Bullying numa escola de Coimbra

bullying.PNGUm caso de bullying está a ser investigado na Escola E.B. 2.3 Rainha Santa Isabel, em Coimbra, após denúncia da mãe de aluno nas redes sociais.

A mãe da vítima partilhou o vídeo da agressão nas redes sociais, indicando que o filho sofre “bullying” e tem medo de ir à escola.

“Por causa de uma participação da escola tirei-lhe o telefone e lembrei-me de ver o que tinha. Vi que uma colega lhe tinha enviado aquele vídeo”, conta ao JN a mãe do jovem de 12 anos, Daniela Simões.

A mãe apresentou o vídeo à direção e já se deslocou à PSP, que já esteve no estabelecimento de ensino.

Segundo Daniela Simões, o seu filho na passada sexta-feira não quis ir à escola, porque “havia um menino que lhe queria bater. Fui levá-lo e buscá-lo ao portão”, explica.

Ao JN, o diretor da E. B. 2.3 Rainha Santa Isabel, Nuno Dias, confirma a situação, completando que já foi aberto um processo de averiguações interno. “Sublinho que foi uma situação pontual, que está a seguir os trâmites normais”, afirma.

Há razões para desconfiar, antes de mais, que este seja um caso pontual. Trata-se de uma escola TEIP que serve quase toda a parte norte do concelho de Coimbra, que aumentou a frequência escolar em resultado do fim de alguns contratos de associação e que nem sempre tem sido notícia pelos melhores motivos.

Em segundo lugar, há fundadas dúvidas de que tudo esteja a ser feito para prevenir e tratar adequadamente esta e outras situações semelhantes. A mãe do aluno acusa a escola de passividade e quer, compreensivelmente, retirar o filho de uma escola que parece incapaz de garantir a sua segurança.

Daniela, a mãe, confirmou ao Notícias ao Minuto que já fez queixa tanto na escola como junto das autoridades, mas optou, ainda assim, por partilhar as imagens para combater aquilo que acredita ser a passividade da instituição escolar.

“A escola diz que vai resolver mas não resolvem nada porque tentam sempre abafar as coisas. Já houve outros meninos agredidos e até hoje não conseguiram resolver”, afirmou Daniela.

A progenitora explicou que a agressão teve lugar no dia 19 de setembro mas que só teve conhecimento no dia 25, altura em que descobriu o vídeo no telemóvel do filho. “O meu filho diz que o vídeo foi partilhado nas redes sociais muito antes de eu saber, mas só que apagaram”, acrescentou.

Daniela que vai “lutar” por este caso até às últimas consequências, e que o menino vai mudar de escola “em breve”.

Finalmente, servem de muito pouco proclamações eleitoralistas de combate sem tréguas ao bullying quando na prática se continuam a desvalorizar e a esconder os problemas, esperando que estes se resolvam por si. E a menosprezar os traumas físicos e psicológicos que as agressões e humilhações podem provocar às vítimas.

Obviamente, do que as escolas precisam não é de mais burocracia em torno do bullying, mas que a segurança escolar seja levada mais a sério . É preciso criar uma ambiente escolar seguro para toda a comunidade escolar, prevenindo a ocorrência de actos violentos e intimidatórios e agindo pronta e eficazmente caso, ainda assim, estas situações se venham a verificar. Necessitamos de direcções escolares atentas ao que se passa nas suas escolas e actuantes, sempre que necessário, em defesa das vítimas e  na punição dos agressores.

Seguindo este link é possível ver, se não tiver sido entretanto retirado, o vídeo que testemunha as agressões. A sua publicação foi uma decisão polémica da mãe do aluno, que recorreu às redes sociais para que o caso não caísse rapidamente na indiferença e no esquecimento. E que não reproduzo aqui porque, cumprido o dever de denúncia, não quero contribuir para aumentar a exposição pública de uma criança naturalmente fragilizada.

Pela minha parte, lamento profundamente que seja preciso agir desta forma, expondo crianças inocentes à gula mediática, para dar visibilidade às ocorrências. Mas está visto que parece ser a única forma de obrigar os responsáveis escolares a admitir os problemas que grassam pelas suas escolas. E a assumir, ainda que a contragosto, as suas responsabilidades.

Combate ao bullying ou demagogia?

no-bullyingO Ministério da Educação quer tolerância zero em relação aos atos de bullying e vai lançar um plano de combate com o objetivo último de o “erradicar” das escolas. O plano e a campanha associada, com o lema “Escola sem bullying. Escola sem violência” preveem um conjunto de medidas que ajudam a identificar sinais de alerta, orientam professores e escolas e levam a intervenções mais eficazes.

Um dos aspetos contemplados no plano passa por uma mudança na forma como o problema é assumido dentro das escolas. O Ministério lembra que o bullying tem de ser tratado como uma situação de “violência em meio escolar” e criou para esse efeito um novo campo no sistema de informação de segurança escolar, a plataforma usada pelos diretores para reportarem à tutela ocorrências que acontecem no interior dos estabelecimentos de ensino.

Tal como já têm de comunicar a ameaça ao professor, a agressão ao funcionário, ou o roubo do telemóvel, devem também reportar casos de bullying e cyberbullying. “Desta forma contorna-se o facto de estes casos não serem considerados uma tipologia de crime”, diz o Ministério.

Como professor, apoio naturalmente e sem reservas todas as medidas que permitam detectar, denunciar e combater o bullying nas escolas. Mas esta iniciativa do ME, anunciada em final de mandato e vésperas de campanha eleitoral, assume contornos de um lastimável exercício de hipocrisia política.

A verdade é que, ao longo de quatro anos de mandato, nunca vimos a segurança escolar na lista de prioridades deste ministério. Nem sequer ser assumida como uma preocupação dos governantes do sector, mais interessados na inclusão a qualquer preço de todos os alunos – mesmo daqueles que se dedicam a tornar tóxico e conflituoso o ambiente escolar – do que em promover uma cultura de respeito, tolerância e segurança nos espaços escolares.

E quem tiver dúvidas quanto ao que acabei de escrever, procure lembrar-se de quantas vezes viu os responsáveis políticos pronunciarem-se publicamente perante situações de violência escolar ocorridas durante o seu mandato. Quantas situações de agressão e violência contra alunos e professores – que foram sendo noticiadas com regularidade pela comunicação social – mereceram a intervenção do ministro ou dos secretários de Estado, quanto mais não fosse condenando os actos e solidarizando-se com as vítimas?

Ora é este governo, que pouco ou nada vez para combater o bullying, a indisciplina e outras situações de violência e assédio em meio escolar, que quer agora erradicar os bullies. E como o faz? Com uma inconsequente e vergonhosa acção de propaganda, tentando passar para a opinião pública a ideia de que está a resolver um problema que fez por ignorar ao longo de quatro anos de mandato.

Ainda assim, dirão os mais optimistas, a medida é positiva: dará no futuro maior visibilidade e atenção ao bullying, permitindo combatê-lo mais eficazmente. Contudo, para que isso sucedesse, seria necessário eliminar a perversidade instalada no sistema. A verdade é que os directores que mais ocorrências comunicam acabam por inflacionar os números que apontam as suas escolas como inseguras e violentas. O que se reflecte negativamente tanto na avaliação dos estabelecimentos de ensino como na procura dos mesmos pelos alunos e encarregados de educação.

Como os próprios directores admitiam recentemente, apesar de a plataforma permitir a inserção de todo o tipo de ocorrências – incluindo, a partir de agora, os casos de bullying – na prática quase só lá vão parar aquelas que, pela sua natureza, é impossível de esconder: as que terminam com uma queixa na esquadra da polícia ou com a entrada das vítimas na urgência do hospital.

Enquanto assim for, temo que o bullying continue a receber, em muitas escolas, o mesmo tratamento que é dado à pequena e média indisciplina: uma displicente varredela para debaixo do tapete…

Menos bullying nas escolas…

bullying[1]…ou apenas menos casos reportados?

O bullying nas escolas portuguesas do ensino básico desceu para metade em cinco anos. Apenas 7,3% das escolas reportaram a ocorrência de pelo menos um episódio por semana de bullying ou intimidação entre os estudantes, contra uma média de 14% nos 48 países e economias abrangidos pelo inquérito TALIS Teaching and Learning International Survey), divulgado esta quarta-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico(OCDE).

Segundo o relatório, cujas conclusões se baseiam nos relatos de professores e directores das escolas dos diferentes países, os episódios de bullying e intimidação desceram nos últimos cinco anos em vários países. E Portugal destaca-se por apresentar uma das descidas mais expressivas: baixou de 15,3% em 2013 para os 7,3% do ano passado.

A verdade é que, apesar de uma maior consciencialização acerca do bullying e dos comportamentos que lhe estão associados – humilhação, assédio, intimidação, agressão – e de um reforço dos meios ainda insuficientes dos serviços de psicologia, a verdade é que não sabemos até que ponto o menor número de casos reportados traduz o que se passa na realidade.

Há pelo menos três fortes razões para que as direcções escolares não comuniquem superiormente muitos destes casos. Porque os conseguem resolver internamente, pelos seus próprios meios. Porque sabem que o ME nada faz com a informação que lhe é confiada. E porque estão cientes que a divulgação de todos os incidentes de natureza disciplinar coloca em causa tanto a reputação dos directores – vistos como incompetentes que não resolvem os problemas – como das escolas onde se registam as ocorrências – que ganham fama de serem antros de desordem, violência e indisciplina, onde qualquer pai ou mãe deve evitar colocar os filhos.

Fundamental, no combate ao bullying, para além da actuação pronta e eficaz sempre que necessária, continua a ser a prevenção. Mantendo um olhar atento sobre as crianças e jovens que diariamente convivem na mesma escola. Promovendo entre eles a sã camaradagem e o respeito mútuo mas também alertando-os e capacitando-os para identificar situações de bullying e, confrontados com elas, agir e, se necessário, denunciar.

Se as zangas, os desentendimentos, as inimizades e as ofensas que vão surgindo entre os miúdos fazem parte, até certo ponto, do processo de socialização, também é verdade que os abusos sistemáticos contra um ou outro colega só ganham terreno graças à cumplicidade ou à indiferença da maioria perante os agressores. É esta realidade que é preciso combater em todas as frentes, sem esquecer a mais recente dimensão do ciberbullying, que ganha terreno à medida que as novas tecnologias de comunicação se tornam omnipresentes na vida dos mais novos.

Bullying, a última fronteira

Girl-Bullying.jpgUma aluna do quinto ano da Escola Básica (EB) de Vila Verde teve de receber tratamento hospitalar depois de, segundo a mãe, ter sido vítima “mais do que uma vez” de bullying por parte de outros alunos.

Tudo começou porque, explicou a mãe, a criança usa mochila com rodinhas. Foi apresentada queixa na GNR de Vila Verde e a direção da escola iniciou um processo de averiguações.

A menina, de constituição física muito frágil, foi empurrada, quando se encontrava sentada, e agredida por outros jovens no recreio. Aliás, por diversas vezes que já se terá queixado de atos de violência e “gozo” por colegas de turma e alunos de outros anos. […]

Na passada quarta-feira, a menina estaria sentada num banco do recreio e terá sido empurrada por duas colegas, tendo, no final, ficado com a cara inchada e o sobrolho teve de ser suturado.

O caso surpreende sobretudo pela idade da vítima e das suas agressoras. Pois estamos habituados a associar o bullying a adolescentes e os bullies ao sexo masculino. Mas a verdade é que este tipo de comportamentos podem surgir em todas as idades. E continuam a ser uma realidade preocupante nas escolas portuguesas.

Não que seja mais frequente hoje do que há umas décadas atrás. Como sucede com outros fenómenos que antigamente eram ignorados, escondidos e desvalorizados, o que existe actualmente é uma maior consciência da gravidade do bullying e das marcas indeléveis que ele pode deixar nas vítimas, causando-lhes profundo sofrimento e comprometendo o seu desenvolvimento pessoal e social.

Contudo, se temos feito progressos na identificação e na denúncia dos casos se que vão sucedendo, continuamos a falhar num ponto fulcral: o bullying precisa de ser prevenido nos ambientes escolares e, quando se manifesta, detectado precocemente e combatido logo aos primeiros sinais.

Já há muitos anos que deixou de aceitar os castigos corporais nas escolas. Hoje não se admite, e muito bem, que um professor levante a mão a um aluno ou que o uso da violência seja uma forma de educar, ou sequer de controlar comportamentos disruptivos.

No ambiente familiar a evolução foi mais recente, mas também já não se reconhece, hoje, a legitimidade da “palmada pedagógica” dos pais como método educativo.

Pelo que cumpre perguntar porque é que, se não apanham dos pais, professores ou educadores, algumas crianças têm de se sujeitar a ser agredidas pelos seus companheiros de escola. Quando seremos capazes de banir esta última fronteira do abuso e da violência? E até, indo um pouco mais longe, o que é que leva crianças que não são tratadas dessa forma a desenvolver comportamentos intolerantes e violentos com outros miúdos?…

Claro que a reflexão nos poderia levar a uma interminável discussão sobre a natureza humana, o que não é o objectivo deste post. Será o “homem lobo do homem”, como vaticinava Hobbes, precisando, desde tenra idade, de ser refreado nos seus impulsos agressivos e dominadores? Ou existirá em cada criança o “bom selvagem” descrito por Rousseau?

Qualquer que seja a resposta a estas perguntas ou o posicionamento filosófico de cada um, há um factor que será sempre fundamental: é pela educação que se pode aprender, desde criança, a refrear os comportamentos impulsivos e prejudiciais aos outros e a nós próprios. E é também educando-nos que potenciamos as nossas boas qualidades.

Assim sendo, parece-me que atitudes, valores e cidadanias se devem aprender no concreto, no contexto das relações interpessoais e das diversas actividades escolares. Mais importante do que a “estratégia” ou a “planificação”, é estarmos atentos aos sinais que os miúdos nos dão e entendermos claramente quando e como devemos actuar.

Zelando pelo bem-estar e pela educação das crianças e jovens, não pelo sucesso dos burocratas da OCDE.

O que se passa na escola da Maia?

bullying[1]Os pais e avós dos alunos da Escola EB1/JI do Lidador, na Maia, decidiram criar patrulhas para vigiar o recreio, tendo por finalidade evitar confrontos entre as crianças que estudam naquela unidade de ensino. Os encarregados de educação queixam-se de falta de funcionários para vigiar o período de lazer dos alunos, mas a autarquia – responsável pela escola – fundamenta que as duas funcionárias são “suficientes” para garantir a segurança dos alunos.

Uma escola do 1º ciclo com jardim de infância. Um grupo de alunos mais velhos que aterroriza e agride os mais novos. Duas funcionárias, que a autarquia diz serem mais do que suficientes. Nas entrelinhas a suspeita de que estão aqui envolvidos miúdos de uma etnia cujo nome é politicamente incorrecto referir. E a revelação incómoda de que não se trata de um punhado de alunos mais turbulentos e agressivos que se envolvem em confrontos físicos. São agressões cobardes de miúdos mais velhos a crianças mais novas. Numa palavra, bullying. Os pais que podem retiram os filhos daquele inferno, enquanto os outros lá ficam a sofrer o castigo.

Os responsáveis dizem que os incidentes estão resolvidos e o que não está se encontra em vias de resolução. Mas percebe-se que não é assim. O ME não aceita responsabilidades numa área – o pré-escolar e o 1º CEB – há muito entregue às autarquias, limitando-se a considerar boa qualquer solução que os outros finjam ter encontrado. A câmara prefere poupar no pessoal, garantindo que já fez a sua parte e deixando os pais, professores e funcionários da escola com o menino nos braços. A sede do agrupamento está lá longe, e nada no actual modelo de gestão escolar convida os directores a abandonar a zona de conforto do gabinete e das plataformas informáticas para ir gerir, no terreno, as situações complicadas.

E querem convencer-nos de que a solução para isto são patrulhas de pais nos intervalos das aulas, a vigiar a escola pelo lado de fora, para prevenir mais agressões?…

Homofobia nas escolas portuguesas

escola-lgbt.jpgCerca de um terço dos jovens LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transgénero e intersexo) sentem insegurança na escola por causa da sua orientação sexual, e 27,9% por causa da sua “expressão de género”, ou seja, a forma como se apresentam, revela o Estudo Nacional sobre o Ambiente Escolar divulgado nesta quarta-feira, que reuniu respostas de 663 jovens entre os 14 e os 20 anos de idade.

Os resultados deste inquérito, coordenado pela ILGA Portugal (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo) – numa parceria com o Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE-IUL e Centro de Psicologia da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, com o apoio da GLSEN (Gay, Lesbian and Straight Education Network) -, mostram que as escolas nem sempre são um espaço seguro para os alunos que fogem às normas no que toca ao género e à sexualidade, mas existe uma relação entre o apoio da comunidade escolar e um menor impacto negativo da discriminação sobre os estudantes LGBTI, como indiciam outros estudos.

As boas notícias: a grande maioria dos inquiridos (93,3%) é capaz de identificar pelo menos um elemento do pessoal docente ou não docente da escola que apoia estudantes LGBTI, apesar de apenas metade dos alunos se sentir confortável para falar sobre estas questões com o psicólogo ou assistente social da escola.

E quanto maior a intervenção dos adultos perante comentários homofóbicos, maior o sentimento de pertença destes adolescentes LGBT. Se por um lado há uma probabilidade quatro vezes superior de um aluno ter faltado à escola no último mês por ter sido vítima de discriminação em função da sua orientação sexual, quando os adultos intervêm nos episódios homofóbicos há uma menor probabilidade de absentismo devido à insegurança.

O problema da discriminação em função da orientação sexual é transversal a toda a sociedade. Nas escolas, ele pode atingir maior gravidade pois afecta geralmente jovens em processo de descoberta e afirmação de si próprios, com todas as inseguranças, dúvidas e angústias que caracterizam a adolescência. E interliga-se com um outro fenómeno, característico do meio escolar, mas que nem por isso é menos importante combater: o bullying. Crianças e jovens mais frágeis, isoladas ou simplesmente diferentes são alvo do gozo, do insulto, da ameaça, por vezes da agressão física da parte de alunos que encontram prazer na humilhação gratuita de um colega. E isto tanto pode suceder por causa da orientação sexual como devido a características físicas ou comportamentais com que um ou mais colegas resolvam implicar.

Pelo que li do estudo agora divulgado, não parece que tenha havido especiais cuidados em garantir a representatividade da amostra que respondeu ao inquérito, pelo que os números obtidos poderão não nos dar, em termos quantitativos, a dimensão correcta da discriminação, na escola, dos jovens LGBT. Provavelmente, as escolas onde este fenómeno adquire maior expressão são também aquelas onde o bullying em geral é mais frequente e serão também, muitas delas, frequentadas por jovens oriundos de meios sociais e familiares eles próprios vítimas da discriminação e do preconceito do resto da sociedade. Mas esta é uma pecha habitual dos nossos estudos sociológicos: raramente se investigam os problemas ao ponto de conseguir isolar as suas causas e avaliar o seu impacto. O resultado são conclusões superficiais, por vezes tão preconceituosas e generalistas como os próprios comportamentos que pretendem caracterizar.

Resumindo, o que este estudo nos traz não é nada de especialmente novo: continua a existir discriminação, assédio e por vezes violência contra jovens LGBT nas nossas escolas. Estes comportamentos provêm essencialmente de outros alunos, mas nem todos os professores estão suficientemente sensibilizados para a necessidade de promover a integração destes jovens e combater os comportamentos homofóbicos. Que segundo os jovens surgirão por vezes entre os próprios professores – quero crer que involuntariamente – mas que não são, em todo o caso, admissíveis. Contudo, há um caminho que é apontado e creio ser consensual:  os professores e outros agentes educativos presentes na escola têm um papel fundamental na detecção destes problemas, no ouvir e apoiar estes jovens e na construção de um ambiente escolar onde todos se sintam seguros, solidários e integrados.

Acho por isso desajustadas as reacções que responsáveis educativos continuam a demonstrar perante estas notícias que podem pôr em causa, ainda que indirectamente, o trabalho, o profissionalismo e a idoneidade dos professores. A primeira delas foi a habitual reacção pavloviana da governante que acha que os professores não fazem o que ela quer e que dispõe de dinheiro fácil, vindo da Europa, para gastar em formação…

Para contrariar este fenómeno, o Governo promoveu, na última semana, um “intenso workshop formativo”, revelou Rosa Monteiro. De acordo com a secretária de Estado, “mais de 800 professores e professoras de todo o país” terão acesso a esta formação, integrada na estratégia nacional de Educação para a Cidadania., e na qual estarão também mobilizadas organizações não-governamentais (ONG) destas áreas.

Já a segunda alfinetada foi mais acintosa. Não faz parte do cardápio habitual do secretário de Estado que costuma fazer o papel de governante-bom e era até, neste contexto, perfeitamente escusada.

Em reação à notícia, avançada pela TSF, o secretário de Estado da Educação, João Costa, disse encarar com “preocupação e manifesto repúdio” os comportamentos dos docentes revelados pela investigação e garantiu que o Executivo irá responder a esse tipo de agressões com ações disciplinares.

O SE João Costa parece andar verdadeiramente ressabiado com os professores. Uma azia que nada terá a ver, certamente, com o sucesso da greve às avaliações…

Professor não entra

O bullying motivado pela orientação sexual dos alunos pode ser um grave problema escolar. Para lhe dar resposta, foi recentemente constituída na província de Huelva, sul de Espanha, a Mesa de Expertos contra el Acoso Escolar por Orientación Sexual, que teve hoje a sua primeira reunião de trabalho.

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O assunto é relevante e certamente a nova comissão terá um trabalho importante pela frente. Mas não é menos interessante constatar que desta equipa, recheada de políticos e especialistas, não faz parte um único professor.

Só que, enquanto por cá já nem ligamos a estas coisas, os docentes espanhóis comentam-no, com desagrado, nas redes sociais. Lá como cá, os “peritos” em assuntos escolares podem ser todos, menos os professores.