Imbróglios da semestralidade

…há por aí “escolas” a exigirem que os senhores professores que leccionam disciplinas semestrais divulguem, agora, junto dos encarregados de educação, por escrito, propostas de níveis das disciplinas que agora terminam, não ratificadas pelos respectivos conselhos de turma para posteriormente, lá para Junho previsivelmente, divulgarem as notas finais já ratificadas… e que podem muito bem não ser coincidentes?!!!

Digam-me que não, sim?

Digam-me que isto não está a acontecer…

Anabela Magalhães alerta para uma situação delicada que a aplicação à letra dos normativos sobre avaliação, conjugada com uma organização curricular feita cada vez mais ao sabor das “autonomias de escola” – ou do arbítrio de quem localmente as vai reinventando – está a criar: a divulgação, aos encarregados de educação, de propostas de avaliação não ratificadas pelo conselho de turma.

As regras de avaliação em vigor para as disciplinas semestrais sempre previram esta situação: os alunos que concluem a disciplina a meio do ano são avaliados em conselhos de turma reunidos para o efeito; contudo, as notas ficam “suspensas”, sendo apenas atribuídas no terceiro período, quando é feita a avaliação final nas restantes disciplinas. E nada impede o conselho de turma de alterar a nota anteriormente atribuída se tiver motivos para isso.

O problema é que a Portaria n.º 223-A/2018, depois de confirmar os procedimentos já referidos, determina também o seguinte, no seu artigo 22.º:

6 – Na organização de funcionamento de disciplinas diversa da anual não pode resultar uma diminuição do reporte aos alunos e encarregados de educação sobre a avaliação das aprendizagens, devendo ser garantida, pelo menos, uma vez durante o período adotado e, no final do mesmo, uma apreciação sobre a evolução das aprendizagens, incluindo as áreas a melhorar ou a consolidar, sempre que aplicável, a incluir na ficha de registo de avaliação.

A interpretação, em algumas escolas, é que a avaliação quantitativa feita no final do semestre deve ser dada a conhecer ao encarregado de educação. Uma leitura que me parece redutora e abusiva: o que a lei sugere é uma apreciação qualitativa sobre o desempenho do aluno, não a atribuição de um nível ou classificação.

Claro que, na prática, é mais fácil dizer aos pais a nota que os filhos tiveram e que é o que verdadeiramente lhes interessa, do que elaborar sínteses descritivas das aprendizagens dos alunos. E a questão tenderá a colocar-se com maior frequência à medida que as escolas, encorajadas pelo ME, forem adoptando a semestralidade num número crescente de disciplinas.

O imbróglio, a juntar a muitos que a burocracia ministerial vai inventando, como se as escolas não tivessem já suficientes problemas sérios a resolver, provavelmente só tem uma solução lógica: se o objectivo é insistir na semestralidade, então generalize-se a todas as escolas o regime de avaliação também semestral, que neste momento apenas pode ser adoptado sob a égide dos chamados Planos de Inovação.

Ponham a bota a rimar com a perdigota…

Divulgação: Ponderar alternativas à avaliação do 2.º período

Tendo em conta que apenas três semanas do segundo período foram leccionadas em regime presencial, com as limitações que tal implica em termos de avaliação justa, rigorosa e transparente dos conhecimentos dos alunos, um grupo de professores do ensino secundário propõe que, a exemplo do que já sucede nas escolas com organização semestral do ano lectivo, também nas restantes escolas se reduzam a dois os momentos de avaliação quantitativa.

Publico a tomada de posição conjunta de dez professores da Escola Secundária Martins Sarmento devidamente identificados.

Excelentíssimos Senhores,

Face ao incompreensível silêncio por parte do Ministério da Educação relativamente ao processo de avaliação, matéria que tem sido tão entronizada nos últimos anos, de um período em que tudo indica que se reduzirá a três semanas de aulas presenciais, é expectável que os professores se sintam profundamente preocupados com as tremendas dificuldades que uma avaliação à distância comporta.

Atendendo a que presidem a organizações e instituições com responsabilidades no âmbito das políticas educativas, e atendendo também à situação extraordinária (não lhe chamamos atípica) que estamos a viver, com seriíssimas implicações no processo de ensino-aprendizagem, vimos, na qualidade de professores do ensino secundário, com carreiras profissionais já longas, transmitir as nossas profundas preocupações, senão angústias, relativamente ao processo de avaliação dos alunos no segundo período, quando se afigura uma situação de confinamento, no mínimo, até à interrupção da Páscoa.

Quanto às aulas à distância, nada temos a dizer, não só porque não existe outra alternativa, mas porque francamente consideramos que podem funcionar com considerável eficácia, desde que haja colaboração e disponibilidade dos alunos, o que nem sempre acontece, e que todos possam dispor das tecnologias e outras condições exigidas para o efeito. Mas a questão da avaliação coloca problemas muito sérios, como todos nós sabemos, salvo aqueles que teimam em achar “que o rei não vai nu”. Efetivamente, e sem entrar em pormenores, tanto desnecessários quanto óbvios, uma avaliação feita por plataformas, por mais sofisticadas que sejam, abre sempre muitas possibilidades de fraudes que, cada vez mais comentadas por pais e encarregados de educação e por muitos outros da esfera pública, até por setores que não se situam no âmbito do ensino, mas que têm de recorrer e estas ferramentas , constituem um atentado muito grave à equidade e rigor que deve escrupulosamente nortear o processo de avaliação, princípios que serão ainda mais atingidos se pensarmos na discricionariedade de critérios de avaliação que variam de escola para escola.

Poupando-vos a delongas que envolvem toda esta situação tão precária e melindrosa e que tão bem conhecem, sobretudo potenciadora do fosso social que já é tão preocupante e que tão demagogicamente é invocado, parece-nos que seria oportuno sugerir-vos uma reflexão sobre a pertinência de se encontrar uma alternativa à avaliação neste segundo período, transformando os dois períodos num semestre, situação que já existe em muitas escolas, portanto nada de inédito, e que permitiria não só uma lecionação mais tranquila, mas sobretudo uma avaliação mais justa e transparente, tanto mais que o calendário escolar foi prolongado.

Cientes de que o destinatário deste comunicado deveria ser um órgão deliberativo, parece-nos que outros há com o dever de refletir e questionar esta situação. Agradecíamos que ponderassem uma intervenção neste domínio.

Com os mais respeitosos cumprimentos.

Um grupo de docentes da Escola Secundária Martins Sarmento

Avaliação semestral

A divisão do ano lectivo em dois semestres em vez dos tradicionais três períodos evidencia, nesta altura do ano, uma das suas vantagens: o final de período decorre sem stress, uma vez que não se fazem agora reuniões de avaliação.

Neste modelo, um primeiro momento de avaliação, de natureza essencialmente qualitativa, decorreu já em Novembro. E os alunos têm as primeiras notas apenas no final de Janeiro.

A experimentar este ano o novo calendário avaliativo, que surge como opção das escolas no âmbito dos Planos de Inovação, posso considerar a experiência, até ao momento, positiva. Pelo menos enquanto os órgãos directivos e pedagógicos não se empenham em ligar o grelhador e insuflar no sistema uma carga extra de burocracia avaliativa, em torno de avaliações intermédias, grelhas, relatórios, sínteses, planificações, apreciações globais…

E mantenho a crítica que apontei desde o início: sendo uma opção potencialmente vantajosa, as escolas deveriam poder optar incondicionalmente pela avaliação semestral, sem serem obrigadas a adquirir o pacote completo do “Plano de Inovação” nem a prestar vassalagem aos burocratas ministeriais que decidem a aprovação dos planos. Desta forma…

Em vez de ser uma opção livre e responsável das comunidades escolares, a organização semestral está a funcionar como um rebuçado que o ME oferece discricionariamente a quem aceite caucionar, ainda que parcialmente, as suas más políticas educativas.

Vantagens do ano lectivo semestral

Um estudo promovido pela Direção-Geral da Educação e feito por investigadores do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa dá nota positiva às escolas e agrupamentos de escolas que mudaram o seu calendário escolar e transformaram os habituais três períodos em dois – os denominados “semestres”.

As conclusões referem que a experiência, que chegou a algumas dezenas de escolas do país que optaram pelo sistema alternativo, permitiu uma maior “articulação entre disciplinas”, “facilitando a flexibilidade na gestão do currículo”.Foram ainda “facilitadas as melhorias no processo de ensino-aprendizagem”, apesar de não ser o único caminho possível para que estas aconteçam.

Por outro lado, houve uma diminuição do stress dos alunos que passam, na prática, por menos momentos de avaliação, aumentando o “tempo e a confiança dos professores para introduzirem mudanças nos processos de avaliação”.

A organização por semestres também “contribuiu para o bem-estar dos professores” e “permitiu aos alunos fazerem uma melhor gestão entre o tempo de trabalho e de descanso”.

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Exemplo de organização semestral do calendário escolar

A minha escola faz parte do grupo, ainda reduzido, que optou pela organização semestral do ano lectivo. Sendo ainda cedo para ajuizar da sua aplicação em concreto, antevejo algumas possíveis vantagens neste modelo de organização. Mas também inconvenientes, muito dependendo os seus resultados das condições concretas em que for aplicado.

Comecemos pelas vantagens; com autonomia para gerir o calendário escolar, é possível desligar os momentos de avaliação do calendário religioso, reduzindo a pressão a que alunos e professores tendem a estar sujeitos nos finais de período. 

Reduzindo os momentos de avaliação quantitativa a dois, correspondentes ao final dos semestres, e complementando-os com duas avaliações intermédias, qualitativas, é possível proporcionar aos alunos um ano lectivo com pausas mais frequentes.

Mas atenção: com a adopção do modelo semestral, o ME exige um reforço da avaliação formativa e um mínimo de quatro momentos formais de avaliação dos alunos, em vez dos três obrigatórios no modelo tradicional. Para escolas já atoladas em reunite e burocracia, a avaliação semestral pode bem representar um acréscimo de trabalho inútil e desgastante para os professores.

Finalmente, assinale-se a habitual hipocrisia com que o ME continua a tratar estes assuntos: encoraja as escolas a experimentar o modelo semestral, mas condiciona a sua aprovação – num processo opaco, burocrático e centralista – à adopção de outras medidas de utilidade e alcance mais do que duvidosos, como a adopção de matrizes curriculares onde mais de 25% do currículo é alterado. 

Em vez de ser uma opção livre e responsável das comunidades escolares, a organização semestral está a funcionar como um rebuçado que o ME oferece discricionariamente a quem aceite caucionar, ainda que parcialmente, as suas más políticas educativas.

Escolas obrigadas a adiar reuniões no Carnaval

sala-reunioesCumpriu-se o objectivo deste primeiro dia de greve de professores durante a interrupção lectiva do Carnaval: impedir que as escolas aproveitassem a pausa para a realização de extemporâneas reuniões de avaliação.

Seguindo a velha regra de que a melhor greve é a que não chega a ser preciso fazer-se, o pré-aviso foi suficiente para que a generalidade das direcções escolares que tinham anunciado a intenção de convocar as reuniões desistissem de o fazer. E na única escola onde a decisão foi em frente, as reuniões não se fizeram devido à greve dos professores.

Segundo Mário Nogueira, das “várias dezenas de escolas” que tinham previsto reuniões para esta segunda-feira, apenas o Agrupamento de Escolas Professor António da Natividade, em Mesão Frio, manteve oito reuniões convocadas, sendo que as quatro agendadas para a manhã não se realizaram “porque os professores fizeram greve”.

O líder da Fenprof adiantou que as reuniões para esta segunda-feira e para quarta-feira, dia 26, foram marcadas “não porque eram necessárias, mas como retaliação” à greve que os professores têm vindo a realizar a estas horas extraordinárias.

Ao PÚBLICO, o dirigente sindical lembrou que a luta da Fenprof “contra os abusos e ilegalidades” em relação aos horários de trabalho dos professores já dura há bastante tempo, sem que o Ministério da Educação tenha feito qualquer coisa para resolver o problema.

Perante a intransigência do ME, que continua a apostar em “mais trabalho dos professores” em vez de dotar as escolas com os recursos materiais, humanos e financeiros adequados aos ambiciosos desafios da “escola do século XXI”, a resposta dos professores só pode ser esta: a recusa de todo o trabalho extraordinário que lhes vai sendo imposto, sem que seja reconhecido e remunerado como tal.

Greve no Carnaval?

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A Fenprof marcou greve para 24 e 26 de Fevereiro, dias em que não há aulas? Estarão bons da cabeça? – perguntam alguns professores.

A verdade é que o pré-aviso para estes dias faz todo o sentido. Na realidade, não se trata propriamente de marcar uma nova greve para esses dias, mas sim de prolongar, durante a pausa lectiva, uma luta que vem desde o início do ano.

Ou ainda não tinham dado conta de que está convocada greve ao sobretrabalho, ou seja, a todas as tarefas não lectivas que as escolas tentem impor aos professores para além do seu horário de trabalho?

É precisamente para prevenir a possibilidade de alguns directores aproveitarem a pausa do Carnaval para marcar uma maratona de reuniões, que a Fenprof decidiu estender o pré-aviso àqueles dias.

Como é evidente, não se está à espera que a esmagadora maioria dos professores, que não têm serviço marcado, faça greve. Aplica-se aqui, com inteira propriedade, um velho princípio do sindicalismo, que diz que a melhor greve é a que não tem de se fazer. Sinal de que o objectivo – neste caso, evitar a marcação de reuniões em tempo de interrupção lectiva – foi alcançado sem necessidade de a concretizar.

O pré-aviso de greve no Carnaval garante aos professores deslocados da residência que poderão aproveitar estes dias para estar com a família. E assegura, a quem tem outros  planos para esses dias, que não se verá obrigado a passar o dia na escola em reuniões.

A agenda oculta da semestralidade

tiagobr2.PNGPoder organizar o ano lectivo em semestres, aumentando o número de pausas lectivas e passando a ter apenas dois momentos de avaliação quantitativa, foi o engodo que levou muitas escolas e agrupamentos a elaborar e apresentar à tutela os famosos PPIP – Projectos-Piloto de Inovação Pedagógica.

Decisões ingénuas, percebe-se agora, pois a última coisa que interessa à equipa que tutela o ministério é o exercício de uma verdadeira autonomia das escolas. O que pretendem, isso sim, são escolas e, sobretudo, dirigentes escolares que cumpram, por iniciativa própria, as orientações ministeriais.

A sofisticação do discurso neo-eduquês não liga bem com a necessidade de, em matérias pedagógicas, darem ordens directas às escolas. Por isso, em vez do pau, recorrem à cenoura: ao longo destes quatro anos, foram criando um sistema de recompensas com que vão beneficiando as escolas e os directores que mais fielmente cumprem os desejos e adivinham as vontades dos governantes.

Nesta lógica, não é de estranhar o castigo imposto às escolas que pretenderam mexer na organização do ano escolar sem fazer a pretendida salganhada com as matrizes curriculares: os projectos foram rejeitados. Na base dos indeferimentos, uma decisão tomada de calculadora em punho: as alterações curriculares propostas são insuficientes, não ultrapassando 25% das matrizes curriculares iniciais. E ninguém quer saber se as propostas reúnem o consenso dos órgãos representativos das comunidades educativas: não fazem o que nós queremos, é para deitar abaixo. Sem apelo nem agravo.

Quanto à avaliação semestral: julgavam, caros professores, que iam ter menos reuniões de avaliação e menos burocracia avaliativa? Ora vejam como o PPIP mais acarinhado de todos, o do Agrupamento de Cristelo, trata a questão:

A cada oito semanas, os alunos vão ter uma semana de férias, pausa em que haverá uma avaliação e a preparação das semanas seguintes. Trata-se de mais um passo num agrupamento com cerca de mil alunos (desde o pré-escolar ao 9.º ano), que há três anos entrou num Projeto-Piloto de Inovação Pedagógica para combater o insucesso escolar.

Atenção que as férias de oito em oito semanas são apenas para os alunos. Aos professores, espera-os uma maratona de reuniões-duracell, destinadas a produzir o feedback a transmitir aos alunos e a flexibilizar as semanas seguintes.

A escola de Paredes não divulgou ainda o seu calendário escolar, pelo que vos apresento o de um agrupamento de Rio Maior que segue uma linha semelhante de fidelidade canina aos desígnios ministeriais. Que lhes façam bom proveito os cinco “momentos de avaliação” anuais: duas avaliações finais e três intercalares…

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Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: Organização semestral do ano lectivo 

Em Odivelas o ano lectivo já não se divide em trimestres. Nas escolas básicas e secundárias do concelho foi adoptada a organização semestral do ano lectivo. No debate educativo, o assunto esteve em discussão durante esta semana, suscitando reacções que parecem ser maioritariamente favoráveis. Teoricamente, o modelo traz vantagens…

No Fundo: Universalização do pré-escolar – a promessa não cumprida

Um relatório europeu sobre o acesso à educação pré-escolar veio trazer à berlinda uma realidade incómoda: entre os cinco meses de vida – quando terminam as licenças de maternidade – e até que atinjam os quatro anos de idade, o Estado não dá resposta às necessidades das crianças em idade pré-escolar.

Avaliação semestral: mais motivação, menos indisciplina?

calend-semestralAlém das férias de Natal e da Páscoa, que foram mais curtas, os cerca de 20 mil alunos das escolas de Odivelas puderam gozar algumas pausas extras ao longo do ano.

“Foi muito bom para os miúdos porque tiveram tempo para descansar um bocadinho e voltaram com muito mais ânimo e energia para trabalhar”, contou à Lusa Sandra Torres, professora do 1.º ciclo em Odivelas há mais de 20 anos.

Feitas as contas, o número de dias de aulas foi exatamente igual ao dos restantes alunos do país mas, segundo professores e diretores, registaram-se diferenças nos resultados académicos.

Já se percebeu que vamos ter disto até às eleições: na falta de verdadeiros trunfos eleitorais, repetem-se slogans e ideias feitas, misturam-se alhos com bugalhos e manipula-se a opinião pública plantando notícias nos media mais complacentes com a propaganda governamental.

Pois vamos a ver se nos entendemos: aquilo que de mais positivo existe no modelo da organização semestral do ano lectivo é a possibilidade de, encurtando ligeiramente as tradicionais férias do Natal e da Páscoa, aumentar o número de pausas lectivas. O que é especialmente importante no primeiro período, tendo em conta a sua duração excessiva. Só que isto não depende de haver ou não semestres lectivos, mas da falta de vontade de sucessivos governos em adoptar uma medida que já em tempos foi aplicada em todas as escolas, com benefícios mais do que comprovados.

No desenvolvimento da notícia da Lusa, reproduzida por diversos media, nem sequer há espaço para a demonstração das virtudes do modelo de avaliação semestral. Aliás, assume-se logo que, na velha tradição portuguesa, ainda não se fez nenhum estudo sério sobre o impacto da medida. O que existe são, dizem-nos, “percepções”…

E assim, à boleia dos semestres, surge a conversa do costume sobre os planos para o sucesso e a diabolização das “aulas expositivas” em favor do “trabalho em equipa” e da aprendizagem “em ritmos diferentes”. E claro que não poderia faltar a voz do “especialista”. Do alto da sua cátedra, Domingos Fernandes inventa uma dialéctica para néscios que opõe a “cultura das notas” à “cultura da aprendizagem”. E afirma esta coisa extraordinária:

“O mais importante na escola é aprender. A aprendizagem é mais importante do que a nota de um teste.”

Como disse, senhor professor doutor? Então uma nota atribuída a um aluno não é suposto traduzir as aprendizagens realizadas? Faz algum sentido esta oposição idiota entre duas coisas que se complementam? É evidente que o importante é aprender. Por isso mesmo, devemos assegurar-nos de que o aluno efectivamente aprendeu. Ora os testes são a forma mais directa, simples e objectiva de aferir essas aprendizagens.  A nota, que tanto parece perturbar Domingos Fernandes, é apenas a expressão quantitativa do maior ou menor sucesso das aprendizagens.

Na verdade, não se compreende – ou percebe-se demasiado bem! – o excesso de confiança nas virtualidades das políticas que andam a ser promovidas e ao mesmo tempo se receie tanto o confronto das aprendizagens reais dos alunos com a avaliação objectiva dos seus resultados, usando os instrumentos de avaliação habituais. Será que, lá bem no fundo, não acreditam na qualidade do peixe que nos andam a vender?…

Outra preocupação típica destes eduqueses convertidos aos desafios educativos do século XXI – mas completamente presos aos esquemas conceptuais e mentais de há 20 ou 30 anos – é com os alunos que “ficam para trás”. Eis um exemplo apresentado por DF:

Imagine, numa aula de Matemática estão a dar equações de 2.º grau e a professora apercebe-se de que há um aluno que nem sequer sabe fazer equações de 1.º grau. O professor tem duas opções: avaliar negativamente o aluno porque não sabe ou tentar ajudá-lo a avançar”.

Como qualquer professor no terreno percebe, este não é um dilema entre mais ou menos autonomia, ou de “notas” versus “aprendizagens”. Trata-se de existirem, na heterogeneidade da escola pública, alunos a progredirem a ritmos diversos e a requererem, com frequência, um apoio mais individualizado.  Mas, na sala de aula, o professor nunca está só com “o aluno”. Essa é uma entidade mítica que só existe nos papers dos cientistas de educação e nos discursos demagógicos dos decisores e dos comissários políticos do ME. O que temos nas salas de aula são muitos alunos ao mesmo tempo e uma recusa clara da tutela em aumentar e diferenciar recursos humanos necessários a uma escola verdadeiramente inclusiva e projectada para o sucesso de todos.

O dilema da professora de que fala DF não é entre dar negativa ou “ajudar” o aluno. É entre inventar para o resto da turma um qualquer “trabalho de grupo” para poder tentar recuperar os alunos com mais dificuldades ou, sem ignorar os que têm mais dificuldades, continuar a trabalhar também com os alunos que estão em condições de aprender mais, não frustrando as suas legítimas expectativas. O dilema das escolas portuguesas é, perante a dimensão das dificuldades, não ter meios para dar a todos, ao mesmo tempo, aquilo de cada um precisa.

Quando o contexto sócio-educativo é pouco propício, esta escola das “aprendizagens” tende a ser uma escola onde se aprende pouco. Nenhum aluno fica para trás, mas avança-se ao ritmo dos mais lentos. Claro que, quando chega a altura de avaliar, convém que o peso dos testes, das detestadas “notas”, seja o mais leve possível. Sem resultados convincentes para apresentar, a solução é desprezar “os números”. E valorizar ao máximo o folclore educativo…

Semestres em vez de períodos?

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Em todo o concelho de Odivelas e em mais umas quantas escolas dispersas pelo país, as aulas ainda não acabaram. O ano lectivo está dividido em dois semestres, como acontece no ensino superior, e continua a haver interrupções lectivas no Natal e na Páscoa, mas de menor duração. Em contrapartida, os alunos ganham uma semana de férias no final de Janeiro, altura em que os professores realizam o primeiro momento de avaliação formal.

O regime semestral funciona ainda de forma experimental, mas as reacções parecem ser positivas. Comprovando-se as suas vantagens, estará para breve a sua generalização a todas as escolas do país?…

Os cerca de 20 mil alunos do concelho de Odivelas ainda estão em aulas, enquanto que os colegas do resto do país já estão de férias. Neste concelho, o ano letivo é dividido em semestres, e não em períodos. Este é um projeto-piloto que trocou a habitual divisão do ano em três períodos por dois semestres. Sete meses depois de ter iniciado, o balanço é positivo e o Ministério da Educação admite que esta medida pode ser alargada.

“Há menos pressão, os alunos estão mais disponíveis para aprender e a verdade é que, sem dar por isso, já tenho a matéria toda dada”, contou a professora Ana Maria Gomes, da Secundária da Ramada, ao Diário de Notícias.

Segundo o matutino, o Ministério da Educação está a avaliar as experiências de semestralização “para equacionar a sua possível extensão“, apesar de não se comprometer com datas.

Com base nesta experiência, a divisão do ano letivo em dois semestres, com cerca de 80 dias de aulas cada, foi uma das principais razões para que alunos e professores se sintam confortáveis com esta mudança – a par da redução da duração das aulas de 90 minutos para 50 minutos, decidida pela escola com base na sua autonomia.

O facto de as aulas serem “menos maçudas” e o espaçamento entre testes que esta nova organização por semestres trouxe, são os principais fatores positivos apontados pelos alunos.

Pessoalmente, aplaudo tudo o que simplifique e desburocratize a avaliação. E reconheço que as abordagens flexíveis, holísticas e formativas da avaliação dos alunos que agora se impõem já não se compadecem com a rigidez dos critérios, das fórmulas e das grelhas, muito menos com o carácter por vezes punitivo das avaliações de outros tempos. Se retira pressão a professores e alunos, se deixa mais tempo para as aprendizagens, se proporciona um calendário escolar mais equilibrado, com pausas lectivas mais curtas mas mais frequentes e estrategicamente distribuídas ao longo do ano, então por que não mudar, sendo a mudança, aparentemente, para melhor?

Sabemos no entanto que existem, no ME e nalgumas direcções escolares mais papistas do que o Papa, almas cuja vocação maior é complicar o que parece simples e estragar, com a sua aplicação deturpada, a mais brilhante das ideias. E aqui esse risco, objectivamente, existe: é o de se começar a achar que duas avaliações no ano são poucas e que são precisas avaliações intermédias, na tradição das “reuniões intercalares”. Também já sabemos que, nestas coisas, é perigoso dar-lhes ideias. Ora é isso mesmo que o ME, como quem não  quer a coisa, já começou a fazer…

Questionado pelo Diário de Notícias, o Ministério da Educação admite estar a avaliar as experiências de semestralização “para equacionar a sua possível extensão”, sempre “enquadrada em projetos integrados de reforço da avaliação formativa”.