Músicas de Verão: Zeca Pagodinho – Panela Velha

Músicas de Verão: Chris Ribeiro e Gleyce Santos – Malhão Malhão

Licenciatura em 6 meses

Obter, sendo licenciado, uma segunda licenciatura em apenas 6 meses: julgo que ainda não se consegue por cá, a não ser em situações muito excepcionais, mas no Brasil tornou-se algo corriqueiro. Uma segunda licenciatura permite concorrer a mais vagas e aumentar as oportunidades de colocação dos professores. Ávidas de alunos, as universidades e escolas superiores fazem o jeito, recorrendo a um truque antigo e bem conhecido: trata-se de usar as famosas equivalências para dispensar os estudantes da maioria das disciplinas do curso, reduzindo-o assim à duração mínima de um semestre.

Vendo as coisas como elas são, percebe-se que este é o corolário lógico de um ensino cada vez mais assente no estudo superficial de tópicos – agora chamados aprendizagens essenciais – em vez de uma base estruturada de conhecimentos. Em transdisciplinaridades – campo em todos sabemos de tudo, porque “está tudo na internet” – em vez da especialização disciplinar. E em competências instrumentais substituindo o conhecimento sólido, estruturado e base de autonomia, do espírito crítico e de novas aprendizagens.

O desinvestimento na formação de professores é uma demonstração evidente da degradação das políticas educativas que a OCDE, o Banco Mundial e as multinacionais estão a impor à escala global. Só um sistema educativo pouco ou nada exigente aceita formar professores especializados em apenas seis meses, a quem a acumulação de cursos apenas facilitará que sejam, nas escolas, pau para toda a obra. Trabalhadores docentes precários e mal pagos, contratados e descartados ao sabor das necessidades e dos caprichos dos dirigentes educativos.

Música para o Dia de S. Ranking: As Meninas – Xibom Bombom

Analisando essa cadeia hereditária
Quero me livrar dessa situação precária

Onde o rico cada vez fica mais rico
E o pobre cada vez fica mais pobre
E o motivo todo mundo já conhece
É que o de cima sobe e o de baixo desce

Mas eu só quero
Educar meus filhos
Tornar um cidadão
Com muita dignidade

Eu quero viver bem
Quero me alimentar
Com a grana que eu ganho
Não dá nem pra melar

E o motivo todo mundo já conhece
É que o de cima sobe e o de baixo desce

Pensamento do dia

…de um apoiante assumido da solução política a que se convencionou chamar geringonça. Que não deseja o regresso da direita ao poder, mas não abdica de um olhar crítico sobre o que se passa à sua volta nem está disposto a branquear os erros clamorosos na gestão da pandemia que, nos últimos tempos, se têm vindo a acumular.

Quando a pandemia escalou nos EUA, tornando-se o país com maior número e infectados e mortos pela covid-19, a culpa foi da política irresponsável e negacionista de Donald Trump.

No Brasil, com a gestão incompetente de Bolsonaro e idêntico negacionismo da gravidade de mais uma “gripezinha”, idem aspas.

E em Portugal, quando estamos já com taxas de infecção e de mortalidade por covid-19 proporcionalmente superiores àqueles dois países, a culpa é… dos portugueses?…

Músicas de Carnaval: Susana Félix feat. Zeca Pagodinho e Emicida – Samba da Matrafona

É professor, come os restos dos alunos…

restos.JPGAconteceu no Brasil, país onde as autoridades educativas conseguem tratar os professores ainda pior do que em Portugal. Mas, com as políticas e os políticos que temos tido no sector, será caso para dizer que vamos no bom caminho…

Professores da Escola Municipal Doutor Roberto Shoji, na Praia Grande, no litoral paulista, alegam ter sido proibidos de consumir a merenda servida na escola e orientados pela direção a comer as sobras da refeição dos alunos.

Um docente que preferiu não se identificar contou ao UOL que os professores foram informados sobre a regra durante reunião na última segunda-feira (10).

Na ocasião, a nova diretora, que assumiu o cargo no início deste ano letivo, teria dito que a orientação vinha da Secretaria Municipal de Educação — o professor, no entanto, conta que até ano passado ele e os colegas tinham acesso normal à merenda.

A reportagem teve acesso à ata da reunião, que diz: “Alimentar-se da merenda após os alunos, não junto com eles, caso haja sobra”.

O professor alega que os docentes da rede municipal não recebem vale-alimentação ou nem vale-refeição e que ainda enfrentam uma série de restrições em relação à comida que levam de casa.

A uberização da docência

prof-e.pngEnquanto por cá se tenta relançar a discussão acerca do modelo de colocação de professores, preparando o terreno para uma futura revisão da lei dos concursos, no Brasil ensaiam-se processos inovadores de recrutamento para necessidades temporárias de docentes.

É o caso do aplicativo prof-e. Os candidatos à docência registam-se e, depois de um processo simplificado de selecção, ficam integrados numa plataforma de funcionamento semelhante à Uber: as escolas aderentes comunicam as suas vagas temporárias e o sistema convoca os professores disponíveis, que podem aceitar ou não. As aulas poderão ser leccionadas presencialmente, caso a escola se situe na cidade em que o professor reside, ou via internet, para qualquer escola brasileira.

…os docentes que quiserem fazer parte da plataforma precisam pagar um valor para a inscrição, que é de R$20,00 para o ensino fundamental Ciclo II (todas as disciplinas); R$30,00 para o ensino médio e técnico (todas as disciplinas) e R$ 40,00 para instituições de ensino superior – Ies (todas as disciplinas).

Não há prova nem classificação de candidatos. O resultado é publicado como aprovado ou não aprovado, sendo avaliados os requisitos mínimos que constam no Edital. O prazo de inscrição encerra em 7 de fevereiro.

Os candidatos preenchem o formulário, postam os documentos solicitados e gravam uma vídeo-aula de até 5 minutos em alguma disciplina de sua graduação ou licenciatura como se fosse se candidatar ao Big Brother.

Os promotores desta plataforma oferecem 80 horas de formação aos candidatos aceites e afirmam que o novo sistema ajuda a minimizar o que consideram ser um dos maiores problemas das escolas: as aulas que se perdem por não se conseguir substituir atempadamente os professores ausentes.

Para já o sistema estará a ser experimentado apenas em escolas particulares, mas há quem tema que este possa ser apenas um passo intermédio antes da sua extensão ao ensino público. Algo que, obviamente, não interessa nem aos professores nem a quem defende uma escola pública de qualidade.

De facto, a falta de professores não se resolve com a precarização da profissão. Implica, pelo contrário, um investimento continuado na formação docente, na valorização profissional dos professores e das suas carreiras e num sistema de colocações que garanta estabilidade profissional e continuidade no trabalho pedagógico.

Marcio Pochmann, economista especializado no mundo do trabalho,  pesquisador e professor da Unicamp e ex-presidente do Ipea, de 2007 a 2012, afirma que trata-se de precarização do trabalho do professor. Em sua conta no twitter ele destaca que, após ser autorizado esse tipo de contratação pelo governo Temer há dois anos, “começou a instalação da uberização nacional da docência privada”, para ele, trata-se da antessala da educação pública , a ocorrer por “cadastramento de professores” para servir ao processo contínuo de substituição em aulas presenciais ou não, em qualquer local do país.

O professor Marcos Fuhr, da direção do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do RS (Sinpro/RS), diz que “esse formato de contratação é um absurdo e que o Sindicato já está estudando formas de atuar diante de eventuais irregularidades ocorridas no Rio Grande do Sul e outros descumprimentos da legislação vigente, buscando respeito aos pisos salariais e manutenção dos direitos dos professores”.

Música para o Prémio Camões: Chico Buarque – Geni e o Zepelim

Educação brasileira: todos contra Bolsonaro

manif-belem-para.jpgA Educação brasileira vive tempos agitados. A última loucura do presidente Bolsonaro passa pelo anúncio de um corte de 30% nos financiamentos das universidades públicas. Isto influirá não só no funcionamento corrente das instituições, mas também nas despesas com contratação de pessoal e bolsas para estudantes e investigadores.

A reacção não se fez esperar: professores e estudantes, com amplo apoio da sociedade civil, promoveram no passado dia 15 um conjunto de manifestações que representaram uma das maiores acções de protesto e luta que já se fizeram contra o bolsonarismo. Curiosamente, ou talvez não, este movimento colectivo está a ser praticamente ignorado fora do Brasil, sendo claramente uma matéria que desinteressa aos fazedores da agenda internacional da Educação. E mesmo entre os jornais brasileiros, é necessário recorrer aos media alternativos para se ficar com uma ideia mais precisa da dimensão dos protestos.

Ao contrário do que sucedeu no tempo de Lula da Silva, quando a Educação começou efectivamente a funcionar como elevador social, permitindo a jovens pobres, mas aplicados nos estudos, alcançar formações superiores, o novo poder encara o sector como fonte de despesa e alvo prioritário de poupanças orçamentais. E prefere, naturalmente, reforçar o carácter elitista do sistema de ensino. Afinal de contas, se os filhos dos pobres continuarem a ter demasiadas oportunidades, quem se sujeitará, no futuro, a ser criado dos ricos?

Desde a manhã desta quarta-feira (15), as ruas do país foram tomadas por milhares de estudantes, professores e trabalhadores de escolas e universidades, por conta do Dia Nacional de Greve na Educação, em protesto contra os cortes anunciados pelo Ministério da Educação (MEC) para o setor. Após as 14h, todos os estados já haviam registrado manifestações.

O sucesso das manifestações foi tamanho que as entidades organizadoras decidiram convocar um novo protesto em âmbito nacional para o próximo dia 30 de maio.

Segundo a apuração da Confederação Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE), mais de um milhão de pessoas participaram das manifestações. Conforme levantamento do Brasil de Fato na imprensa e nas redes sociais, houve manifestações em mais de 200 municípios.

No último dia 30 de abril, Abraham Weintraub, ministro da Educação, anunciou cortes de 30% em todos os níveis da educação. Nas universidades federais, o governo bloqueará 30% do orçamento previsto para pagamento de dívidas não obrigatórias, como trabalhadores terceirizados, obra, compra de equipamentos, água, luz e internet.