Música para o Brexit: Angelo Kelly & Family – Auld Lang Syne

Cumprem-se hoje as palavras proféticas de Winston Churchill: tendo a Inglaterra que optar entre a Europa continental e o mar aberto, sempre escolherá o mar aberto. Resta saber se encontrarão os britânicos, nos mares turbulentos do século XXI, as vantagens de que usufruíram quando foram senhores do mundo.

Tornado inevitável, espero que o Brexit não seja um adeus, mas um até sempre. As ilhas britânicas estarão sempre aqui perto, e a conjugação de forças e circunstâncias que impuseram a saída britânica da UE não ditarão um afastamento irremediável nem, provavelmente, definitivo.

Um bom acordo comercial, a negociar nos próximos onze meses, poderá mesmo repor uma normalidade nas relações do Reino Unido com o continente não muito diferente da que tivemos até agora: afinal de contas, os britânicos sempre estiveram fora da moeda única e nunca aderiram ao acordo de Schengen.

Para o futuro, não me admiraria que os irlandeses do norte, mais cedo do que tarde, regressem à União pela via de uma unificação das duas Irlandas que, a prazo, parece incontornável. O caso escocês é mais complexo, mas o dilema deles é bastante diferente do que se colocava a Churchill: obrigados a optar entre a Inglaterra isolada e a Europa Unida, duvido que hesitem na escolha.

Enfim o Brexit

bo-jo.JPGO Partido Conservador conseguiu uma vitória histórica nas legislativas antecipadas de quinta-feira no Reino Unido e tem via aberta para avançar com o “Brexit” até ao dia 31 de Janeiro de 2020.

O partido de Boris Johnson elegeu 364 deputados, contra apenas 203 do Partido Trabalhista, alcançando uma maioria de 78 lugares na Câmara dos Comuns quando falta apurar um assento parlamentar. Face ao resultado desastroso do seu partido, Jeremy Corbyn anunciou que não concorrerá às próximas eleições, abrindo caminho para uma luta pela sua sucessão.

O primeiro-ministro foi claramente bem-sucedido na difusão da sua grande promessa de campanha: cumprir a saída do Reino Unido da União Europeia a todo o custo. A vitória dos tories – que atingem a maior maioria parlamentar desde 1987 – acontece às custas de conquistas em vários círculos eleitorais de tradição trabalhista, particularmente no Norte e Centro de Inglaterra e no País de Gales.

Não haverá muito a dizer sobre a esperada derrota dos Trabalhistas nas eleições britânicas, apenas surpreendendo um pouco, ou talvez não, a dimensão da vitória de Boris Johnson. A fazer lembrar, aos Conservadores, os tempos áureos de Margaret Thatcher.

Pelo caminho, os Liberais-Democratas quase desaparecem do cenário parlamentar, acentuando-se o bipartidarismo típico da política britânica e que é favorecido pelo sistema dos círculos uninominais. Em contrapartida, os Nacionalistas consolidaram a supremacia eleitoral na Escócia, pelo que após o Brexit agora inevitável a questão da independência da Escócia voltará à ordem do dia, pois é condição indispensável para que os escoceses possam, como parece ser a sua vontade, reentrar na União Europeia.

Voltando à vitória conservadora, ela parece premiar um líder político que, embora controverso, conseguiu fazer passar uma mensagem clara ao eleitorado: quer uma saída ordenada da UE e tem para o efeito um acordo com Bruxelas que agora passará, sem problemas, no Parlamento britânico. Focou a campanha num objectivo essencial e mostrou convicção e determinação, atributos que os eleitores, em tempos de crise política e insegurança em relação ao futuro, costumam valorizar.

Já os Trabalhistas não foram capazes de afastar a ideia de que, com eles no poder ou com um novo governo minoritário de Johnson, a novela dos adiamentos e indecisões em relação ao Brexit iria manter-se por tempo indeterminado. Jeremy Corbyn não terá conseguido apagar a má imagem que mantém nalguns sectores do eleitorado, o que não terá contribuído sequer para segurar os bastiões do partido, muito menos para pescar votos noutras áreas políticas. A transferência do voto trabalhista pró-brexit para os conservadores fez, num sistema uninominal, o resto.

O Brexit explicado às criancinhas

unicornio.jpgReino Unido: Nós queremos um unicórnio.
União Europeia: Não existem unicórnios. Mas, em vez disso, podem ter um pónei.
RU: Nós votámos contra o vosso pónei.
UE: Isso já foi mais do que discutido: é o pónei ou nada.
RU: Nós votámos contra o vosso pónei.
UE: Certo! Então não levam nada.
RU: Nós votámos contra o vosso nada.
UE: …Vocês não conseguem mesmo perceber, pois não?
RU: Precisamos de mais tempo para pensar.
UE: Sobre o pónei ou sobre o nada?
RU: Nós queremos um unicórnio.

Texto de autor desconhecido, em partilha pelas redes sociais.

Brexit? Yes, Minister!

Enquanto a novela aparentemente interminável do Brexit prossegue em direcção a um final neste momento ainda imprevisível, vale a pena relembrar este curto mas assombroso diálogo de um episódio de Yes, Minister, uma das melhores séries britânicas de sempre. Apresentado em 1980, apenas sete anos depois da adesão do Reino Unido à então Comunidade Económica Europeia, o sketch revela hoje uma actualidade surpreendente…

Rindo de si próprios e das suas idiossincrasias e excentricidades como só os ingleses sabem fazer, os argumentistas colocam o ministro Jim Hacker e o chefe de gabinete Humphrey Appleby a debater as circunstâncias da adesão britânica à comunidade europeia, em parte motivada pelas mesmas razões que, agora, impulsionam para a saída. E que, nestes quase cinquenta anos de permanência, sempre mantiveram o Reino Unido com um pé dentro e o outro fora da Europa Unida.

Claro que é humor, e o que se diz neste contexto nem sempre é para levar a sério. Mas também é brincando e rindo que se dizem, às vezes, as maiores verdades…

 

 

Crónica britânica – III

Fleumáticos, snobs, reservados? Nem por isso. Acredito que em determinados meios o conservadorismo social e os preconceitos classistas continuem a impor-se, mas nos espaços públicos e no contacto casual com as pessoas, até mesmo com os estrangeiros, os britânicos mostram-se geralmente simpáticos e acessíveis. Embora ciosos do seu espaço e das suas idiossincrasias, não demonstram aquela frieza e arrogância que uma certa tradição lhes atribui. Uma ideia que já tinha desde que visitei Londres, e que associava à amálgama étnica, social e cultural que produz o carácter especial e único dos londoners, mas que afinal se confirma noutras cidades inglesas.

English breakfast. O pequeno-almoço é talvez a refeição inglesa mais conhecida internacionalmente, sendo especialmente apreciada por quem defende que a primeira refeição do dia deve ser a mais substancial. No entanto, não consigo achar piada àquelas fritalgadas de ovos, salsichas, bacon e outras comidas gordurosas com que, por aqui, se costuma iniciar a manhã. E o breakfast escocês não é muito diferente… Como é que conseguem comer aquilo tudo sem ficarem mal dispostos? Por mim, embora haja outros alimentos mais interessantes nos pequenos-almoços britânicos, ao fim de uns dias já vou sentindo saudades do pãozinho português e das nossas comidas matinais…

Pronúncia escocesa. O acento pronunciado com que muitos escoceses falam o Inglês é um traço marcante e distintivo da cultura de um povo que, ao fim de séculos de união política com o vizinho mais a sul, continua a manter orgulhosamente uma identidade própria. É algo que identificamos e apreciamos nos filmes e séries televisivas, confortavelmente apoiados pelas legendas que aparecem no ecrã. Mas quando temos mesmo de os entender, sem tradução nem legendagem, aí a coisa muda de figura, e algumas pronúncias mais cerradas tornam-se mesmo incompreensíveis para os ouvidos desabituados. Quando se viaja do norte da Inglaterra para a Escócia não se notam descontinuidades geográficas relevantes que assinalem a passagem de uma fronteira. Em contrapartida, basta começar a ouvir as vozes dos nativos para perceber que já não estamos em solo inglês…

Obras por todo o lado. É uma realidade que geralmente se associa ao boom imobiliário de Londres, mas que encontrei em todas as cidades que visitei. Enormes prédios em construção, nalguns casos quarteirões inteiros devorados pela voragem urbanística que parece varrer todo o Reino Unido. É praticamente impossível tirar uma fotografia panorâmica do centro de uma grande cidade sem que o skyline registe a presença de alguns guindastes. Para quem já viveu algo de semelhante no seu país, esta euforia tem algo de dejá vu. É verdade que a economia inglesa tem uma pujança que não é comparável à dos países ibéricos e tem até agora sustentado os grandes investimentos no sector da construção. brexit-island.jpgContudo, a maior incógnita parece estar nas consequências do Brexit e na inevitável retracção económica que provocará. Irá o imobiliário continuar a apoiar a economia real, absorvendo investimento, criando empregos e gerando mais-valias, ou as suas dificuldades acabarão, como sucedeu noutros países, por arrastar toda a economia para uma profunda crise? As dúvidas e apreensões de um Brexit agora cada vez mais provável transformam o futuro, tanto no imediato como a médio e longo prazo, numa imensa e irresolúvel incógnita…

Crónica britânica – I

liverpool-pride2019De uma incursão estival por terras britânicas, onde já não vinha há mais de uma década – e que eventualmente visito pela última vez sem necessidade de apresentar passaporte à entrada – ficam algumas breves e telegráficas impressões de viagem.

Multiculturalismo. É uma realidade, pelo menos nas grandes cidades, onde se vê gente de todos os credos e origens étnicas. Véus islâmicos e mini-saias, corpos tatuados e homens de turbante. Negros e morenos de diversas origens contrastam com ingleses de pele rosada. E, claro, nas últimas décadas, um forte afluxo de outros europeus, atraídos pelo crescimento económico e as oportunidades de emprego e de carreira daquela que continua a ser uma das mais dinâmicas e competitivas economias europeias. A convivência é, aparentemente, pacífica. Ninguém chateia ninguém. As verdadeiras desigualdades não radicam na cor da pele ou na religião mas, como sucede em todas as economias capitalistas desenvolvidas, na capacidade económica. Por isso, é tão fácil encontrar uma muçulmana de hiyab às compras nas lojas mais caras e exclusivas como deparar com um genuíno súbdito de Sua Majestade a dormir na rua.

LGBT. Expressão tanto da moderna diversidade como da tradicional excentricidade britânica, as paradas que começaram por ser uma afirmação do orgulho gay têm hoje um âmbito muito mais vasto. Alargadas aos múltiplos géneros e identidades sexuais em afirmação, estas concentrações celebram sobretudo os valores universais do respeito e da tolerância, sempre necessários à vida em sociedade. E enquanto em Portugal estes eventos são ainda uma expressão de minorias, por cá enchem enormes praças públicas e tornaram-se, em larga medida, festas de família. Com a participação de muitos casais heterossexuais e dos seus filhos, alguns levados ainda no carrinho de bebé.

A ameaça do Brexit. É sentida com inquietação pelos britânicos. Os jornais não têm sido brandos com o novo líder conservador e, aparentemente, poucos confiam nele. Mas não haverá muitas dúvidas de que, se o deixarem, fará tudo o que estiver ao seu alcance para empurrar o Reino Unido para fora da União Europeia, mesmo sem acordo. Ainda que comprometendo, no imediato, a precária paz irlandesa e, a prazo, a própria unidade britânica, tendo em conta a larga maioria de escoceses hostis ao Brexit.

Museus gratuitos e abertos todos os dias. Uma originalidade britânica que não me canso de apreciar. Os maiores museus públicos, onde se concentram os maiores tesouros patrimoniais e artísticos britânicos, continuam a ser, com poucas excepções, de acesso gratuito. E não fecham à segunda-feira. Em alternativa à cobrança de um bilhete, apela-se aos visitantes que façam uma doação voluntária ou comprem uma recordação na loja do museu. Algo que muitos fazem voluntariamente, num país onde há também muitas empresas a comprometer-se com a preservação da arte e do património e as fundações privadas não servem apenas para fugir aos impostos. Resultado prático: museus cheios de gente; um hábito de os frequentar que vai sendo criado desde a infância e uma curiosidade e gosto por aprender que, espera-se, se prolonguem pela vida fora.

Brexit 2.0

JohnsonMay.jpg.449f4d68b14cc49b90398e04840560a1.jpg

Daqui.

Leituras: Os Isolacionistas Britânicos

brexit.jpgNo Reino Unido, ficar sozinho é coisa que não faz medo. No passado, serviu bem os propósitos do país. Faz parte do espírito nacional e havia muito que os europeus sabiam que assim era. O ge­neral de Gaulle disse que a História separara a Grã-Bretanha da Europa. «A Inglaterra é uma ilha, marítima, ligada a países muito diferentes e muitas vezes distantes, pelo comércio, pelos mercados e pelo abastecimento alimentar», disse. E prosseguiu: «Em resumo, a natureza, a estrutura e o contexto económico de Inglaterra são pro­fundamente diferentes dos de outros Estados da Europa.». Antes dos desembarques do Dia D, em 1944, Sir Winston Churchill dissera a de Gaulle: «Quando tem de escolher entre a Europa e o mar aberto, a Grã-Bretanha escolhe sempre o mar aberto.» Anteriormente, Chur­chill dissera: «Estamos com a Europa, mas não pertencemos à Europa. Estamos ligados, mas não juntos. Estamos interessados e associados, mas não absorvidos.»

Na grande discussão sobre a relação da Grã-Bretanha com a Europa, Sir Winston é reivindicado como aliado por todas as partes. Num discurso na Universidade de Zurique, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, Churchill declarou: «Temos de recriar a família europeia numa estrutura regional, a que talvez se possa chamar os Estados Unidos da Europa…» As suas palavras foram suficientes para o seu nome ser dado a um edifício do Parlamento Europeu em Estrasburgo. Mas não é claro que lugar Churchill imaginava para a Grã-Bretanha na sua visão da Europa.

Quando a integração europeia era ainda apenas uma ideia em embrião, o Reino Unido mostrou-se céptico. Os britânicos foram convidados para as negociações sobre a criação do Mercado Comum. Enviaram Russell Bretherton, antigo deão de Oxford e sub­secretário do Conselho de Comércio. Segundo alguns relatos, ao usar da palavra, Bretherton rejeitou a iniciativa. «O futuro tratado que os senhores estão a discutir não tem hipótese de ser aprovado. Se o fosse, não teria hipótese de ser ratificado; e, se fosse ratificado, não teria hipótese de ser aplicado. E, se fosse aplicado, seria totalmente inaceitável para a Grã-Bretanha. Os senhores estão a falar de agri­cultura, coisa de que nós não gostamos, de poder sobre as alfânde­gas, de que nós discordamos, e de instituições que nos assustam. Monsieur le Président, Messieurs, au revoir et bonne chance.» Dificilmente terá havido, na História britânica, uma rejeição tão des­denhosa, tomada ainda mais sarcástica pelas palavras em francês usadas no fim.

Pouco tempo depois, o então primeiro-ministro, Harold Mac­millan, apercebeu-se, com muita presciência, do dilema do Reino Unido. «Será que vamos ficar entalados entre uma América hostil (ou pelo menos cada vez menos amistosa) e um ‘Império de Carlos Magno’ presunçoso mas poderoso, agora sob controlo francês mas destinado a ficar sob controlo alemão.» Fosse como fosse, o Reino Unido pediu a adesão ao Mercado Comum e o pedido foi rejeitado por de Gaulle. O Reino Unido só se tomaria membro de pleno direito da Comuni­dade Económica Europeia em 1973. Nunca foi uma parceria fácil. […]

Seguir-se-iam tempos turbulentos. A primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher daria um murro na mesa, em defesa do «cheque britânico», e insistiria: «Estamos simplesmente a pedir a devolução do nosso dinheiro.» O então presidente francês, Jacques Chirac, perguntou: «O que é que esta dona de casa quer de mim? Os meus tomates numa bandeja?» Thatcher, que, internamente, tentava reduzir as responsabilidades do Estado, não estava disposta a aceitar a reinstituição de regulamentações intrusivas através de Bruxelas. No tanto, apesar de todas as discussões sobre orçamentos e cláusulas de auto-exclusão, o Reino Unido desempenhou um papel importante como pioneiro do mercado único, uma das maiores realizações da União Europeia.

O Reino Unido nunca se empenhou na construção da Europa. O sonho de uma união cada vez mais estreita é-lhe indiferente. Receia o enfraquecimento do seu poder, à medida que cada vez mais decisões são tomadas a nível europeu, em Bruxelas. A crise da zona euro fez mudar o clube a que aderira. Para defenderem a sobrevivência da moeda, os dirigentes europeus enveredaram por um caminho incerto, mas que vai no sentido de uma união política ainda por definir. O Reino Unido não quer participar nela e, por isso, terá de aceitar um papel de não membro.

Gavin Hewitt, O Continente Perdido (2013)

As melhores pernas

O Daily Mail é um dos tablóides mais populares no Reino Unido, mas nem o milhão e meio de exemplares vendidos diariamente parece inibir o jornal de assumir, na primeira página da edição de hoje, uma posição estúpida e vergonhosamente sexista. De que outra se pode qualificar, quando as implicações do Brexit estão na ordem do dia e motivam o encontro entre as primeiras-ministras da Escócia e da Inglaterra, o comentário que diz algo como “esqueçam o brexit e vejam antes quem tem as melhores pernas”?

dailymail.JPG

Claro que as reacções de indignação não se fizeram esperar nas redes sociais. Como geralmente sucede nestas situações, algum humor e o uso das imagens adequadas acabam por ser a resposta mais eficaz à estupidez e ao primarismo do jornalismo boçal, que conquista audiências explorando os estereótipos e os preconceitos mais enraizados na sociedade britânica. O que se acharia o leitor se o jornal apresentasse quatro políticos em calções e lhe pedisse para os avaliar… pelas pernas?…

C79aAWmXQAAeqZ9.jpg