Constâncio de má memória

VitorConstancio lx.jpgA memória, ou a falta dela, tornou-se um dos ingredientes fatais para impedir o país de ajustar as contas com uma faceta tenebrosa do seu passado recente. Vítor Constâncio, ex-governador do Banco de Portugal foi mais um dos que, instados a explicar as causas dos abusos da banca, invocaram o esquecimento para se eximir das suas responsabilidades.

Está na hora de dizer basta a este tipo de atitude. Chegou o momento de dizer que a falta de lembrança não pode ser considerada como uma desculpa ou uma atenuante. Tem de passar a ser encarada como uma tentativa consciente de escapar a culpas próprias num desastre que penaliza e envergonha o país. Um homem que não se lembra de ter assumido tão solenes e graves decisões não pode suscitar-nos compreensão e complacência, antes a penalização e o desprezo.

Nem sempre estou de acordo com o director do Público. Mas, em relação à vergonhosa e selectiva amnésia de Vítor Constâncio, subscrevo inteiramente aquilo que escreve. Quando falamos da actuação de Constâncio como governador do Banco de Portugal, tal como da de Zeinal Bava à frente da PT, de Salgado no BES/GES ou de Sócrates na chefia do Governo, estamos a falar de responsáveis por decisões que colocaram o país à beira da bancarrota e deixaram um rasto de fraudes e dívidas que custará aos portugueses décadas de sacrifícios.

Constâncio, tal como outros antes dele, alega falta de memória para se eximir de responsabilidades. Aceita passar por incompetente desde que isso o livre de acusações mais graves, como a de cumplicidade com as trafulhices que foram feitas debaixo dos seus poderes de supervisão.

Reconciliar os cidadãos com a política e promover o empenhamento colectivo na construção de um país melhor para todos passa, não tenho dúvidas, por cortar em definitivo com a casta de políticos e gestores corruptos e incompetentes que o centrão governativo promoveu ao longo de décadas. A condenação moral e política dos (ir)responsáveis incapazes de assumir as suas responsabilidades é necessária, mas não chega: é preciso que os casos em que estiveram envolvidos cheguem à justiça. Que se demonstrem e comprovem as culpas e se aplique a lei aos prevaricadores.

Enquanto esse passo não for dado, é certo e sabido: vão continuar a rir-se na nossa cara…

Amnésia

Insubstituíveis

Edviges FerreiraO Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) sabia que havia suspeitas que recaíam sobre a professora Edviges Ferreira quando, no Verão de 2017, aceitou que fosse ela a avaliar o exame de Português do 12.º ano antes de ser enviado para as escolas, para os alunos se submeterem à prova.

Eis um mal muito português, que tantas vezes impede que criminosos e infractores sejam julgados e punidos pelos seus actos. Ou que desonestos e incompetentes sejam simplesmente afastados dos lugares antes que a sua presença possa provocar maiores danos: a irresistível e inexplicável sedução que algumas pessoas, de comportamento no mínimo duvidoso, conseguem despertar à sua volta. E a teia de cumplicidades e condescendências que se vai construindo à sua volta.

Aparentemente, o IAVE desconfiava que Edviges Ferreira poderia vir a quebrar o sigilo que lhe era imposto. Mesmo assim, permitiu-lhe o acesso à prova de Português. E nós perguntamos: era assim tão difícil, entre milhares de professores de Português honestos, competentes e experientes que existem neste país, encontrar outra pessoa que fizesse o trabalho que se pretendia?

Este hábito de funcionar em capelinhas, em que uns e outros se vão ajudando e encobrindo – hoje é a mim, amanhã, ou quando precisares, calha-te a ti – é o oposto da meritocracia que caracteriza as economias e sociedades mais evoluídas. Em que as pessoas se afirmam pela sua competência, honestidade e pela qualidade do seu trabalho, sem precisarem de jeitinhos e favores para mostrarem o que valem.

Por cá, prefere-se demasiadas vezes levar ao colo pessoas aparentemente insubstituíveis e segurar nos seus lugares os incompetentes e os corruptos, em vez de multiplicar oportunidades para que mais pessoas apliquem as suas competências e demonstrem o seu valor. E não é só na administração educativa, como bem sabemos, que isto se verifica…

Finalmente, recorde-se que todo este caso da professora Edviges foi levado às últimas consequências apenas porque uma aluna deixou a prova, nas redes sociais, de que havia alunos a saberem antecipadamente o que iria sair no exame. Divulgada a gravação pelos media, não restou alternativa senão investigar até ao fim, sob pena de descredibilizar por completo o sistema de exames nacionais. Mas a dúvida permanece: há quantos anos subsistirão casos semelhantes de professores que têm acesso às provas na fase de elaboração e usam esse conhecimento privilegiado para aumentar a sua cotação no mercado das explicações particulares?

A verdade é que, se a gravação comprometedora não existisse, o mais provável é que a professora entretanto proscrita continuasse ainda a colaborar com o IAVE…

Ladrões de Portugal

Se fosse verdade, daria uma colecção deveras interessante.

E bastante completa, pois devem conhecê-los a todos..

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Tudo em família

Explorada até à exaustão pela oposição de direita, com a prestimosa ajuda da comunicação social, a polémica baseada nas conhecidas ligações familiares entre ministros do actual governo evoluiu para as acusações de nepotismo praticado pelos governantes socialistas. E levou, para já, à demissão de um secretário de Estado e do primo que este havia nomeado.

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Contudo, esta está longe de ser uma realidade circunscrita a este governo ou ao partido actualmente no poder. As elites políticas e económicas sempre se reproduziram entre nós de uma forma bastante endogâmica. Num país pequeno, de recursos limitados e fortemente dependente do exterior, a solidez das fortunas e das teias de poder e de influência sempre dependeu muito da capacidade de controlar e instrumentalizar em benefício próprio o exercício dos cargos públicos.

Nem mesmo a ruptura política concretizada pela Revolução de Abril conseguiu contrariar, de forma duradoura, o poder das famílias de outrora. Menos de meio século volvido, temos hoje um Presidente que é filho do antigo ministro das Colónias de Marcelo Caetano. Boa parte dos influentes que usam hoje o duplo apelido pertencem a famílias que pontificavam no tempo do anterior regime. E nem a queda estrondosa do grupo BES, que continuaremos por muitos anos a pagar, teria a dimensão que teve sem a teia de dependências e cumplicidades que a família de banqueiros alimentou, durante décadas, à sua volta.

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Ainda assim, a democracia trouxe novos intervenientes à política e à gestão das maiores empresas e grupos económicos. Mas o que se verificou a seguir foi mais uma recomposição das elites, aglutinando velhos e novos protagonistas, do que uma mudança definitiva nas práticas dinásticas ou na traficância de influências.

Por isso, quando se aponta hoje o dedo ao nepotismo na política ou, ainda pior, a promiscuidade entre a política, o mundo empresarial, a justiça e a advocacia de negócios, não é difícil recordar um passado recente onde tudo isto se encontrava já bem presente.

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O que haverá hoje é, talvez, uma maior visibilidade das situações. A maior presença das mulheres na política, um maior fechamento dos partidos à influência da sociedade civil, um certo sentimento de impunidade que também existe – tudo isto facilita o recurso mais frequente à “prata da casa” nas nomeações políticas. O escrutínio e a denúncia pública por jornalistas e cidadãos informados, a partilha de informação através das redes sociais, fazem o resto.

Contudo, a censura pública não é suficiente. Uma mudança efectiva desta situação só acontecerá quando os cidadãos penalizarem fortemente, nas urnas, os partidos que insistem em levar a votos os representantes das velhas dinastias políticas passadas da validade. Quando a renovação política passar a ser, para todos os partidos, um imperativo de sobrevivência. E não apenas uma intenção piedosa de que rapidamente se descartam quando chegam ao poder.

Obviamente, demitam-no!

tomas-correia.jpgDesde a condenação do Banco de Portugal, regulador e Governo andam num pingue-pongue sobre quem avalia a idoneidade de Tomás Correia, que em quatro anos fez desaparecer 804 milhões de euros dos associados da Mutualista. 

O país parece nada ter aprendido com os desfalques e a gestão ruinosa da banca privada, responsáveis pela maior crise financeira da nossa democracia. Há muito que Tomás Correia e a sua trupe deveriam ter sido afastados da administração do Montepio e seriamente investigados pela gestão danosa do banco e da associação mutualista.

Não sei que poderes tem Tomás Correia ou a que interesses poderosos serve de testa de ferro. Mas fico perplexo com a forma como se empurra com a barriga um problema gravíssimo e como em todos os lados – Governo, Banco de Portugal, supervisor – falta a coragem para fazer o que se impõe: declarar categoricamente que este homem não tem idoneidade para gerir nem uma chafarica, muito menos uma instituição com as responsabilidades do Montepio na actividade bancária e na economia social.

Num país onde se diz levar a avaliação do desempenho profissional muito a sério, onde abundam os treinadores de bancada sempre prontos a julgar o trabalho dos outros, como é possível que ninguém se atreva a avaliar a idoneidade de Tomás Correia? Como se aceita que o homem continue indecorosamente, ao mesmo tempo que ataca todos os que o criticam, a gabar-se da sua impunidade?

Na reunião desta terça-feira do Conselho Geral, Tomás Correia passou a mensagem de absoluta tranquilidade em relação à sua permanência no cargo, garantindo que está confiante que não haverá qualquer avaliação de idoneidade. Isto segundo uma fonte com conhecimento do processo, que frisou ainda que o presidente da mutualista  considerou um “ataque miserável” à sua liderança a contraordenação do Banco de Portugal.

Perante isto, resta questionar que poderes ocultos protegem o grande líder associativo, quando até o franciscano do regime, num atrevimento mais próprio duma organização mafiosa do que da humildade e despojamento da ordem em que professa, lança o desafio:

“Não é um secretariozeco ou um qualquer ministro que vai afastar os órgãos sociais democraticamente eleitos”.

Passos «Catedrático» Coelho

O licenciado Passos Coelho a dar aulas, como catedrático convidado, a mestrandos e doutorandos do ISCSP: uma voltinha pelo Twitter ajuda-me a contar como tudo se passou.

1. O anúncio, aos colegas deputados, de que iria mudar de vida. E a necessidade de mitigar a incontida tristeza dos companheiros.

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2. A incredulidade dos que melhor o conhecem…

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3. O plano curricular que o mais novo catedrático da nossa Academia irá leccionar.

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4. E finalmente, a cargo do Jovem Conservador de Direita, a explicação mais irónica e profunda do real significado desta contratação…