Finalmente um patrão em condições

…Que não pede declaração de bens e rendimentos nem divulga na praça pública quanto paga aos colaboradores

isabel-santos-e-a-domingues.jpgAntónio Domingues vai trabalhar para Isabel dos Santos

O ex-presidente da Caixa Geral de depósitos vai para administrador não-executivo do Banco de Fomento de Angola

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Os bancos nossos amigos

banqueiro.jpgO governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, disse esta quinta-feira que o elevado valor de crédito malparado no balanço dos bancos é consequência de estes terem funcionado como amortecedores da crise financeira para as famílias.

O discurso de Carlos Costa vem pejado de termos do jargão economês para nos tentar convencer que a banca portuguesa se desgraçou a tentar ajudar os portugueses mais pobres, emprestando-lhes dinheiro que depois não conseguiu recuperar. Mas as palavras do governador são desmentidas pelos últimos dados do Banco de Portugal: em relação ao crédito total, o incumprimento ascende 15,4%, enquanto o crédito vencido, considerando apenas os empréstimos às famílias, é de apenas  4,7%.

Na verdade, assistimos nos últimos anos a milhares de casos de famílias que, empatando as poupanças de uma vida na compra de uma casa, viram o banco executar a respectiva hipoteca quando deixaram de poder pagar as mensalidades, perdendo a casa e tudo o que tinham pago entretanto ao banco.

Já os sucessivos buracos financeiros sucessivamente descobertos nas contas dos bancos, esses sim, vieram revelar a existência de ruinosos empréstimos a grandes especuladores e vultuosas aplicações de capital em negócios arriscados e sem quaisquer garantias para os bancos. Ou seja, se corresse bem os investidores ressarciam o banco e o lucro era para eles, se corresse mal os bancos encaixavam a “imparidade”. Ou arranjava-se maneira de nacionalizar o prejuízo, como veio a acontecer.

Não foram os pequenos créditos ao consumo ou à compra de habitação que arruinaram a banca, mas sim a ganância dos banqueiros, dos comendadores e de outros trafulhas do regime e os muitos milhões que desbarataram em negócios ruinosos ou puseram a salvo em paraísos fiscais. E é vergonhoso que quem foi cúmplice, nem que seja por omissão, de uma parte destas negociatas – pois era pago, e muito bem pago, para ver o que se passava – queira agora ludibriar-nos com estas historietas dos bancos amigos do povo e protectores das famílias.

Guardar o dinheiro no banco

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Uma publicidade que há 50 anos faria sentido. Hoje é tudo ao contrário.

O dinheiro só está seguro nos bancos porque o Estado se dispõe a salvar, com os impostos dos contribuintes, os bancos falidos.

Com as inúmeras taxas e comissões que oneram as contas, ter dinheiro no banco há muito que significa, na prática, perder dinheiro.

Os bancos desbaratam os nossos depósitos em operações de alto risco, em despesas sem retorno, em salários e dividendos milionários para administradores e grandes accionistas e ainda lhes temos de pagar por isso.

E quanto ao apoio à economia, só mesmo a especulação financeira poderá agradecer a ajuda dos bancos, porque a economia real, a que cria emprego e riqueza, há muito se queixa do desinteresse da banca e dos juros usurários cobrados pelos nossos banqueiros.

 

Rapar o fundo ao tacho, ou usar o que é nosso?

passos[1]“Querem deitar a mão às reservas do Banco de Portugal para rapar o fundo ao tacho”. Quem assim falou foi um  Passos Coelho cada vez mais desorientado, que apesar de ter concluído aos 37 anos a licenciatura em Economia, parece já ter esquecido boa parte do que aprendeu. Ou então recorre à demagogia barata de quem quer tomar por parvos os cidadãos e que é sempre indigna num líder partidário, ainda que dum partido tão singular como o PSD.

Mas Mariana Mortágua, com assinalável pedagogia, explicou claramente o que está em jogo na proposta do Grupo de Trabalho sobre a Dívida Pública: não se trata de desbaratar as míticas reservas de ouro do Banco de Portugal, herdadas do tempo de Salazar, nem de gastar sem rei nem roque os fundos que a prudência e as regras vigentes no espaço económico europeu mandam manter a bom recato no banco nacional. Trata-se apenas de fazer uso de dinheiro que constitui receita do Estado, que em parte advém dos juros pagos pelo Estado português pelos empréstimos do BCE e que não ganha nada em ficar parado enquanto nos andamos a financiar a juros elevados nos mercados internacionais.

O BdP tem fundos próprios: capital, reservas, contas de reavaliação e provisões para riscos gerais. Os dois primeiros estão definidos legalmente e ninguém lhes mexe, aumentam todos os anos, e as contas de reavaliação são decididas pelo BCE. Restam então as provisões para riscos gerais, cujo propósito não está definido.

[…]

A média destas provisões na Zona Euro foi então de 1,7% e em Portugal de 4,2%. O que se propõe é que as futuras provisões possam ser menores do que as anteriores, para que estes lucros, pagos pelo Estado, possam servir para financiar políticas públicas e sejam portanto usados por Portugal.

A proposta do Grupo de Trabalho é sensata e correta. É Passos quem tem de explicar porque prefere a demagogia à informação, o medo ao esclarecimento e a austeridade, essa sim rapa-tacho, à sensatez.

Suicídio no banco, ou a história contada pela metade

bpi.JPGConsta que a maioria dos suicídios não são noticiados pela comunicação social. A não ser que as circunstâncias em que ocorrem ou a notoriedade das vítimas imponha a divulgação, os media costumam ter, nos restantes casos, o decoro de evitar expor dramas pessoais que, ao serem do conhecimento público, podem incentivar outras pessoas igualmente perturbadas a suicidarem-se também.

Um funcionário do BPI suicidou-se esta sexta-feira nas instalações do banco na rua Braamcamp, em Lisboa, avança o Observador. Porta-voz da instituição bancária garante ao site que não existia nenhum diferendo com o trabalhador.

O incidente deu-se na sexta-feira à hora do almoço. O funcionário suicidou-se com um tiro de caçadeira, a qual foi apreendida pela PSP.

O BPI avança ao Observador que o funcionário tinha 51 anos e tinha feito um pedido de transferência daquelas instalações de serviços centrais, na rua Braamcamp, para um balcão comercial, o qual fora aceite.

No caso deste empregado bancário que escolheu o gabinete do seu chefe para pôr termo à vida, o Observador, e na sua sequência diversos outros jornais que optaram por dar a notícia, estiveram mal. Não pela opção inteiramente legítima de noticiar o que acharam ser de interesse público, mas por contarem da história apenas o que convém à salvaguarda da boa imagem do banco onde o suicida trabalhava.

Se queriam falar do suicídio, deveriam ter investigado também as suas circunstâncias: como Os Truques demonstram, provavelmente iriam encontrar a história, descrita por um colega de trabalho, de um trabalhador moralmente assediado, desconsiderado, humilhado de forma reiterada pelas suas chefias directas e pela própria instituição, que só no suicídio encontrou saída para o seu desespero:

Hoje um amigo com quem trabalhei cometeu o derradeiro acto. Não sei com que dor, com que drama, com que desespero, com que impossibilidade. Soube apenas que deixou a sua vida.
E que soube e fui sabendo mais? Que preparou o momento. Tratou de alguns assuntos de ordem jurídica e levou uma arma de fogo para o local onde a utilizou. Ninguém faz isto sem previamente ter pensado e maturado no assunto. Não é um acto impulsivo. É um acto determinado.
[…]
Nos últimos tempos, no seu local de trabalho, a miséria humana que nos tem habituado sobrepõe-se à moral e oferece desconsiderações sucessivas ao limite de o deixar sem funções durante um mês. Depois disto oferece como recompensa de 25 anos de trabalho soluções que não se enquadram no seu perfil. Pouco importa a história concreta, porque o desfecho deste relato anulam por si qualquer outra dedução.
A uma hora que foi a hora dele, entra no gabinete da sua hierarquia e sabendo da sua ausência, marca a vermelho a alcatifa definitivamente.
Quem pode ser chefe e desconsiderar um ser humano a ponto de receber esta “nota de despedida”?
Quantos chefes há assim? Iludidos, cheios de soberba, convencidos de tudo, capazes de todas a insensatez que o seu orgulho lhes pede, donos de “lições exemplares”…
Cada vez mais vejo fugir a dimensão moral aos homens.

Todos perdemos. Ele a vida, a mãe um filho, o irmão um irmão, a filha o pai, a namorada o seu amor, os amigos um amigo, o seu chefe a sua paz interior. Ninguém, estou certo, ganhará alguma lição.

Descansa com a paz com que te conheci e que era marca da tua vida.

O mundo está carregado de filhos da puta que não merecem que ninguém morra assim por eles.

Ouro, prata e… o resto

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De um fim-de-semana parco em novidades, salvam-se as vitórias do atletismo.

Que ainda assim não fazem esquecer a ordinarice e o baixo nível de um dirigente desportivo que nem na reeleição soube estar à altura das circunstâncias e acima das picardias clubísticas, prestigiando o clube que dirige.

Do “Assalto ao Castelo”, um excelente trabalho jornalístico de Pedro Coelho, fica a confirmação da suspeita conivência da administração do Banco de Portugal com sucessivas falcatruas e irregularidades na gestão do BES, tornando-se assim co-responsável pela sua falência fraudulenta e ruinosa para o país.

E se já ninguém parece espantar-se que Ricardo Salgado e os seus mais directos colaboradores continuem à solta, quase todos se perguntam como é possível manter-se em funções o governador Carlos Costa, um supervisor bancário obviamente negligente e incompetente que já só o PSD, que o reconduziu, se atreve a defender.

Provérbios de Março

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Difícil encontrar, nos últimos 20 ou 30 anos, um processo de criminalidade económica de razoável dimensão onde o BES não tenha estado envolvido.

Claro que, com penas efectivas de prisão para os responsáveis e coniventes, esta vergonha terminava, ou pelo menos seria reduzida a níveis controláveis, sem colocar em causa, a cada novo escândalo, a tão invocada “estabilidade do sistema financeiro”.

Também se percebe que o dono disto tudo andou durante muitos anos a untar as mãos a demasiada gente. E se agora já não o defendem publicamente, em privado continuam a dar-lhe a mão, que se isto desmorona de vez não se sabe até onde chegarão as ondas de choque.