Estudantes do secundário em manifestação

obras.JPGSão, obviamente, livres de se manifestarem. Mas não sei até que ponto a agenda das associações de estudantes que convocaram para hoje uma manifestação em Lisboa reflecte apenas as aspirações estudantis. Ou se não haverá, pelo contrário, a presença de alguma inspiração político-partidária…

Os estudantes da Escola Secundária de Camões e de outras escolas de Lisboa e do país reclamam, justamente, pela falta de obras e de funcionários em muitas escolas. Mas quando exigem o fim dos exames e a “democratização” do acesso ao ensino superior, querem exactamente o quê?

A verdade é que os exames do secundário funcionam – mal – como critério de ordenação e selecção de alunos para o ingresso nas universidades e politécnicos. Mas pretender o seu fim implica optar por outra forma de selecção dos estudantes nos cursos e instituições mais procurados. Ou então, demagogicamente, achar que é possível abrir todos os anos, em todos os cursos, um número de vagas igual ao de candidatos. Em nome, quer-me parecer, de uma noção mal compreendida do que é a democracia…

“O que deve ser valorizado na escola é trabalho contínuo dos alunos”, defende o presidente da associação de estudantes do antigo Liceu Camões, Simão Bento. Por isso, querem que o Governo acabe com os exames nacionais no ensino secundário e que seja também promovida uma democratização do acesso ao ensino superior.

Quase no final da legislatura, o presidente da associação de estudantes da secundária lisboeta reconhece que o “balanço é positivo”, mas critica o Governo por “nem sempre ter as melhores prioridades”. “Vão milhões de euros par os bancos e para a NATO e não há dinheiro para as escolas”, lamenta Simão Bento.

A “falta de obras” em várias escolas básicas e secundárias e a “falta de funcionários” são, para o dirigente estudantil, exemplo do “pouco investimento no sector”. As condições físicas dos estabelecimentos de ensino estão mesmo na origem do protesto desta quarta-feira. Em Janeiro, os alunos do antigo Liceu Camões fizeram uma manifestação devido aos atrasos nas obras naquela escola, lançando depois de um manifesto nacional – que incluiu outras bandeiras como a redução do número de aluno por turma ou o fim do processo de transferência de competências na área da Educação para as autarquias – que foi subscrito por 50 associações de estudantes de todo o país.

A manifestação dos alunos do ensino secundário em Lisboa acontece esta quarta-feira, antecipando o Dia Nacional do Estudante, que se comemora no domingo. Os estudantes marcaram encontro às 10h30 na praça do Marquês de Pombal, rumando depois à residência oficial do primeiro-ministro. No protesto vão estar representadas cinco escolas de Lisboa e duas de Loures. Em aberto está ainda a possibilidade de o protesto ser replicado no Porto, em Leiria e no Seixal.

A domesticação dos estudantes

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Cinquenta anos volvidos desde que o Maio de 68 colocou a França a ferro e fogo, em gigantescos protestos da juventude universitária, o Público resolveu comparar a contestação social e política desses tempos com a realidade dos nossos dias. E a principal conclusão é esta: hoje, os políticos já não têm medo do que os estudantes possam fazer.

“Passou a ser fixe ir para a Universidade, porque esta tornou-se também uma cena de copos, de noite, de festividades como as das semanas académicas, um sítio para curtir”, constata o sociólogo e professor da Universidade da Beira Interior, Nuno Augusto, que foi estudante universitário no tempo do movimento antipropinas dos anos 90. Desde então, aponta, as associações académicas, “que dão aos estudantes aquilo que eles querem, tornaram-se sobretudo em organizadores de festas”.

E o que tornou isto possível? “São jovens que encaram a democracia como um dado adquirido e que olham para a retirada de alguns direitos como algo natural. Nas condições em que foram socializados, a ideia de pagar propinas ou a precariedade no trabalho tornaram-se normalizadas”, refere este docente.

O sociólogo e professor da Universidade de Coimbra, Elísio Estanque, aponta no mesmo sentido: “Existe uma naturalização, por parte dos jovens, daquilo que lhes é oferecido, mesmo a precariedade no emprego e a falta de perspectivas futuras. E essa naturalização tem-se desenvolvido muito mais do que a rebelião”.

Para este fenómeno tem contribuído, adianta Estanque, a tão elogiada “capacidade de adaptação dos jovens com mais qualificações” e o espírito de “humilhação e submissão” que se tem desenvolvido nas universidades, por via das praxes, “com o caloiro a ser educado, logo à partida, a ter de obedecer”. “E esse espírito está a contaminar muitos sectores da população mais jovem”, avisa.

A notícia do Público recorda que a “guerra das propinas” aconteceu há mais de vinte anos, com os estudantes universitários a mobilizarem-se e a virem para a rua protestar contra o elevado aumento de propinas então decidido pelo governo. E, de então para cá, não parecem ter existido outras grandes causas que tenham mobilizado os jovens universitários para a participação cívica e política, fazendo-os sair da zona de conforto dos estudos, das praxes e das noitadas.

As associações académicas, que historicamente assumiam esse papel de “agitar a malta”, estão hoje dominadas por carreiristas das juventudes partidárias, assumindo mais o papel de organizadoras de eventos do que o de defensoras dos estudantes que representam. E os jovens que por lá passam estão, em muitos casos, mais interessados em somar ao seu currículo a experiência associativa do que preocupados em resolver problemas.

A aversão de muitos jovens em relação à política, que consideram minada por valores negativos como o oportunismo, a desonestidade ou a corrupção. também não os ajuda a perceber a importância da luta organizada pelos seus direitos e pela defesa dos seus interesses.

Ainda assim, o futuro pode trazer-nos surpresas: o preço proibitivo dos quartos para estudantes em Lisboa e no Porto, os cortes na acção social  ou no número de vagas das maiores universidades, a falta de perspectivas profissionais para um número crescente de recém-graduados, tudo isto são realidades de que vamos ouvindo falar e que vão pesando sobre os universitários com maior intensidade.

Será que os líderes académicos conseguirão minimizar estes e outros problemas no remanso das negociações de gabinete, mantendo os colegas alienados das realidades que lhes dizem respeito, ou chegará inevitavelmente a altura em que os estudantes terão mesmo, como fizeram outras gerações antes deles, de vir para a rua gritar?…

O esquema fraudulento das viagens de finalistas

dj.JPGO Público descreve as ligações perigosas entre as direcções das associações de estudantes, as empresas organizadoras de viagens de finalistas e mais alguns peões e protagonistas que circulam neste jogo viciado que envolve dinheiro, influência e poder.

Basicamente, é simples. Um grupo de jovens quer ser eleito para dirigir a associação de estudantes da sua escola secundária. Para isso precisa de organizar uma campanha eleitoral “à maneira”, com actividades apelativas e que suscitem o apoio e o voto dos colegas. Aqui entram as agências de viagens que acumularam experiência nesta área, fornecendo brindes, contratando artistas e dj’s, instalando aparelhagens de som e insufláveis no recinto escolar, sendo este apoio dado com uma contrapartida: se ganharem as eleições, hão-de contratar o patrocinador para organizar a viagem de finalistas.

Outras vezes as eleições “estão no papo” e os dirigentes estudantis não querem apoios para a campanha, mas sim viagens de borla para eles e para os amigos em proporção ao número de finalistas-pagantes que conseguirem angariar. E as agências incentivam este “empreendedorismo” oportunista em que, enquanto houver quem se sujeite a pagar preços inflacionados para não se sentir excluído, os ganhos estão garantidos. Para os mentores destes “dealers”, campeões da popularidade interesseira e manipuladora, tudo se resume a algo muito simples:  “Nós ajudamos os estudantes e eles ajudam-nos a nós”.

Há agências que nomeiam “RP” (relações públicas), ou dealers — estudantes que, de forma individual, conseguem clientes para as viagens e que, tal como as associações, ganham viagens grátis ou as trocam por dinheiro. Nuno Dias diz que o “primeiro contacto” para apresentar os programas de viagens é sempre feito com as associações de estudantes, embora também aceitem a colaboração dos chamados “RP”.

Na agência Megafinalista esta prática é fortemente incentivada. “We Want You” (“nós queremos-te”), lê-se no seu site. “Queres ser o próximo dealer da tua escola? Envia os teus dados.” Depois, vêm as explicações mais detalhadas: “Um dealer é aquele que vai convencer e influenciar os amigos e conhecidos a participar numa das viagens que está a organizar”, prossegue. “Imagina o que é ganhares viagens para ti, para os teus amigos… ou então podes trocar por €€€. Ganhas uma comissão por cada inscrição que fazes, portanto quantos mais inscreveres mais ganhas!”

A agência incentiva ainda os jovens a recrutar e a gerir “uma rede de dealers”. “Afinal não conheces só malta da tua Escola. Imagina o que é teres uma rede de amigos/conhecidos a vender as viagens e tu a ganhares por cada inscrição que eles conseguem! O Céu é o limite.”

Apercebi-me de que isto funcionava assim há uns cinco ou seis anos atrás, quando os meus filhos frequentavam o secundário. E espanto-me agora ao constatar, pela peça do Público, que nada de substancial mudou neste grosseiro esquema de corrupção que nunca deveria ser permitido nas escolas: é esta a aprendizagem da democracia que andamos a promover através das associações de estudantes e do vale-tudo nas respectivas campanhas? Porque nos escandalizamos então com a corrupção, o clientelismo e o tráfico de influências na vida política, se é desta forma que se iniciam, no associativismo juvenil, boa parte das carreiras políticas de sucesso?…

Já quase tudo foi dito nos últimos dias acerca das viagens de finalistas. Mas talvez se deva sublinhar o ensinamento mais importante a retirar dos incidentes, dos excessos e do lavar de roupa suja em que se tentou diluir as responsabilidades de demasiada gente: a necessidade de os pais destes jovens se envolverem activamente na organização, na supervisão e mesmo no acompanhamento deste tipo de actividades. Que deveriam incluir também, já que se invoca o estatuto do estudante finalista uma vertente cultural, a contrabalançar o lado recreativo e o desregramento que tende a predominar nestas experiências colectivas de jovens deixados por sua conta.

Fazer aquilo que muitos pais fazem, que é pagar os 500 e tal euros pedidos, para que os seus filhos não sejam deixados para trás – muitas vezes com enormes dificuldades, pois estamos a falar de um valor que representa a remuneração mensal de metade da população portuguesa que ainda consegue ter trabalho – e alhearem-se do que eles irão andar a fazer durante uma semana, fingindo confiar em organizações que há muito mostraram ser indignas de confiança, é de facto um péssimo serviço que prestam, já nem digo à sociedade, mas aos seus próprios descendentes.