Brasil, campeão da violência escolar

marcia.JPGCorreu mundo, na semana passada, a imagem do rosto desfigurado e ensanguentado da professora brasileira Marcia Friggi, de 51 anos, vítima da agressão violenta de um aluno de 15 anos. Foi a própria docente agredida que publicou a foto nas redes sociais e divulgou o sucedido:

Exerço uma das profissões mais dignas do mundo, com um salário miserável. Somos agredidos verbalmente de forma cotidiana. Fomos [os professores] relegados ao abandono de muitos governos e da sociedade. Somos reféns de alunos e de famílias que há muito não conseguem educar. Esta é a geração de cristal: de quem não se pode cobrar nada, que não tem noção de nada.

Se a violência escolar é universalmente condenada, no Brasil, onde se sucedem os casos de agressões a professores, nota-se uma lamentável divisão de opiniões em relação às responsabilidades por estes crimes:

Junto com manifestações de solidariedade, a professora foi alvo de uma enxurrada de mensagens de ódio de pessoas que a culparam pelo incidente. […] Nos comentários [nas redes sociais], ela leu que “apanhou pouco” e que “se a senhora e vários outros professores se preocupassem em ensinar ao invés de imbecilizar os alunos, cenas como essa não existiriam nas escolas. Você é culpada por incentivar o desrespeito, a falta de educação, o vitimismo e o coitadismo”.

Os especialistas tendem a relacionar a violência escolar no Brasil com a realidade de uma sociedade também ela violenta. E se para alguns só com a militarização da escola, o endurecimento das regras e das punições e a expulsão dos delinquentes será possível garantir a ordem, a disciplina e os direitos dos que querem aprender, para outros a abordagem terá de ser mais realista e abrangente:

A presidente-executiva da organização Todos Pela Educação, Priscila Cruz, acredita que o primeiro passo é reconhecer que a escola sozinha não é capaz de prevenir a violência.

“Muitas vezes, essa é a referência em casa, na comunidade. É preciso trabalhar a cultura de paz nas escolas: motivar a solução não violenta de conflitos, propor oportunidades de vivenciar projetos em que soluções pacíficas são executadas, fazer com que eles se coloquem em soluções reais. Qualquer violência escolar não é um problema só da educação”.

Claro que esta é uma análise sensata e pertinente da situação. Mas se ficar pelas palavras e não se traduzir em acções concretas e eficazes na prevenção da violência, pode ser meio caminho andado para a desculpabilização dos agressores, tidos como vítimas, afinal, de uma escola também ela, à sua maneira, violenta…

Para a coordenadora executiva da Comunidade Educativa (Cedac), Roberta Panico, essa violência é uma reprodução do que ocorre fora da escola, mas há outro tipo de agressão praticada pela escola contra o aluno, da qual pouco se fala. “A sociedade está mais violenta. Ir para uma escola suja, quebrada, não aprender o que deveria, isso também é violência”.

Segundo Panico, a escola é brutal com quem não se encaixa em seus moldes. “Os mais indisciplinados, muitas vezes, são muito inteligentes, mas não se encaixam nas regras”, acredita.

Não devemos esquecer que toda esta discussão se faz em torno da escola pública, que no Brasil é sobretudo a escola dos pobres. As elites há muito optaram pelo ensino privado para os seus filhos, e mesmo boa parte da classe média aceita sacrificar-se para pagar as mensalidades dos colégios que supostamente garantem uma melhor educação. Pelo que se vive o eterno dilema de saber se é a escola exigente nas aprendizagens e nas regras disciplinadoras, ou a escola tolerante e compreensiva com os seus alunos, a que melhor serve os interesses e as aspirações das crianças e jovens carenciados que a frequentam, e que têm muitas vezes no sucesso escolar a única oportunidade real de melhorarem as suas vidas. Talvez a escola ideal deva ser, no Brasil como em toda a parte, uma mistura das duas coisas. Responsabilizando os alunos e as famílias, mas preparada para actuar, em articulação com outras entidades, quando os pais não cumprem os seus deveres básicos na educação dos filhos. Ou quando estes ofendem e agridem os restantes membros da comunidade escolar.

Contudo, na encruzilhada política em que o Brasil vive há alguns anos e que não parece ter resolução a curto prazo, o quadro de crise e violência no meio escolar não irá provavelmente alterar-se significativamente nos próximos tempos…

Segundo pesquisa da OCDE, 12,5% dos professores brasileiros disseram sofrer violência verbal ou intimidação de alunos, pelo menos uma vez por semana. O Brasil ocupa a primeira posição no ranking. Em segundo lugar aparece a Estônia com 11%, seguida pela Austrália com 9,7%.

A pesquisa foi realizada em 34 países, com a participação de 100 mil professores e diretores dos ensinos fundamental e médio.

Outra pesquisa mostra que mais de 22,6 mil professores foram ameaçados por estudantes e mais de 4,7 mil sofreram atentados à vida nas escolas. Os dados são do questionário da Prova Brasil 2015, aplicado a diretores, alunos e docentes do 5º e do 9º anos do ensino fundamental de todo o país.

A violência também ocorre entre estudantes: 71% dos mestres presenciaram agressões verbais ou físicas entre eles. As informações estão na plataforma Qedu.

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A verdadeira escola do futuro

criancas-dormindo.jpgEsqueçam as cadeiras com rodinhas, os tablets de última geração, os quadros interactivos, os ecrãs 4K e as restantes maravilhas tecnológicas que nos dizem que irão existir, aos pontapés, na escola do século XXI.

Em S. Paulo, no Brasil, parece estar a ter sucesso um modelo de educação pré-escolar que propõe às famílias obter algo que pode ser considerado mais valioso de que o gadget mais cobiçado: tempo livre. Que ser pai e mãe é responsabilidade que toma muito tempo. E nuns casos por exigências da vida profissional, noutros por simples preguiça ou comodismo, a verdade é que o tempo para estar com os miúdos é, nalgumas famílias, muito reduzido. E eles acabam por passar na escola, com os professores e educadores, muito mais horas do que em casa, com os pais.

Consegue-se imaginar uma escola onde os alunos tomam todas as refeições, libertando os pais da tarefa aborrecida de os alimentar? E que ainda fornece, a pedido, refeições já preparadas para o fim-de-semana? Com serviço de lavandaria, que trate da limpeza da farda do colégio, e de cabeleireiro, que liberte da chatice de levar os filhos a cortar o cabelo? E que tal, cereja no topo do bolo, para o pouco tempo em que têm os filhos em casa, poderem contratar uma professora como babá para tomar conta deles?

O colégio rejeita as acusações de estar a facilitar em demasia a vida aos pais, privando as crianças de experiências importantes que deveriam viver em família: para os responsáveis da escola, todas estas facilidades permitem ganhar aquilo que é essencial: tempo de qualidade das crianças com a família. Boa desculpa.

Uma escola em que os pais podem deixar os filhos das 8 às 20 horas e não se preocupar com os uniformes – que são lavados no próprio colégio – nem com as refeições das crianças, que ainda podem ser compradas congeladas para os fins de semana. Para as famílias economizarem tempo com atividades domésticas, a escola Ponto Omega, na região dos Jardins, zona oeste de São Paulo, passou a oferecer serviços que vão além das preocupações pedagógicas.

A escola, que atende crianças de 4 meses a 6 anos, também oferece aos pais a opção de contratarem professores e assistentes como babás e leva uma vez por mês uma cabeleireira para cortar o cabelo dos alunos no colégio. Maria Gruppi, diretora da escola, diz que os serviços começaram a ser ofertados por reivindicação dos pais, que requeriam “tempo de qualidade” com os filhos.

“Se a gente consegue eliminar algumas preocupações dos pais, eles têm mais tempo livre e disposição para se dedicar à criança”, argumenta Maria. O serviço de lavanderia, por exemplo, é para todas as crianças de até 2 anos. Elas chegam com as roupas comuns de casa e recebem todos os dias o uniforme.

Os alunos que ficam em período integral fazem todas as refeições na escola. Por isso, segundo Maria, os pais precisavam fazer feira, mercado e cozinhar apenas para os fins de semana. “Eles tinham todo esse trabalho para fazer sopinha para só dois dias. Por isso, começamos a vender as refeições congeladas, que já servíamos na escola.”

Verdades alternativas

Não sei se chegou a ser a maior greve geral dos últimos cem anos, mas foi sem dúvida um gigantesco protesto por todo o Brasil contra as reformas planeadas por Michel Temer, amplamente ignorado ou minimizado pelos grandes grupos de media do país. Que, na bipolarizada conjuntura política brasileira, há muito escolheram o seu lado.

Movimentação de dimensão nunca vista tomou todo o território nacional, com centenas de categorias que cruzaram os braços nos 26 estados e no Distrito Federal, dispostas a barrar as reformas de Temer.

Adenda: também na imprensa portuguesa, solidária com a do país-irmão, nem uma palavra sobre a greve geral…

Greve geral no Brasil

greve-brasil.jpgHoje é dia de greve geral no Brasil, convocada por sindicatos de praticamente todos os sectores de actividade económica contra as reformas da legislação laboral e da segurança social que o governo pretende introduzir.

Desde 1996 que não havia um protesto laboral desta dimensão.

Os organizadores esperam que a greve inclua trabalhadores do transporte público, aeronautas, bancários, funcionários públicos e professores das redes públicas e privada, entre outros. Profissionais da indústria, como químicos e metalúrgicos, também prometem parar – incluindo aqueles que trabalham em unidades da Petrobras em pelo menos oito Estados.

Grandes aeroportos, como os das cidades de São Paulo, Campinas (SP), Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre podem ser afetados. Rodoviários dizem que irão parar em cidades de pelo menos 13 Estados – na capital paulista e em Guarulhos, a ideia é que apenas 30% da frota esteja operando a partir da 0h desta sexta. Metroviários já acordaram parar em cidades de ao menos cinco Estados.

Portuários estão previstos para parar em menos três Estados – um dos portos que pode parar é o de Santos, o principal do país. Nos Correios, a greve já foi aprovada por pelo menos oito Estados.

Servidores públicos municipais, estaduais e federais, do Judiciário e comerciários também prometem aderir. Bancários já contabilizam adesão em no mínimo 23 Estados, mas nem todas as unidades fechariam.

Professores municipais, estaduais, universitários e de escolas particulares são algumas das categorias mais esperadas, embora a adesão varie muito de Estado para Estado.

Mexer nos direitos sociais e laborais em épocas de crise económica é sempre complicado, ainda para mais quando há um evidente défice de legitimidade nos governantes e congressistas corruptos e golpistas que apoiam o presidente Temer. Quanto à argumentação do governo, ela baseia-se nos estribilhos da vulgata neoliberal que ainda não há muito tempo também ouvíamos por cá: a segurança social é insustentável e os direitos dos trabalhadores dificultam a criação de novos empregos.

“É escandaloso. O Congresso mais desmoralizado da história brasileira quer aprovar o projeto da Reforma Trabalhista que retira direitos conquistados nos últimos 100 anos de luta dos trabalhadores e trabalhadoras no nosso país. Tudo está em risco”, afirma Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e uma das lideranças que organizam a greve geral.

“Nós temos que parar o país de norte a sul. Parar os locais de trabalho, para os transportes, parar rodovias e avenidas, enfim, dar o nosso recado a esse Congresso imoral e para esse governo ilegítimo”, continua Boulos. O tom é semelhante ao adotado por sindicatos e por movimentos sociais de esquerda, que são contrários às reformas da maneira que estão colocadas pelo governo Temer.

 

Nuno Crato no Brasil

nuno-crato.JPGO Brasil vai-se tornando local de peregrinação de pedagogos, ideólogos e cientistas da educação portugueses, pelo menos a avaliar pela frequência com que a imprensa brasileira noticia a sua presença e os vai entrevistando. Agora foi a vez de Nuno Crato, que explicou, à Folha de S. Paulo, algumas das suas ideias anti-eduquesas e contrárias ao que insiste em chamar a “pedagogia romântica”. Claro que, da forma como as enuncia, até têm algum sentido lógico. O problema, deste lado do Atlântico, é que tivemos oportunidade de as ver em acção, e os resultados estiveram longe de ser brilhantes.

A verdadeira pedagogia moderna, baseada nas ciências cognitivas do século 21, mostra que não basta saber ler. Os jovens devem ter fluência na leitura e nas operações matemáticas. Isso lhes permite depois libertar a mente para atividades de ordem cognitiva superior. Se o jovem estiver a soletrar enquanto lê, terá dificuldade de entender o conteúdo do texto.

A psicopedagogia do século 21 descobriu que há um conjunto de automatismos que ajuda a compreensão. A ideia é que as tarefas cognitivas de ordem superior – reflexão, crítica, criatividade – são baseadas em processos da ordem inferior. E o grande erro da pedagogia romântica é pensar que se pode chegar aos processos cognitivos superiores esquecendo-se dos inferiores.

Nuno Crato contesta o que considera mitos da educação, como o de que os alunos só devem aprender o que gostam, porque antes de conhecerem alguma coisa sobre determinado assunto não poderão saber se gostam ou não. Afirma que a avaliação não traumatiza, antes pelo contrário, é um incentivo necessário à aprendizagem. E que memorizar ajuda a desenvolver o cérebro e fornece uma base cognitiva para aprendizagens de nível superior. É difícil discordar.

Crato não acha que a exigência prejudique os pobres, mostrando-se defensor de uma escola pública exigente, pois ela é a única oportunidade dos mais pobres poderem obter o conhecimento e as capacidades de que precisam para melhorar a sua vida. Ao contrário dos ricos, que podem frequentar escolas privadas ou ter explicadores para compensar as falhas do ensino público. Isto também é evidente. Mas o problema não está nos pobres que são bons alunos nem nos ricos que usam o seu dinheiro para compensar a falta de esforço ou de inteligência: está nos alunos que não conseguem corresponder nem encontrar sentido nesse ensino exigente e que Crato, enquanto ministro, se limitou a remeter para esse refugo educativo a que chamou ensino vocacional.

Em relação ao ensino por projectos, o antigo ministro adverte que não deve ser usado de uma forma que desvalorize o conhecimento disciplinar. E dá um exemplo pertinente:

A história, por exemplo, tem uma ideia de continuidade que deve ser apresentada de maneira sistemática. Se o jovem faz uma vez um projeto sobre a Grécia Antiga, outro sobre os índios brasileiros, nunca terá um conhecimento conjunto da história. Projetos são auxiliares do ensino, não podem ser sobrevalorizados.

Olhando retrospectivamente para os quatro anos de Nuno Crato à frente da Educação portuguesa, e mesmo dando de barato a desculpa da crise e dos cortes orçamentais, a verdade é que pouco ou nada se viu, em termos de pensamento estratégico para a educação, que fosse para além da introdução de mais e mais exames.

O rigor e a exigência que se exigiam aos professores e às escolas não foram aplicados aos serviços do ministério, nem à própria equipa governativa. Ainda não nos esquecemos, julgo eu, das trapalhadas dos concursos e das colocações, das turmas de 30 alunos, dos cortes nos apoios educativos e na educação especial, do favorecimento de lobbies. Nem do ensino vocacional criado à pressa e para onde eram enviados todos os jovens a partir dos 13 anos que se mostrassem incapazes de cumprir os critérios de exigência impostos pelo ministério.

Entre os excessos do ensino formatado dos exames e das metas defendido por Nuno Crato e do lirismo folclórico do “aprender a brincar” e das auto-aprendizagens que nos garantem ser, à mistura com o uso desregrado dos gadgets tecnológicos, a nova modernidade educativa, penso que haverá algures um meio termo, construído com experiência, sensatez e boa pedagogia: será esse o rumo certo da escola do século XXI.

ONU condena “Escola Sem Partido”

formatar.jpgJá por aqui tinha falado em tempos do Escola Sem Partido, um movimento político que com a presidência de Michel Temer passou a ser abertamente apoiado pelas autoridades educativas do Brasil e com o qual se pretende impedir os professores de “doutrinarem” politicamente os seus alunos ao abordarem temas polémicos na sala de aula.

Os professores de História, Economia ou Filosofia estão entre os que mais facilmente podem ser visados pelas queixas de alunos e pais, mesmo que se limitem a tratar temas incluídos nos respectivos programas. Pois aprender implica reflectir sobre o que se estuda, comparar diferentes ideias e pontos de vista, debater e discutir sem medos nem preconceitos as questões polémicas e contraditórias do mundo em que vivemos.

A escola não existe para conformar as crianças e os jovens com as maneiras de pensar predominantes nas suas famílias, mas para lhes abrir horizontes, confrontando-as com ideias e realidades diferentes daquelas que já conhecem.

A liberdade de expressão, tal como a de aprender e ensinar, integram os direitos humanos fundamentais, pelo que não é de estranhar que o Alto Comissariado dos Direitos Humanos da ONU venha agora questionar as iniciativas do governo brasileiro nesta matéria:

Em comunicado publicado nessa qinta-feira(13), relatorias especiais do Alto Comissariado de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) recomendam que o governo brasileiro tome atitudes necessárias para conduzir uma revisão dos projetos de lei (PLs) que tratam do Escola Sem Partido.

De acordo com o comunicado, por não definir o que é doutrinação política e ideológica, propaganda político-partidária e educação moral, a proposição permite “alegar que um professor está violando as regras pelo fato de autoridades ou pais subjetivamente considerarem a prática como propaganda político-partidária”. Além disso, o Escola Sem Partido poderá retirar das salas de aula, “discussões de tópicos considerados controversos ou sensíveis, como discussões de diversidade e direitos da minorias”.

Embora a posição da ONU não seja vinculativa para as autoridades educativas do Brasil, que nem sequer são legalmente obrigadas a responder a esta invectiva no prazo de 60 dias que lhes é proposto, é importante que o governo golpista de Temer perceba que o resto do mundo está atento aos desenvolvimentos do seu programa educativo reaccionário e conservador.

Não menos importante é que os professores brasileiros sintam a solidariedade, à escala global, dos professores, educadores e de todos os que amam a liberdade, nesta luta que são forçados a travar contra a prepotência, o preconceito e o obscurantismo do pensamento único.

António Nóvoa: a entrevista no Brasil

novoa.JPGAntónio Nóvoa, historiador da Educação, ex-reitor da UL e ex-candidato presidencial que dispensa apresentações, é um académico reconhecido e muito solicitado também em universidades e eventos culturais noutros países. Foi no Brasil que deu, esta semana, uma interessante entrevista, da qual se reproduzem por aqui algumas das passagens mais significativas. Os sublinhados são da minha responsabilidade.

Sobre as mudanças na educação:
Nós temos um discurso muito gongórico, excessivo sobre a importância da educação, quando as condições básicas não estão sequer asseguradas. Portanto, a primeira coisa que a sociedade brasileira precisa fazer coletivamente, independentemente de partidos e políticos, é garantir essas condições básicas de funcionamento para as escolas, que incluem as condições para o exercício do trabalho dos professores. Se não fizer isso, todo o resto é conversa, coisas para ilustrar a mídia, mas que não têm nenhum impacto. Não conseguimos mudar a educação se isso não for um desígnio coletivo da sociedade. Não pode ser um problema dos professores ou dos pais ou dos pedagogos ou do partido A ou do partido B. No Brasil, vejo que há muita conversa, muito discurso, mas pouco compromisso concreto com a educação pública brasileira. Há pouca indignação e, se eu fosse brasileiro, estaria indignado com a situação da educação pública.

Sobre elitismo e desigualdade:
Em Portugal, desde a revolução de 74, houve uma espécie de compromisso do país com a escola pública. Demorou 40 anos para isso acontecer, mas hoje estamos nos indicadores educacionais acima de países que investiram em educação quando éramos o último da Europa. Vejamos o Pisa, por exemplo, que é um indicador que eu não gosto muito, mas que serve para ilustrar. O Pisa tem dois indicadores: um do qual se fala muito que é classificação dos países, o ranking de qualidade, e outro do qual não se fala quase nada, que é o indicador de equidade, isto é, os países que possuem menos desigualdades educacionais. Portugal vai bem no ranking da classificação, mas, sobretudo, vai melhor no ranking da equidade. E é isso que torna um país melhor. Enquanto continuar cada um tratando de si, da escola dos seus filhos, dos seus problemas, o Brasil estará caminhando para um precipício.

Sobre a simplificação dos currículos:
Diminuição do currículo não pode ser sinônimo da velha ideologia do back to basics, isto é, de voltar aos fundamentos, dar só matemática e português. Tornar os currículos mais simples trata-se de conseguir que, em cada uma das matérias, se valorize a dimensão das linguagens e não a dimensão dos conteúdos. Isto é, que nós tenhamos os instrumentos para ascender ao conhecimento. Os conteúdos estão todos disponíveis na internet, em todo lado, logo, o que é preciso adquirir é a linguagem matemática, científica, da escrita, artística, corporal. Ora, o que está a acontecer no Brasil agora é o back to basics. Há um livro agora muito famoso no Brasil chamado Sapiens, do israelense Yuval Harari, no qual ele diz que hoje temos máquinas de aprendizagem que podem fazer coisas muito mais inteligentes que os humanos. Então, pela primeira vez na história, a inteligência não está só do lado dos humanos. Logo, qual é a última fronteira da humanidade? É a consciência, algo que não pode ser substituído por nenhuma máquina. E a dimensão da consciência precisa estar presente no currículo, por isso, não podemos esquecer da história, da sociologia, da filosofia, tudo que nos dá essa outra dimensão.

Sobre o ensino vocacional
Há um século, a expectativa média de vida era 40 anos, logo, a entrada na vida do trabalho tinha que ser aos 14, 15. Hoje, a média é 80 anos, então a entrada na vida adulta se faz mais tarde, inevitavelmente. Portanto, falar de uma formação técnica ou tentar que, hoje, uma pessoa com 14 anos tenha uma relação com o mundo do trabalho não faz nenhum sentido. Não é essa a evolução da sociedade: nós queremos pessoas que saibam pensar. Que saibam trabalhar também, com certeza, mas não é aquela visão que tínhamos antigamente da formação técnica, do operário. Nos próximos 20 anos, cerca de 30%, 40% dos trabalhos vão ser feitos pela tecnologia. Portanto, manter hoje essa formação técnica é uma ideia de discriminação social sobre os pobres. Os percursos formativos, na prática, mantêm a tradição de que os pobres servem para ser operários e os ricos, doutores. É o que chamamos de novo vocacionalismo. Agora o melhor da escola pública está em contrariar destinos. Podemos ser amanhã uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em operário o filho do operário é a pior escola do mundo.

Sobre professores sem qualificações profissionais:
O programa Teachers For America, do George Bush, que recrutava pessoas de notório saber para serem professores foi um desastre porque, obviamente, ser professor não é ter notório saber em uma matéria, é muito mais complexo que isso. Tem uma dimensão social, pedagógica, cultural muito mais ampla. Aliás, há um equívoco enorme que é o de achar que a missão de um professor de matemática é ensinar matemática. Não é. A missão de um professor de matemática é formar uma criança através da matemática, o que é completamente diferente. Porque não se pode ser cidadão sem saber matemática. A cidadania implica saber matemática, português, história. Ora, não é por termos notório saber em química que seremos bons professores dessas disciplinas. Isso é acabar com a alma, com a identidade da profissão.

Sobre a candidatura presidencial:
Foi uma experiência extraordinária porque eu não tinha vida política, nunca pertenci a nenhum partido, mas sempre estive envolvido em causas sociais. Militei quando era estudante contra a ditadura e sempre estive do lado da liberdade de pensamento, de crítica, de discordar dos outros. Por volta de 2013, Portugal vivia um momento horrível, com políticas de austeridade absurdas e um neoliberalismo cego que colocaram o país em uma situação dramática. A essa altura, era preciso dar um murro na mesa, dizer um basta. Como participei de grandes manifestações contra a austeridade e tinha acabado de ser reitor da universidade, isso me deu uma grande visibilidade. Como dizia Martin Luther King sobre o caráter das pessoas não se mostrar nos tempos fáceis, mas nos tempos difíceis, entendi que precisava tomar uma posição. E concorrer foi uma experiência extraordinária pela mobilização que trouxe das pessoas e pelo resultado. Estive a 1% ou 2% de passar ao segundo turno e se passasse acho que ganhava. Foi a primeira vez que um candidato independente teve uma candidatura com envergadura e isso para a política de Portugal foi muito positivo e trouxe uma renovação. O que está a acontecer em Portugal agora é boa parte do que defendi em minha candidatura.