O Isidoro

Vai ser o companheiro de trabalho do nosso colega Luís Braga, desconfinado à força por se recusar a usar o seu próprio computador ao serviço do ensino à distância. E que estará desde hoje sob protesto a dar aulas, a partir da escola, a alunos que permanecem em casa.

O computador atribuído, um HP dos tempos do plano tecnológico de Sócrates, é de um modelo familiar a qualquer professor do ensino público, pois aparelhos idênticos equipam, ainda hoje, milhares de salas de aula portuguesas. Estão há muito obsoletos, mesmo para apoiar o ensino presencial, quanto mais para satisfazer as exigências das modernas plataformas de ensino à distância…

Fica o relato na primeira pessoa do que foi a experiência de trabalho da passada sexta-feira, numa antevisão do que esperará o Luís a partir de hoje…

Apresento o Isidoro.

Vai ser o meu companheiro de trabalho na docência, enquanto durar o ensino à distância.

O Isidoro foi batizado por mim com carinho. Vou estar com ele em aulas síncronas, assíncronas e trabalho não letivo.

Quem me quiser ver, nas próximas semanas, vai ser à frente dele. De máscara, porque irei dar aulas num edifício público, onde é obrigatório estar de máscara.

Até porque parece que o #ficaremcasa não abrange alunos a quem o Estado se esqueceu de arranjar computador para estarem em casa.

O Isidoro é um belo exemplar com uns 13 anos de bons e efetivos serviços. Intel inside, etc e tal e não entremos em intimidades das suas entranhas que ele é velhote e tem pudor que se revelem as vergonhas.

O Isidoro está cansado. Corre o Windows 7. A plataforma Teams não pode ser instalada como aplicação e só funciona na versão online.

O Isidoro faz as coisas pausadamente. Hoje, demorou 8 minutos a ligar.

O micro e câmara visível tem de estar fisicamente desligados no arranque, porque de outra forma, não funcionam. Depois de estar no teams é que se pode ligar.

A câmara do Isidoro está com a vista cansada. Numa reunião de hoje, houve colegas que acharam que eu devia não estar muito bem, porque os meus olhos tinham olheiras. Não tenho mais que o costume. Os olhos do Isidoro é que estão cheios de sombras e cataratas.

O Isidoro esforçou-se muito hoje. Tive 2 reuniões. Na primeira, parecia que o micro não funcionava. Fazia barulho e ninguém me percebia.

Desistimos e fui para o chat dizer de minha justiça. Ninguém ligou muito. E por cortesia tentei ajudar os colegas, para acelerar a coisa, ligando pelo meu telemóvel.

Dava o meu recado e despachávamos o assunto. Houve um colega, que não gostou do recado, daqueles que têm muita moralidade para apontar as incoerências dos outros, que me disse que eu tinha dito que só usava o material da escola.

O meu Ex.mo fiscal da coerência tem razão e, por isso, agora vai ser só o Isidoro sem exceções de cortesia e, se avariar ou crashar, vou chamar alguém para arranjar.

Voltei ao chat e a coisa prolongou-se porque o teclado do Isidoro tem teclas que não funcionam.

Na reunião seguinte, uma colega de música explicou que, do outro lado, ouviam sons do micro, mas o problema é que, como estou numa sala vazia, faz tanto eco que não se ouve.

Quase senti que o Isidoro se comoveu por se ver que o problema não era ele.

A meio da reunião, o Isidoro crashou, quando abri, ao mesmo tempo, um site para consultar uma lei.

Tive que desligar e voltar a ligar (o Isidoro foi despachadinho…8 minutos para estar em condições de entrar no Teams).

No chat, o atraso entre escrever e ser lido era um ou dois minutos.

Não correu mal, certo?

Já me estava a afeiçoar ao Isidoro, mas acho que me vou separar dele para a semana. Alguém vai ter de arranjar alternativa. Estão a ver como serão as aulas?

E acho que hoje tê-lo batizado de Isidoro ajudou…

Santo Isidoro de Sevilha é o santo padroeiro da Internet.

Deve ter sido milagre do santo, pelo menos ter parecido que estava nas reuniões.

E não digam mal do Isidoro. Ele esforça-se. Não tem culpa que quem governa não cumpra a lei.

Recusar o “prato de lentilhas”

rui-madeira.jpgEntre recuperação integral ou faseada de tempo de serviço. Rui Madeira, o director da Escola Artística António Arroio, já decidiu: em vez de deitar contas à vida e de calcular qual das opções mais o beneficia – ou menos o prejudica -, abdica do “prato de lentilhas”. Se não lhe devolvem os quase dez anos de tempo de serviço que foram descontados, então prescinde de receber os 2 anos, 9 meses e 18 dias, seja qual for a modalidade de recuperação.

Assinale-se antes de mais a coragem e a coerência: ainda foram muitos os que, no calor da luta pela recuperação integral, anunciaram a sua opção radical pelo tudo ou nada. Mas depois do balde de água fria que foi o chumbo parlamentar da reivindicação dos professores, rapidamente se esqueceram as juras solenes. Raros foram os que se assumiram publicamente dando o dito pelo não dito. Mas quase todos correram para o “simulador do Arlindo” a ver qual das alternativas de recuperação do tempo os prejudicava menos. E lá meteram, sendo caso disso, o devido requerimento…

Não foi o caso do professor Rui Madeira. Em carta aberta dirigida aos responsáveis ministeriais, este colega renuncia à recuperação mitigada de tempo de serviço que lhe querem oferecer. Não quer servir de exemplo para ninguém nem exortar os outros a fazer o mesmo. Mas não se sente bem a seguir o rebanho quando a sua consciência lhe manda tomar um caminho diferente, ainda que sacrificando ganhos materiais.

Postas as coisas desta forma só temos, naturalmente, que respeitar.

Exas.

Venho pela presente e para cumprir a minha não progressão na carreira, requerer que o tempo atribuído aos docentes – por terem sido alvo de quase 10 anos de congelamento da progressão, agora transformado em quase três – não me seja aplicado. É que, aos quase 52 anos de idade e com quase 24 de serviço docente, me encontro no 3º escalão com a possível progressão ao seguinte, em maio de 2021 (sem a aplicação dos tais quase três anos). Habituei-me à ideia e já estou conformado. Na minha casa, em conjunto com a família partilhei que, a bem ver, a austeridade já tinha vindo para ficar. A minha mulher, conhecendo-me bem, nem estranhou. Os filhos e filhas de que temos a graça de sermos pais irão compreender seguramente. E eu, enquanto professor por opção e motivação – a mais bela profissão e atividade do mundo – não poderia deixar que uma mensagem errada passasse na construção das suas personalidades e carácter. Não critico os tantos colegas que procuram qual a melhor forma de não serem mais prejudicados, mas em boa verdade, se for atrás da multidão, pouco terei a ensinar aos miúdos. Nas nossas experiências e vivências, através do que decidimos e assumimos, é aí que deixamos o nosso testemunho de cidadania, de ética, de valores e de liberdade.

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Divulgação: Tomada de posição dos professores nas reuniões de avaliação

professoresA proposta da Fenprof parece-me ser oportuna e fazer todo o sentido: nos primeiros conselhos de turma que se realizam em subordinação às regras do Código do Procedimento Administrativo, os professores devem registar o seu protesto por esta subversão dos critérios pedagógicos, e não meramente administrativos, que deveriam nortear as reuniões dedicadas à avaliação dos alunos.

Tomada de posição a incluir nas atas das reuniões de Conselhos de Turma de Avaliação

Vão começar as reuniões de Conselho de Turma de avaliação de final do 1.º período. VAMOS APROVEITAR PARA TOMAR POSIÇÃO, EM NOME DA QUALIDADE DE ENSINO E DE UMA AVALIAÇÃO JUSTA! 

NA SEQUÊNCIA DA ALTERAÇÃO LEGISLATIVA IMPOSTA AO FUNCIONAMENTO DOS CONSELHOS DE TURMA DE AVALIAÇÃO, A FENPROF APELA AOS PROFESSORES QUE DEIXEM EM ATA A SUA OPOSIÇÃO A ESSA DECISÃO.

POSSÍVEL TOMADA DE POSIÇÃO: 

Sendo esta reunião a primeira que se realiza após a alteração do regime de funcionamento dos conselhos de turma de avaliação, sujeitando-os às regras de quórum previstas no Código do Procedimento Administrativo (Portarias 223-A/2018 e 226-A/2018, de 3 e 7 de agosto, respetivamente), os professores presentes entendem deixar expresso o seu repúdio pela referida alteração, por considerarem que a mesma desvirtua a natureza pedagógica da avaliação. A revogação de uma tal decisão assume-se, assim, como essencial, não apenas por respeito pela profissionalidade docente, mas também para que os interesses dos alunos possam ser devidamente salvaguardados.

Uma recusa exemplar

ZecaAfonso_4_blg.jpgJá sabíamos que José Afonso foi um exemplo raro de integridade e coerência, não só na pura genialidade das suas músicas mas também na intervenção cultural e cívica antes e depois do 25 de Abril. Um homem que, cantando como mais ninguém a liberdade e a democracia, mas também o amor ou as coisas simples da vida, encarnou as aspirações e lutas do seu povo. Que nunca se enfeudou a facções ou a partidos e sempre recusou atenções e honrarias de todos os poderes.

Ontem ficámos também a saber que a família do cantor, recusando a transladação dos seus restos mortais para o Panteão – uma homenagem pífia que o próprio Zeca rejeitaria em vida – defendeu dignamente a memória do maior dos cantautores da música popular portuguesa.

E acrescentou a única coisa relevante que deve ser dita a este respeito: se o Estado e a Sociedade Portuguesa de Autores, que fez a proposta, querem preservar e divulgar o legado de José Afonso, então que comecem por garantir a recuperação e preservação das gravações originais.

“José Afonso rejeitou em vida as condecorações oficiais que lhe haviam sido propostas. Foi, a seu pedido, enterrado em campa rasa e sem cerimónias oficiais, em total coerência com a sua vida e pensamento. Por isso, apesar da meritória intenção que inspira a proposta, é a sua vontade que deve ser respeitada” refere uma nota divulgada pela família do criador de “Grândola, Vila Morena”.

Em maio de 1983, o músico foi homenageado pelo município de Coimbra, tendo recebido a Medalha de Ouro da cidade. Na ocasião o então presidente da câmara, Mendes Silva, agradeceu a José Afonso a quem se dirigiu tendo afirmado: “Volta sempre, a casa é tua”. O compositor retorquiu: “Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem”.

Também nesse ano, o então Presidente da República, António Ramalho Eanes, atribuiu a José Afonso a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusou-se a preencher o formulário.

Em 1994, o Presidente da República, Mário Soares, tentou condecorar postumamente José Afonso com a Ordem da Liberdade, mas Zélia Afonso recusou, alegando que o músico não desejou a distinção em vida e também não seria condecorado após a sua morte.

Gurus e líderes educativos…

indisciplina…direitinhos às escolas de meios desfavorecidos!

É um abaixo-assinado que começou a correr em Espanha, onde a praga dos teóricos da educação também tem feito estragos e criado anticorpos entre os professores no terreno. De facto, não é a mesma coisa desenvolver belas teorias educativas para o século XXI em meios universitários e testá-las em escolas seleccionadas, com turmas escolhidas a dedo, fazendo uso de recursos que não são disponibilizados à generalidade dos professores, ou ter de o fazer em escolas problemáticas. Por isso, a proposta parece-me honesta: saiam da zona de conforto e experimentem nas condições mais difíceis e nas escolas mais complicadas. Se aí resultar, funcionará em qualquer lado…

Gurus e influenciadores educativos vinculados a interesses do poder económico, político e social que ignoram os factores relacionados com as consequências devastadoras de políticas educativas corrosivas e da pobreza sobre o insucesso escolar, deveriam ir direitinhos a escolas de meios e comunidades desfavorecidas, para demonstrar que os seus métodos estandardizados não funcionam só em escolas de famílias de classe média-alta ou com alunos universitários.

Leituras: António Sérgio – Educação Republicana

antonio-sergio.JPGQue se deve entender por democratização ou republicanização do ensino? É ter escolas onde se pregue a democracia e a república?

Não: é ter escolas onde se adquiram aqueles hábitos, aquelas maneiras de proceder, que devem caracterizar o cidadão republicano.

A pregação de doutrinas políticas, sociais ou religiosas, feita pelos mestres à mocidade, é muitas vezes contrapro­ducente; a melhor mocidade, a de espírito mais vivo, tem tendência a opor-se ao que lhe pregam os seus mestres; saíram muitos ateus do colégio religioso de Campolide; nas escolas da Monarquia surgiu a mocidade republicana; das escolas da República não deixam de ir saindo, agora; muitos jovens que são monárquicos. – Que significa tudo isto? – Significa que o que importa, neste caso, não é pregar a Democracia dentro das aulas da escola pública: o que importa, sobretudo, é fazer da própria escola, do conjunto dos estudantes, uma sociedade democrática.

É isto o que tenho pregado, e o que expus há muitos anos, numa série de estudos sobre a educação cívica, mos­trando como os alunos de uma escola se podem organizar sob a forma de democracia, elegendo os seus magistrados, desde o presidente da República até aos vereadores e aos juízes, e habituando-se assim a proceder republicanamente. Seria isto, senhores, a democratização da mocidade, não por palavras, mas por actos.

Democratizar a escola é, além disso, desvanecer o mais possível a velha distinção das classes liberais e das classes mecânicas, obrigando os futuros cidadãos, a qualquer classe que eles pertençam, ao trabalho manual na escola; dando carácter e base científica e portanto liberal, aos trabalhos mecânicos; colocando nas mesmas escolas, em comunidade de trabalho, os filhos do povo e os da burguesia; e organi­zando os grupos de alunos em corporações profissionais.

Democratizar a escola é ainda dificultar o acesso das altas carreiras universitárias aos filhos dos ricos que não têm capacidade para os mais difíceis trabalhos de ciência e da literatura; e, pelo contrário, facilitar esse acesso aos filhos dos pobres que nasceram com talento.

António Sérgio, excerto de um discurso proferido a 31/01/1924.

Coerência ministerial, precisa-se

Ao longo dos últimos 25 anos tivemos vagas sucessivas de retórica e legislação anti-insucesso com as mais variadas legitimações: ou porque é pedagogicamente infrutífero reter os alunos, ou porque isso lhes abala a autoestima, ou porque é uma “chaga social” ou, de forma mais pragmática, porque “é caro”. Sejam coerentes de uma vez por todas e restrinjam a possibilidade de reter os alunos a casos ultraexcecionais de falta de assiduidade, assumindo que todos (ou quase) devem passar de forma independente do seu desempenho, recebendo no final do ensino básico um certificado com as suas classificações, sejam quais forem. Abandonem de vez a noção de “positiva” e “negativa”, até porque a escala de 1 a 5 é toda positiva do ponto de vista matemático. E assim deixaríamos de comentar a transição de alunos com seis ou oito “negativas”. O aluno passou de ano com média de 1,5 ou 3,7 ou 4,8. E acaba-se de vez com o insucesso. Isso sim, consideraria coerente e pouparia imenso em “formação” e conversa fiada por todo esse país, a massacrar pela enésima vez os professores, tentando fazê-los sentir-se “inflexíveis” e culpados pelos males alheios.

Subscrevo a proposta do Paulo Guinote.estatistica

Não me parece aceitável que governantes e comissários políticos do ME critiquem reiteradamente a existência de retenções, nas quais não encontram um único aspecto positivo, e não tomem depois a única medida que seria coerente com tantas certezas e tão fortes convicções: estender aos restantes anos não terminais de ciclo o regime de transição automática que já há muitos anos vigora na passagem do 1º para o 2º ano de escolaridade.

Aliás, a transição nos anos iniciais ou intermédios de ciclo já é praticada nalgumas escolas independentemente do número de “negativas”, sendo esta uma decisão pedagógica que há muito está confiada às escolas e agrupamentos. Tratar-se-ia apenas de generalizar uma “boa prática” que não tem merecido reparos de sucessivos governos e administrações educativas.

Claro que o facilitismo nas passagens de ano envolve o risco de os alunos chegarem ao final do ciclo com graves lacunas nos conhecimentos e competências adquiridos. Uma preocupação antiga dos professores, mas que segundo a boa ciência educativa do ministério não nos deve perturbar, pois sempre se arranjam “estudos”, com estatísticas e tudo, que demonstram que o aluno que passa de ano sem saber fica sempre a ganhar em relação a outro, igualmente ignorante, que foi “deixado para trás”.

Sendo a redução das retenções a valores residuais um amplo desígnio da Educação Nacional, que mobiliza sucessivos governos, reúne o pleno nas votações do Conselho Nacional de Educação, encontra apoios tanto nos estudos e nas teorias académicas das ESEs, do ISCTE e da OCDE, como nos meios mais liberais e/ou conservadores da Católica e das fundações merceeiras do regime, pergunta-se: o que os impede de imporem a sua vontade, como fazem em tantas outras decisões, aos “retrógrados” professores?

Porque insistem em alimentar a ficção dos “professores avessos à mudança”, quando a mudança que pretendem está ao alcance de um mero decreto governamental?

Duvidam assim tanto das certezas com que nos querem convencer, ou trata-se apenas de falta de coragem política em tomar uma decisão cuja responsabilidade lhes ficará para sempre associada?

Quão mais fácil é culpar os professores por condenarem os seus alunos ao insucesso…

Professorzecos para sempre

pg-verdeEm tempo de Carnaval, Paulo Guinote faz, na primeira pessoa, algumas reflexões muito interessantes sobre os rumos da política educativa, os consensos do regime em torno da educação e a sua própria acção enquanto blogger de referência da chamada blogosfera docente.

Acompanhei as intervenções públicas do Paulo a partir de 2008 e das grandes contestações e movimentações de professores que atingiram o auge nessa altura. Acho que, colectivamente, muito devem os professores portugueses à sua iniciativa, argúcia, capacidade de trabalho, perseverança, dinamismo. E se ao longo destes anos nem sempre estive de acordo com as suas posições, não poderia concordar mais com isto que ontem escreveu:

É essencial que tenhamos sempre a lucidez suficiente para percebermos quando a nossa presença se torna apenas uma forma de legitimação do contrário do que desejamos. Se a decisão de terminar o Umbigo fora tomada há muito e apenas esperava uma data específica, houve momentos que avolumaram a minha consciência de que em Educação existem trincheiras fechadas nas suas convicções, que é impossível desalojar, embora exista um “amplo consenso” em relação a questões que me desgostam profundamente.

Paulo Guinote passa em revista alguns episódios passados, revelando-nos por exemplo que colaborou informalmente com um grupo de trabalho destinado a aconselhar Nuno Crato, até se aperceber que as propostas a apresentar estavam condicionadas pelo que a equipa governativa queria de facto ouvir e pelo que não pretendia que lhe dissessem.

Relembra tentativas quase pidescas do governo PSD/CDS quando, com as costas quentes pela presença da troika e pela imposição da austeridade à força toda, pretendeu condicionar o debate político e a comunicação social de uma forma até então raramente vista. Ou melhor, que terá tido algumas semelhanças com alguns episódios dos tempos áureos do socratismo.

E recorda o embuste que foi um seminário recente do CNE sobre a municipalização da educação, onde as vozes críticas e discordantes, entre elas a de Paulo Guinote, foram notoriamente abafadas.

Nada disto é novo, e basicamente pode reduzir-se ao seguinte: não se reconhece aos professores dos ensinos básico e secundário a qualidade de interlocutores dos poderes públicos na definição das políticas educativas. Os governantes dialogam com autarcas ou donos de colégios, convidam professores universitários e “cientistas da educação” para comissões, conselhos e grupos de trabalho, ouvem directores de escolas e associações de pais. Mas tentam reduzir ao máximo a intervenção dos sindicatos representativos dos professores, reservando-a à discussão de matérias especificamente laborais, como carreiras, concursos, salários.

Ocasionalmente, quando algum professor alcança notoriedade pública, pode até ser convidado para os círculos de aconselhamento ou de influência em torno do poder político. Mas o que se espera não é que o professor dessa forma promovido para enfeitar o ramalhete faça valer a sua própria voz ou defenda as suas ideias e convicções. Muito menos que se assuma como arauto ou representante da classe profissional a que pertence.

Do professor a quem é dada a honra de chegar perto dos círculos ministeriais o que se espera é que se sinta honrado pela distinção e faça o mesmo que muitos outros que prosseguiram a carreira na “5 de Outubro“, na “24 de Julho” ou noutra qualquer dependência ou adjacência do ministério ou das suas (in)d(i)gest(as) delegações: que cumpra o que lhe dizem e faça por agradar, para não ser recambiado de novo para as salas de aula. Confirmam o que digo, também, os valentes e coerentes deputados ex-professores que, ao longo de sucessivas legislaturas, votaram contra os interesses da sua própria classe profissional.

 

Sem perguntas não há notícia

O boicote a conferências de imprensa onde os jornalistas não tenham direito a fazer perguntas e às entidades que façam blackout aos órgãos de comunicação social foi uma das propostas que mereceu luz-verde dos jornalistas presentes, com direito a aplauso depois de anunciada a aprovação pela maioria.

Congratulo-me por esta decisão tomada no 4º Congresso dos Jornalistas ter sido levada a sério pelo menos por um jornal português.

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O Jornal de Barcelos deixou em branco o espaço que tinha destinado à cobertura de uma conferência de imprensa do PS local quando, depois de ter enviado ao local os seus repórteres, estes foram confrontados com uma declaração sem direito a perguntas.

A função do jornalista não é ser pé de microfone, embora alguns profissionais se tendam a prestar, com demasiada facilidade, a esse papel. Faz-se, isso sim, questionando as “fontes” e procurando o contraditório. E é para isso que servem as conferências de imprensa, pois para dar a conhecer um texto bastaria enviá-lo directamente para as direcções dos jornais.

Esperemos agora que o exemplo frutifique e que outros órgãos de comunicação, incluindo aqueles que se consideram “de referência” no jornalismo português, tenham a coragem de tomar idêntica atitude sempre que forem condicionados no direito e no dever de informar o público.

O Orçamento de Estado do PSD

Como (não) seria o Orçamento de Estado, se o PSD mandasse?

Fica o quadro-síntese que corre pelas redes sociais, para memória futura.

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