Inquérito à indisciplina nas escolas

Foram hoje publicados no blogue ComRegras os resultados de um grande inquérito sobre indisciplina escolar. O excelente e certamente árduo trabalho de Alexandre Henriques foi igualmente divulgado pelo Público, que chamou o tema à primeira página da edição impressa.

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Numa primeira análise, os dados parecem confirmar uma realidade que todos os professores, empiricamente, têm presente: a indisciplina existe na generalidade das escolas portuguesas mas, na grande maioria, predominam os casos que podemos considerar “leves”, como o estar distraído e distrair os colegas ou interromper as aulas com brincadeiras ou intervenções inoportunas. Os casos de indisciplina grave são relativamente raros, mas existem e tenderão a concentrar-se mais em determinadas escolas e em certos públicos escolares. Considerando dados de estudos anteriores que pareciam apontar para uma maior incidência da indisciplina grave – aquela que não se resolve com simples advertências ou mudanças de lugar – faz todo o sentido a reflexão do autor do estudo:

Alexandre Henriques não deixa, contudo, de se manifestar surpreendido pelo facto de “dois terços dos inquiridos terem referido que há pouca indisciplina”, até porque, lembra, os dois inquéritos anteriores que realizou a directores, em 2016 e 2017, davam conta da existência de um número muito elevado, todos anos, de ocorrências nas escolas. “Hipoteticamente falando, podemos estar perante a banalização da pequena indisciplina. O que no passado era inaceitável, hoje em dia pode ser rotina”, afirma. Mas também há outra possibilidade, admite: “Podemos estar perante uma melhoria dos índices de indisciplina em Portugal.”

Determinar as principais causas e responsabilidades da indisciplina é uma tarefa complexa, embora a maioria dos professores não tenha dúvidas em apontar as falhas na educação familiar e no acompanhamento parental, que levam a que muitas crianças e jovens cheguem à escola sem terem adquirido competências básicas ao nível do saber-estar e do relacionamento interpessoal. Mas os pais, ou quem os representa, preferem enjeitar responsabilidades e apontar o dedo à escola e aos professores: se os meninos se portam mal, talvez seja porque as aulas não são suficientemente interessantes…

Já Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), considera que o facto de os professores considerarem que distracção é indisciplina ilude aquela que deveria ser a “questão principal”. “Se estão distraídos por que é que isso acontece e o que se pode fazer para que não seja assim?” — questiona, lembrando a propósito estudos internacionais que dão conta desta característica dos alunos portugueses: gostam da escola, mas não das aulas.

Entre os depoimentos recolhidos para a peça do Público, destaco ainda o de João Lopes, da Universidade do Minho, que chama a atenção para um ponto incontornável: adianta pouco culpar a educação familiar, pois a escola nunca irá “educar” os pais dos alunos. Prevenir a indisciplina e agir adequadamente de forma a punir e desencorajar os comportamentos disruptivos e a promover a sã convivência e o respeito por todos os elementos da comunidade escolar é uma tarefa que as escolas terão de desenvolver focando-se, essencialmente, nos seus alunos. Responsabilizando e envolvendo os pais, o mais possível, na melhoria dos comportamentos dos seus educandos. Mas não alienando nunca as competências e responsabilidades próprias da organização escolar: afinal de contas, professores e alunos têm direito a uma escola onde todos se sintam respeitados.

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Colaborações: ComRegras

No Topo: O sucesso da luta dos enfermeiros

…a luta longa, dura e, finalmente, bem sucedida dos enfermeiros pode bem servir de inspiração e exemplo aos professores portugueses. Que se queixam do eterno congelamento da carreira, das más condições de trabalho, dos concursos injustos e da prepotência ministerial, mas se têm mostrado incapazes de, de forma organizada, consequente e eficaz, lutarem pelos seus direitos e aspirações…

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No Fundo: A tragédia dos incêndios

Pelo lado negativo, não pode deixar de destacar-se a vaga incendiária que varreu o país no início da semana e provocou já 44 mortos, centenas de feridos e milhares de pessoas afectadas pela perda de bens, incluindo não só casas e automóveis mas também terrenos de cultivo, fábricas e máquinas que eram a base da actividade económica de muitas famílias. Nos concelhos mais afectados, as escolas foram encerradas…

“O primeiro ciclo também pensa”

alunos-abc.pngManter durante uns anos um blog razoavelmente visitado,  não é tarefa fácil.

Muitas vezes pensei em desistir. Uma delas foi quando uma página anónima “Quem se preocupa com os professores do primeiro ciclo” me acusou de plágio. Sempre que os citava usava aspas, e a identificação possível, pois trata-se de um página eternamente anónima. O que prova que há medo entre alguns professores do primero ciclo, ou que têm alguma coisa a esconder. Hoje em dia sobrevivem do que alguns blogues publicam, e perderam o fulgor editorial de outros tempos.

Há medo no 1º ciclo, como sugere o Duilio Coelho, um resistente que continua, através do seu blogue PRIMEIRO CICLO, a intervir na blogosfera docente? Ou serão apenas a descrença, o desânimo e a exaustão a falar mais alto?

Sendo inteiramente verdade que o primeiro ciclo também pensa, todos ganharíamos com uma maior presença destes colegas no espaço de discussão pública dos temas e dos problemas da educação.

Pois pensando juntos, pensamos melhor.

Colaborações: ComRegras

No Topo: As promessas para 2018

Sem dar grandes alegrias, no presente, a alunos e professores, antes pelo contrário, protelando a resolução de alguns problemas há muito diagnosticados à escola portuguesa, o ME prefere projectar para o futuro as melhorias no sistema educativo e na situação profissional dos professores…

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No Fundo: Corrupção (também) na Educação

As inúmeras ligações de Sócrates e dos seus cúmplices mais próximos a empresas de obras públicas, ao grupo BES/GES e aos homens fortes da PT, em casos que envolvem, segundo a acusação, corrupção, branqueamento de capitais e outros crimes económicos, lesaram o Estado em muitos milhões de euros e não passaram ao lado do sector da Educação…

Colaborações: ComRegras

No Topo: Descongelamento das progressões na carreira em 2018

O retomar da contagem de tempo de serviço para efeitos de progressão na carreira já tinha sido várias vezes anunciado pelo governo. Mas só agora surge, preto no branco, na proposta negocial apresentada aos sindicatos da função pública. Não sendo novidade, esta não deixa de ser uma boa notícia para professores, educadores e trabalhadores não docentes das escolas. Mas há também a parte má da notícia…

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No Fundo: Os resultados das provas de aferição

Foram esta semana divulgados os resultados nacionais das provas de aferição realizadas pelos alunos dos 2º, 5º e 8º anos de escolaridade. Que, como todos sabemos, não foram famosos. A maioria dos alunos não concretizou satisfatoriamente as tarefas propostas, mostrando dificuldades ou não realizando sequer o que lhe era pedido. Este padrão mostrou-se comum às diversas disciplinas e áreas disciplinares avaliadas…

Colaborações: ComRegras

No Topo: Professores indignados

Quando o ME, obedecendo a razões economicistas cuja eficácia ainda ninguém conseguiu vislumbrar, decidiu alterar as regras de colocação na mobilidade interna, retirando do concurso os horários incompletos, não terá antecipado bem as consequências da decisão. Pois os professores lesados não se mostram conformados com a sua situação, muito menos com a falta de respostas do ME às suas reclamações…

No Fundo: O ME na encruzilhada

A equipa dirigente do ME suscitou, inicialmente, as melhores expectativas. Um ministro jovem e simpático, investigador com provas dadas e que, apesar da evidente inexperiência, mostrava inteligência e vontade de aprender. Um secretário de Estado para as questões pedagógicas seguro, bem preparado e dialogante. E uma jurista competente e decidida com os assuntos administrativos e financeiros a seu cargo.

Contudo, passados dois anos, e apesar do êxito de algumas medidas iniciais, o estado de graça há muito terminou e o ME parece enredar-se, não só na incapacidade de dar a volta a alguns problemas estruturais do sector, como também nas complicações que ele próprio tem vindo a criar…

Blogosfera sem docentes

Os blogues sobre Educação ocupam um cantinho modesto na blogosfera portuguesa, esmagadoramente dominada por outros temas, ocupações e preocupações: moda, culinária, viagens, maquilhagens, hobbies, estilos de vida.

Ora o tema Educação não consegue competir, em fascínio e glamour, com os temas atrás citados. É um daqueles assuntos em que toda a gente acha que já sabe tudo, pelo que escrever, ler e reflectir sobre ele é, para a grande maioria, uma desinteressante perda de tempo.

Não é por isso de estranhar que a área da Educação esteja muitas vezes ausente de rankings e votações que se fazem tentando determinar quais são os blogues mais populares, interessantes ou com maior audiência em Portugal. Surpreendentemente, contudo, a TVI lembrou-se de incluir a categoria no seu concurso dos “Blogs do Ano”.

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Nenhum dos quatro nomeados se pode considerar especificamente, na minha opinião, um blogue sobre Educação. Serão projectos com qualidade e interesse, um sobre o uso da Língua Portuguesa, outro sobre Feminismo, outro ainda sobre Pintura. Há também o que me parece uma iniciativa empresarial que pretende criar à sua volta uma “comunidade” de jovens estudantes, escrevendo sobre assuntos do seu interesse.

Não deixa de ser curiosa, embora expectável, a ausência de qualquer representante da chamada “blogosfera docente”. Os blogues de professores, sobretudo os mais antigos e com maiores audiências, são bem conhecidos da comunicação social, que a eles recorre quando necessita de informações, opiniões e esclarecimentos para a elaboração de determinadas notícias sobre Educação. Mas não são, pelos vistos, suficientemente bons para terem direito a nomeação.

Claro que as razões se compreendem melhor quando comparamos com as nomeações noutras áreas e encontramos facilmente um padrão comum: percebe-se o gosto pela superficialidade, a valorização da forma em detrimento do conteúdo, a preferência pela escrita leve e concisa para não cansar o leitor. Uma blogosfera bem comportada, previsível e convencional, cada vez mais parecida com os modelos impostos pelas redes sociais.