O renascimento da CP

Para terminar de forma positiva um ano de desgraças, frustrações e projectos adiados, dedico o último post de 2020 a uma empresa pública portuguesa que, em plena pandemia e com um cenário desolador à sua volta, se soube reinventar e relançar, invertendo um longo período de declínio: a CP, Comboios de Portugal.

Quem acompanhou, como utente dos comboios ou simples cidadão informado e interessado, a política ferroviária das última década, saberá que tanto o governo de Passos Coelho como o primeiro de António Costa prosseguiram uma política de desinvestimento na ferrovia. Encerraram estações, linhas férreas e oficinas, encostaram material circulante para pouparem nas revisões e manutenções, cancelaram a compra de novos comboios, reduziram os quadros de pessoal e retalharam o sector, antes concentrado numa única empresa pública, em diversas empresas públicas e privadas.

O resultado foi a degradação acentuada da qualidade do serviço: redução da oferta, atrasos e supressões de circulações, comboios sujos e grafitados, viagens mais demoradas devido ao mau estado das vias e material circulante e, consequência de tudo isso, a diminuição da procura dos comboios, preteridos face à concorrência da camionagem e do transporte individual.

Para além de outras circunstâncias favoráveis, como o interesse crescente, a nível nacional e europeu, nas potencialidades do modo ferroviário, houve uma decisão fundamental que o ministro que tutela o sector, Pedro Nuno Santos, teve o mérito de tomar: em vez de recorrer, como era habitual até aqui, a ex-políticos ou carreiristas incompetentes para gerir a CP – como António Ramalho, que entre 2004 e 2006 praticamente desmantelou a rede de ligações ferroviárias existente e se dedica agora a esburacar, para nós pagarmos, as contas do Novo Banco – nomeou uma equipa de profissionais dedicados, competentes e, acima de tudo, conhecedores da realidade da empresa e do sector ferroviário.

Perante os graves problemas e constrangimentos da CP, a nova equipa não demorou a assumir um compromisso claro perante os seus clientes, definindo três objectivos essenciais:

  • o comboio aparece;
  • aparece a horas;
  • aparece limpo.

Parece simples e coisa pouca, mas na realidade foi uma pequena revolução que se operou no interior da empresa:

  • reabertura de grandes oficinas encerradas no tempo da troika, como as de Guifões, nos arredores do Porto, vocacionadas para as grandes revisões e a recuperação de material ferroviário;
  • reintegração da empresa de manutenção – EMEF- na CP, potenciando sinergias e economias de escala;
  • reabilitação de locomotivas clássicas 1400 e de carruagens Schindler que estavam abandonadas para o serviço na linha do Douro, um sucesso turístico em 2020, ao mesmo tempo que libertaram automotoras para reforçar outras linhas onde a falta de material era evidente;
  • recuperação de automotoras dos serviços suburbanos de Lisboa, material moderno e de grande capacidade que estava encostado, a degradar-se, desde os tempos da troika;
  • recuperação de locomotivas eléctricas 2600 também abandonadas e compra de 50 carruagens espanholas para os novos comboios da linha do Minho, entretanto electrificada;
  • reforço da capacidade das oficinas, não só para assegurar a manutenção corrente, mas também para manter os comboios asseados e livres de graffitis.

A obsolescência do caminho-de-ferro, solução do século XIX para o transporte rápido e massificado de pessoas e mercadorias, foi inúmeras vezes vaticinada. Mas os enormes avanços tecnológicos do sector, sobretudo no campo da alta velocidade ferroviária, e o pesado impacto ambiental do transporte aéreo e da rodovia, vêm demonstrando a importância que o comboio continuará a ter na mobilidade do século XXI. Em Portugal, 2020 foi o ano em que a CP se posicionou, decididamente, para assumir este desafio.

A melhor lição de Cidadania

Não foi preciso sala de aula, nem matriz curricular, nem planificação para que um grupo de estudantes da Escola Secundária Eça de Queirós, em Lisboa, mostrasse ao país inteiro que resposta deve ser dada ao discurso nojento do ódio, do racismo e da intolerância: depois de debaterem o assunto com um professor, de falarem com a direcção e com a orientação de um funcionário, agarraram nos baldes de tinta, rolos e trinchas e rapidamente apagaram as mensagens racistas que conspurcavam os muros exteriores da escola.

“Sem apagar isto, eu recusava-me a entrar na escola”, disse um dos alunos, exprimindo bem o sentimento colectivo. O que nos deixa, além da lição de cidadania activa, uma certeza: enquanto formos capazes de reagir desta forma em defesa dos direitos humanos, da democracia e de uma sociedade inclusiva, os fascistas não passarão.

Para ilustrar este breve apontamento escolhi uma das fotos publicadas no Facebook da escola, a que nos mostra a mentira da mensagem supremacista e a profunda estupidez que é catalogar as pessoas pela cor da sua pele. Não existem pessoas brancas. A pele humana só fica branca se a pintarmos dessa cor…

Os falsos mitos da carreira docente

Joana Mortágua desmonta, numa linguagem clara e acessível, apoiada por gráficos ilustrativos, os mitos que propositadamente se fazem circular a respeito da carreira e das progressões dos professores.

Mais do que um valioso contributo para a causa dos professores, este vídeo é verdadeiro serviço público, esclarecendo todos os que procuram uma informação isenta e objectiva sobre a situação e a luta dos professores. Combatendo o achismo, a desinformação e o preconceito que continuam a dominar boa parte da opinião publicada sobre o assunto.

Professores das AEC voltam à 2ª prioridade

aec.jpgAs escolas foram hoje informadas do recuo do ME, que vem resolver a situação arbitrária e injusta que ele próprio criou aos professores das AEC da única forma possível. E a Fenprof, que divulga a notícia, relembra: lutar vale sempre a pena!…

Às direções das escolas e agrupamentos chegou, há minutos, a seguinte informação da DGAE:
“Os candidatos que reúnam os requisitos previstos no artigo 10.º, n.º 3, b) do Decreto-Lei 132/2012, e que apresentem declaração comprovativa de que prestaram serviço nas AEC em AE/ENA do Ministério da Educação, em conformidade com o disposto no artigo 26.º da Portaria 644-A/2015, podem ser posicionados na 2.ª prioridade em sede de reclamação”. 

Esta é a posição que as organizações sindicais de professores defendem e que, na manifestação do passado dia 19, reafirmaram. Com esta informação não ficam solucionados todos os problemas das AEC, mas o mais imediato tem, agora, a única resposta legalmente possível. Aos professores que prestam funções nas AEC cabe apresentar a necessária reclamação no período destinado a esse efeito, logo que sejam divulgadas as listas provisórias do concurso externo. 

Este é mais um bom exemplo de que vale a pena lutar. Uma luta que, lembram as organizações sindicais, tem, ainda, objetivos, como sejam a contagem integral do tempo de serviço dos professores, a aposentação, os horários de trabalho, entre outros. 

Na reunião realizada hoje, entre as organizações sindicais de professores e educadores, estas consideraram de elevada importância a grande Manifestação do passado dia 19 de maio e começaram já a apontar para novas ações, caso o Governo teime em não resolver os problemas que continuam a afetar os professores.

Colaborações: ComRegras

No Topo: Confiança nos professores e nas escolas públicas

O estudo da agência Aximage divulgado esta semana confirma o que também já tinha sido detectado há dias numa análise semelhante da Universidade Católica: os professores e as escolas públicas continuam a estar entre os profissionais e as instituições em que os Portugueses mais confiam. Uma tendência que vem de longe e que habitualmente coloca os docentes, tal como os bombeiros ou os polícias, entre os profissionais mais merecedores do apreço e da confiança dos cidadãos…

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No Fundo: Os exames inflexíveis

A notícia teve pouca repercussão mediática, mas o assunto é suficientemente importante para merecer destaque imediato e acompanhamento atento: paira um sentimento de inquietação, nas escolas que estão a realizar a experiência pedagógica da flexibilidade curricular, perante a perspectiva de os seus alunos terem de vir a realizar, no final do básico e do secundário, os tradicionais e nada flexíveis exames nacionais. E perante isto, raras foram as escolas que se aventuraram a estender o projecto ao ensino secundário…

Excelente anunciação!

Os cerca de 350 mil euros que custou a novíssima aquisição do Museu Nacional de Arte Antiga são mais do que estava previsto gastar, mas ainda assim julgo que a compra valeu bem a pena: a Anunciação de Álvaro Pires, pintor português que fez carreira na Itália pré-renascentista, vem enriquecer o escasso património artístico do século XV, uma época da qual, com a notável excepção dos Painéis de S. Vicente, praticamente nenhuma pintura chegou aos nossos dias.

Espera-se que novas descobertas e futuras aquisições venham ajudar a preencher esse “buraco negro” que ainda persiste no conhecimento e na divulgação dos pintores “primitivos” portugueses.

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Em breve uma pequena Anunciação do século XV, executada pelo primeiro pintor português com obra atribuída, vai fazer companhia aos célebres Painéis de São Vicente, de Nuno Gonçalves, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa.

A pintura foi comprada nesta quinta-feira à noite pelo Estado português num leilão da Sotheby’s, em Nova Iorque, por 350 mil euros (o preço de martelo foi 350 mil dólares, aos quais é preciso acrescentar a comissão da leiloeira, que faz com que o valor suba para os 435 mil dólares), confirmou ao PÚBLICO o director do MNAA, António Filipe Pimentel.

Foi no início de Janeiro que o Museu Nacional de Arte Antiga pediu à Direcção-Geral do Património Cultural, entidade que o tutela, que fizesse tudo o que estava ao seu alcance para adquirir a pintura, explicando por que razões seria da máxima importância poder contar com ela na colecção de Arte Antiga. “Esta compra não é importante só porque é um Álvaro Pires, mas porque é um excelente Álvaro Pires. Refinado, apuradíssimo”, diz agora Pimentel.

A partir de agora haverá nos museus nacionais duas obras deste primitivo português que terá feito toda a sua carreira em Itália, depois de, muito provavelmente, ter recebido formação na cidade espanhola de Valência. A outra é A Virgem com o Menino entre S. Bartolomeu e Santo Antão, sob a Anunciação, hoje no acervo do Museu Frei Manuel do Cenáculo, em Évora. Foi comprada em 2001 a um privado por 64 mil contos (320 mil euros), graças à intervenção de dois mecenas – a Finagra de José Roquette e a Fundação BCP.

Progressões desbloqueadas em 2018

descongelamento.jpgPara todos os trabalhadores do Estado, excepto os que já beneficiaram de promoções durante o período de congelamento.

A partir de 1 de Janeiro será retomada a contagem do tempo de serviço.

Quanto aos aumentos salariais decorrentes das subidas de escalão, o governo irá propor aos sindicatos que sejam feitos de forma faseada, uma vez que não haverá verba orçamental para o seu pagamento integral.

A diminuição do desconto para a ADSE e o aumento do subsídio de alimentação também estão a ser planeadas, contribuindo para o aumento do rendimento líquido de todos os funcionários públicos.

Governo descongela progressões para toda a função pública

Finalmente, uma praxe que vale a pena!

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Há praxes e praxes. Os caloiros de Biologia e Biologia Marinha da Universidade do Algarve não andaram a fazer flexões como se estivessem num regimento militar ou a levar com ovos e farinha em cima. Arregaçaram as mangas e tornaram a Ria Formosa ainda mais bonita, retirando-lhe 114 Kg de lixo.

Os novos alunos passaram a tarde de terça-feira, 19 de Setembro, a limpar a Ria Formosa, na zona do Ludo, perto da Praia de Faro) – uma actividade inserida na praxe académica e promovida pela associação ambiental Straw Patrol.

“Durante cerca de uma hora, aproveitando a maré baixa, os cerca de 40 alunos percorreram 350 metros de ria, recolhendo diversos tipos de lixo. Muito desse lixo recolhido estava associado à actividade piscatória”, lê-se na página de Facebook da Straw Patrol. Além de várias cordas e embalagens de sal (usadas provavelmente para apanhar lingueirão), foram recolhidas garrafas de água, tampas, palhinhas, ténis de corrida, beatas de cigarro, madeiras… “Feitas as contas, os alunos conseguiram evitar que 114 Kg de lixo entrassem nos oceanos e colocassem em risco a vida de organismos marinhos e a saúde e segurança humanas”, refere a mesma publicação.

Os caloiros foram acompanhados por alunos do 3º ano, responsáveis por acolher os novos alunos da faculdade. “Numa altura em que a praxe académica é amplamente discutida, estes alunos mostraram que é possível aliar a actividade de praxe à protecção dos ecossistemas marinhos, e fizeram toda a diferença”, conclui a Straw Patrol, um grupo de biólogos marinhos que nasceu para combater o lixo nos oceanos.

hemiciclo.pt

Quem já visitou a anacrónica página web do Parlamento português e se perdeu pelos seus inúmeros meandros tentando pesquisar qualquer tipo de informação só pode congratular-se com o aparecimento de um novo site que disponibiliza informação clara, actualizada e facilmente acessível sobre a actividade dos deputados. Senhoras e senhores, bem-vindos ao hemiciclo.pt!…

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Esta novo site, que só no dia da inauguração teve mais de 20 mil visitas, é uma iniciativa de Luís Vargas, designer industrial de 39 anos, e David Crisóstomo, estudante de economia de 24 anos. Sozinhos, fizeram algo a que o próprio Parlamento há muito assumiu como responsabilidade sua. Mas não cumpriu…

Segundo Crisóstomo e Vargas, os deputados aprovaram a Resolução da Assembleia da República n.º 64/2014, que é uma “Declaração para a Abertura e Transparência Parlamentar”, na sequência da “Declaração de Roma para a Abertura e Transparência Parlamentar” de 2012, o de se comprometeram em “assegurar uma efetiva monitorização parlamentar”, em “registar os votos dos deputados” de “forma a garantir a responsabilização dos deputados junto do eleitorado” e a “disponibilizar ao público um registo completo dos votos individuais dos deputados em plenário e nas comissões”.

“A própria Constituição prevê isso e a República Portuguesa assinou um acordo europeu que garante esse nível de transparência”, explicou Luís Vargas ao DN. “Neste caso não está a cumprir”, concluiu.

O hemiciclo.pt tem um design bastante amigável e apelativo, convidando o visitante a, clicando aqui e acolá, ir descobrindo sempre mais informação. Vai buscar a maior parte dos dados que apresenta ao site oficial do Parlamento, mas apresenta-os de forma muito mais acessível, organizada e interactiva. Vale a pena uma visita e, no caso de quem tem interesse ou necessidade de acompanhar os trabalhos parlamentares, recomenda-se desde já a entrada directa para a lista de sites favoritos.

 

Provavelmente o melhor brinquedo do mundo

 

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A LEGO fez 85 anos e, assinalando a efeméride, José Morgado escrevia ontem, na sua Atenta Inquietude, sobre aquele que é provavelmente o melhor brinquedo que a humanidade já inventou.

Do meu ponto de vista é o brinquedo perfeito. A sua utilização é intuitiva permitindo que o manual de instruções ou a supervisão de alguém só possa ser necessária para réplicas mais sofisticadas. Os bebés com peças LEGO na versão Duplo nas mãos rapidamente entendem a forma como se brinca. Dispensa manual de instruções a não ser para replicar construções.

Contrariamente a muitos outros brinquedos, os LEGO é mesmo interactivo, qualquer de nós, mais pequeno ou mais velho, transforma um monte avulso de peças coloridas naquilo que entender. Por isso uma outra característica, a imaginação, é o limite de uma brincadeira com peças LEGO que a alimentam e estimulam.

Inventados e patentados por um carpinteiro dinamarquês, os blocos coloridos LEGO permitem uma infinidade de combinações. E tanto se podem construir, passo a passo, as casas, os veículos ou os cenários reproduzidos nas caixas dos conjuntos, como pôr de parte os manuais de instruções e dar largas à imaginação, fazendo criações inteiramente originais, onde os limites são apenas os impostos pela idade, os interesses e, acima de tudo, a imaginação dos pequenos criadores.

Vivendo a minha infância e juventude num tempo em que não havia telemóveis nem internetes, em que as férias eram mesmo grandes e quase não havia ocupação organizada de tempos livres, recordo com saudade as longas horas que passava entretido com os LEGOS, um brinquedo que os meus filhos, embora de outra geração, também apreciaram.

Mas os tempos mudaram, e vejo hoje com apreensão como os jogos electrónicos, os omnipresentes telemóveis e internet estão a tornar os miúdos cada vez mais, e cada vez mais cedo, consumidores passivos do entretenimento que os fabricantes de conteúdos produzem para eles, em vez de imaginarem e criarem eles próprios as suas brincadeiras, como o LEGO e outros jogos semelhantes permitem fazer.

A própria LEGO sentiu dificuldade em se adaptar aos novos tempos, e a sobrevivência das peças coloridas passa cada vez mais pelos conjuntos que reproduzem cenas de séries e filmes populares ou os super-heróis do agrado do grande público. Lamentavelmente, um brinquedo que sempre serviu indistintamente para os dois sexos é hoje tendencialmente sexista, com os carros e os monstros para meninos e as casas de bonecas para as meninas.

Ainda assim, julgo que o LEGO continua a ostentar o título de melhor brinquedo para crianças e jovens de todas as idades. E os adultos que sentiram – e ainda não esqueceram! – o encanto e a magia daquelas construções certamente concordarão comigo…