O regresso do Magalhães?

Ao contrário do outro Magalhães, que partiu para dar a volta ao mundo numa viagem de que já não regressou, a empresa do minicomputador que foi estrela do “choque tecnológico” dos governos de José Sócrates retorna aos grandes contratos de fornecimento ao sector público. Embora desta vez não contrate directamente com o ME, mas com as operadoras de telecomunicações.

A empresa que lançou o portátil Magalhães, distribuído pelo Governo de José Sócrates aos alunos do 1º ciclo a partir de 2008, vai voltar a fornecer computadores ao Estado. O Governo comprou 139 mil computadores que serão fornecidos pela JP Sá Couto, segundo o Correio da Manhã (acesso pago).

A JP Sá Couto já entregou 54 mil computadores e vai entregar mais 85 mil, no âmbito do projeto do Governo apelidado de Escola Digital, que tem em vista equipar os alunos, professores e escolas do ensino público. A empresa, que na altura do Magalhães se viu envolvida numa polémica devido à adjudicação por ajuste direto, é assim responsável por fornecer quase um terço dos 455 mil computadores cujos concursos foram abertos pelo Governo.

Os concursos foram ganhos pelas três operadoras de telecomunicações móveis (Meo, Nos e Vodafone), pelo que fonte oficial da emprega argumenta ao diário que “não existe qualquer ligação contratual com o Ministério da Educação“. “A jp.ik, unidade de negócio para a educação da JP Sá Couto, forneceu e fornece equipamentos a clientes seus, com o objetivo final de venda ao Ministério de Educação e a variadas Câmaras Municipais”, explicam.

Duas semanas de E@D

Num balanço muito provisório, diria que as duas primeiras semanas de ensino a distância estão, de um modo geral, a correr melhor do que na experiência do primeiro confinamento. É o que sinto como professor a dar aulas a partir de casa e é também o sentimento que encontro, largamente dominante, entre os colegas que ouço e leio,

Faz sentido que assim seja. Desde logo, porque a experiência e o bom senso têm-nos ajudado a evitar os erros e as armadilhas que não soubemos evitar quando mergulhámos de cabeça, há quase um ano atrás, no desafio do apropriadamente chamado ensino remoto de emergência. Percebeu-se que as teorias que recomendam o reforço do trabalho autónomo em contexto de ensino não presencial têm evidentes limitações. Muitos alunos, sobretudo os mais novos, os menos motivados, os mais desacompanhados ou com maiores dificuldades de aprendizagem, pura e simplesmente desligam da escola a distância quando são deixados por sua conta. E se também não é recomendável replicar integralmente as aulas presenciais na modalidade online, há um equilíbrio entre momentos síncronos e assíncronos que este ano, regra geral, tem funcionado muito melhor.

Depois, os próprios alunos. Quase todos mais à-vontade no domínio das tecnologias, mais atentos e participativos nas sessões, mais aplicados e cumpridores nas tarefas realizadas. Quase todos sentem a falta da escola e do convívio com os amigos e da presença física dos professores, têm o regresso no horizonte e mostram-se dispostos a contribuir para que este período de confinamento não resulte, em termos académicos, como tempo perdido. Até a polémica das câmaras desligadas, que marcou o final da temporada anterior de confinamento escolar, parece agora ter-se desvanecido.

O grande falhanço que há a registar é o do Ministério da Educação. Insensível, como tem sido sempre, às reais necessidades das escolas, alunos e professores, resolveu insistir no que ninguém lhe pediu – uma dose de reforçada de aulas televisivas que ninguém vê – em vez de fazer o mais necessário e urgente: fornecer os equipamentos capazes de permitir o acesso às aulas a partir de casa aos alunos sem meios tecnológicos. Insistindo no óbvio – nada substitui o ensino presencial – os responsáveis mostraram-se incapazes de perceber que a opção pelo ensino a distância não surge por razões pedagógicas, mas como uma necessidade absoluta imposta pelo alastrar da pandemia. Sabendo-se que o E@D promove desigualdades e exclusão, o desafio é contrariar esta tendência, ultrapassando dificuldades e constrangimentos e fornecendo a alunos e professores os meios para que o período de confinamento escolar seja, ainda assim, aproveitado da melhor forma possível. Na prática, só lhes era pedido que fornecessem computadores e ligações à internet a alunos e eventualmente a professores que os não têm. Desde que, em Março do ano passado, foram notadas estas carências, tiveram quase um ano para resolver o problema. Falharam miseravelmente.

Computadores para professores? Não há, nem vai haver…

Nada de novo na frente educacional: alunos e professores enfrentaram, no último ano lectivo, o desafio da escola digital. O confinamento imposto ditou o recurso àquilo que apropriadamente se chamou um ensino remoto de emergência. De início pouco mais existia do que empenhamento e vontade de aprender, mas rapidamente o sentido de responsabilidade e o profissionalismo dos professores permitiram erguer e manter em funcionamento planos de ensino à distância que, se estiveram longe da perfeição – aliás inalcançável num modelo de escola de massas não presencial – também não foram o fiasco que alguns vaticinaram.

Quem não esteve à altura das suas responsabilidades foram os responsáveis ministeriais, demonstrando que a retórica neo-eduquesa em torno das competências digitais não passa de conversa da treta. Serve de mote para denegrir os “professores do século XX” mas não motiva o ME a fazer a sua parte, para que as tecnologias educativas do século XXI cheguem efectivamente às escolas portuguesas.

Felizmente a comunicação social vai começando a perceber o embuste, antecipando uma maior percepção, pela opinião pública, do zero à esquerda que são as políticas educativas deste governo. E e até Filinto Lima, fiel ao estilo ziguezagueante das suas intervenções públicas e sempre atento às mudanças do vento, já vai sentindo a necessidade de ajustar o discurso…

Na perspetiva de Filinto Lima, “o ministério devia dar indícios de distribuição de computadores para professores e escolas”. “Somos mais de 100 mil professores, nem um teve a título de empréstimo facultado pelo Ministério da Educação”. “Se o professor não tem direito a uma cedência temporária é desmotivador para algumas pessoas”, completa.

Segundo o presidente da ANDAEP, tanto professores como alunos reforçaram “as competências digitais” e recorrem “cada vez mais ao digital”. No entanto, à chegada às escolas, “os computadores são os mesmos, não são melhores”, assegura Filinto Lima.

Como muitos docentes não têm possibilidades de trabalhar a partir de casa vão para as escolas, uma situação relatada por Filinto Lima, mas que também já tinha sido denunciada pela FENPROF.

Apesar de tentarem contornar o problema de não terem material suficiente em casa para trabalhar, os professores não têm mais sorte quando se deslocam à escola sendo que as condições dos materiais informáticos nas escolas não são de grande qualidade, segundo a ANDAEP

Última hora: Isidoro operado de urgência

O nosso colega Luís Braga, como já por aqui contei, teve ordem de desconfinamento por ter ousado requerer um computador para dar as suas aulas a partir de casa.

Enfiaram-no numa sala da escola a dar aulas à distância e colocaram ao seu serviço o Isidoro, um velho computador HP idêntico aos que se encontram na maioria das salas de aula portuguesas, notoriamente cansado e sem arcaboiço para as modernas plataformas da escola digital.

A narração, na primeira pessoa, das últimas aventuras com o velho computador está inspirada e é esclarecedora. E dispensa-me de mais comentários.

Lourenço Isidoro, de 13 anos, solteiro, sem filhos, computador adstrito ao serviço da educação nacional, em Viana do Castelo, baixou esta manhã ao estaleiro, com graves sintomas viscerais agudos. Tendo sido ontem emitido um boletim entregue ao diretor do estabelecimento onde serve, destacando a sua condição moribunda, foi decidida por este uma melindrosa operação cirúrgica, que as imagens documentam.

O ilustre servidor público apresentava sintomas como tremuras regulares no écran, vibração excessiva da ventoinha, encravanços crónicos e repetitivos. Tinha ainda dificuldades em fazer-se ouvir e estava incapaz de instalar aplicações. Os relatos da sua condição agravaram-se nos últimos dias desde que um tipo qualquer, em vez de ficar em casa a pagar para trabalhar, decidiu utilizá-lo na escola, obrigando-o a consumir sobredoses de dados.

O técnico da instalação, especializado em canibalização de peças, decidiu fazer uma limpeza urgente às tripas, verificar a ventoinha e instalar um disco reciclado mais recente, para acolher software menos desatualizado (2010).O doente está a convalescer bem, já num quarto isolado, onde em breve retomará as suas heróicas funções, em condições de, sem eco, se fazer ouvir à distância. Já anunciou que pretende apenas um dia de baixa e, mesmo combalido, já só pensa no trabalho, que retoma amanhã.

Não passou despercebido aos familiares e amigos o desinteresse de Sua Excelência O Ministro da Educação Doutor Tiago Brandão que, apesar de ter passado os últimos dias em grandes festarolas exibicionistas com uns poucos computadores recém chegados, não enviou sequer um adjunto para saber da saúde de tão abnegado e antigo servidor do bem público, acometido de tão graves maleitas. A família Isidoro considera que essa ingratidão só tem paralelo com a que tal alegado governante manifesta aos docentes.

Sendo um caso complexo, dada a provecta idade do paciente, mantenho-me a seu lado a acompanhar o seu estado, de que informarei regularmente amigos e admiradores. Recorde-se que a canibalização de peças é uma técnica de cirurgia eletrónica e mecânica em que os portugueses têm vários centros de excelência de que se destacam a Força Aérea, que há décadas mantém capacidade operacional graças a ela, e as escolas básicas e secundárias que, desde o PTE, se especializaram na avançada metodologia.

Escolas serão as primeiras a abrir, diz o ministro

“Durante esta semana iremos conhecer calendário escolar. A reunião com peritos de saúde pública vai dar-nos alguma luz da janela temporal. Temos de dar estabilidade à família e aos alunos, mas também temos de nos acautelar”, afirmou Tiago Brandão Rodrigues na manhã desta segunda-feira no Fórum TSF.

O ministro da Educação referiu ainda que as escolas terão de ser as primeiras a abrir logo que possível. “As escolas foram as últimas a fechar, têm de ser das primeiras infra-estruturas a abrir, a começar pelos mais novos, que têm mais dificuldades em lidar com os meios tecnológicos”, referiu.

Durante o programa, o governante frisou por várias vezes que o ensino online não deve ser normalizado e que a sala de aula continua a ser o local privilegiado para o ensino.

Reaparecido esta manhã, o ministro da Educação esteve na rádio a insistir, com o seu discurso patusco e por vezes patético, naquilo que o seu ministério sabe fazer melhor: alijar responsabilidades próprias e aproveitar-se de autonomias e boas vontades alheias para lançar o descrédito e a culpa para outros lados.

Afinal de contas, foi o governo falhou clamorosamente na aquisição de computadores e acessos à internet. Os cem mil que chegaram, tarde e a más horas, apenas cobrem uma pequena parte das necessidades. No resto, fica-se à espera que as escolas e autarquias “encontrem soluções”. Mas então se é assim que o problema se resolve, porque não disponibilizaram localmente as verbas necessárias em vez de apostarem no centralismo burocrático e ineficiente dos grandes concursos públicos?

No resto, nota-se um preconceito contra os computadores que é algo estranho num ministério que ainda há pouco tempo embarcava irresponsavelmente nas teorias do “conhecimento na palma da mão” e na imersão tecnológica das “salas de aula do futuro”. O desencanto chegou porque descobriram agora que a tecnologia custa muito dinheiro, ou perceberam finalmente que nenhum computador ou programa de aprendizagem automática substitui a presença física do professor? Se assim é, tarda o reconhecimento e a valorização destes profissionais e de uma profissão tão maltratada por sucessivos governos, socialistas e não só.

O Isidoro

Vai ser o companheiro de trabalho do nosso colega Luís Braga, desconfinado à força por se recusar a usar o seu próprio computador ao serviço do ensino à distância. E que estará desde hoje sob protesto a dar aulas, a partir da escola, a alunos que permanecem em casa.

O computador atribuído, um HP dos tempos do plano tecnológico de Sócrates, é de um modelo familiar a qualquer professor do ensino público, pois aparelhos idênticos equipam, ainda hoje, milhares de salas de aula portuguesas. Estão há muito obsoletos, mesmo para apoiar o ensino presencial, quanto mais para satisfazer as exigências das modernas plataformas de ensino à distância…

Fica o relato na primeira pessoa do que foi a experiência de trabalho da passada sexta-feira, numa antevisão do que esperará o Luís a partir de hoje…

Apresento o Isidoro.

Vai ser o meu companheiro de trabalho na docência, enquanto durar o ensino à distância.

O Isidoro foi batizado por mim com carinho. Vou estar com ele em aulas síncronas, assíncronas e trabalho não letivo.

Quem me quiser ver, nas próximas semanas, vai ser à frente dele. De máscara, porque irei dar aulas num edifício público, onde é obrigatório estar de máscara.

Até porque parece que o #ficaremcasa não abrange alunos a quem o Estado se esqueceu de arranjar computador para estarem em casa.

O Isidoro é um belo exemplar com uns 13 anos de bons e efetivos serviços. Intel inside, etc e tal e não entremos em intimidades das suas entranhas que ele é velhote e tem pudor que se revelem as vergonhas.

O Isidoro está cansado. Corre o Windows 7. A plataforma Teams não pode ser instalada como aplicação e só funciona na versão online.

O Isidoro faz as coisas pausadamente. Hoje, demorou 8 minutos a ligar.

O micro e câmara visível tem de estar fisicamente desligados no arranque, porque de outra forma, não funcionam. Depois de estar no teams é que se pode ligar.

A câmara do Isidoro está com a vista cansada. Numa reunião de hoje, houve colegas que acharam que eu devia não estar muito bem, porque os meus olhos tinham olheiras. Não tenho mais que o costume. Os olhos do Isidoro é que estão cheios de sombras e cataratas.

O Isidoro esforçou-se muito hoje. Tive 2 reuniões. Na primeira, parecia que o micro não funcionava. Fazia barulho e ninguém me percebia.

Desistimos e fui para o chat dizer de minha justiça. Ninguém ligou muito. E por cortesia tentei ajudar os colegas, para acelerar a coisa, ligando pelo meu telemóvel.

Dava o meu recado e despachávamos o assunto. Houve um colega, que não gostou do recado, daqueles que têm muita moralidade para apontar as incoerências dos outros, que me disse que eu tinha dito que só usava o material da escola.

O meu Ex.mo fiscal da coerência tem razão e, por isso, agora vai ser só o Isidoro sem exceções de cortesia e, se avariar ou crashar, vou chamar alguém para arranjar.

Voltei ao chat e a coisa prolongou-se porque o teclado do Isidoro tem teclas que não funcionam.

Na reunião seguinte, uma colega de música explicou que, do outro lado, ouviam sons do micro, mas o problema é que, como estou numa sala vazia, faz tanto eco que não se ouve.

Quase senti que o Isidoro se comoveu por se ver que o problema não era ele.

A meio da reunião, o Isidoro crashou, quando abri, ao mesmo tempo, um site para consultar uma lei.

Tive que desligar e voltar a ligar (o Isidoro foi despachadinho…8 minutos para estar em condições de entrar no Teams).

No chat, o atraso entre escrever e ser lido era um ou dois minutos.

Não correu mal, certo?

Já me estava a afeiçoar ao Isidoro, mas acho que me vou separar dele para a semana. Alguém vai ter de arranjar alternativa. Estão a ver como serão as aulas?

E acho que hoje tê-lo batizado de Isidoro ajudou…

Santo Isidoro de Sevilha é o santo padroeiro da Internet.

Deve ter sido milagre do santo, pelo menos ter parecido que estava nas reuniões.

E não digam mal do Isidoro. Ele esforça-se. Não tem culpa que quem governa não cumpra a lei.

Professores desconfinados em manchete no DN

O documento intitulado “Carta aberta dos professores desconfinados à força”, refere-se aos docentes que, por exemplo, só têm um computador em casa, a ser partilhado pelos filhos que também estão em ensino à distância. “E tanta preocupação com a desigualdade e, no caso dos professores com filhos (ou que só têm recursos para um computador para a família toda, para continuarem a trabalhar) porque é que o seu “patrão” não cumpre a lei e não lhes entrega material para trabalhar, para que não tenham de escolher entre o estudo dos filhos e o trabalho?”, questionam os autores da carta.

O DN sabe que, nas reuniões entre diretores de agrupamentos e o secretário de Estado da Educação, João Costa, o responsável foi questionado sobre de que forma estes responsáveis teriam de atuar nos casos em que os professores que não têm, não podem ou não querem usar o seu material para dar aulas . “O secretário de Estado disse que aqueles que não têm condições para estar em teletrabalho têm de ir para as escolas”, explicou ao DN um dos diretores presentes na reunião.

Uma luta inoportuna, dirão muitos. No entanto, a exigência de que o Estado forneça aos professores das escolas públicas as mesmas condições para o teletrabalho que impõe aos empregadores privados está a fazer o seu caminho entre a classe docente e até, espantosamente, na opinião pública, tendo chegado hoje à primeira página do DN.

A verdade é que fornecer computadores, ligações robustas à internet e outras infraestruturas necessárias ao ensino online aos professores em teletrabalho em nada interfere com o combate à pandemia, não perturba o funcionamento dos hospitais nem cria constrangimentos ao plano de vacinação contra a covid-19. Os que dizem que agora a reivindicação não é oportuna são, regra geral, os mesmos que acham que tudo o que soe a acção reivindicativa nunca é oportuno. Sobretudo se o seu partido estiver no poder.

Há um ministério inteiro para tratar dos assuntos da Educação, e se este não faz o seu trabalho, inventando problemas e complicações que ninguém pediu em vez de resolver os constrangimentos reais que comprometem o funcionamento do sistema e agravam as desigualdades no acesso à Educação, é preciso que se saiba. Se, para salvar a face dos incompetentes que não prepararam um segundo confinamento mais do que previsível, obrigam professores a violar as leis do Estado que impõem o teletrabalho obrigatório, esta condenação a sair de casa e eventualmente “apanhar covid” precisa de ser denunciada.

Mesmo sendo certo que a maioria dos professores não levantam grandes objecções ao uso do seu próprio equipamento ao serviço da profissão, isso não os deve impedir de reconhecer o direito que assiste aos colegas que, pelas mais variadas razões, não podem ou não querem usar os seus computadores. Muito menos devemos compactuar com o misto de displicência, insensibilidade e arrogância com que os responsáveis do ME têm tratado esta questão.

O milagre da multiplicação de computadores

O primeiro confinamento começou em Março do ano passado e a falta de computadores e acessos à internet tornou-se evidente, agravando desigualdades e negando, no contexto do ensino à distância, uma educação de qualidade aos alunos impossibilitados de contactar com os seus professores. Para os responsáveis do ME o desafio era óbvio, bem como a urgência de meter mãos à obra. Mas apesar das promessas repetidas, dos muitos milhões anunciados e do discurso pomposo em torno da transição digital, só quase um ano depois, apertado por todos os lados, é que o ME se mexe. E tenta, atabalhoadamente, apresentar serviço.

Até aqui havia apenas cem mil computadores distribuídos a alunos carenciados do secundário, entretanto foram anunciados mais 335 mil que foram comprados mas ainda ninguém viu e agora, último coelho tirado da cartola, mais 15 mil aparelhos vão ser encomendados. Será esta a tranche destinada, finalmente, aos professores?…

No terreno, a distribuição está a ser complicada. Muitos alunos que teriam direito ao computador não o aceitam, a maioria porque já têm o seu próprio aparelho e não se querem responsabilizar por outro que é apenas emprestado e onde nem sequer poderão instalar os seus programas e jogos favoritos. Contudo, o mais grave não é isto, mas sim a impossibilidade da escola atribuir esses PCs a alunos do ensino básico que deles necessitariam. Pois segundo as regras estabelecidas pelo ME os computadores para alunos do secundário têm especificações diferentes dos que serão atribuídos aos do ensino básico. E já sabemos que quando a autonomia das escolas, ou mesmo o interesse dos alunos, esbarra com a burocracia ministerial, é sempre esta que prevalece.

O Conselho de Ministros de ontem decidiu uma série de medidas relevantes para o sector da Educação, que o ME não tardou, em comunicado, a anunciar.

O Conselho de Ministros aprovou uma resolução que possibilita a compra imediata de mais 15 mil computadores, que vão somar-se aos 100 mil kits já distribuídos às escolas no 1.º período letivo e aos 335 mil equipamentos comprados no âmbito do programa Escola Digital, com recurso a fundos comunitários.

A Resolução do Conselho de Ministros, que autoriza uma realização de despesa adicional de 4,5 milhões de euros, permite responder à oportunidade de mercado que surgiu nos últimos dias. O procedimento de compra destes 15 mil computadores está já a ser desencadeado pela Secretaria-Geral da Educação e Ciência.

Adicionalmente, no sentido de tentar agilizar os procedimentos para ultrapassar os atuais constrangimentos logísticos no transporte internacional de carga, o Governo tem vindo a trabalhar com as empresas fornecedoras para procurar garantir que a entrega dos 335 mil computadores já comprados aconteça dentro dos prazos contratualmente previstos.

Paralelamente, foram abertas quatro linhas de financiamento do PT2020, no valor de 14 milhões de euros, que permitem aos municípios adquirir equipamentos informáticos, como já tem sido prática, complementando o trabalho de dotação de equipamentos e conetividade no âmbito da Escola Digital.

Medidas excecionais

O Conselho de Ministros aprovou ainda o decreto-lei que estabelece medidas excecionais e temporárias na área da Educação para 2021, tal como aconteceu no ano letivo passado, no âmbito da pandemia da doença Covid-19, assegurando a continuidade das atividades educativas e letivas da forma mais normalizada possível:

  • Autorização do tratamento de dados pessoais, na medida do indispensável,
  • durante a vigência de ensino não presencial;
  • Autorização para proceder a alterações no calendário escolar, compensando a suspensão das atividades letivas entre 22 de janeiro e 5 de fevereiro;
  • O dever de apresentação na sequência de colocação, contratação ou regresso ao serviço considera-se cumprido mediante contacto por correio eletrónico, dispensando a apresentação presencial;
  • Autorização às direções das escolas para ajustar as férias dos docentes ao calendário escolar, de forma a garantir as necessidades decorrentes do calendário de provas e exames, não prejudicando o direito ao gozo de férias pelos docentes;
  • Adequação dos prazos dos ciclos de avaliação do pessoal docente ao novo calendário, garantindo que os docentes não são prejudicados na sua progressão na carreira;
  • Agilização da contratação de docentes, em 2021, permitindo a contratação de escola após uma reserva de recrutamento sem colocação ou sem aceitação (até aqui eram necessárias duas reservas sem colocação ou sem aceitação).

Luís Braga, 1 – ME, 0

Como eu previa, depois de 2 textos, enviados ao meu diretor, a dizer que não cedia o meu equipamento para Serviço da República gratuito, e de razoável visibilidade ao problema (que outros milhares de professores têm), alguma coisa iria acontecer.

Hoje, depois, de vários telefonemas da minha escola para a DREN, (hoje Dgeste Norte), em que nenhuma solução foi apresentada para o problema de não ceder o meu computador, lá disseram que o assunto tinha sido reencaminhado para cima.

Mas ideias de solução, nenhumas… É esperar. Ninguém por lá se atravessa a mandar-me para a escola…Eu até já disse que ía e também já disse o que fazia a seguir. (https://www.comregras.com/ensino-a-distancia-alinhar-ou…/)

No impasse, o meu diretor decidiu atribuir-me até 6ª, para as reuniões que aí vêm, um dos computadores que a Câmara comprou para alunos, em Abril.Já está cá em casa em boa companhia como veem.

Um ato desobediente e rebelde, mas absolutamente legal (não cedo o que é meu) e o sistema começa a andar à roda.

Não me podem obrigar a usar o que é meu, sem eu consentir, e ninguém se arrisca a dar a ordem de me pôr a violar o confinamento na escola (porque sabem que não faço bluff ao anunciar a reação), eis que o computador reivindicado aparece.

Sexta, devo ter de devolver e volta tudo à estaca zero. Nesse dia se verá como estamos dia 8. Eu estou no mesmo sítio. O Estado terá soluções?

As aulas do segundo confinamento letivo não vão ser dadas do meu computador, vos garanto.

E o principio legal de que o material para trabalhar é custo “do patrão” está a ser afirmado ativamente. Esperemos que a ideia fique bem assente em certas nulas cabecinhas.

No Facebook, o professor Luís Sottomaior Braga vai descrevendo o que tem sido a sua odisseia desde que notificou a direcção da escola de que o seu computador pessoal não estaria disponível, gratuitamente, para serviço à entidade patronal – neste caso a escola e o ministério da Educação.

A posição, a avaliar pelas reacções, estará a ser adoptada por um número crescente de professores que não estão dispostos a dar mais esta “borla” a um ME que rouba tempo de serviço, atrofia o desenvolvimento da carreira e, de um modo geral, continua a fazer ouvidos de mercador aos problemas e anseios da numerosa classe docente.

É certo que no primeiro confinamento imperou a boa vontade e não houve, que se saiba, registo de casos de professores que se tivessem recusado a trabalhar, com os seus próprios meios, a partir de casa. Mas nessa altura estava em causa o apropriadamente designado, na altura, ensino remoto de emergência. Ninguém esperava o impacto avassalador da pandemia que se abateu sobre as nossas vidas e todos tentaram dar o seu melhor. Agora é diferente. O Governo sabia o que aí vinha, conhecia as falhas e insuficiências do sistema, reveladas pela experiência inicial, e teve tempo para providenciar o necessário. Não teve dúvidas em mandar as escolas fazer planos a triplicar, prevendo todas as contingências. Mas quanto a cumprir a sua parte, preferiu confiar na sorte e na convicção absurda de que poderíamos atravessar a pandemia sempre de escolas abertas.

Reagindo tardiamente, como já vem sendo habitual neste ME, à contestação dos professores que exigem meios para trabalhar, as delegações da DGEstE estarão a dar instruções orais às escolas para mandarem estes docentes trabalhar nas escolas. Mas isto é uma violação grosseira do decreto que, na sequência do estado de emergência, impõe o teletrabalho obrigatório. E responsabiliza directamente quem dê tal ordem por escrito.

Assim, em vez de uma ordem para vir trabalhar para a escola, Luís Braga recebeu, para já, um muito razoável computador para trabalhar a partir de casa. E a sua reclamação, que tanto o director do agrupamento como o delegado da DGEstE mandaram “para cima”, já deverá estar, por esta altura, em altas instâncias do ME.

Parafraseando o velho slogan sindical, vale a pena lutar!…

Alunos e famílias rejeitam computadores do ME

O Ministério da Educação comprou computadores para garantir que todos os alunos estão preparados para estudar a partir de casa, neste novo período de confinamento. Contudo, nem todos os pais aceitam os equipamentos atribuídos aos alunos abrangidos pela Ação Social Escolar, no âmbito do programa Escola Digital.

O Jornal de Notícias avança que os pais rejeitam os computadores devido às condições de utilização exigentes. Citado pela mesma publicação, o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE) sublinha que a recusa é justificada «por não se quererem responsabilizar por um equipamento que não é deles».

O acordo proposto pelo Ministério da Educação passa pelo empréstimo do computador com a obrigação de ser devolvido, mais tarde, em boas condições. Na Escola Secundária de Canelas, em Gaia, por exemplo, haverá «uma sala cheia de computadores ainda dentro das caixas» por isso mesmo, segundo adianta o diretor desse estabelecimento de ensino. Ao Jornal de Notícias, indica que aguardam resposta do Estado sobre como proceder.

Com as vacinas anti-covid deu-se o contrário: de início ninguém as queria, duvidava-se da sua eficácia e temiam-se os seus riscos. Quando se tornou evidente que, nos próximos meses, chegarão apenas para uma pequena percentagem da população, passaram a ser desejadas por todos.

Já os muito desejados computadores para os alunos, esses estão a ser rejeitados por muitos dos que a eles teriam direito. O que se torna ainda mais notório se tivermos em conta que, nesta fase, apenas estão a ser distribuídos PCs a alunos carenciados do ensino secundário.

Sabendo-se da escassez de computadores em relação às necessidades existentes, não é drama nenhum que alguns alunos os não queiram: mais ficam para os verdadeiramente necessitados. Antes de criticar os alunos ou as suas famílias, olhando-os como “pobres e mal agradecidos”, interessa perceber que muitos destes jovens dispõem já de acesso a um computador, uma necessidade imposta pelo confinamento escolar no ano passado e a que muitas famílias corresponderam, nalguns casos com sacrifício.

Por outro lado, e embora existam razões técnicas que o justifiquem, estes computadores – que são apenas emprestados, não oferecidos- não têm as mesmas potencialidades e versatilidade dos que são comprados: os estudantes não conseguirão instalar livremente os programas e aplicações da sua preferência.

Finalmente, recorde-se que quando este plano para equipar digitalmente a população escolar foi apresentado, a ideia era que estes computadores permanecessem na escola, sendo aí usados pelos alunos. Só em caso de necessidade seriam levados para casa. Foi a pandemia veio fazer desta possibilidade uma necessidade absoluta, no contexto das aulas não presenciais.