Professores de Informática escrevem ao Ministro da Educação

logoAnpr.pngA Associação Nacional de Professores de Informática – ANPRI – escreveu uma carta aberta ao Ministro da Educação. E de uma forma clara, aberta e assertiva, colocou questões que preocupam os professores em geral e os de informática em especial.

Ao contrário de outras associações de professores – incluindo a APH, que supostamente me representa – que preferem andar com paninhos quentes em torno da equipa ministerial, a ANPRI fala directamente dos problemas que a falta de meios e a obsolescência dos equipamentos coloca a profissionais a quem se exige que desenvolvam nos alunos competências avançadas no domínio das novas tecnologias.

De facto, a “escola-alfaiate” de que em tempos falava o ministro, a tal que deveria ser capaz de desenvolver para cada aluno uma educação à sua medida, não consegue, com a penúria de meios actual, costurar o fato novo que se deseja: limita-se a ir colocando remendos num fato velho, que já não serve nem a alunos nem professores.

Com computadores velhos, redes e ligações de capacidades muito limitadas, apenas uma ou duas salas de informática na maioria das escolas, destinadas a servir dezenas de turmas, alunos a partilhar os computadores, porque não há para todos, que sentido faz propor a introdução do ensino da programação, da robótica e de outros “artefactos tangíveis”?

Ao contrário de outros, que se deixam enrolar no discurso hipócrita e demagógico em que a equipa ministerial se vem especializando, os representantes dos professores de Informática não têm papas na língua. Ficam alguns excertos significativos de uma carta aberta que merece ser lida na íntegra.

A Internet nas escolas está a funcionar a dois tempos “lenta” ou “parada”, precisam-se soluções. Pretendemos saber se neste “pacote” de 23 milhões está incluída a renovação das estruturas das redes e internet nas escolas.

…pretendemos saber se vai ser disponibilizado algum equipamento às escolas para que sejam criadas condições para que as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), quer enquanto disciplina, quer como meio para a integração transversal nas várias áreas do saber possam ser usadas condignamente, por alunos e professores.

…segundo o artigo do jornal Expresso vão ser disponibilizados seis milhões de euros para o programa “Computação na Escola” para o 1º ciclo. Muito bem, mas, então o 2º ciclo, o 3º ciclo e ensino secundário? Porque não têm, estes alunos, o mesmo direito?

Pretendemos ouvir, também, se a disciplina de TIC vai ter o tempo adequado para que os alunos, futuros profissionais, desenvolvam as competências digitais, no tempo certo, de modo que não seja necessário gastar quatro milhões de euros em programas de requalificação, consecutivamente. Isto, porque já não é o primeiro e dificilmente será o último.

Tendo em conta, que na disciplina de TIC, no 6º ano consta a AE “Utilizar ambientes de programação para interagir com robots e outros artefactos tangíveis”. Vai haver financiamento para adquirir os artefactos tangíveis necessários para a lecionar?

Será desta que vai ser criada uma disciplina de tecnologias, para todos os alunos, no ensino secundário? Esta, sim permitia aos alunos aprofundar as competências digitais, mas, também, sensibilizar e preparar melhor os alunos que seguem percursos escolares nas áreas das engenharias.

Verificamos, ainda, que o painel que V.ª Ex.ª vai moderar é composto por alunos provenientes de projeto de sucesso. […] Mas o grande desafio que lhe colocamos é que organize um painel com os alunos com um percurso de participações disciplinares e casos em risco de abandono escolar. Ajude-nos a resolver estes problemas.

Por fim, indo agora para as metodologias ativas, fala-se, agora, de BYOD (Bring your own device). Não é que os professores portugueses são, mesmo, muito avançados. Repare-se que há anos, que usam os seus próprios devices, na escola.

Seis meses depois, o processo disciplinar a Edviges Ferreira

Edviges Ferreira.jpgApesar de estar há meses referenciada como suspeita da divulgação prévia das matérias que saíram no exame nacional de Português, só agora foi instaurado o correspondente processo disciplinar a Edviges Ferreira, a presidente da Associação de Professores de Português.

Mais vale tarde do que nunca, costuma dizer-se nestas alturas. Da minha parte, congratulo-me por, ao fim de anos de opacidade e suspeições em torno da divulgação selectiva dos conteúdos das provas de exame, se estar finalmente a actuar tendo em vista o apuramento dos factos e a punição dos responsáveis.

Parece começar a perceber-se que não é ignorando as evidências de fraude que se credibilizam os exames nacionais ou se confere sentido de justiça à avaliação dos alunos.

A Inspeção-Geral da Educação concluiu o inquérito realizado sobre a fuga no exame nacional de Português do 12º ano deste ano, e instaurou um processo disciplinar à presidente da associação de professores de Português, Edviges Ferreira, de forma a “apurar responsabilidades”.

O exame realizou-se no dia 9 de junho deste ano, e de acordo com o Expresso, a docente alvo de processo disciplinar dá aulas na secundária Rainha D.Leonor, em Lisboa.

A professora de português também dá explicações a vários alunos de outras escolas, nomeadamente do ensino privado.

Entretanto, a professora visada, cujo nome já tinha sido apontado em tempos numa notícia do Expresso, vem negar categoricamente a autoria da fuga de informação. E o ME, que no seu comunicado não identifica o alvo do processo agora anunciado, também ajuda à confusão:

Ao Diário de Notícias, Edviges Ferreira nega que tenha sido a responsável pela fuga de informação e garante que não foi alvo de um processo disciplinar. “Não sei de nada”. Quando questionada se terá sido a pessoa que passou as perguntas do exame a alguns alunos, a docente foi perentória: “Claro que não fui eu”.

As desventuras da língua

m-carmo-vieira.jpgMaria do Carmo Vieira, uma professora de Português bem conhecida, escreve no Público sobre o ensino da disciplina e os desmandos que esta tem sofrido, nas últimas décadas, às mãos de gente tão ignorante e insensata, como arrogante e oportunista. Que fazem sucessivos disparates, passando de uns para os outros com a ligeireza de quem não tem a capacidade de reflectir e aprender com os erros cometidos. MCV lamenta que a Educação tenha estado e continue a estar entregue a estes aventureiros e bajuladores. E nomeia alguns:

Foi nas minhas discussões com colegas da então direcção da Associação de Professores de Português (APP), nomeadamente com Paulo Feytor Pinto, seu presidente, que pela primeira vez ouvi defender que a Literatura deveria ser retirada dos programas de Português porque não tinha qualquer utilidade para os alunos, devendo ser substituída por textos “funcionais”, “utilitários” e “informativos”. Sublinho o vocábulo porque na altura me surpreendeu o triste raciocínio. A Literatura ficaria reservada só para os alunos de Humanidades. Os restantes dedicar-se-iam exclusivamente à Língua (daí a proposta de mudança de nome da disciplina de Português para Língua Portuguesa) e o seu ensino focar-se-ia numa Gramática renovada pela moderna investigação linguística.

O trabalho realizado pela APP, “Relatório sobre O Ensino e a Aprendizagem do Português na Transição do Milénio” (2002), em estreita cumplicidade com o Ministério da Educação que, então, ultimava a reforma curricular de 2003, veio reafirmar o pesadelo, ou seja, a decisão de privilegiar o “português funcional”, o “útil”, bem como a reflexão sobre “o funcionamento da língua”, aparecendo a Literatura, que não se conseguira expurgar completamente dos programas, como era vontade da APP e comparsas, como um mero tipo de texto, entre tantos outros considerados “úteis”. A justificação da mudança apontava, reiteradamente, para a necessidade de responder com eficácia “às múltiplas solicitações de empregadores e da sociedade em geral”. Um discurso que não se distancia do actual, aliás, perceptível na intervenção do Secretário de Estado da Educação (SEE), João Costa, aquando da realização da Conferência Currículo para o Século XXI, em Abril de 2016, na Fundação Gulbenkian.

Depois deste primeiro golpe, que menorizou efectivamente a Literatura nos programas, retirando inúmeros autores clássicos porque sem qualquer “utilidade” para os alunos e contrários “aos seus interesses” (ideias que ainda hoje vingam no ME), surgiu a “Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário” (TLEBS), uma inovação indissociável do nome do actual SEE, João Costa, cujo objectivo seria, assim fora dito aos professores, “uniformizar a nomenclatura gramatical”, devastada, aliás, por uma outra aventura linguística, a “Gramática Generativa” (a das “árvores”, como alguns a conhecem). O certo é que não houve uniformização alguma, pois não era esse o objectivo, e professores e alunos viram a Gramática tradicional substituída por uma caótica e estéril descrição do funcionamento da língua, considerada por linguistas de referência como um verdadeiro “disparate”. Os disparates foram tais que o próprio ME, face à intensidade da polémica gerada, reconheceu a necessidade de aqueles serem corrigidos, um trabalho que integrou a esposa de João Costa, que considerara “incontornável” a aplicação da TLEBS, fazendo ambos parte da Associação Portuguesa de Linguística (APL).

Esta polémica já é antiga, e nunca consegui compreender como foi possível terem alcançado cargos influentes, em relação ao ensino da Língua Portuguesa, pessoas que não gostam da literatura, que não a querem ou sabem ensinar e, pior do que tudo, que se dispõem a transmitir o seu mau gosto e as suas limitações culturais aos alunos, privando-os do acesso, em contexto escolar, aos clássicos portugueses. Uma estupidez atroz: é como querer estudar História sem contacto com documentos, ou ciências experimentais sem realizar experiências.

Uma concepção meramente utilitária do conhecimento e do uso da língua portuguesa é profundamente empobrecedora para os alunos, que passam a estudar apenas o funcionamento das porcas e dos parafusos com que se constrói a língua, em vez de conhecerem e apreciarem as suas melhores realizações. E, como demonstra MCV, corta as pontes de contacto e o diálogo de saberes que, a partir do estudo das obras literárias, é possível fazer com disciplinas como a História ou a Filosofia. O que nega, na prática, a transdisciplinaridade do currículo e o seu carácter humanista, que em teoria se valoriza mas que na prática se continua a desprezar.

Pois no fundo, do que MCV nos fala é de uma grande conspiração para centrar o ensino da nossa língua, não nas melhores obras dos nossos escritores – e temos imensas, adequadas a todas as idades e níveis de conhecimento – mas no chamado texto utilitário e, sobretudo, nas realizações dos académicos da língua: os linguistas, os gramáticos, os acordistas, os terminologistas. Os vários documentos que foram sendo produzidos para os orientar e formatar retiram autonomia e sentido crítico ao trabalho dos professores. Neste contexto, o que resta de literatura nos programas e na prática pedagógica cai facilmente na categoria dos conhecimentos inúteis. E o secretário de Estado que, enquanto linguista, teve responsabilidades na imposição desta linha, estará a revelar-se, como governante, um continuador à altura de uma ministra de má memória.

João Costa […] bem pode referir a cidadania ou a necessidade de desenvolver o espírito crítico ou defender o estudo do Latim e do Grego ou a importância da Arte, na qual se inclui a Literatura. Falta seriedade e exigência ao seu discurso, e as suas decisões têm-no evidenciado. A relação do SEE com a Literatura é idêntica à da ex-ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, e que ficou indiscutivelmente espelhada quando, a propósito do prolongamento do horário dos alunos do 1.º ciclo, na escola, questionava, com o seu habitual sarcasmo, se os professores não seriam capazes de “entreter” os alunos com “um poemazito”?

Claro que estes voluntarismos reformistas acabam quase sempre da mesma forma: quando o descalabro é já impossível de escamotear, assaca-se a culpa pelas dificuldades dos alunos ao trabalho deficiente dos professores “conservadores” e à má organização das escolas “do século XIX”. E prepara-se mais um ciclo de reformas inúteis e contraproducentes, destinado a repetir e a ampliar asneiras do passado. Não haverá maneira de sairmos disto?…

Fraude no exame de Português: revelada a identidade da suspeita

exp23set17.jpgSegundo a última edição impressa do Expresso – a notícia não se encontra, até ao momento, disponível online e a imagem foi retirada daqui – será Edviges Ferreira a autora da fuga de informação sobre o exame da 1ª fase de Português, que terá beneficiado um grupo de alunos a quem daria explicações e um número indeterminado de outros com quem a informação sobre os conteúdos da prova foi partilhada, via redes sociais.

Recorde-se que a gravação na altura divulgada fazia referência à “presidente de um sindicato de professores”, o que dará para supor que a aluna que aqui se ouve  terá confundido a Associação de Professores de Português, a que Edviges Ferreira preside, com um sindicato de professores:

Ressalvando sempre, nestas circunstâncias, que todo o suspeito se presume inocente até que seja condenado, espero que o caso tenha, a partir de agora, rápidos desenvolvimentos no sentido do apuramento de toda a verdade e da exemplar aplicação da justiça.

A confirmação das suspeitas agora vindas a público significa que o caso é especialmente grave: não se trata de uma professora qualquer – nesse caso, o mais provável era estar já a ser crucificada na praça pública – mas de alguém que lidera uma associação profissional que colabora ao mais alto nível com o ME.

Mais cuidado com futuras parcerias e, já agora, com o IAVE e as suas das equipas responsáveis pela elaboração das provas dos exames nacionais, é o que se recomenda. Pois nada garante que este seja um caso isolado; mas antes a ponta do icebergue da impunidade e dos abusos permitidos por um sistema assente na opacidade e no secretismo.

O que defende a associação dos professores contratados?

Quando apareceu, a ANPC – Associação Nacional de Professores Contratados – mostrou-se uma organização bastante dinâmica, atenta e intransigente na defesa dos direitos destes docentes que o ME tem condenado, durante longos anos, à precariedade.

Mas nos últimos tempos nota-se que a associação tem vindo a perder essas qualidades que fizeram dela uma referência entre os professores contratados. As posições brandas, tomadas muitas vezes a reboque dos acontecimentos, deixaram de ser mobilizadoras. E o site parece mais o de uma filial da DGAE do que de o de uma associação profissional com posições bem definidas e uma agenda reivindicativa própria.

O esmorecimento da luta poderá ter, então, uma explicação evidente: os principais dirigentes da associação já não são, eles próprios, professores precários, pois terão sido abrangidos pela vinculação extraordinária ainda no tempo de Nuno Crato. E estando vinculados a uma escola, puderam beneficiar da mobilidade estatutária que o ME concede a alguns dirigentes das associações de professores, deixando as escolas para trabalharem a tempo inteiro nas respectivas organizações.

anpc

quem chame a atenção para esta nota de rodapé colocada no site, mas eu tendo a ver nisto um ponto a favor da ANPC: todas as associações profissionais de professores são sustentadas pelo ME, que paga aos professores que as estão a dirigir a tempo inteiro como se estivessem nas escolas a dar aulas. Mas, na generalidade, não o assumem com esta frontalidade.

Ora isto leva-nos a uma realidade incómoda: queremos ter organizações que nos representem, que em nosso nome consigam fazer valer, junto do poder político, os nossos interesses. Mas não estamos dispostos a dar o contributo necessário para que elas existam e funcionem. O pessoal movimenta-se para criar e manter grupos de conversa nas redes sociais, mas não para criar e manter associações institucionalmente representativas da respectiva área profissional e independentes do poder político.

Na ausência de associações verdadeiramente representativas, e porque o ME sente a necessidade de ter interlocutores, do lado dos professores, que legitimem as suas políticas, sobretudo no âmbito curricular e da avaliação de alunos, o que temos são pequenas organizações, com reduzido número de associados, que dependem do apoio ministerial para se manterem activas. E que acabam por retribuir esse apoio apoiando, ou não se opondo activamente, a medidas claramente lesivas dos interesses dos que deveriam representar.

O que parece estar a suceder agora com a associação dos contratados já acontece há muitos anos, e perante a complacência geral, com as associações de professores das diferentes disciplinas ou áreas disciplinares…

O que move as associações de professores?

engraxar.gifA necessidade sentida pela Associação de Professores de Geografia de tomar a iniciativa de defender o Perfil do Aluno e a linha de actuação do ME perante algumas críticas, dispersas num mar de consensos, que o documento despertou, leva-me a colocar duas questões.

Primeira: o documento, que se disse estar em discussão pública, pode ser criticado? É que eu, na minha inocência, julguei que sim. E pensei também que as críticas pudessem estender-se à concepção e substância do documento, e não apenas à colocação das vírgulas ou ao acrescento de mais um parágrafo a dizer, mais à frente, mas por outras palavras, o que já se repetiu antes não sei quantas vezes.

Se o documento é para ser apreciado publicamente, o que tanto inclui o elogio como a crítica, então entende-se mal que, a algumas vozes isoladas que ousaram criticar, se tenha entendido que a resposta em manada de catorze associações de professores seria a melhor forma de calar as críticas.

Da minha parte, preferiria conhecer o pensamento próprio de cada uma das associações e acho que teria mais interesse saber a posição de cada uma, especificamente, sobre o dito perfil e os restantes documentos que estarão a ser preparados. Se é que pensam alguma coisa, o que neste momento já dá para duvidar.

O que me leva à outra questão: o que pensa a APG sobre as mudanças curriculares em estudo? Concretamente, sobre a possibilidade, já aventada pelo secretário de Estado João Costa, de a Geografia, tal como a História, passar a ser leccionada como disciplina semestral? Não vê aqui mais uma habilidade para, num aparente benefício do trabalho pedagógico, se retirarem ainda mais horas às duas disciplinas? A desvalorização curricular das ciências sociais e humanas estará no centro das preocupações da APG, e já agora da sua congénere de História, ou o que mais interessa é ficar bem na fotografia de apoio dos reformadores de serviço no Ministério da Educação?

Conviria esclarecerem devidamente, se não fosse pedir muito, os professores que representam.

 

Revisão curricular com outro nome e novos parceiros

escola.JPGO Ministério da Educação está a excluir as sociedades científicas do processo de mudança dos currículos escolares, que está actualmente em curso, denunciaram ao PÚBLICO os responsáveis das sociedades portuguesas de Matemática, de Química, de Física e de Filosofia, que nesta sexta-feira enviaram uma carta ao ministro Tiago Brandão Rodrigues a pedir uma reunião de urgência sobre este processo.

O ministro indicou, por mais de que uma vez, que as sociedades científicas estão a participar neste análise, mas no final de Outubro o secretário de Estado da Educação, João Costa, em resposta à Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), foi taxativo. A SPM tinha-lhe pedido uma reunião para saber as razões de não ter sido convidada a fazer parte da revisão dos currículos. A resposta de João Costa foi esta: “O trabalho em curso é um trabalho integrado, relacionando todas as disciplinas. Exactamente por ser um trabalho centrado na gestão curricular foi minha opção convocar as associações profissionais e não as sociedades científicas”.

Antes de mais, assinale-se a vantagem evidente de ter um professor de linguística como secretário de Estado, quando se inicia uma revisão curricular sem se assumir o que se está a fazer. É que, em vez de a chamar pelo seu nome, João Costa designa-a, sem se engasgar, como um “trabalho aprofundado sobre a sua exequibilidade e flexibilização para potenciar melhores aprendizagens, aprofundamento de temas, trabalho experimental e projectos interdisciplinares”…

Depois, quando se leva a cabo um trabalho deste tipo, é habitual recorrer-se ao aconselhamento das organizações que de alguma forma representam o conhecimento científico e pedagógico de cada disciplina: as sociedades científicas, onde geralmente pontificam professores universitários, e as associações de professores, formadas por profissionais que leccionam nas escolas básicas e secundárias. Sendo estas últimas mais numerosas e estando em geral mais próximas dos professores que no terreno irão implementar as mudanças, justifica-se que surjam como interlocutores privilegiados do governo.

Contudo, há também razões de fundo que terão origem no ministério de Nuno Crato, ele próprio um antigo presidente da SPM que, enquanto ministro, impôs no ensino da Matemática as mudanças preconizadas pela sociedade de que fazia parte, à revelia do entendimento da APM e da quase totalidade dos professores da disciplina, que são hoje praticamente unânimes nas críticas aos programas extensos, desajustados e inexequíveis que aumentam o insucesso e até a aversão à disciplina entre os alunos. Percebe-se assim que João Costa queira agora afastar a SPM do processo que tentará corrigir as asneiras do anterior ministro que aquela organização caucionou. E que, inevitavelmente, as restantes sociedades científicas apanhem por tabela.

Na costumeira luta por protagonismos há contudo uma matéria que fica, como sempre, por esclarecer: quantos professores representam estas organizações? Quantos associados têm, umas e outras, e o que faz cada uma para assegurar que as posições defendidas pelos seus dirigentes têm correspondência com as dos professores que representam?