Os bloguistas do ensino

Caros colegas, ao longo destes intermináveis anos da desdita docente, vós cativastes os professores deste país. Eles começaram a ler-vos, a apreciar e a respeitar as vossas ideias, e foram ganhando progressiva confiança em vós; e foram alimentando gradativas esperanças nas vossas capacidades, nos vossos conhecimentos, em eventuais iniciativas; e foram, progressivamente, entregando o “seu destino” naquilo que de vós, ainda que inconscientemente, esperavam. Mais do que nos sindicatos, mais do que nas reviravoltas da política, neste ou naquele destacado protagonista, foi em vós que os professores foram depositando as poucas esperanças que tinham, porque vós os cativastes. No entanto, toda essa entrega tem sido vã, uma vez que vós nunca assumistes a responsabilidade de os terdes cativado. Em boa verdade, vós mantendes em cativeiro aqueles que tão bem soubestes cativar (em sentido figurado, claro).

Numa longa e algo críptica missiva dirigida aos professores bloggers, Luís Costa desafia-os a assumir responsabilidades que, em boa verdade, ninguém estará disposto a aceitar.

Sem nomear directamente quem quer que seja, percebe-se que o pensamento do Luís estará num conjunto de três ou quatro autores que lideram as audiências da chamada blogosfera docente e que têm uma intervenção que extravasa largamente o respectivo blogue: partilham e fazem partilhar conteúdos nas redes sociais, escrevem com regularidade na comunicação social mais atenta aos temas da Educação, são mesmo, convidados, ocasionalmente, para entrevistas, depoimentos e debates nos canais televisivos.

Por detrás de um discurso desnecessariamente rebuscado, a ideia de Luís Costa é simples: os professores não confiam nos políticos que sucessivamente os traíram com promessas vãs. Deixaram de acreditar nos seus sindicatos e na eficácia das lutas por eles promovidas. E estão descrentes acima de tudo neles próprios enquanto colectivo, imersos num individualismo que os leva a priorizar os seus próprios interesses.

Em quem confiam, então os professores? Luís Costa acha que a intervenção pública dos professores bloguistas tem levado um número crescente de professores a identificar-se com estes colegas que comentam assuntos pertinentes, divulgam informação útil por vezes mais eficazmente do que sindicatos ou ministério e, acima de tudo, exprimem as preocupações e angústias da generalidade dos professores no terreno, através de um discurso com a qual estes se identificam. Mas percebe-se que o autor, ele próprio um blogger com larga experiência, embora presentemente inactivo, também não acredita verdadeiramente no que propõe: que os professores que, através dos seus blogues, alcançaram a confiança e o reconhecimento dos colegas, promovam a união e a mobilização de uma classe cada vez mais frustrada e desunida. Que em vez de alimentarem o pessimismo reinante, transformem as suas intervenções em mensagens de esperança e motivação para a acção. Em suma, e numa imagem feliz, que libertem do cativeiro os professores que tão bem souberam cativar.

Mas o Luís não se mostra esperançoso, e eu também não: apesar de já ter visto muita gente dizer que este ou aquele daria até um bom ministro da Educação, não vejo nenhum dos potenciais líderes a querer assumir um protagonismo, nem do lado ministerial, nem como representante dos professores. O paradoxo, e também aqui tendo a concordar com Luís Costa, é a facilidade com que se alimenta a crítica contundente aos sindicatos que temos, sem que exista alguma intenção de contribuir para algo de novo, melhor e diferente na representação institucional dos professores. Quer queiramos ou não, por muito importantes e significativos que sejam blogues, associações ou grupos de docentes nas redes sociais, nada disto substitui um sindicalismo forte, independente, representativo e mobilizador.

Há um conceito muito português – o sebastianismo – que, à falta de melhor, ajuda a compreender muito do que se passa actualmente com os professores. Descrentes nas suas próprias forças e razões, desconfiados tanto de quem os tutela como de quem os representa, os professores sonham com o D. Sebastião que os venha salvar. Nos lamentos que vamos ouvindo nas salas de professores e nas redes sociais, o que surge é a queixa recorrente em relação aos outros, aos que nos desprezam, abandonaram ou traíram. Quase nunca o reconhecimento do que podemos e devemos fazer, nós mesmos, para melhorar a nossa condição social e laboral.

Parabéns ao Correntes!

Parabéns ao blogue e ao Paulo Prudêncio, o autor daquele que julgo ser, ao fim de 18 anos de actividade regular, o decano da blogosfera docente.

Um blogue que visito regularmente e onde aprecio, acima de tudo, a profundidade e o rigor da análise e o pensamento crítico e reflexivo sobre os temas educativos. Um contraponto importante ao mundo das opiniões superficiais e apressadas, impostas ao ritmo da agenda noticiosa e das redes sociais, que levam à tentação insensata de ir a todas e de reagir no imediato.

Longa vida ao Correntes e que ao seu autor nunca faltem a inspiração e a vontade de escrever.

Estava, em 2004, a um ano e meio de terminar dois ciclos consecutivos e intensos em cargos de gestão no sistema educativo e sempre com auto-limitação de mandatos; cerca de 8 anos cada, em três organizações diferentes, com muita programação de software “por mares nunca dantes navegados” associada às ideias fundamentais para esses exercícios. Gostava de escrever e os jornais, naturalmente, limitavam os caracteres. Inaugurei um blogue. Escolhi o 25 de Abril para que fosse o dia “inicial, inteiro e limpo” e para escrever livremente. Não cumpri um auto-desafio: não escrever sobre educação.

Em 2006, e perante as trágicas políticas que originaram a crescente falta de professores, escrever sobre educação tornou-se obrigatório e um exercício de cidadania, numa época em que os blogues eram vistos, com alguma piada, como essa coisa das redes sociais que a maioria das pessoas jurava jamais frequentar.

Mantenho um registo diário nesta segunda pele, embora na actualidade os textos detalhados sobre educação sejam mais espaçados e publicados primeiro no Público; dezoito anos sempre são seis mil quinhentos e setenta e quatro dias.

Escrever é um exercício único e continuo a gostar de ter um blogue; e muito obrigado pelas leituras.

O silenciamento da Fenprof

Ontem, 19 de abril de 2022, a RTP, serviço público de rádio e televisão em Portugal, emitiu o programa “É ou não é” sobre o futuro da Educação. Em debate estiveram, entre outros aspetos, os relativos à falta de professores, à sua carreira e às condições de exercício da profissão. Uma vez mais (!), as organizações sindicais de docentes foram excluídas, o que significa que a RTP voltou a prestar um mau serviço, amputando o debate público de participações e pontos de vista importantes para ele.

[…]

Entendeu a produção do referido programa da RTP que, apesar do trabalho desenvolvido por esta organização que representa cerca de 50 000 docentes, não havia interesse em conhecer os seus pontos de vista, o diagnóstico que faz das atuais situações da Educação e dos professores em Portugal. Poderia pensar-se que a opção da RTP teria sido a de não ter representantes de entidades ou organizações, mas não foi o que aconteceu, uma vez que estiveram no debate, por exemplo, a presidente do Conselho Nacional de Educação e o presidente de uma associação de diretores. Estiveram professores, sim, mas exceção feita aos que desenvolvem determinados projetos, os demais eram representantes de si próprios, condição que não se altera por serem dinamizadores de blogues. Não se vislumbra a justificação para privilegiar representações individuais em detrimento de coletivas e, mais do que isso, para excluir estas no que toca aos professores, grupo profissional determinante para os assuntos em análise.

A continuada tentativa de silenciamento dos sindicatos de professores é uma queixa antiga da Fenprof, a maior e mais activa federação sindical de professores. Integra-se numa estratégia mais vasta, que passa não apenas pela desvalorização do movimento sindical, considerado retrógrado, rotineiro e ultrapassado face aos problemas e desafios do mundo laboral no século XXI, mas da própria classe docente, que se procura desta forma menorizar.

Independentemente das queixas ou das críticas que tenhamos a fazer aos sindicatos que, bem ou mal, nos representam institucionalmente, há que reconhecer as razões da Fenprof e a oportunidade deste comunicado: no debate em causa, que noticiei aqui, estiveram presentes um representante associativo dos directores escolares e a presidente do CNE. Já em relação aos professores, por sinal bem representados pelo Paulo Guinote, o Luís Braga e outros – até o director Filinto Lima invocou, mais de uma vez, a sua condição de professor – não foi seguido o mesmo critério de representação institucional. Esta normalização da exclusão dos sindicatos do espaço mediático não é aceitável numa sociedade democrática, quaisquer que sejam as razões invocadas para a justificar. Muito menos numa televisão pública, financiada com dinheiro dos contribuintes e obrigada a deveres de isenção na prestação do serviço público televisivo.

Escusada era a crítica subliminar à presença, no programa em causa, de professores que apenas se representam a si próprios. É verdade que Guinote e os outros apareceram em nome individual, mas não me parece que a afirmação da Fenprof no espaço público deva fazer-se à custa da exclusão de professores que, por mérito próprio, conquistaram alguma notoriedade pública e dignificam a classe docente, como se viu, com as suas intervenções. Se alguém tivesse a infeliz ideia de me convidar para algo deste género, avesso como sou à exposição mediática, de bom grado delegaria em alguém do meu sindicato a minha representação. Mas outros colegas não o quererão fazer, e estão no seu direito.

Além de que a pluralidade de pessoas e ideias, numa classe profissional tão numerosa e diversificada como é a dos professores, deve ser valorizada. Com uma longa história, de que se deve orgulhar, de defesa e dignificação da classe docente, a Fenprof deveria congratular-se com o reconhecimento público que alguns professores vão alcançando autonomamente. Fica-lhe mal, certamente, este menosprezo, esta inveja mal dissimulada, em relação aos “dinamizadores de blogues”. Os adversários da classe docente podem estar em muitos lados. Mas é mau sinal quando começamos a caça às bruxas entre os próprios professores.

O que nos leva à relação difícil que o sindicalismo docente parece ter com a blogosfera e as redes sociais dos professores. É que nem sempre foi assim: recordo o exemplo pioneiro de um dos primeiros fóruns criados especificamente para professores no site do SPN, ainda antes da popularização dos blogues. Era um espaço largamente participado pela franja, na altura ainda minoritária, dos professores que frequentavam com regularidade a internet. Mas não foi capaz de evoluir e de se adaptar, vindo a perder terreno para os blogues e, mais tarde, as redes sociais, em especial o Facebook, onde hoje se concentra a larga maioria dos professores que frequentam o ciberespaço.

Há um distanciamento crescente dos professores em relação aos seus sindicatos e isto passa, não apenas por alguns erros cometidos na acção sindical, mas também por uma notória dificuldade de comunicação entre as “bases” – os professores imersos no quotidiano escolar – e as direcções sindicais, que não têm sabido renovar e se vêm progressivamente afastando desse quotidiano vivido e sentido nas escolas. Os sindicatos, e falo aqui sobretudo dos da Fenprof, que continuam a ser a referência do sindicalismo docente – os seus detractores raramente ou nunca criticam os restantes, é como se não existissem – devem aproximar-se dos professores que representam, ouvindo-os e dando-lhes voz. Investindo, nomeadamente, numa maior e melhor presença nos media, na internet e nas redes sociais. Que tal, em vez da crítica recorrente aos bloggers, seguir-lhes o exemplo?…

Que futuro para o sindicalismo docente?

O sindicalismo docente está nos dias de hoje mais ou menos no mesmo ponto que estava há 15-20 anos, só que com um acréscimo de ineficácia perante o poder político. Após alguma agitação entre 2008-2012, tudo acabou por voltar ao remanso habitual, conveniente a quase todos, excepto os mais interessados, ou seja, a maioria dos professores, do quadro ou contratados. As cúpulas conseguiram resistir à agitação mantendo o essencial do que queriam, que era deixar o status quo quase inalterado. A generalidade dos contestatários “inorgânicos” daquele período (onde me incluo) nunca os quiseram substituir e as “alternativas” como o S.TO.P. chocaram com a aliança de conveniências entre a tutela e a ortodoxia sindical, mais amarela-alaranjada, rosa ou vermelha. Com o aparecimento da geringonça, alguns apocalípticos de direita acharam que o Super-Mário tinha tomado conta da 5 de Outubro (agora 24 de Julho), não percebendo que se estava a passar exactamente o contrário. Os ferozes “radicais” foram amansados para lá de qualquer ponto antes imaginável durante o tempo suficiente para ficarem ainda com menor credibilidade junto das bases, ao mesmo tempo que deram margem de manobra para que uma série de reversões não corressem ou nem pela metade ficassem.

Paulo Guinote escreve, com a mordacidade habitual, sobre a crise do sindicalismo docente. Que é uma realidade insofismável: a grande maioria dos professores não se revê em qualquer um dos mais de vinte sindicatos que representam a classe. E estes raramente conseguem mobilizar um número significativo de docentes para as acções reivindicativas que propõem.

Mas nem sempre foi assim. Quando, nos anos 80, comecei a leccionar, havia elevadas taxas de sindicalização entre os professores. As iniciativas sindicais, mesmo as mais simples como as reuniões sindicais nas escolas, tinham quase sempre casa cheia. A união e a determinação dos professores, construída em torno dos seus sindicatos mais representativos, traduziu-se em conquistas significativas: o Estatuto da Carreira Docente, a valorização salarial, melhorias nos sistemas de concursos, vinculações e carreiras e uma dignificação gradual de uma profissão que passou a ser, em regra, reservada a profissionais com as habilitações adequadas.

No entanto, a este auge conseguido algures pelos anos 90, seguiu-se um progressivo declínio do sindicalismo docente. É escusado relembrar as tensões e as desilusões do longo enfrentamento com os governos de Sócrates, mas foi no decorrer desse processo que muitos professores endereçaram acusações de “traição” aos sindicatos quando estes não deram o seu aval, que nunca poderiam dar, a uma luta de tudo ou nada. Não se tratava, na perspectiva sindical, de uma busca de “lugares à mesa”, como pretende o Paulo, mas de concretizar algo que é inerente e razão de ser do sindicalismo: a negociação e a busca de compromissos.

Embora interprete de outra perspectiva, o que escrevi até agora não contraria, julgo eu, o essencial da análise de PG. No que divergimos é no libelo acusatório contra as “cúpulas” sindicais que, é verdade, não se renovaram o suficiente, nem nas pessoas que as compõem nem, o que me parece mais importante, na acção sindical. Mas é igualmente verdade que – e isto não é, por muito que custe a PG, uma mera figura de retórica – os sindicatos são o reflexo dos professores que temos. Qualquer grupo de professores insatisfeitos que queira fazer melhor ou diferente é livre de se organizar nesse sentido: nem precisam de conquistar a liderança de um dos sindicatos existentes, basta-lhes abrir ao lado um novo sindicato, como sucedeu no caso do STOP, um movimento de dissidentes de sindicatos da Fenprof imensamente enaltecido na blogosfera e nas redes sociais dos professores. No entanto, aos rasgados elogios à “pedrada no charco”, à “lufada de ar fresco” de um sindicalismo que se anunciava novo e diferente, não vi corresponder um movimento de sindicalização em massa que viesse dar força ao novo sindicato. E não me venham com a desculpa do boicote do Governo e sindicatos instalados à afirmação de um novo parceiro: apoiar ou não o STOP e as suas iniciativas era e é uma decisão que compete exclusivamente aos professores que o sindicato pretende representar. Se não o querem fazer, estão no seu pleno direito, escusam é de apontar culpas de outras partes.

Incisivo e certeiro a fazer o diagnóstico da situação, PG tergiversa quando tenta encontrar possíveis “soluções” para o impasse em que nos encontramos: uma classe quase completamente amorfa e praticamente invisível aos olhos da opinião pública, olimpicamente ignorada e desprezada por quem a tutela, excluída na definição de políticas e orientações educativas por um governo que, em contrapartida, insiste em ouvir a “voz dos alunos”. Mas se nem o Paulo, cuja lucidez e capacidade analítica nos habituámos a admirar, encontra soluções, é por uma razão óbvia: elas não existem noutro lado que não seja entre os próprios professores. Desde que existe trabalho dependente, os sindicatos são a forma de os trabalhadores lutarem, organizada e colectivamente, pela defesa dos seus interesses. Se o não querem fazer, nada feito. Individualmente, cada um é livre de procurar melhor vida por outro lado. Colectivamente, terão de se sujeitar a todas as afrontas e prepotências que lhes fizerem chover em cima.

A verdade, e já há muito se deveria ter percebido isso, é que não é um acordo partidário de viabilização do orçamento, uma iniciativa legislativa no Parlamento, a mirífica ordem dos professores que alguns anseiam ou outro qualquer improvável milagre que vão dar aos professores, de mão beijada, o que estes não conseguem obter pela sua própria luta. A valorização do trabalho e a emancipação de quem trabalha têm de ser conquistadas pelos próprios trabalhadores. O Paulo, que é de História, saberá isto tão bem ou melhor do que eu.

Uma última nota a propósito de Mário Nogueira e outros sindicalistas mais ou menos “amansados”, em quem a classe docente deixou de se rever: pelos vistos há quem se reveja, sem problemas, nos dirigentes ministeriais e nos seus comissários políticos, a avaliar pela forma calorosa como os recebem nas escolas e no zelo com que põem em prática as suas determinações e adivinham, até, os seus desejos. Estive esta semana numa formação “maiata” com uma das eminências do situacionismo educativo e pude apreciar, desgostoso, o enlevo com que tantos colegas ouviam as doutorais palavras e resignadamente aceitavam a sobrecarga de trabalho e o bullying profissional que os projectos ministeriais fazem desabar sobre os professores. Mas a malta agradece, submissa, as atenções que têm para connosco e a forma como nos iluminam na difícil tarefa de avaliar os alunos. Algo que, antes da invenção do MAIA, certamente não sabíamos fazer.

Ora se temos tantos e tão bons burocratas, pedagogos e políticos a zelar por nós no ministério, para que precisamos, afinal, de sindicatos?

A Lei do Teletrabalho Aplica-se aos Professores?

Ao Primeiro-Ministro,

À Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social,

Ao Ministro da Educação,

1. Durante o período do primeiro confinamento causado pela situação de pandemia, a transição das aulas presenciais para um modelo de ensino remoto de emergência foi feita, da parte do sistema público de ensino, quase exclusivamente com base nos recursos privados do corpo docente. Essa foi a atitude certa, por parte de profissionais que colocam os interesses dos seus alunos e do próprio país acima das suas conveniências particulares.

2. Logo no mês de abril, o senhor primeiro-ministro anunciou, em entrevista à Lusa, um ambicioso plano para prevenir “um eventual segundo surto do coronavírus” que contemplava “o acesso universal à rede e aos equipamentos a todos os alunos dos ensinos básico e secundário” no ano letivo de 2020-21, no sentido de garantir “que, aconteça o que aconteça do ponto de vista sanitário durante o próximo ano letivo, não se assistirá a situações de disrupção”.

3. A 21 de abril de 2020 é publicado em Diário da República, o Plano de Ação para a Transição Digital, em cujo Pilar I, a primeira medida era um “Programa de digitalização para as Escolas”, no qual existia em destaque “a garantia de conectividade móvel gratuita para alunos, docentes e formadores do Sistema Nacional de Qualificações, proporcionando um acesso de qualidade à Internet na escola, bem como um acesso à Internet em qualquer lugar”.

4. De acordo com o Código do Trabalho (Lei n.º 7/2009, de 12 de fevereiro), no n.º 1 do seu artigo 168.º determina-se que “na falta de estipulação no contrato, presume-se que os instrumentos de trabalho respeitantes a tecnologias de informação e de comunicação utilizados pelo trabalhador pertencem ao empregador, que deve assegurar as respetivas instalação e manutenção e o pagamento das inerentes despesas”.

5. No preâmbulo do Decreto-Lei n.º 94-A/2020 de 3 de novembro determina-se que “a adoção do regime de teletrabalho torna-se, assim, obrigatória, independentemente do vínculo laboral, sempre que as funções em causa o permitam e o trabalhador disponha de condições para as exercer, sem necessidade de acordo escrito entre o empregador e o trabalhador.”

6. Perante o que está estipulado com clareza na legislação em vigor, vimos requerer a V. Exas. que aos professores sejam aplicadas as regras relativas ao teletrabalho, nomeadamente as que remetem para as condições indispensáveis ao exercício das suas funções, como sejam a “disponibilização de equipamento individual ajustado às necessidades” e “de conectividade móvel gratuita”, conforme prometido no Plano de Ação para a Transição Digital.

29 de janeiro de 2021

Os signatários

Alberto Veronesi

Alexandre Henriques

Anabela Magalhães

António Duarte

Arlindo Ferreira

Duílio Coelho

Luís Sottomaior Braga

Paulo Guinote

Paulo Prudêncio

Ricardo Montes

Rui Cardoso

A História importa!

Como professor que quotidianamente estuda e ensina História, junto-me à Anabela Magalhães, ao Paulo Guinote e a todos os colegas desta e de outras disciplinas para assinalar, uma semana depois do bárbaro assassinato do professor francês Samuel Paty, a importância de conhecer, compreender e valorizar a História.

Em Portugal, julgo que nem eu nem qualquer dos meus colegas sentirá a vida em risco por abordar temas polémicos da História contemporânea ou no âmbito da agora muito falada Cidadania.

Por cá, a ameaça à disciplina e ao papel único e insubstituível que desempenha na formação de crianças e jovens vem sobretudo da irrelevância curricular a que vem sendo condenada, perdendo, em sucessivas reformas, revisões e autonomias curriculares, tempo para a sua leccionação.

De uma forma ou de outra, parece que a História incomoda: tanto aos que a querem reduzir a uma fastidiosa sucessão de factos, datas e personagens, como aos que nela vêem uma ameaça à afirmação dos seus dogmas. A verdade é que, entre o pensamento único da cartilha neoliberal – que chegou a ter a ousadia de, pela voz de Fukuyama, proclamar o fim da História – e a afirmação de novos e velhos fundamentalismos, a importância da História para nos ajudar a compreender o mundo em que vivemos é maior do que nunca.

Sim, a História importa!

Os melhores blogues de Educação

Na Twinkl temos pesquisado e falado com bloggers educacionais de todo o país, e criámos uma lista de ‘Melhores Blogs Educativos’ para que se envolva com o seu brilhante conteúdo.

10Agradeço, naturalmente, a distinção que a Twinkl quis atribuir à Escola Portuguesa, integrando este blogue na lista dos dez melhores blogues educativos recentemente divulgada.

Aqui fica o crachá que me foi enviado e que dedico desde já aos leitores do blogue. Afinal de contas, o reconhecimento público do trabalho que por aqui se faz reflecte, antes de mais nada e acima de tudo, o reconhecimento de quem lê, partilha e comenta o que vou publicando.

O que fazer no terceiro período?

mochila.PNGNas vésperas do segundo momento de avaliação, com alunos e professores em recolhimento nas suas casas, o terceiro período continua a ser uma grande incógnita. Com as salas de aula fechadas, haverá condições, materiais e anímicas, para enveredar pela massificação do ensino online?

Confesso alguma perplexidade que senti quando, na ronda habitual pela blogosfera docente, me deparei com a afirmação ousada do Paulo Prudêncio, um dos observadores e comentadores mais lúcidos e perspicazes da nossa realidade educativa. Mas o certo é que, quanto mais releio estas palavras, mais lhes vou encontrando sentido:

Dissemina-se a ideia de que vamos ter uma escola do século XXI à distância em todos os lares do país. Confesso que me espanto. Mas ao contrário, o que não me espantaria era que o ano lectivo terminasse amanhã como uma decisão absolutamente excepcional. Os alunos do básico e do secundário transitavam sem notas. Ficariam poucas questões por resolver, entre elas o acesso ao ensino superior.

Na verdade, se o que se pretende é um ensino de faz-de-conta, um entreter de meninos e meninas, fazendo vista grossa aos que não respondem à chamada e avançando às cegas por um modelo de ensino a distância oscilando entre a “escola dos afectos” para “manter o contacto” e a dos TPCs para os “manter ocupados”, então estou com o Paulo: o melhor é acabar já o ano lectivo.

Pois do que estamos a falar é da necessidade de construir, em tempo recorde, respostas educativas destinadas a faixas etárias muito diversificadas – crianças e jovens dos 6 aos 18 anos – sem descurar a questão da universalidade do acesso e da igualdade de oportunidades. Ignorar as enormes disparidades económicas, sociais e geográficas no acesso às tecnologias que permitem aprender em casa é negar os princípios em que se fundamenta a escola pública, universal e inclusiva – e uma óbvia inconstitucionalidade.

Avançar com um terceiro período feito de aulas não presenciais sem acautelar as fragilidades do modelo que se tenta construir atabalhoadamente, sem alocar recursos nem fazer investimentos, esperando que tudo se resolva à base de parcerias, de sacrifícios pessoais e boas vontades colectivas, apenas aprofundará a brecha educativa entre os que têm, podem e conseguem e os outros, que ficarão cada vez mais para trás.

No ComRegras, partindo dos mesmos fundamentos, Alexandre Henriques apresenta uma proposta diferente:

Se os princípios Constitucionais da equidade, da inclusão, da igualdade estão postos em causa, não deve a escolar avançar sem que todos possam estar no mesmo comboio da aprendizagem. É um absurdo avançar na matéria e ter a plena consciência que vão ficar alunos na estação. É um atentado à verdadeira essência da Escola Pública, uma escola feita por todos e para todos.

Retiremos a pressão de dar novos conteúdos, retiremos a pressão da avaliação, retiremos a pressão de querer chegar a todos da mesma forma. Este 3º período deve ser um período de consolidação de conteúdos já lecionados, aproveitando uma oportunidade rara de ter tempo.

A proposta do Alexandre resolve o problema da exclusão. Ao não darmos ordem de partida ao comboio da aprendizagem, garantimos que ninguém fica apeado na estação. Mas cria outro problema: é que nem os bons alunos gostam de uma escola que os obriga a marcar passo, revendo e consolidando matérias, em vez de os fazer progredir nas aprendizagens. Esta escola, que não ensina coisas novas nem avalia, corre o risco de perder os bons alunos sem que consiga chegar aos restantes, que dela mais necessitam. Ninguém frequenta uma estação de onde não partem comboios…

Sâmara – o novo blogue de Luís Costa

Sâmara 2.pngLuís Costa, um dos pioneiros da blogosfera docente, voltou com um novo blogue. Depois de outras presenças recentes, mas infelizmente efémeras, o autor de Dardomeu e de Bravio regressa às lides com Sâmara – um blogue que promete e que convido a visitar.

Pondo de parte, pelo menos para já, a espada acutilante que desembainhou noutras alturas, Luís Costa prefere dar voz a questões pertinentes que, nos tempos incertos em que vivemos, muitos professores não deixarão de subscrever…

Não seria prudente anular já todas as provas de aferição e as provas finais do ensino básico deste ano? São assim tão vitais?

Não seria mais avisado simplificar ao máximo estas reuniões de avaliação do 2.º período, em vez de ceder à tentação de reproduzir, online, sem a devida preparação e garantia de meios e outras condições, o ambiente e os adereços de uma reunião presencial?

Não seria prudente ― e até mais democrático ― cedermos, no imediato, à tentação de recriar, em contexto cibernético, nossas aulas habituais?

Não seria mais prudente ― e até mais inclusivo ― reduzirmos, no imediato, ao mais comum, ao mais simples e ao mais acessível o tipo de tarefas que solicitamos aos alunos e os meios que eles devem/podem usar para tal?

Não seria mais prudente ― e até mais producente ― irmos fazendo, com os alunos, esse caminho mais lentamente, uma vez que o 3.º período é uma miragem?

Não seria aconselhável a Tutela tirar-nos desde já, a pressão do cumprimento dos programas do ensino básico?

Não seria recomendável o Estado fazer um acordo com as operadoras de telecomunicações relativamente ao custo/gratuitidade da internet para as famílias que têm estudantes?

Não seria melhor ter o bom senso deixar que as escolas encontrem os seus meios de comunicação com os alunos, em vez de produzir, sobre o joelho, uma numerosa parafernália de orientações, muitas das quais absolutamente idílicas (para não dizer mais) e/ou criar brigadas iluminadas?

Não seria bom termos, na ação, o bom senso que temos na dicção?

Não seria melhor termos a coragem de confiar e de simplificar?

VozProf – A voz dos professores

vozprof.JPG

O VozProf é um novo espaço de informação e comentário na blogosfera docente e uma referência que se recomenda aos interessados nestas coisas das escolas e da educação. Das primeiras visitas, destaco o aspecto visual limpo, arrumado e atractivo, bem como a forma muito completa como o blogue acompanha a actualidade educativa, entremeando-a com comentários do autor e alguns artigos de opinião.

O autor, Alberto Veronesi, é um professor bastante activo na blogosfera e nas redes sociais. Editor e colaborador habitual de um outro blogue de professores, o ComRegras, concentra-se agora neste projecto pessoal ao qual desejo, naturalmente, os maiores sucessos.

Na verdade, é sempre com satisfação que assisto ao enriquecimento da presença pública de professores e educadores. Quando os comentadores profissionais da política e do jornalismo, aliados à elite dos “cientistas da educação”, tentam monopolizar o debate público sobre políticas e práticas educativas, é importante que, cada vez mais, os professores, verdadeiros especialistas em Educação, façam ouvir a sua voz. Neste caso, num espaço que, muito apropriadamente, se assume como voz dos professores.