maltratados  e exterminados pelo nazismo.

Por muito que seja politicamente incorrecto dizê-lo, o sionismo de Netanyahu é o que mais se assemelha, no século XXI, à política racista do estado nazi. O estatuto dos territórios palestinianos só encontra paralelo nos bantustões da África do Sul no tempo do apartheid. E Israel é o único estado do mundo a quem a comunidade internacional permite, impunemente, a conquista e colonização de novos territórios. A Grande Alemanha de Hitler tem no Grande Israel dos sionistas um herdeiro à altura. E os descendentes das vítimas sobreviventes tornaram-se novos e ainda mais sofisticados opressores e assassinos.

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Há, contudo, uma diferença importante. Enquanto os nazis tentavam esconder ao mundo os aspectos mais macabros e tenebrosos da sua solução final para os judeus e outros indesejáveis ao Reich, os Israelitas, imbuídos da superioridade moral de todos os eleitos, fazem o que fazem à vista de toda a gente. Se durante a II Guerra Mundial, e depois dela, muitos puderam alegar que desconheciam o que se passava nos campos da morte nazis, hoje ninguém poderá dizer que ignora a violência gratuita e desproporcionada que é quotidianamente exercida por israelitas contra os palestinianos.

Como diz o poema, vemos, ouvimos e lemos: não podemos ignorar.

O Holocausto ao serviço de novos opressores

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A propósito desta parceria formativa entre a DGE e um dos lobbies sionistas mais activos entre nós, deixem-me ser politicamente incorrecto e afirmar, com toda a clareza: o ensino do Holocausto não tem de ser “ponto de partida” para coisa alguma.

O Holocausto existiu e vitimou milhões de judeus, eslavos, ciganos. Mas uma coisa é compreender a profunda desumanidade do Holocausto no contexto da afirmação do totalitarismo nazi na Europa e da guerra total que desencadeou. Compreender causas e antecedentes, identificar apoios e cumplicidades de que tirou partido, conhecer histórias individuais e colectivas de resistência e heroísmo, a par de outras de colaboracionismo e cobardia. Ou de simples luta pela sobrevivência.

Coisa muito diferente é instrumentalizar o estudo de um acontecimento passado, por muito traumático que seja, colocando-o ao serviço de ideologias, causas e interesses que dissimuladamente interessa promover.

A verdade é que há hoje uma verdadeira indústria do Holocausto, um forte lobby que actua à escala global, que fez do Holocausto uma verdadeira marca comercial e que procura obter do genocídio trágico ocorrido há setenta anos uma espécie de caução moral para as atrocidades cometidas, hoje, por descendentes dos que sobreviveram aos guetos e campos da morte nazis.

É como se, por os seus avós e bisavós terem sofrido e morrido nas câmaras de gás, os seus descendentes adquirissem um direito eterno e universal para se tornarem eles próprios, novos opressores. Replicando práticas, contra os seus inimigos do presente, de que os seus antepassados foram vítimas e que de certa forma consagram, elas sim, a vitória póstuma e definitiva do anti-semitismo nazi.

O Holocausto foi um genocídio, mas não foi o único. E não é pelo facto de o nazismo ter produzido extremos insuperados de crueldade e desumanidade que devemos ignorar os inúmeros casos de massacres e genocídios que se sucederam desde então e que continuam ainda a ocorrer.

Já não podemos restituir a vida aos milhões de mártires do nazismo. Nem é já o tempo de punir os responsáveis por esses crimes. O que podemos e devemos é defender os direitos dos seres humanos que hoje habitam o nosso planeta. A começar, desde logo, pelos palestinianos árabes a quem a opressão israelita vem retirando as terras, as casas, a água potável, a liberdade de circulação, a própria dignidade.

A compreensão histórica do que foi o Holocausto e do que são hoje os campos de morte lenta onde se refugiam os refugiados da Palestina não pode confundir-se, muito menos subordinar-se, à agenda do sionismo internacional. Nem deveria o Ministério da Educação promover, junto das escolas e dos professores, tão dúbias parcerias.

Ghetto palestiniano

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O apartheid palestiniano

issa.JPGQuase a finalizar o ano, um exemplo de coragem e determinação na luta contra o último bastião do racismo, do colonialismo e do apartheid enquanto políticas de Estado: Israel. Um homem que luta contra o expansionismo sionista não com pedras ou bombas, como desejam os governantes israelitas, para justificar novas violências, prisões e anexações, mas com a força da razão: a denúncia, o protesto pacífico, a desobediência civil.

Este não é um caminho fácil, mas se for seguido com perseverança e determinação perante estados repressivos, mas formalmente democráticos, acaba por dar frutos a médio e longo prazo. Foi assim na Índia Britânica, na África do Sul, nos EUA. Daí o empenho quotidiano das autoridades israelitas em fomentar o ódio e a violência entre os palestinianos, para que entre eles nunca se consiga afirmar um futuro líder com a estatura de um Gandhi, um Mandela ou um Luther King.

Issa Amro é um ativista palestiniano que não passa despercebido às forças israelitas que ocupam o território da Cisjordânia. A casa onde vive, na área de Tel Rumeida, em Hebron, fica paredes meias com um colonato problemático, onde uma pequena comunidade de judeus radicais vive protegida por militares israelitas em maior número. E fazem o que querem.

À casa de Issa — onde funciona a organização Juventude Contra os Colonatos (YAS), que fundou — rumam, diariamente, ativistas, jornalistas, políticos e diplomatas de todo o mundo, incluindo de Israel, para ouvirem, na primeira pessoa, como se (sobre)vive numa cidade onde vigora uma situação de “apartheid” que, aos poucos, vai vencendo a população palestiniana pelo cansaço. Mas não Issa.

O Expresso visitou-o em março de 2013. Os colonos tinham acabado de tentar incendiar-lhe a casa, pela calada da noite. “Apresentei queixa. Foi a quarta vez, mas nunca acontece nada. Sou sempre culpado até prova em contrário”, disse este defensor da resistência pacífica e da desobediência civil.

Esta terça-feira, Issa (Jesus, em árabe), de 37 anos, compareceu diante de um tribunal militar israelita, na prisão de Ofer (na Cisjordânia), para responder por 18 crimes, alguns deles praticados em 2010. (A acusação foi formulada apenas em 2016.) Entre as ofensas estão uma cuspidela a um colono, obstrução e insultos aos soldados israelitas, protesto ilegal, entrada em zona militar exclusiva e incitamento à desobediência civil.

Para o ativista, tudo não passa de perseguição política. “Eu divulgo muitos vídeos que os embaraça. Eles não querem palestinianos moderados por aqui, daqueles que falam com diplomatas sobre a solução de dois Estados.”

Quanto a Israel, se conseguiu concretizar a aspiração milenar do povo judeu a uma pátria palestiniana e impor, através da superioridade militar, o reconhecimento pelos estados vizinhos e pela comunidade internacional, a recusa obstinada em permitir a criação de um estado palestiniano evidencia que o país dos judeus continua a ser um estado pária a nível internacional, comportando-se externamente como um país colonialista, conquistando territórios que não lhe pertencem e expulsando os seus habitantes e internamente como um estado racista, com semelhanças evidentes com o apartheid da antiga África do Sul. Só que aqui os palestinianos ocupam o lugar dos negros e os territórios controlados pelo Hamas e a Autoridade Palestiniana fazem as vezes dos bantustões. Ou, se não quisermos ir tão longe, comparável ao segregacionismo que persistiu no sul dos EUA até à década de 60 do século passado…

De visita a Hebron, em março passado, onde conheceu Issa Amro, o ator norte-americano Richard Gere comparou a ordem ali vigente às Leis de Jim Crow, nos EUA, que instituíram a segregação racial entre 1876 e 1965. “Isto é exatamente como era o velho sul da América. Os negros sabiam onde podiam ir. Não podiam beber daquela fonte, não podiam ir àquele lugar, não podiam comer naquele sítio. Estava claro, e não se pisava o risco se não se quisesse levar um pontapé na cabeça ou ser linchado.” É ao que se arrisca Issa Amro, diariamente, na Palestina.

 

Os demónios do anti-semitismo

mein-kampf.jpgA primeira reedição do Mein Kampf de Adolf Hitler na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial revelou-se um “best-seller” e vai ter uma sexta tiragem, informou hoje a sua editora.

O Instituto de História Contemporânea de Munique (IfZ) disse que cerca de 85.000 cópias da nova versão anotada do manifesto antissemita do líder nazi foram vendidas desde o lançamento em janeiro.

“Descobriu-se ser totalmente infundado o medo de que a publicação pudesse promover a ideologia de Hitler ou torná-la aceitável e desse aos neonazis uma nova plataforma de propaganda”, disse o diretor do IfZ, Andreas Wirsching, num comunicado.

“Ao contrário, o debate sobre a visão do mundo de Hitler e a sua abordagem à propaganda permitiu olhar as causas e consequências das ideologias totalitárias, numa altura em que as opiniões políticas autoritárias e os ‘slogans’ de direita estão a ganhar terreno”, adiantou.

Nunca achei que as recentes reedições comentadas do Mein Kampf fossem ressuscitar os velhos demónios do anti-semitismo e do nazismo.

Pelo contrário, compreender e discutir os assuntos que, bem ou mal, fazem parte da nossa História, é a melhor forma de prevenir e combater o preconceito, a demagogia e a ignorância de que se alimentam todos os totalitarismos. E sabemos que quem não aprende com os erros do passado, é bem provável que venha a repeti-los no futuro.

De resto, a Alemanha fez, desde a II Guerra Mundial, um percurso quase exemplar de desnazificação que não foi acompanhado por outros países onde a barbárie nazi encontrou terreno fértil. Não é por acaso que países como a Polónia, a Áustria ou a Hungria estão hoje entre os campeões europeus da xenofobia e do anti-semitismo. E, convém lembrá-lo porque a História dá muitas voltas, semitas não são apenas os descendentes directos dos antigos Hebreus, mas também os Árabes e a maioria dos povos muçulmanos do Médio Oriente.

Quanto ao anti-semitismo anti-judaico, penso que ele é hoje alimentado, sobretudo, pela opressão, o apartheid e o colonialismo do Estado de Israel sobre as populações e os territórios palestinianos. Não são as edições académicas de livros historicamente datados, mas as acções concretas dos sionistas, arvorados agora em novos opressores, que mantêm vivo, nos dias de hoje, o ódio irracional aos judeus.

 

O país intocável

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, considerou hoje que as críticas dos Estados Unidos à construção de novos colonatos judeus são “inaceitáveis para Israel”, informou, esta quinta-feira, a rádio pública israelita.
O Governo israelita anunciou o lançamento de um concurso público para a construção de 800 novas casas em colonatos judeus nos territórios palestinianos ocupados, com 560 novas casas em Maale Adumin, na Cisjordânia, e 240 em bairros a este de Jerusalém, informou a imprensa local na segunda-feira.
O porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, John Kirby, condenou na terça-feira o que “parece ser um processo sistemático” de Israel “para se apropriar de terras, expandir colonatos e legalizar postos fronteiriços que está a minar fundamentalmente as perspetivas de uma solução de dois Estados”.

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O que será aceitável, então, para Israel?

A anexação de territórios que não lhes pertencem, retirando aos Palestinianos a terra onde vivem e onde lhes é reconhecido o direito de, tal como fizeram os Israelitas, construir o seu próprio Estado?

O desrespeito sistemático e o desprezo pelas resoluções da ONU e pelo direito internacional, que fazem de Israel o único Estado colonialista no século XXI, arrogando-se o direito de alargar o seu território conquistando terras a outros povos?

A sabotagem permanente de todas as iniciativas de paz, fomentando o radicalismo  através do roubo de terras e de água e das humilhações quotidianas impostas aos Palestinianos no seu próprio território?