Música para o Prémio Camões: Chico Buarque – Geni e o Zepelim

Educação brasileira: todos contra Bolsonaro

manif-belem-para.jpgA Educação brasileira vive tempos agitados. A última loucura do presidente Bolsonaro passa pelo anúncio de um corte de 30% nos financiamentos das universidades públicas. Isto influirá não só no funcionamento corrente das instituições, mas também nas despesas com contratação de pessoal e bolsas para estudantes e investigadores.

A reacção não se fez esperar: professores e estudantes, com amplo apoio da sociedade civil, promoveram no passado dia 15 um conjunto de manifestações que representaram uma das maiores acções de protesto e luta que já se fizeram contra o bolsonarismo. Curiosamente, ou talvez não, este movimento colectivo está a ser praticamente ignorado fora do Brasil, sendo claramente uma matéria que desinteressa aos fazedores da agenda internacional da Educação. E mesmo entre os jornais brasileiros, é necessário recorrer aos media alternativos para se ficar com uma ideia mais precisa da dimensão dos protestos.

Ao contrário do que sucedeu no tempo de Lula da Silva, quando a Educação começou efectivamente a funcionar como elevador social, permitindo a jovens pobres, mas aplicados nos estudos, alcançar formações superiores, o novo poder encara o sector como fonte de despesa e alvo prioritário de poupanças orçamentais. E prefere, naturalmente, reforçar o carácter elitista do sistema de ensino. Afinal de contas, se os filhos dos pobres continuarem a ter demasiadas oportunidades, quem se sujeitará, no futuro, a ser criado dos ricos?

Desde a manhã desta quarta-feira (15), as ruas do país foram tomadas por milhares de estudantes, professores e trabalhadores de escolas e universidades, por conta do Dia Nacional de Greve na Educação, em protesto contra os cortes anunciados pelo Ministério da Educação (MEC) para o setor. Após as 14h, todos os estados já haviam registrado manifestações.

O sucesso das manifestações foi tamanho que as entidades organizadoras decidiram convocar um novo protesto em âmbito nacional para o próximo dia 30 de maio.

Segundo a apuração da Confederação Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE), mais de um milhão de pessoas participaram das manifestações. Conforme levantamento do Brasil de Fato na imprensa e nas redes sociais, houve manifestações em mais de 200 municípios.

No último dia 30 de abril, Abraham Weintraub, ministro da Educação, anunciou cortes de 30% em todos os níveis da educação. Nas universidades federais, o governo bloqueará 30% do orçamento previsto para pagamento de dívidas não obrigatórias, como trabalhadores terceirizados, obra, compra de equipamentos, água, luz e internet. 

Professor brasileiro, alvo a abater

julio-cesar-barroso.jpgUm professor foi morto na tarde desta terça-feira após levar dois tiros de um estudante dentro de uma escola em Valparaíso de Goiás, a 35 km de Brasília. O adolescente, de 17 anos, já foi identificado, mas está foragido. A vítima é Júlio César Barroso de Sousa, 41, que também atuava como coordenador de turno do colégio.

A história conta-se em poucas palavras e serve para assinalar, no Dia do Trabalhador, a insegurança com que muitos docentes exercem quotidianamente a sua profissão: no turno da manhã, o aluno de uma escola brasileira insultou e ofendeu uma professora. O coordenador da escola interveio: suspendeu-o, mandando-o sair da escola e avisando-o de que chamaria a polícia se voltasse. À tarde, o jovem regressou com uma arma de fogo, que usou para matar o professor.

Quando o próprio ministro da Educação diz, a quem o quer ouvir, que “os comunistas merecem levar bala na cabeça”, percebe-se que, para os políticos actualmente instalados no poder, combater a perpetuação desta cultura de violência e morte que é potenciada pelo acesso fácil às armas está longe de ser uma preocupação. Pelo contrário, vêem-na até como solução para diversos problemas, reais ou imaginários.

No Brasil, como em quase todo o mundo, tenta-se fazer da escola, e não das ruas, dos locais de trabalho ou das prisões, o espaço privilegiado de integração de todos os marginalizados, incluindo reais ou potenciais delinquentes. Mas sem dotar as escolas dos recursos necessários para lidar com a diversidade e com a complexidade dos problemas, os conflitos tornam-se inevitáveis. Obrigados a assumir uma autoridade que nem sempre têm condições para impor, os professores tornam-se, facilmente, um alvo a abater. A docência transforma-se, assim, numa profissão de alto risco. Como a tragédia de ontem infelizmente demonstrou.

Sabem por isso a muito pouco os lamentos das autoridades, mesmo quando garantem que têm “feito todos os esforços no sentido de contribuir para a cultura da paz”. Depois de consumado o crime, a comunidade escolar verá reforçados os meios – psicólogos, assistentes sociais, vigilantes – que seriam importantes, acima de tudo, se pudessem ser aplicados na prevenção destas tragédias.

O sucesso das escolas militares

Escola-Militar-Tiradentes-16.jpgAs escolas militares não são propriamente uma novidade no Brasil. O modelo, decalcado dos tradicionais colégios militares, enfatiza a ordem e a disciplina na organização escolar e tem sido adoptado por diversas escolas públicas colocadas sob a tutela da Polícia Militar. E parece destinado a desenvolver-se nos próximos tempos, depois de o presidente Bolsonaro ter manifestado a intenção de apostar neste modelo de ensino.

Contudo, a atenção mediática também se justifica pela a crescente procura que estas escolas estão a ter por parte dos alunos e das famílias e até mesmo dos professores, que parecem atraídos por uma ideia tão simples quanto eficaz: numa escola onde há regras disciplinares rigorosas, só têm lugar os que querem aprender. E sem indisciplina as aulas rendem muito mais. Uma realidade que os resultados dos exames parecem confirmar.

Exemplo de disciplina e bons resultados quando se fala em instituições públicas de ensino, as escolas militares de Mato Grosso têm sido palco de disputas por vagas não apenas entre alunos do ensino fundamental. Profissionais da educação também têm preferido trabalhar nessas unidades e, quase sempre, a oferta é superior às necessidades da instituição.

A diretora da Escola Militar Tiradentes de Cuiabá, major da Polícia Militar Evandra Caroline Taques Senderski afirma que, neste ano, recebeu seis candidatos a professor só para a disciplina de língua portuguesa. O dobro do necessário. Para o setor de apoio às atividades escolares – o que inclui merendeiros, vigias e zeladores – a procura foi ainda maior: nove servidores públicos disputaram duas vagas.

Professora de História, Filosofia e Sociologia na Tiradentes de Cuiabá, Wadia Apaula confirma: “agora mesmo acabei de receber um pedido de uma pessoa, um professor que queria muito vir para cá”, disse, logo no início da conversa com a reportagem do LIVRE. E o motivo, segundo ela, é simples: “aqui a gente consegue trabalhar”.

[…]

Há 20 anos trabalhando na Escola Tiradentes de Cuiabá, a professora Wadia Apaula afirma que já lecionou em escolas públicas “civis” e que a própria postura dos alunos das unidades de ensino militar – e até a dos pais deles – é diferente. “O aluno tem que fazer. Se não tem retorno, a gente chama o pai, chama a mãe e eles têm que vir. A parceria funciona melhor, da escola com a família. Quando o pai coloca o filho aqui, ele já sabe disso”, afirma.

Sobre como as coisas funcionam, Wadia explica que militares e professores fazem um trabalho em conjunto e sem interferências nas questões que não lhe dizem respeito. Enquanto a parte pedagógica – o que vai ser ensinado aos alunos – é definido pelos profissionais da educação, a organização do espaço e oferta de condições de trabalho fica a cargo dos militares.

Mas esta é apenas uma parte da realidade. Na prática, as escolas militares seleccionam os seus alunos, e quantos mais houver à espera de vaga, mais podem escolher. No limite, podem igualmente expulsar aqueles que não se adaptarem às suas regras. Neste aspecto, não se distinguem muito dos colégios privados que servem os alunos oriundos de meios mais favorecidos. E quando assim é, já se sabe, temos meio caminho andado para a melhoria dos resultados e o sucesso do projecto educativo.

Contudo, se melhorar as aprendizagens e os resultados escolares de alunos motivados para estudar e aprender pode ser um bom ponto de partida, está longe de ser o suficiente para um sistema educativo que continua a comparar desfavoravelmente com o de outros países com níveis semelhantes de desenvolvimento. Quando se seleccionam alunos, não é difícil apresentar resultados. Pelo que o grande desafio, num país com as gigantescas assimetrias sociais do Brasil passa, isso sim, por construir uma escola pública de qualidade que possa servir a todos.

Wadia afirma que quem quer trabalhar ou estudar em uma Escola Tiradentes precisa entender que existem regras, uma hierarquia e situações que precisam ser respeitadas. “O professor chega em sala e o aluno sabe como receber. Nas outras escolas a gente não tem isso”, exemplifica, garantindo, contudo, que trata-se de uma escola como outra qualquer e que há liberdade pedagógica aos educadores.

Para Valdeir, o fato de haver policiais dentro da escola não é a razão pela qual há mais disciplina nas unidades de ensino militares. “Se isso fizesse diferença, as bases militares nos bairros com altos índices de criminalidade deveriam zerar esses índices. Se só o fato de ter uma presença militar significasse segurança, nós teríamos uma sociedade perfeita”, avalia.

Para o presidente do Sintep, o que separa as escolas militares das demais escolas estaduais é a seleção dos alunos. Segundo ele, além de ali estarem apenas os melhores, há um interesse em comum pelo aprendizado e isso reduz os conflitos.

Massacre numa escola brasileira

brasil-luto.jpgUm adolescente de 17 anos e um homem de 25 mataram oito pessoas, nesta quarta-feira, na escola estadual Professor Raul Brasil em Suzano, na área metropolitana de São Paulo, Brasil. As oito vítimas são cinco crianças, duas funcionárias da escola e o proprietário de uma empresa de aluguer de viaturas vizinha do estabelecimento de ensino, detalhou o jornal Folha de São Paulo. Há ainda uma dezena de feridos.

Os atiradores suicidaram-se em seguida. A Polícia Militar identificou os autores do ataque como Guilherme Monteiro, de 17 anos, e Luís Henrique de Castro, de 25. Eram antigos alunos da instituição, que contava com 1067 estudantes e 105 funcionários. 

O bárbaro e ainda mal explicado massacre ocorrido na escola Raul Brasil desencadeou, como é natural, uma onda de solidariedade no país – onde foram decretados três dias de luto nacional – e um pouco por todo o mundo. É com apreensão e temor que assistimos à globalização desta nova forma de terror, particularmente trágica e perturbadora, que são os massacres escolares. Mas mesmo no rescaldo da tragédia, há quem consiga inverter completamente o problema e a sua solução, na linha da argumentação promovida pelo poderoso lobby armamentista dos EUA:

Copiando a retórica de Donald Trump, o senador Major Olímpio, eleito pelo estado de São de Paulo pelo Partido Social Liberal (que apoiou Bolsonaro), declarou que, “se os professores estivessem armados, e se os serventes [funcionários auxiliares] estivessem armados, essa tragédia de Suzano teria sido evitada”.

Por cá, destaco a iniciativa de solidariedade com as vítimas do massacre que o Agrupamento de Escolas da Abelheira, Viana do Castelo, irá promover. Quiçá um exemplo inspirador…

As imagens que nos chegam do Brasil, país com quem partilhamos a língua e tantos aspetos fundamentais da cultura, não podem deixar ninguém indiferente.

Crianças, professores e assistentes mortos e gravemente feridos num atentado a uma escola devem fazer-nos pensar sobre o grau de violência neste nosso mundo atual e tirar um momento para olhar o caso com solidariedade.

É um ato de cidadania refletir sobre como nos posicionamos perante estes atos de violência, infelizmente comuns em escolas dos EUA, que agora nos aparecem contados em português e sem precisar de legendas.

Estamos muito longe de chegar a esse ponto, mas a violência sempre nos surpreende e não nos deve deixar indiferente num mundo global.

Pouco podemos fazer, mas, como dizia Sophya de Mello Breyner, Vemos, ouvimos e lemos/Não podemos ignorar.

Por isso, nesta escola vamos fazer, de forma simples, o que é usual. Um minuto de silêncio coletivo dos alunos e corpo docente e não docente da escola que decorrerá às 10h25m, do dia 18 de março, segunda-feira.

Música para o Dia da Mulher: Zeca Pagodinho e Martinho da Vila – Mulheres

A importância de cantar o hino

Não faltam carências, necessidades e prioridades ao conturbado mundo da Educação brasileira. Num país que não prestigia os seus professores, não investe adequadamente na escola pública e vem revertendo as políticas sociais do tempo de Lula da Silva, os resultados académicos dos alunos brasileiros mantêm-se, persistentemente, no fundo das tabelas do PISA e de outros testes internacionais.

Mas para o novo governo de Bolsonaro, que chegou ao poder animado da vontade de fazer algumas mudanças no sistema educativo, a primeira prioridade parece estar já definida. E não passa por melhorar os apoios sociais aos alunos ou os depauperados salários dos professores, nem tão pouco por mexidas nas avaliações ou nos currículos. Mais importante do que tudo isso é pôr os alunos a cantar na escola, a plenos pulmões, o hino do Brasil. Com direito a gravação, para que o momento fique registado para a posteridade…

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Numa circular distribuída por todas as escolas do Brasil, o ministro da Educação brasileiro, Ricardo Vélez, deixou um pedido aos directores dos estabelecimentos de ensino para que leiam uma carta aos alunos, cantem o hino nacional e que gravem esse momento em vídeo, para depois ser enviado ao Governo. Tudo isto sem sequer contemplar o pedido de autorização dos pais.

A mensagem do ministro da Educação surge numa altura em que os estudantes brasileiros regressam à escola, depois das férias de Verão, mas não explica o que o Governo pretende fazer com as filmagens. Numa nota enviada às escolas de todo o país, o ministro dá apenas indicação para que os estudantes fiquem de perfil, com a bandeira brasileira de frente, enquanto lhes é lida a carta e que depois ouçam o hino nacional.