Músicas de Natal: Brigada Victor Jara e Vitorino – Ó Meu Menino Jesus

Leituras: O Alentejo segundo Eugénio de Andrade

alentejo.JPGNo Alentejo, em fins de Julho ou princípios de Agosto, o olhar atinge o seu zénite. No horizonte raso e limpo tudo parece pegado à terra: muros, árvores, medas de palha, montes, quando se avistam distantes. Um delírio de luz sobe à cabeça, como a música das cigarras, e faz doer. As coisas todas estalam como romãs maduras, e ficam cheias de brilhos. Mesmo dentro de casa, com portas e janelas trancadas, a luz entra pelas frestas, entorna-se pelas tijoleiras e reflecte-se, tenuemente rosada, na brancura das paredes. No pátio, uma oculta água ergue-se num repuxo exíguo – e é pura delícia. Cheira a barro e a cal, cheira a coentros e a queijo seco. Cheira ao que é da terra e regressa à terra. Um som de guizos, o trote miúdo das mulas, o grito de uma criança, custam a distinguir, de tão longe vêm. Neste longo, ardente verão do sul apenas as cigarras têm modulações amplas. À roda tudo é silêncio e secura. Os próprios homens quase não têm fala, mas os seus olhos queimam como duas pedras expostas ao sol durante milhares de dias. Só eles afirmam que nem tudo no Alentejo nasce e morre acachapado à terra. Eles, e uns pombos bravos que subitamente rasgam o céu, como quem foge ao áspero, ardido, amargo coração do meu país.

Falei da luz do Alentejo, mas não é ela que verdadeiramente me liga e religa a esta terra: é demasiado ácida, falta-lhe uma doçura última, mediterrânea, que só encontraremos mais a sul. O que me fascina aqui é uma conquista do espírito sem paralelo no resto do país, numa palavra: um estilo. O melhor do Alentejo é uma liberdade que escolheu a ordem, o equilíbrio. Estas formas puras, sóbrias de linha e de cor, que vão da paisagem à arquitectura, da arquitectura ao vestuário, do vestuário ao cante, são a expressão de um espírito terreno cioso de limpidez, capaz da suprema elegância de ser simples. Povertà é talvez a palavra ajustada a uma estética alheia ao excesso, ao desmedido, ao espectacular. Ao luxo prefere-se a modéstia; à anarquia, o rigor; à paixão, um concentrado amor. O Alentejo é inimigo do barroco em nome da claridade. Mundo cerrado (quase apetecia escrever: encarcerado), sem dúvida; mas dos seus limites tira o alentejano a força. O seu olhar, na impossibilidade de ir mais longe, irá cada vez mais fundo, e o que lhe sai das mãos é fruto de uma paisagem enxuta, quase hirta, de uma magreza reduzida ao osso. Uma paisagem essencial, de que pode orgulhar-se um homem, quando lhe reflecte o rosto ou a alma.

Eugénio de Andrade, Alentejo (1997).

Falares alentejanos V

monte-alentejano.jpgPassar p’las brasas: Adormecer.
Pássaro da rebêra: Pessoa viva e interesseira.
Pata chanca: Pessoa coxa.
Pata de chambaril, à: Rispidamente.
Patagalharda: Jogo infantil.
Pataganhas: Pés ou mãos com tamanho anormal.
Pataleta: Episódio de doença como AVC, enfarte ou epilepsia.
Patamêro: Pântano; terreno alagado.
Patarou: Pessoa esclerosada, devido à idade avançada.
Pêdédo: Adoentado.
Peido mestre: Morte.
Pedrisco: Granizo.
Pedro-maria: Homem bisbilhoteiro.
Peganhar: Gozar; arreliar.
Peganhoso: Implicativo; gozão.
Pelharanca: Pele humana flácida.
Pelhêgo: Corpo humano; tronco.
Pelhêra: Armário escavado na parede, geralmente coberto por uma cortina.
Pelice: Samarra; casaco com gola de pele de raposa.
Penegar: Sofrer.
Peniquéda: Dejectos depositados num penico e laçados à rua.
Perna de aiveca: Pessoa coxa.
Pernicar: Beliscar.
Pesculhoso: Exigente; esquisito.
Peseta: Pessoa ruim.
Pexelim: Peixe seco semelhante ao bacalhau, mas com poucas spinhas.
Pêxinho: Homossexual.
Piel: Poial.
Pífaro: Pénis.
Pincolha: Parte cimeira de uma árvore.
Pinguela: Pequena ponte sobre um barranco ou ribeira.
Pinoco: Marco geodésico.
Pintessilgo: Pedinte.
Pipi da tabela: Habitante da cidade.
Placho: Nu.
Planchão: Barriga.
Póda: Planta que origina os cravos.
Pôia: Pão dado como maquia ao dono do forno onde se cozeu a amassadura.
Ponto-marca: Ponto-de-cruz.
Pôpo: Trança de cabelo enrolada na nuca ou no alto da cabeça.
Pôr a trapêlo: Usar no dia a dia.
Pôr em má campo: Embaraçar; difamar.
Pôr uma espinguérda à cara: Falar ininterruptamente.
Porca sara : Bicho de conta.
Portado: Entrada duma propriedade rural; parede de pedra solta que ruiu.
Préido: Propriedade agrícola.
Presalôra: Borboleta.
Procurér: Perguntar.
Pulmonêra: Tosse, catarro.
Puxar despique: Pedir razões.
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Falares alentejanos IV

alentejo4.JPGHonra d’ alegrete: Sobra; resto.
Imbeguéda: Barriga saliente.
Imbeguêra: Cordão umbilical.
Impostor: Vaidoso.
Inda bem não: Entretanto; quando menos se espera.
Inganido: Encolhido.
Ir à forja: Rejuvenescer.
Ir à murélha: Defecar ao ar livre.
Ir a troncos de: Ir à procura; ir atrás de alguém.
Ir ao grepe: Roubar.
Ir parar à rabeca: Ser denunciado publicamente.
Iscado: Enganado; borrado.
Iscar: Enganar; provocar uma má experiência.
Jaquina melhêna: Pessoa que gosta muito de beber chá.
Joãvaz: Variedade de feijão; testemunha de jeová.
Jogar à bugalhinha: Manipular alguém.
Judêrão: Pessoa que não respeita a religião católica; blasfemo; ateu.
Lã que vai prà bêra: Tarefa facilitada.
Lacão: Chispe de porco.
Lafaruso: Pessoa mal vestida, sem cuidados mínimos de higiene.
Lambariér: Conversar.
Lambérço: Abusador, pessoa que abusa da confiança que lhe dão.
Langanhoso: Remeloso; pegajoso.
Largueza: Quintal com uma extensão apreciável.
Lascarino: Bem humorado.
Lavados: Roupa suja.
Lavar o cu c’a água das malvas: Auxiliar.
Lavarinto: Confusão.
Lavutador: Sociável.
Lavutér: Relacionar-se socialmente.
Lebre: Pessoa libertina; mulher astuciosa.
Lêtebó: Rapaz; homem sem eira nem beira.
Língua de cabra: Pessoa que não é capaz de guardar um segredo.
Lua cabrêra: Loucura; desorientação.
Machorra: Fêmea (humana ou animal) que não produz crias.
Madrinhas: Vacas que conduzem um touro ao curro no final da tourada; cabrestos.
Magana: Mulher jovial, alegre e namoradeira.
Mal atrogalhado: Mal vestido.
Mal de canga, pior d’ arado: De mal a pior.
Malacueco: Rebuçado.
Malandamoso: Diz-se do caminho onde é difícil transitar mesmo a pé.
Malanquêras: Doenças; defeitos de personalidade.
Malaquetão: Espécie de pêssego; alperce.
Malasado: Desajeitado.
Malata: Ovelha nova, ainda quase borrega.
Manamafarda, fazer a: Roubar.
Mandar à fonte limpa: Insultar; mandar à merda.
Mandar cantar a plaima: Acabar com uma conversa inoportuna e irritante.
Manhoca: Pega do guarda-chuva.
Mareia: Orvalho matinal.
Marifrancisca: Vagina.
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Falares alentejanos III

alentejo3.JPGEngadanhar: Enregelar.
Engrolado: Mal cozinhado.
Engrolar: Cozinhar à pressa.
Enlodrar(-se): Sujar(-se) com lama.
Enmachorrado: Diz-se do tempo quente e abafado.
Enrolar o ‘stojo: Morrer.
Entaliscado: Entalado. Pequeno entalão. Entaladela.
Entrás: Cancro.
Entremoçada: Diz-se da batata que, depois de cozida, se estraga.
Entretenga: Entretenimento.
Envenanar: Irritar.
Enxapota:  Ramo de azinheira ou de chaparro.
Enxúndia:  Gordura de galinha.
Enxurro: Entulho resultante duma enxurrada.
Enzuminér: Enganar; ludibriar.
Ervacêdo: Terreno coberto de erva densa.
Ervaçum: Erva densa.
Esbarrondado: Arruinado.
Esbortiédo: Borrado; vomitado.
Escalafrio: Arrepio de frio.
Escaldar: Vender caro.
Escalda-rabos: Susto.
Escalmurra: Calor atmosférico intenso.
Escanchada: Passo largo.
Escanchaperna: Ângulo entre duas pernadas duma árvore.
Escapatório: Razoável.
Escarapão: Variedade de cobra.
Escarapoado: Zangado.
Escaravêlha: Mulher muito trabalhadora.
Escarrapanchado: Montado, com as pernas abertas.
Escoalho: Chocalho.
Escorregar: Dar dinheiro.
Escumêra: Avarento.
Esfomiédo: Avarento.
Esfrunhadôro: Gilbardeira.
Esfrunhér: Limpar a chaminé com gilbardeira.
Esgadanhar: Coçar com intensidade a pele; esforçar-se para atingir um objectivo.
Esgalhar: Partir com grande rapidez.
Esgravulhér: Procurar fundos para atingir as suas metas ou satisfazer as suas necessidades.
Esgumitér: Vomitar.
Esmichéda: Ferida; hematoma.
Espantar-se: Fugir; abandonar.
Esparavela, à: Sem agasalhos.
Esparvêrédo: Esparvoado.
Espassarado: Atordoado.
Esperar o sol: Apanhar sol.
Espinhela: Coluna vertebral.
Espinhela caída: Fraqueza geral no corpo.
Esporêta: Pessoa que se veste com roupas garridas, mal combinadas.
Esporrear: Ostracizar.
Estabanado: Pessoa com atitudes incompreensíveis, social e/ou mentalmente instável.
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Falares alentejanos II

alentejo2.jpgCabecinh’ àrrã: Pessoa com falhas de memória.
Cabra machaneca: Pessoa indolente, sem vontade própria.
Cabras: Queimadura nas pernas, resultante da exposição destas ao calor da braseira de picão.
Cacanho: Muco nasal.
Caçapo: Coelho com poucos dias de vida.
Cace:  Concha para servir sopa ou caldo.
Cachão: Borbulha da água quando nasce ou jorra.
Cachaporra: Cajado com cerca de um metro e uma bola no fundo, resultante da raiz da planta.
Cachopêro: Pessoa que gosta de lidar com crianças.
Caço: Concha para tirar a sopa da panela ou da terrina.
Cadela: Banco de madeira feito a partir da pernada tripartida de um sobreiro ou de um carvalho.
Cagaita: Sujidade.
Cagar a pêga: Meter-se em assuntos alheios; opinar sem ser solicitado.
Calado: Queimado pelo sol.
Calatróia: Comida mal confeccionada.
Calcadôro: Eira circular onde se pisam os cereais.
Calhabôco: Pedregulho.
Calhandrêra: Coscuvilheira.
Calorina: Muito calor.
Calorina: Calor intenso.
Calvário: Sofrimento prolongado.
Camalhão: Pequeno monte de terra resultante da cavadura.
Camastralho: Cama.
Cancarôcho: Pessoa fisicamente desajeitada.
Canejo: Com as pernas tortas.
Canjirão: Vasilha grande para vinho.
Cantar a malaganha: Chorar.
Cantar as aleluias: Mostrar-se alegre; cantar vitória.
Cantar de galo: Afirmar-se.
Cantarêra: Poial onde se colocam os cântaros; móvel em madeira para colocar os cântaros e as asadas.
Canxarrêra: Pedregal.
Canxo: Pedregulho; penedo.
Capazório: Razoável.
Capela: Coroa de flores que se faz pelo são joão.
Caquêro: Vaso onde se plantam flores; pessoa envelhecida.
Cara de gato: Variedade de figo.
Caraiva: Companhia; grupo de amigos.
Caramôço: Acumulação de pedras rodeada por um muro rudimentar.
Carapéla: Crosta que se forma no lugar de uma ferida.
Carcachada:  Gargalhada.
Carcachada:  Gargalhada.
Careio: Jeito.
Carnêrêro: Local onde se depositam as ossadas junto de uma igreja ou num cemitério.
Cartachal: Pequena propriedade agrícola.
Cartêra: Caminho rural largo, de terra batida.
Carvalhadas: Boémia.
Casão: Garagem; arrecadação no piso térreo duma casa.
Catarral: Pneumonia.
Catarrêra: Constipação.
Catósa: Bebedeira.
Catracego: Com falta de visão.
Cavalinho d’ el rei: Galã.
Cavalo d’ el rei: Louva-a-deus.
Cegar e não ver: Estar apaixonado.
Chabarco: Charco com alguma profundidade.
Chabôco: Reservatório de água, escavado no chão, possuidor ou não de revestimento murário.
Chafurdão: Construção totalmente em pedra, em geral circular, com tecto de falsa cúpula.
Chambudo: Com as pernas grossas.
Champorriom: Café com aguardente.
Chaparro: Árvore  jovem.
Charavanco: Automóvel velho.
Charimbelho: Criança.
Chazada: Repreensão; censura.
Chêrar a rolas assadas: Estar muito calor.
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Falares alentejanos I

Alentejo.pngÀ mercantista: À pressa; sem cuidado.
Abêbra: Figo negro.
Abelhêra: Ligação amorosa extraconjugal.
Abesprão: Rezingão; pessoa que fala com violência verbal.
Abobrado: Diz-se do terreno saturado de água; embebido em água ou outro líquido.
Acabamento: Refeição oferecida pelo um patrão no final de uma tarefa agrícola ou da construção de uma casa.
Acanaviédo: Com fraqueza corporal; alquebrado.
Acarrado: Amodorrado; febril.
Acarrêto: Carga; frete.
Adiafa: Festa de fim de uma actividade, frequentemente constituída por uma refeição farta e bem regada.
Adjunto: Multidão.
Afaiancar: Coxear.
Afracoar: Afrouxar; fraquejar.
Aguado: Espantado; perturbado.
Aivado: Coxo; aleijado.
Alacado: Magro; enfraquecido.
Alambazar:  Ficar com coisas a mais que o necessário ou razoável.
Alcacêr:  Forragem.
Alcaide: Pessoa que se julga superior, sobranceira.
Alcandórno: Lugar alto.
Alcatruzes: Seios com um tamanho considerado excessivo.
Aldeagar: Falar sem sentido; difamar.
Alganaças: Rapaz alto e magro.
Algarve: Fenda em solo calcário.
Almocreve: Homem que realizava trabalhos agrícolas com muares.
Altebenque: Assento em madeira com costas para várias pessoas.
Amar a Deus de bêço caído: Cumprir uma tarefa difícil.
Amesentar-se: Sentar-se; instalar-se.
Amuadiço:  Que amua por tudo e por nada.
Andaço: Epidemia.
Andar à cata da rolha: Procurar desesperadamente alguma coisa; não saber como reagir perante uma situação problemática.
Andar c’a lua cabrêra: Embirrar sem razão; andar desnorteado.
Andar do cu p’à porta: Estar zangado, com as relações cortadas.
Andar na beca: Trabalhar arduamente.
Andar nas carvalhadas: Viver na boémia.
Apaixonado: Possuído de grande tristeza.
Apalancar: Pedir ou perguntar a várias pessoas.
Aparadêra: Parteira.
Apartar o fato: Separar-se; divorciar-se.
Aquartelér: Acautelar; cuidar; guardar.
Arejós: Guizo.
Arencú: Pirilampo.
Armar-se em pangaio: Armar-se em esperto.
Arnela: Ânimo.
Arraia: Escândalo; discussão acesa.
Arranguêlha: Velhaco; ruim.
Arrebena: Estábulo.
Arrebentédo: Exaltado; irascível.
Arreganhar os dentes: Mostrar-se zangado; repreender.
Arregoar: Abrir fendas nas paredes
Arrelampado: Zangado.
Arriéta: Rédea.
Arrife: Socalco; talhão.
Arruína: Desgraça.
Arvela: Pessoa de pequena estatura, baixa e magra; pessoa leve.
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