Apagão pela Educação continua…

Mantenho as minhas reservas relativamente à eficácia do protesto. Apenas tem visibilidade junto dos alunos dos professores aderentes e respectivas famílias, sendo também aqueles os únicos a quem pode prejudicar. Pois já sabemos que, desde que isso não se evidencie em números comprometedores para a eficácia das políticas educativas, os responsáveis do ME pouco se importam com o que os alunos aprendem. De uma iniciativa destas, mas facilmente retiram argumentos para continuar a desvalorizar o trabalho dos professores em ensino à distância e para continuar a pugnar pelo alongamento do ano lectivo e a reabertura precoce das escolas, em nome dos enormes danos que estarão a ser causados aos alunos pelo confinamento escolar.

Para lá destas considerações ressalvo, no entanto, que o protesto é justo e inteiramente legítimo. Ninguém é obrigado a colocar o seu próprio computador e internet ao serviço da escola, garantindo o funcionamento sem falhas e a adequada manutenção do material. Pelo que ficaria bem ao ministério assumir a sua incapacidade de assegurar os meios necessários para a educação à distância. Pedindo aos professores o favor, como se faz entre pessoas bem educadas, de cederem o seu próprio material. E encontrando formas de os compensar devidamente por essa boa vontade. Tiago Brandão Rodrigues recebe 750 euros mensais por as suas funções ministeriais o obrigarem a estar deslocado da sua residência habitual. E os professores, obrigados a pagar para trabalhar e de diversas formas já penalizados na sua carreira, vencimentos, tempo de serviço, aposentação, têm direito a quê?…

Fica o cartaz que anuncia a nova semana de protesto, agora meia hora diária de Apagão que pode ser cumprida de diversas formas. Independentemente da concordância ou adesão de cada um, por aqui as contas baseiam-se na soma de esforços e a regra é a mesma de sempre: divulgam-se todas as iniciativas que promovam os direitos e a dignidade dos professores e a qualidade da escola pública.

Um Apagão Pela Educação

A iniciativa, nascida nas redes sociais, pretende dar visibilidade e força a um protesto que até aqui tem vivido sobretudo de posições individuais: o ensino à distância decretado pelo Governo está a fazer-se por conta dos equipamentos dos profissionais da Educação. O ME não só não forneceu quaisquer recursos para o teletrabalho como nem sequer houve a dignidade, da parte dos seus responsáveis, de perguntar aos professores se não se importariam de assegurar o serviço educativo, a partir de casa, com os seus próprios meios. Algo que, como deveria ser óbvio, não têm obrigação de fazer. Também não está prevista qualquer compensação, ainda que simbólica, por esta requisição não assumida de bens privados para a prestação de um serviço público em estado de emergência. E aos professores que declararam não poder ou não querer emprestar o seu material, a resposta foi lacónica: venham então teletrabalhar para a vossa escola!

É neste contexto que surge a iniciativa de estimáveis colegas que, através de paralisações simbólicas, mas coordenadas, do E@D feito a partir de casa, pretendem evidenciar os frágeis alicerces em que assenta este ensino remoto onde a boa vontade e abnegação de quem ensina contrasta com a incompetência e a displicência de quem nada preparou para a eventualidade, mais do que previsível, de um segundo confinamento. Na base, um princípio inatacável: se são nossos os computadores e as ligações à internet, então eles só funcionarão se e quando nós quisermos…

Pessoalmente, não tenho dúvidas acerca da justeza dos princípios invocados. Mas já não estarei tão seguro da oportunidade e da eficácia de uma luta que arrisca dividir os docentes – algo que tem sido visível nas discussões nos grupos de professores – e não ser bem compreendida pela opinião pública. No entanto, divulgo com todo o gosto a iniciativa dos colegas e estarei atento às futuras concretizações, reacções e novos desenvolvimentos.

Um grupo de cidadãos, que exerce a profissão docente, apela aos restantes profissionais de educação, que estão em sua casa a usar, sem compensação, o seu próprio equipamento e condições técnicas para realizar ensino à distância, que adiram ao seguinte protesto, por agora, ainda só simbólico:

  • nos dias 18 e 19 de Fevereiro, quinta e sexta feira, desligar, pelas 9.15h, durante um período de 15 minutos, o equipamento de que são donos e suspender, nesse período, a colaboração com o disfarce de falta de preparação, que tem impedido a opinião pública de perceber que o ministro Brandão mente ao dizer que tudo corre bem e tudo estava preparado.
  • Na semana seguinte apelamos a passar a 2 períodos diários de desligamento de 15 minutos, em horas diferentes, ponderando, na semana a seguir, passar a 3 períodos e, assim sucessivamente.

Apelamos a que o protesto se mantenha até o governo perceber que tem de respeitar e agradecer aos professores a sua boa vontade e colaboração, que tem ajudado a que não se perceba, em nome dos alunos, o desgoverno na educação.

Este protesto, que é simbólico, e visa evitar o custo para os alunos do desligar total, que é legal e legítimo, pelos seus donos da infraestrutura digital do ensino à distância, também serve para que a comunicação social fale de todos os problemas da Educação, de alunos e de professores, num ângulo mais realista e menos desfocado pela propaganda frenética do ministro.

O protesto deve manter-se até o governo negociar com todas as organizações sindicais, em conjunto, os problemas que preocupam os professores e que se agravam de há 15 anos para cá: questões de salário e de respeito pela carreira, condições de trabalho, horários, aposentação, concursos, tratamento dos contratados, avaliação, falta de recursos para os alunos e más condições de trabalho para os assistentes operacionais, imagem pública da classe e sua degradação pelas mentiras junto da opinião pública.

O texto completo pode ler-se no post original. Para os interessados nos aspectos legais e formais deste protesto e esclarecimento de dúvidas, os organizadores prepararam um conjunto de FAQs de leitura fácil e esclarecedora, que pode ser descarregado daqui.