Músicas de Carnaval: Susana Félix feat. Zeca Pagodinho e Emicida – Samba da Matrafona

Os Painéis de Santa Matrafona

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A celebração carnavalesca do Antero Valério

Um Carnaval imbecil

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Depois das blackfaces do ano passado, no Carnaval de Matosinhos, e de toda a polémica que então se gerou, eis que este ano, no sul do país, se volta ao mesmo: em Tavira, adultos insensatos e irresponsáveis divertiram-se a pintar de preto o rosto de crianças e a fazê-las desfilar mascaradas de escravos. Não faltaram as cordas a prendê-las umas às outras, nem o pormenor das bonecas às costas das meninas, como se fossem os seus bebés, também escravizados.

E interrogo-me, como alguém questionava no Twitter, se entre as crianças participantes houvesse alguma de pele negra será que lhe diriam: tu já estás, não precisas?…

Será assim tão difícil perceber que há um histórico de racismo e colonialismo na história e na sociedade portuguesa que desaconselha estas brincadeiras sem graça nenhuma? A sério que alguém acha que se aprende ou vivencia a História, como também já li, desta maneira? Não se percebe que, ainda que alguém ache graça a ver os miúdos fazer aquela triste figura, saber-se que este tipo de representações são consideradas ofensivas pelas comunidades afrodescendentes deveria ser suficiente para se absterem de as promover?

Admito que haja entre os organizadores deste espectáculo deprimente quem queira nota excelente na organização de festejos escolares. Mas não me parece que deva valer tudo, a começar pela falta de sensibilidade e de bom senso.

Greve no Carnaval?

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A Fenprof marcou greve para 24 e 26 de Fevereiro, dias em que não há aulas? Estarão bons da cabeça? – perguntam alguns professores.

A verdade é que o pré-aviso para estes dias faz todo o sentido. Na realidade, não se trata propriamente de marcar uma nova greve para esses dias, mas sim de prolongar, durante a pausa lectiva, uma luta que vem desde o início do ano.

Ou ainda não tinham dado conta de que está convocada greve ao sobretrabalho, ou seja, a todas as tarefas não lectivas que as escolas tentem impor aos professores para além do seu horário de trabalho?

É precisamente para prevenir a possibilidade de alguns directores aproveitarem a pausa do Carnaval para marcar uma maratona de reuniões, que a Fenprof decidiu estender o pré-aviso àqueles dias.

Como é evidente, não se está à espera que a esmagadora maioria dos professores, que não têm serviço marcado, faça greve. Aplica-se aqui, com inteira propriedade, um velho princípio do sindicalismo, que diz que a melhor greve é a que não tem de se fazer. Sinal de que o objectivo – neste caso, evitar a marcação de reuniões em tempo de interrupção lectiva – foi alcançado sem necessidade de a concretizar.

O pré-aviso de greve no Carnaval garante aos professores deslocados da residência que poderão aproveitar estes dias para estar com a família. E assegura, a quem tem outros  planos para esses dias, que não se verá obrigado a passar o dia na escola em reuniões.

Etnia não é fantasia de Carnaval

cristiana-xia-wu.pngFoi há dias noticiada e comentada a celebração carnavalesca da “raça africana” promovida por uma escola de Matosinhos. Mas não foi caso único. No Marco de Canavezes, acha-se natural fantasiar as crianças como chineses “de olhos em bico”.

Estas iniciativas, encaradas com a ligeireza do “é Carnaval, ninguém leva a mal”, são mesmo assim reveladoras de um certo tipo de racismo há muito naturalizado entre nós e tão interiorizado que a maioria das pessoas nem dá conta da sua existência. Mas existe, e as pessoas que são alvo destes estereótipos discriminatórios e preconceituosos sentem-no facilmente. A palavra a Cristiana Xia Wu, uma jovem inteligente e sensível que nos explica claramente o que tantos têm dificuldade em entender:

Era uma noite banal, estava no meu telemóvel e apareceram no Twitter umas fotos de um desfile de Carnaval, cujas pessoas estavam aparentemente vestidas de “chineses”. À primeira vista, nem sequer tinha reparado nesse aspecto, mas foi depois de ler as mensagens dos cartazes nas mãos das pessoas que me apercebi do que é que se tratava. “Socorro! Quero sair desta invasão!”, “Os chineses são espertos, apesar de terem olhos em bico”, diziam. A minha primeira reacção foi de choque. Sei que estes preconceitos existem, mas a manifestação dos mesmos foi tão directa que tive de pensar por uns momentos para processar o que li. As pessoas bem dizem que “é Carnaval, ninguém leva a mal”, mas essa frase nem passou pela minha cabeça. Como é que não poderia levar a mal quando essas mensagens têm um impacto nas pessoas com origem chinesa?

Senti-me desconfortável. As tais fotografias levaram-me ao passado, aos tempos em que não sabia como reagir quando as pessoas gozavam com a minha aparência ou quando elas faziam comentários negativos em relação a nós. Desde pequena, formei uma barreira de defesa em relação a essas atitudes preconceituosas e passei simplesmente a ignorar cada vez que ouvia palavras ignorantes. Não valia a pena ficar triste e perder tempo a pensar nessas coisas — era assim que pensava quando era apenas uma criança.

Porém, naquela noite não consegui ficar indiferente. Simplesmente não podia. Desde que comecei a estudar no Reino Unido, e tendo conhecimento das experiências da minha irmã que estuda nos Estados Unidos, apercebi-me que Portugal tem um problema muito sério em relação ao racismo. O racismo está tão interiorizado que actos que deviam ser considerados como sendo tal, não são. Tudo é considerado uma pura brincadeira. Só porque não expressamos o nosso descontentamento, não significa que aceitamos tais atitudes. Aliás, a maior parte das pessoas não aceita que está a ser racista porque não estão conscientes. Há uma falta de espaço na sociedade para aceitar acusações de racismo quando as mesmas acontecem. Além disso, onde é que está o nosso direito de nos sentirmos ofendidos?

Quando se analisa o racismo, mesmo na versão branda e dissimulada que é a mais habitual entre nós, tende a ver-se apenas os danos que ele causa àqueles que toma como alvo. Mas talvez ganhássemos em perceber que a atitude discriminatória, ainda que condescendente, em relação ao Outro, também diminui quem a pratica. E empobrece-nos a todos enquanto sociedade. Uma vez mais, são sábias as palavras da jovem luso-chinesa que venho citando…

…simplesmente, quero chamar a atenção das consequências desse tipo de desfile. Pensem no tipo de cidadãos que querem formar. Pensem na possibilidade de formar pessoas com uma mente aberta, livre de preconceitos. Pensem na possibilidade de uma sociedade portuguesa diversa e rica culturalmente. Ninguém gosta de pessoas intolerantes, certo?

E eu pensarei nas crianças chinesas que nasceram cá em Portugal e que viram esse espectáculo, tentando encontrar a melhor solução para que elas não se sintam desconfortáveis nas suas peles, porque não há nada de errado em ter origem chinesa. Não devemos sentir que temos de negar uma parte da nossa identidade para nos sentirmos mais aceites pela maioria. Podemos ser perfeitamente ambos — portugueses e chineses, tendo orgulho em ambas as culturas.

No Carnaval também se leva a mal

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O tema é polémico. Uma escola básica de Matosinhos decidiu aproveitar a quadra carnavalesca para celebrar “as raças”.  A diversidade cultural, quereriam eles dizer. Mas saiu aquela expressão infeliz. E a partir daí, não se encontrou melhor forma de concretizar o objectivo do que pedir a miúdos e graúdos que fossem mascarados de “africanos”. Incluindo, na fantasia, pintar a cara de preto.

Acredito que a intenção fosse boa. Mas o chamado blackface, que ocorre quando um branco se fantasia de negro, recorrendo a estereótipos associados a culturas e etnias africanas – a pele pintada de preto, a carapinha, os trajes garridos – é historicamente considerado uma manifestação de racismo. E a iniciativa gerou polémica nas redes sociais…

Fora do desfile, alunos e alguns adultos posaram para a fotografia. O momento foi partilhado na mesma rede social onde tinha feito o anúncio. Cara pintada de negro, perucas fartas e encaracoladas, trajes coloridos e tribais, saias de palha, colares de missangas e argolas no nariz, há um grupo de adultos que posa para a posteridade com sorriso largo. O mesmo acontece numa foto de grupo com os alunos. O objectivo, diziam, era promover a diversidade.

Mas há quem ache precisamente o contrário e o acontecimento não passou em claro na página de Facebook de um movimento que denuncia casos de Blackface em Portugal. A celeuma subiu de tom a associação de pais acabou mesmo por remover a publicação original.

Face a este imbróglio, a Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Básica do Godinho lançou um comunicado. Diz a nota publicada no Facebook que no desfile estavam presentes outras escolas do Agrupamento de Escolas de Matosinhos (AEM), que, “juntamente com os professores das escolas”, escolheram para este desfile o tema Culturas do Mundo. Na sequência desta decisão ficou decidido que a EB do Godinho representaria o continente africano. Entre outras, “foram representadas várias culturas”, como a brasileira e a chinesa. O propósito, lê-se, seria “celebrar a diversidade cultural”.

Para isso, “nas semanas anteriores” ao desfile, o tema foi levado para a sala de aula para que os alunos pudessem conhecer a “riqueza cultural de cada povo”.

Lê-se no comunicado que “as vestes usadas tentaram representar a riqueza da sua cultura, com os tecidos tradicionais africanos”. A AP lamenta que esta abordagem “tenha sido interpretada como Blackface”, sublinhando que não foi essa a intenção, “nem nunca esteve subjacente qualquer comentário racista”.

Enquanto a ideia de escola de sucesso continuar conotada com a necessidade de promover sempre novas actividades, cada vez mais originais e criativas, há sempre o risco de se embarcar em iniciativas insensatas, de que posteriormente nos vimos a arrepender. Tentarem celebrar o multiculturalismo e acabarem acusados de racistas não estaria certamente nas expectativas dos organizadores. O que sugere que talvez uma escola mais crítica e reflexiva e menos folclórica possa constituir uma mais-valia para todos. Como se vê, os conhecimentos que permitem compreender e enquadrar as realidades históricas e culturais não são substituíveis por competências na área da caracterização e da maquilhagem…

Quanto à dita diversidade cultural, penso que passará mais por uma verdadeira integração dos descendentes de caboverdianos, angolanos, guineenses, brasileiros, chineses e europeus de diversas origens que temos entre nós, de forma a que possam estar presentes em todas as escolas, e não apenas nas que servem os guetos em que se tendem a tornar algumas comunidades. Esse é o verdadeiro multiculturalismo, que não exclui ninguém e deixa espaço à afirmação e à convivência das diferentes culturas. Em que ninguém precisa de se disfarçar de caricatura do outro, tentando ser aquilo que não é…

Uma farsa carnavalesca

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A reunião de ontem, entre o ME e os sindicatos valeu o mesmo que todas as outras: foi tempo perdido, com o ME a insistir na aceitação da perda de seis anos e meio de serviço como condição para a negociação da recuperação do resto. Uma proposta que os sindicatos, obviamente, não podem aceitar. A única diferença é que, desta vez, a farsa negocial parece ter decorrido no tempo mais apropriado…

“Esta reunião não foi diferente de todas as outras reuniões ditas negociais no Ministério da Educação e com o governo”, resumiu Nogueira aos jornalistas, no final do encontro que durou cerca de uma hora. “A única diferença que acho que esta reunião teve para as outras foi ter-se realizado na época adequada. Ou seja: diria que esta reunião está para a negociação como os três dias de Carnaval estão para a vida do resto dos portugueses. Foi uma farsa carnavalesca aquilo que se passou Mas isso é o que se tem passado nestas reuniões.

No que respeita à reunião de hoje, que começou por volta das 16.30, Nogueira disse que o governo a iniciou explicando que estava lá para discutir a proposta que apresentou – Dois anos, nove meses e dezoito dias de tempo devolvido – ” não a dos professores”, pelo que o encontro “até foi curto”, levando um pouco mais apenas porque “cada organização sindical” – e estiveram presentes cerca de dez – “fez uma declaração para a ata” manifestando o seu “repúdio” pela forma como este tema foi gerido pelo governo de António Costa.

Excluídas todas as hipóteses de um diálogo construtivo com o Governo, a plataforma sindical aposta agora no Parlamento: através da apreciação parlamentar do decreto que o Governo vier a publicar ou mesmo por meio de iniciativas legislativas dos próprios grupos parlamentares, o objectivo é que seja legalmente consagrado o princípio da recuperação integral do tempo de serviço dos professores. Os contactos com os deputados iniciar-se-ão já na próxima quinta-feira.

Neste contexto – os sindicatos não o dizem, mas não é difícil percebê-lo – a iniciativa legislativa no mesmo sentido, subscrita por mais de 20 mil cidadãos, ganha uma nova actualidade, no contexto do debate parlamentar que se avizinha.

Quanto ao Governo, continua a tentar convencer-nos de que “fez um esforço” e a engatilhar o velho discurso do passismo, o da falta de dinheiro. E a atirar para o ar os números, nunca fundamentados, do custo da recuperação integral do tempo trabalhado pelos professores.

Outros Carnavais

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Lisboa, Carnaval de 1927. Imagem daqui.

Carnaval

Uma longa tradição em muitas terras portuguesas, como a gravura de Rafael Bordalo Pinheiro, alusiva ao Carnaval de Torres Vedras, e datada de 1903, documenta.

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Não sendo propriamente um fã de carnavais, nada tenho contra quem se diverte. Antes pelo contrário, gosto de ver gente feliz e não acho que os caminhos para a felicidade tenham de ser os mesmos para toda a gente.

Por isso sempre me fez imensa confusão a embirração do PSD cavaquista em relação ao Carnaval e às suas tolerâncias de ponto. Será que acreditaram que conseguiriam suprimir, com um simples decreto, uma tradição centenária?

Músicas de Carnaval: David Garrett – Carnaval de Veneza